O vigésimo-quarto dia da travessia – o infinito

O sol. O dia começava com a bola de fogo, ainda morna, me aquecendo o corpo ao surgir por detrás das dunas. Sentado na areia, um pouco distante do burburinho da caravana, com uma caneca de café na mão, eu esperava pelo caravaneiro no adestramento matinal do seu falcão. Nesse dia ele não apareceu. Fiz a minha prece pedindo luz e proteção. Como ainda restava algum tempo até que as tendas fossem recolhidas e seguíssemos para mais um dia de travessia, me permiti ficar envolto em pensamentos. O tempo. Fiquei pensando no tempo. A difícil incógnita que o tempo representa. Se o universo é curvo como ensina a Física Quântica, deveria o tempo também se manifestar de modo não linear e até mesmo errático? Veloz e lento; traiçoeiro e amigo; algoz e mestre; implacável ou mera ilusão; certo ou variável; senhor ou ferramenta? Vi o tempo demolir certezas absolutas para construir outras verdades; injustiças serem reparadas mesmo diante de condenações eivadas em provas insofismáveis. Assisti a pessoas que, com o passar do tempo, reconstruíram as suas histórias; projetos darem errado para que pudessem dar certo, de maneira impensada anteriormente, ao seu devido tempo. Alguns caminhos me levaram ao abismo. Quando achei que a queda era iminente, no tempo oportuno, apesar dos maus momentos, as asas cresceram para que eu sobrevoasse o precipício.

A medicina da borboleta

Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom de transmitir a sabedoria do seu povo através das histórias e das músicas, tinha vindo me visitar no Rio de Janeiro. Tínhamos feito uma trilha pela Floresta da Tijuca, uma das maiores florestas urbanas do planeta. Localizada em uma montanha, de lá é possível avistar diversos bairros da cidade, alguns à beira do mar. Éramos um pequeno grupo. Estávamos em uma clareira bem no alto; o Rio repousava aos nossos pés. No silêncio da montanha podíamos ouvir a pulsação da cidade assim como se ouve as batidas de um coração. Ficava ainda mais nítido o conceito de entender uma cidade como um ser vivo; a sua linguagem, mistérios e transformações. A conversa se estendeu. Da dificuldade que por vezes encontramos para nos adaptar a uma cidade até os problemas que temos para entender um momento existencial, onde tudo parece complicado e, algumas vezes, sem solução. Canção Estrelada, que ouvia a tudo sem dizer palavra, se intrometeu na conversa: “Tudo depende se os olhos ainda são os da lagarta ou se já pertencem à borboleta.”

O vigésimo-terceiro dia da travessia – a verdade do deserto

A caravana era um universo. A família, o trabalho, os amigos são alguns dos pequeníssimos universos que coexistem na vida de todas as pessoas, com particularidades, padrões, dificuldades, prazeres, lições entre outras características evolutivas afinadas aos seus habitantes. Essa era a reflexão que me ocupava a mente naquela manhã. Eu estava sentado na areia, um pouco distante da caravana, com uma caneca de café na mão. O dia raiava. Eu acabara de fazer a minha prece e observava o caravaneiro no adestramento matinal do seu falcão. Os pensamentos corriam livres ao me recordar de todos os acontecimentos daquela travessia pelo deserto que pouco tinha passado da metade. Estávamos no vigésimo-terceiro dos quarenta dias necessários para chegar ao oásis, onde eu pretendia conversar com um sábio dervixe, “conhecedor de muitos segredos entre o céu e terra.” Eu pensava não apenas nos fatos ocorridos, fontes de valiosas lições, mas nas pessoas que eu ali tinha conhecido. Cada uma delas era única e possuía a sua beleza peculiar. No entanto, era inegável que algumas demonstravam uma enorme força, enquanto outras revelavam a sua fragilidade. Por toda a filosofia que tinha estudado, por todas as experiências metafísicas que havia vivido, eu me acreditava um apto conhecedor da alma humana. Nesse momento, enquanto os pensamentos me encantavam, aconteceu uma agradável surpresa. A bela mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli se sentou ao meu lado. Sem dizer palavra, apenas sorriu. Animado, logo puxei conversa e contei sobre as observações que eu fazia sobre as pessoas. Comentei sobre aquelas que me pareciam seguras de si, de seu lugar no mundo e daquelas que se mostravam perdidas, ainda sem terem conseguido construir a própria personalidade.

O Terceiro Portal – os Oito Portais do Caminho

A minha busca para decodificar os oito portais do Caminho prosseguia. Eu tinha descoberto recentemente que as bem-aventuranças, parte inicial do Sermão da Montanha, o lindo texto contido no Livro de Mateus, ocultavam dos olhos afoitos os oito portais que todos os andarilhos devem atravessar ao percorrer o Caminho. Cada portal, protegido por um guardião, permite apenas a passagem daqueles que já estão em condições de prosseguir na jornada. Essas condições, típicas a cada portal, se resumem em grupos específicos de virtudes sedimentadas na alma do viajante. O texto possui uma simplicidade absurda; porém, uma profundidade estonteante. O Velho, como chamávamos carinhosamente o monge mais antigo da Ordem, vinha me orientando nesse estudo. Contudo, extrair do texto toda a ideia contida em tão poucas letras era uma tarefa na qual eu tinha muita dificuldade. Assim tinha acontecido com os dois portais anteriores; diferente não era com o terceiro portal: “Bem-aventurados os mansos, pois eles herdarão a terra”, falou o Mestre quando fez o discurso há dois mil anos.

O vigésimo-segundo dia da travessia – os olhos do deserto

Nada como o dia seguinte à tempestade para entendermos o valor da calmaria. Assim era o vigésimo-segundo dia da travessia. As horas se seguiam com encantadora calma após alguns dias de extrema movimentação. No entanto, se engana quem pensa que tranquilidade é necessariamente sinônimo de tédio ou estagnação. Eu tinha acordado com os primeiros raios de sol da manhã. Arrumei rapidamente as minhas coisas e as coloquei no alforje do meu camelo para ter tempo de usufruir de alguns hábitos que tinham virado uma espécie de ritual matinal no deserto. Eu fazia uma prece breve e sincera pedindo por luz e proteção, como o caravaneiro tinha me ensinado. Em seguida, enchia uma caneca de café e me afastava do acampamento para ver, de longe, o caravaneiro adestrar o seu falcão. Era o tempo para os encarregados desmontarem o acampamento e seguirmos para mais um dia da travessia rumo ao maior oásis do deserto, onde eu pretendia conversar com um sábio dervixe, “conhecedor de muitos segredos entre o céu e a terra.” Por todo o tempo, eu tentava encontrar com a bela mulher de olhos da cor de lápis-lazúli, mas ela não parecia à disposição dos meus olhos e já me mostrara que ela tinha o seu próprio tempo para se aproximar e partir como quem se desmancha no ar. Aquela travessia vinha me oferecendo uma percepção alterada da realidade, ou ao menos aquilo que eu entendia por realidade. No deserto todas as sensações pareciam superlativas, vividas ao extremo das emoções e das ideias, como se fossem para estendê-las ao limite e, então, ao rasgá-las, pudessem se tornar outras, em constantes processos de transmutações aceleradas.

Fontes turvas e claras

Quando cheguei à vila chinesa próxima ao Himalaia eu estava esgotado. Estar esgotado é diferente de estar cansado. O cansaço é comum, e até mesmo prazeroso, após uma jornada de trabalho físico ou mental na materialização de uma ideia. O esgotamento é a horrível sensação de esvaziamento do ser. É como se a fonte da vida, aquela que nos alimenta de ânimo e vitalidade, tivesse secado. A mente resta invadida por questionamentos perigosos sobre as razões de viver ou algo parecido. Em analogia, é como se o lutador decidisse “jogar a toalha” por desistir de continuar a luta. Completamente desprovido dessa energia vital que nos impulsiona a cada dia, entrei na casa de Li Tzu, o mestre taoísta, para mais um período de estudos. Era muito cedo e a manhã ainda clareava. Quando atravessei o portão, Meia-noite, o gato negro que morava na casa, me olhou com desdém, como se estivesse diante de um vegetal ou uma pessoa desprovida de alma. Li Tzu acabara de tirar da infusão um chá que tomava antes de praticar a ioga matinal. Ao olhar o meu semblante e sentir a minha vibração, me convidou para o chá e para a ioga. Confesso que pensei em recusar ambos, no entanto, aceitei mais por polidez do que por vontade. A vontade era de me abandonar, de esquecer de mim mesmo.

O vigésimo-primeiro dia da travessia – o enigma do deserto

Eu acordara tarde, ainda cansado das emoções vividas no dia anterior. Embora tivesse dormido profundamente, parecia que o corpo ainda estava cansado e pedia férias. Arrumei rapidamente as minhas coisas e as coloquei no alforje sobre o camelo. Por sorte, consegui uma xícara de café quando a tenda que servia de restaurante já estava quase desmontada. Além das intempéries, em razão do clima, e de outras dificuldades, como o desconforto de passar o dia sobre o gingado desajeitado de um camelo, o racionamento de víveres e os perigos inerentes ao deserto, a travessia exigia um enorme esforço o tempo todo. Naquele dia, pelo adiantado da hora, não avistei o caravaneiro adestrando o seu falcão. A caravana partiu para mais um trecho da travessia rumo ao maior oásis do deserto, onde morava o sábio dervixe, conhecedor de “muitos segredos entre o céu e a terra”. Quem tornou a alinhar o seu camelo ao meu foi a Ingrid, a bela astrônoma que viajava para observar determinada constelação, possível de ser avistada apenas sob o céu do oásis. Como tínhamos discutido dias antes, fizemos as primeiras horas da marcha em silêncio, como crianças birrentas. Em determinado momento, a astrônoma quebrou o mal-estar ao comentar, com jeito travesso, que trocaria o seu camelo por um sorvete de chocolate. Ri e devolvi que trocaria o meu camelo e os telescópios da Ingrid por um quarto com colchão de molas, lençóis de seda e um potente aparelho de ar condicionado. Divertidos, seguimos as horas expressando os nossos desejos, como cinemas, restaurantes prediletos, hotéis luxuosos, praias paradisíacas, esqui nos alpes ou mesmo a cafeteria na esquina de casa. Desejos simples, outros nem tanto. Alguns tão inseridos em nossas rotinas que nem dávamos conta do quanto nos proporcionavam de prazer. É preciso não ter para entender. De comum, a impossibilidade de serem materializados sobre as areias do deserto.

O mau e o bom professor

Eu estava transtornado. Logo após um ataque de fúria no qual eu acusara o funcionário responsável pela contabilidade da agência de publicidade, da qual era proprietário, por desvio de dinheiro, determinei a sua demissão, para alguns dias depois descobrir que ele era inocente. Outro funcionário, que antipatizava com o contador, me induzira ao erro. À beira de uma crise de tristeza pela dureza com que tratei o homem, empregado de muito anos, que mesmo sob juras de inocência, foi condenado por mim de ter quebrado um insubstituível elo de confiança. Declarei-me decepcionado com ele, fazendo pouco dos seus olhos em lágrimas. Essa era a minha tempestade interna quando cheguei na pequena e charmosa cidade que fica no sopé da montanha que acolhe o mosteiro. Como o meu período de estudos anual na Ordem somente começaria dentro de alguns dias, adiantei a viagem para conversar com o Loureiro, o meu amigo sapateiro, amante dos livros e dos vinhos, que tinha o dom de costurar o couro e as ideias com a mesma mestria. A melancolia se alastrava a passos largos e eu tinha esperança de que ele me ajudasse a entender o processo, evitando que eu despencasse no abismo da depressão por ter magoado uma pessoa que fora honesta desde sempre. Confessei que eu não tivera o devido cuidado de apurar os fatos com a profundidade que o caso exigia, deixando-me levar pelas primeiras e superficiais impressões. Foi isso que contei a Loureiro logo após ser recebido com um forte abraço em sua oficina.

O vigésimo dia da travessia – o ponto sem volta

A travessia tinha chegado à metade. Naquele dia, todos na caravana, principalmente os mais experientes, falavam do “ponto sem volta”. Um determinado ponto no deserto, entre a cidade e o oásis, que quando atingido, em razão da distância, não mais compensava voltar caso houvesse algum imprevisto. A partir dali era melhor seguir adiante, qualquer que fosse a dificuldade. Enquanto marchávamos, eu percebia um enorme burburinho entre os viajantes. Eles falavam de uma determinada lenda que envolvia o ponto sem volta, sem que eu conseguisse ouvir a exatamente qual era história sobre esse lugar. Quem tinha o camelo emparelhado ao meu nesse dia era George, um peregrino como eu, que também viajava para conhecer o sábio dervixe, “conhecedor de muitos segredos entre o céu e a terra.” George se mostrou muito simpático e falante. Disse que dava aulas em uma escola esotérica e tinha inúmeros alunos. Declarou-se um mestre, pois havia galgado vários degraus na escala evolutiva graças ao extraordinário conhecimento obtido em muitos anos de dedicação aos “mistérios do mundo”. Contou-me dos livros que tinha lido, muitos dos quais eu nem mesmo ouvira falar do título. Em seguida, começou a demonstrar a percepção apurada que possuía, indicando as dificuldades emocionais, morais e espirituais de cada integrante da caravana apenas ao olhar para eles. As horas se passavam até que, quando tive a oportunidade, perguntei o que ele esperava do encontro com o sábio dervixe. Ele revelou que esperava ter uma conversa séria com o sábio pois, segundo o George explicou, o filósofo do oásis teria dito, certa vez, que “assim como o ouro e a prata, os tesouros imateriais também enferrujam.” Tal afirmação, de acordo o George, que explicava com muita segurança, continha dois erros conceituais. O primeiro é que nem o ouro e a prata enferrujam, como todos sabem; o segundo é que as conquistas imateriais jamais se perdem, como ensina a tradição esotérica. O seu propósito era travar um debate com o sábio dervixe. Tinha, inclusive, uma filmadora em seu alforje, pois pretendia registrar a conversa para usar em suas futuras aulas e em redes sociais, onde divulgava o seu enorme conhecimento. Aquilo me impressionou, seja pelo inesperado, seja pelo indelicado. Tentei mudar de assunto e falei que tinha ouvido sobre a lenda que envolvia o “ponto sem volta”, mas não sabia exatamente qual era. Perguntei se ele a conhecia. George revelou que naquela manhã tinha visto o caravaneiro contar a lenda para alguns viajantes. Mas como as lendas não passavam de bobagens do imaginário popular e o caravaneiro não era mais do que um homem rústico do deserto, que nada sabia sobre os segredos da vida fora do universo estreito e rotineiro da caravana, decidiu não perder o seu tempo com histórias inúteis. Enquanto o professor falava sobre isso e outros assuntos, chegamos ao ponto sem volta. Para a minha surpresa, que acreditava se tratar de um lugar fictício no meio do deserto, havia um trem abandonado marcando o local.

O templo do mestre

Mais uma vez eu singrava as estradas pavimentadas do Arizona rumo à casa de Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom de ensinar a filosofia do seu povo através da palavra e da música. Eu me considerava um privilegiado por ter vários mestres dispostos a me orientar. O Velho, Loureiro, Li Tzu e Canção Estrelada tinham as suas peculiaridades e sabedorias próprias. De uma maneira interessante, eram profundamente parecidos e, ao mesmo tempo, bem diferentes entre si. Naquele momento eu enfrentava um dilema. Os negócios não iam bem; a minha agência de propaganda atravessava uma séria turbulência financeira. O país passava por um período de dificuldade em sua economia; enquanto alguns clientes atrasavam os pagamentos em razão da crise, outros decidiram rescindir os contratos até que a situação melhorasse. Caso não houvesse uma mudança, logo eu teria que começar a demitir funcionários e, a médio prazo, fechar as portas. Uma corporação multinacional tinha feito uma oferta de compra pela agência; o valor oferecido era baixo. Insistir no negócio ou vender a empresa; reinventar a agência ou mudar o ramo de atividade? Enquanto dirigia o carro, eu cogitava a possibilidade de estar vivendo o final de um ciclo da minha vida. Afinal, eu tinha aprendido que tudo na vida se move em ciclos de aprendizado e, consequente, evolução.

O décimo-nono dia da travessia – o médico do deserto e o mestre de todos dias

Em razão dos conflitos da noite anterior, acordei atrasado no décimo-nono dia da travessia. Embora ainda não fosse tarde, o sol já se elevara acima do ponto habitual. A caravana se movimentava para recolher o acampamento com a algazarra de costume. Eu que gostava de levantar cedo para apreciar o caravaneiro no adestramento do seu falcão, vi quando ele retornava após o exercício matinal com a ave pousada na grossa luva de couro que usava no braço esquerdo. Arrumei as minhas coisas e as coloquei no alforje sobre o meu camelo. Consegui uma caneca de café e fiquei observando os preparativos finais para seguirmos a travessia. Quando alinhamos para a partida, quem veio emparelhar comigo foi Ingrid, a bela astrônoma. Camelos lado a lado, me deixei levar pelo ciúme e perguntei se ela não marcharia ao lado do astrólogo, como fizera nos últimos dias. Sem se deixar envolver pelas minhas emoções pesadas, ela comentou, de maneira despreocupada, que gostara de muito de conversar com ele e entender um pouco do seu ofício, embora não concordasse com a linha de raciocínio. Admitiu, entretanto, que poderia haver nesse conhecimento milenar algo que a ciência talvez um dia pudesse explicar, mas disse que achava improvável que isso acontecesse. Acrescentou que a ciência era o seu mestre.

O Segundo Portal – Os Oito Portais do Caminho

Eu estava sob o encanto de ter descoberto o mapa para conhecer os oito portais do Caminho; as etapas a serem superadas na estrada para a luz. Embora eu imaginasse que tamanho conhecimento apenas fosse possível a círculos iniciáticos e esotéricos fechados, em verdade, há muito tempo estava disponível para toda a humanidade em um livro de fácil acesso. Há dois mil anos esse conhecimento pulsa de maneira simples e humilde, amorosa ao extremo, ao jeito do Mestre, à espera de todas as pessoas em um dos textos mais belos e profundos já redigidos: o Sermão da Montanha. As bem-aventuranças, onde são elencados os oito portais, é um pequeno trecho contido logo na abertura do Sermão que, por sua vez, integra o Livro de Mateus, uma das quatro Escrituras que compõe a parte renovadora da Bíblia. No entanto, é preciso “olhos de ler” para mergulhar em todas as possiblidades de expansão consciencial oferecidas por aquelas palavras. O Sermão da Montanha, mormente as bem-aventuranças, não pode ser lido em sua literalidade, nos estreitos limites dos vocabulários, porém em sua intimidade, com a proximidade da alma e das suas lentes apuradas, para que possa ampliar as fronteiras da percepção sobre quem eu sou e quem eu posso vir a ser, na exata medida que entendo a importância do outro em minha vida. Ao compreender que as dificuldades existem para impulsionar o meu processo evolutivo, consigo alinhar na luz os opostos que me habitam para, então, alcançar a plenitude, composta pelas riquezas imateriais da liberdade, da dignidade, da paz, da felicidade e do amor incondicional. Uma riqueza maior que não encontrarei em nenhum lugar do mundo salvo dentro de mim mesmo; herança única e imperecível que poderei levar na bagagem para as Terras Altas. O Caminho da Luz não é uma estrada que se percorre mundo afora, é uma viagem que se faz universo adentro. Nem por isto menos fácil. Quando iniciada, revela o poder incomensurável contido na sabedoria de descobrir que “sempre tenho tudo o que preciso”. Isto é sagrado por se tornar libertador. Em contrapartida, o mundo é o deserto que ajudo a transformar em jardim na medida das virtudes que florescem no âmago do meu ser através das escolhas que faço.

O décimo-oitavo dia da travessia – a tentação do deserto

O décimo-oitavo dia da travessia prometia ser diferente e animado. Iríamos fazer um pequeno desvio em nossa rota rumo ao maior oásis do deserto para passar em outro, bem menor, como o intuito de a caravana se abastecer de vários mantimentos indispensáveis ao prosseguimento da travessia. Estava previsto desde o dia da partida. Esse oásis era habitado por pessoas de diversas partes do mundo e, como um entreposto, se mantinha do comércio com as caravanas que passavam por ali. Naquele trecho do percurso, depois de muitos dias no deserto, sempre havia a necessidade de repor muitos dos víveres que tinham se esgotado. Lá era possível, nos bares montados em tendas, o consumo de bebidas alcoólicas, proibidas na caravana, além de iguarias finas para o deleite do paladar, impossíveis de serem oferecidas nas simples, porém saudáveis, refeições fornecidas pela caravana. Naquele dia, desde cedo, muitas pessoas já se mostravam entusiasmadas com essas possibilidades. Ouvi, também, conversas de mercadores que integravam a caravana, experientes de muitas travessias, entre sussurros e risadas, se referindo, com malícia, sobre a beleza das mulheres que trabalhavam nesses bares. Um pouco antes de chegarmos ao pequeno oásis, o caravaneiro reuniu a todos para avisar dos perigos. Contou que havia muitas histórias de ocorrências desagradáveis seja com bebida, seja com os habitantes locais, principalmente com os comerciantes e as mulheres que trabalhavam nos bares. Relatou casos de furtos, roubos e até mesmo de desaparecimento de viajantes, provavelmente assassinados. Disse que ninguém estava impedido de circular no oásis, mas que cada um seria responsável por si mesmo. Avisou que acamparíamos bem próximo e aconselhou que deixassem dinheiro e documentos no acampamento sob a segurança dos encarregados da caravana.

O elogio e a trilha para o precipício

Eu tinha descido a montanha que acolhe o mosteiro para esfriar a cabeça e colocar as ideias no lugar. Quando cheguei à pequena e charmosa cidade localizada logo abaixo, fui procurar Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos. Eu precisava desabafar. Encontrei o meu amigo em sua oficina. Fui recebido com um sorriso sincero e um forte abraço. Ele encerrou o expediente daquele dia, pediu para eu sentar ao lado do antigo balcão de madeira e foi buscar duas canecas de café fresco. Ao notar pelo meu semblante que algo não estava bem, pediu para que eu abrisse o coração. Assim, explicou, eu colocaria para fora tudo o que me incomodava. Tentaria me acalmar. Depois, com o filtro da consciência serena, apenas traria de volta o que fosse bom e valioso. Expliquei o que tinha me chateado no mosteiro. Surgira uma vaga para monitorar um curso que a Ordem oferecia todos os anos para o público externo, que consistia em uma série de palestras e vivências com o intuito de aumentar a percepção do sagrado que habita em todas as pessoas. Francis, um culto monge da Ordem, me procurou para falar que, por justiça, aquela vaga deveria ser minha. Elogiou os meus notáveis avanços nos estudos, a minha boa oratória, a excelente capacidade de raciocínio nos debates. Segundo ele, não havia monge – como denominamos todos os membros da Ordem – mais capacitado do que eu para assumir o cargo e que eu deveria requisitá-lo para mim. Acrescentou que, sob a minha coordenação, o curso galgaria patamares de excelência. Aconselhou-me a procurar o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo do mosteiro, a quem cabia a decisão, para uma conversa franca sobre o assunto. Confessei que, a princípio, eu não tinha pensado nisso. Porém, analisando as palavras de Francis, me convenci que eu era a pessoa certa para exercer a função. Procurei o Velho e me candidatei ao cargo. Ao percebê-lo reticente, usei como argumento a minha trajetória de estudos e desenvolvimento dentro da Ordem. Ele respondeu que pensaria com calma sobre o assunto e, quando estivesse seguro quanto à escolha que faria, me avisaria. Tamanha expectativa ocupou a minha mente nos dois dias e duas noites que se seguiram. Como ainda não havia uma decisão, tornei a procurar o Velho e o pressionei a decidir. Insisti em lembrá-lo das minhas qualificações; afirmei, sem qualquer dúvida, que eu era a pessoa mais preparada para dirigir o curso. O Velho ouviu com paciência, sem me interromper. Ao final, disse que outro monge também tinha se candidatado para o cargo, com uma postura bem diferente da minha, sem nenhuma arrogância e muita humildade. Confessou que estava bastante inclinado a decidir em favor desse outro monge. Todos sabiam do valor que o Velho atribuía a virtude da humildade. Por uma fração de segundo, um pensamento assustador me ocorreu. Perguntei quem era o monge. Francis, foi a resposta.

O décimo-sétimo dia da travessia – a noite do deserto

O décimo-sétimo dia da travessia transcorria tranquilo. Emparelhado ao meu camelo seguia um jovem mercador de utensílios, como facas e panelas, de muita necessidade às pessoas que habitam no oásis. Ele me contava que era a sua segunda viagem. Farid era o seu nome. Na primeira conseguira vender todo o estoque que levara, auferindo um bom lucro. Dessa vez investira ainda mais na esperança de multiplicar o capital empenhado. Explicou que a dificuldade em atravessar o deserto aumentava, em muito, o custo final dos produtos comercializados, independente de quais fossem. Quando soube que eu não levava nada na bagagem para reverter em dinheiro, que apenas seguia para o oásis na tentativa de conversar com um sábio dervixe, disse que eu era um tolo. Falou que, por mais preciosa que fosse a sabedoria contida nos “muitos segredos entre o céu e a terra”, não seria suficiente para pagar a menor das minhas contas. Argumentei que era inegável o valor do trabalho, não apenas como instrumento de sobrevivência, mas também como ferramenta de progresso, não apenas material, mas também espiritual. O trabalho é uma ponte que nos liga com o mundo, em constante intercâmbio de conhecimento, de possibilidades de entender quem somos à medida que nos deparamos com as dificuldades apresentadas pelas pessoas com as quais nos relacionamos. No trabalho, independente de qual seja, sempre precisamos do outro para que o ciclo produtivo se complete. Através do trabalho somos levados a buscar diferentes maneiras de aprimorar o nosso dom e aprofundar no propósito de vida a que cada qual se destina. Isto nos leva a infinitas transformações, sem as quais não há evolução.

A medicina da coruja

O tambor de duas faces de Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom de compartilhar a filosofia do seu povo, rufava noite adentro nas montanhas do Arizona, ritmando uma doce canção ancestral cantada em dialeto nativo. Um dos amigos mais queridos do xamã havia falecido. Canção Estrelada estava sozinho em seu lugar de poder, um local onde ele gostava de ir quando queria se conectar com o lado invisível da vida. Era um platô no alto da montanha em cujo penhasco, bem à beira, uma árvore se mantinha em um equilíbrio improvável. No dia seguinte haveria um funeral na cidade, quando todos os colegas e integrantes da tribo estariam presentes. Quando cheguei e estendi a minha manta ao lado da fogueira, o xamã realizava esse cerimonial pessoal. Tudo começou pela manhã. Ao encontrar a sua casa vazia, fui informado por uma vizinha do acontecido. Não foi difícil imaginar onde eu o encontraria. Como ele não fez qualquer objeção com a minha chegada, me sentei e aguardei em silêncio até que se encerassem as canções. Canção Estrelada me olhou, arqueou os lábios em leve sorriso e me cumprimentou com um movimento de cabeça sem dizer palavra. Falei que sabia do acontecido e empenhei os meus sentimentos. Contei que, não por acaso, um grande amigo meu também tinha morrido há cerca de duas semanas. Isto tinha me abalado profundamente. Confessei que eu tinha uma enorme dificuldade de lidar com perdas desse tipo. No entanto, não era apenas isso.

O décimo-sexto dia da travessia – onde há vontade, há um caminho

O dia amanhecia no deserto. Afastado da caravana, sentado na areia com uma caneca de café fresco na mão, eu observava o caravaneiro adestrando o seu falcão. Ingrid, a astrônoma, se aproximou. Ela quis saber a razão para eu ficar de longe, todas as manhãs, olhando o voo da ave. Respondi que não sabia ao certo, mas algo ali me fascinava. Disse que talvez fosse pelo fato de, diante da aridez do deserto, do improvável, do impossível para muitos, o falcão sempre retornar com a sua caça. Comentei que provavelmente era o instinto de sobrevivência do animal, o seu determinismo biológico, porém a ave me passava a sensação de que ela conseguia o seu alimento por acreditar que o encontraria. Ingrid deu de ombros e comentou: “Onde há uma vontade, há um caminho”. Aquela frase me impactou pelo leque de interpretações que permitia. Falei isto para a astrônoma. Ela levantou a manga da blusa e mostrou uma tatuagem no antebraço. Disse que era um símbolo viking conhecido como Inguz. Ele representava essa mensagem. No entanto, ela já a tinha ouvido também na filosofia chinesa. Explicou que a verdade está presente em todas as tradições. Discordei de imediato. Não quanto a onipresença da verdade, mas do fato de a vontade se tornar necessariamente um caminho. Acrescentei que o destino de qualquer pessoa era imprevisível, sem possibilidade de controle. Não era como um roteiro que o escritor entrega ao diretor para filmar. Ingrid apenas tornou a dar de ombros como quem diz não saber, seja porque talvez eu estivesse certo ou porque não estava a fim de conversar sobre o assunto. Pediu licença, pois a caravana não demoraria a partir e ela tinha algumas coisas para arrumar. Eu vi quando o falcão retornou ao caravaneiro trazendo uma serpente em suas garras.

O verdadeiro rosto da coragem

Naquele ano, quando cheguei à pequena vila chinesa escondida no Himalaia, eu estava bastante chateado. Um dos jovens que trabalhavam na minha agência de publicidade tinha me causado um profundo desgosto. Ele estava comigo desde quando era estagiário. Talentoso e dedicado, tinha galgado cada degrau dentro da empresa a ponto de se tornar responsável por algumas das contas mais importantes que tínhamos. Era o funcionário mais próximo, a ponto de as pessoas brincarem dizendo que era o filho homem que não tive e herdeiro da agência, uma vez que as minhas filhas, todas mulheres, nunca se interessaram pela publicidade e seguiram outros rumos profissionais. Fui padrinho do seu casamento e fiquei feliz ao batizar o seu filho. Se havia alguém em quem eu confiava, essa pessoa era o Fred, como ele se chamava. Alguns dias antes de viajar para mais um período de estudos com Li Tzu, o mestre taoísta, recebi a notícia, através da secretária, de que o Fred tinha pedido demissão. Para maior surpresa, não apenas tinha montado uma agência para concorrer com a nossa, mas procurara todos os nossos clientes na tentativa de os persuadir a acompanhá-lo. Para tanto, não se furtou a criticar as nossas engrenagens de criação e execução de campanhas. Prometeu que faria melhor. Dois importantes clientes, cujas contas eram de sua responsabilidade, rescindiram o contrato que tinham conosco para assinar com ele. Como se não bastasse, a pretexto de se despedir de mim, entrou na minha sala e derramou uma série de mágoas e críticas ao meu comportamento, seja pessoal, seja profissional, que nem de longe eu imaginava existir. Irritado com toda a situação, começamos a discutir e outros funcionários da agência precisaram intervir para não chegarmos às vias de fato.

Quando desci do ônibus, deixei a minha mala na única hospedaria do lugar e parti direto para a casa de Li Tzu. Meia-noite, o gato preto que também morava lá, dormia preguiçosamente no jardim de bonsai, ao me ver, olhou assustado e correu. O mestre taoísta me ofereceu um sincero sorriso de boas-vindas, porém quando me aproximei, avisou: “Sua energia está pesada.” Em seguida avisou: “Todas as vezes que nos magoamos significa que perdemos a batalha.”

O décimo-quinto dia da travessia – navegar sem água

O dia amanhecia. Sentado na areia com uma caneca de café fresco na mão, eu observava o caravaneiro adestrar o seu falcão. Era encantador constatar que ela sempre retornava com o seu alimento, apesar da aridez do deserto. Os olhos sagazes da ave conseguiam encontrar algo onde, para olhos despreparados, não havia nada. Assim que o falcão pousou na grossa luva de couro que o caravaneiro usava no braço esquerdo, me levantei para me preparar para aquele dia da travessia. Enquanto eu colocava o meu alforje no camelo, ouvi a conversa descontraída de um grupo de mercadores que também integravam a caravana rumo ao oásis. Um deles, bem jovem, comentava que esperava logo ter condições de comprar uma bela casa em um aprazível bairro de Marraquexe, quando, então, pediria a sua namorada em casamento. Acrescentou que precisava de um bom lugar para criar os filhos que planejavam ter juntos. Outro, disse que não tirava férias há muitos anos. Estava cansado e precisava descansar. No entanto, somente faria isso quando conseguisse abrir a sua sonhada loja de tapetes no mercado central da cidade, pois queria ter condições de educar os filhos em boas escolas. Um terceiro mercador, mais velho, que também fazia parte do grupo, contou que, apesar de ser dono de várias lojas, também não tirava férias há muito tempo, quando almejava peregrinar a Meca. Esperava que o filho voltasse do exterior, onde fora cursar a universidade, para que assumisse o comando dos negócios da família. Alegou que não confiava em mais ninguém. Tudo arrumado, a caravana aprumou para partir. Para minha surpresa, quem alinhou ao meu lado foi Ingrid, a astrônoma, com quem eu tinha me desentendido no dia anterior. A proximidade dela me alegrava o coração.

O Primeiro Portal – Os Oito Portais do Caminho

Eu já integrava a Ordem há algum tempo. Sempre ouvira falar dos Oito Portais do Caminho, mas nunca tivera a oportunidade de saber exatamente do que se tratava. Disposto a entender sobre o assunto, naquele dia procurei pelo Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, por todo o mosteiro. Fui encontrá-lo sentado no fundo da cantina, entretido com um pedaço de bolo de aveia e uma caneca de café, em animada conversa com o cozinheiro. Quando ele me viu fez sinal para eu me aproximar. Enchi uma xícara de café e me sentei ao seu lado. O alegre cozinheiro pediu licença, pois estava atrasado com o jantar. A sós, questionei o Velho acerca dos Oito Portais; sobre o que seriam e quando eu aprenderia sobre eles. O bom monge arqueou os lábios em leve sorriso e disse: “O Caminho é a estrada para a luz. Iluminar-se é encontrar consigo mesmo para se conhecer e se libertar dos sofrimentos que aprisionam; burilar as crostas que ocultam o verdadeiro diamante: o ser pleno. A plenitude se revela e se completa na conquista dos cinco estados fundamentais do espírito: a liberdade, a paz, a dignidade, o amor incondicional e a felicidade. Assim se constrói uma alma forte, capaz de se manter serena mesmo diante das tempestades do mundo.”

O décimo-quarto dia da travessia – as maravilhas da impermanência

Acordei com o céu do deserto ainda estrelado. Ao Leste o sol anunciava levemente a sua hora colorindo uma pequena faixa do horizonte em tom pastel. Ingrid, astrônoma que tinha adormecido na areia ao meu lado no dia anterior, estava com os olhos abertos, encantada com as estrelas. Quando ela me percebeu também desperto, comentou do seu fascínio pelos astros celestes e por todo mistério que o universo ainda encerra. Falei que o mistério existe na proporção indireta do nosso conhecimento. Porém, curioso, perguntei sobre o que ela pensava ao falar aquilo. “O nosso céu é o céu do passado”, ela respondeu. Eu disse que não tinha entendido. Ingrid explicou que como as estrelas estão a uma distância absurdamente grande, a muitos anos-luz de nós, significa que as estrelas que estávamos vendo naquele momento já não estavam mais ali e podiam até mesmo nem mais existir. A astrônoma falou que as estrelas explodem quando terminam o seu ciclo de existência, mas em razão da enorme distância, a imagem de um fato ocorrido no espaço demora anos para chegar até a Terra. Ou seja, aquilo que meus olhos viam podiam não mais existir. Apontou para uma estrela qualquer e concluiu: “Aquela estrela pode ser apenas uma ilusão em razão da possibilidade de, na realidade, não mais existir. A ilusão permeia e se mistura à realidade por todo o tempo quando estudamos astronomia.” Comentei que eu tinha a sensação de que na vida também era assim; nem sempre era fácil discernir a ilusão da realidade. Permanecemos em silêncio, olhando para as estrelas, pelo tempo de o sol escalar mais alguns poucos graus e o acampamento despertar. Após levantar e arrumar as nossas coisas para partir para mais um dia de travessia, fomos tomar o desjejum. Enquanto bebia um delicioso café fresco, observei que uma enorme duna que havia à nossa frente na tarde anterior, quando acampamos, tinha desaparecido, varrida pelo vento da noite. Confessei para a Ingrid que a instabilidade das coisas me trazia desconforto. Ela apenas deu de ombros como quem diz que é inevitável e se afastou para cuidar de alguns afazeres. Reservei um lugar para a astrônoma alinhar o seu camelo ao meu. Eu tinha adorado conversar com ela e desejava a sua companhia. Como até a hora de iniciar a marcha ela não tinha aparecido, passei os olhos por toda a caravana a sua procura. Foi quando a vi pronta para prosseguir ao lado de outra pessoa. De imediato, sentimentos ruins se apossaram de mim.

A força da mansidão

Todas as vezes em que eu via a clássica bicicleta de Loureiro, o elegante sapateiro amante dos livros e dos vinhos, encostada no poste em frente à sua oficina, eu me sentia um homem de sorte. Os horários inusitados e imprevisíveis de funcionamento da oficina já eram lendários na pequena e charmosa cidade que ficava no sopé da montanha que acolhe o mosteiro. Eu terminara mais um ciclo de estudos na Ordem e o trem que me levaria até o aeroporto mais próximo apenas passaria no final do dia. A possibilidade de preencher esse tempo conversando com o Loureiro me enchia de alegria. Um mês antes, quando eu passei rumo ao mosteiro, o sapateiro enfrentava uma delicada questão. O filho do prefeito era um jovem empresário que abrira recentemente uma loja, franquia de uma famosa marca de sapatos. Na época, quando lhe perguntei se esse fato poderia abalar os seus negócios, Loureiro me disse com tranquilidade: “Penso que não somos concorrentes, embora ambos trabalhem com produtos de excelente qualidade. Os sapatos que ele vende são belíssimos, sempre atualizados de acordo com as últimas tendências da moda, produzidos por designers internacionais, conhecidos no mundo todo. Os meus são inteiramente artesanais; desenhados e moldados um a um, de acordo com o gosto e a necessidade do cliente. Atendemos a público com interesses distintos.” Fez uma pequena pausa antes de concluir: “No mais, a concorrência é sempre bem-vinda por desestabilizar a rotina dos dias. Quando isso acontece somos forçados, por sobrevivência, a buscar um novo ponto de equilíbrio. Então, avançamos.”

O décimo-terceiro dia da travessia – a Relatividade no deserto

O décimo-terceiro dia da travessia seguia modorrento. Sol, calor, o gingado enjoativo do camelo e duna após duna, em um mar de areia sem fim. Peguei-me pensando que algumas rotinas na caravana já estavam tão incorporadas aos viajantes que, se porventura, alguma fosse suprimida, a maioria de nós sentiria falta. O café quente servido no desjejum, a rápida parada no meio do dia para um breve lanche, o jantar ao início da noite, o acender dos lampiões que iluminavam o acampamento, o bom homem do chá, a ágil movimentação em montar e desmontar as tendas, a enigmática mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli galopando em seu cavalo negro, que aparecia e sumia como que por encanto, eram alguns exemplos. Eu também já tinha me acostumado a ver o caravaneiro, logo bem cedo pela manhã e ao final da tarde, se afastar com o seu falcão pousado na grossa luva de couro que usava no braço esquerdo para o adestramento matinal e vespertino da ave. Também me acostumara a vê-lo nesses horários, sempre antes do treinamento, de joelhos na areia, em sua prece de duas palavras, rogando por “luz e proteção”, conforme tinha me ensinado alguns dias antes. Outro hábito que se tornara comum era a caravana parar em determinada hora do dia para que os integrantes grupo fizessem as preces conforme os seus preceitos religiosos. Naquele dia, quem tinha o camelo emparelhado ao meu era uma simpática e bonita europeia que logo puxou conversa. Contei que seguia para conhecer um sábio dervixe, “conhecedor de muitos segredos entre o céu e a terra”. Ela disse se chamar Ingrid e que era astrônoma. Trazia em sua bagagem alguns telescópios para observar uma determinada constelação, objeto dos seus estudos, em razão da posição privilegiada do oásis no meio do deserto. Como as estrelas sempre foram motivo de enorme fascínio para mim, me derramei em indagações, as quais ela respondeu com boa vontade. Quando a caravana interrompeu a marcha para a oração, ela, sem qualquer traço de agressividade, lamentou a perda de tempo. Acrescentou, sempre com delicadeza, que não entendia como a humanidade ainda desperdiçava tempo e energia nessa busca que considerava sem sentido. Disse se espantar que, mesmo após o avanço de séculos em conhecimento, as pessoas continuavam amarradas em crenças absurdas ou no anseio por algum insensato contato metafísico. 

Olhe com quem andas

Eu estava há quase um mês nas montanhas do Arizona, hospedado na casa de Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom de transmitir a sabedoria do seu povo através da palavra. Nesse período conheci uma moça que morava na mesma rua e iniciamos um namoro. Beth, como se chamava, era professora em uma escola local. Durante a semana eu me dedicava aos estudos com Canção Estrelada e nos finais de semana íamos, eu e ela, passear nas cidades próximas. Naquele sábado tínhamos ido a Flagstaff. Ainda na parte da tarde, estávamos em uma agradável cafeteria que também oferecia uma ótima cerveja artesanal, ao som de bandas de jazz e blues, quando a minha namorada, ao retornar do banheiro, encontrou uma antiga colega de escola. De longe, observei as duas conversando e percebi as feições de Beth irem se alterando. Tive a nítida sensação de ver uma lâmpada se esvair aos poucos até se apagar completamente. Ao tornar a se sentar ao meu lado parecia outra pessoa. Estava abatida. Perguntei o que tinha acontecido e ela disse que estava tudo bem. Insisti, falei que ela tinha mudado após conversar com a outra mulher. Ela disse que a colega, embora nunca tivessem sido íntimas nem grandes amigas, a abordou para falar da sua vida. Contou muitas vantagens. Um casamento maravilhoso, carros luxuosos, mansões, viagens para lugares paradisíacos e amizades com pessoas famosas foram os tópicos da narrativa. Perguntei a razão de aquela conversa ter mexido com ela. Beth respondeu que não tinha entendido o motivo de a colega ter contado tantas vantagens em tão poucos minutos, mas que ficava feliz por ela. Não demorou muito, fui ao balcão buscar uma cerveja. O lugar estava cheio e quando o barman me entregou a garrafa, um homem, também cliente, a tomou da minha mão. Falou que aquela cerveja era a dele, pois estava ali há mais tempo do que eu. Antes de sair disse um palavrão para mim. Eu não quis esperar por outra cerveja, algo havia furtado a minha alegria. Quando estávamos andando para pegar o carro, encontramos com um rapaz, vizinho da Beth. Nós já tínhamos sido apresentados por Canção Estrelada. O rapaz foi muito atencioso com ela, mas me ignorou por completo. Fiquei desconfortável com a situação, principalmente por ela não ter se posicionado de maneira mais clara a me resguardar diante do comportamento indelicado do rapaz. No carro, de volta para a casa, depois de um tempo sem trocarmos palavra, começamos a conversar sobre um assunto qualquer e quando me dei conta estávamos discutindo. A discussão escalou tons, trocamos acusações e brigamos sério, a ponto de romper o namoro. Tudo aquilo me deixou muito mal; eu me sentia envolvido em uma mistura de emoções, entre a mágoa e a frustração. Uma sensação estranha e ruim, como se eu tivesse permitido que o mel da vida me escorresse pelas mãos. No domingo à tarde, quando Canção Estrelada, ao retornar da viagem que também tinha feito no final de semana, me cumprimentou, respondi de maneira triste. O xamã apenas sorriu de volta. Ao me perceber ainda desanimado no dia seguinte, me convidou para conversar na varanda da sua casa.

O décimo-segundo dia da travessia – a marca do deserto

Amanhecia no décimo-segundo dia da travessia. Peguei uma caneca de café e me afastei para as minhas reflexões matinais. Eu flanava entre mil pensamentos quando avistei um homem que viajava com a caravana sentado sozinho na areia. Eu já tinha reparado nele pelo fato de sempre estar destacado do grupo. Nunca o vira conversando com ninguém. Decidi me aproximar. Perguntei se podia me sentar ao seu lado e ele aquiesceu com a cabeça. Apresentei-me e disse que seguia para encontrar com o dervixe. Ele disse se chamar Farid e retornava ao oásis, onde nascera, depois de muitos anos para rever os parentes. Em um dia longínquo partira em busca de trabalho. Contou que tinha uma pequena banca de grãos e temperos no mercado central de Marraquexe. Comentei que ele deveria estar muito animado para esse reencontro depois de tanto tempo. Farid disse que nem tanto; em verdade, voltava mais porque a mãe estava muito adoentada. Confessou que o seu desejo era retornar apenas quando se tornasse um rico mercador para que fosse admirado por todos. No entanto, lamentou, a vida não quis assim. Comentou que não sabia a razão do seu negócio não prosperar, pois era esforçado e honesto. Isto o entristecia. Falei que talvez pudesse ajudá-lo, uma vez que eu era publicitário e a minha agência ajudara na construção de diversas marcas ao longo dos últimos anos. Farid disse que talvez não fosse caso, pois era apenas um mercador de grãos. Sustentei que não importava o tamanho nem o tipo do seu negócio, o importante era criar uma marca que não apenas o identificasse, mas que o diferenciasse dos demais comerciantes; que o tornasse único. Contei de uma marca de motocicletas que agregara o conceito de liberdade às motos que vendia. Falei também de uma fabricante de celulares que dizia não vender apenas telefones, mas aparelhos que poderiam mudar o mundo. Ele me olhou assustado e me perguntou se aquilo era honesto. Respondi que, a depender da ótica, sim, que era possível criar uma marca que refletisse com total clareza as qualidades do produto oferecido. Acrescentei que os exemplos apenas ressaltavam o poder da criatividade, assim como o alcance que uma marca bem construída poderia ter. Falei, ainda, que uma marca deve observar três conceitos importantes em relação ao produto: a verdade, a inovação e a utilidade.

O perfeito é inimigo da perfeição

Assim que o ônibus me deixou na pacata vila chinesa localizada na subida do Himalaia, deixei a minha bagagem na única hospedaria do lugar e me dirigi à casa de Li Tzu. Eu tinha ido para mais um breve período de estudos com o mestre taoísta. Quando passei pelo portão, Meia-noite, o gato negro que morava na casa, me ofereceu um olhar entediado e voltou a dormir. Esperei terminar uma sessão de meditação na qual Li Tzu orientava uma turma de alunos oriundos de todos os cantos do planeta. Fui recebido com a sua habitual alegria serena e logo estávamos na cozinha para um chá. Enquanto as ervas aguardavam em infusão, começamos a conversar. Ele estava muito feliz, pois tinha encontrado recentemente o Velho, o monge mais antigo da Ordem, em uma solenidade para antigos acadêmicos na universidade inglesa onde tinham se formado. Embora frequentassem cursos diferentes, fora lá que iniciaram a sólida amizade que atravessava décadas. Comentou que era muito interessante rever os companheiros com quem dividira aqueles anos de estudo. Cada qual seguira uma direção, de acordo com as circunstâncias da existência. Reparou que para alguns o tempo havia sido generoso; para outros, cruel. Vários colegas estavam inegavelmente melhores, apesar da idade, estampando o sorriso tranquilo daqueles que trazem a felicidade consigo, os gestos mansos da dignidade e o brilho no olhar típico dos que conquistaram a liberdade interior e a paz do coração; outros, entretanto, estavam céticos quanto à humanidade, desiludidos em relação à vida, sem qualquer esperança depositada em um amanhã diferente e melhor. Também havia aqueles que necessitavam contar vantagens vãs na tentativa de se iludirem maiores que os demais ou mesmo para acreditar que talvez fossem felizes. Eu quis saber a razão de o tempo não agraciar a todos da mesma maneira. Li Tzu deu de ombros, como quem diz o óbvio, e falou: “As escolhas. Elas desenham o destino e colorem a plenitude”. Enquanto vertia o chá para as xícaras, complementou: “Aqueles que tentaram conquistar o mundo perderam a si mesmo. Os que encontraram consigo ganharam a vida”.

O décimo-primeiro dia da travessia – os demônios acompanham a caravana

Ainda era cedo. O sol começava a banhar o deserto por detrás de uma enorme duna ao leste. Arrumei as minhas coisas no alforje e o deixei pronto para colocá-lo sobre o camelo na hora da partida. Fui à tenda em que serviam o desjejum para encher uma caneca com café. Depois me afastei para a prece que gostava de fazer sozinho pela manhã, sempre acompanhada de alguma reflexão. Como de costume, o caravaneiro estava destacado do grupo, com o seu falcão pousado nas grossas luvas de couro que usava no braço esquerdo, para o adestramento matinal. Foi então que se aproximou de mim um peregrino que fazia parte da caravana. Perguntou se podia me fazer companhia. Com o queixo apontei para que se sentasse ao meu lado. Não demorou, puxou conversa. Disse que se chamava Saul. Falou que, assim como eu, ele também ia ao oásis para conhecer o sábio dervixe. Em seguida criticou a estrutura da caravana. Falou que o valor cobrado pela viagem era muito caro para o pouco que ofereciam e que o caravaneiro devia dedicar ao grupo a mesma atenção que oferecia ao falcão. Eu nada respondi para não alimentar aquela conversa com energias que estimulavam a discórdia e a insatisfação. Não satisfeito, talvez por não encontrar em mim o apoio esperado, perguntou se eu tinha lido determinado livro. Respondi que nunca tinha ouvido falar nem no título nem no autor. O peregrino me olhou com espanto para dizer que aquela leitura era pressuposto para a conversa com o dervixe, uma vez que era a base de sua doutrina filosófica. Acrescentou que nem todos que iam ao oásis conseguiam o esperado encontro, pois o sábio escolhia apenas algumas pessoas, aquelas que considerava aptas a entenderem as suas palavras.

O perfeito espelho

 

Mais de uma vez, durante os meus períodos anuais de estudos na Ordem, encontrei o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da irmandade, sentado em uma confortável poltrona na agradável varanda do mosteiro. Ele adorava aquele lugar, onde fazia as suas reflexões diárias diante do belo cenário proporcionado pelas montanhas. Sempre que eu queria conversar sabia que, quase sempre, o encontraria lá no final da tarde e, invariavelmente, seria recebido com um sorriso sincero. Naquele dia não foi diferente. Cheguei com duas canecas fumegantes de café, entreguei uma em suas mãos e me acomodei em uma poltrona ao lado. Em seguida puxei assunto com o monge. Falei que o foco dos estudos da Ordem era o autoconhecimento como estrada que leva ao sagrado, uma vez que não encontraremos Deus em nenhum lugar, salvo dentro de nós mesmos. Citei as famosas frases “Conheça a ti mesmo e conhecerás a verdade” e “Conheça a verdade e vos libertará”, de Sócrates e Jesus, respectivamente, como eixo filosófico condutor da busca. Acrescentei que as virtudes eram as ferramentas que me permitiriam avançar à medida que as sedimentasse em mim, possibilitando a libertação do sofrimento, essa cruel prisão sem grades. O monge ouvia a tudo com paciência e apenas balançava a cabeça em concordância. No entanto, em relação ao entendimento de quem eu era de verdade, falei que por vezes eu tinha um olhar por demais rigoroso, enquanto noutras era generoso em excesso. A dificuldade de me enxergar com clareza complicava o meu processo de aperfeiçoamento. Confessei que estava com a sensação de que não conseguia avançar há algum tempo. O Velho arqueou os lábios em leve sorriso e me orientou com a sua usual simplicidade: “ Preste atenção a como você reage todas as vezes em que é contrariado; quando o mundo lhe diz ‘não’. Nas ações costumamos ouvir antes o coração e, assim, reverberar em luz. É comum oferecermos o nosso melhor. Entretanto, nas reações quem costuma falar são as nossas sombras. É quando refletimos a face ainda obscura do ser. As reações nos mostram os cantos que ainda não foram iluminados”. Fez uma pausa para concluir: “As reações são o perfeito espelho do ser, pois nos mostram o que ainda não queremos ou não conseguimos ver.”

O décimo dia da travessia – os demônios do deserto

 

Estávamos no décimo dia de viagem. Ainda não tinha amanhecido. Eu me revirava de um lado para o outro sem sono. Resolvi sair da barraca. O deserto estava iluminado pelas muitas estrelas do céu e de alguns poucos lampiões pendurados nas entradas das tendas. Uma brisa fria, que nos passar das horas desaparecia para dar lugar a um forte calor à medida que o dia avançasse, exigia que eu me cobrisse com uma manta. O silêncio era absoluto. Ocorreu-me que ainda não tinha ouvido ninguém na caravana falar dos demônios do deserto. Eu conhecia muitas histórias, mitos e lendas sobre esses espíritos e não tinha qualquer dúvida de que havia algo de verdade. Sentei-me na areia e fiquei envolvido em reflexões. Logo o céu começou a mudar de cor anunciando o novo reinado do sol. As tendas começaram a ficar barulhentas com o despertar do acampamento. Alegrei-me com a possibilidade de tomar um café quente logo pela manhã. A primeira pessoa que vi foi o caravaneiro. Ele estava pensativo, com o olhar perdido no deserto. Estranhei ele não estar com o falcão para o adestramento matinal. Sem dar importância a esse detalhe, me aproximei e perguntei pelos demônios do deserto. Eu queria saber se ele acreditava na existência deles. O caravaneiro me olhou rapidamente, depois se voltou para o deserto e disse: “Eles acompanham a caravana e estão misturados aos viajantes”.

O quebra-cabeça

 

Esperei que Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos, fechasse as portas da oficina. Embora ainda fossem meio-dia, o seu expediente de trabalho, que se iniciou de madrugada, já se encerrara naquele dia. Os horários inusitados de funcionamento da oficina eram lendários na pequena e charmosa cidade que fica ao sopé da montanha que abriga o mosteiro. Seguimos pelas ruas estreitas e sinuosas, com calçamento de pedras, na direção de um restaurante que adorávamos, para almoçar e trocar uma conversa vadia, como dois bons amigos que se alegram pelo simples encontro. Ao cruzarmos a praça onde se localiza o restaurante, vimos uma das sobrinhas do sapateiro sentada em um banco com a face banhada em lágrimas. Abordada, a moça disse que estava muito triste; ela acreditava que o seu casamento tivesse perto do fim, pois a convivência estava muito difícil. Confessou que não desejava isso. Embora morando na mesma casa, estavam mais distantes um do outro a cada dia. Loureiro a chamou para almoçar conosco e conversar um pouco. Disse que falar, nessas horas, pode ajudar, já que ao ouvir as razões que sustentam os lamentos, os sentimentos acabam por se tornar mais claros. Convite aceito, logo nos acomodamos em uma mesa confortável, longe do burburinho da rua. Assim que nossas taças foram cheias com um bom tinto da região, a jovem iniciou uma fileira de queixas em relação ao marido. Desde a sua desatenção em relação à vida afetiva do casal até o pouco empenho que tinha na empresa onde trabalhava. Ouvimos tudo com atenção e paciência, sem interromper a moça. Ao final, tive uma rápida troca de olhares com Loureiro. Foi suficiente para, em razão da nossa antiga amizade, eu saber o que ele pensava. O sapateiro olhou para a sobrinha e sugeriu: “Acho que você esqueceu de falar algo.” A jovem disse que não sabia sobre o que o tio se referia. Ele foi claro: “Esqueceu de nos contar sobre as qualidades do seu marido. Senão o casamento não teria durado tanto tempo nem você estaria sofrendo pela possibilidade do término da relação.” Ela ficou um pouco sem jeito, mas admitiu muitas das virtudes do marido. Falou sobre as mais relevantes e que mais admirava. Embora continuasse triste e preocupada, o seu ânimo deu uma leve melhorada. Em seguida, Loureiro comentou: “Todas as pessoas devem buscar a maturidade no decorrer da existência.” A jovem falou que, de fato, achava o marido, às vezes, muito infantil. O sapateiro corrigiu: “Não falo dele, até porque não seria educado em sua ausência. Refiro-me a você.” Ela rebateu de pronto dizendo que não era uma criança. O sapateiro balançou a cabeça para dizer que concordava e explicou melhor: “Ser maduro não acontece pelo mero fato de viramos adultos, de atingirmos a maioridade cronológica. Atinge-se a maturidade com a maioridade espiritual. Para isto não há idade definida. A maturidade se expressa através do ser inteiro. Aquele que está na busca incessante pela própria essência, quem conhece e aceita todas as suas características, boas e ruins, sem se esquivar da eterna batalha do aperfeiçoamento pessoal. Não deseja mais viver um personagem, mas formar a própria personalidade. Que segue em busca de si mesmo e de toda luz que nele existe. Apenas este encontro poderá proporcionar a harmonia e o equilíbrio necessários a todas as relações; seja consigo mesmo, seja para com o mundo.”

O nono dia da travessia – quando a alma se olha no espelho

 

Entardecia no nono dia da travessia. Tinha sido um dia monótono, mormente se comparado aos anteriores. O caravaneiro dera ordens para montarmos o acampamento um pouco antes da hora que em geral interrompíamos a marcha. Aproveitei para ir ao barbeiro. Pode parecer estranho, mas a caravana tinha um barbeiro. Um dos encarregados levava em sua bagagem uma pequena pia e um espelho, além dos apetrechos típicos para a barbearia, como navalhas, tesouras, óleos e cremes. Eu uso barba há muitos anos e tenho o costume apará-la uma vez por semana. Como não cuidava da barba desde alguns dias antes da partida, somado às condições difíceis impostas pelo deserto, me senti abandonado por mim mesmo quando me olhei no pequeno espelho. O barbeiro era um homem simpático e falante. Como era veterano de muitas travessias, o seu ofício ficava enfeitado pelas muitas histórias que contava na medida que aparava barbas e cortava cabelos. Quando me sentei na cadeira e comentei que tomara um susto ao me ver no espelho devido aos maus-tratos que o deserto me impunha, ele me corrigiu para dizer que o deserto era rigoroso, porém cada um definia os cuidados que tinha consigo mesmo. Em seguida, narrou uma engraçada história, que ele afirmava verdadeira, acontecida há muitas travessias atrás, de um homem que teve um sério surto ao se olhar no espelho: ele jurou que a imagem refletida não correspondia a sua pessoa.

Siga o seu coração

 

“Siga o seu coração”, me aconselhou Canção Estrelada quando me despedi. Eu tinha ido às montanhas do Arizona para participar de alguns cerimoniais nativos em um período que, por coincidência, era de mudança de ciclo em minha vida. A agência de propaganda na qual eu era sócio tinha sofrido uma forte cisão com a saída de alguns sócios e precisava encontrar novos rumos. Ao mesmo tempo se encerrava o romance de alguns anos com a minha namorada que cheguei a imaginar não ter fim. Naquele momento eu precisava me reinventar. “Siga o seu coração”, levei aquelas palavras comigo, que me enchiam de força, e tomei uma série de decisões, tanto pessoais quanto profissionais, que se mostraram equivocadas. Alguns meses depois, no turbilhão de desencontros que a minha vida tinha se tornado, aproveitei que teria o tradicional ritual do equinócio de verão e voltei ao Arizona. Encontrei Canção Estrelada sentado na cadeira de balanço da agradável varanda de sua casa. Ele me recebeu com alegria. Depois de devidamente acomodado, não demorou muito, confessei ao xamã que seguir o coração tinha se tornado desastroso, haja visto o que tinha acontecido comigo. Pior, eu tinha a nítida sensação de as coisas iriam se agravar ainda mais. Ele me olhou como a uma criança chorosa, acendeu o seu indefectível cachimbo com fornilho de pedra vermelha e, depois de algumas baforadas, disse: “Tem dois aspectos no seu discurso que você parece não entender. O primeiro é que, algumas vezes, estamos tão arraigados às velhas formas de viver que é preciso demolir tudo, até não sobrar pedra sobre pedra, para que seja possível reconstruir uma nova realidade baseada em um diferente entendimento sobre o ser. Não se constrói uma boa casa sustentada por paredes podres.” Tornou a baforar o cachimbo e concluiu: “Outro aspecto, e não menos importante, é quanto a seguir o seu coração. Será sempre um valioso conselho. No entanto, nem sempre possível de realizar, pois para seguir o coração é preciso aprender a ouvi-lo.”

O oitavo dia da travessia – as tempestades de areia e da alma

 

A caravana iniciava o seu oitavo dia de viagem. O acampamento despertava. Afastei-me para uma ligeira meditação quando vi o caravaneiro, distante de todos, com o seu falcão pousado nas grossas luvas de couro que usava no braço esquerdo. Distrai-me a espera do voo da ave que costumava caçar no início e ao final do dia. Estranhei o falcão se recusar a voar. Ao perceber o caravaneiro retornar ao acampamento em passos apressados, entendi que algo estava errado. Embora não tenha ouvido, vi quando ele deu algumas ordens para os encarregados. Logo chegou a notícia de que uma tempestade de areia se aproximava. Fomos orientados a nos arrumar para partir o mais rápido do possível em busca de um lugar onde pudéssemos enfrentar a tempestade com um pouco mais de segurança. Eu tinha ouvido histórias de caravanas inteiras que sucumbiram diante de violentas tempestades de areia, equivalente às avalanches para os montanhistas. Em poucos minutos todos já estavam montados em seus camelos e cavalos, em jejum, seguindo adiante. Marchávamos em absoluto silêncio. Todos os olhos estavam angustiados em patrulha no horizonte à procura de qualquer sinal. O céu, com o natural azul intenso do deserto, me parecia igual ao dos dias anteriores. A temperatura começava a aumentar na medida que o sol escalava a abóbada. Nada me pareceu diferente, salvo o medo que amplificava a estranha quietude da marcha naquele dia. Notei que o caravaneiro nos conduziu para um espaço aberto, longe das dunas, que se movem ao sabor dos ventos e poderiam nos soterrar durante a tempestade. Até que paramos para um breve descanso. O caravaneiro se afastou e sentou sobre as pernas em posição de prece. Ao sentir a minha aproximação, ele abriu os olhos e me encarou. Fiz sinal perguntando se podia chegar mais perto e ele autorizou com um aceno de cabeça. Indaguei se podíamos rezar juntos. Com o queixo ele indicou um lugar para eu sentar ao seu lado. Confessei que estava com medo e quis saber se ele também sentia. O caravaneiro respondeu com serenidade: “Todos sentem medo na iminência de um mal. Peço por luz e proteção. A minha prece tem tão e somente duas palavras.”

Sempre tenho tudo o que preciso

 

Lá estava eu de volta à pequenina vila chinesa próxima ao Himalaia. A viagem, além de cansativa pelas muitas horas de voos, conexões necessárias e o trecho feito de ônibus pela precária estrada que serpenteava a montanha, me trouxera o inconveniente de ter a mala extraviada pela companhia aérea. As minhas reclamações no aeroporto se mostraram inúteis e a empresa não garantiu a entrega da bagagem, na ventura de aparecer, em local tão distante e de difícil acesso. Sobrou-me a mochila com os documentos e algumas poucas peças de roupa que levara para trocar durante o longo percurso. Assim que cheguei tentei descansar um pouco na única hospedaria do lugar. Em vão. A irritação e a revolta faziam a cabeça girar pela força de muitas ideias e sentimentos que pareciam ter a necessidade de transbordar de dentro de mim. O dia ainda não tinha raiado quando levantei e me dirigi à agradável casa de Li Tzu, o mestre taoista, onde ele recebia alunos de todas as partes do mundo em busca dos ensinamentos das milenares lições contidas no Tao Te Ching. Ao cruzar o portão da casa, sempre aberto, senti uma agradável sensação. Um perfume que eu não soube identificar se vinha do enorme jasmineiro que envolvia o belo jardim de bonsais ou dos muitos incensos espalhados pela casa, preenchiam o silêncio e a quietude do local. Algumas lanternas de iluminação tênue indicavam o estreito e sinuoso caminho até a varanda. Li Tzu terminara uma solitária sessão de yoga e se mostrou feliz em me ver. Sempre delicado, ele me convidou para um chá. Quando entrei na copa, Meia-noite, o gato negro que morava na casa, eriçou o pelo e saiu em disparada ao me ver. Sem graça, comentei que o dócil animal não deveria ter me reconhecido depois de tanto tempo. O mestre taoista não me deixou enganar: “Os gatos são muito sensíveis às energias. A violência o assustou.” Rebati dizendo que eu era um sujeito pacífico, incapaz de agredir alguém. Li Tzu explicou com o tom entre a doçura e a firmeza que lhe era peculiar: “Todos sabem da sua índole de paz, Yoskhaz. No entanto, você não está bem. A violência não se expande apenas na grosseria das palavras ou na agressividade das atitudes. Lembre-se que somos um centro gerador de energia. As vibrações primordiais surgem através das nossas ideias e emoções, invisíveis aos olhos, mas nem por isto não percebidas e menos importantes. Pois têm a força de desalinhar o indivíduo e, algumas vezes, desagregar o ambiente. Ou pior, se tornarem a semente de escolhas equivocadas por se distanciarem do amor que deve nos guiar.” Fez uma pausa e concluiu: “Devemos nos vigiar o tempo todo.”

O sétimo dia da travessia – a temperança e o poder da alma

 

Estávamos no sétimo dia da travessia. A caravana fez um pequeno desvio em sua rota para se abastecer de água em um poço construído e mantido por uma pequena comunidade de tuaregues que, embora fossem de natureza nômade, tinham se estabelecido naquele local há algum tempo. Eram pessoas amistosas que se dedicavam a atender aos viajantes. Além da água potável extraída de um leito subterrâneo do deserto, ofereciam diversos víveres e negociavam camelos. As mulheres do grupo eram conhecidas pela tecelagem colorida de suas roupas e pelo delicioso doce de tâmaras que vendiam. Depois de encher o meu cantil, provei a famosa iguaria e entendi a razão de a chamarem de “o mel do deserto”. Tive que fechar os olhos tamanho foi o prazer. Como não sabia quando teria uma nova oportunidade em comer aquela maravilha, adquiri uma grande quantidade, suficiente para muitos dias e acondicionei no alforje do meu camelo. Não tardou, a caravana seguiu o seu curso. Naquele dia, fui me deliciando com os doces, um após outro, até o último, em incessante volúpia. Na medida que comia os doces, eu sentia sede, me obrigando a beber uma quantidade de água bem maior do que o normal. No final da tarde, quando a caravana tornou a parar para acampar e passar a noite, eu estava enjoado e com o cantil vazio. Enfastiado, rejeitei a refeição oferecida e me afastei em razão do mal-estar que sentia. Procurei o encarregado pela provisão da caravana e solicitei água para o meu cantil. De modo educado, ele negou. Disse que tinha orientação do caravaneiro de somente fornecer água após dois dias da passagem pelo poço, como maneira de todos colaborarem para um consumo consciente, equilibrando as difíceis condições que se impunham. Insisti, mas o homem se manteve firme na negativa. Tornei a me afastar e, em pouco tempo, a sensação de sede aumentou exponencialmente até ficar insustentável. A irritação tomou conta de mim como efeito da crise de abstinência. De longe avistei outro viajante, um mercador, veterano de muitas travessias, bebendo água. Aproximei-me e pedi um pouco. Expliquei a ele o ocorrido. Ele me olhou por alguns segundos e disse que me venderia um cantil. Vi que havia vários cantis em seu alforje. Sem hesitar, falei que pagaria. Ele sorriu de maneira estranha. Em seguida estabeleceu o preço. Era um valor alto, muito alto.

Argumentei que era um absurdo cobrar uma fortuna por uma pequena quantidade de água. O mercador respondeu que estava barato, pois aquele preço não era pela água, mas pela minha vida.

Uma sofisticada virtude repleta de outras virtudes

 

Uma das coisas mais agradáveis para mim era percorrer as ruas estreitas e sinuosas da pequena cidade que fica no sopé da montanha que abriga o mosteiro. Melhor ainda é no início da manhã, quando o calçamento de pedras está molhado pelo orvalho da noite. Naquele dia, eu seguia na esperança de encontrar aberta a oficina de Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos. A oficina era lendária na região. Seja pela mestria de Loureiro em costurar o couro e as ideias, seja pelos horários inusitados e imprevisíveis de funcionamento, cujo critério era simplesmente a vontade do sapateiro. Quando dobrei a esquina e não avistei a sua clássica bicicleta encostada no poste em frente, já sabia que encontraria a oficina com as portas cerradas. Passei em uma banca de revistas próxima e o jornaleiro disse que o meu amigo tinha trabalhado a noite toda, acabara de pegar um jornal e seguira para uma padaria perto dali. Alegrei-me com a possibilidade de uma boa prosa, logo pela manhã, acompanhada de café quente e pão fresco. Loureiro estava sentado em uma mesa ao fundo e abriu um belo sorriso quando me viu. Devidamente acomodado à mesa, com uma xícara fumegante e uma fatia de pão com o bom queijo da região derretido por cima, perguntei o que ele lia no jornal. O artesão respondeu que era sobre a polêmica em torno da aposentadoria diferenciada para algumas categorias profissionais. Enquanto uma parte das pessoas sofriam grandes perdas financeiras ao se aposentar, outras mantinham seus vencimentos integrais, em nada sendo afetadas. Havia um grande movimento para que estas fossem equiparadas àquelas. Ou seja, todos sofreriam igualmente as perdas. Eu falei que os protestos me pareciam justos. Loureiro me olhou por instantes, bebeu um gole de café e ponderou: “Será que o raciocínio não poderia ser invertido? Ao invés da luta para que todos tenham os seus ganhos rebaixados não seria mais sensato que a reivindicação fosse no sentido do fim das perdas, usando aquelas aposentadorias, então privilegiadas, como meta a ser proporcionada a todos?” Após alguns segundos de silêncio, admiti, um pouco sem jeito, que o sapateiro tinha razão. Isto faria com que a luta fosse por ganhos e não por perdas; fosse pela construção, não pela destruição. O sapateiro concluiu: “Assim passamos a lutar pela esperança e não movidos pelo ódio.”

O sexto dia da travessia – a sombra da discórdia e a alma esquecida

 

A caravana estava no sexto dia. As precárias condições de uma travessia pelo deserto, por maiores que sejam os cuidados dispensados pelos viajantes, seja pelo clima inóspito, seja pela falta de uma série facilidades, às quais nos acostumamos nas cidades, trazem inevitáveis problemas. Há que se ter atenção tanto em relação às variações de humor, tão imprevisíveis quanto as dunas que se movimentam ao sabor do vento, quanto à saúde física que tende a se deteriorar muito rapidamente ao menor descuido. Ao caravaneiro cabe a difícil tarefa de conduzir a caravana na harmonia entre a firmeza e a paciência. A sensatez é a virtude que permite o equilíbrio entre as outras duas virtudes, posta à prova a todo momento em diferentes graus de exigência. Naquele dia circulava a notícia de que poderíamos enfrentar uma violenta tempestade de areia. Alguns diziam que não passava de um boato; outros sustentavam a veracidade do perigo, alegando como fonte um experiente encarregado da caravana, veterano de muitas travessias. Como se não bastasse toda a insalubridade típica do deserto, a tensão diante da iminência do perigo alterou o ânimo de alguns integrantes. Não raro, o medo se torna a raiz de muitas doenças e conflitos. Um dos viajantes foi acometido de um mal súbito. Como já estávamos no meio do dia, o caravaneiro ordenou uma pequena parada para um rápido descanso e as providências cabíveis à pessoa adoentada.

A luz do mundo e a misericórdia

 

O mundo não é um bom lugar para se viver. Eu estava convencido desta afirmação enquanto observava as belas montanhas, sentado em uma confortável poltrona na varanda do mosteiro. Cansado de tantos conflitos, injustiças e maldades, eu tinha perdido a esperança de viver em um mundo melhor. A minha vida pessoal também acumulava uma série de brigas e decepções, seja na família, entre amigos ou no trabalho. Desse modo, me alegrei ao viajar para passar um período de estudos e reflexões na Ordem. O mosteiro era um bom refúgio. Eu tinha chegado na noite anterior e ainda não tinha encontrado com o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da irmandade. Ele retornara um pouco mais cedo; vinha de uma série de palestras em cidades próximas e tinha se recolhido em seu quarto para descansar. No dia seguinte, ao acordar, passei na biblioteca para pegar um livro, enchi uma caneca de café no refeitório e fui para a varanda. Não demorou muito o Velho veio ao meu encontro. A barba branca cuidadosamente aparada, os passos lentos, porém firmes, e com as feições coradas pelo sol das montanhas, ele era a imagem da alegria e da jovialidade apesar da idade avançada. Uma energia de bem-estar e paz o envolvia e contagiava as pessoas à sua volta. Mas não era uma calma preguiçosa; era uma tranquilidade vitalizante. Ele próprio, embora apreciasse o descanso, estava sempre envolvido em várias atividades, estudos e não dispensava a prática da yoga ao acordar. Ele trazia em si o poder da leveza e a força do movimento. Ofereceu-me um sorriso sincero e um forte abraço. Sentado na poltrona ao lado, contou do ciclo de palestras que acabara de ministrar e como estava contente por isto. Disse que queria me falar de seus novos projetos, mas antes desejava saber como eu estava. Como as palavras costumam refletir a bagagem da alma, derramei todas as minhas frustrações e lamentos quanto ao mundo. Conclui dizendo que agora iria me fechar mais em meu círculo de vida e seguir cada vez mais alheio às iniquidades da humanidade. Em seguida, acrescentei que eu estava ansioso pelo início daquele período de estudos e pelo desenvolvimento espiritual que ele traria. O velho me ouviu com atenção e paciência sem me interromper. Ao final, disse: “O novo ciclo de aprendizado será bem diferente dos anteriores. Acho que será proveitoso, embora tenha dúvida se irá lhe agradar.”

O quinto dia da travessia – a alma do mundo

 

Estávamos no quinto dia da travessia. A caravana seguia a sua marcha rumo ao oásis onde vivia um sábio dervixe, “conhecedor de muitos segredos do céu e da terra”, com qual eu desejava encontrar. Entre peregrinos, mercadores, turistas e encarregados, dezenas de pessoas integravam a caravana e viajavam pelas areias do Saara. Na manhã daquele dia, logo cedo, antes de levantarmos acampamento, percebi o caravaneiro um pouco distante do grupo adestrando o seu falcão. Chamava-me atenção o fato de ele, sempre que possível, se afastar para se entreter com a ave. Estranha diversão, pensei. Atribui o hábito às inevitáveis diferenças culturais entre os povos. Procurei pela bela mulher com olhos da cor de lápis-lazúli em vão. Depois tive a atenção voltada para um homem que sempre que a caravana fazia uma parada, estendia um belo tapete e expunha em pequenos cestos porções de biscoitos finos. Ele se dedicava a servir chá para quem desejasse. Esse homem não trabalhava na caravana como de início pensei; uma vez por ano viajava para encontrar com parentes. Realizava o cerimonial do chá por prazer. Fiquei impressionado com o capricho com o qual ele se dedicava a essa tarefa. Um mercador inglês que costumava viajar para negociar tapetes com os habilidosos artesões do oásis, ao perceber o meu interesse, se aproximou e disse: “É o melhor chá que já tomei na vida.” Respondi que tamanho elogio vindo de um inglês era para se respeitar. Em seguida, comentei que achava um certo exagero todo aquele afinco apenas para servir chá com biscoitos em um acampamento no deserto. O inglês falou como quem revela um segredo: “Dizem que é um mestre”. Logo o meu interesse mudou. Cheguei próximo ao homem, perguntei se podia sentar; ele sorriu e fez um gesto com a mão para que eu ficasse à vontade. Ele tinha acabado de terminar uma infusão no bule, me serviu com esmero em uma elegante xícara de porcelana e disse para eu me servir dos biscoitos. Senti-me um rei. Fiz um elogio sincero ao chá. De fato, era delicioso. Ele tornou a sorrir e disse: “Isso me alegra o coração. Gosto quando dizem que é um néctar dos deuses.” Eu confessei que foi exatamente isso que eu senti ao provar a bebida. Em seguida, interessado em averiguar a mestria a ele atribuída, perguntei se gostava de Blavatsky, apreciada escritora russa nos círculos esotéricos. Ele me olhou com simplicidade e respondeu: “Não sei quem é.” Insisti em saber a sua opinião sobre Krishnamurti, Yogananda, Kardec, Gibran, entre outros. As respostas se repetiam com um balanço da cabeça em negativa. Desolado, eu quis saber por quais livros ele se interessava. O homem, cujo o nome, depois eu soube, se chamava Kalil, disse com humildade: “Eu não sei ler.” E justificou: “Fui criado em um campo de refugiados. Lá não tinha escolas.” Em seguida acrescentou com enorme estima: “Eu aprendi a fazer chá”. Decepcionado, apenas esbocei um rascunho de sorriso como quem diz que entendia a situação. Esvaziei a xícara, tornei a elogiar o chá e quando fiz menção para me levantar, ele se manteve gentil fazendo questão de explicar: “O chá que você bebeu é de uma flor comum no deserto, mas rara nas cidades. Ela precisa ir fresca para a infusão, na qual não pode demorar mais do que três minutos, sob o risco de ter o sabor alterado. Tive sorte de encontrar um pequeno ramo ontem.” Comentei que era mesmo uma iguaria, agradeci e, como não estava interessado em saber mais sobre chás, me levantei.

Diante da alma

 

O tambor de duas faces de Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom de levar a sabedoria do seu povo através das palavras, rufava em ritmo compassado quando cheguei ao seu “lugar de poder.” Este local era próximo à sua casa, no alto de uma montanha no Arizona, em um pequeno platô, onde, além da bela paisagem e profundo silêncio, me chamava a atenção uma árvore bem antiga em um improvável equilíbrio, bem na ponta de um penhasco. Ele dizia que todos têm um lugar onde sentem com maior intensidade a ligação com o Grande Mistério, o invisível que permeia e atua no visível, na harmonia entre a força e a sutileza da vida. A minha viagem para encontrar com o xamã já estava programada há meses, mas perto da partida a adiei várias vezes em razão de alguns acontecimentos. Tudo começou em um evento no qual a minha agência de publicidade, embora pequena, havia sido premiada pela originalidade de um anúncio. Uma famosa atriz, mulher lindíssima, tinha sido contratada para apresentar a cerimônia de premiação. Foi ela quem puxou assunto comigo quando nos esbarramos no coquetel que aconteceu logo após. Ela fez elogios ao meu trabalho e mostrou interesse em saber mais. Eu fiquei apaixonado ao ouvir o som das suas palavras enquanto olhava para aquele rosto angelical, emoldurado pelos cabelos encaracolados que lhe desciam pelos ombros à mostra. Ali começou um romance. E também a minha agonia.

O quarto dia da travessia – a escuridão é o pavio da luz

 

Ainda era o quarto dia da travessia e já houvera mais movimentação do que eu seria capaz de imaginar. Tudo o que eu queria era um pouco de sossego para refletir sobre a vida enquanto atravessávamos o deserto que parecia sem fim. Ao contrário do que eu supunha, não existe tédio quando se faz parte de uma caravana. O deserto é um universo peculiar, que pulsa como um corpo vivo, muda a todo instante pela ação do vento na areia, tem fortes contrastes entre o dia e a noite, além de abrigar uma incontável quantidade de seres em seu âmago. Aves migratórias e de rapina, pequenos roedores, répteis como lagartos e serpentes, além de pequenos invertebrados, alguns bem perigosos, como aranhas e escorpiões. Também tinha ouvido falar de felinos, mas estes me pareciam lendas, pois duvidava da existência dessas espécies em região tão inóspita. Aquele dia seguia modorrento, conforme o meu desejo. Eu alternava as horas entre a reflexão, enquanto observava a paisagem, as inúmeras fotografias que eu tirava para registrar a viagem e a leitura de um livro, o qual já me habituara a ler sem enjoar, apesar do gingado do camelo. Eu queria estar preparado para o encontro com o sábio dervixe, “conhecedor de muitos segredos do céu e da terra”, que morava no oásis. O caravaneiro seguia à frente, montado a cavalo. Por algumas horas do dia, ele gostava de trotar carregando o seu falcão pousado sobre as grossas luvas de couro que usava no braço esquerdo. Naquele dia eu ainda não tinha visto a bela mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli.

O amor. Tão perto, tão distante

 

Eu tinha chegado há poucos dias no mosteiro para o meu período anual de estudos quando recebi a notícia do falecimento do meu avô. Ele tinha sido um homem saudável e ativo, estando à frente do seu pequeno negócio até os últimos dias dessa sua existência. Tinha se sentindo mal e foi levado ao hospital. Embora tenha ficado internado para exames mais aprofundados, os médicos disseram acreditar não se tratar de nada grave. Fiz uma visita ao meu avô antes de viajar; ele estava alegre e otimista, características que sempre estiveram presentes no seu jeito de ser. Apesar de eu estar confiante em sua rápida recuperação, fiz preces neste sentido e, mesmo de longe, enviei boas vibrações de cura. Fiquei desorientado ao ser avisado do fim desse ciclo em sua vida. Eu gostaria de mais um tempo de convivência ao seu lado nesta minha existência. Foi isto eu que disse ao Velho quando o encontrei sentado sozinho na cantina entre uma xícara de café e um pedaço de bolo de aveia. O bom monge se levantou sem dizer palavra, me deu um forte abraço e depois me acomodou em uma cadeira à sua frente. Encheu uma caneca de café para mim, tornou a sentar e me olhou com doçura como quem diz estar disposto a me dar a atenção de que eu precisava naquele momento. Confessei estar desorientado com a situação e até mesmo um pouco descrente dos meus estudos. Falei que a espinha dorsal dos estudos da Ordem é o Sermão da Montanha, ensinamentos legados por mestre Jesus nas colinas Kurun Hattin. Acrescentei que ele, Jesus, também tinha dito que “todos poderiam fazer o que ele fez e até mesmo mais”. Narram os livros sagrados situações de cegos que retomaram a visão e de aleijados capazes de voltar a andar. No entanto, diante de uma situação bem mais simples, minhas preces e vibrações de cura se mostraram insuficientes. Questionei a valia dos meus conhecimentos.

O terceiro dia da travessia – o dilema entre a palavra e a verdade

 

Acordei na manhã do terceiro dia da travessia com o corpo ainda alquebrado em função dos acontecimentos do dia anterior. O céu já estava claro, embora o sol não tivesse alcançado a linha do horizonte no fim do mar de areia que parecia sem fim. A movimentação para recolher o acampamento era intensa. Todos arrumavam as suas coisas para seguirem adiante, rumo ao maior oásis do Saara. Eu ia ao encontro de um sábio dervixe, “conhecedor de muitos segredos do céu e da terra”, que lá residia. A grande maioria dos integrantes da comitiva era de mercadores, peregrinos e turistas, que marchavam montados em camelos. Os funcionários da caravana encarregados da segurança viajavam a cavalo, em vigorosos puros-sangues árabes, que permitiam maior agilidade, além do caravaneiro e da enigmática mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli, a qual eu não avistara naquela manhã. Notei que, além dessas, algumas outras poucas pessoas também seguiam a cavalo. Como eu não tinha me acostumado ao gingado do camelo sobre as areias do deserto, algo que me deixava enjoado, assim que o caravaneiro se aproximou, questionei o privilégio concedido a essas pessoas que “viajavam de primeira classe”. Argumentei que todos deveriam ter o mesmo tratamento face às condições inóspitas da travessia. Acrescentei que, como esse não era o caso, eu também gostaria de seguir a cavalo. O caravaneiro me olhou fixamente e disse: “Todos são tratados de maneira justa e recebem um camelo para realizar a viagem. No entanto, alguns trouxeram ou compraram os seus cavalos. Não há nada de errado nisto”. Em seguida, advertiu: “Cada qual deve vigiar a si mesmo”. Fez uma pequena pausa e concluiu: “Todos são livres para quaisquer atos, desde que não prejudiquem a harmonia da caravana”.

A lei do progresso

 

Eu estava sentado na varanda do mosteiro apreciando as belas montanhas que o acolhem quando se aproximou o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem. Sempre com o seu jeito jovial, apesar da idade avançada, trazia duas canecas de café fresco e as acomodou na mesa ao meu lado. Sentou-se em uma confortável poltrona e brincou ao dizer para eu compartilhar com ele os meus pensamentos. Agradeci o café e confessei que questionava o fato de os textos sagrados afirmarem que somos feitos à imagem e semelhança de Deus. Enquanto Deus é perfeito, nós ainda nos esforçamos nos primeiros degraus do aprendizado. Argumentei que se a origem de todos os males do mundo é a prevalência das sombras pessoais sobre as escolhas virtuosas cabíveis a cada indivíduo, teria sido mais sensato que todos nós tivéssemos nascidos perfeitos, assim como Deus, evitando, desta forma, todas as tragédias e sofrimentos provocados pela humanidade contra si mesmo. Portanto, havia erro do criador quanto à elaboração da criatura. Ou um grave equívoco em relação aos textos sagrados.

O segundo dia da travessia – a dor nada ensina

 

A caravana seguia rumo ao maior oásis do Deserto do Saara. O meu objetivo era conhecer um sábio dervixe, detentor de “muitos segredos do céu e da terra”. Estávamos no segundo dia da travessia, e eu ainda me acostumava ao gingado do camelo, que me deixava um pouco enjoado. Tentava me distrair com a paisagem, mas não conseguia. Dunas enormes pareciam se repetir dando a falsa sensação de que andávamos em círculos. A belíssima mulher com os olhos da cor de lápis lazúli, que me autorizara participar da caravana no dia anterior, desaparecera. O caravaneiro, montado em seu vigoroso cavalo branco, passava a comitiva em revista; por vezes, gritava ordens em um idioma desconhecido. Eu, ainda impactado com os acontecimentos do dia anterior, me limitava a acompanhar os demais integrantes com receio de fazer algo que prejudicasse o encontro com o dervixe. Apesar do forte calor, tínhamos o corpo completamente coberto por roupas para evitar queimaduras solares e a desidratação que poderia levar à morte. Em determinado momento veio a ordem para a caravana parar por alguns minutos para que que todos pudessem fazer uma refeição leve. Algumas pessoas aproveitaram para realizar as preces diárias conforme os seus preceitos religiosos. Desmontado do camelo, andei a esmo até avistar o caravaneiro, um pouco distante e sozinho, com o seu falcão pousado na grossa luva de couro que usava na mão esquerda.

O sapateiro, o industrial e a ironia

 

Eu andava pelas ruas estreitas e sinuosas da charmosa cidadezinha que fica no sopé da montanha que acolhe o mosteiro na incerteza de encontrar a oficina de Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos, famoso por costurar o couro como ofício e as ideias como arte, ainda aberta para um café fresco e uma boa prosa. Como a sua oficina era lendária na região por funcionar em horários inusitados e incertos, fiquei feliz, quando ao dobrar a esquina, avistei a sua clássica bicicleta, o único meio de transporte que se permitia usar dentro da cidade, encostada no poste em frente à loja. Neste mesmo instante, um reluzente Mercedes-Benz estacionou em frente à oficina. O chofer desceu para abrir a porta de trás e achei ter visto Loureiro sair do carro. Estranhei de imediato. Ao me aproximar, os meus olhos ruins perceberam não se tratar do sapateiro, mas de alguém muito parecido com ele. Quando entrei na loja tudo foi esclarecido. Tratava-se do irmão de Loureiro; embora tivessem uma grande semelhança física, não eram gêmeos. O artesão nos apresentou. Ele se chamava Sergei e era dois anos mais moço. Polido e educado como Loureiro, no entanto, de pronto percebi que as semelhanças se esgotavam ali. Tinham elegâncias distintas, diferentes interesses e olhares opostos em relação à vida. Sergei também não tinha o sorriso fácil do sapateiro. Muito sério, fez questão de dizer que não dispunha de muito tempo, pois era um empresário muito ocupado. Como proprietário de uma grande fábrica de tecido em uma região industrial distante a muitas horas dali, não poderia desfrutar da companhia do irmão por mais do que alguns poucos minutos. Loureiro foi passar um café fresco enquanto nos acomodávamos ao balcão. Perguntei ao Sergei o que ele fazia na pequena cidade. O empresário contou que viera trazer uma senhora, dona de uma grande rede de lojas que absorvia boa parte da produção de sua fábrica, para conhecer o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem. Acabara de descer da montanha e a cliente seguira a viagem em seu próprio carro. Então, ele viera dar um abraço no irmão e logo voltaria para a fábrica. Eu quis saber como havia sido o encontro com o Velho. Ele esclareceu que tinham chegado de surpresa, sem avisar. Entretanto, o monge estava ocupado, ministrando uma palestra no mosteiro, e pediu para que eles retornassem na manhã seguinte, quando os atenderia. Indaguei se eles tinham combinado o encontro e Sergei, esclareceu que não.  Sugeri que pernoitasse para que pudesse jantar conosco. Acrescentei que a cidade, embora acanhada, era conhecida por seus excelentes restaurantes, alguns renomados mundo afora. Falei, ainda, que subiria ao mosteiro logo cedo e poderíamos ir juntos. Ele lamentou, mas não tinha tempo para isso, pois os seus negócios possuíam uma dinâmica intensa e ele era um industrial muito solicitado, com a agenda repleta de compromissos e reuniões. Sibilou que capitalizara prejuízos financeiros e profissionais naquela viagem, pois deixara de fechar alguns negócios e teria que lidar com a decepção da cliente que não conseguira falar com o Velho, como ele, Sergei, prometera. Acreditou que a amizade do irmão com o monge facilitaria o encontro. Em seguida, com um comentário irônico, sugeriu que o Velho “estava ocupado, treinando para substituir Deus”.

O primeiro dia da travessia – quando menos é mais

 

Era o primeiro dia de viagem. Eu estava em uma pequena cidade fronteiriça ao deserto do Saara, no norte da África. A minha intenção era fazer parte de uma caravana que partiria rumo a um oásis onde residia um sábio dervixe. Nas rodas esotéricas ele era conhecido como um feiticeiro muito respeitado face ao enorme conhecimento que possuía a respeito de muitos segredos “sobre céu e a terra”. Eu ainda dava os primeiros passos no Caminho e tinha ficado profundamente impressionado com as histórias que ouvira. Essa caravana era a única maneira de chegar até o oásis e, por consequência, ao sábio. Ela partia apenas duas vezes ao ano, em datas imprecisas, e a travessia durava quarenta dias. Entrei em uma taberna que me indicaram como ponto de contato. Apesar de me parecer um lugar estranho, que vendia não somente bebida e comida, mas todo o tipo de coisas de que alguém precisaria para sobreviver durante muitos dias entre as dunas e o sol, as pessoas, aparentemente, não se importaram com a minha presença. Como todas as informações que eu tinha eram muito vagas, me dirigi ao homem que atendia por detrás do balcão e perguntei sobre a caravana. Ele me olhou por alguns instantes, como que duvidando da minha capacidade em completar a empreitada a que me propunha e se limitou a indicar uma das janelas da taberna com o queixo, sem dizer palavra. Além dos vidros empoeirados, eu vi apenas o céu azul e as areias claras, de uma cor entre o amarelo e o bege, de um tamanho sem fim. Fixei o olhar e, ao longe, pude avistar uma figura imponente, com a vestimenta típica dos povos do deserto, com um falcão pousado em seu braço. De óculos escuros, por causa da claridade, e segurando o meu chapéu panamá na cabeça, para não o perder ao vento, andei desajeitadamente até a pessoa indicada. Durante o curto trajeto, vi a ave dar um maravilhoso voo rasante, em círculo, até retornar as garras na grossa luva de couro do seu mentor. Perguntei se era com ele que eu trataria sobre a travessia. A resposta foi um simples aceno afirmativo com a cabeça. Eu disse que gostaria de fazer parte da próxima comitiva, pois desejava encontrar o sábio dervixe. Eu precisava saber a data da partida e o custo para fazer parte do grupo. Ele me olhou profundamente nos olhos e falou: “A travessia pelo deserto é perigosa. Não posso garantir que nenhum dos integrantes chegue ao destino”.

O guardião e o mestre

 

A palestra que o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, tinha ministrado em uma conhecida universidade versava sobre a necessidade do equilíbrio entre o ego e a alma. Ele aproveitou uma figura de linguagem usada por Teresa D’Avila ao comparar o íntimo de uma pessoa como a um castelo de muitos cômodos. Em cada quarto habita um sentimento ou uma ideia. Alguns densos e pesados, outros leves e sutis. No portão de entrada, em contato direto com o mundo, está o ego. Na sala do trono, no interior do castelo, centro das decisões primordiais, mora a alma. O bom funcionamento do castelo vai depender da capacidade de harmonia e conexão entre os seus moradores. Embora o conceito não seja novo, é pouco conhecido e transitou durante séculos apenas entre monastérios e irmandades esotéricas. Ao final da explanação houve muitos questionamentos, dúvidas e material para reflexões posteriores. Esta era a intenção do bom monge. Quando estávamos de saída, ele perguntou pelo professor de estatística Carl Bacon, seu contemporâneo quando cursou economia em uma universidade inglesa, com quem tinha construído uma sólida amizade. Foi informado que o professor Carl estava de licença em razão de uma forte depressão, tinha desistido da cátedra e poucos acreditavam que ele retornaria a dar aulas. O Velho se mostrou preocupado e quis saber onde encontrá-lo. Disseram que ele pouco saía de casa, salvo para passear, solitário e a esmo, pelo bosque da universidade. Acrescentaram que não teríamos dificuldade para achá-lo.

A luz do mundo e um bolo de laranja

 

O dia amanhecia. Eu estava na pacata estação da pequena e charmosa cidade, situada no sopé da montanha onde fica o mosteiro, à espera do trem que me levaria com o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, até uma movimentada metrópole, sede de uma prestigiosa universidade. Ele era muito requisitado para palestras em escolas, empresas e centros comunitários. Nunca recusava um chamado. Na impossibilidade de alguma data em razão de outro compromisso, não sossegava enquanto não ajeitava o calendário para atender ao pedido. Como o nosso trem ainda demoraria um pouco, fomos até a cafeteria da estação em busca de uma xícara de café fresco e do famoso bolo de laranja com gengibre feito pela gentil dona do estabelecimento. Devidamente acomodados, com duas canecas fumegantes à frente, perguntei se ele não sentia necessidade em ter mais tempo para descansar. O monge bebericou o café e disse: “Descansar é muito importante, assim como ter um tempo para dedicar a mim, encontrar comigo mesmo e ‘arrumar a casa’”. Deu um sorriso e complementou: “Fazer faxinas rotineiras são de extremo valor para que possamos varrer a poeira dos sentimentos densos, consertar as emoções que quebraram, trocar a decoração ultrapassada das ideias que não mais embelezam a vida, abrir as janelas para uma troca de ares e permitir ao sol entrar. A minha casa é o meu ponto de observação e interação com o mundo”. Bebeu mais um gole de café e prosseguiu: “Da mesma maneira, tem grande importância dedicar um tempo à diversão. A arte, através de qualquer das suas modalidades, que tanto nos ajudam a ver além das fronteiras dos condicionamentos e da rotina do cotidiano, encontrar com os amigos, com a família para boas conversas e, acima de tudo, rir bastante, têm a força de alimentar a alma”. Olhou-me nos olhos e concluiu: “No entanto, apenas quando estou servindo sinto o poder do universo de um jeito diferente. Quando compartilho o melhor que há em mim, levo conforto ao coração de alguém, ajudo a brotar o sorriso no rosto de outra pessoa ou consigo, com uma palavra, iluminar a escuridão nos porões de uma alma, é como se as mãos das estrelas se acoplassem às minhas e todo o meu ser ardesse em fogo, tamanha é a luz que me invade. É o perfeito sentimento do sagrado”.

O melhor mágico do mundo

 

Eram dias modorrentos. Eu andava desanimado naquele período em que estava no mosteiro para estudos. Não conseguia me concentrar nas leituras nem nas meditações. As palestras e debates pareciam de uma chatice sem fim. As atividades físicas, como a ioga ou caminhadas pelas montanhas também não me despertavam interesse. Aos que me perguntavam sobre a razão do meu “olhar sem vida”, respondia que não mais alimentava ilusões quanto à humanidade. Argumentava que as nuvens da vaidade, da inveja, da ganância, da mentira e do medo tinham deixado o mundo para sempre sob as suas sombras. Até que encontrei o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, acomodado em uma poltrona na varanda do mosteiro, entretido com um livro. Ofereci de ir à cantina buscar uma xícara de café e ele aceitou com um lindo sorriso. Quando acomodei a caneca na mesa ao seu lado, o monge me convidou para sentar. Sem que ele me perguntasse nada, assim que me acomodei, soprei um vendaval de lamentos quanto à inutilidade da vida. Confessei que não via sentido em viver e, talvez, aqueles que viviam pela busca constante do prazer estivessem certos. O Velho deu de ombros e disse: “Depende daquilo que você entende como prazer”.

A realeza do mundo

 

O trem tinha me deixado cedo na estação da pequena e charmosa cidade que fica no sopé da montanha que acolhe o mosteiro. Como a minha carona até a sede da Ordem era para o final da tarde, decidi arriscar a encontrar aberta a oficina de Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos, lendária não apenas pela habilidade do artesão em costurar tanto o couro quanto as ideias, mas também pelos horários inusitados de funcionamento. Naquele dia a loja estava fechada, embora todo o comércio local estivesse em plena atividade. Um jornaleiro próximo me informou que o meu amigo tinha trabalhado noite adentro, cerrando as portas assim que amanheceu. Resolvi seguir para uma cafeteria em busca de uma xícara de café fresco e um pão com o bom queijo da região na chapa. Antes, comprei o jornal para me fazer companhia. Enquanto andava pelas ruas estreitas e sinuosas com calçamento de pedras, típicas daquela cidadezinha, passei os olhos nas manchetes e li que uma famosa rainha de um país europeu havia falecido. Embora o cargo fosse apenas protocolar e simbólico, sem qualquer poder administrativo, a reportagem relatava uma grande comoção. O enterro ocorreria com toda a pompa.

O sagrado

 

Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom de difundir a sabedoria do seu povo através da palavra, cantada ou não, baforava o seu indefectível cachimbo de fornilho de pedra vermelha enquanto, da varanda da sua casa, em silêncio, observávamos as cores com que o sol poente pintava as montanhas e o céu do Arizona. Na sala da casa, Canção Estrelada mantinha um pequeno altar. Diferente da minha tradição cristã, na qual mantenho imagens de Jesus, Fátima e Francisco de Assis ou na casa de Li Tzu, o mestre taoista, onde vemos pequenas estátuas de Buda, Shiva e Ganesha pelo jardim de bonsais, no altar do xamã repousava uma pena de águia, uma garra de urso, seus animais de poder, o tambor de duas faces usados em seus cerimoniais, algumas pedras que ele, em respeito, reverenciava como “o ‘povo’ mais antigo, que traz toda a memória e a energia dos acontecimentos vividos no planeta desde tempos imemoriais”, além de muitas plantas. Eu entendia bem como funcionava toda a linguagem e a ritualística xamânica com as suas fortes e belas conexões telúricas. No entanto, algo me causava estranheza. Tratava-se de um sapato de palhaço, bem antigo, daqueles tradicionais, enorme, colorido e com o bico propositalmente aberto.

Os desertos do ser

 

Quando entrei no refeitório do mosteiro em busca de uma caneca cheia de café, percebi que o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, conversava com Valentina, uma jovem e bela monja da nossa irmandade. Ela é uma das poetisas mais talentosas da sua geração e, nas horas vagas, trabalha como engenheira em uma conhecida empresa aeroespacial. Eu tinha acabado de chegar ao mosteiro e não sabia que ela também estava lá para o seu período de estudos. Fiquei feliz em vê-la. Somente quando me aproximei foi que reparei as lágrimas escorrendo pela face da moça. Fiz menção em me afastar, mas ela sorriu ao me ver e me convidou para sentar com eles. Valentina brincou comigo ao dizer para eu não ter medo de mulheres que choram. Embora um pouco constrangido, sorri e balancei a cabeça ao afirmar que eu não tinha problemas com isso, apenas não queria atrapalhar a conversa. Ela insistiu para que eu sentasse. O Velho abriu um largo sorriso ao perceber que Valentina mantinha o bom-humor e a delicadeza apesar da dor, indicou com o queixo uma cadeira ao seu lado e disse: “Lágrimas são gotas que transbordam quando os mares do coração estão agitados”.

A fronteira entre a riqueza e a prosperidade

 

Um dos meus sócios na agência de publicidade conseguiu me localizar na única estalagem da pequena vila chinesa onde morava Li Tzu. Tanto o sinal do celular quanto a internet eram precários e intermitentes em razão da região, não raro, assolada por fortes ventanias. O recado deixado na recepção era claro: eu deveria retornar imediatamente das minhas férias e interromper os estudos do Tao Te Ching que fazia com o mestre taoista. Uma conhecida multinacional tinha nos procurado para fechar um vultoso contrato. Todavia, para atendê-la da melhor maneira, teríamos que rescindir os acordos com as pequenas e médias empresas que sempre foram uma base sólida para a agência. Toda a paz e a felicidade que eu estava sentindo nos estudos, na meditação e na prática da ioga, que iniciara naquela viagem, desapareceram por completo. Fiquei tenso e dividido entre ir e ficar; entre o risco de aceitar um negócio milionário que poderia despencar na variação dos interesses típicos de uma grande corporação, mas que, se mantido, me deixaria rico ou permanecer no atendimento às muitas firmas que nos acompanhavam desde o início da agência. Com os nervos exaltados, os sócios estavam divididos entre as opções. Acabei por discutir com um deles ao retornar a ligação.

Nos becos escuros do ciúme e da mentira

Os horários inusitados e irregulares de funcionamento da oficina de Loureiro, o elegante sapateiro amante dos livros e dos vinhos, já tinham virado lenda na charmosa cidadezinha localizada no sopé da montanha que acolhe o mosteiro. A única maneira de saber se o atelier estava aberto era ir até lá. Por isto, virar a esquina da estreita rua sinuosa, com calçamento de pedras, e me deparar com a sua clássica bicicleta encostada no poste em frente era motivo de alegria. Fui recebido com um sorriso sincero e um abraço forte. Eu disse que tinha ido em busca de uma boa conversa sobre um assunto que vinha me incomodando há tempos, o ciúme. Loureiro tinha no remendo do couro o ofício que executava com extrema habilidade; a costura de ideias era uma arte que ele trabalhava com rara mestria. O bom amigo decidiu encerrar o expediente, embora ainda estivéssemos no início da tarde, e me convidou para almoçar em um tranquilo restaurante próximo dali. Devidamente acomodados, o garçom completou as nossas taças com um delicioso tinto da região; logo em seguida, eu comecei a contar que ultimamente vinha tendo muitas brigas com a minha namorada em razão do ciúme que atormentava o relacionamento. Os desentendimentos vinham escalando de tom e as discussões estavam cada vez mais desgastantes. Confessei estar cansado de me sentir assim.

Inferno astral

 

Naquele ano, o período no qual passo um mês no mosteiro para estudo e reflexão coincidiu com a chegada de um grande número de membros, fato que me obrigou a dividir um quarto com outro monge, como denominamos todos os iniciados na Ordem. Tínhamos, eu e ele, hábitos bem distintos, entre os quais os horários de dormir e acordar. Eu me deitava mais cedo e me levantava bem antes dele. Por mais que tivéssemos cuidado, luzes e ruídos nos incomodavam mutuamente, ora a um, ora outro, a depender das horas. Isto, aos poucos, foi criando um desgaste em nosso convívio. Paralelamente, na véspera da minha viagem para o mosteiro, eu tivera um grande entrevero com os sócios da minha empresa por não concordar com a maneira com que eles administravam os seus departamentos. Eu tinha chegado aborrecido às montanhas. Como se não bastasse, há poucos dias, eu discutira com a minha namorada, pelo telefone, por não gostar de uma postagem que ela havia feito em uma rede social. Até que certa noite, com dificuldades para dormir, me senti incomodado com o abajur da cabeceira do colega de quarto, aceso para o auxílio na leitura, além do barulho que ele fazia tanto para ir ao banheiro quanto para comer ou beber alguma coisa. Acabei por repreendê-lo de maneira rude. Tivemos um desagradável bate-boca, que escalou a altos tons, fazendo com que monges de outros quartos viessem intervir para que não chegássemos às vias de fato. No dia seguinte, após os ofícios da manhã, procurei pelo Velho, o monge mais antigo da Ordem, para conversar. Encontrei-o, distraído e feliz, podando as roseiras do jardim interno do mosteiro. Falei que estava em um mau momento e precisava conversar. Ele guardou o alicate no bolso da túnica de lã, me ofereceu um sorriso repleto de compaixão e disse: “Eu estava à sua espera. Foi bom você ter vindo”. Olhou para o céu e sugeriu: “Acho que logo começará a chover. Vamos conversar em minha sala”.

A vida não é curta

 

Era sábado à noite quando o ônibus estacionou na singela vila chinesa onde mora Li Tzu. Deixei a minha mochila na única estalagem do lugar e fui para a casa do mestre taoista. Como sempre, o portão estava aberto e a pouca iluminação era fornecida apenas por muitas velas espalhadas por todos os cantos, inclusive, no belo jardim de bonsais. Meia-noite, o gato preto que também morava lá, na espreita, desconfiado, me acompanhou o tempo todo com os olhos. Chamei pelo mestre algumas vezes, mas não obtive resposta. O silêncio apenas era quebrado por uma melodia alegre que vinha de longe. Achei que era deselegante esperar por ele em sua casa e, como eu estava sem sono, me deixei guiar pelo som animado. Atravessei algumas ruas sinuosas sempre tendo os meus tímpanos como bússola, até que cheguei a um sobrado de onde surgia a música. Subi os degraus de madeira da escada estreita e me deparei com uma espécie de baile aberto ao público. Surpreendi-me com Li Tzu dançando uma animada canção em companhia de uma bela moça. Em seguida, ele foi conversar com um grupo de amigos que pareciam felizes pela maneira como riam e se abraçavam. Estranhei o comportamento do pacato e silencioso mestre taoista.

Um pouco sobre máscaras, roteiros e sombras

Eu e Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos, tínhamos acabado de assistir a um filme no único cinema da pequena e charmosa cidade localizada no sopé da montanha que acolhe o mosteiro. Fomos para uma agradável livraria que abriga uma cafeteria na parte dos fundos em busca de boa prosa e café. A fita narrava a história de Dayse e Giovani, casal de namorados na faixa dos cinquenta anos de idade; ambos já tinham passado por outros relacionamentos. Ele era um tranquilo professor de matemática em uma escola do ensino médio, praticante de judo e dedicado aprendiz de roteirista. O seu sonho era contar ao mundo as histórias que o povoavam desde sempre. Passava boa parte das horas de folga aplicado em suas escritas. Ela era uma mulher alegre que vivia da generosa pensão deixada pelo marido falecido há muitos anos. Era uma pessoa caridosa, sempre atenciosa às necessidades alheias, que também gostava de passear com a amigas e se divertir. Para muitos formavam um casal perfeito. No entanto, tinham uma relação intermitente, de idas e vindas. A causa era sempre a mesma: ela, por vezes, se mostrava irritadiça e mal-humorada, seja com o pouco carinho que recebia do namorado, seja pela vida quieta que levava ao lado dele. Giovani, então, preferia se afastar na certeza de que ela não era a pessoa com a qual deveria compartilhar a sua vida afetiva. Passado alguns dias ou semanas, a namorada o procurava como se nada tivesse acontecido e o relacionamento era reatado, mais por comodidade do que por amor. Isto aconteceu várias vezes e sempre pelo mesmo motivo. Quando do último afastamento, embora não fosse uma separação declarada, ele tomara a decisão de não mais voltar, pois tinha a convicção que, apesar de a moça possuir muitas virtudes, não a amava.  Uma relação sustentada apenas por comodidade acabava por ser prejudicial a ambos. Entretanto, dessa vez, por acaso, tomara conhecimento de que ela estava envolvida com outra pessoa. De outro lado, Dayse soube, através de terceiros, de que Geovani tinha ciência do seu novo romance. Ela enviou uma mensagem de que a história não era exatamente como aparentava, desmentiu o novo romance, afirmou que Geovani ainda tinha lugar cativo em seu coração e voltou a um discurso, muito comum a ela, de transparência e fidelidade. Ela sempre lamentara que o seu casamento anterior fora muito afetado pelos contantes casos de infidelidade do marido falecido e, por isto, não tolerava tais situações. Segundo ela, este era o motivo pelo qual acabou levando-a também a ter relações extraconjugais durante o matrimônio. Mas o fato, agora revelado, era inegável. Embora tenha sentido ciúme, ele entendia o momento dela, respeitava o seu direito em tentar ser feliz ao lado de outra pessoa e pensava que, cedo ou tarde, o melhor seria também se envolver com alguém. O problema é que resolveu passar na casa de Dayse para devolver alguns pertences que estavam consigo e para dizer que poderiam ser bons amigos. Para a sua total surpresa, foi recebido com extrema agressividade, sendo alvo de acusações vagas e desconexas. A mulher alegou que tudo aquilo tinha acontecido por causa dele, que odiava a vida pouco movimentava que levava ao seu lado e, por fim, que sentia desprezo por ele e que se enganara quanto ao amor que sempre dissera sentir. Giovani passou dias sem entender a razão de tamanha reação. Até que decidiu escrever um roteiro sobre essa história, com a finalidade de contá-la para si mesmo, na tentativa de entender o fundo da questão. Ocorre que esse se torna o primeiro roteiro que ele consegue vender a uma produtora. Na sessão de estreia reencontra com Dayse no saguão do cinema; ela, feliz, está acompanhada do seu novo namorado; ele, feliz, pela realização de um sonho. A cena final é uma troca se sorrisos entre os dois, deixando ao expectador a conclusão que melhor aprouver.

A minha cidade

 

Naquele ano, quando entrei no mosteiro para mais um período de estudos, eu estava desiludido com a humanidade. Logo que encontrei com o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, ele me perguntou o motivo de eu estar abatido e com os ombros curvados. “Parece que carrega o peso do mundo nas costas”, comentou. Falei que andava desanimado diante tanto egoísmo e agressividade. Comentei que cogitava a possibilidade de mudar de cidade, pois aquela onde eu morava se mostrava inabitável. Acrescentei que era mal administrada, as pessoas só pensavam nelas mesmas e não mediam os meios de atingir os seus objetivos. O bom monge disse: “A violência sob qualquer aspecto é muito ruim. De outro lado, pensar em si mesmo é muito bom, desde que tenha o carinho de compartilhar o melhor que encontrar. Cada pessoa deve ser administrada como a uma cidade. Os sentimentos são como indivíduos; devem circulam livremente. Como nem sempre estão bem orientados ou têm moradia segura, devemos cuidar deles para que encontrem o devido lugar e a merecida tranquilidade. As reformas estruturais precisam de atenção constante para não impedir o progresso. Os becos escuros devem ser iluminados para que dali não surjam surpresas desagradáveis. As ideias, tais como cidadãos livres, muitas vezes entrarão em conflito e devem ser colocadas para dialogar até encontrarem a perfeita comunhão. Por fim, e não menos importante, os portões da cidade devem estar sempre abertos para quem quiser ou precisar entrar, mesmo que de início causem algum desconforto. Não podemos esquecer que são as dificuldades, quando tratadas com amor e sabedoria, que acabam por trazer as indispensáveis melhorias”.  Fez uma pequena pausa antes de prosseguir: “Uma cidade abandonada se torna imprestável”. Olhou-me nos olhos e falou: “Assim acontece conosco quando damos mais valor ao que existe fora do que dentro da gente. Cada qual mora na cidade que constrói dentro de si”.

Metades

 

A casa de Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom de transmitir a sabedoria ancestral do seu povo através da palavra, estava vazia quando entrei. Como o bule de café ainda estava quente, me servi de uma caneca e fui para a varanda. Uma simpática vizinha me informou que ele estava em uma escola próxima dali, ministrando uma animada palestra para uma turma de adolescentes. Quando entrei no auditório, uma jovem, de olhos perspicazes, perguntava a ele qual a razão da nossa existência. O xamã respondeu de pronto: “Evoluir, simplesmente evoluir”. A moça, longe de se dar por satisfeita com a resposta, indagou sobre o significado da evolução. Canção Estrelada arqueou os lábios em leve sorriso e disse: “Evoluir é ampliar o nível de consciência e expandir a capacidade de amar. O amor é o sentido da vida. No entanto, pelo seu enorme poder e complexidade, precisamos da sabedoria para nos orientar nessa conquista”. Deu uma pequena pausa e concluiu: “Embora o amor seja a nossa essência, conhecemos muito pouco sobre o amor”. A jovem insistiu em seus questionamentos e quis saber qual era a conquista a que o xamã se referia. Atencioso, ele respondeu: “Se o amor é a razão da vida e a essência de cada um de nós, a conquista a que me refiro é quanto à parte não revelada; ao outro que somos e desconhecemos”. Como todo bom contador de histórias, deu uma pausa dramática e disparou: “Metade de mim eu sei quem é, a outra parte ainda é um enigma”.

A arte de ajudar os outros

 

Eu e Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos, tínhamos acabado de almoçar em um dos nossos restaurantes preferidos na pequena e charmosa cidade localizada no sopé da montanha que abriga o mosteiro. Por saber que ainda conversaríamos por um bom tempo, o garçom, um velho conhecido, deixou um bule de café fresco em nossa mesa, quando fomos surpreendidos por Paola, uma sobrinha querida do artesão. Ela tinha entrado no restaurante apenas para tomar um café e divagar sobre algumas questões pessoais e ficou feliz em nos encontrar. Sentou-se conosco e disse que era bom estarmos ali, pois queria ouvir o que o tio pensava a respeito de algo que a chateava nos últimos meses. Fiz menção em deixá-los a sós, mas Paola, gentil, falou que não era necessário. Em seguida, contou que, como o tio já sabia, namorava com Giovani por quase quatro anos. O primeiro período tinha sido de muitas alegrias e descobertas, viagens e total sintonia. Com o passar do tempo tudo parecia desandar e os desentendimentos eram cada vez mais constantes.

Além do fim do túnel

 

Ao lado de Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos, buscávamos um restaurante que ainda servisse almoço no meio da tarde. Tinha chovido forte durante todo o dia. Aproveitamos a esteada para singrarmos as ruas estreitas e tortas da pequena e charmosa cidade localizada no sopé da montanha que acolhe o mosteiro. As pesadas nuvens deixavam o céu escuro e fizeram com que os lampiões se acendessem mais cedo do que de costume. Conversávamos de maneira alegre e vadia, como dois amigos que se sentem felizes pelo simples fato de estarem juntos, enquanto desviávamos das poças d’água formadas no calçamento contruído com pedras seculares. Ao entrarmos no restaurante nos deparamos com Carlo, um amigo em comum. Tomamos um susto. Nem de longe parecia aquele homem confiante, bonito e bem cuidado que estávamos acostumados a ver. Tínhamos nos encontrado há menos de um mês e ele aparentava estar muito bem. Naquele dia era o reverso da pessoa que conhecíamos. Carlo estava abatido, encurvado, sem viço, parecia um espectro de si mesmo.

Uma viagem entre o Tao e a Fé

 

Li Tzu, o mestre taoista, pediu para que eu chegasse cedo em sua casa. Quando saí da estalagem o céu era um manto salpicado de estrelas. Andei pelas ruas da vila chinesa encantado com a beleza oferecida pela Via Láctea, perdido em ilações quanto aos infinitos mundos existentes no universo. Encontrei Li Tzu finalizando a sua meditação diária. Ele estendeu dois tapetes para que eu o acompanhasse em seus exercícios de ioga. Meia-noite, o gato preto que também morava na casa, nos observava com um olhar preguiçoso. Claro que eu fiquei bem aquém das posições complexas conseguidas pelo sereno ancião chinês. Ao final, nos dirigimos para a cozinha e me sentei à mesa, enquanto ele nos servia um saboroso chá. Perguntei, para puxar assunto, se ele tinha o hábito de olhar para o céu e pensar em todo o mistério que envolve as estrelas. Ele me olhou com curiosidade, como seu eu lhe perguntasse o óbvio, e disse: “Entender o todo ajuda a saber quem sou; me conhecer faz com que eu sinta o poder do todo em mim”.

Um fiel carcereiro

Era domingo. Aproveitei a carona do caminhão que entregava leite no mosteiro e desci rumo à pequena e charmosa cidade localizada no sopé da montanha. Eu queria assistir à missa em sua bela catedral gótica, em frente à praça. O dia ainda amanhecia enquanto eu andava pelas ruas sinuosas calçadas com pedras seculares, ouvindo o barulho dos meus passos, tamanho era o silêncio, em busca de uma caneca de café para acordar os pensamentos. Arrisquei passar na oficina de Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos, onde os horários inusitados de funcionamento eram tão famosos quanto a boa prosa do seu proprietário. Sorri comigo mesmo ao ver a clássica bicicleta de Loureiro encostada no poste. Quando entrei na loja fiquei surpreso ao encontrar uma mulher sentada ao balcão, ao lado do artesão, entre café e lágrimas. Fiz menção em dar meia-volta, mas o sapateiro ofereceu um sorriso sincero quando me viu e convidou para sentar com eles. Fomos apresentados e Loureiro, sempre gentil, logo colocou uma xícara fumegante com café fresco nas minhas mãos. Nancy era uma pediatra muito requisitada e querida na cidade. Ela foi muito simpática e não se incomodou de eu participar da conversa. Apesar de ser uma mulher em idade madura e inteligente, sofria muito em seus relacionamentos afetivos. O ciúme a atormentava desde a adolescência quando começou a namorar.

O sal da terra

 

Encontrei o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, por acaso, do lado de fora dos muros do mosteiro. Ele voltava de um passeio na floresta localizada no arredor. Como havia chovido nos dias anteriores e o sol reaparecera, aquela manhã estava perfeita para a colheita dos cogumelos que germinam aos pés dos carvalhos. Provavelmente, à noite, teríamos a sua famosa sopa. Eu tinha saído para fumar um cigarro. Como sempre, o monge estava bem-humorado, no bom equilíbrio entre a alegria e a serenidade. Cumprimentou-me com um sorriso sincero, mostrou a cesta repleta de cogumelos e comentou que a colheita tinha sido proveitosa. Não teceu qualquer comentário a respeito do cigarro. Quando ele fez menção de prosseguir para atravessar os portões do mosteiro, eu comentei que voltara a fumar para não me suicidar. O Velho apenas comentou: “Trágico, não”? E seguiu. Logo adiante, deu uma pequena parada, se virou e disse: “Estarei na cantina”. Piscou um olho como quem conta um segredo e falou: “Ouvi dizer que um bom café é perfeito após o cigarro”. E tornou a seguir. Com os olhos acompanhei os seus passos lentos, porém, firmes, até desaparecer por entre os muros.

A carta de Paulo

 

Uma palestra proferida pelo Velho, como era carinhosamente chamado o monge mais antigo do mosteiro, para os demais membros da Ordem, tinha abordado sobre a indispensabilidade do amor como elemento essencial às demais virtudes, além da sua enorme força de transformação. Como era costume, ao final, iniciamos os debates. Frank pediu a palavra. Ele era um jovem membro da OEMM – Ordem Esotérica dos Monges da Montanha –, filho de um dos fundadores, já falecido. Apesar da pouca idade, mal completara trinta anos, tinha graduação em jornalismo, completara o mestrado e o doutorado em sua área de atuação profissional e possuía um discurso articulado e culto. Recentemente, em razão da crise econômica enfrentada pelo país em que morava, fora demitido de um grande jornal impresso, no qual respondia pelo caderno cultural. Frank argumentou ser prejudicial para uma pessoa o excesso de virtudes. Explicou que vivíamos em um mundo injusto, habitado por pessoas imperfeitas, gerando relações humanas complicadas e conflitantes. Acrescentou que para sobreviver na selva, como denominou a civilização contemporânea, era imprescindível uma boa dose de maldade.

A maratona

 

Eu estava de volta na pequena vila chinesa, encravada no Himalaia, próxima ao Butão. Queria estudar um pouco mais com Li Tzu, o mestre taoista. O ônibus tinha me deixado muito cedo na única estalagem local e como só haveria quartos disponíveis depois do meio-dia, deixei a minha mochila e segui para a casa de Li Tzu, na esperança de acompanhá-lo em um bom chá quente. O sol se apresentava em raios tímidos e quase não havia pessoas nas ruas. O portão da casa do mestre taoista nunca era trancado. Entrei sem fazer barulho. Senti o perfume do incenso e uma paz absoluta. Encontrei Li Tzu sobre um pequeno tapete, estendido no jardim de bonsais, fazendo complicados exercícios de ioga. Um gato preto, chamado Meia-noite, que também morava na casa, deitado ao lado, observava a tudo, preguiçosamente. Fui recebido com um sorriso sincero e sem cessar a sua prática, o mestre taoista disse para eu me servir de chá. Fui à cozinha; sobre o fogão havia um bule com uma mistura deliciosa de ervas e flores em infusão. Voltei com uma xícara cheia, me sentei ao seu lado e ofereci para tocar uma música no meu celular para acompanhar a ioga. Li Tzu disse: “Agradeço, mas aprecio a voz do silêncio. Já há muitos ruídos e barulhos durante o dia. Não quero perder essa iguaria que o amanhecer me permite”. Foi impossível não perceber as difíceis posturas de ioga executadas pelo mestre taoista, mormente em razão da sua idade. Ele tinha sido colega de faculdade do Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, em uma prestigiosa universidade inglesa, quando ambos eram jovens. Comentei isso enquanto, sentados à mesa, fazíamos o desjejum. Embora a alimentação de Li Tzu fosse frugal e o seu corpo, magro; as suas feições esbanjavam saúde, além de extrema serenidade. Acrescentei que, apesar de ser bem mais moço, eu não seria capaz de realizar nenhum daqueles exercícios. Ele me olhou como a uma criança e explicou: “O Tao nos ensina que tudo é possível. O Tao vem do céu e estamos sob o céu”.

A beleza de ser único

 

Canção Estrelada, o xamã que tinha dom de perpetuar a filosofia do seu povo através da palavra, cantada ou não, rufava o seu tambor de duas faces em melodia sentida enquanto o dia amanhecia. A música era uma oração de comunhão pela alegria de nos sentirmos parte essencial do universo e, em resposta, todo esse poder vibrava em nosso ser. Apagamos a fogueira e descemos a montanha. Quando chegamos à casa do xamã, um dos habitantes da aldeia o aguardava para pedir ajuda. Ele estava muito triste com o seu filho, sempre inseguro e medroso, bem diferente dos outros garotos da sua idade e do próprio pai. Lamentou que o menino tivesse nascido covarde. Canção Estrelada o convidou para sentar na varanda, nos serviu café, acendeu, sem pressa, o seu inseparável cachimbo com fornilho de pedra vermelha enquanto ouvia o pai explicar que o filho estava com treze anos e em breve teriam na aldeia o ritual de passagem para a vida adulta, o Cerimonial de Iniciação, cuja prova principal eram os combates corpo a corpo entre os garotos como demonstrações de coragem e habilidade. O xamã baforou o cachimbo e disse: “Ninguém nasce fraco; ser forte é uma escolha permitida a todos. No entanto, conhecer a própria força é a raiz da magia pessoal; perceber a dimensão e o poder do universo em si e diante de si alimenta a coragem, ensina sobre a humildade e transforma o ser. Traga-o aqui amanhã”.

Os seres-pássaro

 

 

Encontrei com o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, sentado na agradável varanda do mosteiro com o olhar perdido nas maravilhosas montanhas dos arredores. Ofereci uma xícara de café e ele aceitou com um sorriso. Quando coloquei a caneca na pequena mesa ao seu lado fui convidado para sentar. Ele quis saber se algo me preocupava. Neguei. O monge, então, me perguntou a razão dos meus olhos tristes. Era difícil esconder os sentimentos da percepção apurada do Velho. Acomodei-me na poltrona ao lado e contei que eu tinha começado a namorar uma mulher que ocupava um cargo importante na empresa com a qual a minha agência de publicidade tinha assinado um vultuoso contrato. Tínhamos nos conhecido durante as reuniões para o fechamento do negócio. O namoro evoluiu bem até que perdeu o encanto para mim sem nenhuma razão específica. Ela era uma mulher bonita, inteligente e meiga. Nossas conversas eram doces como os seus beijos. No entanto, algo havia esmorecido em meu coração. Quando encerrei o relacionamento ela acusou de ter me envolvido por interesse comercial ao invés de por sincera afeição. Eu estava triste porque não queria que ela tivesse aquela imagem de mim.

Aqui e agora

 

Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos, encheu as nossas canecas com café fresco para iniciarmos uma conversa vadia quando fomos surpreendidos por Zinedine, um simpático artista plástico local, que se dedicava a esculpir peças em bronze. Embora tivesse talento e sensibilidade, a maior parte das suas obras estavam inacabadas. Ora porque enquanto esculpia uma peça era tomado por outra ideia, que considerava melhor, e abandonava a anterior; noutras vezes largava o trabalho no meio por não o considerar suficientemente bom. O tempo parecia lhe passar com rapidez, esgotando a herança deixada pela família. Tinha grande urgência de que a arte passasse a ser também um ofício e fonte do seu sustento, fato que o deixava cada vez mais agoniado. Contou que acabara de chegar de uma viagem e, embora tivesse sido bem agradável, confessou que a partir de determinado momento sentiu saudades de casa. Ocorre que passados alguns dias do regresso, já tinha sido tomado por uma enorme vontade em tornar a viajar. Loureiro ofereceu a ele uma xícara de café e disse: “Viajar pode ter um efeito parecido a renovar o guarda-roupa da alma ao nos depararmos com outras culturas: maneiras diferentes de ser na vida e estar no mundo. Isto amplia as possibilidades e indica rumos nunca antes imaginados, o que é maravilhoso. Como somente sentimos saudades do que é bom, revela que em casa introduzimos ao cotidiano os hábitos que nos agradam e alegram. Se ao estar fora, depois de um determinado momento, você não sente falta da sua casa e rotina, revela que há algo de errado em suas escolhas ou que ainda não sabe onde é a sua casa nem entendeu a rotina que deve construir para si. A viagem tem o poder de nos revelar o caminho de casa”, deu uma pequena pausa antes de concluir: “Em todos os sentidos”.

A barganha

 

Era um domingo de primavera, eu e o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, tínhamos ido à pequena e charmosa cidade que fica ao sopé da montanha que acolhe o mosteiro para assistir à missa. Não raro, o Velho era convidado pelo pároco local, seu amigo pessoal, a falar sobre algum assunto. Perguntei sobre qual tema dissertaria naquela manhã, ele me respondeu que ainda não sabia. Como tínhamos chegado cedo, aguardávamos sentados em um enorme banco de madeira na praça em frente à igreja aproveitando o sol que nos aquecia, enquanto as crianças, levadas pelos pais, corriam em alegre algazarra. Dois homens pediram licença de maneira educada e dividiram o banco conosco. Logo, começaram a conversar entre eles. Percebi que o Velho, disfarçadamente, prestava atenção à conversa e o repreendi com um olhar severo. Ele riu com jeito maroto e continuou. Acabou que também comecei a prestar atenção ao papo dos dois. Um deles confessou ao outro de que os negócios não iam bem. Nem de longe andavam como no passado. Sério, disse que tinha feito uma aposta na loteria cujo prêmio estava acumulado em muitos milhões e, se fosse o ganhador, jurou que adotaria uma criança. Acrescentou que os seus filhos já estavam encaminhados na vida e talvez fosse a hora de dar esse passo. No entanto, somente o faria com a devida tranquilidade financeira. O colega concordou e lembrou dos altos custos em criar uma criança. Falou que também tinha apostado naquela extração da loteria. Se o premiado fosse ele, não chegaria ao ponto da adoção, mas também jurou fazer um vultuoso aporte econômico em prol de alguma instituição filantrópica. Logo os sinos começaram a chamar para a missa e a grande maioria das pessoas que estavam na praça se dirigiram para a igreja.

Pequenas grandes coisas

 

Acordei antes do sol e fui até a varanda da casa de Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom de semear a sabedoria do seu povo através da palavra e da música, onde eu estava hospedado. Ele estava sentado em uma cadeira de balanço e tinha os olhos fixos no Leste, “a casa da águia”, como costumava falar, à espera do amanhecer. Me serviu uma xícara de café e continuou a colocar fumo no fornilho de pedra vermelha do seu indefectível cachimbo. Baforou algumas vezes e, em seguida, pegou o seu tambor de duas faces para entoar uma sentida canção no dialeto nativo que, em tradução não-literal, significa “Os ciclos da vida”, na qual agradece ao Grande Espírito as infinitas oportunidades oferecidas a cada dia para se renovar e prosseguir na Longa Estrada Dourada. Não muito tempo depois, ainda envolvidos em nossas preces e reflexões, fomos interrompidos pela irmã do xamã, acompanhada por seu filho caçula, que acabara de entrar na vida adulta. Ela veio pedir que o irmão aconselhasse o jovem, que embora muito inteligente, andava desinteressado pelos afazeres simples do cotidiano por se considerar predestinado a realizar algo grandioso. Isto também o tornara relapso no trato com os outros, pois, no seu entendimento, as pessoas não eram capazes de compreender a sua enorme capacidade e o seu brilhante destino. Canção Estrelada apenas fechou os olhos e balançou de leve a cabeça como maneira de dizer que entendia e estava disposto a atender ao pedido. A irmã sorriu em agradecimento e se retirou. Eu quis saber se também deveria sair, mas ele fez um gesto com a mão de que não era necessário. O xamã fechou os olhos e se manteve em silêncio. Impaciente, o jovem não parava de se mexer na cadeira, até que disse que aquilo era pura perda de tempo. Canção Estrelada olhou o sobrinho com doçura e começou a contar uma história:

Encontro marcado

 

O Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, me repreendeu apenas com o olhar, sem dizer palavra. Eu estava no jardim interno do mosteiro falando ao celular, quando apenas é permitido usá-lo à noite, no quarto, para não desperdiçarmos o melhor da vivência oferecida no mosteiro. A OEMM – Ordem Esotérica dos Monges da Montanha – é uma irmandade secular dedicada ao estudo da filosofia e da metafísica. Os monges e aprendizes, como são denominados os seus membros, têm o compromisso de passar ao menos um mês por ano no mosteiro para estudos, debates e reflexões. Após, retornam às suas casas, famílias, trabalhos e atividades rotineiras tentando aplicar o aprendizado assimilado. O conhecimento apenas se transforma em sabedoria quando utilizado em nossos relacionamentos no dia a dia; caso contrário, não passará de uma ferramenta enferrujada por inutilidade. Encerrei a ligação e fui me desculpar com o monge. Expliquei que estava prestes a fechar um importante contrato para a minha agência e precisava tomar algumas precauções. Confessei a tensão que me envolvia, pois temia ser passado para trás, como ocorrera em outra ocasião, embora envolvessem diferentes pessoas. O Velho apenas ouviu as minhas explicações e nada falou.

Como se não bastasse, eu andava disperso naqueles dias. Outro motivo de preocupação era o ciúme que sentia da minha nova namorada. Ela era uma atriz de teatro e estava em cartaz com uma peça de grande sucesso. Muitas pessoas a procuravam para cumprimentar e conversar, fato que me causava insegurança, agravada pela sua beleza, simpatia e talento. Contei tudo isso ao Velho quando fui convidado para uma conversa na varanda do mosteiro, emoldurada pelas belas montanhas que o acolhem. A minha falta de concentração acabaria por desperdiçar a estadia daquele ano, caso eu não revertesse a situação. Acabei por tornar ao assunto da ligação do dia anterior na tentativa de justificar o distanciamento. O Velho ouviu todas as minhas queixas com paciência e, ao final, citou uma passagem do Sermão da Montanha: “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a face de Deus”. Em seguida comentou: “Percebe que a ausência de uma única virtude, no caso me refiro à pureza, tem o poder de anular todas as demais virtudes e furtar a sua paz?”.

Uma delicada virtude

 

Os fortes ventos do final do outono anunciavam a chegada do inverno e assolavam a pequena e charmosa cidade que fica no sopé da montanha que acolhe o mosteiro. Eu caminhava por suas ruas sinuosas tentando me proteger do frio, quando avistei a clássica bicicleta de Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos, encostada no poste em frente ao atelier. Fui recebido com alegria e uma caneca de café. Sentados ao antigo balcão de madeira, íamos começar uma conversa vadia quando um sobrinho do artesão entrou na oficina em busca de abrigo e prosa. O jovem realizara uma audiência em seu tumultuado processo de divórcio no singelo fórum da cidade e o trem que o levaria de volta para a cidade, onde agora morava, apenas partiria ao anoitecer. Ele estava bastante chateado e logo começou a desabafar com o tio sobre a enorme aporrinhação que o divórcio lhe causava. Tudo por causa da separação de bens. Explicou que a ex-mulher se negava a reconhecer os seus direitos e a entregar o que era seu por justiça. Disse que a lei era clara e definia o que pertencia a cada um. O artesão interrompeu com um sutil comentário: “A lei pode ser clara, a justiça nem tanto”.

As maravilhas da dúvida

 

“Qual é a coisa certa?”, me perguntou o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, como fazia Sócrates, o filósofo grego, que devolvia uma pergunta com outra como método de raciocínio. Estávamos sentados na cantina do mosteiro diante de uma caneca de café e um pedaço de bolo de aveia. Desde sempre eu me sentia desconfortável com uma série de dilemas do cotidiano. De questões políticas e sociais que, de alguma maneira, atingem a todos até incertezas quanto à minha vida pessoal, como trocar de namorada, trabalho, cidade ou estilo de vida. Argumentei que a todo instante nos deparamos com dúvidas que nos incomodam em diferentes escalas, algumas são banais, outras muito sérias. O ruim é que as dúvidas causam enorme desconforto. Para piorar, em face das minhas incertezas eu me deparava com pessoas de opiniões divergentes, contra ou a favor, ambas convictas de suas posições e apresentando fortes argumentos. Falei que queria me livrar do incômodo da dúvida e saber sempre a coisa certa a fazer. Então, veio a pergunta do Velho sobre qual era a coisa certa. Respondi que se eu perguntei era porque não sabia e precisava de uma resposta. O monge bebeu um gole de café e disse: “A minha resposta desenha a minha verdade, não necessariamente a sua. É necessário que você se esforce para encontrar aquela que irá lhe completar, por isto o desconforto. Bendita seja a dúvida!”.

O esconderijo do mal

 

Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom de transmitir a sabedoria ancestral do seu povo através das músicas e das histórias que contava, acendeu o fornilho de pedra vermelha do seu indefectível cachimbo e deu uma baforada. Era um final de tarde de outono, estávamos sentados na varanda da sua casa e nos cobríamos com mantas coloridas para afastar o frio típico das montanhas do Arizona nessa época do ano. Eu tinha acabado de chegar de viagem e a primeira coisa que o xamã me perguntou, logo após aos cumprimentos, foi o motivo pelo qual eu “parecia carregar tanto peso nas costas”. Sim, era verdade, eu estava mal. Dei um sorriso amarelo como quem é visto sem as roupas do personagem que criamos para interpretar quem não somos nos palcos da vida e declarei que o mundo não era um bom lugar para se viver. Em seguida narrei alguns problemas que enfrentava em razão do posicionamento absurdo de algumas pessoas contrários aos meus. Sentenciei que, sem dúvida, o planeta é habitado por gente atrasada, insensível e ruim.

Assim nascem as asas

 

Chovia muito e eu apressei o passo. Me alegrei assim que dobrei a esquina da rua estreita e sinuosa onde se localiza a oficina de Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos. Vi a sua clássica bicicleta encostada ao poste. Ao entrar na loja uma profusão de perfumes, cheiros de couro e café fresco se misturavam ao de flores. Foi uma grata surpresa encontrar Valentina sentada ao balcão. Ela tinha acabado de chegar. Embora também fosse monja da Ordem, nem sempre nos encontrávamos no mosteiro, uma vez que o compromisso assumido por todos os integrantes da irmandade é o de passar um mês ao ano para estudos, debates e reflexão. Nossas datas andaram desencontradas nos últimos tempos. Valentina tinha a poesia como arte, a engenharia como ofício. Eu a considerava uma poetisa singular, expoente da sua geração. Fui recebido com alegria por ambos. Logo estava sentado com uma caneca fumegante à minha frente. Perguntei pelo próximo livro e ela contou que terminava uma coletânea de poemas sobre o amor. Falou que pensava em dividir a obra em duas partes; em uma abordaria as mágoas provocadas pelo amor, enquanto a outra mostraria o poder encantador do amor. Comentei que a dor era a parte podre do amor. Ela concordou, quando fomos interrompidos pelo sapateiro: “Vocês entendem muito pouco sobre o amor.”

A porta estreita

 

O Sermão da Montanha é o eixo central dos estudos da Ordem, todos os demais textos, oriundos das mais diversas tradições filosóficas e metafísicas, são variantes a aprofundar e colorir esse valioso pensamento. Eu estava sentado em uma confortável poltrona na biblioteca do mosteiro, com o olhar perdido na bela paisagem oferecida por suas janelas, refletindo sobre as palavras proferidas nas colinas de Kurun Hattin, quando fui surpreendido pelo Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem. Ele trouxe da cantina duas canecas com café, colocou uma delas na pequena mesa ao meu lado e foi escolher um livro nas prateleiras. Sorri em agradecimento à gentileza e o convidei para sentar na poltrona à minha frente. Aproveitaria que estávamos a sós para conversarmos um pouco. Ele aceitou, se acomodou, bebeu um gole de café e quis saber o que eu estava lendo. Respondi que lia esse precioso legado filosófico, mais precisamente a parte em que falava sobre a porta estreita. “Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçosa é a estrada que conduz à perdição e numerosos são os que por aí entram. Estreita, porém, é a porta e difícil o caminho da vida e raro são os que o encontram”, li o pequeníssimo trecho. Comentei que o texto poderia ser um pouco mais extenso para fornecer mais detalhes e explicações quanto ao seu conteúdo. O Velho balançou a cabeça e disse: “O texto está perfeito em sua concisão. Lembre que ele foi elaborado não para alguns, mas para todos. É preciso que, ao seu modo, atinja os mais diversos níveis de consciência. Cada qual encontrará a profundidade a que estiver disposto a mergulhar. O Sermão da Montanha é o Código do Caminho, porém respeito quem o veja como uma grande bobagem”.

A lei da ação e reação

 

Eu tinha ido encontrar o Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos, em uma agradável taberna próxima à sua oficina. Logo após o garçom encher as nossas taças foi inevitável não desviarmos a atenção para a mesa ao lado. Um casal começou a discutir um pouco acima do tom até que a moça se levantou, disse ao rapaz que “tudo é ação e reação” e foi embora. Ficamos alguns minutos em silêncio até que o artesão comentou displicente: “As leis da vida são inexoráveis”. Eu o corrigi, acrescentando que a Lei da Ação e Reação era uma lei da Física, mais precisamente uma das três Leis do Movimento de Isaac Newton, renomado físico inglês. Com ar professoral, expliquei que para toda ação existe uma reação de igual intensidade e sentido contrário. Loureiro me olhou com doçura como quem está diante de uma criança exibida e disse: “Exato. Por ser uma lei da Física trata-se de uma lei do Universo; logo uma lei da vida, que atinge não apenas coisas e objetos, mas os relacionamentos e define o destino próximo de cada pessoa. Como uma sábia e amorosa bordadeira, o Universo tece a teia da vida de todos nós usando as leis como trama para que não reste nenhum fio solto”. Fiquei alguns instantes refletindo sobre aquelas palavras até que me dei por vencido e confessei que não tinha entendido todo o sentido do raciocínio.

O campo de batalha

 

O céu tinha amanhecido azul após dias cinzentos de muita chuva. Todos pareciam alegres no mosteiro, menos eu. Um dilema pessoal me corroía e furtava a minha paz. Sentado na cantina divagava a minha dúvida diante de uma xícara de café e um pedaço de bolo de aveia quando tive os pensamentos interrompidos pelo Velho, como chamávamos o monge mais antigo da Ordem. Ele me convidou para ajudá-lo a colher cogumelos na floresta no arredor do mosteiro. Explicou que o sol forte após os dias chuvosos era perfeito para a germinação dessas iguarias aos pés dos carvalhos da montanha. Acrescentou que pretendia fazer a sua famosa sopa de cogumelos no jantar. Logo que entramos em uma trilha o monge disse perceber a minha agonia e perguntou qual era o motivo. Expliquei que um grande amigo tinha me convidado para acompanhá-lo durante as férias em um acampamento de refugiados na África. Ele fazia parte de uma organização internacional de médicos que prestava atendimento em várias regiões do planeta onde havia carência de cuidados pela manutenção da vida. O Velho se virou para mim enquanto andava com seus passos lentos, porém firmes, e disse: “É um serviço maravilhoso e indispensável prestado por esses homens e mulheres, médicos ou não, no esforço de levar um pouco de conforto e muita cura em lugares onde há ausência de condições básicas de sobrevivência. Eu estive em um desses acampamentos anos atrás, durante uma insensata guerra local e me confesso encantado com a compaixão, a misericórdia e a generosidade depositada em forma de amor incondicional. Apesar de tanta dor e sofrimento, você entende a grandeza da vida e as maravilhas da superação no esforço de fazer diferente e melhor”.

Expliquei que esse era o meu dilema. Eu entendia a beleza desse trabalho, no entanto, me confessei sem vontade de ir. Essa divisão interna me agoniava. Perguntei se eu estava errado em recusar o convite e a oportunidade. O Velho parou, me olhou com doçura. procurou uma pedra banhada em sol, pois a manhã ainda estava fria e se sentou. Depois, disse: “De jeito nenhum. Se afaste da dualidade aparente entre o certo e o errado. Cada um elege as escolhas de acordo com aprimoramento das virtudes que já lhe são inerentes. Essas decisões também sofrem influências do dom, do carma e do darma. Há que se ter entendimento e respeito por si e por todos; cada qual tem o seu campo de batalha. Para cada coração uma viagem está reservada”.

Os tons da prudência

 

Quando dobrei a esquina para entrar na estreita rua onde se localizava a oficina de Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos, me alegrei ao avistar a sua clássica bicicleta encostada no poste. Era cedo, o sol acabara de surgir para evaporar o sereno que umedece o calçamento de pedras em agradável sensação de andar por entre as brumas. Fui à oficina em busca de café e um pouco de prosa vadia. Ao entrar me deparei com outros amigos do artesão. Sentados, enquanto Loureiro lhes enchia as xícaras, eles estavam reunidos em uma espécie de assembleia informal. O sapateiro me recebeu com a alegria habitual, me acomodou sentado sobre uma caixa de madeira e logo me entregou uma caneca fumegante para afastar o frio da manhã e acordar as ideias. Aqueles homens tinham entre si uma amizade que os unia há muito tempo. Ele me explicou que a turma teve mais um integrante, René, o dono da mais tradicional banca de revistas da cidade, falecido há pouco. Em frente à banca, todos os dias, bem cedo, esses amigos se reuniram durante anos para conversar sobre qualquer assunto enquanto aguardavam o jornal do dia chegar. Era um ritual que fazia parte da história de todos eles. O filho do jornaleiro tinha assumido o negócio, ainda durante o tratamento do pai, mas agora, em razão de uma dívida, o distribuidor se negava a entregar novos jornais e revistas. Sem renovar o material para trabalhar a banca estava prestes a fechar. O filho os procurara em busca de dinheiro emprestado para quitar o débito e evitar que o tradicional negócio cerrasse as portas. O problema é que o filho, que morara fora por muito tempo, não tinha boa fama na cidade.

De volta para a casa

 

Quando virei a esquina e não vi a clássica bicicleta de Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos, encostada no poste em frente à sua oficina, pensei que não estava com sorte naquele dia. Os horários improváveis e inusitados de funcionamento da sapataria já tinham virado lenda na pequena e charmosa cidade que fica ao sopé da montanha que acolhe o mosteiro. Eu estava triste. Desde sempre, o meu relacionamento com a minha mãe tinha sido complicado, como se amor e mágoa se alternassem no palco da vida, gerando memórias que acabavam por atrapalhar os dias a serem vividos. Tínhamos tido mais uma discussão e eu queria encontrar com o bom artesão. Eu precisava falar para lembrar o que já sabia e ouvir para aprender o que ainda não sabia. Era a hora do almoço e decidi ir a uma agradável cantina perto dali. Como se o acaso existisse, quando entro no restaurante me deparo com o sapateiro sentado à mesa com uma mulher mais jovem que ele. Eu não a conhecia. Quando me aproximei percebi que eles estavam de mãos dadas e tinham as faces molhadas em lágrimas. Recuei, mas ele me viu, abriu um sincero sorriso e me chamou. Me presenteou com um forte abraço e me apresentou a moça. Era a sua filha mais nova. Ela tinha saído muito cedo de casa, após muitas brigas com o pai, abandonara a universidade sem a devida conclusão e ficara anos sem dar notícias. Eu conhecia a história e sabia que Loureiro a procurara por muito tempo sem sucesso. Ela acabara de voltar. A alegria pelo reencontro transbordava em ambos.

A estação

 

Na pequena e charmosa cidade que fica no sopé da montanha que acolhe o mosteiro há uma secular estação de trem. Estávamos, eu e o Loureiro, o elegante sapateiro amante dos vinhos e dos livros, sentados em um antigo banco de madeira à espera de sua sobrinha, que a pedido da mãe, uma das irmãs do artesão, passaria alguns dias com o tio, na tentativa de ajudá-la a dissolver a angústia que a abatia. Era muito cedo e o sol ainda não ganhara força para afastar o frio da madrugada. Percebi que ele estava encantado com todo aquele movimento de chegadas e partidas, típico de qualquer estação. Antes que eu lhe indagasse sobre o assunto, surgiu a sua sobrinha. Era uma moça na casa dos trinta anos. Muito bonita, porém, bastante abatida. Eles trocaram um abraço forte, como fazem os que se amam ao se encontrarem. Fomos apresentados e ela foi muito gentil. A jovem disse que precisava de um café. Fomos a uma cafeteria ali mesmo. Quando a simpática garçonete colocou sobre a mesa as canecas fumegantes acompanhadas de pão quente com o delicioso queijo da região, a sobrinha abriu o coração. Lamentou que a vida tinha virado ao avesso.

Beleza oculta

 

Pelas manhãs era comum encontrar o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, no jardim do pátio interno do mosteiro, cuidando das plantas. Tinha predileção pelas rosas, às quais ele dedicava horas a fio. Sempre que possível, eu gostava de acompanhá-lo, não pelo gosto à jardinagem, mas pelas conversas proporcionadas. Nesse dia, ele foi procurado por uma jovem. A moça se declarou desencantada pela vida. Tudo lhe parecia sem graça, os dias eram cinzentos e as pessoas desprovidas de encanto. Confessou que a alegria a irritava por parecer idiotice. Os dias não passavam de uma sucessão de erros e frustrações. Não existia razão para sorrir. Ao final dos seus lamentos perguntou se o Velho era feliz. O monge que a tudo ouviu com paciência e atenção enquanto cuidava do jardim, mostrou na palma da mão uma pequena lagarta que tinha tirado das flores, guardou-a no bolso da túnica para depois soltá-la na floresta e disse: “Sempre haverá motivos para sorrir; a alegria é uma semente possível de germinar até mesmo no deserto. A alegria é uma escolha da sabedoria e do amor”.

A moça interrompeu para dizer que tudo era muito poético e pouco prático. Não fazia sentido a alegria ser uma escolha. Muito menos ligada à sabedoria e ao amor. O Velho explicou: “O sofrimento é uma escolha. A alegria é a alternativa”. A jovem se irritou. Acusou a insensibilidade do monge em relação aos problemas alheios, alguns muito sérios. O Velho, sem perder a serenidade prosseguiu: “O problema nunca será o verdadeiro problema. O problema é a maneira como cada um escolhe enfrentar as inevitáveis adversidades. Você pode percebê-lo como uma barreira intransponível e restar frustrada. Então, você tem um problema. Porém, pode entender que ali reside uma lição para aprendizado e superação. Nesse caso, você está diante de um mestre. A cada curva podemos estagnar ou evoluir. A decisão é pessoal; cada qual viaja sob condições próprias, como herdeiro de suas escolhas”.

A ânfora da humildade

 

Eu estava de volta ao Himalaia. Era uma promessa que tinha feito a mim mesmo, retornar uma vez por ano à vila chinesa, próxima ao Tibete, para estudar o Tao com Li Tzu. A única hospedaria que havia no lugar estava sempre lotada de alunos de todas as partes do mundo, sedentos por conhecer um pouco mais sobre o milenar Tao Te Ching, o Livro do Caminho e da Virtude. As reservas, na prática, eram de pouca utilidade e não garantiam a vaga. As reclamações quase nunca surtiam efeito, pois a anciã responsável pela pousada respondia, sempre sorrindo, em inglês ou mandarim, de acordo com a conveniência dela em se fazer entender. No pequeno espaço que servia como recepção, eu disputava com um homem enorme, com mais de dois metros de altura, forte como um halterofilista, quem ficaria com o último quarto vago. Ambos tínhamos reserva, a minha era anterior a dele, mas ele chegara à hospedaria minutos antes de mim. Discutíamos, cada qual com suas razões e argumentos, diante da anciã que parecia se divertir, uma vez que não parava de sorrir, embora o tom da discussão aumentasse a cada palavra proferida. Até que ele pegou a chave do quarto das mãos dela e disse que a questão estava resolvida: ele ficaria com o quarto, salvo se eu fosse capaz de tomar a chave dele. Repleto de raiva, não reagi. A diferença de força física anunciava uma grande surra, caso eu aceitasse jogar pelas regras do meu oponente. Pedi à anciã que tomasse uma atitude contra aquela arbitrariedade. Ela apenas deu ombros e respondeu, em seu idioma, algo que interpretei como “nada posso fazer”. Claro, sem abandonar o sorriso. Como se não bastasse, e com efeito devastador para mim, ainda ouvi uma série de provocações e piadas desagradáveis por parte do meu desafeto enquanto me retirava da hospedaria.

Fui ao encontro de Li Tzu e narrei todo o ocorrido. Em resposta, o mestre taoista me convidou a tomar chá com ele. Fechei os olhos para controlar a ira e apenas concordei com a cabeça. Fomos à cozinha e, sem nenhuma pressa, ele foi misturando várias folhas desidratadas em um coador para depois deixá-las em infusão por alguns minutos. Tudo sem dizer palavra. Bastante irritado, perguntei se ele não iria comentar sobre o que eu tinha contado. Li Tzu respondeu: “Por ora, o silêncio. Ele permite que você ouça o seu coração. Será sempre o melhor mestre”. Depois encheu as duas xícaras e as colocou sobre a mesa de madeira rústica. Então, falou: “Você perdeu a batalha”. Questionei se ele me aconselhava a reagir de maneira violenta e lutar pela chave do quarto. Ele balançou a cabeça em negativa e disse: “Claro que não. A sua derrota foi decretada quando se permitiu sentir raiva. A sombra foi mais forte do que a luz”.

A flor da simplicidade

 

Estávamos eu e o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, em uma prestigiosa universidade para um ciclo de palestras sobre as várias faces da inteligência: cognitiva, emocional, artística e espiritual. Falariam cientistas, professores, psicanalistas, filósofos e artistas. No intervalo, logo após a fala de um famoso intelectual, fomos tomar um café. O outono oferecia um clima agradável e as mesas do lado de fora da cafeteria permitiam uma deliciosa integração com o campus arborizado. O sol nos acariciava por entre as folhas. Comentei com o monge que não tinha gostado desse último palestrante. Na verdade, acrescentei, achei o discurso desnecessariamente rebuscado, pomposo, repleto de palavras não usadas no dia a dia e, pior, confuso. O Velho bebeu um gole de café e disse: “As águas precisam ser turvas para que não percebam que são rasas”. Pedi para que explicasse melhor. Ele foi didático: “Quem deseja o entendimento de uma ideia se expressa de maneira clara, salvo se o fruto ainda não está devidamente maduro para ser colhido da árvore. Alguns confundem hermetismo com sofisticação. A verdadeira sofisticação reside na simplicidade; consiste em tornar simples uma ideia elaborada ou difícil. A sabedoria é simples; a simplicidade é uma virtude poderosa e rara, indispensável a todas as demais virtudes”.

O mundo é o espelho da sua alma

A angústia me dominava quando entrei na biblioteca do mosteiro em busca de alguma leitura que aliviasse a aflição da minha alma. Sentado em uma confortável poltrona, com um livro repousado no colo, o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, olhava para as montanhas através de uma das janelas, quando teve a sua atenção desviada para mim. Ao perceber pelo meu semblante a desordem interna que imperava, franziu as sobrancelhas como maneira de perguntar o que havia acontecido. Reclamei do descaso das pessoas no trato pessoal, de como eram insensíveis, materialistas e individualistas. Relatei várias situações para exemplificar a razão do meu sentimento. Falei de como esse comportamento provocava tragédias desnecessárias. Eu me sentia abandonado e deslocado. Definitivamente, concluí, a humanidade estava perdida e o mundo não era um bom lugar para se viver. O monge sorriu, como quem se diverte com uma criança que reclama porque não ganhou um doce, se levantou e guardou o livro na estante apropriada, foi até outra prateleira em busca de um título diferente. Procurou por algo em suas páginas por breves instantes, guardou-o no bolso da túnica, segurou meu braço e me encaminhou para fora da biblioteca. Depois falou: “Vamos conversar no refeitório; preciso de uma xicara de café”. Alguns minutos depois, diante de duas canecas fumegantes, ele iniciou a conversa: “Se você está bem consigo estará bem com o mundo. O olhar que cada qual tem sobre si mesmo será a lente pela qual enxergará a vida. Isto definirá a clareza, as cores e a extensão do universo que é o mesmo para todos, mas diferente para cada um de nós. O mundo, feio ou bonito, será sempre o espelho da sua alma”.

Amar é uma arte de muitas virtudes

Eu acompanhava o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, em um ciclo de palestras que ele ministrava, quando recebi o convite para a festa de aniversário de oitenta anos de um parente muito querido. Seria em uma cidade próxima de onde estávamos. Convidei o Velho para ir comigo; ele aceitou de imediato. Confessei a minha contrariedade em encontrar alguns parentes com os quais restara rusgas do passado. Falei que na festa encontraria com um primo, que foi um dos meus melhores amigos na adolescência, mas que em determinado momento nos desentendemos e brigamos. Eu não lhe dirigia a palavra há anos. Pedi para que ele não estranhasse. O Velho comentou: “As cerimônias, sejam pessoais, familiares, profissionais ou religiosas são importantes rituais, não apenas de celebração da vida, mas de aproximação, não somente entre iguais, aqueles que vibram na mesma sintonia energética, porém, e tão importante quanto, é a chance de encontro entre aqueles que possuem divergências que necessitam ser pacificadas. A diferença no olhar nunca deve ser motivo para o distanciamento do coração. São as flores do respeito, da compaixão, da humildade, da paciência e da coragem indispensáveis no jardim do amor. Para amar não basta o bem-querer. O amor é uma arte de muitas virtudes”.

O ser inteiro

Tinha feito calor o dia inteiro. A brisa que descia das montanhas tornava o final da tarde bastante agradável no mosteiro. Encontrei o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, sentado em uma confortável poltrona situada em uma das varandas que permite uma belíssima vista dos vales que se avizinham abaixo de nossa sede. Pedi para sentar ao seu lado e ele concordou com um movimento de cabeça. Por me conhecer há algum tempo, foi direto ao ponto: “O que lhe aflige”? Expliquei que muitas vezes, mesmo na certeza de tomar a decisão correta, algum desconforto se instalava em mim, o que era uma contradição. Ele pediu para que eu fosse mais específico e acrescentou: “Vamos ao caso concreto”.

Expliquei que um grande amigo tinha me pedido dinheiro emprestado. Era um valor considerável. Embora eu tivesse a quantia, que estava guardada para outros fins, neguei o empréstimo. Isto furtara a minha paz nos últimos dias. Ponderei que estranhava os meus próprios sentimentos, uma vez que a convicção da minha escolha deveria pacificar o meu coração. Com os olhos vagando no horizonte, o Velho falou: “O espírito, a verdadeira identidade eterna de todos nós, em sua infância, nosso atual estágio, tem o ego distante da alma como se estivéssemos divididos em dois. Por um lado, o ego se empenha pelas conquistas materiais e os prazeres sensoriais, os aplausos e o brilho social. Pelo outro, a alma se alegra com as vitórias dos sentimentos sobre os instintos, com a superação das dificuldades, com a transmutação das próprias sombras em luz. O ego quer o reconhecimento do mundo; a alma quer que o melhor de si brote para o mundo. O ego está ligado às paixões; a alma ao amor. O ego está no âmbito do eu; a alma pensa em nós. Na viagem do aperfeiçoamento o Caminho nos impõe escolhas. Com o ser dividido em dois as decisões criam conflitos internos. Estes conflitos geram desequilíbrio em todos os níveis”. Deu uma pausa antes de acrescentar: “Temos que alinhar o ego à alma, no sentido de que os desejos daquele estejam em harmonia com as buscas desta. Da mesma maneira temos que trabalhar o ‘eu’ sem esquecer o ‘nós’, sendo que a recíproca também se aplica. Ou seja, cuidar do mundo sem esquecer de si. São partes da mesma arte. Assim o ser se torna uno, se liberta das angústias mundanas, conhece a plenitude e a paz”.

Uma questão de respeito

O tambor de duas faces rufava compassado ao toque de Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom de perpetuar a sabedoria ancestral do seu povo através da palavra. Pedi autorização para me sentar na manta colorida estendida na sua frente, do outro lado da fogueira. Sem abrir os olhos, ele apenas sorriu e balançou a cabeça de modo sutil. Enquanto eu me acomodava, o xamã começou a cantar uma música de puro agradecimento por estar ali em comunhão com a Mãe-Terra, naquela noite sem lua, com o céu salpicado de estrelas. Quando ele silenciou a melodia, falei que eu precisava conversar. Contei que estava muito chateado. Eu tinha tido uma discussão com um dos meus melhores amigos. Ele teve um comportamento bastante desrespeitoso comigo em uma determinada situação. Estávamos sem nos falar já há algum tempo. Canção Estrelada acendeu o seu cachimbo com o fornilho de pedra vermelha, sem pressa, como se a noite não tivesse fim, tragou duas vezes, me convidou para fumar e não disse palavra.

No dia seguinte me chamou para acompanhá-lo até uma pequena cidade próxima, perto da sua casa, nas montanhas do Arizona, para algumas compras. Fomos em sua caminhonete. No trajeto aproveitei para tornar a tocar no assunto da briga com o meu amigo. Narrei os detalhes e fundamentei os motivos da minha decepção. Canção Estrelada quis saber a razão de eu não procurar esse amigo para uma conversa na tentativa de reatar laços valiosos: “Se a lembrança dele a toda hora lhe vem ao coração é porque um bom fruto restou”, acrescentou. Respondi que ele era quem estava errado, logo, cabia a ele me procurar. Era uma questão de respeito. O xamã ficou com os olhos tristes e silenciou a voz.

O tamanho de um sonho

Era uma manhã de primavera, o sol equilibrava a brisa gelada da montanha e trazia uma agradável sensação térmica. Eu estava na frente do mosteiro apertando os parafusos das dobradiças do enorme portão principal, quando tive a atenção desviada para um carro luxuoso que estacionou no pátio externo. De dentro dele desceu um anão. Logo o reconheci como um famoso comediante em programas de TV. Sem dúvida, era um ator talentoso que nunca usou a sua altura como subterfúgio para nenhuma piada. Seu humor era fino e inteligente. Nos últimos anos comandava um talk-show de grande audiência. Ele se dirigiu a mim de maneira educada e pediu para falar com o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem. Enquanto seguíamos para o refeitório, onde o Velho gostava de conversar com as visitas, quase sempre ao redor de uma mesa com bolos, biscoitos, queijos e café, deixando-os à vontade como se estivessem em casa, o homem confidenciou que estivera ali uma vez, há quase duas décadas, quando ainda era uma aspirante aos palcos, e aquele dia tinha sido angular em sua vida.

O Velho ofereceu um belo sorriso quando o viu. O ator perguntou se o monge se recordava dele e o Velho aquiesceu com a cabeça. Eu trouxe canecas fumegantes de café e fui convidado a me sentar com eles. Em seguida, o visitante falou que retornara ao mosteiro para agradecer. Confessou que quando estivera ali, naquela tarde que parecia distante, estava preste a desistir da carreira, face às enormes dificuldades que encontrava. Porém, a conversa com o monge o enchera de coragem para prosseguir e enfrentar todas as adversidades. O Velho tornou a sorrir e disse: “A coragem não foi minha, mas sua. Ninguém pode lhe dar o que já é seu. Ela estava adormecida, eu apenas a despertei para luta. A batalha você travou sozinho. Dominou o medo, transformou as incertezas, enfrentou o preconceito em relação à sua estatura física, que eram muitos e bastante agressivos, com paciência, trabalho e arte. Mostrou ao mundo que o importante não é o tamanho de uma pessoa, mas a dimensão do seu sonho”.

O passado é um veneno

Loureiro, o elegante sapateiro amante dos vinhos e dos livros, fechou a oficina ao meio-dia e andávamos pelas ruas estreitas e sinuosas da secular cidadezinha localizada no sopé da montanha que abriga o mosteiro. Era um sábado típico de outono, com o céu claro, sem névoas e o sol aquecia a pele sobre o casaco fino. Estávamos alegres rumo ao nosso restaurante predileto para almoçar e, claro, beber algumas taças de tinto. Amenidades eram a pauta do dia, quando logo na porta encontramos Helena, uma amiga em comum, muito abalada, trazendo no rosto olheiras fundas como registros de noites mal dormidas. Aceitou, de pronto, o convite para sentar à mesa conosco e, mesmo sem ser perguntada, logo começou a falar sobre as causas da desordem emocional que a transtornava. A dor parecia não caber dentro de si e por isto precisava desabafar. Ela acabara de encerrar mais um casamento. Já era o quinto ou sexto, teve alguma dificuldade de saber se um deles poderia ser considerado como tal em razão da sua curta duração. Se disse decepcionada com as pessoas em geral. Confidenciou que a intimidade revelava faces desagradáveis que impossibilitavam a convivência a longo prazo. Helena falou por um bom tempo, desfiando os seus lamentos e ouvíamos com paciência, até que o artesão quis saber se ela já tinha sido feliz, alguma vez, no amor. Nesse instante, os olhos dela brilharam e um sorriso, que parecia impossível, surgiu em seu belo rosto.

O dia da independência

Fiquei feliz ao ver a clássica bicicleta de Loureiro, o elegante sapateiro amante dos vinhos e dos livros, encostada no poste em frente a sua oficina. Eu estava mal. Uma série de acontecimentos, com diferentes pessoas, me faziam sentir em um caldeirão de emoções que variavam entre a irritação e a tristeza. Fui recebido com um forte abraço e alegria sincera. O artesão pediu para eu me acomodar enquanto passaria um café fresco para animar a nossa conversa. Falei que precisava desabafar e trocar ideias, pois parecia que o mundo havia criado um complô contra mim. De uma hora para outra, muitas das minhas relações se tornaram problemáticas ou frustrantes. Relatei alguns desentendimentos e decepções que ocorreram há dias com diversas pessoas que eu muito presava. Acrescentei que tudo acontecera ao mesmo tempo e arrisquei a brincar dizendo que parecia karma. Loureiro repousou duas canecas cheias de café sobre o balcão e disse: “Karma é aprendizado. Todo karma é um mestre que vai aprimorar e fortalecer o aprendiz. Entendidas as lições o karma desaparece, assim como aquele tipo de situação, até então recorrente, por não haver mais razão de ela existir. Por outro lado, o Karma se prolonga, e até endurece, na medida que nos recusamos a evoluir. Se a vida é uma universidade, o karma se resume nas matérias que devemos cursar”.

De volta ao topo do mundo

Falei ao Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, que passaria o meu aniversário no mosteiro de Takshang, próximo à cidade de Paro, no Butão. Queria o silêncio e a energia desse mosteiro budista, de difícil acesso, encravado no Himalaia, para meditar e refletir sobre o momento em que me encontrava, mais precisamente a respeito da empresa em que eu era sócio. Tínhamos recebido uma proposta de outra firma, bem maior e de âmbito internacional, para uma fusão que geraria, além de um grande ganho financeiro e uma mudança angular em meu estilo de vida. Desde a ter que usar terno no dia a dia até morar em outra cidade, fora as incontáveis reuniões e rotinas típicas das grandes empresas. Os meus sócios, éramos três, estavam animadíssimos com a possibilidade que se apresentava. O meu coração não me deixava compartilhar de tamanho entusiasmo. A nossa empresa navegava com tranquilidade, não éramos ricos, mas tínhamos uma vida confortável e, acima de tudo, havia tempo para eu me dedicar a outras atividades que me eram valiosas, como a Ordem, os estudos, a escrita, os encontros com os amigos, a convivência familiar, entre outros bens intangíveis. No entanto, não é toda hora que surge uma oportunidade para subir de patamar financeiro e todos me pressionavam para que eu decidisse logo. A mudança no jeito de viver era o que agoniava. A dúvida me corroía.

O Velho me aconselhou: “Gosto das transformações, pois são bons indícios de evolução. No entanto, nem toda fruta é doce assim como nem toda regra é absoluta. Quando sair do Butão, pegue a estrada que desce o Himalaia pelo lado chinês. Você encontrará uma agradável vila. Lá, procure por Li Tzu, o mestre taoista. Se deixe encantar por tudo que acontecer”. Agradeci e parti sem entender exatamente ao que o monge se referia.

O topo do mundo

Enchi uma caneca de café na cantina e fui à biblioteca do mosteiro. Era final da tarde e eu ansiava por um pouco de leitura e reflexão. Encontrei com o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, sentado em uma confortável poltrona com o olhar entretido nas montanhas avistadas através das enormes janelas. Ele me cumprimentou com um sorriso sincero. Ao me perceber perdido nas prateleiras entre os inúmeros bons títulos, de Yogananda a Fernando Pessoa, de Chico Xavier a Lao Tsi, passeando entre Espinosa e Jung, o monge sussurrou: “Faça como Paulo, o apóstolo dos gentios. Dizem que ele sempre abria a Bíblia ao acaso quando queria um texto para meditar. Como o acaso não existe, ele sempre encontrava as palavras das quais precisava”. Sentei-me com as Escrituras e a página que se apresentou falava de uma passagem que me incomodou desde a primeira vez em que li, na qual mestre Jesus diz que é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Céu. Li e reli todo o capítulo. Insatisfeito, perguntei ao Velho se o dinheiro era um impeditivo à iluminação. Ele me olhou como a uma criança e disse com a sua voz suave: “Claro que não. O dinheiro é uma ferramenta maravilhosa, passível de semear bons frutos, desde, é claro, que utilizado de maneira correta”. Argumentei de que não isso que estava escrito.

O amor não precisa ser perfeito

Quando entrei eles já estavam conversando. Loureiro, o sapateiro amante dos vinhos e livros, escutava as lamúrias de um sobrinho sobre as dificuldades que tinha nos relacionamentos afetivos. Fomos apresentados. O jovem, bastante educado, disse que não se incomodava de eu participar da conversa. Na verdade, achava muito bom, pois seria mais uma opinião a clarear o seu entendimento. O elegante artesão foi passar um bule de café enquanto o rapaz me explicava que, em suma, quanto mais ele conhecia uma pessoa maior era a sua decepção. Sentenciou que as máscaras não se sustentam no convívio pessoal e, o que se revela, definitivamente nunca o agradou.

Loureiro, que enchia as nossas canecas sobre o balcão com café fresco, aproveitou a deixa e disse: “Todos desejamos ser amados e admirados. É a vontade latente do nosso ego: os holofotes e os aplausos. Então, inconscientemente criamos personagens que acreditamos serem reais para interpretar os papéis que atinjam tal objetivo”. O sobrinho interrompeu para acrescentar que era exatamente isso que não gostava nas pessoas. Buscava por aqueles que fossem autênticos. “Mas, de certa maneira, eles são”, corrigiu o tio. O rapaz disse que o sapateiro estava sendo contraditório. Loureiro iniciou a sua explicação ao estilo socrático, com uma pergunta: “Quando você se interessa por uma moça costuma se aproximar mostrando o quanto é vaidoso, orgulhoso, teimoso e egoísta”?

As ferramentas do amor

 

Quando o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, entrou na agradável biblioteca do mosteiro, eu estava imerso na reflexão de um trecho do livro de parábolas de Rami. O monge retirou um livro da estante e se acomodou em uma confortável poltrona ao meu lado. Reparei que era o milenar Tao Te Ching ou o Livro do Caminho e da Virtude, de Lao Zi. Como estávamos apenas os dois na biblioteca, ousei puxar assunto. Falei que, por acaso, lia um livro que também abordava o valor das virtudes e, além de enaltecer a coragem como uma delas, sentenciava que ‘o amor é para os fortes’. O monge, com a sua voz sempre suave, foi lacônico em seu comentário: “Sim, é verdade”. Discordei sob o argumento de que o amor, por toda a sua importância, estava à disposição de todos, indiscriminadamente. O Velho me olhou com a sua enorme paciência e disse: “Sim, também é verdade”. Balancei a cabeça e mexi as mãos, como se esses movimentos pudessem amplificar as minhas razões, para acrescentar que ele estava sendo incoerente: o amor era para todos ou apenas para os fortes. Pedi para ele se decidir. O monge arqueou os lábios em leve sorriso e começou a explicar: “Você confunde tudo, Yoskhaz. Não percebe que se trata de coisas diferentes? Ou melhor, de situações em que o amor se apresenta de maneiras distintas”?

“Sim, o amor está ao dispor de cada pessoa, pois, por ser a força que rege o universo, repousa na essência de todos. O amor é a estrada e o destino. É a virtude maior por estar presente em todas as demais virtudes ou elas deixam de existir. No entanto, para viver o amor, ao menos em toda a sua extensão, precisamos dessas outras virtudes como instrumentos de disseminação do bem. Assim, permitimos, não apenas o desenvolvimento do próprio ser, mas a propagação da luz por ele emanada até a mais distante das estrelas. O universo agradece e nos retribui também em luz por gratidão e justiça”. Deu uma breve pausa e prosseguiu: “O amor é a virtude indispensável nas transformações, logo, sem ele não há evolução. No entanto, o amor adormecido em cada um de nós precisa de trabalho para despertar e crescer nas adversidades. Amar quem nos ama é fácil; amar quando as situações são favoráveis, muitos conseguem; amar nas adversidades é permitido apenas aos fortes”.

Valiosos pilares

 

Na charmosa cidadezinha que fica no sopé da montanha que acolhe o mosteiro, aos sábados, todo o comércio encerrava a sua atividade ao meio-dia, salvo restaurantes, cafeterias e pubs, pontos de encontro para alegres almoços ou reunião de amigos. A famosa exceção era a oficina de Loureiro, o elegante sapateiro, amante dos livros e dos vinhos. A loja de Loureiro funcionava em horário irregular e inusitado. Encontrá-la aberta a qualquer hora do dia ou da noite era um autêntico jogo de sorte. Naquele sábado à tarde, antes de retornar ao mosteiro, arrisquei encontrá-lo para um café e uma conversa vadia. A loja estava fechada. Como a minha carona era apenas para a noite, tentei uma taberna pouco concorrida, a qual ele muito apreciava. Encontrei o artesão acomodado em uma confortável poltrona, ao lado de uma pequena mesa com uma taça de tinto e um abajur que lhe permitia ler O Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa, com invejável tranquilidade. Quando fui cumprimentá-lo, se aproximou, quase ao mesmo tempo, outro amigo dele. O homem estava com os olhos vermelhos e inchados de tanto chorar. De imediato, contou que na noite anterior fora surpreendido com o término de um romance que, embora não tenha durado muito tempo, havia sido intenso. Loureiro, ao perceber que o amigo não tinha me notado, nos apresentou. Renê, este era o seu nome, me tratou de maneira educada.  O sapateiro pediu para que puxássemos cadeiras para ficarmos mais próximos a ele, pois o seu tom de voz era sempre muito suave. Acrescentou para o Renê que poderiam conversar sobre o seu dilema em outra hora, uma vez que a minha presença poderia constrangê-lo. O homem disse que não tinha problema nenhum. Precisava desabafar e ouvir algumas palavras que pudessem arrefecer a sua dor.

A semente

 

Eu caminhava pelas montanhas do Arizona ao lado de Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom de usar a música para perpetuar a sabedoria do seu povo, quando paramos em um pequeno platô com uma vista encantadora. Ele estendeu o seu manto colorido no chão, acendeu o inconfundível cachimbo com fornilho de pedra vermelha e me pediu para preparar uma fogueira. Depois ritmou com o seu tambor de duas faces uma sentida cantiga ancestral na qual pedia proteção para nunca abandonar ‘o lado ensolarado da estrada’. Ficamos um tempo que não sei precisar sem dizer palavra, como viajantes no mundo das ideias, até que o xamã rompeu o silêncio: “Há muitos elementos na natureza que considero sagrados pelo simbolismo que representam. O nascer do sol pela importância da luz em nossas vidas; o voo da águia por me ensinar a ver todas as coisas do alto; as estrelas para lembrar que existem outros mundos além deste; a mudança das estações pela lição da renovação dos ciclos; a borboleta para me lembrar que a lagarta pode ter asas; o rio para não me deixar esquecer que todas as águas um dia chegam ao mar. No entanto, nada me encanta tanto quanto a semente”. Deu uma baforada e prosseguiu: “Enfim, há lições por todos os lados. O sagrado está misturado ao mundano a espera de ser revelado”. Quando eu iria interromper para perguntar sobre a semente, a conversa mudou de curso. Ele falou: “Assim como a magia aguarda o momento do feiticeiro”.