Experiências profundas

Ainda era muito cedo quando encontrei o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, no refeitório. Ele estava sozinho e se deliciava com uma generosa fatia de bolo de aveia acompanhada de uma caneca com café. Sorriu ao me ver e fez sinal para eu me sentar ao seu lado. Enchi uma caneca para mim e me acomodei à mesa. Antes que pudéssemos iniciar uma conversa sobre um assunto qualquer surgiu outro monge; era o seu primeiro período de estudos na Ordem. Assim como todos, passaria cerca de um mês dedicado aos estudos, reflexões e debates no mosteiro. No restante do ano levaria a vida ao lado da família e com as suas atribuições profissionais. Na Ordem havia de padeiros a engenheiras aeroespaciais; homens e mulheres dos mais variados cantos do planeta, de diversas etnias e idades. Muito jovem, esse monge era bastante inteligente e estava inquieto há dias. Sem jeito, falou ao Velho que iria embora naquela manhã, antes mesmo de completar uma semana de estudos. Confessou que, apesar de admirar aquele ambiente, onde o conhecimento parecia brotar por entre as pedras das paredes, conforme disse, contou sobre amigos que estavam passando as férias na Tailândia. Estava decidido a ir ao encontro deles. No entanto, gostaria de voltar à Ordem no ano seguinte, ou talvez, no próximo, ressaltou. O Velho ofereceu um sorriso sincero antes de se levantar para lhe dar um forte abraço. Depois o deixou à vontade, como fazem aqueles que possuem a virtude da delicadeza: “Entendo a sua escolha. Se a idade permitisse, talvez eu fosse contigo.” O rapaz riu. Em seguida, prosseguiu: “As portas do mosteiro estarão sempre abertas, tanto para você quanto para qualquer pessoa que esteja disposta a aprender sobre a filosofia e a metafísica para aplicá-las no cotidiano. Volte quando o coração pedir.” O jovem agradeceu a compreensão, garantiu que um dia retornaria, girou nos calcanhares e saiu. Bebi um gole de café e, em seguida, comentei que o rapaz estava desperdiçando uma oportunidade maravilhosa. O Velho discordou: “Cada qual tem o seu tempo e maneira de aprender. Diversas são as oficinas do mundo a forjar bons mestres. Não há diferença de qualidade entre elas, apenas o comprometimento do aprendiz será capaz de transmutar a própria realidade.”

Cuidado com o que você acredita

Era muito cedo. A pequena cidade que fica no sopé da montanha que abriga o mosteiro ainda adormecia. Bem, nem toda. Eu andava por suas ruas, estreitas e sinuosas, calçadas com pedras que, apesar de desgastadas, resistiam ao sol e à chuva há séculos. Percebia algumas poucas janelas com as lâmpadas acesas, talvez madrugadores como eu e o Loureiro, o elegante sapateiro que amava os vinhos tintos e os livros de filosofia, um mestre na costura do couro e na criação de ideias. O seu atelier era quase mítico, seja pelos horários inusitados de funcionamento, cujo o critério era somente a vontade do sapateiro, seja pelas conversas e embates filosóficos que ocorriam lá dentro. Sempre era motivo de alegria quando, ao dobrar a esquina, avistava a clássica e bem conservada bicicleta de Loureiro encostada no poste em frente à oficina. Significava, também, que eu poderia me deliciar com o perfume do couro e do café que impregnavam a sapataria. Eu estava envolto em meus pensamentos, enquanto caminhava solitário entre as ruas e o silêncio da cidade, quando me deparei com um muro pichado. Estranhei pelo fato de nunca ter visto nada igual naquele pacato e bem cuidado lugar; mais ainda, me chamou atenção o teor da frase escrita: cuidado com o que você acredita!

É preciso coragem para mudar um coração

O tambor de duas faces de Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom de compartilhar a sabedoria ancestral do seu povo através dos contos e das canções, rufava em ritmo compassado enquanto ele entoava uma delicada cantiga agradecendo ao Grande Espírito a oportunidade daquele momento. Era uma noite sem lua; o céu nos aconchegava sob um lindo manto de estrelas. Estávamos no alto da montanha, no lugar de poder de Canção Estrelada, um local aonde ele sempre ia quando queria se conectar com o mistério da vida ou mergulhar mais profundamente em si mesmo. Éramos um pequeno grupo, formado por pessoas dos mais diferentes lugares, reunidos para um cerimonial mágico. Uma fogueira nos protegia do frio. Os bons espíritos também presentes ao ritual nos protegiam de nós mesmos. Ao encerrar aquela música, o xamã comentou: “Devemos agradecer sempre. Seja pela alegria dos momentos agradáveis, seja pelas lições das horas difíceis; somente os tolos têm dias ruins.”

Deus e a ética

A clássica bicicleta estava encostada no poste em frente ao atelier. Loureiro, o sapateiro amante dos livros de filosofia e dos vinhos tintos, me recebeu com um sorriso sincero e um forte abraço. Sentei-me ao lado do antigo balcão de madeira onde ele costurava o couro de bolsas e sapatos enquanto alinhava ideias desconcertantes com os amigos que estavam sempre chegando atrás de uma boa conversa regadas a café. Ele colocou uma caneca fumegante à minha frente e começamos a conversar. Comentei que eu dera muita sorte, pois não esperava encontrar a oficina aberta ao final da tarde de um Domingo de Páscoa. Embora os horários de funcionamento fossem famosos por serem inusitados, eu sabia que ele tinha por hábito iniciar o serviço de madrugada, com as estrelas ainda altas, para fechar as portas ao meio-dia. O artesão me explicou que tinha acordado tarde em razão de, na noite anterior, ter ido à Missa Santa na pequena igreja da cidade, realizada à meia-noite, marcando o início da Quaresma. Loureiro contou que era uma cerimônia belíssima, envolvidas em energias muito fortes. Começava com uma grande fogueira no pátio em frente à igreja, quando as pessoas lançavam ao fogo pedaços de papel nos quais tinham escritos situações de suas vidas que desejavam superar. Depois entravam com a igreja toda apagada, iluminada apenas pelas velas que carregavam. Era uma imagem muito bonita. Em seguida as lâmpadas eram acesas e a missa prosseguia. Perguntei se ele também entregara para o fogo queimar algo em sua vida. “Sim”, ele respondeu. Confessei a minha surpresa. Loureiro explicou: “Os mundos visível e invisível estão em constante interação. Tudo que acontece em um lado tem reflexo no outro. O auxílio é indispensável. No entanto, nada acontecerá se eu não fizer a parte que me cabe.”

Agradeça pela escuridão

Eu seguia de carro pelas montanhas do Arizona, na sinuosa estrada que liga Flagstaff a Sedona, quando fui abalroado por outro veículo. Depois de alguns dias internado, fui convalescer na casa de Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom de eternizar a filosofia do seu povo através da palavra. Estávamos na varanda da sua casa. Era uma tarde linda, sem nenhuma nuvem no céu. Lamentei o acidente, pois não poderia fazer quase nada daquilo que havia me programado. Passeios a cavalo, mergulhos no lago, descer de bote pelas corredeiras, além das desejadas trilhas até os locais sagrados nas montanhas para os cerimoniais mágicos não seriam possíveis com a perna engessada. Canção Estrelada apenas me olhou. Acendeu o seu indefectível cachimbo com fornilho de pedra vermelha, deu algumas baforadas e disse: “Tudo o que acontece em nossas vidas é para o nosso bem. Portanto, agradeça pelo acidente.” Falei que ele não podia estar falando sério. Embora eu tivesse consciência de que os danos poderiam ser mais graves, e isso sempre é possível, de outro lado, eu poderia passar as férias sem qualquer lesão, como, aliás, sempre foram os meus dias em Sedona. O xamã olhava a fumaça do cachimbo dançar ao sabor da brisa da tarde e comentou: “A sua espiritualidade é como um lago com pouca água, Yoskhaz. Ainda muito rasa.” Eu sacudi a cabeça em resposta. Comentei que ele não estava com o humor afiado. No mais, não se faz graça com a desgraça dos outros. Lembrei os meus muitos anos de estudo em filosofia e metafísica, inclusive os vários períodos nos quais estive com ele aprendendo sobre o xamanismo. Falei dos estudos que mantinha sobre o Tao, o estoicismo e a tradição cristã com Li Tzu, Loureiro e o Velho, respectivamente. Canção Estrelada questionou: “De que me serve ter um rio a atravessar o quintal se não bebo nem me banho em suas águas?”

O Oitavo Portal – Os Oito Portais do Caminho

Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus. Esta é a oitava bem-aventurança contida no Sermão da Montanha e, por conseguinte, o último portal no plano terreno da estrada rumo à luz. Eu estava na biblioteca do mosteiro, concentrado em meus estudos, e confesso, aquelas palavras me soavam vazias. Por que perseguidos por causa da justiça, se esta virtude restaria sedimentada no andarilho ao ultrapassar o Quarto Portal? Mais ainda, no portal anterior eu aprendera que a palavra pacificadoré aplicada ao indivíduo pleno, aquele que traz em si todas as virtudes que compõem a luz e permitem as plenitudes; ego e alma entoam a mesma sinfonia. Logo, não fazia qualquer sentido voltar a falar em justiça. Fiquei com muita vontade de consultar o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, mas ele tinha saído muito cedo e somente retornaria ao final do dia. Vaguei pelas estantes da biblioteca em busca de um livro que pudesse me ajudar na decodificação da mensagem, em vão. Encontrei alguns textos esotéricos que abordavam o assunto, no entanto, por obscuros, em nada auxiliavam. Como dizia o Velho, a sabedoria precisa de águas claras para que possamos enxergar toda a sua profundidade; águas turvas nos impedem de perceber quando nadamos em lago raso. Eu entendia o motivo de os textos antigos ocultarem em frases herméticas os ensinamentos que nos orientam na estrada à luz; havia perseguições tanto políticas quanto religiosas em suas respectivas épocas. Muito perdemos ao longo da História. Eu estava envolto em reflexões que pouco me ajudavam a avançar no entendimento necessário, quando ouvi alguém chorando baixinho. Deixei o livro sobre a mesa e fui ver se podia ajudar. Encontrei um monge bem jovem, ele tinha ingressado na Ordem no ano anterior, sentado em uma poltrona com vista para as montanhas, sozinho. Norton, como se chamava, tentava conter as lágrimas sem nenhum sucesso. Sentei-me ao seu lado. Sem dizer palavra, esperei que ele se acalmasse e me relatasse o que tinha acontecido. Norton estudava Física no prestigioso MIT e se especializara em mecânica quântica. Nas férias vinha para o mosteiro aprender sobre metafísica e filosofia. Antes de vir naquele ano, redigira um trabalho em conjunto com a namorada, estudante de Psicologia, explicando como a mecânica quântica poderia esclarecer sobre as premonições e, ainda mais, como o inconsciente permitia viagens ao futuro, como percebido por Freud, que definiu essa parte da mente como atemporal. Isto ocorria pelo fato de o inconsciente funcionar quanticamente, permitindo saltos no tempo, ao passo que o consciente raciocinava linearmente. Norton não chegou a publicar o estudo. Antes, decidiu pedir a opinião de dois outros monges da Ordem sobre o trabalho. Na noite anterior, esses monges o chamaram em particular e o aconselharam a abandonar aquelas ideias que denominaram como ridículas. Falaram que as premonições eram, em parte devaneios, em parte cabiam aos mistérios da Mística e nunca teriam qualquer explicação, pois não careciam delas. Acusaram-no de tentar inventar a rodae o aconselharam a estudar mais. Por fim, o ameaçaram de expulsão por denegrir a imagem da Ordem, caso insistisse em publicar aquele absurdo.

O Sétimo Portal – Os Oito Portais do Caminho

Eu estava na varanda do mosteiro. Apesar da linda paisagem formada pelas montanhas e florestas dos arredores, eu aproveitava a quietude do momento, na tentativa de olhar para dentro de mim. Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus. Este era o código que eu precisava decifrar para seguir nos meus estudos sobre Os Oito Portais do Caminho. O estudo, ao lado da percepção, é de fundamental importância para que se possa compreender a próxima transformação do ser, sem a qual não se avança na jornada infinita rumo à luz. Esse é o processo natural; absorvemos conhecimento e o aprimoramos através das experiências vividas em nossas relações. Na oportunidade seguinte, quando estamos prontos, ou melhor, quando o conhecimento resta sedimentado no ser, o aperfeiçoamento se torna inerente às escolhas. Assim, aos poucos, à medida das transmutações individuais, o conhecimento vira sabedoria. Por isso é comum que todos saibam mais do que são. Ser é sempre o passo seguinte do saber.

Plenitudes – o amor

Era o último dia de aulas sobre o Tao Te Ching. O curso se encerrara para aquele grupo de alunos. Logo deixariam o vilarejo chinês no sopé do Himalaia rumo aos mais diversos países onde moravam. Eu não fazia parte da turma, mas fui convidado para o chá de despedida oferecido por Li Tzu. Os alunos estavam emocionados e alegres. Tinham compartilhado a experiência do aprendizado de uma sabedoria milenar, cada vez mais esquecida de sua enorme utilidade para uma existência plena face as inúmeras facilidades de fuga oferecidas por um mundo apressado e superficial. Apressado pela sensação de que para restarmos atualizados com as fábricas ininterruptas de novidades é necessário estar em muitos lugares quase simultaneamente. Então, o tempo se torna veloz e estreito. Superficial em razão de que nenhum valor me trará conhecer o mundo enquanto eu me negar a encontrar comigo. Não se conhece um lugar apenas ao visitar os seus prédios, museus e monumentos, assim como não se percebe a beleza de um indivíduo somente ao olhar para ele. Existe uma beleza oculta em todos os lugares e pessoas, apenas accessível após eu vasculhar, entender e iluminar todos os meus pormenores escondidos em mim. Preciso entender a parte para compreender o todo. Então, serei capaz de me encantar com o mundo e me pacificar com o tempo. Uma viagem, para não restar desperdiçada, não pode apenas trazer souvenires e fotografias na bagagem; precisa transformar o viajante. Esta era sensação daqueles alunos após o aprendizado do Tao; por isto estavam emocionados.

Plenitudes – a paz

O pacato vilarejo chinês estava irreconhecível. Parecia que todos os moradores estavam reunidos na única praça do local. A maioria tinha os ânimos exaltados; alguns falavam alto, tinham as feições transtornadas. Dois homens discutiam e foram afastados para não se agredirem fisicamente. Depois eu soube que eram amigos de longa data. Outro homem subiu em um banco de pedra para discursar. Embora eu não entendesse o que ele falava por causa do idioma, percebi o tom inflamado. Um grupo crescente se aproximava em apoio, com palmas e palavras de incentivo. À medida que eu seguia pelas ruas tortas do vilarejo o barulho diminuía. Quando entrei na casa de Li Tzu, o mestre taoísta, tive a sensação de estar dentro de uma bolha de paz. A quietude, o jardim de bonsais, o perfume dos incensos, transmitiam uma agradável sensação de tranquilidade. Não sem razão, certa vez Li Tzu me disse que uma casa costuma refletir a alma dos seus moradores. Ele tinha terminado os exercícios de ioga e meditava como fazia todos os dias bem cedo antes de as aulas começarem.  Para não interromper, fui para a cozinha. Em cima da mesa havia duas xícaras e um bule fumegante de chá. Ele me esperava conforme combinamos; sorri para mim mesmo. Sentei-me; enquanto eu me servia o mestre taoísta entrou e se acomodou à minha frente. Bebemos em silêncio até que lhe perguntei se sabia da confusão que acontecia na praça. Ele explicou que tinha chegado a notícia de que o governo planejava construir uma autoestrada cujo projeto obrigava a desocupação total do vilarejo. Perguntei se todos teriam que deixar as suas casas. Li Tzu confirmou com um balanço de cabeça. Esbravejei diante do absurdo. Como tirariam aquelas pessoas de suas casas? Muitos viviam ali por toda uma existência. Era uma violência inominável, exclamei. O mestre taoísta apenas maneou a cabeça como se talvez eu estivesse certo em meu ponto de vista; talvez não, ou houvesse um exagero em meu olhar. Ao perceber as feições serenas de Li Tzu, questionei se ele não sentia medo da remoção, caso acontecesse, pois obrigaria em uma enorme mudança na sua vida. Com o habitual tom calmo de sua voz, ele disse: “O medo é o ladrão da paz.” 

Plenitudes – a liberdade

Acordei um pouco mais tarde do que o habitual. Já não daria tempo de tomar um chá com Li Tzu antes de iniciar as atividades em sua casa, que começavam logo cedo com aulas de ioga e meditação, antes de ele começar a falar sobre o Tao Te Ching. Tínhamos iniciado uma série de conversas sobre as plenitudes na tentativa de eu começar a entender conceitos com tamanha amplitude. Decidi, então, aproveitar a linda manhã de sol, que ajudava a afastar, ao menos um pouco, o frio constante nas montanhas, para passear. Tinham me indicado visitar um bosque onde havia raras orquídeas selvagens, impossíveis de serem mantidas em cativeiro, mesmo diante das técnicas mais avançadas de jardinagem. Segui a trilha na montanha. Passei por lugares cuja beleza era difícil de traduzir em palavras. Éramos apenas a natureza e eu, à medida que eu andava aumentava uma agradável sensação de bem-estar. Tudo ali me era permitido; não havia ninguém a me impedir qualquer gesto ou ação. Sentia-me livre como há muito tempo não me recordava. Os meus pés pareciam não tocar no chão tanta era a leveza que me envolvia. Não menos bonito era o bosque com a tais orquídeas selvagens. Eram de várias espécies; mais uma das muitas apresentações artísticas do universo manifestadas em beleza. A trilha me levou a uma clareira. Encantado, depois de apreciar cada uma das flores, me sentei em uma pedra. Fiquei pensando na razão de aquelas orquídeas, denominadas de selvagens, terem um comportamento indomável. Negavam-se deixar conduzir contra a sua própria natureza; preferiam perecer a terem de viver fora das suas escolhas. Pareciam não temer a morte; como se inaceitável fosse uma vida além da esfera de manifestação das suas vontades íntimas.

Plenitudes – a dignidade

Uma palavra é como uma cápsula repleta de ideias. Algumas em maior grau do que outras. Lembro que li um livro do filósofo e monge alemão Anselm Grun sobre a mística. Um texto primoroso e profundo; ao final a sensação de que sempre há algo a mais para acrescentar. Assim são com as virtudes. Muito se pode falar sobre a humildade, a fé e a compaixão, apenas para ficar com algumas, sem nunca esgotarmos o assunto. Mais ainda acontece com as plenitudes, por se tratarem de conceitos de amplitude subjetiva ao extremo. Penso em quantas existências precisarei para falar sobre o amor; virtude e plenitude ao mesmo tempo. Algumas palavras tem a força de trazer consigo todo um universo face a enorme possibilidade de mundos e vidas que oferecem. Este era o ânimo que me fez retornar à casa de Li Tzu no dia seguinte, bem cedo, para mais uma conversa sobre as sofisticadas, e ao mesmo tempo simples, plenitudes. Tínhamos falado sobre a felicidade. Faltavam as outras quatro: dignidade, paz, liberdade e amor. Unidas em si, a luz. Contudo, quando cheguei, uma surpresa. A casa estava fechada; algo que eu nunca presenciara. Li Tzu precisara se ausentar do vilarejo em razão de um motivo desconhecido. A informação era que ele logo retornaria. Fui até a um armazém próximo que fornecia suprimentos para os alpinistas que seguiam ao cume do Himalaia. Eu sabia que ali encontraria uma caneca de café quente e alguém para papear. Era agradável ouvir as aventuras narradas pelos montanhistas, assim como admirava a disposição e a coragem que possuíam. Eu me perguntava sobre os motivos que levavam uma pessoa a enfrentar os enormes perigos de uma escalada para alcançar o pico de uma montanha. Havia em mim a sincera curiosidade de saber se o feito tinha o poder de transformação espiritual naqueles que o realizavam. Como esperado, quando cheguei ao armazém já havia um pequeno grupo que aguardava a condução para seguir até o acampamento de onde a escalada se iniciaria. Munido de uma caneca de café, puxei conversa com eles.

Plenitudes – a felicidade

Ainda era muito cedo quando entrei na casa de Li Tzu, o mestre taoísta, na pequena vila chinesa onde ele morava na subida do Himalaia. Por causa dos vários alunos que vinham de todas as partes do mundo para estudar o Tao Te Ching com ele, o portão da casa nunca ficava fechado. Sempre tive o hábito de acordar muito cedo. Como eu sabia que o Li Tzu também era afeito a iniciar o dia antes de o sol raiar, eu não tive dúvida de que o encontraria acordado. Ao entrar na cozinha encontrei a mesa posta com um bule e duas xícaras de chá. Do bico do bule se podia ver a fumaça escapando. No entanto, não havia ninguém. Sentei-me à mesa e enchi uma das xícaras com o chá. O aroma da mistura de ervas se espalhou pelo ar perfumando todo o ambiente. O Meia-noite, o gato negro que também morava na casa, se enroscou na minha perna para me dar um pouco de carinho. Afaguei a sua cabeça e ele saltou para se aninhar em meu colo. Silêncio e quietude. Enquanto bebia o chá me preenchia com a enorme sensação de bem-estar que aquele momento me proporcionava. Estava tentando entender a razão de tanto diante de tão pouco, quando tive os pensamentos interrompidos com a entrada do mestre taoísta. Logo pedi desculpas por invadir a sua casa e me servi do chá sem a devida autorização. Li Tzu, não mostrou surpresa ao me ver, me ofereceu um sorriso sincero e corrigiu: “Não houve invasão. Havia duas xícaras sobre a mesa e uma delas era mesmo para você. Em lugarejos como este é quase impossível não saber sobre as últimas novidades. Soube que você estava no ônibus que deixou os alunos na estalagem ontem à noite. Eu o esperava aqui bem cedo hoje.” Em seguida se sentou do outro lado da mesa. Comentei sobre a maravilhosa sensação vivenciada por mim ainda há pouco. A calma, uma xícara de chá, o carinho de um bichano e parecia que toda a felicidade do universo habitava em mim. Acrescentei que gostaria de me sentir sempre assim. O mestre taoísta deu de ombros e disse: “Depende apenas de você. No entanto, o que você sentiu talvez tenha sido o bem-estar proporcionado por um momento de tranquilidade; não, necessariamente, a felicidade.” Bebi um gole de chá e ponderei que aquelas palavras não me pareciam tão simples. Confessei que muitas vezes duvidei da real existência da felicidade. A vida oferecia momentos felizes; apenas momentos, tão e somente. A felicidade absoluta me parecia uma abstração e, como tal, uma meta impossível de alcançar.

A medicina do lobo

Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom de ensinar a filosofia ancestral do seu povo, morava nas Montanhas do Arizona. Ele tinha sido convidado para ministrar uma palestra em uma prestigiada universidade em um estado vizinho. Como a data coincidia com a minha viagem à sua casa, onde eu passaria mais um período estudando sobre a cultura xamânica, ele pediu para que eu o encontrasse na universidade. De lá voltaríamos juntos de carro. Como adoro o ambiente acadêmico, aceitei de imediato a proposta. Cheguei um pouco antes da hora marcada, me sentei em uma agradável cafeteria com vista para o enorme jardim que entremeava os prédios do campus, para observar o intenso movimento dos alunos se deslocando para as aulas e outras atividades. São ares inspiradores. Perdia-me nas lembranças de quando eu tinha aquela idade; os anseios, as dúvidas, as lutas, as buscas, quando tive a atenção desviada para um pequeno tumulto. Um grupo de alunos discutia entre si. Percebi que a discussão escalava tons rapidamente e fiquei preocupado com o desfecho. Outros alunos se aproximaram e acabaram também se inflamando. O conflito aumentava. Chegaram alguns funcionários e professores para controlar a situação. Em vão. Todos pareciam aflitos para falar, para expor as suas razões e ninguém queria ouvir ninguém. No instante que temi uma perigosa escalada das agressões, das verbais às físicas, um apito soou muito alto. Por instinto todos se calaram e viraram. Tomei um susto ao ver um homem, embora ancião, muito bem-disposto e ágil, de pé sobre uma mesa para se fazer visto por todos. O apito ele tinha pegado emprestado de um treinador de basquete que também se aproximara na tentativa de acalmar os ânimos. Apesar da idade avançada, o homem tinha longos cabelos lisos, embora grisalhos, presos em rabo de cavalo e usava um colete colorido; hábito e vestimenta típica dos Navajos. Era Canção Estrelada.

A escolha certa

Tinha algum tempo que eu não encontrava com o Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos. Os de filosofia e os tintos eram os seus preferidos. O artesão possuía uma incomensurável habilidade em costurar tanto o couro dos sapatos quanto as ideias que nos conduzem na vida e à vida. A sua oficina era lendária na pacata cidadezinha localizada no sopé da montanha que abriga o mosteiro pelos horários incertos e inusitados de funcionamento. Sempre que eu cumpria o período anual de estudos na Ordem passava em sua oficina para uma boa conversa. Regada a vinho ou café, a depender da hora. Como eu gostava de pegar um trem que me deixava na estação ainda pela madrugada, flanava pelas ruas estreitas e sinuosas com calçamento de pedras seculares, na expectativa de encontrar a oficina aberta. Quando eu virava a esquina e avistava a sua clássica bicicleta encostada no poste em frente sabia que era um dia de sorte. Assim foi naquele dia. Como a minha carona até o mosteiro era para a hora do almoço, eu tinha toda a manhã livre para conversar com o sapateiro. Fui recebido pelo elegante artesão com um sorriso largo e um forte abraço. Acomodado ao lado do antigo balcão de madeira do atelier, esperei que o Loureiro passasse um bule de café fresco para animar o dia e ajudar a ativar a mente, sempre preguiçosa pela manhã. Com duas canecas fumegantes à frente, iniciamos uma animada atualização dos últimos meses. Falávamos de trabalho, filhos, viagens, livros, filmes, projetos de curto e longo prazos, todos os assuntos misturados, como acontece na alegria de dois amigos que se reencontram depois de algum tempo, quando fomos interrompidos pela Dayse. Ela era uma mulher muito bonita e culta, amiga de longa data do Loureiro, proprietária da charmosa livraria da cidade, sempre repleta com bons títulos. Como muitas vezes passávamos na livraria atrás de novidades, costumávamos nos sentar em uma cafeteria que ficava em um agradável terraço florido nos fundos da loja para uma taça de vinho ou xícara de café. Por várias vezes Dayse se sentou à mesa conosco para conversar. Portanto, embora não fossemos íntimos, eu a conhecia e a admirava. Sempre educada, a livreira pediu licença para interromper a nossa conversa. Ela precisava desabafar e ouvir uma opinião; os seus olhos estavam molhados.

O último dia da travessia – o encontro

A expectativa era enorme. A caravana entrou no oásis após quarenta dias de travessia, por volta do meio-dia. Era o maior oásis do deserto; era lindo. Diferente de tudo que eu imaginava. Era uma pequena, próspera e improvável cidade perdida em um mar de areia sem fim. Entre tamareiras, damasqueiros e pessegueiros tinha um enorme lago de água doce ao centro. Vários poços de água potável estavam distribuídos por todo o perímetro e eram de livre acesso. Com o solo fértil em função da água, uma sustentável agricultura de grãos e legumes, como grão de bico e cenoura, abastecia a população do lugar. Uma brisa constante e suave, além das fartas sombras proporcionadas pelas muitas árvores, amenizava a temperatura, tornando-a bem agradável. Uma vegetação rasteira cobria uma grande parte do oásis, emprestando uma bonita tonalidade de verde que contrastava com o azul firme do céu e o amarelo típico da areia. As casas possuíam grandes janelas para aproveitar a ventilação e em quase todas funcionavam alguma oficina ou loja. Identifiquei com facilidade, logo no primeiro passeio de reconhecimento que fiz, pequenas mercearias, ateliers de tapetes, alfaiatarias, cutelarias e até mesmo uma escola. As pessoas eram simpáticas e tranquilas; viviam em harmonia com o deserto. Como não havia acomodação para todos, a caravana acampou na periferia do oásis, em local apropriado, com poços de água disponíveis e muitas árvores. Sem demora, tentei localizar o dervixe com quem eu pretendia conversar e compartilhar da sua afamada sabedoria. No entanto, para a minha surpresa, os moradores eram vagos em suas respostas. Quando perguntados onde ele estava, respondiam que “em todos os lugares; em lugar nenhum.”

O penúltimo dia da travessia – o voo do falcão

Era o penúltimo dia da travessia. Desde muito cedo eu estava de pé. O céu tinha a tonalidade rosada, típica de quando o sol ainda não venceu a linha do horizonte. Eu andei com o caravaneiro para um local afastado do acampamento. Ele avisou que seria o último treinamento antes de chegarmos ao oásis. Em seguida me passou o falcão. Senti a pressão das garras em torno da grossa luva de couro que eu usava no braço esquerdo. Em pensamento, enviei à ave as orientações quanto a ver além dos olhos, mas, principalmente, quanto à simples alegria de se sentir em pleno voo. Retirei a touca que lhe cobria a cabeça. O pássaro me olhou por um breve instante, em seguida fiz o movimento de impulsão e o falcão logo ganhou altura no céu. Planou em círculos por longos minutos até que repentinamente recolheu as enormes asas junto ao corpo em posição aerodinâmica instintiva para um mergulho vertiginoso ao solo. Retornou com uma serpente em suas garras. O caravaneiro se manteve impassível, atitude que interpretei como um sinal de aprovação. Sem nada dizer, eu sorri para mim. Retornamos ao acampamento que despertava. Fui à tenda do refeitório e me servi de uma caneca com café fresco. Tornei a me afastar do acampamento. Com os olhos vasculhei os arredores em busca da bela mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli. Há dias não conversávamos. Muitas coisas importantes tinham acontecido. Eu sentia falta de falar com ela e, principalmente, de ouvi-la. A sua maneira de pensar era peculiar e interessante. No entanto, não a vi naquela manhã. Quem se aproximou foi a Ingrid, a astrônoma nórdica de cabelos ruivos, ao lado do Paolo, o seu simpático namorado italiano. Traziam nos rostos a expressão de encantamento típica dos casais apaixonados. Ofereceram-me alguns biscoitos para acompanhar o café. Aceitei e os convidei para sentarem ao meu lado. Acomodados na areia, Ingrid comentou que logo que chegássemos montaria os telescópios para iniciar os seus estudos sobre a constelação apenas visível do oásis. Paolo brincou dizendo que ela não precisava ter pressa, pois as estrelas a esperariam por alguns milhões anos. Rimos. Em seguida, ele quis saber se eu me considerava pronto para encontrar com o sábio dervixe. Também brincando, lembrou que, ao contrário das estrelas, eu não teria tanto tempo para fazer aquilo a que me propunha. Concordei com ele. Contudo, ponderei que o tempo, embora fosse um limitador da existência, nunca seria um adversário, a depender de como nos relacionamos com ele.

O trigésimo-oitavo dia da travessia – o motim

Como todo aprendiz dedicado, eu já aguardava o caravaneiro quando ele chegou com o falcão para o treinamento matinal. Era muito cedo, o acampamento despertava. Ter sido convidado para aprender a arte da falcoaria muito me animava. Contudo, era preciso honrar o convite; em dois dias, sob o meu comando, o falcão voltara sem nenhuma presa. Isto me preocupava. Vesti a grossa luva de couro, presente do caravaneiro, e recebi o pássaro. Senti a força das garras do pássaro de rapina no meu braço esquerdo. Avaliei o quão difícil seria para um animal de pequeno porte escapar daquele predador. Conforme o caravaneiro tinha me ensinado, e demonstrado, me aproximei do falcão para transmitir em pensamento as orientações para a caçada daquele dia. Sem dizer palavra, falei para ele ver além dos olhos para que pudesse encontrar as presas escondidas além das aparências do deserto. Retirei a touca que cobria a cabeça da ave; ela manteve o olhar fixo para frente. Em seguida, a impulsionei com o braço. O falcão ganhou os céus. Planou em círculos por longos minutos; momentos de muita ansiedade para mim e absoluta serenidade para o caravaneiro. Quando retornou ao meu braço não trazia nenhuma caça. Mais uma vez. Aguardei algum comentário do caravaneiro, mas ele nada disse a respeito. Apenas falou para retornamos ao acampamento, pois estava na hora de arrumarmos as nossas coisas para a caravana seguir para mais um dia da travessia. Comentei que estava chateado com o fato de o falcão ainda não ter tido sucesso em nenhuma caçada sob o meu comando. O caravaneiro disse: “Você está preocupado com a glória do caçador, por consequência, a sua. Esta é a razão do falcão não encontrar nada.” Fez uma pausa antes de explicar, ao seu estilo, de modo enigmático: “Esqueça a caça e se concentre em viver o mecanismo da busca. Então, toda a procura irá se revelar. O troféu não é a presa, mas o perfeito voo.”

O trigésimo-sétimo dia da travessia – o rádio do deserto

Quando o caravaneiro chegou com o falcão para o treino da manhã eu já o aguardava. Ele arqueou os lábios em leve sorriso e me cumprimentou com um aceno de cabeça. Coloquei a grossa luva de couro e senti as garras firmes da ave em volta do meu braço esquerdo. Em pensamento, falei ao pássaro que apesar dos olhos privilegiados que possuía não deveria se deixar guiar apenas por eles. Era preciso ver além da visão. Retirei a touca da cabeça do animal e fiz o movimento de impulso. O falcão alçou voou e logo ganhou o céu. No alto, planou em círculos por longos minutos. Fiquei apreensivo por um mergulho vertiginoso na captura de uma pequena presa. Olhei para o caravaneiro; ele estava impassível e sereno como um padre em uma missa de domingo. Parecia ter tudo sobre controle. O silêncio era quase absoluto; o ruído distante do acampamento e o sopro de uma suave brisa compunham a cantiga daquela manhã. Pensei em como algumas pessoas demonstravam enorme serenidade diante da imprevisibilidade dos dias. Tudo pode acontecer; de bom e de ruim. Naquele canto do deserto poderíamos ter um dia calmo de travessia, mas sempre existia a possibilidade do imponderável. Um assalto por selvagens tribos nômades que habitam no deserto; um ataque por grandes felinos, como leões e leopardos, também comuns desde sempre na região; uma picada de serpente ou de escorpião, animais que têm a areia e as pedras como habitat natural; uma devastadora tempestade de areia; uma enorme confusão entre os integrantes da caravana, um motim ou mesmo uma epidemia de rápida disseminação. Entre outras possibilidades que nem ao menos me ocorriam naquele momento. Entretanto, as suas feições eram como se ele estivesse inalcançável a qualquer mal. Comentei isto e perguntei a razão de tamanha serenidade. Sem tirar os olhos do falcão, o caravaneiro foi monossilábico em sua resposta: “Fé.”

O trigésimo-sexto dia da travessia – as estrelas do deserto

A travessia se aproximava do fim. À medida que os dias se passavam eu me sentia mais à vontade no deserto. Eu o entendia, ele me acolhia. De um lado, o desejo pela chegada; de outro, uma saudade que já se anunciava. Um relacionamento de início tormentoso, mas que, aos poucos, se tornava apaixonante, como tudo o que é valioso, mas que causa estranhamento até o momento do exato entendimento. Não à toa a travessia se alongara por quarenta dias. Era preciso haver tempo para que valores e conceitos arraigados em mim, já sem nenhuma serventia, pudessem ficar pelas areias. Aos poucos, trocados por outros, mais adequados à pessoa que eu me transformava, impossível sem a ajuda do deserto. Mesmo que o sábio dervixe se recusasse a me receber a travessia já teria valido a pena. Ainda era madrugada quando despertei. As noites no deserto são encantadoras. Um manto de estrelas se estende por todo céu. De tão brilhantes temos a maravilhosa sensação de que ao subir nas dunas tocaremos nas estrelas mais próximas. Sentei na areia e peguei algumas tâmaras secas no alforje. Planejava meditar e rezar até a hora de a caravana acordar. Tomaria algumas canecas de café e iria para segunda aula de falcoaria com o caravaneiro. Eu estava bastante animado. Foi quando percebi que a Ingrid, a bela astrônoma nórdica de cabelos ruivos, estava ao longe com um dos seus telescópios montados sob o tripé observando alguma constelação. Ela parecia alegre ao dar explicações ao Paolo, o bonito namorado italiano que conhecera na caravana. Formavam um belo e interessante casal. Embora o ciúme inicial que eu sentira tivesse ficado para trás, confesso que tornei a pensar que poderia ser eu a estar ouvindo as explicações sobre a Via Láctea. Dominei a emoção selvagem e a pacifiquei em mim. Fiquei bem; me senti leve. Eles me viram e acenaram para eu me aproximar.

O trigésimo-quinto dia da travessia – a anciã do deserto

Eu tinha acordado bem-disposto. Era muito cedo. A caravana ainda dormia. A leste o céu começava a ganhar o tom rosado que antecede ao azul. Sem demora as estrelas se retirariam de cena. Em verdade, estariam lá, apenas ocultas pela cortina do dia. Os sentidos permitem ou limitam as percepções à medida de como lidamos com eles. Sentei na areia em local um pouco afastado e fiquei pensando sobre a verdade que está por trás dos nossos sentidos. O mundo e, por consequência, a vida nos é concebido da maneira como entendemos tanto o mundo quanto a vida. Quantas e quais cortinas preciso abrir para encontrar a verdade? Quanto da vida eu perco por não a perceber em toda a sua amplitude e sutileza? Eu estava envolto em minhas reflexões quando fui interrompido por uma anciã. Ela parecia ter uma idade avançada ao analisar por sua pele bastante enrugada. Não conseguia me recordar dela na caravana. As suas feições não eram nem tristes nem alegres; apenas serenas. A anciã me perguntou se eu podia acompanhá-la. Imaginei que ela precisava de ajuda e, sem hesitar, me coloquei à disposição. Ela me levou até a tenda mais distante do acampamento.

O Sexto Portal – Os Oito Portais do Caminho

“Você consegue ver o que existe do outro lado da janela?”, me perguntou o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo do mosteiro. Falei que não, pois o vidro do vagão estava opaco por causa da fuligem. O monge deu de ombros, fechou os olhos e voltou a pegar no sono. Eu o acompanhava em uma curta viagem de trem rumo a uma universidade, localizada em uma cidade próxima, onde ele seria um dos palestrantes de um simpósio sobre a poluição planetária. Os meus estudos para dissecar e compreender os Oito Portais do Caminho, revelados no trecho das Bem-aventuranças, parte do Sermão da Montanha, eixo central dos estudos da Ordem, prosseguiam. Eu pensava em aproveitar a viagem para extrair um pouco mais dos conhecimentos do Velho. O Sexto Portal dizia: “Bem-aventurados os puros pelo coração, porque eles verão a face de Deus”. Em razão dos portais anteriores, eu sabia que essa frase de aparência simples ocultava profunda interpretação. Sabia, também, conforme ele tinha me ensinado que de um portal a outro é necessário agregar ao ser uma ou mais virtudes, que cresciam em grau de dificuldade. Não restava dúvida que a virtude-chave do Sexto Portal era a pureza. No entanto, eu tinha dificuldade em compreender a extensão do conceito. Não raro, nos pegamos na tentativa de explicar com palavras algo que imaginamos inato, que acreditamos conhecer muito bem, mas que quando nos pedem uma explicação detalhada acabamos por tropeçar nas palavras. O tempo, por exemplo. Todos sabem o sobre o tempo; poucos serão capazes de explicá-lo com clareza e profundidade. Santo Agostinho, quando questionado sobre o tempo, disse que sabia do que se tratava, no entanto, se tivesse que explicar, não mais saberia. A pureza, como virtude, não era diferente para mim.

O trigésimo-quarto dia da travessia – a cruz

Acordei bem-disposto. E tarde. O caravaneiro já retornava com o falcão pousado na grossa luva de couro do braço esquerdo quando enchi uma caneca com café fresco na tenda que servia de refeitório. O acompanhei com o olhar. Ele entregou o pássaro aos cuidados de um encarregado e remexeu nas suas coisas em busca de algo. Já tinha me chamado atenção o fato de o caravaneiro carregar tão poucas coisas na sua bagagem. Poucos na caravana levavam um alforje tão leve. De quanto eu menos precisar mais livre serei, era um ensinamento que, pelo visto, ele cumpria à risca. Aproximei-me. Como ele olhou sem fazer objeção, me encorajei a chegar mais perto. Comentei sobre a minha observação. Ele disse: “As desnecessidades sobre as coisas do mundo são fatores que ajudam e sinalizam a conquista da liberdade por evitar as relações de dependência. Contudo, não basta. Pois posso estar além dos cárceres da matéria, mas aprisionado nas esferas das emoções. A liberdade é um estado por inteiro do ser. Uma conquista profunda”, com a mão fez no ar um traço na vertical, “E ampla”, e desenhou outro traço na horizontal. Uma cruz. Não entendi a razão do gesto.

Todo o oceano dentro de uma garrafa

O silêncio não era absoluto por minha causa.  Aquela hora, eu apenas ouvia os meus próprios passos pisando no calçamento de pedras seculares através das ruas sinuosas e estreitas. A pequena e agradável cidade que fica no sopé da montanha que abriga o mosteiro ainda adormecia. Eu tinha pego um trem noturno que fazia uma pequena parada naquela estação e seguia adiante. Eram poucos os moradores da região que faziam essa viagem, pois o trem passava na cidade antes de o sol nascer. Eu pensava na vida simples das pessoas que moravam ali. Uma rotina sem pressa, com a tranquilidade para fazer as coisas sem a opressão da correria típica das metrópoles. Viver com calma, cercado por pessoas que também viviam dessa maneira, com certeza seria uma possibilidade de conciliação comigo mesmo. Com certeza eu teria condições de me dedicar a outros projetos, tanto pessoais quanto profissionais, que há tempos eram adiados. Ali dava a sensação de que o tempo era tanto que transbordava pelas bordas do dia. Eu pensava sobre isso enquanto me dirigia à oficina de Loureiro, o sapateiro amante dos livros de filosofia e dos vinhos tintos. Eu não quis avisá-lo da minha chegada, seja pelo horário inoportuno, seja porque eu não me demoraria. Apenas esperaria a hora para pegar o transporte até o mosteiro, onde prosseguiria em mais um período de estudos anuais. Como já eram famosos os inusitados horários de funcionamento da oficina, eu apostava na enorme possibilidade de encontrá-la aberta durante a madrugada. Ao ver a sua clássica bicicleta encostada no poste em frente, sorri para mim mesmo, em parte pela boa sorte, em parte pela satisfação que senti; amigos se entendem sem a necessidade de muito explicar. Loureiro abriu um enorme sorriso quando me viu entrar no atelier. Deu-me um forte abraço, pediu para eu me sentar ao lado do antigo e pesado balcão de madeira enquanto passaria um bule de café fresco para animar a conversa. Logo comentei das maravilhas de uma vida simples em uma cidade pequena. O sapateiro colocou duas canecas fumegantes à nossa frente e comentou: “Uma vida simples será sempre uma questão atual; ou deveria ser. Trata do antigo dilema entre o oceano e a garrafa.” Diante do meu olhar atônito, ele iniciou o raciocínio: “O perigo é confundirmos a simplicidade com o simplismo. Uma velha, porém ainda eficaz, armadilha.”

O trigésimo-terceiro dia da travessia- o Estranho do deserto

Não acordei bem. Uma insatisfação se fazia presente. Em geral desperto bem-humorado, sem que precise de qualquer esforço para me sentir otimista em relação à vida. Sempre fui assim. No entanto, tinha dias que um azedume invadia as entranhas e predominava nas sensações. Não havia necessidade de ter acontecido algo em particular para que eu me sentisse assim. Era esporádico. Acontecia às vezes sem que eu conseguisse identificar a origem do mal-estar. Antes do café, me afastei para a minha prece e meditação diária. Eram poucos, porém, importantes minutos dessas duas práticas, as quais eu não dispensava. A meditação me permite encontrar e conversar comigo; o outro que me habita. Me conhecer melhor e entender as mudanças que me são necessárias. A prece me conecta com os meus mestres e guardiões pessoais do plano invisível, os quais todos temos. Ocorre que nesses dias em que eu acordava mal, era comum situações de incômodas memórias insistirem em se intrometer em minha mente para atrapalhar, seja a prece, seja a meditação. E isto me deixava ainda pior, com a sensação de não ter completado uma tarefa.

A vida não é chata

A vida estava chata. Assim eu pensava quando o ônibus parou próximo à única estalagem da vila chinesa na subida ao Himalaia. Tudo sem graça; todos pareciam conspirar para tirar a beleza dos meus dias. O meu namoro estava abalado após sucessivos desentendimentos; na agência de publicidade, uma séria disputa interna causava rivalidade entre os funcionários e comprometia os trabalhos da empresa. Os clientes perceberam isso e alguns não quiseram renovar os seus contratos. Eu tinha me desentendido com as minhas filhas pela pouca atenção que elas dispensavam a mim; os meus amigos estavam desinteressantes, sempre com as mesmas conversas e assuntos. Deixei a minha mala na hospedaria. Enquanto andava pelas ruelas da vila rumo à casa de Li Tzu, o mestre taoísta, para mais um período de estudos, passei em frente a um pequeno restaurante que não existia quando estive por lá na última vez. O lugar me pareceu atraente e agradável. Como eu não comia nada há horas, resolvi almoçar antes de encontrar com Li Tzu. Fui recebido com entusiasmo pelo proprietário do estabelecimento, que para a minha surpresa, era um estrangeiro, assim como eu. Fui acomodado em uma mesa confortável. O cardápio passava longe da tradicional culinária chinesa, o que, naquele momento, eu achei ótimo. Enquanto aguardava a refeição, Stefan, o simpático proprietário, avisou que o restaurante trabalhava com uma excelente cerveja artesanal, de um pequeno produtor da região. Aceitei experimentar. De fato, a cerveja era de ótima qualidade. Começamos a conversar. Stefan contou como estava feliz. Nas férias veio conhecer o mestre taoísta, pois, na época se sentia triste. Ficou encantado com o lugar. Não hesitou em largar tudo para morar na vila. Era sócio de uma construtora em seu país natal, mas vivia estressado com o ritmo das grandes metrópoles. Agora vivia a calma e o bucolismo típicos de um lugar onde todos vivem sem pressa. Tanto, que já não mais prescindia dos estudos sobre o Tao Te Ching. Sentia-se, finalmente, um homem completo e realizado; não desejava uma vida diferente. A conversa ficou animada; as cervejas se sucederam. Cheguei levemente bêbado na casa de Li Tzu. O mestre taoísta pediu para que eu fosse descansar na estalagem e retornasse no dia seguinte pela manhã.

O trigésimo-segundo dia da travessia – a sabedoria do deserto

Acordei com os primeiros raios de sol da manhã lambendo o meu rosto. Sorri pelo carinho recebido. Eu tinha dormido pouco nas noites anteriores; os dias tinham sido intensos. Levantei bem-disposto. A minha alma estava alegre no caldeirão de transformações que fervia em mim. Eu conseguia perceber as mudanças se anunciando, mas ainda não conseguia definir como elas alterariam o meu comportamento e, por consequência, a minha existência. Vivemos o que somos; o quanto consigo ser limita ou expande o mundo. Esta é a fronteira da vida. A semente de amor está disponível para todos; fazê-la germinar nos campos da alma depende do fazendeiro que cada um já consegue ser. Quando me transformo muda a semente que plantarei na próxima estação. Mesmo quando os frutos são de luz; difere a intensidade, a clareza e o alcance. Defino a mudança das semeaduras vindouras não por desejo, mas por escolha. Mas como diferenciar um desejo de uma escolha? A escolha é uma vontade livre e consciente da alma, sem as contaminações do medo, do egoísmo e das suas demais variantes. É a decisão de querer diferente por já ser diferente. Não basta querer ser bom, é preciso ser bom. Não há nada de errado em querer ser bom, faz parte dos degraus na escada da iluminação. Contudo, querer ser bom é apenas um desejo. Ser bom é uma escolha.

Eu amava o deserto. Dei-me conta naquela manhã quando sentei na areia com uma caneca de café para rezar, refletir e meditar, ainda que por poucos minutos. O caravaneiro treinava o seu falcão. Há dias eu não acompanhava essa rotina. A ave flutuava em círculos sustentada pelo ar; eu pensava nas coisas da vida. Eu queria ter a leveza necessária para voar sobre as coisas do mundo, pensei.

A medicina do gato

Canção Estrelada, o xamã que tem o dom de perpetuar a sabedoria do seus ancestrais através da palavra e da música, parecia se divertir. Sentado na cadeira de balanço, baforava o seu indefectível cachimbo com fornilho de pedra vermelha, enquanto ouvia eu narrar as minhas desventuras amorosas. Eu estava sério e nem um pouco satisfeito com o comportamento do xamã, que me olhava como a um menino que chega da escola repleto de queixas pelo fato de as outras crianças se negarem a brincar com os seus jogos. Comentei isto com o Canção Estrelada, que arqueou os lábios em leve sorriso e disse: “Sim, esse é exatamente o seu comportamento.” Pedi para ele não zombar da minha dor. Esclareci que vinha fazendo terapia há mais de um ano para entender o fato de nunca ter sido feliz em minhas relações afetivas. Eu passara por quatro casamentos e vários namoros, dos quais fui presenteado com duas filhas. Tudo começava bem, com sinceras juras de amor para logo em seguida desandar em ciúme, desconfiança e brigas até se encerrar com o fim do romance, quase sempre de maneira tumultuada. Quando, então, passado algum tempo, eu conhecia outra pessoa e a história se repetia, mudando apenas os personagens, cenários e detalhes aparentes. A narrativa de fundo era rigorosamente a mesma.

O trigésimo-primeiro dia da travessia – um voo sobre deserto

A travessia entrava em sua reta final. Um mês se passara. Restavam exatos dez dias para, no quadragésimo dia, chegarmos ao maior oásis do deserto, onde eu pretendia conhecer um sábio dervixe, sabedor de “muitos segredos entre o céu e a terra.” Tinham sido dias tensos e intensos; dias atribulados, de muito aprendizado. Eram suficientes, pensei. Desejei um atalho para chegar mais rápido ao destino desejado.

A festa da noite anterior não impediu a caravana de despertar antes do sol subir à linha do horizonte. O acampamento foi desmontado e, sem demora, todos estavam perfilados. Logo iniciamos a marcha. A manhã estava agradável. Uma brisa suavizava o clima severo do deserto. Era hora de começar a interiorizar todas as valiosas lições vividas naquelas areias para que a travessia se justificasse. Caso conseguisse, eu me tornaria um homem melhor, além de ficar mais preparado para o encontro com o dervixe. Pensei em como seria bom ter alguns dias calmos para a reflexão; de outro lado, considerei sobre esta desnecessidade. Tudo aquilo vivido restava aprendido; os fatos se impunham como lições. Não havia nada a acrescentar. Tornei a desejar, agora com mais intensidade, que a última etapa da travessia fosse suprimida.

O Quinto Portal – Os Oito Portais do Caminho

No meio da tarde, depois de procurar por quase todo o mosteiro, fui encontrar o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, no refeitório. Ele se entretinha com um pedaço de bolo de aveia e uma caneca de café enquanto conversava com o cozinheiro. Ambos eram homens bem-humorados e cheios de histórias interessantes para contar. Quando me viu fez um aceno para eu me sentar com eles. Raimundo, um brasileiro natural do Ceará, tinha percorrido o mundo a bordo de um navio mercante até sossegar, há tempos, na cozinha do mosteiro, localizado nas montanhas dos Pirineus. Ele era muito querido por todos na Ordem, seja pela sua simpatia, seja pelos dotes culinários. Raimundo contava uma aventura vivida no Vietnã. De folga do serviço quando o navio atracou, procurou por uma igreja por sentir um grande desconforto na alma, o qual não conseguia identificar o motivo. Sem conhecer a cidade portuária, andou a esmo pelas ruas até se deparar com um templo budista. Como os portões estavam abertos, entrou. Subiu a escadaria e encontrou um grande salão. Estava vazio. O perfume dos incensos, uma música suave que se misturava ao som do silêncio, tornavam o lugar acolhedor. Sentou-se e rezou. Como vinha de uma família sem hábitos religiosos, nunca aprendera a rezar. Assim, rezou ao seu modo, conduzido pela pureza do coração. Como sentia uma vontade inexplicável de “conversar além das coisas do mundo”, perdeu-se nas horas. Quando terminou um monge budista que o observava se aproximou. O monge budista se declarou encantado com a aura clara de Raimundo. Disse que a pureza da sua prece tinha iluminado o templo e agradeceu por isto. O cozinheiro confessou estar se sentindo bem melhor do que quando ali entrara. Meteu a mão no bolso, tirou algum dinheiro e entregou ao monge budista. Disse que deveria ter como destino a manutenção do templo, pois achava importante que aquele lugar fosse conservado para que outras pessoas pudessem se beneficiar, assim como acontecera com ele. O monge budista, que nada pedira, arqueou os lábios em sorriso e acenou com a cabeça em agradecimento. Raimundo acrescentou que aquele dinheiro era também com a intenção de obter algum merecimento do Alto, pois quase nada entendia sobre esses assuntos. Neste instante, sem perder a serenidade, o monge budista lhe devolveu o dinheiro. Disse que não podia aceitar; que Raimundo não ficasse zangado nem o levasse a mal. Mas ali não era um mercado de trocas; era um templo. Um local de conexão com o sagrado que habita em todos nós. Explicou que a caridade era uma linda virtude, desde que isenta de qualquer interesse, seja material, ainda que espiritual. Argumentou que devolvia o dinheiro para o bem do próprio Raimundo, pois a caridade ligada a qualquer recompensa se torna um empecilho à jornada cósmica do benfeitor.

O trigésimo dia da travessia – a arte do deserto

Há dias que parecem existir apenas para nos contrariar. Ou nos testar. Acordei feliz pensando na Ingrid, a astrônoma nórdica de cabelos ruivos. Fui à tenda que servia de refeitório para buscar uma caneca de café e todos comentavam sobre a tradicional festa do trigésimo dia da travessia, que se realizaria naquela noite. Imaginei-me dançando com a astrônoma sob o lindo céu de estrelas do deserto. Foi quando vi a Ingrid conversando com um peregrino que, assim como eu, viajava para o maior oásis do deserto com o intuito de conversar com o sábio dervixe, “conhecedor de muitos segredos entre o céu e a terra.” Ingrid dava boas risadas. Ele se chamava Paolo, um italiano muito popular na caravana. Era bonito, simpático e gentil. Tinha uma conversa agradável, eu mesmo já tinha dado gargalhadas das suas histórias, sempre bem-humoradas. Paolo era o braço-direito e herdeiro do pai, um rico industrial de Milão. Tinha a idade de Ingrid e, assim como a astrônoma, parecia ter o dom de seduzir. Eles conversavam como se nada mais importasse no mundo. No mesmo instante me senti mal. Um gosto amargo na boca e um azedume nas entranhas sinalizaram a dança do ciúme dentro de mim. Embora não namorasse ou tivesse qualquer compromisso formal com a Ingrid, eu cultivava esta esperança. A plantação ardeu em fogo quando eles emparelharam os camelos para fazerem juntos a travessia daquele dia. Enjoado, cuspi o café.

A clareza nas relações

Entrei na oficina de Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos, precisando desabafar. Ao perceber, antes que eu começasse a falar, ele me deu um forte abraço. Um aconchegante gesto de empatia, típico daqueles que têm o mundo dentro do coração. Acomodou-me ao lado do antigo balcão de madeira e disse para eu esperar, pois iria preparar um bule de café fresco para acompanhar a nossa conversa. Com as canecas fumegantes à frente despejei a minha incompreensão com o comportamento das pessoas. Parecia que todos tinham perdido o próprio eixo, acrescentei. Contei que um dos meus melhores amigos tinha me procurado na agência de publicidade. Roberto era o seu nome. Ele tinha uma firma de engenharia especializada em captação de energia solar. Embora se tratasse de algo moderno e ecológico, os negócios não fluíam bem. Os prejuízos se acumulavam mês a mês. Marquei uma reunião. Convoquei toda a equipe de criação da agência para sentar com o Roberto e traçarmos uma estratégia de divulgação. O alvo seria concentrado, em um primeiro momento, nas indústrias. Depois visaríamos lojas e prédios comerciais. As residências ficariam para outra etapa. Toda a publicidade restaria distribuída pelas mídias sociais comuns à internet. O resultado não atingiu a meta esperada, mas foi suficiente para tirar as contas do vermelho e capitalizar a firma de engenharia para os próximos meses. O Roberto me ligou para agradecer. Disse que estava muito satisfeito com o trabalho. Loureiro interrompeu e exclamou: “Maravilha!” Como se soubesse o que estava por vir, riu e brincou: “Agora começam os problemas”.

O vigésimo-nono dia da travessia – quando o deserto te arranca de ti.

Acordei com a Ingrid, a bela astrônoma nórdica de cabelos ruivos, me entregando uma caneca de café fresco. Agradeci. Ela sorriu com os olhos para mim. Depois do ocorrido nos dois últimos dias, não era difícil perceber que os seus olhos tinham um brilho diferente. Uma luz típica daqueles que se alegram por ver o que antes não conseguiam. Ingrid disse que iria providenciar algumas coisas junto à caravana e saiu. Sentado na areia, fiz a minha prece diária e bebi o café sem pressa, enquanto observava o movimento da manhã. Com a caneca vazia, me dirigi à tenda que servia de refeitório para me servir de um pouco mais de café. Um grupo de homens conversava na entrada. Embora não fossem meus amigos, depois de tantos dias quase todos nos conhecíamos de vista. Cumprimentei-os. Um deles era alto e bem forte, apesar da idade avançada. A característica que mais chamava a atenção eram as feições que demonstravam desconfiança sobre tudo e todos. Ele sempre fazia comentários sarcásticos, como se o fato de ridicularizar os outros, de alguma maneira o alimentasse. Diziam que tinha servido no serviço de informações de um país da extinta Cortina de Ferro, do bloco soviético existente à época. Chamava-se Ivan. Havia algo nele que emanava perigo. Talvez fosse isto que me incomodasse na sua presença. Talvez fosse uma intuição. Não raro confundimos as intuições com os nossos desejos e receios. Saber discernir uma dos outros costuma evitar dissabores.

Do que são feitos os sonhos

Li Tzu, o mestre taoísta, retirou as ervas da infusão e encheu as nossas xícaras com o chá. Sentado na mesa da cozinha, eu estava na pequena vila chinesa para mais um período de estudos sobre o milenar texto do Tao Te Ching. Meia-noite, o gato negro que morava na casa, nos observava deitado em cima da geladeira. Comentei de como achava agradável a casa de Li Tzu. Embora simples, tinha uma atmosfera aconchegante, dava vontade de não ir embora. Os móveis de madeira, o jardim de bonsais, o perfume dos incensos, as muitas velas acesas em diversos ambientes, o silêncio que se alternava com a suave música zen para as aulas de meditação, ioga ou do próprio Tao, criavam um ambiente propício para o corpo serenar, liberando a mente para viajar a lugares nunca antes visitados. Agradecido, o mestre taoísta sorriu e disse: “As nossas casas costumam refletir quem somos. Na aparência a casa fala da classe social, das possibilidades financeiras ou mesmo da atividade profissional do proprietário. Mas isto importa pouco ou mesmo nada. Penso que o valor de uma casa está na sua essência. Toda casa tem uma ‘alma’, que é o espelho da alma de quem a habita. Repare que existem casas que são luxuosas, decoradas com obras de arte e objetos de designs muito bonitos, porém temos a sensação de que são vazias. São casas ‘vitrines’. Outras, embora bem arrumadas, com todas as coisas nos seus devidos lugares, nos causam confusão e desconforto a ponto de termos dificuldade até de pensar livremente quando ali estamos. Algumas casas têm um clima tenso, como se fossem campos de batalha. São casas que não costumamos sentir vontade de voltar. No entanto, há casas que são alegres e movimentadas, mostrando o otimismo, a esperança, a confiança e a comunhão das pessoas que moram nelas. Há também as casas que se parecem com templos. Não em seu sentido religioso, porém na paz que transmitem, pela quietude que acalma os ânimos, pela leveza que proporcionam, pelo abraço com que nos acolhe.” Falei que a casa dele, sem dúvida, era deste último tipo. Li Tzu tornou a sorrir em agradecimento. Perguntei como eu poderia fazer para que a minha casa também fosse assim. O mestre taoísta explicou: “Esteja em paz consigo mesmo. A sua energia ocupará todos os cantos da casa.” Eu quis saber sobre a decoração, o jardim e o animal de estimação. Li Tzu me ofereceu um olhar divertido e disse: “Tudo é muito simples. Deixe que a casa conte a história de quem mora lá.” Falei que não tinha entendido. Ele esmiuçou: “Os objetos da casa têm duas categorias. Os necessários e os narrativos. Os necessários são aqueles utensílios que precisamos pela utilidade que possuem, como a geladeira ou as panelas. Os narrativos são os objetos que, de alguma maneira, fizeram parte da vida ou possuem significados importantes para o dono da casa, como se fossem cenas que compõem um filme.”

O vigésimo-oitavo dia da travessia – a consciência do deserto

Acordei bem cedo, com o céu ainda naquele tom de rosa típico de quando o dia amanhece sem que o sol tenha despontado no horizonte. Ingrid, a bela astrônoma nórdica, que quase morrera envenenada pela mordida de uma serpente no dia anterior, sentada ao meu lado, sorriu para mim. Senti-me aliviado. Embora ainda enfraquecida, ela estava bem. Apanhei duas canecas de café e me sentei ao seu lado. Ela agradeceu com os olhos sem dizer palavra. Falei que estava preocupado de como ela suportaria mais um dia de travessia. As condições do deserto são severas e eu temia que ela piorasse. Com o queixo, Ingrid apontou para um dos encarregados da caravana. Era Rafi. Eu já o tinha notado pelo fato de, mesmo sem ter um dos braços, era uma das pessoas mais solícitas, gentis e trabalhadoras do grupo. Eu entendi o que ela queria me dizer, no entanto, ponderei que apesar de Rafi não ter um dos braços, o seu organismo era forte e acostumado àquelas condições. Entretanto, ela ainda estava visivelmente debilitada. Ponderei que ela seguisse deitada, como no dia anterior, em uma maca montada entre dois camelos, pelo menos por mais um dia. Ingrid se negou. Disse que iria sentada sobre o seu camelo. Insisti que ela estava equivocada e que se arrependeria. Ela deu de ombros e disse que a consciência molda a realidade; ao se acreditar fraca, seria fraca. Acrescentou que o inverso também era aplicável. Ser forte será sempre uma escolha. Uma simples escolha. Rafi era um bom exemplo disso, ressaltou.

O Quarto Portal – Os Oito Portais do Caminho.

Os meus estudos sobre os Oito Portais do Caminho prosseguiam. O Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, me revelara que no Sermão da Montanha, mais precisamente no trecho das bem-aventuranças, restava codificado os portais da jornada espiritual de iluminação. Como ele também me ensinara, para ultrapassar cada portal é necessário o andarilho trazer em si um determinado grupo de virtudes, as quais aumentam em grau de dificuldade à medida que avança pela estrada da luz. O exercício das virtudes torna uma pessoa melhor. Quanto mais inseridas às práticas cotidianas, maior a sensação de plenitude. Devidamente compreendidos os três portais iniciais, eu partia em busca do devido entendimento sobre o Quarto Portal. “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados!”, ensinou o Mestre, segundo as letras de Mateus. Era, sem dúvida, ao contrário dos outros, um portal de fácil compreensão: exigia a virtude da justiça. Afirmei ao monge, enquanto ele podava as rosas do jardim interno do mosteiro, que eu me considerava um homem justo.

O vigésimo-sétimo dia da travessia – o veneno do deserto

O falcão ficou um logo tempo planando em círculos, como se apenas flanasse despreocupadamente pelo deserto.  De repente, recolheu as asas para mergulhar vertiginosamente até a areia em ataque fulminante. Trouxe uma serpente em suas garras. Por descuido, um pouco antes de pousar, o réptil lhe escapou. Em frações de segundo, movida por instinto de sobrevivência, a cobra se escondeu dentro de uma pequena toca entre as pedras. Com o falcão pousado na grossa luva de couro que usava no braço esquerdo, o caravaneiro se retirou. Um pouco afastado, com uma caneca de café fresco à mão, eu observava o caravaneiro e o falcão. Acompanhar o adestramento matinal do falcão tinha se tornado parte da minha rotina diária. Em seguida, fiz a minha prece rogando por luz e proteção. O acampamento estava sendo desmontado e logo seguiríamos para mais um dia de travessia. Guardei as minhas coisas, ajeitei o alforje sobre o camelo. Para a minha surpresa, quem tornou a alinhar ao meu lado para a marcha foi a Ingrid, a bonita astrônoma. Animado, puxei conversa. Tive o cuidado de, naquele dia, não polemizar com ela para não acabarmos em discussão como ocorrera outras vezes. Ela era apaixonada por mecânica quântica e quanto à sua aplicabilidade tanto na astronomia como na construção da realidade. Dizia que o nosso cotidiano tem mais em comum com as estrelas do que a nossa tosca filosofia era capaz de imaginar. Agradável e inteligente em seus modos e argumentos, embora eu discordasse de vários deles, ela fez com que a manhã transcorresse mais rápida do que eu desejava. Quando me dei conta, já estávamos no meio do dia, hora que costumávamos parar para um breve descanso e uma refeição ligeira. Desmontamos dos camelos, estendemos um pequeno tapete para sentar e me ofereci para buscar algumas tâmaras com os encarregados da caravana. Ela aceitou com um sorriso. Eu tinha dado poucos passos quando ouvi um grito. Eu sabia que era a voz da Ingrid. Virei-me rapidamente e, ao mesmo tempo que vi a sua expressão de dor, observei uma serpente fugir com impressionante agilidade pelas areias após morder a astrônoma.

A medicina do urso

“Viver nem sempre é suave. Há momentos na vida que tudo parece difícil ao extremo. São os invernos da existência.” Foram as palavras de Canção Estrelada depois que relatei o desgastante processo de ruptura entre os sócios da agência de publicidade da qual eu era um deles. Dois saíram para montar uma nova agência com o intuito de atender a uma poderosa multinacional, que, por exigência contratual, impunha exclusividade. Os demais, eu e mais um, seguimos com as contas dos antigos clientes. Contudo, os fatos não se desenrolaram de maneira simples e delicada. Era uma situação que envolvia dinheiro e sombras. Dizem que conhecemos melhor uma pessoa quando nos afastamos dela do que quando estamos ao seu lado. Sinceramente, não tenho certeza se é verdade, mas naquele momento os egos estavam exaltados. Vaidade, orgulho, inveja, ciúme e ganância se fizeram presentes em nossas reuniões. Teve dias em que eu voltava para casa em completo esgotamento físico, emocional, mental e espiritual. Amigos que, movidos por paixões descontroladas, se tornaram inimigos mordazes. Tudo piorou com a participação dos advogados nas rodadas finais de negociação; quando precisamos das leis é porque nos perdemos do amor. Faltou sensatez e equilíbrio; faltou amor. No dia em que todos os contratos restaram assinados, eu nem voltei para a casa. Fui para o aeroporto e, sem nenhuma mala, apenas com os documentos pessoais, peguei o primeiro voo para o Arizona. Eu estava enjoado comigo mesmo, como se a vida tivesse me causado indigestão. Eu me sentia um espectro de homem.

O vigésimo-sexto dia da travessia – uma fábrica no deserto

Era um dia diferente. Tínhamos alinhado para iniciar a marcha ainda com o céu escuro. Quando o sol surgiu por detrás das dunas, hora que, em geral, a caravana acordava, já marchávamos há três quartos de hora. O objetivo era chegar a um oásis intermediário para nos abastecer de água e víveres. Esse oásis tinha um enorme lago de água doce e limpa. Nas suas margens existiam várias pequenas fábricas, todas familiares e montadas em tendas, de excelentes tapeceiros. Eram tapetes com belas estampagens, confeccionados com difíceis pontos de costura, técnicas transmitidas através de muitas gerações do deserto. Muitos mercadores de tapetes que estavam na caravana realizavam ali os seus negócios, adquirindo as peças para a revenda. Daquele ponto retornavam para Marraquexe, conduzidos por um grupo de encarregados. Outra parte da caravana seguia em frente, rumo ao maior oásis do deserto, onde havia outros tecelões de tapetes, que se utilizavam de diferentes técnicas de confecção. Eu, assim como outros peregrinos, seguiríamos no intuito de encontrar com um sábio dervixe, “conhecedor de muitos segredos entre o céu e a terra.” Saímos mais cedo para que chegássemos no meio do dia, oferecendo tempo suficiente para a caravana se abastecer. Como isto demoraria um pouco, dormiríamos aquela noite naquele oásis.

Ego, um amigo incompreendido

Os nossos sentidos têm intensa ligação com a nossa memória afetiva. O sabor da goiaba me leva até a casa do meu avô, onde passei boa parte da infância; a bossa-nova me remete às deliciosas tardes da adolescência; a textura do papel me transporta até a biblioteca da faculdade em estudos sem fim. O cheiro do couro me lembra a oficina de Loureiro, o sapateiro amante dos livros e do vinho. Os de filosofia e os tintos eram seus os prediletos. Pensava nessas lembranças quando vi a sua clássica bicicleta encostada no poste em frente à loja. Fui recebido pelo amigo com um sorriso sincero e um forte abraço. Sempre elegante, no vestir e nas atitudes, Loureiro tinha os cabelos brancos, ainda fartos apesar da idade, penteados para trás, e os olhos alegres de um menino. A camisa de alfaiataria estava com as mangas dobradas até a altura dos cotovelos para não atrapalharem os seus movimentos no trabalho. As suas palavras, sempre honestas, eram firmes, mas primava por mesclar uma dose de gentileza para que fossem bem recebidas. Era um homem virtuoso, tanto no ofício de costurar o couro dos sapatos que criava, quanto na arte de encontrar o melhor lugar para cada ideia no maravilhoso mosaico da vida. Vi que sobre o balcão havia um livro de Carl Jung, a respeito do ego, com várias páginas marcadas. Imediatamente comentei que tinha acabado de ler outro livro sobre o ego, do qual eu gostara muito, que, em resumo, falava de como ego, por se tratar de um inimigo pessoal, que tanto nos prejudica e nos faz sofrer, precisa ser derrotado. Loureiro arqueou os lábios em leve sorriso e disparou a controvérsia: “Sem dúvida, a maior batalha é aquela que travamos nos porões escuros do ser. No entanto, o ego não é esse inimigo. Ele é apenas um amigo incompreendido.”

O vigésimo-quinto dia da travessia – o camaleão do deserto

Eu tinha acabado de fazer a minha prece. Ainda era bem cedo. Munido de uma caneca de café, me sentei na areia para, mais uma vez, me encantar com o caravaneiro e o seu falcão. Pousada na grossa luva de couro que o caravaneiro usava no braço esquerdo, a ave parecia entender as palavras que lhe eram sussurradas. Ao comando, se lançava aos céus. Voava alto em círculos longos, como se não tivesse pressa, até que recolhia as asas para mergulhar vertiginosamente ao solo e capturar a presa. Serpentes ou pequenos roedores eram as mais comuns. Daquela vez, trouxe em suas garras um camaleão. O deserto, ao contrário do que muitos imaginam, não é um vazio de vida. Muitas espécies coabitam as areias em simbiose contínua, embora nem sempre visível ao primeiro olhar. Comentei esse fato como o caravaneiro. Ele me disse: “O que os olhos não veem, não significa que não exista.” Fez uma pequena pausa e aprofundou: “Ainda que os olhos vejam, não significa que compreenderam.”

Quem somos

 

Quando cheguei à pequena vila chinesa no Himalaia, deixei minha mala na única estalagem do lugar e me dirigi à casa de Li Tzu, o mestre taoísta. Era muito cedo. Meia-noite, o gato preto que também morava na casa, mergulhado em sono profundo, nem se mexeu com a minha chegada. Li Tzu tinha terminado os exercícios de ioga que praticava todas as manhãs. Ele me recebeu com um sorriso sincero. Convidou-me para o desjejum; poderíamos conversar um pouco antes de os alunos chegarem para as aulas. Vinham pessoas de todas as partes do mundo para aprender um pouco sobre o Tao com Li Tzu.  “Um pouco”, ele fazia questão de ressaltar em suas aulas, pois “o Tao se expande à medida da evolução pessoal. Assim como o universo, o Tao não é estático. A percepção do Tao tem o dinamismo que cada pessoa aplica a própria vida”, costumava explicar. Disse para eu ficar à vontade enquanto ele se aprontava. A casa de Li Tzu se parecia com ele. Suave e acolhedora, ao mesmo tempo. Existia uma alegria serena no ambiente. Podia-se ouvir uma música tranquila ao fundo, tocada em volume muito baixo. Como ninguém falava alto, era possível ouvi-la com facilidade. Tinha o perfume dos incensos, sempre acesos. Acesas também eram inúmeras velas espalhadas por todos os lados, conferindo à casa uma ambiência de luz, como em um templo zen. Entretanto, o meu local preferido era o maravilhoso jardim de bonsais onde o mestre taoísta aplicava os conhecimentos de sua formação como botânico. Encantava-me a beleza das pequeníssimas árvores. Há tempos eu mantinha alguns bonsais em minha casa, mas eles não apresentavam o mesmo vigor; atribuí a diferença ao ar puro das cordilheiras. Sem muita demora, Li Tzu me chamou para o desjejum. Quando entrei na cozinha, relatei a enorme diferença entre os bonsais dele e os meus. O mestre taoísta apenas arqueou os lábios em tímido sorriso como resposta. Sentados à mesa, me servi de cereais, legumes cozidos e chá. Tudo muito saboroso, porém bem diferente dos meus costumes. Era impossível não notar que, apesar da idade avançada, o mestre taoísta esbanjava de excelente saúde. Embora longe de ser um atleta, ele tinha agilidade e força atípicas para a sua faixa etária. Comentei que há anos vinha me cuidando para envelhecer bem. Expliquei que frequentava uma academia de ginástica, cuidava da alimentação e fazia exames médicos periodicamente. Li Tzu balançou a cabeça e disse simplesmente: “São ótimas práticas.”

O vigésimo-quarto dia da travessia – o infinito

 

O sol. O dia começava com a bola de fogo, ainda morna, me aquecendo o corpo ao surgir por detrás das dunas. Sentado na areia, um pouco distante do burburinho da caravana, com uma caneca de café na mão, eu esperava pelo caravaneiro no adestramento matinal do seu falcão. Nesse dia ele não apareceu. Fiz a minha prece pedindo luz e proteção. Como ainda restava algum tempo até que as tendas fossem recolhidas e seguíssemos para mais um dia de travessia, me permiti ficar envolto em pensamentos. O tempo. Fiquei pensando no tempo. A difícil incógnita que o tempo representa. Se o universo é curvo como ensina a Física Quântica, deveria o tempo também se manifestar de modo não linear e até mesmo errático? Veloz e lento; traiçoeiro e amigo; algoz e mestre; implacável ou mera ilusão; certo ou variável; senhor ou ferramenta? Vi o tempo demolir certezas absolutas para construir outras verdades; injustiças serem reparadas mesmo diante de condenações eivadas em provas insofismáveis. Assisti a pessoas que, com o passar do tempo, reconstruíram as suas histórias; projetos darem errado para que pudessem dar certo, de maneira impensada anteriormente, ao seu devido tempo. Alguns caminhos me levaram ao abismo. Quando achei que a queda era iminente, no tempo oportuno, apesar dos maus momentos, as asas cresceram para que eu sobrevoasse o precipício.

A medicina da borboleta

 

Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom de transmitir a sabedoria do seu povo através das histórias e das músicas, tinha vindo me visitar no Rio de Janeiro. Tínhamos feito uma trilha pela Floresta da Tijuca, uma das maiores florestas urbanas do planeta. Localizada em uma montanha, de lá é possível avistar diversos bairros da cidade, alguns à beira do mar. Éramos um pequeno grupo. Estávamos em uma clareira bem no alto; o Rio repousava aos nossos pés. No silêncio da montanha podíamos ouvir a pulsação da cidade assim como se ouve as batidas de um coração. Ficava ainda mais nítido o conceito de entender uma cidade como um ser vivo; a sua linguagem, mistérios e transformações. A conversa se estendeu. Da dificuldade que por vezes encontramos para nos adaptar a uma cidade até os problemas que temos para entender um momento existencial, onde tudo parece complicado e, algumas vezes, sem solução. Canção Estrelada, que ouvia a tudo sem dizer palavra, se intrometeu na conversa: “Tudo depende se os olhos ainda são os da lagarta ou se já pertencem à borboleta.”

O vigésimo-terceiro dia da travessia – a verdade do deserto

 

A caravana era um universo. A família, o trabalho, os amigos são alguns dos pequeníssimos universos que coexistem na vida de todas as pessoas, com particularidades, padrões, dificuldades, prazeres, lições entre outras características evolutivas afinadas aos seus habitantes. Essa era a reflexão que me ocupava a mente naquela manhã. Eu estava sentado na areia, um pouco distante da caravana, com uma caneca de café na mão. O dia raiava. Eu acabara de fazer a minha prece e observava o caravaneiro no adestramento matinal do seu falcão. Os pensamentos corriam livres ao me recordar de todos os acontecimentos daquela travessia pelo deserto que pouco tinha passado da metade. Estávamos no vigésimo-terceiro dos quarenta dias necessários para chegar ao oásis, onde eu pretendia conversar com um sábio dervixe, “conhecedor de muitos segredos entre o céu e terra.” Eu pensava não apenas nos fatos ocorridos, fontes de valiosas lições, mas nas pessoas que eu ali tinha conhecido. Cada uma delas era única e possuía a sua beleza peculiar. No entanto, era inegável que algumas demonstravam uma enorme força, enquanto outras revelavam a sua fragilidade. Por toda a filosofia que tinha estudado, por todas as experiências metafísicas que havia vivido, eu me acreditava um apto conhecedor da alma humana. Nesse momento, enquanto os pensamentos me encantavam, aconteceu uma agradável surpresa. A bela mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli se sentou ao meu lado. Sem dizer palavra, apenas sorriu. Animado, logo puxei conversa e contei sobre as observações que eu fazia sobre as pessoas. Comentei sobre aquelas que me pareciam seguras de si, de seu lugar no mundo e daquelas que se mostravam perdidas, ainda sem terem conseguido construir a própria personalidade.

O Terceiro Portal – os Oito Portais do Caminho

 

A minha busca para decodificar os oito portais do Caminho prosseguia. Eu tinha descoberto recentemente que as bem-aventuranças, parte inicial do Sermão da Montanha, o lindo texto contido no Livro de Mateus, ocultavam dos olhos afoitos os oito portais que todos os andarilhos devem atravessar ao percorrer o Caminho. Cada portal, protegido por um guardião, permite apenas a passagem daqueles que já estão em condições de prosseguir na jornada. Essas condições, típicas a cada portal, se resumem em grupos específicos de virtudes sedimentadas na alma do viajante. O texto possui uma simplicidade absurda; porém, uma profundidade estonteante. O Velho, como chamávamos carinhosamente o monge mais antigo da Ordem, vinha me orientando nesse estudo. Contudo, extrair do texto toda a ideia contida em tão poucas letras era uma tarefa na qual eu tinha muita dificuldade. Assim tinha acontecido com os dois portais anteriores; diferente não era com o terceiro portal: “Bem-aventurados os mansos, pois eles herdarão a terra”, falou o Mestre quando fez o discurso há dois mil anos.

O vigésimo-segundo dia da travessia – os olhos do deserto

 

Nada como o dia seguinte à tempestade para entendermos o valor da calmaria. Assim era o vigésimo-segundo dia da travessia. As horas se seguiam com encantadora calma após alguns dias de extrema movimentação. No entanto, se engana quem pensa que tranquilidade é necessariamente sinônimo de tédio ou estagnação. Eu tinha acordado com os primeiros raios de sol da manhã. Arrumei rapidamente as minhas coisas e as coloquei no alforje do meu camelo para ter tempo de usufruir de alguns hábitos que tinham virado uma espécie de ritual matinal no deserto. Eu fazia uma prece breve e sincera pedindo por luz e proteção, como o caravaneiro tinha me ensinado. Em seguida, enchia uma caneca de café e me afastava do acampamento para ver, ao longe, o caravaneiro adestrar o seu falcão. Era o tempo para os encarregados desmontarem o acampamento e seguirmos para mais um dia da travessia rumo ao maior oásis do deserto, onde eu pretendia conversar com um sábio dervixe, “conhecedor de muitos segredos entre o céu e a terra.” Por todo o tempo, eu tentava encontrar com a bela mulher de olhos da cor de lápis-lazúli, mas ela não parecia à disposição dos meus olhos e já me mostrara que ela tinha o seu próprio tempo para se aproximar e partir como quem se desmancha no ar. Aquela travessia vinha me oferecendo uma percepção alterada da realidade, ou ao menos aquilo que eu entendia por realidade. No deserto todas as sensações pareciam superlativas, vividas ao extremo das emoções e das ideias, como se fossem para estendê-las ao limite e, então, ao rasgá-las, pudessem se tornar outras, em constantes processos de transmutações aceleradas.

Fontes turvas e claras

 

Quando cheguei à vila chinesa próxima ao Himalaia eu estava esgotado. Estar esgotado é diferente de estar cansado. O cansaço é comum, e até mesmo prazeroso, após uma jornada de trabalho físico ou mental na materialização de uma ideia. O esgotamento é a horrível sensação de esvaziamento do ser. É como se a fonte da vida, aquela que nos alimenta de ânimo e vitalidade, tivesse secado. A mente resta invadida por questionamentos perigosos sobre as razões de viver ou algo parecido. Em analogia, é como se o lutador decidisse “jogar a toalha” por desistir de continuar a luta. Completamente desprovido dessa energia vital que nos impulsiona a cada dia, entrei na casa de Li Tzu, o mestre taoísta, para mais um período de estudos. Era muito cedo e a manhã ainda clareava. Quando atravessei o portão, Meia-noite, o gato negro que morava na casa, me olhou com desdém, como se estivesse diante de um vegetal ou uma pessoa desprovida de alma. Li Tzu acabara de tirar da infusão um chá que tomava antes de praticar a ioga matinal. Ao olhar o meu semblante e sentir a minha vibração, me convidou para o chá e para a ioga. Confesso que pensei em recusar ambos, no entanto, aceitei mais por polidez do que por vontade. A vontade era de me abandonar, de esquecer de mim mesmo.

O vigésimo-primeiro dia da travessia – o enigma do deserto

 

Eu acordara tarde, ainda cansado das emoções vividas no dia anterior. Embora tivesse dormido profundamente, parecia que o corpo ainda estava cansado e pedia férias. Arrumei rapidamente as minhas coisas e as coloquei no alforje sobre o camelo. Por sorte, consegui uma xícara de café quando a tenda que servia de restaurante já estava quase desmontada. Sem demora, a caravana partiu para mais um trecho da travessia rumo ao maior oásis do deserto onde morava o sábio dervixe, conhecedor de “muitos segredos entre o céu e a terra”. Quem tornou a alinhar o seu camelo ao meu foi a Ingrid, a bela astrônoma de cabelos ruivos que viajava para observar determinada constelação, possível de ser avistada apenas sob o céu do oásis. Como tínhamos discutido dias antes, fizemos as primeiras horas da marcha em silêncio, como crianças birrentas. Em determinado momento, a astrônoma quebrou o mal-estar ao comentar, com jeito travesso, que trocaria o seu camelo por um sorvete de chocolate. Ri e devolvi que trocaria o meu camelo e os telescópios da Ingrid por um colchão de molas, lençóis de seda e um potente aparelho de ar condicionado em minha tenda. Divertidos, seguimos as horas expressando os nossos desejos. Uns simples, outros nem tanto. Alguns tão inseridos em nossas rotinas que nem dávamos conta do quanto nos proporcionavam de prazer. É preciso deixar de ter para entender. De comum, a impossibilidade de serem materializados sobre as areias do deserto.

O mau e o bom professor

 

Eu estava transtornado. Logo após um ataque de fúria no qual eu acusara o funcionário responsável pela contabilidade da agência de publicidade, da qual era proprietário, por desvio de dinheiro, determinei a sua demissão, para alguns dias depois descobrir que ele era inocente. Outro funcionário, que antipatizava com o contador, me induzira ao erro. À beira de uma crise de tristeza pela dureza com que tratei o homem, empregado de muito anos, que mesmo sob juras de inocência, foi condenado por mim de ter quebrado um insubstituível elo de confiança. Declarei-me decepcionado com ele, fazendo pouco dos seus olhos em lágrimas. Essa era a minha tempestade interna quando cheguei na pequena e charmosa cidade que fica no sopé da montanha que acolhe o mosteiro. Como o meu período de estudos anual na Ordem somente começaria dentro de alguns dias, adiantei a viagem para conversar com o Loureiro, o meu amigo sapateiro, amante dos livros e dos vinhos, que tinha o dom de costurar o couro e as ideias com a mesma mestria. A melancolia se alastrava a passos largos e eu tinha esperança de que ele me ajudasse a entender o processo, evitando que eu despencasse no abismo da depressão por ter magoado uma pessoa que fora honesta desde sempre. Confessei que eu não tivera o devido cuidado de apurar os fatos com a profundidade que o caso exigia, deixando-me levar pelas primeiras e superficiais impressões. Foi isso que contei a Loureiro logo após ser recebido com um forte abraço em sua oficina.

O vigésimo dia da travessia – o ponto sem volta

 

A travessia tinha chegado à metade. Naquele dia, todos na caravana, principalmente os mais experientes, falavam do “ponto sem volta”. Um determinado ponto no deserto, entre a cidade e o oásis, que quando atingido, em razão da distância, não mais compensava voltar caso houvesse algum imprevisto. A partir dali era melhor seguir adiante, qualquer que fosse a dificuldade. Enquanto marchávamos, eu percebia um enorme burburinho entre os viajantes. Eles falavam de uma determinada lenda que envolvia o ponto sem volta, sem que eu conseguisse ouvir a exatamente qual era história sobre esse lugar. Quem tinha o camelo emparelhado ao meu nesse dia era George, um peregrino como eu, que também viajava para conhecer o sábio dervixe, “conhecedor de muitos segredos entre o céu e a terra.” George se mostrou muito simpático e falante. Disse que dava aulas em uma escola esotérica e tinha inúmeros alunos. Declarou-se um mestre, pois havia galgado vários degraus na escala evolutiva graças ao extraordinário conhecimento obtido em muitos anos de dedicação aos “mistérios do mundo”. Contou-me dos livros que tinha lido, muitos dos quais eu nem mesmo ouvira falar do título. Em seguida, começou a demonstrar a percepção apurada que possuía, indicando as dificuldades emocionais, morais e espirituais de cada integrante da caravana apenas ao olhar para eles. As horas se passavam até que, quando tive a oportunidade, perguntei o que ele esperava do encontro com o sábio dervixe. Ele revelou que esperava ter uma conversa séria com o sábio pois, segundo o George explicou, o filósofo do oásis teria dito, certa vez, que “assim como o ouro e a prata, os tesouros imateriais também enferrujam.” Tal afirmação, de acordo com o George, que explicava com muita segurança, continha dois erros conceituais. O primeiro é que nem o ouro e a prata enferrujam, como todos sabem; o segundo é que as conquistas imateriais jamais se perdem, como ensina a tradição esotérica. O seu propósito era travar um debate com o sábio dervixe. Tinha, inclusive, uma filmadora em seu alforje, pois pretendia registrar a conversa para usar em suas futuras aulas e em redes sociais, onde divulgava o seu enorme conhecimento. Aquilo me impressionou, seja pelo inesperado, seja pelo indelicado. Tentei mudar de assunto e falei que tinha ouvido sobre a lenda que envolvia o “ponto sem volta”, mas não sabia exatamente qual era. Perguntei se ele a conhecia. George revelou que naquela manhã tinha visto o caravaneiro contar a lenda para alguns viajantes. Mas como as lendas não passavam de bobagens do imaginário popular e o caravaneiro não era mais do que um homem rústico do deserto, que nada sabia sobre os segredos da vida fora do universo estreito e rotineiro da caravana, decidiu não perder o seu tempo com histórias inúteis. Enquanto o professor falava sobre isso e outros assuntos, chegamos ao ponto sem volta. Para a minha surpresa, que acreditava se tratar de um lugar fictício no meio do deserto, havia um trem abandonado marcando o local.

O templo do mestre

 

Mais uma vez eu singrava as estradas pavimentadas do Arizona rumo à casa de Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom de ensinar a filosofia do seu povo através da palavra e da música. Eu me considerava um privilegiado por ter vários mestres dispostos a me orientar. O Velho, Loureiro, Li Tzu e Canção Estrelada tinham as suas peculiaridades e sabedorias próprias. De uma maneira interessante, eram profundamente parecidos e, ao mesmo tempo, bem diferentes entre si. Naquele momento eu enfrentava um dilema. Os negócios não iam bem; a minha agência de propaganda atravessava uma séria turbulência financeira. O país passava por um período de dificuldade em sua economia; enquanto alguns clientes atrasavam os pagamentos em razão da crise, outros decidiram rescindir os contratos até que a situação melhorasse. Caso não houvesse uma mudança, logo eu teria que começar a demitir funcionários e, a médio prazo, fechar as portas. Uma corporação multinacional tinha feito uma oferta de compra pela agência; o valor oferecido era baixo. Insistir no negócio ou vender a empresa; reinventar a agência ou mudar o ramo de atividade? Enquanto dirigia o carro, eu cogitava a possibilidade de estar vivendo o final de um ciclo da minha vida. Afinal, eu tinha aprendido que tudo na vida se move em ciclos de aprendizado e, consequente, evolução.

O décimo-nono dia da travessia – o médico do deserto e o mestre de todos dias

Em razão dos conflitos da noite anterior, acordei atrasado no décimo-nono dia da travessia. Embora ainda não fosse tarde, o sol já se elevara acima do ponto habitual. A caravana se movimentava para recolher o acampamento com a algazarra de costume. Eu que gostava de levantar cedo para apreciar o caravaneiro no adestramento do seu falcão, vi quando ele retornava após o exercício matinal com a ave pousada na grossa luva de couro que usava no braço esquerdo. Arrumei as minhas coisas e as coloquei no alforje sobre o meu camelo. Consegui uma caneca de café e fiquei observando os preparativos finais para seguirmos a travessia. Quando alinhamos para a partida, quem veio emparelhar comigo foi Ingrid, a bela astrônoma. Camelos lado a lado, me deixei levar pelo ciúme e perguntei se ela não marcharia ao lado do astrólogo, como fizera nos últimos dias. Sem se deixar envolver pelas minhas emoções pesadas, ela comentou, de maneira despreocupada, que gostara de muito de conversar com ele e entender um pouco do seu ofício, embora não concordasse com a linha de raciocínio. Admitiu, entretanto, que poderia haver nesse conhecimento milenar algo que a ciência talvez um dia pudesse explicar, mas disse que achava improvável que isso acontecesse. Acrescentou que a ciência era o seu mestre.

O Segundo Portal – Os Oito Portais do Caminho

 

Eu estava sob o encanto de ter descoberto o mapa para conhecer os oito portais do Caminho; as etapas a serem superadas na estrada para a luz. Embora eu imaginasse que tamanho conhecimento apenas fosse possível a círculos iniciáticos e esotéricos fechados, em verdade, há muito tempo estava disponível para toda a humanidade em um livro de fácil acesso. Há dois mil anos esse conhecimento pulsa de maneira simples e humilde, amorosa ao extremo, ao jeito do Mestre, à espera de todas as pessoas em um dos textos mais belos e profundos já redigidos: o Sermão da Montanha. As bem-aventuranças, onde são elencados os oito portais, é um pequeno trecho contido logo na abertura do Sermão que, por sua vez, integra o Livro de Mateus, uma das quatro Escrituras que compõe a parte renovadora da Bíblia. No entanto, é preciso “olhos de ler” para mergulhar em todas as possiblidades de expansão consciencial oferecidas por aquelas palavras. O Sermão da Montanha, mormente as bem-aventuranças, não pode ser lido em sua literalidade, nos estreitos limites dos vocabulários, porém em sua intimidade, com a proximidade da alma e das suas lentes apuradas, para que possa ampliar as fronteiras da percepção sobre quem eu sou e quem eu posso vir a ser, na exata medida que entendo a importância do outro em minha vida. Ao compreender que as dificuldades existem para impulsionar o meu processo evolutivo, consigo alinhar na luz os opostos que me habitam para, então, alcançar a plenitude, composta pelas riquezas imateriais da liberdade, da dignidade, da paz, da felicidade e do amor incondicional. Uma riqueza maior que não encontrarei em nenhum lugar do mundo salvo dentro de mim mesmo; herança única e imperecível que poderei levar na bagagem para as Terras Altas. O Caminho da Luz não é uma estrada que se percorre mundo afora, é uma viagem que se faz universo adentro. Nem por isto menos fácil. Quando iniciada, revela o poder incomensurável contido na sabedoria de descobrir que “sempre tenho tudo o que preciso”. Isto é sagrado por se tornar libertador. Em contrapartida, o mundo é o deserto que ajudo a transformar em jardim na medida das virtudes que florescem no âmago do meu ser através das escolhas que faço.

O décimo-oitavo dia da travessia – a tentação do deserto

 

O décimo-oitavo dia da travessia prometia ser diferente e animado. Iríamos fazer um pequeno desvio em nossa rota rumo ao maior oásis do deserto para passar em outro, bem menor, como o intuito de a caravana se abastecer de vários mantimentos indispensáveis ao prosseguimento da travessia. Estava previsto desde o dia da partida. Esse oásis era habitado por pessoas de diversas partes do mundo e, como um entreposto, se mantinha do comércio com as caravanas que passavam por ali. Naquele trecho do percurso, depois de muitos dias no deserto, sempre havia a necessidade de repor muitos dos víveres que tinham se esgotado. Lá era possível, nos bares montados em tendas, o consumo de bebidas alcoólicas, proibidas na caravana, além de iguarias finas para o deleite do paladar, impossíveis de serem oferecidas nas simples, porém saudáveis, refeições fornecidas pela caravana. Naquele dia, desde cedo, muitas pessoas já se mostravam entusiasmadas com essas possibilidades. Ouvi, também, conversas de mercadores que integravam a caravana, experientes de muitas travessias, entre sussurros e risadas, se referindo, com malícia, sobre a beleza das mulheres que trabalhavam nesses bares. Um pouco antes de chegarmos ao pequeno oásis, o caravaneiro reuniu a todos para avisar dos perigos. Contou que havia muitas histórias de ocorrências desagradáveis seja com bebida, seja com os habitantes locais, principalmente com os comerciantes e as mulheres que trabalhavam nos bares. Relatou casos de furtos, roubos e até mesmo de desaparecimento de viajantes, provavelmente assassinados. Disse que ninguém estava impedido de circular no oásis, mas que cada um seria responsável por si mesmo. Avisou que acamparíamos bem próximo e aconselhou que deixassem dinheiro e documentos no acampamento sob a segurança dos encarregados da caravana.

O elogio e a trilha para o precipício

 

Eu tinha descido a montanha que acolhe o mosteiro para esfriar a cabeça e colocar as ideias no lugar. Quando cheguei à pequena e charmosa cidade localizada logo abaixo, fui procurar Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos. Eu precisava desabafar. Encontrei o meu amigo em sua oficina. Fui recebido com um sorriso sincero e um forte abraço. Ele encerrou o expediente daquele dia, pediu para eu sentar ao lado do antigo balcão de madeira e foi buscar duas canecas de café fresco. Ao notar pelo meu semblante que algo não estava bem, pediu para que eu abrisse o coração. Assim, explicou, eu colocaria para fora tudo o que me incomodava. Tentaria me acalmar. Depois, com o filtro da consciência serena, apenas traria de volta o que fosse bom e valioso. Expliquei o que tinha me chateado no mosteiro. Surgira uma vaga para ministrar um curso que a Ordem oferecia todos os anos para o público externo, que consistia em uma série de palestras e vivências com o intuito de aumentar a percepção do sagrado que habita em todas as pessoas. Francis, um culto monge da Ordem, me procurou para falar que, por justiça, aquela vaga deveria ser minha. Elogiou os meus notáveis avanços nos estudos, a minha boa oratória, a excelente capacidade de raciocínio nos debates. Segundo ele, não havia monge – como denominamos todos os membros da Ordem – mais capacitado do que eu para assumir o cargo e que eu deveria requisitá-lo para mim. Acrescentou que, sob a minha coordenação, o curso galgaria patamares de excelência. Aconselhou-me a procurar o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo do mosteiro, a quem cabia a decisão, para uma conversa franca sobre o assunto. Confessei que, a princípio, eu não tinha pensado nisso. Porém, analisando as palavras de Francis, me convenci que eu era a pessoa certa para exercer a função. Procurei o Velho e me candidatei ao cargo. Ao percebê-lo reticente, usei como argumento a minha trajetória de estudos e desenvolvimento dentro da Ordem. Ele respondeu que pensaria com calma sobre o assunto e, quando estivesse seguro quanto à escolha que faria, me avisaria. Tamanha expectativa ocupou a minha mente nos dois dias e duas noites que se seguiram. Como ainda não havia uma decisão, tornei a procurar o Velho e o pressionei a decidir. Insisti em lembrá-lo das minhas qualificações; afirmei, sem qualquer dúvida, que eu era a pessoa mais preparada para dirigir o curso. O Velho ouviu com paciência, sem me interromper. Ao final, disse que outro monge também tinha se candidatado para o cargo, com uma postura bem diferente da minha, sem nenhuma arrogância e muita humildade. Confessou que estava bastante inclinado a decidir em favor desse outro monge. Todos sabiam do valor que o Velho atribuía a virtude da humildade. Por uma fração de segundo, um pensamento assustador me ocorreu. Perguntei quem era o monge. Francis, foi a resposta.

O décimo-sétimo dia da travessia – a noite do deserto

 

O décimo-sétimo dia da travessia transcorria tranquilo. Emparelhado ao meu camelo seguia um jovem mercador de utensílios, como facas e panelas, de muita necessidade às pessoas que habitam no oásis. Ele me contava que era a sua segunda viagem. Farid era o seu nome. Na primeira conseguira vender todo o estoque que levara, auferindo um bom lucro. Dessa vez investira ainda mais na esperança de multiplicar o capital empenhado. Explicou que a dificuldade em atravessar o deserto aumentava, em muito, o custo final dos produtos comercializados, independente de quais fossem. Quando soube que eu não levava nada na bagagem para reverter em dinheiro, que apenas seguia para o oásis na tentativa de conversar com um sábio dervixe, disse que eu era um tolo. Falou que, por mais preciosa que fosse a sabedoria contida nos “muitos segredos entre o céu e a terra”, não seria suficiente para pagar a menor das minhas contas. Argumentei que era inegável o valor do trabalho, não apenas como instrumento de sobrevivência, mas também como ferramenta de progresso, não apenas material, mas também espiritual. O trabalho é uma ponte que nos liga com o mundo, em constante intercâmbio de conhecimento, de possibilidades de entender quem somos à medida que nos deparamos com as dificuldades apresentadas pelas pessoas com as quais nos relacionamos. No trabalho, independente de qual seja, sempre precisamos do outro para que o ciclo produtivo se complete. Através do trabalho somos levados a buscar diferentes maneiras de aprimorar o nosso dom e aprofundar no propósito de vida a que cada qual se destina. Isto nos leva a infinitas transformações, sem as quais não há evolução.

A medicina da coruja

 

O tambor de duas faces de Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom de compartilhar a filosofia do seu povo através da palavra, rufava noite adentro nas montanhas do Arizona, ritmando uma doce canção ancestral cantada em dialeto nativo. Um dos amigos mais queridos do xamã havia falecido. Canção Estrelada estava sozinho em seu lugar de poder, um local onde ele gostava de ir quando queria se conectar com o lado invisível da vida. Era um platô no alto da montanha em cujo penhasco, bem à beira, uma árvore se mantinha em um equilíbrio improvável. No dia seguinte haveria um funeral na cidade, quando todos os colegas e integrantes da tribo estariam presentes. Quando cheguei e estendi a minha manta ao lado da fogueira, o xamã realizava esse cerimonial pessoal. Tudo começou pela manhã. Ao encontrar a sua casa vazia, fui informado por uma vizinha do acontecido. Não foi difícil imaginar onde eu o encontraria. Como ele não fez qualquer objeção com a minha chegada, me sentei e aguardei em silêncio até que se encerassem as canções. Canção Estrelada me olhou, arqueou os lábios em leve sorriso e me cumprimentou com um movimento de cabeça sem dizer palavra. Falei que sabia do acontecido e empenhei os meus sentimentos. No entanto, não era apenas isso. Outros acontecimentos se somavam para levar o xamã ao seu lugar de poder.

O décimo-sexto dia da travessia – onde há vontade, há um caminho

O dia amanhecia no deserto. Afastado da caravana, sentado na areia com uma caneca de café fresco na mão, eu observava o caravaneiro adestrando o seu falcão. Ingrid, a astrônoma, se aproximou. Ela quis saber a razão para eu ficar de longe, todas as manhãs, olhando o voo da ave. Respondi que não sabia ao certo, mas algo ali me fascinava. Disse que talvez fosse pelo fato de, diante da aridez do deserto, do improvável, do impossível para muitos, o falcão sempre retornar com a sua caça. Comentei que provavelmente era o instinto de sobrevivência do animal, o seu determinismo biológico, porém a ave me passava a sensação de que ela conseguia o seu alimento por acreditar que o encontraria. Ingrid comentou: “Onde há uma vontade, há um caminho”. Aquela frase me impactou pelo leque de interpretações que permitia. Falei isto para a astrônoma. Ela levantou a manga da blusa e mostrou uma tatuagem no antebraço. Disse que era um símbolo viking conhecido como Inguz. Ele representava essa mensagem. No entanto, ela já a tinha ouvido também na filosofia chinesa. Explicou que a verdade está presente em todas as tradições. Discordei de imediato. Não quanto a onipresença da verdade, mas do fato de a vontade se tornar necessariamente um caminho. Ingrid apenas deu de ombros. Pediu licença, pois a caravana não demoraria a partir e ela tinha algumas coisas para arrumar. Eu vi quando o falcão retornou ao caravaneiro trazendo um pequeno roedor em suas garras.

O verdadeiro rosto da coragem

 

Naquele ano, quando cheguei à pequena vila chinesa escondida no Himalaia, eu estava bastante chateado. Um dos jovens que trabalhavam na minha agência de publicidade tinha me causado um profundo desgosto. Ele estava comigo desde quando era estagiário. Talentoso e dedicado, tinha galgado cada degrau dentro da empresa a ponto de se tornar responsável por algumas das contas mais importantes que tínhamos. Era o funcionário mais próximo, a ponto de as pessoas brincarem dizendo que era o filho homem que não tive e herdeiro da agência, uma vez que as minhas filhas, todas mulheres, nunca se interessaram pela publicidade e seguiram outros rumos profissionais. Fui padrinho do seu casamento e fiquei feliz ao batizar o seu filho. Se havia alguém em quem eu confiava, essa pessoa era o Fred, como ele se chamava. Alguns dias antes de viajar para mais um período de estudos com Li Tzu, o mestre taoísta, recebi a notícia, através da secretária, de que o Fred tinha pedido demissão. Para maior surpresa, não apenas tinha montado uma agência para concorrer com a nossa, mas procurara todos os nossos clientes na tentativa de os persuadir a acompanhá-lo. Para tanto, não se furtou a criticar as nossas engrenagens de criação e execução de campanhas. Prometeu que faria melhor. Dois importantes clientes, cujas contas eram de sua responsabilidade, rescindiram o contrato que tinham conosco para assinar com ele. Como se não bastasse, a pretexto de se despedir de mim, entrou na minha sala e derramou uma série de mágoas e críticas ao meu comportamento, seja pessoal, seja profissional, que nem de longe eu imaginava existir. Irritado com toda a situação, começamos a discutir e outros funcionários da agência precisaram intervir para não chegarmos às vias de fato.

Quando desci do ônibus, deixei a minha mala na única hospedaria do lugar e parti direto para a casa de Li Tzu. Meia-noite, o gato preto que também morava lá, dormia preguiçosamente no jardim de bonsai, ao me ver, olhou assustado e correu. O mestre taoísta me ofereceu um sincero sorriso de boas-vindas, porém quando me aproximei, avisou: “Sua energia está pesada.” Em seguida avisou: “Todas as vezes que nos magoamos significa que perdemos a batalha.”

O décimo-quinto dia da travessia – navegar sem água

 

O dia amanhecia. Sentado na areia com uma caneca de café fresco na mão, eu observava o caravaneiro adestrar o seu falcão. Era encantador constatar que ela sempre retornava com o seu alimento, apesar da aridez do deserto. Os olhos sagazes da ave conseguiam encontrar algo onde, para olhos despreparados, não havia nada. Assim que o falcão pousou na grossa luva de couro que o caravaneiro usava no braço esquerdo, me levantei para me preparar para aquele dia da travessia. Enquanto eu colocava o meu alforje no camelo, ouvi a conversa descontraída de um grupo de mercadores que também integravam a caravana rumo ao oásis. Um deles, bem jovem, comentava que esperava logo ter condições de comprar uma bela casa em um aprazível bairro de Marraquexe, quando, então, pediria a sua namorada em casamento. Acrescentou que precisava de um bom lugar para criar os filhos que planejavam ter juntos. Outro, disse que não tirava férias há muitos anos. Estava cansado e precisava descansar. No entanto, somente faria isso quando conseguisse abrir a sua sonhada loja de tapetes no mercado central da cidade, pois queria ter condições de educar os filhos em boas escolas. Um terceiro mercador, mais velho, que também fazia parte do grupo, contou que, apesar de ser dono de várias lojas, também não tirava férias há muito tempo, quando almejava peregrinar a Meca. Esperava que o filho voltasse do exterior, onde fora cursar a universidade, para que assumisse o comando dos negócios da família. Alegou que não confiava em mais ninguém. Tudo arrumado, a caravana aprumou para partir. Para minha surpresa, quem alinhou ao meu lado foi Ingrid, a astrônoma, com quem eu tinha me desentendido no dia anterior. A proximidade dela me alegrava o coração.

O Primeiro Portal – Os Oito Portais do Caminho

 

Eu já integrava a Ordem há algum tempo. Sempre ouvira falar dos Oito Portais do Caminho, mas nunca tivera a oportunidade de saber exatamente do que se tratava. Disposto a entender sobre o assunto, naquele dia procurei pelo Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, por todo o mosteiro. Fui encontrá-lo sentado no fundo da cantina, entretido com um pedaço de bolo de aveia e uma caneca de café, em animada conversa com o cozinheiro. Quando ele me viu fez sinal para eu me aproximar. Enchi uma xícara de café e me sentei ao seu lado. O alegre cozinheiro pediu licença, pois estava atrasado com o jantar. A sós, questionei o Velho acerca dos Oito Portais; sobre o que seriam e quando eu aprenderia sobre eles. O bom monge arqueou os lábios em leve sorriso e disse: “O Caminho é a estrada para a luz. Iluminar-se é encontrar consigo mesmo para se conhecer e se libertar dos sofrimentos que aprisionam; burilar as crostas que ocultam o verdadeiro diamante: o ser pleno. A plenitude se revela e se completa na conquista dos cinco estados fundamentais do espírito: a liberdade, a paz, a dignidade, o amor incondicional e a felicidade. Assim se constrói uma alma forte, capaz de se manter serena mesmo diante das tempestades do mundo.”

O décimo-quarto dia da travessia – as maravilhas da impermanência

Acordei com o céu do deserto ainda estrelado. Ao Leste o sol anunciava levemente a sua hora colorindo uma pequena faixa do horizonte em tom pastel. Ingrid, astrônoma que tinha adormecido na areia ao meu lado no dia anterior, estava com os olhos abertos, encantada com as estrelas. Quando ela me percebeu também desperto, comentou do seu fascínio pelos astros celestes e por todo mistério que o universo ainda encerra. Falei que o mistério existe na proporção indireta do nosso conhecimento. Porém, curioso, perguntei sobre o que ela pensava ao falar aquilo. “O nosso céu é o céu do passado”, ela respondeu. Eu disse que não tinha entendido. Ingrid explicou que como as estrelas estão a uma distância absurdamente grande, a muitos anos-luz de nós, significa que as estrelas que estávamos vendo naquele momento já não estavam mais ali e podiam até mesmo nem mais existir. A astrônoma falou que as estrelas explodem quando terminam o seu ciclo de existência, mas em razão da enorme distância, a imagem de um fato ocorrido no espaço demora anos para chegar até a Terra. Ou seja, aquilo que meus olhos viam podiam não mais existir. Apontou para uma estrela qualquer e concluiu: “Aquela estrela pode ser apenas uma ilusão em razão da possibilidade de, na realidade, não mais existir. A ilusão permeia e se mistura à realidade por todo o tempo quando estudamos astronomia.” Comentei que eu tinha a sensação de que na vida também era assim; nem sempre era fácil discernir a ilusão da realidade. Permanecemos em silêncio, olhando para as estrelas, pelo tempo de o sol escalar mais alguns poucos graus e o acampamento despertar. Após levantar e arrumar as nossas coisas para partir para mais um dia de travessia, fomos tomar o desjejum. Enquanto bebia um delicioso café fresco, observei que uma enorme duna que havia à nossa frente na tarde anterior, quando acampamos, tinha desaparecido, varrida pelo vento da noite. Confessei para a Ingrid que a instabilidade das coisas me trazia desconforto. Ela apenas deu de ombros como quem diz que é inevitável e se afastou para cuidar de alguns afazeres. Reservei um lugar para a astrônoma alinhar o seu camelo ao meu. Eu tinha adorado conversar com ela e desejava a sua companhia. Como até a hora de iniciar a marcha ela não tinha aparecido, passei os olhos por toda a caravana a sua procura. Foi quando a vi pronta para prosseguir ao lado de outra pessoa. De imediato, sentimentos ruins se apossaram de mim.

A força da mansidão

 

Todas as vezes em que eu via a clássica bicicleta de Loureiro, o elegante sapateiro amante dos livros e dos vinhos, encostada no poste em frente à sua oficina, eu me sentia um homem de sorte. Os horários inusitados e imprevisíveis de funcionamento da oficina já eram lendários na pequena e charmosa cidade que ficava no sopé da montanha que acolhe o mosteiro. Eu terminara mais um ciclo de estudos na Ordem e o trem que me levaria até o aeroporto mais próximo apenas passaria no final do dia. A possibilidade de preencher esse tempo conversando com o Loureiro me enchia de alegria. Um mês antes, quando eu passei rumo ao mosteiro, o sapateiro enfrentava uma delicada questão. O filho do prefeito era um jovem empresário. Ele, o jovem, acabara de montar uma loja, franquia de uma famosa marca de sapatos. Na época, quando lhe perguntei se esse fato poderia abalar os seus negócios, Loureiro me disse com tranquilidade: “Penso que não somos concorrentes, embora ambos trabalhem com produtos de excelente qualidade. Os sapatos que ele vende são belíssimos, sempre atualizados de acordo com as últimas tendências da moda, produzidos por designers internacionais. Os meus são inteiramente artesanais; desenhados e moldados um a um, de acordo com o gosto e a necessidade do cliente. Atendemos a público com interesses distintos.” Fez uma pequena pausa antes de concluir: “No mais, a concorrência é sempre bem-vinda por desestabilizar a rotina dos dias. Quando isso acontece somos forçados, por sobrevivência, a buscar um novo ponto de equilíbrio. Então, avançamos.”

O décimo-terceiro dia da travessia – a Relatividade no deserto

 

O décimo-terceiro dia da travessia seguia modorrento. Sol, calor, o gingado enjoativo do camelo e duna após duna, em um mar de areia sem fim. Peguei-me pensando que algumas rotinas na caravana já estavam tão incorporadas aos viajantes que, se porventura, alguma fosse suprimida, a maioria de nós sentiria falta. O café quente servido no desjejum, a rápida parada no meio do dia para um breve lanche, o jantar ao início da noite, o acender dos lampiões que iluminavam o acampamento, o bom homem do chá, a ágil movimentação em montar e desmontar as tendas, a enigmática mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli galopando em seu cavalo negro, que aparecia e sumia como que por encanto, eram alguns exemplos. Eu também já tinha me acostumado a ver o caravaneiro, logo bem cedo pela manhã e ao final da tarde, se afastar com o seu falcão pousado na grossa luva de couro que usava no braço esquerdo para o adestramento matinal e vespertino da ave. Também me acostumara a vê-lo nesses horários, sempre antes do treinamento, de joelhos na areia, em sua prece de duas palavras, rogando por “luz e proteção”, conforme tinha me ensinado alguns dias antes. Outro hábito que se tornara comum era a caravana parar em determinada hora do dia para que os integrantes grupo fizessem as preces conforme os seus preceitos religiosos. Naquele dia, quem tinha o camelo emparelhado ao meu era uma simpática e bonita europeia que logo puxou conversa. Contei que seguia para conhecer um sábio dervixe, “conhecedor de muitos segredos entre o céu e a terra”. Ela disse se chamar Ingrid e que era astrônoma. Trazia em sua bagagem alguns telescópios para observar uma determinada constelação, objeto dos seus estudos, em razão da posição privilegiada do oásis no meio do deserto. Como as estrelas sempre foram motivo de enorme fascínio para mim, me derramei em indagações, as quais ela respondeu com boa vontade. Quando a caravana interrompeu a marcha para a oração, ela, sem qualquer traço de agressividade, lamentou a perda de tempo. Acrescentou, sempre com delicadeza, que não entendia como a humanidade ainda desperdiçava tempo e energia nessa busca que considerava sem sentido. Disse se espantar que, mesmo após o avanço de séculos em conhecimento, as pessoas continuavam amarradas em crenças absurdas ou no anseio por algum insensato contato metafísico. 

Olhe com quem andas

 

Eu estava há quase um mês nas montanhas do Arizona, hospedado na casa de Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom de transmitir a sabedoria do seu povo através da palavra. Nesse período conheci uma moça que morava na mesma rua e iniciamos um namoro. Beth, como se chamava, era professora em uma escola local. Durante a semana eu me dedicava aos estudos com Canção Estrelada e nos finais de semana íamos, eu e ela, passear nas cidades próximas. Naquele sábado tínhamos ido a Flagstaff. Ainda na parte da tarde, estávamos em uma agradável cafeteria que também oferecia uma ótima cerveja artesanal, ao som de bandas de jazz e blues, quando a minha namorada, ao retornar do banheiro, encontrou uma antiga colega de escola. De longe, observei as duas conversando e percebi as feições de Beth irem se alterando. Tive a nítida sensação de ver uma lâmpada se esvair aos poucos até se apagar completamente. Ao tornar a se sentar ao meu lado parecia outra pessoa. Estava abatida. Perguntei o que tinha acontecido e ela disse que estava tudo bem. Insisti, falei que ela tinha mudado após conversar com a outra mulher. Ela disse que a colega, embora nunca tivessem sido íntimas nem grandes amigas, a abordou para falar da sua vida. Contou muitas vantagens. Um casamento maravilhoso, carros luxuosos, mansões, viagens para lugares paradisíacos e amizades com pessoas famosas foram os tópicos da narrativa. Perguntei a razão de aquela conversa ter mexido com ela. Beth respondeu que não tinha entendido o motivo de a colega ter contado tantas vantagens em tão poucos minutos, mas que ficava feliz por ela. Não demorou muito, fui ao balcão buscar uma cerveja. O lugar estava cheio e quando o barman me entregou a garrafa, um homem, também cliente, a tomou da minha mão. Falou que aquela cerveja era a dele, pois estava ali há mais tempo do que eu. Antes de sair disse um palavrão para mim. Eu não quis esperar por outra cerveja, algo havia furtado a minha alegria. Quando estávamos andando para pegar o carro, encontramos com um rapaz, vizinho da Beth. Nós já tínhamos sido apresentados por Canção Estrelada. O rapaz foi muito atencioso com ela, mas me ignorou por completo. Fiquei desconfortável com a situação, principalmente por ela não ter se posicionado de maneira mais clara a me resguardar diante do comportamento indelicado do rapaz. No carro, de volta para a casa, depois de um tempo sem trocarmos palavra, começamos a conversar sobre um assunto qualquer e quando me dei conta estávamos discutindo. A discussão escalou tons, trocamos acusações e brigamos sério, a ponto de romper o namoro. Tudo aquilo me deixou muito mal; eu me sentia envolvido em uma mistura de emoções, entre a mágoa e a frustração. Uma sensação estranha e ruim, como se eu tivesse permitido que o mel da vida me escorresse pelas mãos. No domingo à tarde, quando Canção Estrelada, ao retornar da viagem que também tinha feito no final de semana, me cumprimentou, respondi de maneira triste. O xamã apenas sorriu de volta. Ao me perceber ainda desanimado no dia seguinte, me convidou para conversar na varanda da sua casa.

O décimo-segundo dia da travessia – a marca do deserto

 

Amanhecia no décimo-segundo dia da travessia. Peguei uma caneca de café e me afastei para as minhas reflexões matinais. Eu flanava entre mil pensamentos quando avistei um homem que viajava com a caravana sentado sozinho na areia. Eu já tinha reparado nele pelo fato de sempre estar destacado do grupo. Nunca o vira conversando com ninguém. Decidi me aproximar. Perguntei se podia me sentar ao seu lado e ele aquiesceu com a cabeça. Apresentei-me e disse que seguia para encontrar com o dervixe. Ele disse se chamar Farid e retornava ao oásis, onde nascera, depois de muitos anos para rever os parentes. Em um dia longínquo partira em busca de trabalho. Contou que tinha uma pequena banca de grãos e temperos no mercado central de Marraquexe. Comentei que ele deveria estar muito animado para esse reencontro depois de tanto tempo. Farid disse que nem tanto; em verdade, voltava mais porque a mãe estava muito adoentada. Confessou que o seu desejo era retornar apenas quando se tornasse um rico mercador para que fosse admirado por todos. No entanto, lamentou, a vida não quis assim. Comentou que não sabia a razão do seu negócio não prosperar, pois era esforçado e honesto. Isto o entristecia. Falei que talvez pudesse ajudá-lo, uma vez que eu era publicitário e a minha agência ajudara na construção de diversas marcas ao longo dos últimos anos. Farid disse que talvez não fosse o caso, pois era apenas um mercador de grãos. Sustentei que não importava o tamanho nem o tipo do seu negócio, o importante era criar uma marca que não apenas o identificasse, mas que o diferenciasse dos demais comerciantes; que o tornasse único. Contei de uma marca de motocicletas que agregara o conceito de liberdade às motos que vendia. Falei também de uma fabricante de celulares que dizia não vender apenas telefones, mas aparelhos que poderiam mudar o mundo. Ele me olhou assustado e me perguntou se aquilo era honesto. Respondi que, a depender da ótica, sim, que era possível criar uma marca que refletisse com total clareza as qualidades do produto oferecido. Acrescentei que os exemplos apenas ressaltavam o poder da criatividade, assim como o alcance que uma marca bem construída poderia ter. Falei, ainda, que uma marca deve observar três conceitos importantes em relação ao produto: a verdade, a inovação e a utilidade.

O perfeito é inimigo da perfeição

 

Assim que o ônibus me deixou na pacata vila chinesa localizada na subida do Himalaia, deixei a minha bagagem na única hospedaria do lugar e me dirigi à casa de Li Tzu. Eu tinha ido para mais um breve período de estudos com o mestre taoísta. Quando passei pelo portão, Meia-noite, o gato negro que morava na casa, me ofereceu um olhar entediado e voltou a dormir. Esperei terminar uma sessão de meditação na qual Li Tzu orientava uma turma de alunos oriundos de todos os cantos do planeta. Fui recebido com a sua habitual alegria serena e logo estávamos na cozinha para um chá. Enquanto as ervas aguardavam em infusão, começamos a conversar. Ele estava muito feliz, pois tinha encontrado recentemente o Velho, o monge mais antigo da Ordem, em uma solenidade para antigos acadêmicos na universidade inglesa onde tinham se formado. Embora frequentassem cursos diferentes, fora lá que iniciaram a sólida amizade que atravessava décadas. Comentou que era muito interessante rever os companheiros com quem dividira aqueles anos de estudo. Cada qual seguira uma direção, de acordo com as circunstâncias da existência. Reparou que para alguns o tempo havia sido generoso; para outros, cruel. Vários colegas estavam inegavelmente melhores, apesar da idade, estampando o sorriso tranquilo daqueles que trazem a felicidade consigo, os gestos mansos da dignidade e o brilho no olhar típico dos que conquistaram a liberdade interior e a paz do coração; outros, entretanto, estavam céticos quanto à humanidade, desiludidos em relação à vida, sem qualquer esperança depositada em um amanhã diferente e melhor. Também havia aqueles que necessitavam contar vantagens vãs na tentativa de se iludirem maiores que os demais ou mesmo para acreditar que talvez fossem felizes. Eu quis saber a razão de o tempo não agraciar a todos da mesma maneira. Li Tzu deu de ombros, como quem diz o óbvio, e falou: “As escolhas. Elas desenham o destino e colorem a plenitude”. Enquanto vertia o chá para as xícaras, complementou: “Aqueles que tentaram conquistar o mundo perderam a si mesmo. Os que encontraram consigo ganharam a vida”.

O décimo-primeiro dia da travessia – os demônios acompanham a caravana

 

Ainda era cedo. O sol começava a banhar o deserto por detrás de uma enorme duna ao leste. Arrumei as minhas coisas no alforje e o deixei pronto para colocá-lo sobre o camelo na hora da partida. Fui à tenda em que serviam o desjejum para encher uma caneca com café. Depois me afastei para a prece que gostava de fazer sozinho pela manhã, sempre acompanhada de alguma reflexão. Como de costume, o caravaneiro estava destacado do grupo, com o seu falcão pousado nas grossas luvas de couro que usava no braço esquerdo, para o adestramento matinal. Foi então que se aproximou de mim um peregrino que fazia parte da caravana. Perguntou se podia me fazer companhia. Com o queixo apontei para que se sentasse ao meu lado. Não demorou, puxou conversa. Disse que se chamava Saul. Falou que, assim como eu, ele também ia ao oásis para conhecer o sábio dervixe. Em seguida criticou a estrutura da caravana. Falou que o valor cobrado pela viagem era muito caro para o pouco que ofereciam e que o caravaneiro devia dedicar ao grupo a mesma atenção que oferecia ao falcão. Eu nada respondi para não alimentar aquela conversa com energias que estimulavam a discórdia e a insatisfação. Não satisfeito, talvez por não encontrar em mim o apoio esperado, perguntou se eu tinha lido determinado livro. Respondi que nunca tinha ouvido falar nem no título nem no autor. O peregrino me olhou com espanto para dizer que aquela leitura era pressuposto para a conversa com o dervixe, uma vez que era a base de sua doutrina filosófica. Acrescentou que nem todos que iam ao oásis conseguiam o esperado encontro, pois o sábio escolhia apenas algumas pessoas, aquelas que considerava aptas a entenderem as suas palavras.

O perfeito espelho

 

Mais de uma vez, durante os meus períodos anuais de estudos na Ordem, encontrei o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da irmandade, sentado em uma confortável poltrona na agradável varanda do mosteiro. Ele adorava aquele lugar, onde fazia as suas reflexões diárias diante do belo cenário proporcionado pelas montanhas. Sempre que eu queria conversar sabia que, quase sempre, o encontraria lá no final da tarde e, invariavelmente, seria recebido com um sorriso sincero. Naquele dia não foi diferente. Cheguei com duas canecas fumegantes de café, entreguei uma em suas mãos e me acomodei em uma poltrona ao lado. Em seguida puxei assunto com o monge. Falei que o foco dos estudos da Ordem era o autoconhecimento como estrada que leva ao sagrado, uma vez que não encontraremos Deus em nenhum lugar, salvo dentro de nós mesmos. Citei as famosas frases “Conheça a ti mesmo e conhecerás a verdade” e “Conheça a verdade e vos libertará”, de Sócrates e Jesus, respectivamente, como eixo filosófico condutor da busca. Acrescentei que as virtudes eram as ferramentas que me permitiriam avançar à medida que as sedimentasse em mim, possibilitando a libertação do sofrimento, essa cruel prisão sem grades. O monge ouvia a tudo com paciência e apenas balançava a cabeça em concordância. No entanto, em relação ao entendimento de quem eu era de verdade, falei que por vezes eu tinha um olhar por demais rigoroso, enquanto noutras era generoso em excesso. A dificuldade de me enxergar com clareza complicava o meu processo de aperfeiçoamento. Confessei que estava com a sensação de que não conseguia avançar há algum tempo. O Velho arqueou os lábios em leve sorriso e me orientou com a sua usual simplicidade: “ Preste atenção a como você reage todas as vezes em que é contrariado; quando o mundo lhe diz ‘não’. Nas ações costumamos ouvir antes o coração e, assim, reverberar em luz. É comum oferecermos o nosso melhor. Entretanto, nas reações quem costuma falar são as nossas sombras. É quando refletimos a face ainda obscura do ser. As reações nos mostram os cantos que ainda não foram iluminados”. Fez uma pausa para concluir: “As reações são o perfeito espelho do ser, pois nos mostram o que ainda não queremos ou não conseguimos ver.”

O décimo dia da travessia – os demônios do deserto

 

Estávamos no décimo dia de viagem. Ainda não tinha amanhecido. Eu me revirava de um lado para o outro sem sono. Resolvi sair da barraca. O deserto estava iluminado pelas muitas estrelas do céu e de alguns poucos lampiões pendurados nas entradas das tendas. Uma brisa fria, que nos passar das horas desaparecia para dar lugar a um forte calor à medida que o dia avançasse, exigia que eu me cobrisse com uma manta. O silêncio era absoluto. Ocorreu-me que ainda não tinha ouvido ninguém na caravana falar dos demônios do deserto. Eu conhecia muitas histórias, mitos e lendas sobre esses espíritos e não tinha qualquer dúvida de que havia algo de verdade. Sentei-me na areia e fiquei envolvido em reflexões. Logo o céu começou a mudar de cor anunciando o novo reinado do sol. As tendas começaram a ficar barulhentas com o despertar do acampamento. Alegrei-me com a possibilidade de tomar um café quente logo pela manhã. A primeira pessoa que vi foi o caravaneiro. Ele estava pensativo, com o olhar perdido no deserto. Estranhei ele não estar com o falcão para o adestramento matinal. Sem dar importância a esse detalhe, me aproximei e perguntei pelos demônios do deserto. Eu queria saber se ele acreditava na existência deles. O caravaneiro me olhou rapidamente, depois se voltou para o deserto e disse: “Eles acompanham a caravana e estão misturados aos viajantes”.

O quebra-cabeça

 

Esperei que Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos, fechasse as portas da oficina. Embora ainda fossem meio-dia, o seu expediente de trabalho, que se iniciou de madrugada, já se encerrara naquele dia. Os horários inusitados de funcionamento da oficina eram lendários na pequena e charmosa cidade que fica ao sopé da montanha que abriga o mosteiro. Seguimos pelas ruas estreitas e sinuosas, com calçamento de pedras, na direção de um restaurante que adorávamos, para almoçar e trocar uma conversa vadia, como dois bons amigos que se alegram pelo simples encontro. Ao cruzarmos a praça onde se localiza o restaurante, vimos uma das sobrinhas do sapateiro sentada em um banco com a face banhada em lágrimas. Abordada, a moça disse que estava muito triste; ela acreditava que o seu casamento tivesse perto do fim, pois a convivência estava muito difícil. Confessou que não desejava isso. Embora morando na mesma casa, estavam mais distantes um do outro a cada dia. Loureiro a chamou para almoçar conosco e conversar um pouco. Disse que falar, nessas horas, pode ajudar, já que ao ouvir as razões que sustentam os lamentos, os sentimentos acabam por se tornar mais claros. Convite aceito, logo nos acomodamos em uma mesa confortável, longe do burburinho da rua. Assim que nossas taças foram cheias com um bom tinto da região, a jovem iniciou uma fileira de queixas em relação ao marido. Desde a sua desatenção em relação à vida afetiva do casal até o pouco empenho que tinha na empresa onde trabalhava. Ouvimos tudo com atenção e paciência, sem interromper a moça. Ao final, tive uma rápida troca de olhares com Loureiro. Foi suficiente para, em razão da nossa antiga amizade, eu saber o que ele pensava. O sapateiro olhou para a sobrinha e sugeriu: “Acho que você esqueceu de falar algo.” A jovem disse que não sabia sobre o que o tio se referia. Ele foi claro: “Esqueceu de nos contar sobre as qualidades do seu marido. Senão o casamento não teria durado tanto tempo nem você estaria sofrendo pela possibilidade do término da relação.” Ela ficou um pouco sem jeito, mas admitiu muitas das virtudes do marido. Falou sobre as mais relevantes e que mais admirava. Embora continuasse triste e preocupada, o seu ânimo deu uma leve melhorada. Em seguida, Loureiro comentou: “Todas as pessoas devem buscar a maturidade no decorrer da existência.” A jovem falou que, de fato, achava o marido, às vezes, muito infantil. O sapateiro corrigiu: “Não falo dele, até porque não seria educado em sua ausência. Refiro-me a você.” Ela rebateu de pronto dizendo que não era uma criança. O sapateiro balançou a cabeça para dizer que concordava e explicou melhor: “Ser maduro não acontece pelo mero fato de viramos adultos, de atingirmos a maioridade cronológica. Atinge-se a maturidade com a maioridade espiritual. Para isto não há idade definida. A maturidade se expressa através do ser inteiro. Aquele que está na busca incessante pela própria essência, quem conhece e aceita todas as suas características, boas e ruins, sem se esquivar da eterna batalha do aperfeiçoamento pessoal. Não deseja mais viver um personagem, mas formar a própria personalidade. Que segue em busca de si mesmo e de toda luz que nele existe. Apenas este encontro poderá proporcionar a harmonia e o equilíbrio necessários a todas as relações; seja consigo mesmo, seja para com o mundo.”

O nono dia da travessia – quando a alma se olha no espelho

 

Entardecia no nono dia da travessia. Tinha sido um dia monótono, mormente se comparado aos anteriores. O caravaneiro dera ordens para montarmos o acampamento um pouco antes da hora que em geral interrompíamos a marcha. Aproveitei para ir ao barbeiro. Pode parecer estranho, mas a caravana tinha um barbeiro. Um dos encarregados levava em sua bagagem uma pequena pia e um espelho, além dos apetrechos típicos para a barbearia, como navalhas, tesouras, óleos e cremes. Eu uso barba há muitos anos e tenho o costume apará-la uma vez por semana. Como não cuidava da barba desde alguns dias antes da partida, somado às condições difíceis impostas pelo deserto, me senti abandonado por mim mesmo quando me olhei no pequeno espelho. O barbeiro era um homem simpático e falante. Como era veterano de muitas travessias, o seu ofício ficava enfeitado pelas muitas histórias que contava na medida que aparava barbas e cortava cabelos. Quando me sentei na cadeira e comentei que tomara um susto ao me ver no espelho devido aos maus-tratos que o deserto me impunha, ele me corrigiu para dizer que o deserto era rigoroso, porém cada um definia os cuidados que tinha consigo mesmo. Em seguida, narrou uma engraçada história, que ele afirmava verdadeira, acontecida há muitas travessias atrás, de um homem que teve um sério surto ao se olhar no espelho: ele jurou que a imagem refletida não correspondia a sua pessoa.

Siga o seu coração

 

“Siga o seu coração”, me aconselhou Canção Estrelada quando me despedi. Eu tinha ido às montanhas do Arizona para participar de alguns cerimoniais nativos em um período que, por coincidência, era de mudança de ciclo em minha vida. A agência de propaganda na qual eu era sócio tinha sofrido uma forte cisão com a saída de alguns sócios e precisava encontrar novos rumos. Ao mesmo tempo se encerrava o romance de alguns anos com a minha namorada que cheguei a imaginar não ter fim. Naquele momento eu precisava me reinventar. “Siga o seu coração”, levei aquelas palavras comigo, que me enchiam de força, e tomei uma série de decisões, tanto pessoais quanto profissionais, que se mostraram equivocadas. Alguns meses depois, no turbilhão de desencontros que a minha vida tinha se tornado, aproveitei que teria o tradicional ritual do equinócio de verão e voltei ao Arizona. Encontrei Canção Estrelada sentado na cadeira de balanço da agradável varanda de sua casa. Ele me recebeu com alegria. Depois de devidamente acomodado, não demorou muito, confessei ao xamã que seguir o coração tinha se tornado desastroso, haja visto o que tinha acontecido comigo. Pior, eu tinha a nítida sensação de as coisas iriam se agravar ainda mais. Ele me olhou como a uma criança chorosa, acendeu o seu indefectível cachimbo com fornilho de pedra vermelha e, depois de algumas baforadas, disse: “Tem dois aspectos no seu discurso que você parece não entender. O primeiro é que, algumas vezes, estamos tão arraigados às velhas formas de viver que é preciso demolir tudo, até não sobrar pedra sobre pedra, para que seja possível reconstruir uma nova realidade baseada em um diferente entendimento sobre o ser. Não se constrói uma boa casa sustentada por paredes podres.” Tornou a baforar o cachimbo e concluiu: “Outro aspecto, e não menos importante, é quanto a seguir o seu coração. Será sempre um valioso conselho. No entanto, nem sempre possível de realizar, pois para seguir o coração é preciso aprender a ouvi-lo.”

O oitavo dia da travessia – as tempestades de areia e da alma

 

A caravana iniciava o seu oitavo dia de viagem. O acampamento despertava. Afastei-me para uma ligeira meditação quando vi o caravaneiro, distante de todos, com o seu falcão pousado nas grossas luvas de couro que usava no braço esquerdo. Distrai-me a espera do voo da ave que costumava caçar no início e ao final do dia. Estranhei o falcão se recusar a voar. Ao perceber o caravaneiro retornar ao acampamento em passos apressados, entendi que algo estava errado. Embora não tenha ouvido, vi quando ele deu algumas ordens para os encarregados. Logo chegou a notícia de que uma tempestade de areia se aproximava. Fomos orientados a nos arrumar para partir o mais rápido do possível em busca de um lugar onde pudéssemos enfrentar a tempestade com um pouco mais de segurança. Eu tinha ouvido histórias de caravanas inteiras que sucumbiram diante de violentas tempestades de areia, equivalente às avalanches para os montanhistas. Em poucos minutos todos já estavam montados em seus camelos e cavalos, em jejum, seguindo adiante. Marchávamos em absoluto silêncio. Todos os olhos estavam angustiados em patrulha no horizonte à procura de qualquer sinal. O céu, com o natural azul intenso do deserto, me parecia igual ao dos dias anteriores. A temperatura começava a aumentar na medida que o sol escalava a abóbada. Nada me pareceu diferente, salvo o medo que amplificava a estranha quietude da marcha naquele dia. Notei que o caravaneiro nos conduziu para um espaço aberto, longe das dunas, que se movem ao sabor dos ventos e poderiam nos soterrar durante a tempestade. Até que paramos para um breve descanso. O caravaneiro se afastou e sentou sobre as pernas em posição de prece. Ao sentir a minha aproximação, ele abriu os olhos e me encarou. Fiz sinal perguntando se podia chegar mais perto e ele autorizou com um aceno de cabeça. Indaguei se podíamos rezar juntos. Com o queixo ele indicou um lugar para eu sentar ao seu lado. Confessei que estava com medo e quis saber se ele também sentia. O caravaneiro respondeu com serenidade: “Todos sentem medo na iminência de um mal. Peço por luz e proteção. A minha prece tem tão e somente duas palavras.”

Sempre tenho tudo o que preciso

 

Lá estava eu de volta à pequenina vila chinesa próxima ao Himalaia. A viagem, além de cansativa pelas muitas horas de voos, conexões necessárias e o trecho feito de ônibus pela precária estrada que serpenteava a montanha, me trouxera o inconveniente de ter a mala extraviada pela companhia aérea. As minhas reclamações no aeroporto se mostraram inúteis e a empresa não garantiu a entrega da bagagem, na ventura de aparecer, em local tão distante e de difícil acesso. Sobrou-me a mochila com os documentos e algumas poucas peças de roupa que levara para trocar durante o longo percurso. Assim que cheguei tentei descansar um pouco na única hospedaria do lugar. Em vão. A irritação e a revolta faziam a cabeça girar pela força de muitas ideias e sentimentos que pareciam ter a necessidade de transbordar de dentro de mim. O dia ainda não tinha raiado quando levantei e me dirigi à agradável casa de Li Tzu, o mestre taoista, onde ele recebia alunos de todas as partes do mundo em busca dos ensinamentos das milenares lições contidas no Tao Te Ching. Ao cruzar o portão da casa, sempre aberto, senti uma agradável sensação. Um perfume que eu não soube identificar se vinha do enorme jasmineiro que envolvia o belo jardim de bonsais ou dos muitos incensos espalhados pela casa, preenchiam o silêncio e a quietude do local. Algumas lanternas de iluminação tênue indicavam o estreito e sinuoso caminho até a varanda. Li Tzu terminara uma solitária sessão de yoga e se mostrou feliz em me ver. Sempre delicado, ele me convidou para um chá. Quando entrei na copa, Meia-noite, o gato negro que morava na casa, eriçou o pelo e saiu em disparada ao me ver. Sem graça, comentei que o dócil animal não deveria ter me reconhecido depois de tanto tempo. O mestre taoista não me deixou enganar: “Os gatos são muito sensíveis às energias. A violência o assustou.” Rebati dizendo que eu era um sujeito pacífico, incapaz de agredir alguém. Li Tzu explicou com o tom entre a doçura e a firmeza que lhe era peculiar: “Todos sabem da sua índole de paz, Yoskhaz. No entanto, você não está bem. A violência não se expande apenas na grosseria das palavras ou na agressividade das atitudes. Lembre-se que somos um centro gerador de energia. As vibrações primordiais surgem através das nossas ideias e emoções, invisíveis aos olhos, mas nem por isto não percebidas e menos importantes. Pois têm a força de desalinhar o indivíduo e, algumas vezes, desagregar o ambiente. Ou pior, se tornarem a semente de escolhas equivocadas por se distanciarem do amor que deve nos guiar.” Fez uma pausa e concluiu: “Devemos nos vigiar o tempo todo.”

O sétimo dia da travessia – a temperança e o poder da alma

 

Estávamos no sétimo dia da travessia. A caravana fez um pequeno desvio em sua rota para se abastecer de água em um poço construído e mantido por uma pequena comunidade de tuaregues que, embora fossem de natureza nômade, tinham se estabelecido naquele local há algum tempo. Eram pessoas amistosas que se dedicavam a atender aos viajantes. Além da água potável extraída de um leito subterrâneo do deserto, ofereciam diversos víveres e negociavam camelos. As mulheres do grupo eram conhecidas pela tecelagem colorida de suas roupas e pelo delicioso doce de tâmaras que vendiam. Depois de encher o meu cantil, provei a famosa iguaria e entendi a razão de a chamarem de “o mel do deserto”. Tive que fechar os olhos tamanho foi o prazer. Como não sabia quando teria uma nova oportunidade em comer aquela maravilha, adquiri uma grande quantidade, suficiente para muitos dias e acondicionei no alforje do meu camelo. Não tardou, a caravana seguiu o seu curso. Naquele dia, fui me deliciando com os doces, um após outro, até o último, em incessante volúpia. Na medida que comia os doces, eu sentia sede, me obrigando a beber uma quantidade de água bem maior do que o normal. No final da tarde, quando a caravana tornou a parar para acampar e passar a noite, eu estava enjoado e com o cantil vazio. Enfastiado, rejeitei a refeição oferecida e me afastei em razão do mal-estar que sentia. Procurei o encarregado pela provisão da caravana e solicitei água para o meu cantil. De modo educado, ele negou. Disse que tinha orientação do caravaneiro de somente fornecer água após dois dias da passagem pelo poço, como maneira de todos colaborarem para um consumo consciente, equilibrando as difíceis condições que se impunham. Insisti, mas o homem se manteve firme na negativa. Tornei a me afastar e, em pouco tempo, a sensação de sede aumentou exponencialmente até ficar insustentável. A irritação tomou conta de mim como efeito da crise de abstinência. De longe avistei outro viajante, um mercador, veterano de muitas travessias, bebendo água. Aproximei-me e pedi um pouco. Expliquei a ele o ocorrido. Ele me olhou por alguns segundos e disse que me venderia um cantil. Vi que havia vários cantis em seu alforje. Sem hesitar, falei que pagaria. Ele sorriu de maneira estranha. Em seguida estabeleceu o preço. Era um valor alto, muito alto.

Argumentei que era um absurdo cobrar uma fortuna por uma pequena quantidade de água. O mercador respondeu que estava barato, pois aquele preço não era pela água, mas pela minha vida.

Uma sofisticada virtude repleta de outras virtudes

 

Uma das coisas mais agradáveis para mim era percorrer as ruas estreitas e sinuosas da pequena cidade que fica no sopé da montanha que abriga o mosteiro. Melhor ainda é no início da manhã, quando o calçamento de pedras está molhado pelo orvalho da noite. Naquele dia, eu seguia na esperança de encontrar aberta a oficina de Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos. A oficina era lendária na região. Seja pela mestria de Loureiro em costurar o couro e as ideias, seja pelos horários inusitados e imprevisíveis de funcionamento, cujo critério era simplesmente a vontade do sapateiro. Quando dobrei a esquina e não avistei a sua clássica bicicleta encostada no poste em frente, já sabia que encontraria a oficina com as portas cerradas. Passei em uma banca de revistas próxima e o jornaleiro disse que o meu amigo tinha trabalhado a noite toda, acabara de pegar um jornal e seguira para uma padaria perto dali. Alegrei-me com a possibilidade de uma boa prosa, logo pela manhã, acompanhada de café quente e pão fresco. Loureiro estava sentado em uma mesa ao fundo e abriu um belo sorriso quando me viu. Devidamente acomodado à mesa, com uma xícara fumegante e uma fatia de pão com o bom queijo da região derretido por cima, perguntei o que ele lia no jornal. O artesão respondeu que era sobre a polêmica em torno da aposentadoria diferenciada para algumas categorias profissionais. Enquanto uma parte das pessoas sofriam grandes perdas financeiras ao se aposentar, outras mantinham seus vencimentos integrais, em nada sendo afetadas. Havia um grande movimento para que estas fossem equiparadas àquelas. Ou seja, todos sofreriam igualmente as perdas. Eu falei que os protestos me pareciam justos. Loureiro me olhou por instantes, bebeu um gole de café e ponderou: “Será que o raciocínio não poderia ser invertido? Ao invés da luta para que todos tenham os seus ganhos rebaixados não seria mais sensato que a reivindicação fosse no sentido do fim das perdas, usando aquelas aposentadorias, então privilegiadas, como meta a ser proporcionada a todos?” Após alguns segundos de silêncio, admiti, um pouco sem jeito, que o sapateiro tinha razão. Isto faria com que a luta fosse por ganhos e não por perdas; fosse pela construção, não pela destruição. O sapateiro concluiu: “Assim passamos a lutar pela esperança e não movidos pelo ódio.”

O sexto dia da travessia – a sombra da discórdia e a alma esquecida

 

A caravana estava no sexto dia. As precárias condições de uma travessia pelo deserto, por maiores que sejam os cuidados dispensados pelos viajantes, seja pelo clima inóspito, seja pela falta de uma série facilidades, às quais nos acostumamos nas cidades, trazem inevitáveis problemas. Há que se ter atenção tanto em relação às variações de humor, tão imprevisíveis quanto as dunas que se movimentam ao sabor do vento, quanto à saúde física que tende a se deteriorar muito rapidamente ao menor descuido. Ao caravaneiro cabe a difícil tarefa de conduzir a caravana na harmonia entre a firmeza e a paciência. A sensatez é a virtude que permite o equilíbrio entre as outras duas virtudes, posta à prova a todo momento em diferentes graus de exigência. Naquele dia circulava a notícia de que poderíamos enfrentar uma violenta tempestade de areia. Alguns diziam que não passava de um boato; outros sustentavam a veracidade do perigo, alegando como fonte um experiente encarregado da caravana, veterano de muitas travessias. Como se não bastasse toda a insalubridade típica do deserto, a tensão diante da iminência do perigo alterou o ânimo de alguns integrantes. Não raro, o medo se torna a raiz de muitas doenças e conflitos. Um dos viajantes foi acometido de um mal súbito. Como já estávamos no meio do dia, o caravaneiro ordenou uma pequena parada para um rápido descanso e as providências cabíveis à pessoa adoentada.

A luz do mundo e a misericórdia

 

O mundo não é um bom lugar para se viver. Eu estava convencido desta afirmação enquanto observava as belas montanhas, sentado em uma confortável poltrona na varanda do mosteiro. Cansado de tantos conflitos, injustiças e maldades, eu tinha perdido a esperança de viver em um mundo melhor. A minha vida pessoal também acumulava uma série de brigas e decepções, seja na família, entre amigos ou no trabalho. Desse modo, me alegrei ao viajar para passar um período de estudos e reflexões na Ordem. O mosteiro era um bom refúgio. Eu tinha chegado na noite anterior e ainda não tinha encontrado com o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da irmandade. Ele retornara um pouco mais cedo; vinha de uma série de palestras em cidades próximas e tinha se recolhido em seu quarto para descansar. No dia seguinte, ao acordar, passei na biblioteca para pegar um livro, enchi uma caneca de café no refeitório e fui para a varanda. Não demorou muito o Velho veio ao meu encontro. A barba branca cuidadosamente aparada, os passos lentos, porém firmes, e com as feições coradas pelo sol das montanhas, ele era a imagem da alegria e da jovialidade apesar da idade avançada. Uma energia de bem-estar e paz o envolvia e contagiava as pessoas à sua volta. Mas não era uma calma preguiçosa; era uma tranquilidade vitalizante. Ele próprio, embora apreciasse o descanso, estava sempre envolvido em várias atividades, estudos e não dispensava a prática da yoga ao acordar. Ele trazia em si o poder da leveza e a força do movimento. Ofereceu-me um sorriso sincero e um forte abraço. Sentado na poltrona ao lado, contou do ciclo de palestras que acabara de ministrar e como estava contente por isto. Disse que queria me falar de seus novos projetos, mas antes desejava saber como eu estava. Como as palavras costumam refletir a bagagem da alma, derramei todas as minhas frustrações e lamentos quanto ao mundo. Conclui dizendo que agora iria me fechar mais em meu círculo de vida e seguir cada vez mais alheio às iniquidades da humanidade. Em seguida, acrescentei que eu estava ansioso pelo início daquele período de estudos e pelo desenvolvimento espiritual que ele traria. O velho me ouviu com atenção e paciência sem me interromper. Ao final, disse: “O novo ciclo de aprendizado será bem diferente dos anteriores. Acho que será proveitoso, embora tenha dúvida se irá lhe agradar.”

O quinto dia da travessia – a alma do mundo

 

Estávamos no quinto dia da travessia. A caravana seguia a sua marcha rumo ao oásis onde vivia um sábio dervixe, “conhecedor de muitos segredos do céu e da terra”, com qual eu desejava encontrar. Entre peregrinos, mercadores, turistas e encarregados, dezenas de pessoas integravam a caravana e viajavam pelas areias do Saara. Na manhã daquele dia, logo cedo, antes de levantarmos acampamento, percebi o caravaneiro um pouco distante do grupo adestrando o seu falcão. Chamava-me atenção o fato de ele, sempre que possível, se afastar para se entreter com a ave. Estranha diversão, pensei. Atribui o hábito às inevitáveis diferenças culturais entre os povos. Procurei pela bela mulher com olhos da cor de lápis-lazúli em vão. Depois tive a atenção voltada para um homem que sempre que a caravana fazia uma parada, estendia um belo tapete e expunha em pequenos cestos porções de biscoitos finos. Ele se dedicava a servir chá para quem desejasse. Esse homem não trabalhava na caravana como de início pensei; uma vez por ano viajava para encontrar com parentes. Realizava o cerimonial do chá por prazer. Fiquei impressionado com o capricho com o qual ele se dedicava a essa tarefa. Um mercador inglês que costumava viajar para negociar tapetes com os habilidosos artesões do oásis, ao perceber o meu interesse, se aproximou e disse: “É o melhor chá que já tomei na vida.” Respondi que tamanho elogio vindo de um inglês era para se respeitar. Em seguida, comentei que achava um certo exagero todo aquele afinco apenas para servir chá com biscoitos em um acampamento no deserto. O inglês falou como quem revela um segredo: “Dizem que é um mestre”. Logo o meu interesse mudou. Cheguei próximo ao homem, perguntei se podia sentar; ele sorriu e fez um gesto com a mão para que eu ficasse à vontade. Ele tinha acabado de terminar uma infusão no bule, me serviu com esmero em uma elegante xícara de porcelana e disse para eu me servir dos biscoitos. Senti-me um rei. Fiz um elogio sincero ao chá. De fato, era delicioso. Ele tornou a sorrir e disse: “Isso me alegra o coração. Gosto quando dizem que é um néctar dos deuses.” Eu confessei que foi exatamente isso que eu senti ao provar a bebida. Em seguida, interessado em averiguar a mestria a ele atribuída, perguntei se gostava de Blavatsky, apreciada escritora russa nos círculos esotéricos. Ele me olhou com simplicidade e respondeu: “Não sei quem é.” Insisti em saber a sua opinião sobre Krishnamurti, Yogananda, Kardec, Gibran, entre outros. As respostas se repetiam com um balanço da cabeça em negativa. Desolado, eu quis saber por quais livros ele se interessava. O homem, cujo o nome, depois eu soube, se chamava Kalil, disse com humildade: “Eu não sei ler.” E justificou: “Fui criado em um campo de refugiados. Lá não tinha escolas.” Em seguida acrescentou com enorme estima: “Eu aprendi a fazer chá”. Decepcionado, apenas esbocei um rascunho de sorriso como quem diz que entendia a situação. Esvaziei a xícara, tornei a elogiar o chá e quando fiz menção para me levantar, ele se manteve gentil fazendo questão de explicar: “O chá que você bebeu é de uma flor comum no deserto, mas rara nas cidades. Ela precisa ir fresca para a infusão, na qual não pode demorar mais do que três minutos, sob o risco de ter o sabor alterado. Tive sorte de encontrar um pequeno ramo ontem.” Comentei que era mesmo uma iguaria, agradeci e, como não estava interessado em saber mais sobre chás, me levantei.

Diante da alma

 

O tambor de duas faces de Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom de levar a sabedoria do seu povo através das palavras, rufava em ritmo compassado quando cheguei ao seu “lugar de poder.” Este local era próximo à sua casa, no alto de uma montanha no Arizona, em um pequeno platô, onde, além da bela paisagem e profundo silêncio, me chamava a atenção uma árvore bem antiga em um improvável equilíbrio, bem na ponta de um penhasco. Ele dizia que todos têm um lugar onde sentem com maior intensidade a ligação com o Grande Mistério, o invisível que permeia e atua no visível, na harmonia entre a força e a sutileza da vida. A minha viagem para encontrar com o xamã já estava programada há meses, mas perto da partida a adiei várias vezes em razão de alguns acontecimentos. Tudo começou em um evento no qual a minha agência de publicidade, embora pequena, havia sido premiada pela originalidade de um anúncio. Uma famosa atriz, mulher lindíssima, tinha sido contratada para apresentar a cerimônia de premiação. Foi ela quem puxou assunto comigo quando nos esbarramos no coquetel que aconteceu logo após. Ela fez elogios ao meu trabalho e mostrou interesse em saber mais. Eu fiquei apaixonado ao ouvir o som das suas palavras enquanto olhava para aquele rosto angelical, emoldurado pelos cabelos encaracolados que lhe desciam pelos ombros à mostra. Ali começou um romance. E também a minha agonia.

O quarto dia da travessia – a escuridão é o pavio da luz

 

Ainda era o quarto dia da travessia e já houvera mais movimentação do que eu seria capaz de imaginar. Tudo o que eu queria era um pouco de sossego para refletir sobre a vida enquanto atravessávamos o deserto que parecia sem fim. Ao contrário do que eu supunha, não existe tédio quando se faz parte de uma caravana. O deserto é um universo peculiar, que pulsa como um corpo vivo, muda a todo instante pela ação do vento na areia, tem fortes contrastes entre o dia e a noite, além de abrigar uma incontável quantidade de seres em seu âmago. Aves migratórias e de rapina, pequenos roedores, répteis como lagartos e serpentes, além de pequenos invertebrados, alguns bem perigosos, como aranhas e escorpiões. Também tinha ouvido falar de felinos, mas estes me pareciam lendas, pois duvidava da existência dessas espécies em região tão inóspita. Aquele dia seguia modorrento, conforme o meu desejo. Eu alternava as horas entre a reflexão, enquanto observava a paisagem, as inúmeras fotografias que eu tirava para registrar a viagem e a leitura de um livro, o qual já me habituara a ler sem enjoar, apesar do gingado do camelo. Eu queria estar preparado para o encontro com o sábio dervixe, “conhecedor de muitos segredos do céu e da terra”, que morava no oásis. O caravaneiro seguia à frente, montado a cavalo. Por algumas horas do dia, ele gostava de trotar carregando o seu falcão pousado sobre as grossas luvas de couro que usava no braço esquerdo. Naquele dia eu ainda não tinha visto a bela mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli.

O amor. Tão perto, tão distante

 

Eu tinha chegado há poucos dias no mosteiro para o meu período anual de estudos quando recebi a notícia do falecimento do meu avô. Ele tinha sido um homem saudável e ativo, estando à frente do seu pequeno negócio até os últimos dias dessa sua existência. Tinha se sentindo mal e foi levado ao hospital. Embora tenha ficado internado para exames mais aprofundados, os médicos disseram acreditar não se tratar de nada grave. Fiz uma visita ao meu avô antes de viajar; ele estava alegre e otimista, características que sempre estiveram presentes no seu jeito de ser. Apesar de eu estar confiante em sua rápida recuperação, fiz preces neste sentido e, mesmo de longe, enviei boas vibrações de cura. Fiquei desorientado ao ser avisado do fim desse ciclo em sua vida. Eu gostaria de mais um tempo de convivência ao seu lado nesta minha existência. Foi isto eu que disse ao Velho quando o encontrei sentado sozinho na cantina entre uma xícara de café e um pedaço de bolo de aveia. O bom monge se levantou sem dizer palavra, me deu um forte abraço e depois me acomodou em uma cadeira à sua frente. Encheu uma caneca de café para mim, tornou a sentar e me olhou com doçura como quem diz estar disposto a me dar a atenção de que eu precisava naquele momento. Confessei estar desorientado com a situação e até mesmo um pouco descrente dos meus estudos. Falei que a espinha dorsal dos estudos da Ordem é o Sermão da Montanha, ensinamentos legados por mestre Jesus nas colinas Kurun Hattin. Acrescentei que ele, Jesus, também tinha dito que “todos poderiam fazer o que ele fez e até mesmo mais”. Narram os livros sagrados situações de cegos que retomaram a visão e de aleijados capazes de voltar a andar. No entanto, diante de uma situação bem mais simples, minhas preces e vibrações de cura se mostraram insuficientes. Questionei a valia dos meus conhecimentos.

O terceiro dia da travessia – o dilema entre a palavra e a verdade

 

Acordei na manhã do terceiro dia da travessia com o corpo ainda alquebrado em função dos acontecimentos do dia anterior. O céu já estava claro, embora o sol não tivesse alcançado a linha do horizonte no fim do mar de areia que parecia sem fim. A movimentação para recolher o acampamento era intensa. Todos arrumavam as suas coisas para seguirem adiante, rumo ao maior oásis do Saara. Eu ia ao encontro de um sábio dervixe, “conhecedor de muitos segredos do céu e da terra”, que lá residia. A grande maioria dos integrantes da comitiva era de mercadores, peregrinos e turistas, que marchavam montados em camelos. Os funcionários da caravana encarregados da segurança viajavam a cavalo, em vigorosos puros-sangues árabes, que permitiam maior agilidade, além do caravaneiro e da enigmática mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli, a qual eu não avistara naquela manhã. Notei que, além dessas, algumas outras poucas pessoas também seguiam a cavalo. Como eu não tinha me acostumado ao gingado do camelo sobre as areias do deserto, algo que me deixava enjoado, assim que o caravaneiro se aproximou, questionei o privilégio concedido a essas pessoas que “viajavam de primeira classe”. Argumentei que todos deveriam ter o mesmo tratamento face às condições inóspitas da travessia. Acrescentei que, como esse não era o caso, eu também gostaria de seguir a cavalo. O caravaneiro me olhou fixamente e disse: “Todos são tratados de maneira justa e recebem um camelo para realizar a viagem. No entanto, alguns trouxeram ou compraram os seus cavalos. Não há nada de errado nisto”. Em seguida, advertiu: “Cada qual deve vigiar a si mesmo”. Fez uma pequena pausa e concluiu: “Todos são livres para quaisquer atos, desde que não prejudiquem a harmonia da caravana”.

A lei do progresso

 

Eu estava sentado na varanda do mosteiro apreciando as belas montanhas que o acolhem quando se aproximou o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem. Sempre com o seu jeito jovial, apesar da idade avançada, trazia duas canecas de café fresco e as acomodou na mesa ao meu lado. Sentou-se em uma confortável poltrona e brincou ao dizer para eu compartilhar com ele os meus pensamentos. Agradeci o café e confessei que questionava o fato de os textos sagrados afirmarem que somos feitos à imagem e semelhança de Deus. Enquanto Deus é perfeito, nós ainda nos esforçamos nos primeiros degraus do aprendizado. Argumentei que se a origem de todos os males do mundo é a prevalência das sombras pessoais sobre as escolhas virtuosas cabíveis a cada indivíduo, teria sido mais sensato que todos nós tivéssemos nascidos perfeitos, assim como Deus, evitando, desta forma, todas as tragédias e sofrimentos provocados pela humanidade contra si mesmo. Portanto, havia erro do criador quanto à elaboração da criatura. Ou um grave equívoco em relação aos textos sagrados.

O segundo dia da travessia – a dor nada ensina

 

A caravana seguia rumo ao maior oásis do Deserto do Saara. O meu objetivo era conhecer um sábio dervixe, detentor de “muitos segredos do céu e da terra”. Estávamos no segundo dia da travessia, e eu ainda me acostumava ao gingado do camelo, que me deixava um pouco enjoado. Tentava me distrair com a paisagem, mas não conseguia. Dunas enormes pareciam se repetir dando a falsa sensação de que andávamos em círculos. A belíssima mulher com os olhos da cor de lápis lazúli, que me autorizara participar da caravana no dia anterior, desaparecera. O caravaneiro, montado em seu vigoroso cavalo branco, passava a comitiva em revista; por vezes, gritava ordens em um idioma desconhecido. Eu, ainda impactado com os acontecimentos do dia anterior, me limitava a acompanhar os demais integrantes com receio de fazer algo que prejudicasse o encontro com o dervixe. Apesar do forte calor, tínhamos o corpo completamente coberto por roupas para evitar queimaduras solares e a desidratação que poderia levar à morte. Em determinado momento veio a ordem para a caravana parar por alguns minutos para que que todos pudessem fazer uma refeição leve. Algumas pessoas aproveitaram para realizar as preces diárias conforme os seus preceitos religiosos. Desmontado do camelo, andei a esmo até avistar o caravaneiro, um pouco distante e sozinho, com o seu falcão pousado na grossa luva de couro que usava na mão esquerda.

O sapateiro, o industrial e a ironia

 

Eu andava pelas ruas estreitas e sinuosas da charmosa cidadezinha que fica no sopé da montanha que acolhe o mosteiro na incerteza de encontrar a oficina de Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos, famoso por costurar o couro como ofício e as ideias como arte, ainda aberta para um café fresco e uma boa prosa. Como a sua oficina era lendária na região por funcionar em horários inusitados e incertos, fiquei feliz, quando ao dobrar a esquina, avistei a sua clássica bicicleta, o único meio de transporte que se permitia usar dentro da cidade, encostada no poste em frente à loja. Neste mesmo instante, um reluzente Mercedes-Benz estacionou em frente à oficina. O chofer desceu para abrir a porta de trás e achei ter visto Loureiro sair do carro. Estranhei de imediato. Ao me aproximar, os meus olhos ruins perceberam não se tratar do sapateiro, mas de alguém muito parecido com ele. Quando entrei na loja tudo foi esclarecido. Tratava-se do irmão de Loureiro; embora tivessem uma grande semelhança física, não eram gêmeos. O artesão nos apresentou. Ele se chamava Sergei e era dois anos mais moço. Polido e educado como Loureiro, no entanto, de pronto percebi que as semelhanças se esgotavam ali. Tinham elegâncias distintas, diferentes interesses e olhares opostos em relação à vida. Sergei também não tinha o sorriso fácil do sapateiro. Muito sério, fez questão de dizer que não dispunha de muito tempo, pois era um empresário muito ocupado. Como proprietário de uma grande fábrica de tecido em uma região industrial distante a muitas horas dali, não poderia desfrutar da companhia do irmão por mais do que alguns poucos minutos. Loureiro foi passar um café fresco enquanto nos acomodávamos ao balcão. Perguntei ao Sergei o que ele fazia na pequena cidade. O empresário contou que viera trazer uma senhora, dona de uma grande rede de lojas que absorvia boa parte da produção de sua fábrica, para conhecer o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem. Acabara de descer da montanha e a cliente seguira a viagem em seu próprio carro. Então, ele viera dar um abraço no irmão e logo voltaria para a fábrica. Eu quis saber como havia sido o encontro com o Velho. Ele esclareceu que tinham chegado de surpresa, sem avisar. Entretanto, o monge estava ocupado, ministrando uma palestra no mosteiro, e pediu para que eles retornassem na manhã seguinte, quando os atenderia. Indaguei se eles tinham combinado o encontro e Sergei, esclareceu que não.  Sugeri que pernoitasse para que pudesse jantar conosco. Acrescentei que a cidade, embora acanhada, era conhecida por seus excelentes restaurantes, alguns renomados mundo afora. Falei, ainda, que subiria ao mosteiro logo cedo e poderíamos ir juntos. Ele lamentou, mas não tinha tempo para isso, pois os seus negócios possuíam uma dinâmica intensa e ele era um industrial muito solicitado, com a agenda repleta de compromissos e reuniões. Sibilou que capitalizara prejuízos financeiros e profissionais naquela viagem, pois deixara de fechar alguns negócios e teria que lidar com a decepção da cliente que não conseguira falar com o Velho, como ele, Sergei, prometera. Acreditou que a amizade do irmão com o monge facilitaria o encontro. Em seguida, com um comentário irônico, sugeriu que o Velho “estava ocupado, treinando para substituir Deus”.

O primeiro dia da travessia – quando menos é mais

 

Era o primeiro dia de viagem. Eu estava em uma pequena cidade fronteiriça ao deserto do Saara, no norte da África. A minha intenção era fazer parte de uma caravana que partiria rumo a um oásis onde residia um sábio dervixe. Nas rodas esotéricas ele era conhecido como um feiticeiro muito respeitado face ao enorme conhecimento que possuía a respeito de muitos segredos “sobre céu e a terra”. Eu ainda dava os primeiros passos no Caminho e tinha ficado profundamente impressionado com as histórias que ouvira. Essa caravana era a única maneira de chegar até o oásis e, por consequência, ao sábio. Ela partia apenas duas vezes ao ano, em datas imprecisas, e a travessia durava quarenta dias. Entrei em uma taberna que me indicaram como ponto de contato. Apesar de me parecer um lugar estranho, que vendia não somente bebida e comida, mas todo o tipo de coisas de que alguém precisaria para sobreviver durante muitos dias entre as dunas e o sol, as pessoas, aparentemente, não se importaram com a minha presença. Como todas as informações que eu tinha eram muito vagas, me dirigi ao homem que atendia por detrás do balcão e perguntei sobre a caravana. Ele me olhou por alguns instantes, como que duvidando da minha capacidade em completar a empreitada a que me propunha e se limitou a indicar uma das janelas da taberna com o queixo, sem dizer palavra. Além dos vidros empoeirados, eu vi apenas o céu azul e as areias claras, de uma cor entre o amarelo e o bege, de um tamanho sem fim. Fixei o olhar e, ao longe, pude avistar uma figura imponente, com a vestimenta típica dos povos do deserto, com um falcão pousado em seu braço. De óculos escuros, por causa da claridade, e segurando o meu chapéu panamá na cabeça, para não o perder ao vento, andei desajeitadamente até a pessoa indicada. Durante o curto trajeto, vi a ave dar um maravilhoso voo rasante, em círculo, até retornar as garras na grossa luva de couro do seu mentor. Perguntei se era com ele que eu trataria sobre a travessia. A resposta foi um simples aceno afirmativo com a cabeça. Eu disse que gostaria de fazer parte da próxima comitiva, pois desejava encontrar o sábio dervixe. Eu precisava saber a data da partida e o custo para fazer parte do grupo. Ele me olhou profundamente nos olhos e falou: “A travessia pelo deserto é perigosa. Não posso garantir que nenhum dos integrantes chegue ao destino”.

O guardião e o mestre

 

A palestra que o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, tinha ministrado em uma conhecida universidade versava sobre a necessidade do equilíbrio entre o ego e a alma. Ele aproveitou uma figura de linguagem usada por Teresa D’Avila ao comparar o íntimo de uma pessoa como a um castelo de muitos cômodos. Em cada quarto habita um sentimento ou uma ideia. Alguns densos e pesados, outros leves e sutis. No portão de entrada, em contato direto com o mundo, está o ego. Na sala do trono, no interior do castelo, centro das decisões primordiais, mora a alma. O bom funcionamento do castelo vai depender da capacidade de harmonia e conexão entre os seus moradores. Embora o conceito não seja novo, é pouco conhecido e transitou durante séculos apenas entre monastérios e irmandades esotéricas. Ao final da explanação houve muitos questionamentos, dúvidas e material para reflexões posteriores. Esta era a intenção do bom monge. Quando estávamos de saída, ele perguntou pelo professor de estatística Carl Bacon, seu contemporâneo quando cursou economia em uma universidade inglesa, com quem tinha construído uma sólida amizade. Foi informado que o professor Carl estava de licença em razão de uma forte depressão, tinha desistido da cátedra e poucos acreditavam que ele retornaria a dar aulas. O Velho se mostrou preocupado e quis saber onde encontrá-lo. Disseram que ele pouco saía de casa, salvo para passear, solitário e a esmo, pelo bosque da universidade. Acrescentaram que não teríamos dificuldade para achá-lo.

A luz do mundo e um bolo de laranja

 

O dia amanhecia. Eu estava na pacata estação da pequena e charmosa cidade, situada no sopé da montanha onde fica o mosteiro, à espera do trem que me levaria com o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, até uma movimentada metrópole, sede de uma prestigiosa universidade. Ele era muito requisitado para palestras em escolas, empresas e centros comunitários. Nunca recusava um chamado. Na impossibilidade de alguma data em razão de outro compromisso, não sossegava enquanto não ajeitava o calendário para atender ao pedido. Como o nosso trem ainda demoraria um pouco, fomos até a cafeteria da estação em busca de uma xícara de café fresco e do famoso bolo de laranja com gengibre feito pela gentil dona do estabelecimento. Devidamente acomodados, com duas canecas fumegantes à frente, perguntei se ele não sentia necessidade em ter mais tempo para descansar. O monge bebericou o café e disse: “Descansar é muito importante, assim como ter um tempo para dedicar a mim, encontrar comigo mesmo e ‘arrumar a casa’”. Deu um sorriso e complementou: “Fazer faxinas rotineiras são de extremo valor para que possamos varrer a poeira dos sentimentos densos, consertar as emoções que quebraram, trocar a decoração ultrapassada das ideias que não mais embelezam a vida, abrir as janelas para uma troca de ares e permitir ao sol entrar. A minha casa é o meu ponto de observação e interação com o mundo”. Bebeu mais um gole de café e prosseguiu: “Da mesma maneira, tem grande importância dedicar um tempo à diversão. A arte, através de qualquer das suas modalidades, que tanto nos ajudam a ver além das fronteiras dos condicionamentos e da rotina do cotidiano, encontrar com os amigos, com a família para boas conversas e, acima de tudo, rir bastante, têm a força de alimentar a alma”. Olhou-me nos olhos e concluiu: “No entanto, apenas quando estou servindo sinto o poder do universo de um jeito diferente. Quando compartilho o melhor que há em mim, levo conforto ao coração de alguém, ajudo a brotar o sorriso no rosto de outra pessoa ou consigo, com uma palavra, iluminar a escuridão nos porões de uma alma, é como se as mãos das estrelas se acoplassem às minhas e todo o meu ser ardesse em fogo, tamanha é a luz que me invade. É o perfeito sentimento do sagrado”.

O melhor mágico do mundo

 

Eram dias modorrentos. Eu andava desanimado naquele período em que estava no mosteiro para estudos. Não conseguia me concentrar nas leituras nem nas meditações. As palestras e debates pareciam de uma chatice sem fim. As atividades físicas, como a ioga ou caminhadas pelas montanhas também não me despertavam interesse. Aos que me perguntavam sobre a razão do meu “olhar sem vida”, respondia que não mais alimentava ilusões quanto à humanidade. Argumentava que as nuvens da vaidade, da inveja, da ganância, da mentira e do medo tinham deixado o mundo para sempre sob as suas sombras. Até que encontrei o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, acomodado em uma poltrona na varanda do mosteiro, entretido com um livro. Ofereci de ir à cantina buscar uma xícara de café e ele aceitou com um lindo sorriso. Quando acomodei a caneca na mesa ao seu lado, o monge me convidou para sentar. Sem que ele me perguntasse nada, assim que me acomodei, soprei um vendaval de lamentos quanto à inutilidade da vida. Confessei que não via sentido em viver e, talvez, aqueles que viviam pela busca constante do prazer estivessem certos. O Velho deu de ombros e disse: “Depende daquilo que você entende como prazer”.

A realeza do mundo

 

O trem tinha me deixado cedo na estação da pequena e charmosa cidade que fica no sopé da montanha que acolhe o mosteiro. Como a minha carona até a sede da Ordem era para o final da tarde, decidi arriscar a encontrar aberta a oficina de Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos, lendária não apenas pela habilidade do artesão em costurar tanto o couro quanto as ideias, mas também pelos horários inusitados de funcionamento. Naquele dia a loja estava fechada, embora todo o comércio local estivesse em plena atividade. Um jornaleiro próximo me informou que o meu amigo tinha trabalhado noite adentro, cerrando as portas assim que amanheceu. Resolvi seguir para uma cafeteria em busca de uma xícara de café fresco e um pão com o bom queijo da região na chapa. Antes, comprei o jornal para me fazer companhia. Enquanto andava pelas ruas estreitas e sinuosas com calçamento de pedras, típicas daquela cidadezinha, passei os olhos nas manchetes e li que uma famosa rainha de um país europeu havia falecido. Embora o cargo fosse apenas protocolar e simbólico, sem qualquer poder administrativo, a reportagem relatava uma grande comoção. O enterro ocorreria com toda a pompa.

O sagrado

 

Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom de difundir a sabedoria do seu povo através da palavra, cantada ou não, baforava o seu indefectível cachimbo de fornilho de pedra vermelha enquanto, da varanda da sua casa, em silêncio, observávamos as cores com que o sol poente pintava as montanhas e o céu do Arizona. Na sala da casa, Canção Estrelada mantinha um pequeno altar. Diferente da minha tradição cristã, na qual mantenho imagens de Jesus, Fátima e Francisco de Assis ou na casa de Li Tzu, o mestre taoista, onde vemos pequenas estátuas de Buda, Shiva e Ganesha pelo jardim de bonsais, no altar do xamã repousava uma pena de águia, uma garra de urso, seus animais de poder, o tambor de duas faces usados em seus cerimoniais, algumas pedras que ele, em respeito, reverenciava como “o ‘povo’ mais antigo, que traz toda a memória e a energia dos acontecimentos vividos no planeta desde tempos imemoriais”, além de muitas plantas. Eu entendia bem como funcionava toda a linguagem e a ritualística xamânica com as suas fortes e belas conexões telúricas. No entanto, algo me causava estranheza. Tratava-se de um sapato de palhaço, bem antigo, daqueles tradicionais, enorme, colorido e com o bico propositalmente aberto.

Os desertos do ser

 

Quando entrei no refeitório do mosteiro em busca de uma caneca cheia de café, percebi que o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, conversava com Valentina, uma jovem e bela monja da nossa irmandade. Ela é uma das poetisas mais talentosas da sua geração e, nas horas vagas, trabalha como engenheira em uma conhecida empresa aeroespacial. Eu tinha acabado de chegar ao mosteiro e não sabia que ela também estava lá para o seu período de estudos. Fiquei feliz em vê-la. Somente quando me aproximei foi que reparei as lágrimas escorrendo pela face da moça. Fiz menção em me afastar, mas ela sorriu ao me ver e me convidou para sentar com eles. Valentina brincou comigo ao dizer para eu não ter medo de mulheres que choram. Embora um pouco constrangido, sorri e balancei a cabeça ao afirmar que eu não tinha problemas com isso, apenas não queria atrapalhar a conversa. Ela insistiu para que eu sentasse. O Velho abriu um largo sorriso ao perceber que Valentina mantinha o bom-humor e a delicadeza apesar da dor, indicou com o queixo uma cadeira ao seu lado e disse: “Lágrimas são gotas que transbordam quando os mares do coração estão agitados”.

A fronteira entre a riqueza e a prosperidade

 

Um dos meus sócios na agência de publicidade conseguiu me localizar na única estalagem da pequena vila chinesa onde morava Li Tzu. Tanto o sinal do celular quanto a internet eram precários e intermitentes em razão da região, não raro, assolada por fortes ventanias. O recado deixado na recepção era claro: eu deveria retornar imediatamente das minhas férias e interromper os estudos do Tao Te Ching que fazia com o mestre taoista. Uma conhecida multinacional tinha nos procurado para fechar um vultoso contrato. Todavia, para atendê-la da melhor maneira, teríamos que rescindir os acordos com as pequenas e médias empresas que sempre foram uma base sólida para a agência. Toda a paz e a felicidade que eu estava sentindo nos estudos, na meditação e na prática da ioga, que iniciara naquela viagem, desapareceram por completo. Fiquei tenso e dividido entre ir e ficar; entre o risco de aceitar um negócio milionário que poderia despencar na variação dos interesses típicos de uma grande corporação, mas que, se mantido, me deixaria rico ou permanecer no atendimento às muitas firmas que nos acompanhavam desde o início da agência. Com os nervos exaltados, os sócios estavam divididos entre as opções. Acabei por discutir com um deles ao retornar a ligação.

Nos becos escuros do ciúme e da mentira

Os horários inusitados e irregulares de funcionamento da oficina de Loureiro, o elegante sapateiro amante dos livros e dos vinhos, já tinham virado lenda na charmosa cidadezinha localizada no sopé da montanha que acolhe o mosteiro. A única maneira de saber se o atelier estava aberto era ir até lá. Por isto, virar a esquina da estreita rua sinuosa, com calçamento de pedras, e me deparar com a sua clássica bicicleta encostada no poste em frente era motivo de alegria. Fui recebido com um sorriso sincero e um abraço forte. Eu disse que tinha ido em busca de uma boa conversa sobre um assunto que vinha me incomodando há tempos, o ciúme. Loureiro tinha no remendo do couro o ofício que executava com extrema habilidade; a costura de ideias era uma arte que ele trabalhava com rara mestria. O bom amigo decidiu encerrar o expediente, embora ainda estivéssemos no início da tarde, e me convidou para almoçar em um tranquilo restaurante próximo dali. Devidamente acomodados, o garçom completou as nossas taças com um delicioso tinto da região; logo em seguida, eu comecei a contar que ultimamente vinha tendo muitas brigas com a minha namorada em razão do ciúme que atormentava o relacionamento. Os desentendimentos vinham escalando de tom e as discussões estavam cada vez mais desgastantes. Confessei estar cansado de me sentir assim.

Inferno astral

 

Naquele ano, o período no qual passo um mês no mosteiro para estudo e reflexão coincidiu com a chegada de um grande número de membros, fato que me obrigou a dividir um quarto com outro monge, como denominamos todos os iniciados na Ordem. Tínhamos, eu e ele, hábitos bem distintos, entre os quais os horários de dormir e acordar. Eu me deitava mais cedo e me levantava bem antes dele. Por mais que tivéssemos cuidado, luzes e ruídos nos incomodavam mutuamente, ora a um, ora outro, a depender das horas. Isto, aos poucos, foi criando um desgaste em nosso convívio. Paralelamente, na véspera da minha viagem para o mosteiro, eu tivera um grande entrevero com os sócios da minha empresa por não concordar com a maneira com que eles administravam os seus departamentos. Eu tinha chegado aborrecido às montanhas. Como se não bastasse, há poucos dias, eu discutira com a minha namorada, pelo telefone, por não gostar de uma postagem que ela havia feito em uma rede social. Até que certa noite, com dificuldades para dormir, me senti incomodado com o abajur da cabeceira do colega de quarto, aceso para o auxílio na leitura, além do barulho que ele fazia tanto para ir ao banheiro quanto para comer ou beber alguma coisa. Acabei por repreendê-lo de maneira rude. Tivemos um desagradável bate-boca, que escalou a altos tons, fazendo com que monges de outros quartos viessem intervir para que não chegássemos às vias de fato. No dia seguinte, após os ofícios da manhã, procurei pelo Velho, o monge mais antigo da Ordem, para conversar. Encontrei-o, distraído e feliz, podando as roseiras do jardim interno do mosteiro. Falei que estava em um mau momento e precisava conversar. Ele guardou o alicate no bolso da túnica de lã, me ofereceu um sorriso repleto de compaixão e disse: “Eu estava à sua espera. Foi bom você ter vindo”. Olhou para o céu e sugeriu: “Acho que logo começará a chover. Vamos conversar em minha sala”.

A vida não é curta

 

Era sábado à noite quando o ônibus estacionou na singela vila chinesa onde mora Li Tzu. Deixei a minha mochila na única estalagem do lugar e fui para a casa do mestre taoista. Como sempre, o portão estava aberto e a pouca iluminação era fornecida apenas por muitas velas espalhadas por todos os cantos, inclusive, no belo jardim de bonsais. Meia-noite, o gato preto que também morava lá, na espreita, desconfiado, me acompanhou o tempo todo com os olhos. Chamei pelo mestre algumas vezes, mas não obtive resposta. O silêncio apenas era quebrado por uma melodia alegre que vinha de longe. Achei que era deselegante esperar por ele em sua casa e, como eu estava sem sono, me deixei guiar pelo som animado. Atravessei algumas ruas sinuosas sempre tendo os meus tímpanos como bússola, até que cheguei a um sobrado de onde surgia a música. Subi os degraus de madeira da escada estreita e me deparei com uma espécie de baile aberto ao público. Surpreendi-me com Li Tzu dançando uma animada canção em companhia de uma bela moça. Em seguida, ele foi conversar com um grupo de amigos que pareciam felizes pela maneira como riam e se abraçavam. Estranhei o comportamento do pacato e silencioso mestre taoista.

Um pouco sobre máscaras, roteiros e sombras

Eu e Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos, tínhamos acabado de assistir a um filme no único cinema da pequena e charmosa cidade localizada no sopé da montanha que acolhe o mosteiro. Fomos para uma agradável livraria que abriga uma cafeteria na parte dos fundos em busca de boa prosa e café. A fita narrava a história de Dayse e Giovani, casal de namorados na faixa dos cinquenta anos de idade; ambos já tinham passado por outros relacionamentos. Ele era um tranquilo professor de matemática em uma escola do ensino médio, praticante de judo e dedicado aprendiz de roteirista. O seu sonho era contar ao mundo as histórias que o povoavam desde sempre. Passava boa parte das horas de folga aplicado em suas escritas. Ela era uma mulher alegre que vivia da generosa pensão deixada pelo marido falecido há muitos anos. Era uma pessoa caridosa, sempre atenciosa às necessidades alheias, que também gostava de passear com a amigas e se divertir. Para muitos formavam um casal perfeito. No entanto, tinham uma relação intermitente, de idas e vindas. A causa era sempre a mesma: ela, por vezes, se mostrava irritadiça e mal-humorada, seja com o pouco carinho que recebia do namorado, seja pela vida quieta que levava ao lado dele. Giovani, então, preferia se afastar na certeza de que ela não era a pessoa com a qual deveria compartilhar a sua vida afetiva. Passado alguns dias ou semanas, a namorada o procurava como se nada tivesse acontecido e o relacionamento era reatado, mais por comodidade do que por amor. Isto aconteceu várias vezes e sempre pelo mesmo motivo. Quando do último afastamento, embora não fosse uma separação declarada, ele tomara a decisão de não mais voltar, pois tinha a convicção que, apesar de a moça possuir muitas virtudes, não a amava.  Uma relação sustentada apenas por comodidade acabava por ser prejudicial a ambos. Entretanto, dessa vez, por acaso, tomara conhecimento de que ela estava envolvida com outra pessoa. De outro lado, Dayse soube, através de terceiros, de que Geovani tinha ciência do seu novo romance. Ela enviou uma mensagem de que a história não era exatamente como aparentava, desmentiu o novo romance, afirmou que Geovani ainda tinha lugar cativo em seu coração e voltou a um discurso, muito comum a ela, de transparência e fidelidade. Ela sempre lamentara que o seu casamento anterior fora muito afetado pelos contantes casos de infidelidade do marido falecido e, por isto, não tolerava tais situações. Segundo ela, este era o motivo pelo qual acabou levando-a também a ter relações extraconjugais durante o matrimônio. Mas o fato, agora revelado, era inegável. Embora tenha sentido ciúme, ele entendia o momento dela, respeitava o seu direito em tentar ser feliz ao lado de outra pessoa e pensava que, cedo ou tarde, o melhor seria também se envolver com alguém. O problema é que resolveu passar na casa de Dayse para devolver alguns pertences que estavam consigo e para dizer que poderiam ser bons amigos. Para a sua total surpresa, foi recebido com extrema agressividade, sendo alvo de acusações vagas e desconexas. A mulher alegou que tudo aquilo tinha acontecido por causa dele, que odiava a vida pouco movimentava que levava ao seu lado e, por fim, que sentia desprezo por ele e que se enganara quanto ao amor que sempre dissera sentir. Giovani passou dias sem entender a razão de tamanha reação. Até que decidiu escrever um roteiro sobre essa história, com a finalidade de contá-la para si mesmo, na tentativa de entender o fundo da questão. Ocorre que esse se torna o primeiro roteiro que ele consegue vender a uma produtora. Na sessão de estreia reencontra com Dayse no saguão do cinema; ela, feliz, está acompanhada do seu novo namorado; ele, feliz, pela realização de um sonho. A cena final é uma troca se sorrisos entre os dois, deixando ao expectador a conclusão que melhor aprouver.

A minha cidade

 

Naquele ano, quando entrei no mosteiro para mais um período de estudos, eu estava desiludido com a humanidade. Logo que encontrei com o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, ele me perguntou o motivo de eu estar abatido e com os ombros curvados. “Parece que carrega o peso do mundo nas costas”, comentou. Falei que andava desanimado diante tanto egoísmo e agressividade. Comentei que cogitava a possibilidade de mudar de cidade, pois aquela onde eu morava se mostrava inabitável. Acrescentei que era mal administrada, as pessoas só pensavam nelas mesmas e não mediam os meios de atingir os seus objetivos. O bom monge disse: “A violência sob qualquer aspecto é muito ruim. De outro lado, pensar em si mesmo é muito bom, desde que tenha o carinho de compartilhar o melhor que encontrar. Cada pessoa deve ser administrada como a uma cidade. Os sentimentos são como indivíduos; devem circulam livremente. Como nem sempre estão bem orientados ou têm moradia segura, devemos cuidar deles para que encontrem o devido lugar e a merecida tranquilidade. As reformas estruturais precisam de atenção constante para não impedir o progresso. Os becos escuros devem ser iluminados para que dali não surjam surpresas desagradáveis. As ideias, tais como cidadãos livres, muitas vezes entrarão em conflito e devem ser colocadas para dialogar até encontrarem a perfeita comunhão. Por fim, e não menos importante, os portões da cidade devem estar sempre abertos para quem quiser ou precisar entrar, mesmo que de início causem algum desconforto. Não podemos esquecer que são as dificuldades, quando tratadas com amor e sabedoria, que acabam por trazer as indispensáveis melhorias”.  Fez uma pequena pausa antes de prosseguir: “Uma cidade abandonada se torna imprestável”. Olhou-me nos olhos e falou: “Assim acontece conosco quando damos mais valor ao que existe fora do que dentro da gente. Cada qual mora na cidade que constrói dentro de si”.

Metades

 

A casa de Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom de transmitir a sabedoria ancestral do seu povo através da palavra, estava vazia quando entrei. Como o bule de café ainda estava quente, me servi de uma caneca e fui para a varanda. Uma simpática vizinha me informou que ele estava em uma escola próxima dali, ministrando uma animada palestra para uma turma de adolescentes. Quando entrei no auditório, uma jovem, de olhos perspicazes, perguntava a ele qual a razão da nossa existência. O xamã respondeu de pronto: “Evoluir, simplesmente evoluir”. A moça, longe de se dar por satisfeita com a resposta, indagou sobre o significado da evolução. Canção Estrelada arqueou os lábios em leve sorriso e disse: “Evoluir é ampliar o nível de consciência e expandir a capacidade de amar. O amor é o sentido da vida. No entanto, pelo seu enorme poder e complexidade, precisamos da sabedoria para nos orientar nessa conquista”. Deu uma pequena pausa e concluiu: “Embora o amor seja a nossa essência, conhecemos muito pouco sobre o amor”. A jovem insistiu em seus questionamentos e quis saber qual era a conquista a que o xamã se referia. Atencioso, ele respondeu: “Se o amor é a razão da vida e a essência de cada um de nós, a conquista a que me refiro é quanto à parte não revelada; ao outro que somos e desconhecemos”. Como todo bom contador de histórias, deu uma pausa dramática e disparou: “Metade de mim eu sei quem é, a outra parte ainda é um enigma”.

A arte de ajudar os outros

 

Eu e Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos, tínhamos acabado de almoçar em um dos nossos restaurantes preferidos na pequena e charmosa cidade localizada no sopé da montanha que abriga o mosteiro. Por saber que ainda conversaríamos por um bom tempo, o garçom, um velho conhecido, deixou um bule de café fresco em nossa mesa, quando fomos surpreendidos por Paola, uma sobrinha querida do artesão. Ela tinha entrado no restaurante apenas para tomar um café e divagar sobre algumas questões pessoais e ficou feliz em nos encontrar. Sentou-se conosco e disse que era bom estarmos ali, pois queria ouvir o que o tio pensava a respeito de algo que a chateava nos últimos meses. Fiz menção em deixá-los a sós, mas Paola, gentil, falou que não era necessário. Em seguida, contou que, como o tio já sabia, namorava com Giovani por quase quatro anos. O primeiro período tinha sido de muitas alegrias e descobertas, viagens e total sintonia. Com o passar do tempo tudo parecia desandar e os desentendimentos eram cada vez mais constantes.

Além do fim do túnel

 

Ao lado de Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos, buscávamos um restaurante que ainda servisse almoço no meio da tarde. Tinha chovido forte durante todo o dia. Aproveitamos a esteada para singrarmos as ruas estreitas e tortas da pequena e charmosa cidade localizada no sopé da montanha que acolhe o mosteiro. As pesadas nuvens deixavam o céu escuro e fizeram com que os lampiões se acendessem mais cedo do que de costume. Conversávamos de maneira alegre e vadia, como dois amigos que se sentem felizes pelo simples fato de estarem juntos, enquanto desviávamos das poças d’água formadas no calçamento contruído com pedras seculares. Ao entrarmos no restaurante nos deparamos com Carlo, um amigo em comum. Tomamos um susto. Nem de longe parecia aquele homem confiante, bonito e bem cuidado que estávamos acostumados a ver. Tínhamos nos encontrado há menos de um mês e ele aparentava estar muito bem. Naquele dia era o reverso da pessoa que conhecíamos. Carlo estava abatido, encurvado, sem viço, parecia um espectro de si mesmo.

Uma viagem entre o Tao e a Fé

 

Li Tzu, o mestre taoista, pediu para que eu chegasse cedo em sua casa. Quando saí da estalagem o céu era um manto salpicado de estrelas. Andei pelas ruas da vila chinesa encantado com a beleza oferecida pela Via Láctea, perdido em ilações quanto aos infinitos mundos existentes no universo. Encontrei Li Tzu finalizando a sua meditação diária. Ele estendeu dois tapetes para que eu o acompanhasse em seus exercícios de ioga. Meia-noite, o gato preto que também morava na casa, nos observava com um olhar preguiçoso. Claro que eu fiquei bem aquém das posições complexas conseguidas pelo sereno ancião chinês. Ao final, nos dirigimos para a cozinha e me sentei à mesa, enquanto ele nos servia um saboroso chá. Perguntei, para puxar assunto, se ele tinha o hábito de olhar para o céu e pensar em todo o mistério que envolve as estrelas. Ele me olhou com curiosidade, como seu eu lhe perguntasse o óbvio, e disse: “Entender o todo ajuda a saber quem sou; me conhecer faz com que eu sinta o poder do todo em mim”.

Um fiel carcereiro

Era domingo. Aproveitei a carona do caminhão que entregava leite no mosteiro e desci rumo à pequena e charmosa cidade localizada no sopé da montanha. Eu queria assistir à missa em sua bela catedral gótica, em frente à praça. O dia ainda amanhecia enquanto eu andava pelas ruas sinuosas calçadas com pedras seculares, ouvindo o barulho dos meus passos, tamanho era o silêncio, em busca de uma caneca de café para acordar os pensamentos. Arrisquei passar na oficina de Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos, onde os horários inusitados de funcionamento eram tão famosos quanto a boa prosa do seu proprietário. Sorri comigo mesmo ao ver a clássica bicicleta de Loureiro encostada no poste. Quando entrei na loja fiquei surpreso ao encontrar uma mulher sentada ao balcão, ao lado do artesão, entre café e lágrimas. Fiz menção em dar meia-volta, mas o sapateiro ofereceu um sorriso sincero quando me viu e convidou para sentar com eles. Fomos apresentados e Loureiro, sempre gentil, logo colocou uma xícara fumegante com café fresco nas minhas mãos. Nancy era uma pediatra muito requisitada e querida na cidade. Ela foi muito simpática e não se incomodou de eu participar da conversa. Apesar de ser uma mulher em idade madura e inteligente, sofria muito em seus relacionamentos afetivos. O ciúme a atormentava desde a adolescência quando começou a namorar.

O sal da terra

 

Encontrei o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, por acaso, do lado de fora dos muros do mosteiro. Ele voltava de um passeio na floresta localizada no arredor. Como havia chovido nos dias anteriores e o sol reaparecera, aquela manhã estava perfeita para a colheita dos cogumelos que germinam aos pés dos carvalhos. Provavelmente, à noite, teríamos a sua famosa sopa. Eu tinha saído para fumar um cigarro. Como sempre, o monge estava bem-humorado, no bom equilíbrio entre a alegria e a serenidade. Cumprimentou-me com um sorriso sincero, mostrou a cesta repleta de cogumelos e comentou que a colheita tinha sido proveitosa. Não teceu qualquer comentário a respeito do cigarro. Quando ele fez menção de prosseguir para atravessar os portões do mosteiro, eu comentei que voltara a fumar para não me suicidar. O Velho apenas comentou: “Trágico, não”? E seguiu. Logo adiante, deu uma pequena parada, se virou e disse: “Estarei na cantina”. Piscou um olho como quem conta um segredo e falou: “Ouvi dizer que um bom café é perfeito após o cigarro”. E tornou a seguir. Com os olhos acompanhei os seus passos lentos, porém, firmes, até desaparecer por entre os muros.

A carta de Paulo

 

Uma palestra proferida pelo Velho, como era carinhosamente chamado o monge mais antigo do mosteiro, para os demais membros da Ordem, tinha abordado sobre a indispensabilidade do amor como elemento essencial às demais virtudes, além da sua enorme força de transformação. Como era costume, ao final, iniciamos os debates. Frank pediu a palavra. Ele era um jovem membro da OEMM – Ordem Esotérica dos Monges da Montanha –, filho de um dos fundadores, já falecido. Apesar da pouca idade, mal completara trinta anos, tinha graduação em jornalismo, completara o mestrado e o doutorado em sua área de atuação profissional e possuía um discurso articulado e culto. Recentemente, em razão da crise econômica enfrentada pelo país em que morava, fora demitido de um grande jornal impresso, no qual respondia pelo caderno cultural. Frank argumentou ser prejudicial para uma pessoa o excesso de virtudes. Explicou que vivíamos em um mundo injusto, habitado por pessoas imperfeitas, gerando relações humanas complicadas e conflitantes. Acrescentou que para sobreviver na selva, como denominou a civilização contemporânea, era imprescindível uma boa dose de maldade.

A maratona

 

Eu estava de volta na pequena vila chinesa, encravada no Himalaia, próxima ao Butão. Queria estudar um pouco mais com Li Tzu, o mestre taoista. O ônibus tinha me deixado muito cedo na única estalagem local e como só haveria quartos disponíveis depois do meio-dia, deixei a minha mochila e segui para a casa de Li Tzu, na esperança de acompanhá-lo em um bom chá quente. O sol se apresentava em raios tímidos e quase não havia pessoas nas ruas. O portão da casa do mestre taoista nunca era trancado. Entrei sem fazer barulho. Senti o perfume do incenso e uma paz absoluta. Encontrei Li Tzu sobre um pequeno tapete, estendido no jardim de bonsais, fazendo complicados exercícios de ioga. Um gato preto, chamado Meia-noite, que também morava na casa, deitado ao lado, observava a tudo, preguiçosamente. Fui recebido com um sorriso sincero e sem cessar a sua prática, o mestre taoista disse para eu me servir de chá. Fui à cozinha; sobre o fogão havia um bule com uma mistura deliciosa de ervas e flores em infusão. Voltei com uma xícara cheia, me sentei ao seu lado e ofereci para tocar uma música no meu celular para acompanhar a ioga. Li Tzu disse: “Agradeço, mas aprecio a voz do silêncio. Já há muitos ruídos e barulhos durante o dia. Não quero perder essa iguaria que o amanhecer me permite”. Foi impossível não perceber as difíceis posturas de ioga executadas pelo mestre taoista, mormente em razão da sua idade. Ele tinha sido colega de faculdade do Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, em uma prestigiosa universidade inglesa, quando ambos eram jovens. Comentei isso enquanto, sentados à mesa, fazíamos o desjejum. Embora a alimentação de Li Tzu fosse frugal e o seu corpo, magro; as suas feições esbanjavam saúde, além de extrema serenidade. Acrescentei que, apesar de ser bem mais moço, eu não seria capaz de realizar nenhum daqueles exercícios. Ele me olhou como a uma criança e explicou: “O Tao nos ensina que tudo é possível. O Tao vem do céu e estamos sob o céu”.

A beleza de ser único

 

Canção Estrelada, o xamã que tinha dom de perpetuar a filosofia do seu povo através da palavra, cantada ou não, rufava o seu tambor de duas faces em melodia sentida enquanto o dia amanhecia. A música era uma oração de comunhão pela alegria de nos sentirmos parte essencial do universo e, em resposta, todo esse poder vibrava em nosso ser. Apagamos a fogueira e descemos a montanha. Quando chegamos à casa do xamã, um dos habitantes da aldeia o aguardava para pedir ajuda. Ele estava muito triste com o seu filho, sempre inseguro e medroso, bem diferente dos outros garotos da sua idade e do próprio pai. Lamentou que o menino tivesse nascido covarde. Canção Estrelada o convidou para sentar na varanda, nos serviu café, acendeu, sem pressa, o seu inseparável cachimbo com fornilho de pedra vermelha enquanto ouvia o pai explicar que o filho estava com treze anos e em breve teriam na aldeia o ritual de passagem para a vida adulta, o Cerimonial de Iniciação, cuja prova principal eram os combates corpo a corpo entre os garotos como demonstrações de coragem e habilidade. O xamã baforou o cachimbo e disse: “Ninguém nasce fraco; ser forte é uma escolha permitida a todos. No entanto, conhecer a própria força é a raiz da magia pessoal; perceber a dimensão e o poder do universo em si e diante de si alimenta a coragem, ensina sobre a humildade e transforma o ser. Traga-o aqui amanhã”.

Os seres-pássaro

 

 

Encontrei com o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, sentado na agradável varanda do mosteiro com o olhar perdido nas maravilhosas montanhas dos arredores. Ofereci uma xícara de café e ele aceitou com um sorriso. Quando coloquei a caneca na pequena mesa ao seu lado fui convidado para sentar. Ele quis saber se algo me preocupava. Neguei. O monge, então, me perguntou a razão dos meus olhos tristes. Era difícil esconder os sentimentos da percepção apurada do Velho. Acomodei-me na poltrona ao lado e contei que eu tinha começado a namorar uma mulher que ocupava um cargo importante na empresa com a qual a minha agência de publicidade tinha assinado um vultuoso contrato. Tínhamos nos conhecido durante as reuniões para o fechamento do negócio. O namoro evoluiu bem até que perdeu o encanto para mim sem nenhuma razão específica. Ela era uma mulher bonita, inteligente e meiga. Nossas conversas eram doces como os seus beijos. No entanto, algo havia esmorecido em meu coração. Quando encerrei o relacionamento ela acusou de ter me envolvido por interesse comercial ao invés de por sincera afeição. Eu estava triste porque não queria que ela tivesse aquela imagem de mim.

Aqui e agora

 

Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos, encheu as nossas canecas com café fresco para iniciarmos uma conversa vadia quando fomos surpreendidos por Zinedine, um simpático artista plástico local, que se dedicava a esculpir peças em bronze. Embora tivesse talento e sensibilidade, a maior parte das suas obras estavam inacabadas. Ora porque enquanto esculpia uma peça era tomado por outra ideia, que considerava melhor, e abandonava a anterior; noutras vezes largava o trabalho no meio por não o considerar suficientemente bom. O tempo parecia lhe passar com rapidez, esgotando a herança deixada pela família. Tinha grande urgência de que a arte passasse a ser também um ofício e fonte do seu sustento, fato que o deixava cada vez mais agoniado. Contou que acabara de chegar de uma viagem e, embora tivesse sido bem agradável, confessou que a partir de determinado momento sentiu saudades de casa. Ocorre que passados alguns dias do regresso, já tinha sido tomado por uma enorme vontade em tornar a viajar. Loureiro ofereceu a ele uma xícara de café e disse: “Viajar pode ter um efeito parecido a renovar o guarda-roupa da alma ao nos depararmos com outras culturas: maneiras diferentes de ser na vida e estar no mundo. Isto amplia as possibilidades e indica rumos nunca antes imaginados, o que é maravilhoso. Como somente sentimos saudades do que é bom, revela que em casa introduzimos ao cotidiano os hábitos que nos agradam e alegram. Se ao estar fora, depois de um determinado momento, você não sente falta da sua casa e rotina, revela que há algo de errado em suas escolhas ou que ainda não sabe onde é a sua casa nem entendeu a rotina que deve construir para si. A viagem tem o poder de nos revelar o caminho de casa”, deu uma pequena pausa antes de concluir: “Em todos os sentidos”.

A barganha

 

Era um domingo de primavera, eu e o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, tínhamos ido à pequena e charmosa cidade que fica ao sopé da montanha que acolhe o mosteiro para assistir à missa. Não raro, o Velho era convidado pelo pároco local, seu amigo pessoal, a falar sobre algum assunto. Perguntei sobre qual tema dissertaria naquela manhã, ele me respondeu que ainda não sabia. Como tínhamos chegado cedo, aguardávamos sentados em um enorme banco de madeira na praça em frente à igreja aproveitando o sol que nos aquecia, enquanto as crianças, levadas pelos pais, corriam em alegre algazarra. Dois homens pediram licença de maneira educada e dividiram o banco conosco. Logo, começaram a conversar entre eles. Percebi que o Velho, disfarçadamente, prestava atenção à conversa e o repreendi com um olhar severo. Ele riu com jeito maroto e continuou. Acabou que também comecei a prestar atenção ao papo dos dois. Um deles confessou ao outro de que os negócios não iam bem. Nem de longe andavam como no passado. Sério, disse que tinha feito uma aposta na loteria cujo prêmio estava acumulado em muitos milhões e, se fosse o ganhador, jurou que adotaria uma criança. Acrescentou que os seus filhos já estavam encaminhados na vida e talvez fosse a hora de dar esse passo. No entanto, somente o faria com a devida tranquilidade financeira. O colega concordou e lembrou dos altos custos em criar uma criança. Falou que também tinha apostado naquela extração da loteria. Se o premiado fosse ele, não chegaria ao ponto da adoção, mas também jurou fazer um vultuoso aporte econômico em prol de alguma instituição filantrópica. Logo os sinos começaram a chamar para a missa e a grande maioria das pessoas que estavam na praça se dirigiram para a igreja.

Pequenas grandes coisas

 

Acordei antes do sol e fui até a varanda da casa de Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom de semear a sabedoria do seu povo através da palavra e da música, onde eu estava hospedado. Ele estava sentado em uma cadeira de balanço e tinha os olhos fixos no Leste, “a casa da águia”, como costumava falar, à espera do amanhecer. Me serviu uma xícara de café e continuou a colocar fumo no fornilho de pedra vermelha do seu indefectível cachimbo. Baforou algumas vezes e, em seguida, pegou o seu tambor de duas faces para entoar uma sentida canção no dialeto nativo que, em tradução não-literal, significa “Os ciclos da vida”, na qual agradece ao Grande Espírito as infinitas oportunidades oferecidas a cada dia para se renovar e prosseguir na Longa Estrada Dourada. Não muito tempo depois, ainda envolvidos em nossas preces e reflexões, fomos interrompidos pela irmã do xamã, acompanhada por seu filho caçula, que acabara de entrar na vida adulta. Ela veio pedir que o irmão aconselhasse o jovem, que embora muito inteligente, andava desinteressado pelos afazeres simples do cotidiano por se considerar predestinado a realizar algo grandioso. Isto também o tornara relapso no trato com os outros, pois, no seu entendimento, as pessoas não eram capazes de compreender a sua enorme capacidade e o seu brilhante destino. Canção Estrelada apenas fechou os olhos e balançou de leve a cabeça como maneira de dizer que entendia e estava disposto a atender ao pedido. A irmã sorriu em agradecimento e se retirou. Eu quis saber se também deveria sair, mas ele fez um gesto com a mão de que não era necessário. O xamã fechou os olhos e se manteve em silêncio. Impaciente, o jovem não parava de se mexer na cadeira, até que disse que aquilo era pura perda de tempo. Canção Estrelada olhou o sobrinho com doçura e começou a contar uma história:

Encontro marcado

 

O Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, me repreendeu apenas com o olhar, sem dizer palavra. Eu estava no jardim interno do mosteiro falando ao celular, quando apenas é permitido usá-lo à noite, no quarto, para não desperdiçarmos o melhor da vivência oferecida no mosteiro. A OEMM – Ordem Esotérica dos Monges da Montanha – é uma irmandade secular dedicada ao estudo da filosofia e da metafísica. Os monges e aprendizes, como são denominados os seus membros, têm o compromisso de passar ao menos um mês por ano no mosteiro para estudos, debates e reflexões. Após, retornam às suas casas, famílias, trabalhos e atividades rotineiras tentando aplicar o aprendizado assimilado. O conhecimento apenas se transforma em sabedoria quando utilizado em nossos relacionamentos no dia a dia; caso contrário, não passará de uma ferramenta enferrujada por inutilidade. Encerrei a ligação e fui me desculpar com o monge. Expliquei que estava prestes a fechar um importante contrato para a minha agência e precisava tomar algumas precauções. Confessei a tensão que me envolvia, pois temia ser passado para trás, como ocorrera em outra ocasião, embora envolvessem diferentes pessoas. O Velho apenas ouviu as minhas explicações e nada falou.

Como se não bastasse, eu andava disperso naqueles dias. Outro motivo de preocupação era o ciúme que sentia da minha nova namorada. Ela era uma atriz de teatro e estava em cartaz com uma peça de grande sucesso. Muitas pessoas a procuravam para cumprimentar e conversar, fato que me causava insegurança, agravada pela sua beleza, simpatia e talento. Contei tudo isso ao Velho quando fui convidado para uma conversa na varanda do mosteiro, emoldurada pelas belas montanhas que o acolhem. A minha falta de concentração acabaria por desperdiçar a estadia daquele ano, caso eu não revertesse a situação. Acabei por tornar ao assunto da ligação do dia anterior na tentativa de justificar o distanciamento. O Velho ouviu todas as minhas queixas com paciência e, ao final, citou uma passagem do Sermão da Montanha: “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a face de Deus”. Em seguida comentou: “Percebe que a ausência de uma única virtude, no caso me refiro à pureza, tem o poder de anular todas as demais virtudes e furtar a sua paz?”.

Uma delicada virtude

 

Os fortes ventos do final do outono anunciavam a chegada do inverno e assolavam a pequena e charmosa cidade que fica no sopé da montanha que acolhe o mosteiro. Eu caminhava por suas ruas sinuosas tentando me proteger do frio, quando avistei a clássica bicicleta de Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos, encostada no poste em frente ao atelier. Fui recebido com alegria e uma caneca de café. Sentados ao antigo balcão de madeira, íamos começar uma conversa vadia quando um sobrinho do artesão entrou na oficina em busca de abrigo e prosa. O jovem realizara uma audiência em seu tumultuado processo de divórcio no singelo fórum da cidade e o trem que o levaria de volta para a cidade, onde agora morava, apenas partiria ao anoitecer. Ele estava bastante chateado e logo começou a desabafar com o tio sobre a enorme aporrinhação que o divórcio lhe causava. Tudo por causa da separação de bens. Explicou que a ex-mulher se negava a reconhecer os seus direitos e a entregar o que era seu por justiça. Disse que a lei era clara e definia o que pertencia a cada um. O artesão interrompeu com um sutil comentário: “A lei pode ser clara, a justiça nem tanto”.

As maravilhas da dúvida

 

“Qual é a coisa certa?”, me perguntou o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, como fazia Sócrates, o filósofo grego, que devolvia uma pergunta com outra como método de raciocínio. Estávamos sentados na cantina do mosteiro diante de uma caneca de café e um pedaço de bolo de aveia. Desde sempre eu me sentia desconfortável com uma série de dilemas do cotidiano. De questões políticas e sociais que, de alguma maneira, atingem a todos até incertezas quanto à minha vida pessoal, como trocar de namorada, trabalho, cidade ou estilo de vida. Argumentei que a todo instante nos deparamos com dúvidas que nos incomodam em diferentes escalas, algumas são banais, outras muito sérias. O ruim é que as dúvidas causam enorme desconforto. Para piorar, em face das minhas incertezas eu me deparava com pessoas de opiniões divergentes, contra ou a favor, ambas convictas de suas posições e apresentando fortes argumentos. Falei que queria me livrar do incômodo da dúvida e saber sempre a coisa certa a fazer. Então, veio a pergunta do Velho sobre qual era a coisa certa. Respondi que se eu perguntei era porque não sabia e precisava de uma resposta. O monge bebeu um gole de café e disse: “A minha resposta desenha a minha verdade, não necessariamente a sua. É necessário que você se esforce para encontrar aquela que irá lhe completar, por isto o desconforto. Bendita seja a dúvida!”.

O esconderijo do mal

 

Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom de transmitir a sabedoria ancestral do seu povo através das músicas e das histórias que contava, acendeu o fornilho de pedra vermelha do seu indefectível cachimbo e deu uma baforada. Era um final de tarde de outono, estávamos sentados na varanda da sua casa e nos cobríamos com mantas coloridas para afastar o frio típico das montanhas do Arizona nessa época do ano. Eu tinha acabado de chegar de viagem e a primeira coisa que o xamã me perguntou, logo após aos cumprimentos, foi o motivo pelo qual eu “parecia carregar tanto peso nas costas”. Sim, era verdade, eu estava mal. Dei um sorriso amarelo como quem é visto sem as roupas do personagem que criamos para interpretar quem não somos nos palcos da vida e declarei que o mundo não era um bom lugar para se viver. Em seguida narrei alguns problemas que enfrentava em razão do posicionamento absurdo de algumas pessoas contrários aos meus. Sentenciei que, sem dúvida, o planeta é habitado por gente atrasada, insensível e ruim.

Assim nascem as asas

 

Chovia muito e eu apressei o passo. Me alegrei assim que dobrei a esquina da rua estreita e sinuosa onde se localiza a oficina de Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos. Vi a sua clássica bicicleta encostada ao poste. Ao entrar na loja uma profusão de perfumes, cheiros de couro e café fresco se misturavam ao de flores. Foi uma grata surpresa encontrar Valentina sentada ao balcão. Ela tinha acabado de chegar. Embora também fosse monja da Ordem, nem sempre nos encontrávamos no mosteiro, uma vez que o compromisso assumido por todos os integrantes da irmandade é o de passar um mês ao ano para estudos, debates e reflexão. Nossas datas andaram desencontradas nos últimos tempos. Valentina tinha a poesia como arte, a engenharia como ofício. Eu a considerava uma poetisa singular, expoente da sua geração. Fui recebido com alegria por ambos. Logo estava sentado com uma caneca fumegante à minha frente. Perguntei pelo próximo livro e ela contou que terminava uma coletânea de poemas sobre o amor. Falou que pensava em dividir a obra em duas partes; em uma abordaria as mágoas provocadas pelo amor, enquanto a outra mostraria o poder encantador do amor. Comentei que a dor era a parte podre do amor. Ela concordou, quando fomos interrompidos pelo sapateiro: “Vocês entendem muito pouco sobre o amor.”

A porta estreita

O Sermão da Montanha é o eixo central dos estudos da Ordem, todos os demais textos, oriundos das mais diversas tradições filosóficas e metafísicas, são variantes a aprofundar e colorir esse valioso pensamento. Eu estava sentado em uma confortável poltrona na biblioteca do mosteiro, com o olhar perdido na bela paisagem oferecida por suas janelas, refletindo sobre as palavras proferidas nas colinas de Kurun Hattin, quando fui surpreendido pelo Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem. Ele trouxe da cantina duas canecas com café, colocou uma delas na pequena mesa ao meu lado e foi escolher um livro nas prateleiras. Sorri em agradecimento à gentileza e o convidei para sentar na poltrona à minha frente. Aproveitaria que estávamos a sós para conversarmos um pouco. Ele aceitou, se acomodou, bebeu um gole de café e quis saber o que eu estava lendo. Respondi que lia esse precioso legado filosófico, mais precisamente a parte em que falava sobre a porta estreita. ‘Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçosa é a estrada que conduz à perdição e numerosos são os que por aí entram. Estreita, porém, é a porta e difícil o caminho da vida e raro são os que o encontram’, li o pequeníssimo trecho. Comentei que o texto poderia ser um pouco mais extenso para fornecer mais detalhes e explicações quanto ao seu conteúdo. O Velho balançou a cabeça e disse: “O texto está perfeito em sua concisão. Lembre que ele foi elaborado não para alguns, mas para todos. É preciso que, ao seu modo, atinja os mais diversos níveis de consciência. Cada qual encontrará a profundidade a que estiver disposto a mergulhar. O Sermão da Montanha é o Código do Caminho, porém respeito quem o veja como uma grande bobagem”.

A lei da ação e reação

Eu tinha ido encontrar o Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos, em uma agradável taberna próxima à sua oficina. Logo após o garçom encher as nossas taças foi inevitável não desviarmos a atenção para a mesa ao lado. Um casal começou a discutir um pouco acima do tom até que a moça se levantou, disse ao rapaz que “tudo é ação e reação” e foi embora. Ficamos alguns minutos em silêncio até que o artesão comentou displicente: “As leis da vida são inexoráveis”. Eu o corrigi, acrescentando que a Lei da Ação e Reação era uma lei da Física, mais precisamente uma das três Leis de Newton, renomado físico inglês. Com ar professoral expliquei que para toda ação existe uma reação de igual intensidade e sentido contrário. Loureiro me olhou com doçura como quem está diante de uma criança exibida e disse: “Exato. Por ser uma lei da Física trata-se de uma lei do Universo; logo uma lei da vida, que atinge não apenas coisas e objetos, mas os relacionamentos e define o destino próximo de cada pessoa. Como uma sábia e amorosa bordadeira, o Universo tece a teia da vida de todos nós usando as leis como trama para que não reste nenhum fio solto”. Fiquei alguns instantes refletindo sobre aquelas palavras até que me dei por vencido e confessei que não tinha entendido todo o sentido do raciocínio.

O campo de batalha

O céu tinha amanhecido azul após dias cinzentos de muita chuva. Todos pareciam alegres no mosteiro, menos eu. Um dilema pessoal me corroía e furtava a minha paz. Sentado na cantina divagava a minha dúvida diante de uma xícara de café e um pedaço de bolo de aveia quando tive os pensamentos interrompidos pelo Velho, como chamávamos o monge mais antigo da Ordem. Ele me convidou para ajudá-lo a colher cogumelos na floresta no arredor do mosteiro. Explicou que o sol forte após os dias chuvosos era perfeito para a germinação dessas iguarias aos pés dos carvalhos da montanha. Acrescentou que pretendia fazer a sua famosa sopa de cogumelos no jantar. Logo que entramos em uma trilha o monge disse perceber a minha agonia e perguntou qual era o motivo. Expliquei que um grande amigo tinha me convidado para acompanhá-lo durante as férias em um acampamento de refugiados na África. Ele fazia parte de uma organização internacional de médicos que prestava atendimento em várias regiões do planeta onde havia carência de cuidados pela manutenção da vida. O Velho se virou para mim enquanto andava com seus passos lentos, porém firmes, e disse: “É um serviço maravilhoso e indispensável prestado por esses homens e mulheres, médicos ou não, no esforço de levar um pouco de conforto e muita cura em lugares onde há ausência de condições básicas de sobrevivência. Eu estive em um desses acampamentos anos atrás, durante uma insensata guerra local e me confesso encantado com a compaixão, a misericórdia e a generosidade depositada em forma de amor incondicional. Apesar de tanta dor e sofrimento, você entende a grandeza da vida e as maravilhas da superação no esforço de fazer diferente e melhor”.

Os tons da prudência

Quando dobrei a esquina para entrar na estreita rua onde se localizava a oficina de Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos, me alegrei ao avistar a sua clássica bicicleta encostada no poste. Era cedo, o sol acabara de surgir para evaporar o sereno que umedece o calçamento de pedras em agradável sensação de andar por entre as brumas. Fui à oficina em busca de café e um pouco de prosa vadia. Ao entrar me deparei com outros amigos do artesão. Sentados, enquanto Loureiro lhes enchia as xícaras, eles estavam reunidos em uma espécie de assembleia informal. O sapateiro me recebeu com a alegria habitual, me acomodou sentado sobre uma caixa de madeira e logo me entregou uma caneca fumegante para afastar o frio da manhã e acordar as ideias. Aqueles homens tinham entre si uma amizade que os unia há muito tempo. Ele me explicou que a turma teve mais um integrante, René, o dono da mais tradicional banca de revistas da cidade, falecido há pouco. Em frente à banca, todos os dias, bem cedo, esses amigos se reuniram durante anos para conversar sobre qualquer assunto enquanto aguardavam o jornal do dia chegar. Era um ritual que fazia parte da história de todos eles. O filho do jornaleiro tinha assumido o negócio, ainda durante o tratamento do pai, mas agora, em razão de uma dívida, o distribuidor se negava a entregar novos jornais e revistas. Sem renovar o material para trabalhar a banca estava prestes a fechar. O filho os procurara em busca de dinheiro emprestado para quitar o débito e evitar que o tradicional negócio cerrasse as portas. O problema é que o filho, que morara fora por muito tempo, não tinha boa fama na cidade.

De volta para a casa

Quando virei a esquina e não vi a clássica bicicleta de Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos, encostada no poste em frente à sua oficina, pensei que não estava com sorte naquele dia. Os horários improváveis e inusitados de funcionamento da sapataria já tinham virado lenda na pequena e charmosa cidade que fica ao sopé da montanha que acolhe o mosteiro. Eu estava triste. Desde sempre, o meu relacionamento com a minha mãe tinha sido complicado, como se amor e mágoa se alternassem no palco da vida, gerando memórias que acabavam por atrapalhar os dias a serem vividos. Tínhamos tido mais uma discussão e eu queria encontrar com o bom artesão. Eu precisava falar para lembrar o que já sabia e ouvir para aprender o que ainda não sabia. Era a hora do almoço e decidi ir a uma agradável cantina perto dali. Como se o acaso existisse, quando entro no restaurante me deparo com o sapateiro sentado à mesa com uma mulher mais jovem que ele. Eu não a conhecia. Quando me aproximei percebi que eles estavam de mãos dadas e tinham as faces molhadas em lágrimas. Recuei, mas ele me viu, abriu um sincero sorriso e me chamou. Me presenteou com um forte abraço e me apresentou a moça. Era a sua filha mais nova. Ela tinha saído muito cedo de casa, após muitas brigas com o pai, abandonara a universidade sem a devida conclusão e ficara anos sem dar notícias. Eu conhecia a história e sabia que Loureiro a procurara por muito tempo sem sucesso. Ela acabara de voltar. A alegria pelo reencontro transbordava em ambos.

A estação

Na pequena e charmosa cidade que fica no sopé da montanha que acolhe o mosteiro há uma secular estação de trem. Estávamos, eu e o Loureiro, o elegante sapateiro amante dos vinhos e dos livros, sentados em um antigo banco de madeira à espera de sua sobrinha, que a pedido da mãe, uma das irmãs do artesão, passaria alguns dias com o tio, na tentativa de ajudá-la a dissolver a angústia que a abatia. Era muito cedo e o sol ainda não ganhara força para afastar o frio da madrugada. Percebi que ele estava encantado com todo aquele movimento de chegadas e partidas, típico de qualquer estação. Antes que eu lhe indagasse sobre o assunto, surgiu a sua sobrinha. Era uma moça na casa dos trinta anos. Muito bonita, porém, bastante abatida. Eles trocaram um abraço forte, como fazem os que se amam ao se encontrarem. Fomos apresentados e ela foi muito gentil. A jovem disse que precisava de um café, pois não conseguira dormir bem no vagão. Fomos a uma cafeteria ali mesmo. Quando a simpática garçonete colocou sobre a mesa as canecas fumegantes acompanhadas de pão quente com o delicioso queijo da região, a sobrinha abriu o coração. Lamentou que a vida tinha virado ao avesso.

Beleza oculta

Pelas manhãs era comum encontrar o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, no jardim do pátio interno do mosteiro, cuidando das plantas. Tinha predileção pelas rosas, às quais ele dedicava horas a fio. Sempre que possível, eu gostava de acompanhá-lo, não pelo gosto à jardinagem, mas pelas conversas proporcionadas. Nesse dia, ele foi procurado por uma jovem. A moça se declarou desencantada pela vida. Tudo lhe parecia sem graça, os dias eram cinzentos e as pessoas desprovidas de encanto. Confessou que a alegria a irritava por parecer idiotice. Os dias não passavam de uma sucessão de erros e frustrações. Não existia razão para sorrir. Ao final dos seus lamentos perguntou se o Velho era feliz. O monge que a tudo ouviu com paciência e atenção enquanto cuidava do jardim, mostrou na palma da mão uma pequena lagarta que tinha tirado das flores, guardou-a no bolso da túnica para depois soltá-la na floresta e disse: “Sempre haverá motivos para sorrir; a alegria é uma semente possível de germinar até mesmo no deserto. A alegria é uma escolha da sabedoria e do amor”.

A moça interrompeu para dizer que tudo era muito poético e pouco prático. Não fazia sentido a alegria ser uma escolha. Muito menos ligada à sabedoria e ao amor. O Velho explicou: “O sofrimento é uma escolha. A alegria é a alternativa”. A jovem se irritou. Acusou a insensibilidade do monge em relação aos problemas alheios, alguns muito sérios. O Velho, sem perder a serenidade prosseguiu: “O problema nunca será o verdadeiro problema. O problema é a maneira como cada um escolhe enfrentar as inevitáveis adversidades. Você pode percebê-lo como uma barreira intransponível e restar frustrada. Então, você tem um problema. Porém, pode entender que ali reside uma lição para aprendizado e superação. Nesse caso, você está diante de um mestre. A cada curva podemos estagnar ou evoluir. A decisão é pessoal; cada qual viaja sob condições próprias, como herdeiro de suas escolhas”.

A ânfora da humildade

Eu estava de volta ao Himalaia. Era uma promessa que tinha feito a mim mesmo, retornar uma vez por ano à vila chinesa, próxima ao Tibete, para estudar o Tao com Li Tzu. A única hospedaria que havia no lugar estava sempre lotada de alunos de todas as partes do mundo, sedentos por conhecer um pouco mais sobre o milenar Tao Te Ching, o Livro do Caminho e da Virtude. As reservas, na prática, eram de pouca utilidade e não garantiam a vaga. As reclamações quase nunca surtiam efeito, pois a anciã responsável pela pousada respondia, sempre sorrindo, em inglês ou mandarim, de acordo com a conveniência dela em se fazer entender. No pequeno espaço que servia como recepção, eu disputava com um homem enorme, com mais de dois metros de altura, forte como um halterofilista, quem ficaria com o último quarto vago. Ambos tínhamos reserva, a minha era anterior a dele, mas ele chegara à hospedaria minutos antes de mim. Discutíamos, cada qual com suas razões e argumentos, diante da anciã que parecia se divertir, uma vez que não parava de sorrir, embora o tom da discussão aumentasse a cada palavra proferida. Até que ele pegou a chave do quarto das mãos dela e disse que a questão estava resolvida: ele ficaria com o quarto, salvo se eu fosse capaz de tomar a chave dele. Repleto de raiva, não reagi. A diferença de força física anunciava uma grande surra, caso eu aceitasse jogar pelas regras do meu oponente. Pedi à anciã que tomasse uma atitude contra aquela arbitrariedade. Ela apenas deu ombros e respondeu, em seu idioma, algo que interpretei como “nada posso fazer”. Claro, sem abandonar o sorriso. Como se não bastasse, e com efeito devastador para mim, ainda ouvi uma série de provocações e piadas desagradáveis por parte do meu desafeto enquanto me retirava da hospedaria.

Fui ao encontro de Li Tzu e narrei todo o ocorrido. Em resposta, o mestre taoista me convidou a tomar chá com ele. Fechei os olhos para controlar a ira e apenas concordei com a cabeça. Fomos à cozinha e, sem nenhuma pressa, ele foi misturando várias folhas desidratadas em um coador para depois deixá-las em infusão por alguns minutos. Tudo sem dizer palavra. Bastante irritado, perguntei se ele não iria comentar sobre o que eu tinha contado. Li Tzu respondeu: “Por ora, o silêncio. Ele permite que você ouça o seu coração. Será sempre o melhor mestre”. Depois encheu as duas xícaras e as colocou sobre a mesa de madeira rústica. Então, falou: “Você perdeu a batalha”. Questionei se ele me aconselhava a reagir de maneira violenta e lutar pela chave do quarto. Ele balançou a cabeça em negativa e disse: “Claro que não. A sua derrota foi decretada quando se permitiu sentir raiva. A sombra foi mais forte do que a luz”.

A flor da simplicidade

Estávamos eu e o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, em uma prestigiosa universidade para um ciclo de palestras sobre as várias faces da inteligência: cognitiva, emocional, artística e espiritual. Falariam cientistas, professores, psicanalistas, filósofos e artistas. No intervalo, logo após a fala de um famoso intelectual, fomos tomar um café. O outono oferecia um clima agradável e as mesas do lado de fora da cafeteria permitiam uma deliciosa integração com o campus arborizado. O sol nos acariciava por entre as folhas. Comentei com o monge que não tinha gostado desse último palestrante. Na verdade, acrescentei, achei o discurso desnecessariamente rebuscado, pomposo, repleto de palavras não usadas no dia a dia e, pior, confuso. O Velho bebeu um gole de café e disse: “As águas precisam ser turvas para que não percebam que são rasas”. Pedi para que explicasse melhor. Ele foi didático: “Quem deseja o entendimento de uma ideia se expressa de maneira clara, salvo se o fruto ainda não está devidamente maduro para ser colhido da árvore. Alguns confundem hermetismo com sofisticação. A verdadeira sofisticação reside na simplicidade; consiste em tornar simples uma ideia elaborada ou difícil. A sabedoria é simples; a simplicidade é uma virtude poderosa e rara, indispensável a todas as demais virtudes”.

O mundo é o espelho da sua alma

A angústia me dominava quando entrei na biblioteca do mosteiro em busca de alguma leitura que aliviasse a aflição da minha alma. Sentado em uma confortável poltrona, com um livro repousado no colo, o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, olhava para as montanhas através de uma das janelas, quando teve a sua atenção desviada para mim. Ao perceber pelo meu semblante a desordem interna que imperava, franziu as sobrancelhas como maneira de perguntar o que havia acontecido. Reclamei do descaso das pessoas no trato pessoal, de como eram insensíveis, materialistas e individualistas. Relatei várias situações para exemplificar a razão do meu sentimento. Falei de como esse comportamento provocava tragédias desnecessárias. Eu me sentia abandonado e deslocado. Definitivamente, concluí, a humanidade estava perdida e o mundo não era um bom lugar para se viver. O monge sorriu, como quem se diverte com uma criança que reclama que não ganhou um doce, se levantou e guardou o livro na estante apropriada, foi até outra prateleira em busca de um título diferente. Procurou por algo em suas páginas por breves instantes, guardou-o no bolso da túnica, segurou meu braço e me encaminhou para fora da biblioteca. Depois falou: “Vamos conversar no refeitório; preciso de uma xicara de chá bem quente”. Alguns minutos depois, diante de duas canecas fumegantes, ele iniciou a conversa: “Se você está bem consigo estará bem com o mundo. O olhar que cada qual tem sobre si mesmo será a lente pela qual enxergará a vida. Isto definirá a clareza, as cores e a extensão do universo que é o mesmo para todos, mas diferente para cada um de nós. O mundo, feio ou bonito, será sempre o espelho da sua alma”.

Amar é uma arte de muitas virtudes

Eu acompanhava o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, em um ciclo de palestras que ele ministrava, quando recebi o convite para a festa de aniversário de oitenta anos de um parente muito querido. Seria na cidade em que eu morava e estávamos em outra bem próxima. Convidei o Velho para ir comigo; ele aceitou de imediato. Confessei a minha contrariedade em encontrar alguns parentes com os quais restara rusgas do passado. Falei que na festa encontraria com um primo, que foi um dos meus melhores amigos na adolescência, mas que em determinado momento nos desentendemos e brigamos. Eu não lhe dirigia a palavra há anos. Pedi para que ele não estranhasse. O Velho comentou: “As cerimônias, sejam pessoais, familiares, profissionais ou religiosas são importantes rituais, não apenas de celebração da vida, mas de aproximação, não somente entre iguais, aqueles que vibram na mesma sintonia energética, porém, e tão importante quanto, é a chance de encontro entre aqueles que possuem divergências que necessitam ser pacificadas. A diferença no olhar nunca deve ser motivo para o distanciamento do coração. São as flores do respeito, da compaixão, da humildade, da paciência e da coragem indispensáveis no jardim do amor. Para amar não basta o bem-querer. O amor é uma arte de muitas virtudes”.

O ser inteiro

Tinha feito calor o dia inteiro. A brisa que descia das montanhas tornava o final da tarde bastante agradável no mosteiro. Encontrei o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, sentado em uma confortável poltrona situada em uma das varandas que permite uma belíssima vista dos vales que se avizinham abaixo de nossa sede. Pedi para sentar ao seu lado e ele concordou com um movimento de cabeça. Por me conhecer há algum tempo, foi direto ao ponto: “O que lhe aflige”? Expliquei que muitas vezes, mesmo na certeza de tomar a decisão correta, algum desconforto se instalava em mim, o que era uma contradição. Ele pediu para que eu fosse mais específico e acrescentou: “Vamos ao caso concreto. Assim, ao entender a parte poderemos ter uma melhor ideia do todo”.

O jardim das virtudes

O tambor de duas faces rufava compassado ao toque de Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom de perpetuar a sabedoria ancestral do seu povo através da palavra. Pedi autorização para me sentar na manta colorida estendida na sua frente, do outro lado da fogueira. Sem abrir os olhos, ele apenas sorriu e balançou a cabeça de modo sutil. Enquanto eu me acomodava, o xamã começou a cantar uma música em seu dialeto nativo, que eu não entendia, mas pelo ritmo, percebia o seu tom sentido, de puro agradecimento, por estar ali, em comunhão com a Mãe-Terra, naquela noite sem lua, com o céu salpicado de estrelas. Quando ele silenciou a melodia, falei que precisava conversar. Contei que estava muito chateado. Eu tinha tido uma discussão com um dos meus melhores amigos. Ele teve um comportamento bastante desrespeitoso comigo em uma determinada situação. Estávamos sem nos falar já há algum tempo. Canção Estrelada acendeu o seu cachimbo com o fornilho de pedra vermelha, sem pressa, como se a noite não tivesse fim. Depois de duas tragadas, me convidou para fumar com ele e não disse palavra.

No dia seguinte me chamou para acompanhá-lo até uma pequena cidade próxima, perto da sua casa, nas montanhas do Arizona, para algumas compras. Fomos em sua caminhonete. No trajeto, aproveitei para tornar a tocar no assunto da briga com o meu amigo. Narrei os detalhes e fundamentei os motivos da minha decepção. Canção Estrelada quis saber a razão de eu não procurar esse amigo para uma conversa que, talvez, tivesse o poder de reatar laços valiosos: “Se a lembrança dele toda hora lhe vem ao coração é porque um bom fruto restou”, acrescentou. Respondi que ele era quem estava errado, logo, cabia a ele me procurar. Era uma questão de respeito. O xamã ficou com os olhos tristes e silenciou a voz.

O tamanho de um sonho

Era uma manhã de primavera, o sol equilibrava a brisa gelada da montanha e trazia uma agradável sensação térmica. Eu estava na frente do mosteiro apertando os parafusos das dobradiças do enorme portão principal, quando tive a atenção desviada para um carro luxuoso que estacionou no pátio externo. De dentro dele desceu um anão. Logo o reconheci como um famoso comediante em programas de TV. Sem dúvida, era um ator talentoso que nunca usou a sua altura como subterfúgio para nenhuma piada. Seu humor era fino e inteligente. Nos últimos anos comandava um talk-show de grande audiência. Ele se dirigiu a mim de maneira educada e pediu para falar com o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem. Enquanto seguíamos para o refeitório, onde o Velho gostava de conversar com as visitas, quase sempre ao redor de uma mesa com bolos, biscoitos, queijos e café, deixando-os à vontade como se estivessem em casa, o homem confidenciou que estivera ali uma vez, há quase duas décadas, quando ainda era uma aspirante aos palcos, e aquele dia tinha sido angular em sua vida.

O Velho ofereceu um belo sorriso quando o viu. O ator perguntou se o monge se recordava dele e o Velho aquiesceu com a cabeça. Eu trouxe canecas fumegantes de café e fui convidado a me sentar com eles. Em seguida, o visitante falou que retornara ao mosteiro para agradecer. Confessou que quando estivera ali, naquela tarde que parecia distante, estava preste a desistir da carreira, face às enormes dificuldades que encontrava. Porém, a conversa com o monge o enchera de coragem para prosseguir e enfrentar todas as adversidades. O Velho tornou a sorrir e disse: “A coragem não foi minha, mas sua. Ninguém pode lhe dar o que já é seu. Ela estava adormecida, eu apenas a despertei para luta. A batalha você travou sozinho. Dominou o medo, transformou as incertezas, enfrentou o preconceito em relação à sua estatura física, que eram muitos e bastante agressivos, com paciência, trabalho e arte. Mostrou ao mundo que o importante não é o tamanho de uma pessoa, mas a dimensão do seu sonho”.

O passado é um veneno

Loureiro, o elegante sapateiro amante dos vinhos e dos livros, fechou a oficina ao meio-dia e andávamos pelas ruas estreitas e sinuosas da secular cidadezinha localizada no sopé da montanha que abriga o mosteiro. Era um sábado típico de outono, com o céu claro, sem névoas e o sol aquecia a pele sobre o casaco fino. Estávamos alegres rumo ao nosso restaurante predileto para almoçar e, claro, beber algumas taças de tinto. Amenidades eram a pauta do dia, quando logo na porta encontramos Helena, uma amiga em comum, muito abalada, trazendo no rosto olheiras fundas como registros de noites mal dormidas. Aceitou, de pronto, o convite para sentar à mesa conosco e, mesmo sem ser perguntada, logo começou a falar sobre as causas da desordem emocional que a transtornava. A dor parecia não caber dentro de si e por isto precisava desabafar. Ela acabara de encerrar mais um casamento. Já era o quinto ou sexto, teve alguma dificuldade de saber se um deles poderia ser considerado como tal em razão da sua curta duração. Se disse decepcionada com as pessoas em geral. Confidenciou que a intimidade revelava faces desagradáveis que impossibilitavam a convivência a longo prazo. Helena falou por um bom tempo, desfiando os seus lamentos e ouvíamos com paciência, até que o artesão quis saber se ela já tinha sido feliz, alguma vez, no amor. Nesse instante, os olhos dela brilharam e um sorriso, que parecia impossível, surgiu em seu belo rosto.

O dia da independência

Fiquei feliz ao ver a clássica bicicleta de Loureiro, o elegante sapateiro amante dos vinhos e dos livros, encostada no poste em frente a sua oficina. Eu estava mal. Uma série de acontecimentos, com diferentes pessoas, me faziam sentir em um caldeirão de emoções que variavam entre a irritação e a tristeza. Fui recebido com um forte abraço e alegria sincera. O artesão pediu para eu me acomodar enquanto passaria um café fresco para animar a nossa conversa. Falei que precisava desabafar e trocar ideias, pois parecia que o mundo havia criado um complô contra mim. De uma hora para outra, muitas das minhas relações se tornaram problemáticas ou frustrantes. Relatei alguns desentendimentos e decepções que ocorreram há dias com diversas pessoas que eu muito presava. Acrescentei que tudo acontecera ao mesmo tempo e arrisquei a brincar dizendo que parecia karma. Loureiro repousou duas canecas cheias de café sobre o balcão e disse: “Karma é aprendizado. Todo karma é um mestre que vai aprimorar e fortalecer o aprendiz. Entendidas as lições o karma desaparece, assim como aquele tipo de situação, até então recorrente, por não haver mais razão de ela existir. Por outro lado, o Karma se prolonga, e até endurece, na medida que nos recusamos a evoluir. Se a vida é uma universidade, o karma se resume nas matérias que devemos cursar”.

De volta ao topo do mundo

Falei ao Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, que passaria o meu aniversário no mosteiro de Takshang, próximo à cidade de Paro, no Butão. Queria o silêncio e a energia desse mosteiro budista, de difícil acesso, encravado no Himalaia, para meditar e refletir sobre o momento em que me encontrava, mais precisamente a respeito da empresa em que eu era sócio. Tínhamos recebido uma proposta de outra firma, bem maior e de âmbito internacional, para uma fusão que geraria, além de um grande ganho financeiro e uma mudança angular em meu estilo de vida. Desde a ter que usar terno no dia a dia até morar em outra cidade, fora as incontáveis reuniões e rotinas típicas das grandes empresas. Os meus sócios, éramos três, estavam animadíssimos com a possibilidade que se apresentava. O meu coração não me deixava compartilhar de tamanho entusiasmo. A nossa empresa navegava com tranquilidade, não éramos ricos, mas tínhamos uma vida confortável e, acima de tudo, havia tempo para eu me dedicar a outras atividades que me eram valiosas, como a Ordem, os estudos, a escrita, os encontros com os amigos, a convivência familiar, entre outros bens intangíveis. No entanto, não é toda hora que surge uma oportunidade para subir de patamar financeiro e todos me pressionavam para que eu decidisse logo. A mudança no jeito de viver era o que agoniava. A dúvida me corroía.

O Velho me aconselhou: “Gosto das transformações, pois são bons indícios de evolução. No entanto, nem toda fruta é doce assim como nem toda regra é absoluta. Quando sair do Butão, pegue a estrada que desce o Himalaia pelo lado chinês. Você encontrará uma agradável vila. Lá, procure por Li Tzu, o mestre taoista. Se deixe encantar por tudo que acontecer”. Agradeci e parti sem entender exatamente ao que o monge se referia.

O topo do mundo

Enchi uma caneca de café na cantina e fui à biblioteca do mosteiro. Era final da tarde e eu ansiava por um pouco de leitura e reflexão. Encontrei com o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, sentado em uma confortável poltrona com o olhar entretido nas montanhas avistadas através das enormes janelas. Ele me cumprimentou com um sorriso sincero. Ao me perceber perdido nas prateleiras entre os inúmeros bons títulos, de Yogananda a Fernando Pessoa, de Chico Xavier a Lao Tsi, passeando entre Espinosa e Jung, o monge sussurrou: “Faça como Paulo, o apóstolo dos gentios. Dizem que ele sempre abria a Bíblia ao acaso quando queria um texto para meditar. Como o acaso não existe, ele sempre encontrava as palavras das quais precisava”. Sentei-me com as Escrituras e a página que se apresentou falava de uma passagem que me incomodou desde a primeira vez em que li, na qual mestre Jesus diz que é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Céu. Li e reli todo o capítulo. Insatisfeito, perguntei ao Velho se o dinheiro era um impeditivo à iluminação. Ele me olhou como a uma criança e disse com a sua voz suave: “Claro que não. O dinheiro é uma ferramenta maravilhosa, passível de semear bons frutos, desde, é claro, que utilizado de maneira correta”. Argumentei de que não isso que estava escrito.

O amor não precisa ser perfeito

Quando entrei eles já estavam conversando. Loureiro, o sapateiro amante dos vinhos e livros, escutava as lamúrias de um sobrinho sobre as dificuldades que tinha nos relacionamentos afetivos. Fomos apresentados. O jovem, bastante educado, disse que não se incomodava de eu participar da conversa. Na verdade, achava muito bom, pois seria mais uma opinião a clarear o seu entendimento. O elegante artesão foi passar um bule de café enquanto o rapaz me explicava que, em suma, quanto mais ele conhecia uma pessoa maior era a sua decepção. Sentenciou que as máscaras não se sustentam no convívio pessoal e, o que se revela, definitivamente nunca o agradou.

Loureiro, que enchia as nossas canecas sobre o balcão com café fresco, aproveitou a deixa e disse: “Todos desejamos ser amados e admirados. É a vontade latente do nosso ego: os holofotes e os aplausos. Então, inconscientemente criamos personagens que acreditamos serem reais para interpretar os papéis que atinjam tal objetivo”. O sobrinho interrompeu para acrescentar que era exatamente isso que não gostava nas pessoas. Buscava por aqueles que fossem autênticos. “Mas, de certa maneira, eles são”, corrigiu o tio. O rapaz disse que o sapateiro estava sendo contraditório. Loureiro iniciou a sua explicação ao estilo socrático, com uma pergunta: “Quando você se interessa por uma moça costuma se aproximar mostrando o quanto é vaidoso, orgulhoso, teimoso e egoísta”?

As ferramentas do amor

 

Quando o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, entrou na agradável biblioteca do mosteiro, eu estava imerso na reflexão de um trecho do livro de parábolas de Rami. O monge retirou um livro da estante e se acomodou em uma confortável poltrona ao meu lado. Reparei que era o milenar Tao Te Ching ou o Livro do Caminho e da Virtude, de Lao Zi. Como estávamos apenas os dois na biblioteca, ousei puxar assunto. Falei que, por acaso, lia um livro que também abordava o valor das virtudes e, além de enaltecer a coragem como uma delas, sentenciava que ‘o amor é para os fortes’. O monge, com a sua voz sempre suave, foi lacônico em seu comentário: “Sim, é verdade”. Discordei sob o argumento de que o amor, por toda a sua importância, estava à disposição de todos, indiscriminadamente. O Velho me olhou com a sua enorme paciência e disse: “Sim, também é verdade”. Balancei a cabeça e mexi as mãos, como se esses movimentos pudessem amplificar as minhas razões, para acrescentar que ele estava sendo incoerente: o amor era para todos ou apenas para os fortes. Pedi para ele se decidir. O monge arqueou os lábios em leve sorriso e começou a explicar: “Você confunde tudo, Yoskhaz. Não percebe que se trata de coisas diferentes? Ou melhor, de situações em que o amor se apresenta de maneiras distintas”?

“Sim, o amor está ao dispor de cada pessoa, pois, por ser a força que rege o universo, repousa na essência de todos. O amor é a estrada e o destino. É a virtude maior por estar presente em todas as demais virtudes ou elas deixam de existir. No entanto, para viver o amor, ao menos em toda a sua extensão, precisamos dessas outras virtudes como instrumentos de disseminação do bem. Assim, permitimos, não apenas o desenvolvimento do próprio ser, mas a propagação da luz por ele emanada até a mais distante das estrelas. O universo agradece e nos retribui também em luz por gratidão e justiça”. Deu uma breve pausa e prosseguiu: “O amor é a virtude indispensável nas transformações, logo, sem ele não há evolução. No entanto, o amor adormecido em cada um de nós precisa de trabalho para despertar e crescer nas adversidades. Amar quem nos ama é fácil; amar quando as situações são favoráveis, muitos conseguem; amar nas adversidades é permitido apenas aos fortes”.

Valiosos pilares

 

Na charmosa cidadezinha que fica no sopé da montanha que acolhe o mosteiro, aos sábados, todo o comércio encerrava a sua atividade ao meio-dia, salvo restaurantes, cafeterias e pubs, pontos de encontro para alegres almoços ou reunião de amigos. A famosa exceção era a oficina de Loureiro, o elegante sapateiro, amante dos livros e dos vinhos. A loja de Loureiro funcionava em horário irregular e inusitado. Encontrá-la aberta a qualquer hora do dia ou da noite era um autêntico jogo de sorte. Naquele sábado à tarde, antes de retornar ao mosteiro, arrisquei encontrá-lo para um café e uma conversa vadia. A loja estava fechada. Como a minha carona era apenas para a noite, tentei uma taberna pouco concorrida, a qual ele muito apreciava. Encontrei o artesão acomodado em uma confortável poltrona, ao lado de uma pequena mesa com uma taça de tinto e um abajur que lhe permitia ler O Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa, com invejável tranquilidade. Quando fui cumprimentá-lo, se aproximou, quase ao mesmo tempo, outro amigo dele. O homem estava com os olhos vermelhos e inchados de tanto chorar. De imediato, contou que na noite anterior fora surpreendido com o término de um romance que, embora não tenha durado muito tempo, havia sido intenso. Loureiro, ao perceber que o amigo não tinha me notado, nos apresentou. Renê, este era o seu nome, me tratou de maneira educada.  O sapateiro pediu para que puxássemos cadeiras para ficarmos mais próximos a ele, pois o seu tom de voz era sempre muito suave. Acrescentou para o Renê que poderiam conversar sobre o seu dilema em outra hora, uma vez que a minha presença poderia constrangê-lo. O homem disse que não tinha problema nenhum. Precisava desabafar e ouvir algumas palavras que pudessem arrefecer a sua dor.

A semente

 

Eu caminhava pelas montanhas do Arizona ao lado de Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom de usar a música para perpetuar a sabedoria do seu povo, quando paramos em um pequeno platô com uma vista encantadora. Ele estendeu o seu manto colorido no chão, acendeu o inconfundível cachimbo com fornilho de pedra vermelha e me pediu para preparar uma fogueira. Depois ritmou com o seu tambor de duas faces uma sentida cantiga ancestral na qual pedia proteção para nunca abandonar ‘o lado ensolarado da estrada’. Ficamos um tempo que não sei precisar sem dizer palavra, como viajantes no mundo das ideias, até que o xamã rompeu o silêncio: “Há muitos elementos na natureza que considero sagrados pelo simbolismo que representam. O nascer do sol pela importância da luz em nossas vidas; o voo da águia por me ensinar a ver todas as coisas do alto; as estrelas para lembrar que existem outros mundos além deste; a mudança das estações pela lição da renovação dos ciclos; a borboleta para me lembrar que a lagarta pode ter asas; o rio para não me deixar esquecer que todas as águas um dia chegam ao mar. No entanto, nada me encanta tanto quanto a semente”. Deu uma baforada e prosseguiu: “Enfim, há lições por todos os lados. O sagrado está misturado ao mundano a espera de ser revelado”. Quando eu iria interromper para perguntar sobre a semente, a conversa mudou de curso. Ele falou: “Assim como a magia aguarda o momento do feiticeiro”.

A maior das mentiras

 

Loureiro, o sapateiro que costurava o couro como ofício e as ideias como arte, andava ao meu lado pelas estreitas ruas de pedras da charmosa cidadezinha que fica ao sopé da montanha que abriga o mosteiro. Procurávamos um restaurante para almoçar. Escolhemos um bem sossegado para que pudéssemos prosear à vontade. Assim que entramos ele encontrou uma amiga de longa data, uma artista plástica que se tornara muito famosa devido aos seus quadros. Embora viajasse por todo o mundo por conta de convites e exposições, sempre que possível ela retornava àquela pequena cidade a fim de reencontrar as suas raízes, como maneira de não esquecer a essência que a movimentava. ‘O conhecimento sobre a minha aldeia é que me concede o poder do mundo’, repetiu a famosa frase quando o sapateiro lhe perguntou o que fazia ali ao invés de estar em Nova York, Londres ou Paris. Imediatamente ela nos convidou para sentar à sua mesa. Eu a conhecia por fotos de revistas, mas me impressionou a sua elegância e, principalmente, o seu magnetismo, embora não parecesse fazer qualquer esforço para uma coisa ou outra. Devia ter a idade de Loureiro e os cabelos brancos e curtos, como os do sapateiro. Decidira não mais usar tintura; a maquiagem era quase nenhuma. Alegou que ‘dá muito trabalho e no mais, já há tinta demais na minha vida’. Rimos. Fiquei pensando se a elegância não residia na sua sofisticada simplicidade. Perguntada sobre as novidades, ela disse que teria de ir a Madri dentro de alguns dias, pois um dos seus quadros fora escolhido para compor uma mostra no Museu do Prado sobre ‘sentimentos ocultos’. Tirou da bolsa uma foto da tela para nos mostrar. Era um belíssimo quadro, de enormes dimensões, daqueles que ocupam uma grande parede, no qual ela retratava uma mulher jovem e sozinha no salão de uma festa. Ela disse que batizou o trabalho como “A Maior das Mentiras”. Eu quis saber a razão do título. A artista me respondeu que depois que terminou a obra achou que era triste o sorriso da mulher retratada. Confessou que se sentiu incomodada com a tela, no entanto, ressaltou, não sabia nem tentava entender a razão daquela interpretação, pois pintava com o inconsciente.

O sentido da vitória – outra vertente

 

Eu estava acompanhando o carpinteiro que trocava as dobradiças do portão do mosteiro quando fui surpreendido pela chegada de um sobrinho do Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem. O jovem, na casa dos trinta anos de idade, tinha as feições transtornadas e chegara em busca de algumas palavras do tio que pudessem explicar a tempestade que assolara o seu casamento. Ao encaminhar o rapaz, encontrei o Velho na biblioteca do mosteiro lendo As Parábolas de Rumi. Embora fosse um lugar de absoluto silêncio, como estávamos a sós, o monge decidiu que ali mesmo conversaria com sobrinho, ao menos até o momento em que chegasse alguém. Fiz menção de me retirar, mas o monge pediu para que eu ficasse. Sem demora, o rapaz desabou toda a sua incompreensão e mágoa sobre o que estava acontecendo. Explicou que o início do casamento fora muito complicado e apenas depois de muitas brigas conseguiu convencer a esposa da necessidade de ela mudar o seu comportamento em relação a diversos aspectos da sua vida social e profissional. Precisava entender que se tornara uma mulher casada. Acrescentou que havia sido uma vitória, após muitas discussões, a mudança de atitudes da esposa. No entanto, logo depois, ela começou a ficar triste sem motivo aparente. Deprimida, procurou ajuda com uma conhecida psicanalista. O tratamento fez efeito, pois, aos poucos, ela recuperou o sorriso aberto e encantador. No entanto, há poucos dias ela comunicou que desejava o divórcio. O jovem não entendia a falta de reconhecimento da esposa, pois ele atravessara ao seu lado o período mais sombrio do romance e, quando tudo parecia resolvido, ela decidira partir. Não, não concordava nem entendia a separação. Mesmo assim, a mulher foi embora levando consigo apenas o que cabia em uma mala.

A revelação

 

A minha primeira fase como discípulo na Ordem foi representada por muitas perguntas a respeito dos mistérios que envolvem a vida. Algo que sempre considerei positivo, pois me impulsionava a reflexão e também me ensinou muito sobre paciência e serenidade, pois as respostas apenas são permitidas quando estamos prontos para entendê-las. Não que elas sejam negadas, mas pelo motivo de não conseguirmos vê-las, como se um manto de invisibilidade as envolvessem até que mudem os nossos olhos. Eu tinha terminado de varrer o jardim e antes de seguir para a biblioteca do mosteiro passei no refeitório para pegar uma caneca de café. Livros e café é uma combinação que sempre adorei. Encontrei com o Velho diante de um pedaço de bolo de aveia, com um olhar distante. Pedi licença para interromper os seus pensamentos e me sentar ao lado para um pouco de conversa. Ele me autorizou com um doce sorriso. Falei que tinha lido um poema atribuído a um antigo alquimista persa que relatava a conversa entre um caravaneiro e um grão de areia. Havia uma parte que muito me intrigava:

“Grão de Areia: Eu sou o deserto.

Caravaneiro: Não, você é apenas parte do deserto. Sem você, o deserto continuará a ser o deserto.

Grão de Areia: Engano. Na minha falta o deserto restará incompleto e viajará à minha procura.

Caravaneiro: Você devaneia entre a soberba e a loucura.

Grão de Areia: Entendo o seu julgamento. Cada qual o faz com os olhos que possui no momento. Acredite, ver é uma arte.

Caravaneiro: Diga-me, o que não percebo?

Grão de Areia: A fonte em que bebo. Não há o todo sem a parte.

Caravaneiro: Simples assim?

Grão de Areia: A parte traz o todo em si; eu trago o deserto em mim.

Para conhecer o deserto há que se desvendar o grão.

Este é o poder e a revelação”.

A verdade não dói

 

Caminhávamos pelas ruas estreitas e sinuosas da charmosa cidadezinha que fica no sopé da montanha que acolhe o mosteiro. O sol do final da tarde realçava as cores das casas e do calçamento de pedra. Loureiro, o sapateiro que remendava o couro como ofício e costurava as ideias como arte, estava com fome e seguíamos rumo à cafeteria da Sophie, onde são feitos os melhores sanduíches do planeta, em busca do seu predileto: em pão de brioche, fatias de presunto; um pouco de mel e canela; generosas lascas de parmesão e um ovo mole por cima. Vai ao forno para gratinar. Café para acompanhar até o poente; lá apenas servem vinho à noite. São as rigorosas regras da casa. A garçonete que veio nos servir era a Regina, uma colega de longa data, que ficou feliz em nos ver. Ela disse que o turno dela já terminara e perguntou se poderia sentar-se conosco. Permissão concedida, avental guardado e tínhamos ao nosso lado uma pessoa que precisava muito falar, como aquela criança que corre para mostrar todos os seus brinquedos quando chega uma visita. De pronto, ela revelou que vivia uma grave crise conjugal. Morava há algum tempo com outra moça, bem mais jovem, por quem era apaixonada. No entanto, sempre a apresentou a todos como uma sobrinha que viera passar um período na cidade. Na noite anterior tiveram uma grave discussão, na qual a namorada a acusava de ser preconceituosa por não admitir perante a todos o verdadeiro afeto que as unia, seja pela diferença de idade ou pelo fato de serem ambas mulheres.

A arte de se manter suspenso no ar

 

Quando entrei para a Ordem tinha a errônea ideia que a vida no mosteiro era simplesmente contemplativa, afastada de todas as impurezas do mundo como maneira de manter os monges puros. Embora houvesse um período inicial de recolhimento para a adequada iniciação, no qual havia muito estudo e meditação, logo éramos enviados de volta ao mundo como método eficaz de conhecimento e aperfeiçoamento de si mesmo. O Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, costumava dizer que “o sagrado não está separado do mundano, mas oculto nele”. É no convívio comum do cotidiano que podemos entender melhor as nossas reações e as arestas que ainda fazem sangrar. Apará-las é o aperfeiçoamento necessário; o aperfeiçoamento leva à transformação; a transformação se traduz em evolução. Os períodos de solidão e reflexão são tão férteis quanto as fases de convívio social ou profissional. Na verdade, são as partes distintas de uma mesma aula. Elas se diferenciam para se completarem.

O destinatário do amor

 

Era uma fria manhã de outono. O sol aquecia o corpo sobre o pesado casaco de lã. Eu andava pelas ruas estreitas e tortas da charmosa cidadezinha que fica no sopé da montanha que acolhe o mosteiro em busca da oficina de Loureiro para um café quente e um pouco de prosa. Eu estava triste pela ingratidão de algumas pessoas do meu convívio por não corresponderem ao amor que lhes era oferecido por mim. O sapateiro, que costurava o couro como ofício e as ideias como arte, me recebeu com a alegria habitual e logo estávamos sentados ao balcão com duas canecas fumegantes. Depois de expor as minhas insatisfações, questionei ao meu amigo o fato de o amor ser a causa de tanto sofrimento. Achava contraditório, uma vez que esse sentimento está inegavelmente ligado ao bem e à luz. Afinal, sendo o amor algo tão bom, não deveria permitir que ninguém sofresse em seu nome. O artesão bebericou o café e respondeu como quem fala o óbvio: “Sofrem pelo simples fato de não entenderem o amor”. Discordei. Falei que o amor é inerente a todas as pessoas. Acrescentei que não deveria haver um único ser humano na face da Terra que desconhecesse o amor. Loureiro sorriu e disse: “Sim, é verdade. No entanto, tê-lo conosco não significa que já saibamos decifrá-lo. E mais, não é apenas o amor que corre nas veias de toda a gente, porém, todos os sentimentos, os melhores e os piores. Sem exceção. Identificar cada um deles é fundamental; não permitir que uns contaminem outros é parte da arte do andarilho”.

As chaves da evolução

 

O Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, tinha acabado de ministrar uma palestra em uma prestigiosa universidade. Eu tinha sido designado para acompanhá-lo na viagem. Quando andávamos em busca de um táxi que nos levasse até a estação ferroviária, fomos abordados por uma professora da instituição, que de maneira educada, disse que tinha assistido à palestra e tinha ficado intrigada. Nos convidou para almoçar no restaurante da própria universidade, pois gostaria de conversar um pouco mais com o monge. O convite foi aceito. A mulher foi direto ao assunto. Falou que tinha gostado muito de toda a exposição, mas algo a intrigara. Pelo que entendera, o Velho dissera que o único objetivo de todos nós era evoluir. Apenas isto. O monge balançou a cabeça confirmando. Ela, sempre gentil, falou que discordava. Alegou que não acreditava que a vida continuasse após a morte. Explicou que as ideias de reencarnação ou de qualquer espécie de deus eram frutos de mentes pouco desenvolvidas ou supersticiosas que tinham medo de encarar a realidade de que a morte era o fim. Portanto, sustentou, o sentido da vida era tão somente a busca da felicidade.

O Velho ofereceu um belo sorriso e com o seu jeito tranquilo disse: “Eu concordo com você”. A professora se mostrou surpresa com a resposta e ele explicou: “Acreditar ou não em Deus e em qualquer dos conceitos da imortalidade do espírito não deve mudar em absolutamente nada os valores que norteiam a vida de uma pessoa. Ninguém precisa crer na existência de outra dimensão para seguir a lei espiritual maior que consiste em fazer aos outros somente o que desejamos que nos façam. Alguns dos homens mais fantásticos que conheci são ateus, outros são religiosos. São pessoas maravilhosas que norteiam as próprias vidas no esforço de serem melhores a cada a dia e possuem um enorme respeito por todos. Entendem que não vivem sozinhas no planeta. Logo, embora o encontro da própria felicidade seja uma jornada solitária, se entrelaça pela vida de todos, pois é nesse convívio que ela é ensinada e exercitada”. Deu uma pequena pausa antes de concluir: “Não apenas concordo que todos devem buscar a felicidade, mas acho até que já fazem isto. No entanto, percebo uma enorme dificuldade em alguns para entender o processo”.

As ferramentas da luz

 

O sol ainda não tinha nascido quando cheguei à pequena e charmosa cidade que fica no sopé da montanha que abriga o mosteiro. Eu tinha aproveitado uma carona em um caminhão de entrega e vagava a esmo pelas ruas estreitas e sinuosas enfeitadas com o seu belo piso de pedras. A umidade do orvalho refletia a luz bruxuleante dos lampiões públicos, compondo um bonito cenário. O barulho dos meus passos maculava o império do silêncio naquela hora da madrugada. Decidi arriscar e caminhei até a oficina de Loureiro, o sapateiro amante dos vinhos e dos livros; os tintos e os de filosofia eram os preferidos. Remendar o couro era o seu ofício; costurar ideias, a sua arte. A loja do artesão era famosa pelos horários improváveis e inconstantes de funcionamento. Quando virei a esquina, à distância avistei a sua clássica bicicleta encostada no poste. Percebi que aquele seria um bom dia. Fui recebido com a alegria habitual e logo estávamos sentados com duas canecas fumegantes de café sobre o balcão. Falei que precisava desabafar e conversar um pouco, pois me via diante de uma delicada questão: em recente viagem a uma grande metrópole onde fui acompanhar o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, em um ciclo de palestras que ele ministrou dentro de uma universidade, vi a esposa de um primo em situação clara de extraconjugalidade. Ela, ao perceber que eu presenciara a cena, me procurou para que eu nada revelasse. Contou que era um caso antigo e mal resolvido que precisava de uma resolução dentro dela. Acrescentou que amava o meu primo e não queria destruir a família que havia construído com ele e com os dois filhos do casal. Disse, ainda, que ao solucionar o enigma do coração em si, tinha certeza que seria uma esposa ainda melhor. Me pareceu que falava com sinceridade. De fato, ela e meu primo, com os filhos, pareciam formar uma família feliz. No entanto, a omissão, por vezes, é quase uma mentira. Contar ou não contar, eis o meu dilema, uma vez que eu tinha um compromisso comigo mesmo de ser sempre honesto, não abandonar a verdade e nunca me distanciar da boa moral.

Loureiro ouviu sem dizer palavra, ao final, bebericou o café e comentou: “Não vejo nenhum dilema”. Como não? Me surpreendi. Falei que toda boa pessoa deve nortear as suas escolhas pela boa moral, formada pelas virtudes que enobrecem o caráter humano. O artesão concordou com a cabeça. Acrescentei que ser fiel com a verdade era uma dessas virtudes cardeais. Desta vez o sapateiro negou com a cabeça e disse: “Nem sempre”.

A porta

 

De todos os lugares do mosteiro, a biblioteca sempre foi o meu preferido. Escolher um dos inúmeros títulos disponíveis, se acomodar em uma de suas confortáveis poltronas e dividir a atenção entre as letras e a maravilhosa paisagem das montanhas, proporcionada pelas enormes janelas, permitem momentos de pura magia. Muitas vezes encontrei o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, em algum canto, encantado pela leitura ou em viagem profunda nos mares da reflexão. Nesse dia, eu tinha acabado de escolher um livro quando percebi que ele me observava. Arqueou as sobrancelhas querendo saber qual eu escolhera. Mostrei a capa e ele sorriu em aprovação. Era uma coletânea de palestras ministradas por Yogananda. Aproveitei que havia uma poltrona vaga ao seu lado e me sentei. Perguntei o que ele lia. O monge respondeu em um sussurro: “O Sermão da Montanha”. Certa vez, ele tinha me revelado que lia esse pequeno texto todos os dias antes de iniciar qualquer outra leitura, porém não imaginava que ele falava em sentido literal. Diante da minha expressão de surpresa, o Velho falou: “As letras do Sermão são vivas e sempre me trazem ensinamentos sem fim”. Eu já o tinha lido várias vezes e perguntei sobre qual trecho o monge meditava. Ele disse com a sua voz suave: “Aquela parte que diz que ‘estreita é a porta e apertado o caminho da vida. Raros são os que o encontram’”. Eu disse que sabia do que se tratava e me adiantei para mostrar toda a erudição que pensava ter. Falei que aquele capítulo tinha a função de orientar sobre o cuidado para não insistirmos nas estradas largas da perdição. Acrescentei que não encontrava maiores dificuldades em sua interpretação, bastava que fôssemos sempre honestos. Simples assim. O Velho me ofereceu um doce sorriso de agradecimento em resposta e voltou a se concentrar na leitura e em seus pensamentos. Fiquei orgulhoso de mim.

O bom combate

Eu estava desgostoso da vida. Flanava pelas ruas sinuosas e estreitas da pequena e charmosa cidade que fica no sopé da montanha que acolhe o mosteiro quando passei em frente a uma padaria. O perfume do pão fresco foi irresistível. Me sentei e pedi que fizessem um sanduíche com manteiga, mel, canela e uma fatia generosa de queijo. Para acompanhar, uma caneca de café. Neste instante, Loureiro, o elegante sapateiro, rompe pela porta. Ao me ver, abre um sincero sorriso e, com os braços abertos, se aproxima. Após um forte abraço, pergunto se foi o cheiro do pão ou o acaso que nos atraiu ali. Ele me olha como a uma criança e diz: “O acaso não existe”. Falei que até tinha pensado em passar na sua oficina, mas não quis atrapalhar o ritmo do seu trabalho no meio da tarde. Ele, que era famoso na cidade por ter horários inusitados para abrir ou fechar a loja, falou: “Encerrei o expediente por hoje. Vim conversar contigo”. Ri e comentei que ele não tinha como saber que eu estava na padaria, pois até mesmo eu não sabia que estaria ali há cinco minutos atrás. Loureiro deu de ombros, como quem fala o óbvio, e disse: “Eu também não sabia, pelo menos até entrar aqui e ver a agonia desenhada em seu rosto. Então, entendi”. Abaixei os olhos e agradeci em silêncio.

A bagagem

O Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, tinha sido convidado a ministrar uma série de palestras sobre os mais variados temas em outro mosteiro, bem distante do nosso, onde funciona uma irmandade com preceitos distintos da qual pertenço. Na essência, as diferenças mais aproximam do que afastam. Naquela época, eu era o discípulo designado para acompanhar o monge. Todos ficaram encantados com o Velho. Uma imagem serena, sempre com um sorriso discreto no rosto, o olhar que espelhava paciência, as palavras sábias pronunciadas em voz mansa e, principalmente, com atitudes, mesmo nos pequenos gestos, que transbordavam o mais puro amor. Ele dizia que servir como exemplo é o argumento mais poderoso que alguém pode oferecer; é a “verdade viva”. Por duas vezes, nessa viagem, o monge pediu para que eu abrisse a palestra do dia com introduções rápidas sobre o tema que seria abordado em seguida por ele, fato que me rendeu alguns elogios, muito mais como reflexo das aulas do Velho do que por mérito meu. No entanto, eu estava mal. Um aluno daquele mosteiro que me cedera uma vaga em seu quarto durante os dias que ali ficamos vinha me perturbando com uma saraivada de críticas, seja em relação ao breve discurso que iniciava as palestras, seja por causa de algum outro comportamento meu que ele indicava como inadequado. Em tudo ele apontava defeito. Quando o Velho entrou no quarto para saber se eu já estava pronto para viajarmos de volta, me encontrou arrumando a mala tal e qual se encontrava o meu coração: em total bagunça e desalinho.

Questionado, relatei os motivos da minha irritação. O Velho pediu para que eu parasse de arrumar a mala e fôssemos caminhar um pouco. Lembrei que tínhamos que partir, e ele disse: “É necessário entender o que levamos na bagagem para prosseguir a viagem”. Falei que colocava na mala apenas as minhas roupas e pertences pessoais. O bom monge apontou a mala sobre a cama com o queixo e me corrigiu: “Não falo dessa mala”, colocou a mão no próprio peito e complementou: “Me refiro à bagagem sagrada, aquela que levamos no coração”.

O ladrão de magia

Sempre que possível, eu retornava às montanhas do Arizona para uma temporada ao lado de Canção Estrelada, o xamã que semeava a sabedoria ancestral do seu povo através da palavra, cantada ou não. Já estava lá há cerca de um mês quando ele me chamou para uma conversa ao redor da fogueira. Tal convite era sempre recebido como uma honra e, confesso, eu ansiava por esse momento todas as vezes que o visitava. Esses encontros eram à noite, sob o teto de estrelas. Na maioria das vezes o xamã já me aguardava sentado ao redor da fogueira. Como explicou certa vez, o fogo é um importante elemental no auxílio à transmutação das velhas formas. Ele fez sinal com a cabeça para eu me acomodar sobre uma manta estendida ao seu lado. Canção Estrelada cantou uma sentida canção, acompanhado pelo seu tambor de duas faces, em que agradecia ao Criador pela oportunidade de estar ali naquele momento e pelas intuições e inspirações a serem concedidas, expressadas através das palavras. Depois acendeu o seu inconfundível cachimbo com fornilho de pedra vermelha. Nesses pequenos rituais era comum que fumássemos juntos o mesmo cachimbo, como gesto de admiração pela sabedoria e coragem de um pelo outro.

Era um pequeno e importante cerimonial mágico. Cerimonial porque era um encontro entre pessoas com o mesmo propósito e que se respeitam; mágico porque magia é transformação, mecanismo essencial da evolução. O nexo causal é sempre o amor para que haja a permissão e a participação dos mensageiros iluminados das esferas invisíveis.

A melhor namorada

 

Quando entrei na oficina de Loureiro, o elegante sapateiro decidiu encerrar o expediente, embora ainda estivéssemos no meio da tarde. Apreciador dos vinhos tintos e dos livros de filosofia, ele tinha no martelo e no alicate as ferramentas do seu ofício; as ideias com que coloria o mosaico da vida, os instrumentos da sua arte. A sua loja não tinha hora determinada para abrir ou fechar. O seu funcionamento variava de acordo com a vontade do artesão e, na pequena cidade, os horários inusitados da oficina já tinham virado uma lenda. Assistiríamos, os dois, em uma animada taberna, a uma partida de futebol pela TV. Era um dos aguardados jogos finais do campeonato. Loureiro achou que ainda dava tempo para conversar um pouco antes de irmos e foi passar um bule de café para animar as palavras. Quando ele colocou as duas canecas fumegantes sobre o balcão, fomos surpreendidos por um tornado em forma de gente. A irmã caçula do sapateiro invadiu a pequena oficina e nos dava a sensação de que o seu ímpeto abalava tudo a sua volta. Lucy era o seu nome. Há muito deixara de ser uma menina. Embora já tivesse mais de meio século de existência, ainda mantinha o viço da juventude. Seus olhos azuis contrastavam com a pele morena e os cabelos negros; era belíssima. Uma pessoa agradável no trato, atenciosa e boa amiga. Muito dedicada aos estudos, tinha se tornado uma respeitável juíza de direito da região, o que lhe proporcionava, sob o aspecto financeiro, uma vida confortável. Apesar de tantos atributos, não era feliz. Um dos seus desejos era ter um casamento estável, ao lado de uma pessoa com quem pudesse compartilhar todos os momentos da vida. Embora com muitas qualidades pessoais, os seus relacionamentos afetivos eram efêmeros e, por motivo que não conseguia entender, não se sustentavam. Este era o motivo daquela visitava repentina, o seu último namorado acabara de encerrar o romance.

Eu e o outro

 

O garçom abriu a garrafa e gentilmente completou as nossas taças. Eu estava em um daqueles dias em que sentimos vontade de conversar sobre a vida e ouvir a opinião de quem respeitamos. Um tio muito querido, que passara recentemente por situações difíceis e que não estava sabendo equacionar o seu lado emocional, me trazia preocupações. Aproveitei que tinha ido à pequena e secular cidade situada no sopé da montanha que abriga o mosteiro e convidei o Loureiro, o elegante sapateiro, amante dos vinhos e dos livros, para uma conversa. Os tintos e os de filosofia eram as suas predileções. Remendar o couro era o seu ofício; costurar a vida, a sua arte. A taberna estava vazia e silenciosa, bem ao fundo podia-se ouvir uma rádio que tocava jazz, nada que nos fizesse aumentar o volume baixo da voz. Relatei ao bom artesão os fatos que se sucederam com esse tio, de quem eu muito gostava e que fora bem próximo de mim na infância e na adolescência. Ele perdera o único filho em um acidente e, em seguida e em razão disto, o seu casamento entrara em crise, culminando no divórcio. Eu tinha estado com ele e o encontrara bastante depressivo, com a clara expectativa de que eu tirasse férias das minhas atividades profissionais e largasse o meu serviço na Ordem para ir ampará-lo. Se por um lado eu sentia vontade de ajudar, por outro não queria modificar a minha vida a tal ponto. Enfim, eu estava dividido.

Loureiro bebeu um gole de vinho e soltou um suspiro de aprovação. Era uma boa safra. Depois me mirou nos olhos e falou sobre o meu tio: “Quando não sabemos nos relacionar com as próprias emoções a razão costuma se perder na floresta escura do desespero. A falta de maturidade em enfrentar os problemas que se apresentam, apenas revelam o despreparo daquele espírito em aprender as lições que lhe cabem”. Questionei quais os aprendizados poderiam caber nas situações que o meu tio vivenciava. O sapateiro respondeu com tranquilidade: “Não faço a mínima ideia. Eu estaria sendo leviano se pretendesse apontar as lições alheias no Caminho ou arrogante ao tentar elencar as soluções objetivas do mundo. Somente sei que conflitos surgem para alavancar a nossa evolução. É como os mestres se disfarçam para oferecer os valiosos ensinamentos depois que nos recusamos em aprendê-los de maneira mais suave. É o universo, em profundo gesto de amor, revelando que não desistirá de nenhum de nós”.

O jogo das sombras

 

O dia ainda não tinha amanhecido quando entrei na cozinha do mosteiro. Eu tinha dormido mal, sono intermitente e com as ideias em turbilhão. Quando a mente não consegue descansar é o corpo quem paga a conta pela desarmonia que invade e ocupa, corrompendo o ser como um todo. O cansaço, por potencializar a irritação e a mágoa, sempre será um péssimo conselheiro. Era a minha exata situação naquele momento. Há alguns dias eu vinha em crescente discórdia com outro discípulo da Ordem. Tudo começara por um motivo bobo, uma pequena crítica que ele fizera ao trabalho filantrópico que eu coordenava. Retribuí apontando falhas de conduta em relação àquele que me censurou. Ele replicou subindo o tom da crítica. A troca de farpas foi ganhando dimensões inesperadas e, na tarde anterior, em discussão ríspida, quase chegamos às vias de fato. Ou seja, por pouco não trocamos chutes e socos. As ofensas verbais não conseguimos evitar.

Quando peguei o bule para passar o café, percebi que estava cheio e quente. Alguém chegara ali antes de mim. Só quando virei para trás foi que vi o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo do mosteiro, sentado em absoluto silêncio e reflexão, com uma caneca fumegante à frente. Ele me ofereceu um sorriso sincero quando nossos olhares se cruzaram. Com um gesto sutil do queixo, me convidou para sentar ao seu lado. Enchi uma xícara com café e fui ao seu encontro. Antes que ele pudesse articular qualquer palavra, abri o verbo, disse que precisava desabafar e narrei todo o conflito. O monge me ouviu com sua enorme paciência e quando encerrei, ele falou com a voz baixa e tranquila: “Você veio em busca de conselhos ou de cumplicidade? De alguém que lhe diga a verdade ou de alguém que lhe dê razão”? Mostrei-me indignado, pois não havia qualquer dúvida de que eu estava certo e que o outro discípulo deveria, no mínimo, ser advertido. Sem se alterar, o Velho disse: “Para todo fato há no mínimo duas versões, além da verdade”.

O sofrimento é uma escolha

 

Eu tinha chegado cedo à pequena e charmosa cidade situada no sopé da montanha que acolhe o mosteiro. Tudo parecia ainda adormecido em suas ruas seculares de pedra, quando, para a minha surpresa, ou quase, vejo a antiga bicicleta de Loureiro, o sapateiro amante dos livros e vinhos, encostada no poste em frente à sua oficina. O horário de funcionamento da sua loja era imprevisível e improvável. Nunca sabíamos quando a encontraríamos aberta. Fui recebido com alegria e um sorriso sincero. O meu amigo tinha acabado de passar o café e nos sentamos ao balcão com duas xícaras fumegantes para uma conversa vadia. O elegante artesão tinha no remendo do couro o seu ofício; a costura da vida pelas linhas da sua estranha filosofia, uma arte. Naquele dia não foi diferente, mais uma vez ele me desconcertou com o imponderável. O sapateiro comentou que uma de suas sobrinhas, filha de sua irmã, tinha acabado de sair da oficina. Ela estava muito abalada, pois o seu marido resolvera dissolver o casamento. Tinha vindo em busca de uma palavra de consolo, de uma ideia que servisse de lanterna para iluminar os seus passos.  Perguntei se a moça tinha saído melhor depois da conversa com o tio. Então, Loureiro começou a me surpreender: “Acho que não. Na verdade, saiu daqui pior do que entrou. Mas com o tempo ela irá entender o que eu tentei explicar”. Eu quis saber o que ele havia dito para aliviar a aflição da moça que gerou o efeito contrário. O sapateiro respondeu com naturalidade: “Todo sofrimento é uma escolha”.

O melhor dos mundos

 

No mosteiro é fabricado, apenas em alguns meses do ano, uma pequena e apreciada quantidade de chocolate em barras. Confeccionado de maneira artesanal, com as melhores sementes de cacau oriundas de países tropicais, baunilha e mel fornecidos por cuidadosos produtores da região, segue à risca uma receita secular, apenas conhecida entre os monges. O chocolate é famoso entre aficionados e tem toda a sua produção imediatamente vendida, mesmo limitando a quantidade individual de compra. O valor arrecadado ajuda a custear boa parte das despesas da Ordem. Não toda.

Certa vez, o Velho, como carinhosamente chamamos o decano da Ordem, teve que viajar em razão de compromissos e me deixou como assistente do Lucca, um tranquilo monge que há décadas era responsável pela produção do chocolate. Nada parecia ser tão importante ou dar tanta alegria ao monge. Meticuloso, não permitia que nada fugisse à receita ou alterasse o sabor da iguaria. Histórias contadas como lendas, de um período anterior ao meu ingresso na Ordem, relatam que, certa vez, ele proibiu a venda quando um auxiliar alterou, em quantidades mínimas, a exata proporção dos ingredientes. Manteve-se irredutível, mesmo com todos no mosteiro elogiando o sabor, com diferença quase imperceptível em relação à receita original. Em outra ocasião, se negou a produzir o chocolate ao recusar as sementes de cacau recebidas, que, segundo o seu entendimento, não tinham a qualidade indispensável. Foram anos em que o mosteiro enfrentou dificuldades financeiras, face à ausência da renda proveniente da venda do chocolate.

Lei das infinitas oportunidades

 

O Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, já tinha me falado do código não-escrito, um conjunto de leis universais que regula a vida em diversos planos da existência e que sujeita o destino de todos. O entendimento de como funciona essas regras amplia a consciência, afina as escolhas e pavimenta o Caminho. Já tínhamos conversado sobre a lei dos ciclos e a sua importância. Eu tinha ouvido falar da existência das leis da evolução, da afinidade, da ação e reação, entre outras. Na primeira vez em que tornei a ficar a sós com ele, eu quis saber mais sobre a lei das infinitas oportunidades. O Velho estava ao fogão, preparando uma sopa de cogumelos frescos, uma iguaria famosa no mosteiro. Sugeriu que eu o auxiliasse enquanto ele cozinhava: “A alquimia nasceu na cozinha”, falou de jeito gaiato. Em seguida começou a explicar: “Talvez nenhuma outra lei seja tão clara para demostrar a incomensurável generosidade da vida e a enorme sabedoria do universo. Ela fala dos nossos erros e do amor com que somos tratados”.

Pediu para que eu cortasse algumas cebolas e prosseguiu: “O código não-escrito regula o processo evolutivo de cada um de nós, impondo a exata lição para a qual já estamos aptos. A premissa inicial é que a razão da existência, neste plano, é a evolução espiritual. Em suma, estamos aqui para evoluir. Perceber isto é um bom começo, pois permite entender que os mestres estão disfarçados e nos aplicam os devidos ensinamentos através do nosso convívio com os outros e pela maneira como reagimos diante dos conflitos enfrentados. Este é o método desta universidade, não há outro”.

O muro

 

O prédio do mosteiro é uma sólida construção em paredes de pedras que atravessa os séculos com a mesma firmeza da montanha que o abriga. Ou quase. Um dos muros começou a dar sinais de deterioração e fiquei responsável por sua manutenção. Dentre as várias opções, escolhi uma construtora cujo o dono era um amigo dos tempos de colégio e que aparentava capacidade para levar a termo a tarefa. Apesar de todos os avisos de que não se tratava de um simples conserto, mas de uma restauração, na qual todas as características originais deveriam ser mantidas, o resultado foi desastroso. Eu estava irritadíssimo quando encontrei com o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem. Era final da tarde, horário em que ele se dedicava à leitura. Pediu para que o acompanhasse até a biblioteca. Sentamos em confortáveis poltronas ao lado de enormes janelas, tendo como paisagem a bela floresta dos arredores. Serviu-nos com xícaras fumegantes de café. Logo, comecei a desfiar meu rosário de lamentações sobre a reforma do muro. Disse que estava muito decepcionado com aquele amigo, que fez um serviço muito aquém do contratado e, pior, do prometido. O Velho comentou com doçura: “De fato ficou muito ruim, teremos que refazer o trabalho”.

Falei que lamentava a escolha, porém já tinha tomado providências. Enviei uma dura mensagem relatando a queixa, exigindo que o muro fosse refeito dentro dos padrões exigidos. Não satisfeito, telefonei para ele e tracei críticas com palavras duras. O monge me observou com os olhos repletos de compaixão e perguntou: “Como você se sente”? Confessei que estava mal, uma mistura se sentimentos que migravam entre a tristeza de ter brigado com um amigo e a raiva por ele ter me decepcionado. O Velho rebateu: “Isto é muito pior do que o muro mal remendado. Ninguém precisa de um muro perfeito para ser feliz; de um coração tranquilo, sim”.

O vampiro e o mito da imortalidade

 

Encontrei fechada a oficina de Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos. Filosofia e tinto eram as suas preferências. Me dirigi a uma aconchegante taberna, onde o meu amigo costumava beber uma taça antes de ir para casa. Dei sorte. Lá estava ele, sentado em uma confortável poltrona, ao lado de um abajur, entretido na leitura. Fui recebido com a alegria de sempre pelo artesão, elegante no vestir e no agir. Quando ele repousou o livro sobre a mesa, reparei que era Drácula, do escritor irlandês Bram Stoker, um clássico da literatura. Falei que nunca tinha lido aquela obra, embora a história do vampiro fosse de conhecimento de todos e, eu tivesse assistido ao filme, com o mesmo nome, dirigido pelo Francis Coppola. Pedi uma taça de vinho para acompanhar o bom sapateiro e perguntei se o filme era fiel ao enredo do livro. Loureiro se acomodou na poltrona e falou: “Isso é o que menos importa”. Antes que eu pudesse falar algo, ele prosseguiu: “A questão contida em Drácula é o mito da imortalidade que a história tem como pano de fundo. Todo o fascínio pelo vampirismo, que é anterior ao próprio Drácula, nasce do desejo incontrolável da humanidade, desde o início dos tempos, em vencer a morte. Dentro de toda a inconstância característica da vida de qualquer pessoa, a morte sempre foi a única certeza. Porém, sempre incomodou porque esteve ligada a ideia do fim”.

Comentei que os alquimistas sempre se empenharam na busca, não só pela pedra filosofal, que permitia transformar chumbo em ouro, mas, também, em descobrir o segredo do elixir da vida eterna, na esperança de que vida fosse infinita e as conquistas pessoais não se perdessem no éter da existência. O artesão arqueou os lábios em leve sorriso e disse: “A diferença está no fato de que, enquanto o vampirismo glorifica a perenidade do corpo, os alquimistas descobriram que a imortalidade está presente através do espírito, a verdadeira persona de cada um. O espírito é eterno; logo, somos todos eternos. O corpo é apenas uma vestimenta provisória, necessária para frequentar a universidade desta existência, neste planeta. Troca-se de roupa até não precisar mais dela”.

A ponte para a felicidade

 

Estávamos, eu e o Velho, como carinhosamente chamávamos o decano da Ordem, chegando ao mosteiro de uma viagem, quando fomos abordados por um rapaz no portão, que, de modo educado, pediu uma prosa de dois minutinhos com o monge. Como se desconhecesse o cansaço, o Velho convidou o visitante para um café no refeitório onde poderiam conversar com mais calma. Enquanto esquentava a água, eu ouvia a conversa dos dois. O jovem se revelou desiludido com o mundo. Nenhuma das possibilidades que a vida apresentou foi satisfatória e capaz de torná-lo um homem feliz. Sentia-se amarrado às estruturas impostas pela sociedade, a quem culpava por sua agonia; dizia-se incompreendido por amigos e parentes, causadores da sua insatisfação.  O monge logo ponderou o raciocínio do visitante: “Ninguém o pode impedir à felicidade, salvo você a si mesmo. Não transferir responsabilidades é um bom início”.

Abraçando as sombras

 

Todos os discípulos da Ordem tinham sido avisados que um de nós, em breve, seria consagrado monge em cerimônia permitida apenas aos iniciados. Não tive dúvidas de que eu seria o escolhido. Embora não fosse o aluno mais antigo, era o mais próximo do Velho, como carinhosamente chamávamos o decano do mosteiro. A ansiedade tomou conta de mim, me senti orgulhoso e fiquei algumas noites em claro imaginando como seria o ritual de passagem, tão comentado entre paredes, de discípulo para monge. Até que veio a notícia de que outro aprendiz era quem seria consagrado. O que parecia dia se tornou noite. A brisa agradável, que me acariciava o ego, se tornou uma violenta tempestade, capaz de varrer os meus melhores sentimentos para um lugar tão distante que tive a sensação de nunca mais encontrá-los.

O ciúme me convenceu de que aquela decisão era injusta.  A inveja chegou para me avisar que a vida era assim, injusta por natureza. Para piorar, o escolhido para se tornar monge tinha sido o aprendiz com quem eu mais debatia e combatia nas aulas de filosofia e de metafísica. A mágoa me cobriu com um espesso véu para segredar que bons sentimentos são frutos da árvore da ingenuidade: um carneiro não sobrevive no meio de lobos. Sim, eu era a perfeita vítima.

Um espírito livre.

 

Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom de semear a filosofia do seu povo através da palavra, cantada ou não, conversava com uma sobrinha em uma mesa ao ar livre, debaixo de uma enorme árvore frondosa. O sol da primavera aquecia o corpo e trazia aconchego à alma. Avistei-os de longe. O ancião e a bela moça, na casa dos vinte anos, com longas tranças e os olhos puxados como o tio, riam com vontade. Ela aproveitara as férias na universidade para visitar a família. Vestia-se como uma jovem da sua idade, com jeans, camiseta e tênis. Ao me perceber, o xamã fez sinal para que eu me aproximasse. Eles falavam sobre a postura divergente da sobrinha em relação a determinados comportamentos de vários alunos, com os quais ela não concordava. Entretanto, de tão enraizados, nenhum dos colegas ousava a pensar diferente, fazendo com que agissem por automatismo ao invés de se permitirem novas possibilidades. Claro que a moça começava a colher olhares atravessados e, até mesmo, desafetos. Em seguida, a jovem pediu licença, pois iria ajudar a mãe em seus afazeres. Ao se despedir, Canção Estrelada a mirou nos olhos e disse com jeito sereno: “O novo sempre assusta as mentes preguiçosas. É como chegar em casa e encontrar um estranho. Com o tempo, percebemos que a casa não é nossa, mas do estranho. E mais, ele não quer que você vá embora. Deseja apenas que aprenda uma outra maneira de se relacionar com a realidade. Lembre-se, todo espírito livre é afeito ao novo”.

Jamais.

 

Estávamos no trem. Eu e o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo do mosteiro, seguíamos em uma demorada viagem a uma cidade onde ele ministraria uma palestra em renomada universidade. Aproveitei a oportunidade para questionar sobre as dificuldades do aperfeiçoamento pessoal. Sugeri a existência de um manual mais simples para nos orientar no Caminho, vez que os textos sagrados são por demais complexos e, não raro, possuem interpretações herméticas e codificadas. O Velho balançou os ombros e disse: “Não faça a ninguém o que você não quer que façam a você”, deu uma pequena pausa para que eu pensasse um pouco no que ele acabara de falar e concluiu: “Todo aperfeiçoamento do ser consiste em viver esse ensinamento maior. Quer algo mais simples do que isso”?

Falei que achava tudo muito complicado, pois sempre há um exercício de possibilidades entre luz e sombras. O Velho rebateu: “Por isso todas as escolhas são sagradas. Elas definem quem somos. Portanto, preste sempre atenção: cada gesto ou palavra é semente de discórdia ou paz”. Eu disse que entendia, mas confessei que tinha dificuldade e precisava de ajuda. O monge ficou em silêncio por algum tempo e falou: “Existe o Manual do Andarilho”, deu uma pequena pausa e complementou em tom gaiato, evidenciando o bom humor e a evidente brincadeira: “Ele é destinado às crianças”. Rimos. Claro que tal livro não existe. Todavia, eu o provoquei e pedi para que ele facilitasse as coisas para mim. O Velho, sempre generoso, foi em frente: “Preste atenção à Regra do Jamais. São como placas de sinalização para proteger o motorista na estrada”:

A outra face, outra vez.

 

A biblioteca do mosteiro é encantadora. Uma enorme variedade de títulos em um ambiente de silêncio e conforto, além da vista espetacular das montanhas permitida por suas enormes janelas, em estimulante convite à reflexão. Ali era comum encontrar o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, nos finais de tarde, sentado em uma das poltronas, com os olhos perdidos entre letras e paisagem. Lembro de certa vez, ainda nos meus dias de iniciação, que me aproximei e, ávido por conhecimento, pedi a ele uma relação de livros para aprofundar os meus estudos. Ele me observou com bondade e disse: “Comece por ler qualquer dos livros, o importante é iniciar. Aos poucos o seu próprio interesse vai direcionar a leitura na medida da sua necessidade”. Argumentei que a explicação era falha, pois não poderia deixar ao acaso o direcionamento dos meus estudos. O monge arqueou os lábios em leve sorriso e falou: “O acaso não existe. O importante é que você esteja por inteiro em cada página lida e que o seu gosto lhe sustente para que não haja abandono. De alguma estranha maneira, todos os caminhos levam ao destino”. Recusei a resposta. Então, perguntei a ele se, hipoteticamente, apenas fosse permitido ler um único livro em toda a sua a vida, qual escolheria. A nova resposta veio rápida e objetiva: “O Sermão da Montanha”.

O melhor mantra.

 

Eram os meus primeiros dias no mosteiro, quando nem pensava em me tornar um discípulo da Ordem. O convite era para que me hospedasse por curto período. Minha vida passava por momentos de grandes turbulências, eram problemas sobre problemas. Como se não bastassem, dúvidas existenciais me assolavam. Eu estava ali na procura da fórmula que me levasse à solução dos conflitos. A figura do Velho, como carinhosamente chamávamos o decano do mosteiro, era o que mais me chamava atenção, seja pelo seu jeito cativante ou pela visão desconcertante em relação à vida. Naquela manhã, ele fizera uma reflexão para todos os presentes sobre o poder transformador do amor. Suas palavras suscitaram muitos questionamentos em mim, porém não ouvi nada que me ajudasse de modo objetivo. Logo em seguida, o encontrei no refeitório tomando café. Aproveitei a oportunidade para relatar um recente conflito com um parente sobre questões de herança, fato gerador de uma escalada crescente de confusões em minha família. Falei que não sabia como pacificar a briga. O monge disse com a voz serena: “Entenda que cada qual só consegue viajar até a fronteira da própria consciência.  Perceber a sombra alheia é passo importante para iluminar a sua. No entanto, para transmutá-la será necessário que suas escolhas passem a ser diferentes e melhores do que foram até agora”. De pronto perguntei como deveria agir. O Velho arqueou os lábios em belo sorriso e falou: “Está ruim? Polvilhe com amor”.

Por um lado, achei interessante, por outro, enigmático.

O espectro da dominação.

 
“A necessidade de dominar o outro permeia todo o mal desde o início dos tempos”, falou Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom de ensinar a sabedoria do seu povo através da palavra, cantada ou não. A noite chegava de mansinho estendendo seu belo manto de estrelas no firmamento. Ele tinha me pedido para acender a fogueira enquanto enchia de fumo o fornilho de pedra vermelha do seu inseparável cachimbo. Conversávamos sobre o fio que costura a cortina de sombras que impede a claridade do olhar. Ele expunha o seu ponto de vista: “A raiz desse mal é a ignorância e o seu equivocado entendimento sobre o medo. O Grande Espírito nos ofertou o medo para que fosse uma ferramenta a nos alertar dos perigos inerentes à vida, comuns na natureza. Os ruídos na noite escura, os predadores traiçoeiros, o penhasco escorregadio. Mas ao invés de nos integrarmos à natureza, em absoluto respeito a todos os seres que a compõe, decidimos por dominar a tudo que a envolve, em total descontrole do ego inseguro. Alguns animais, domesticamos; os que por temperamento selvagem não foi possível, matamos ou prendemos em jaulas como troféus à visitação. Não satisfeitos, decidimos por também dominar todas as pessoas de nossas relações. Em estado primitivo de sabedoria a liberdade alheia assusta por acreditarmos que somente estaremos seguros se dominarmos tudo e todos à nossa volta. A alegria do convívio é trocada pelo desejo insensato em sermos donos das pessoas e das coisas com o quais nos relacionamos. Perdemos a leveza. Acabamos por escolhemos o conflito ao invés da harmonia. Muitos se iludem nesse exercício vazio de poder, sem perceber que se tornaram escravos de suas desnecessidades e vítimas infelizes de seus enganos”. Deu uma pequena pausa para baforar o cachimbo e manter o fornilho aceso. Depois falou: “Então, surgem os sofrimentos inerentes aos que querem a vida no cabresto de seus desejos. São os semeadores da agonia e das lágrimas”.

“É imprescindível enfrentar o medo, pois a covardia não melhora o destino de ninguém. Não se acanhe por sentir medo. Saiba que só há coragem onde antes existia o medo. A sabedoria consiste em entender o medo. O medo é a semente da flor da coragem”

“Tudo se inicia em uma sucessão de equívocos. A ignorância nos faz crer que apenas conquistaremos a paz ao dominar o que nos assusta. Para piorar, acabamos por viciar o ego em sensações de poder ao interpretar a subjugação do outro como uma vitória. Só existe paz na alegria de escolher por amor. Só existe amor quando se entende que conquistar a própria liberdade consiste, também, em respeitar a liberdade alheia. Uma não existe sem a outra”.

Falei da dificuldade em convivermos com outras pessoas, no entanto, não percebia a sombra da dominação tão presente entre as pessoas. Canção Estreladas desviou os olhos, que estavam fixos nas labaredas, para me mirar com compaixão e disse: “Como não, filho? Veja, por exemplo, o ciúme, uma emoção muito comum a todos. Nasce da ignorância quanto a exata compreensão do amor. O amor, por definição, é um sentimento ligado não apenas à liberdade, mas à própria evolução do ser. Quanto mais amor e liberdade movimentar as escolhas, mais iluminada é a criatura. Para tanto, não deve amarrar ou impor condições para a existência dessas virtudes. Se algema ou impõe tributos de qualquer natureza, com certeza, não há liberdade nem é amor”.

Franziu as sobrancelhas, gesto comum quando falava mais sério e disse: “Uma pessoa tem certa admiração por outra e projeta sobre ela toda a sua vontade em viver o amor. Porém, em paralelo, é invadido por enorme medo de que o seu sentimento, de alguma maneira ou em algum momento, deixe de ser correspondido. O que faz? Dispara um ou vários dos mecanismos de dominação. Controles, limites, cobranças, proibições de diversos tipos. Percebe que é muito parecido como sempre fez com os animais em tempos remotos? O que não consegue domesticar, tenta aprisionar. Pior, em casos mais graves, agride, destrói ou mata”.

O xamã pediu para que eu lhe passasse um cobertor para ele se aquecer da noite que começava a esfriar. Em seguida, prosseguiu: “O ciúme é uma sombra que se manifesta no exato instante em que surge o medo de perder a pessoa amada. Mas como perder o que não se pode ter? Você deve sentir e viver o amor, o que é bem diferente de tentar controlar ou aprisionar o outro. Percebe a diferença? Ao invés alçar o próprio voo e respeitar o voo alheio em respeito e admiração ao amor e à liberdade, negamos a beleza do Caminho toda vez que manipulamos para cortar as asas de alguém. Sem perceber, acabamos por pisar nas flores do nosso próprio jardim”.

“Por isto que ouvimos equivocadamente que ‘não há paz no amor’. Claro, nos recusamos a entender o amor”!

Ficamos um longo tempo sem dizer palavra. Eu mirava o fogo, ele viajava nas estrelas. Resolvi quebrar o silêncio e perguntei sobre outras situações em que o desejo ancestral de dominação nos levava ao mesmo comportamento de outrora. Canção Estrelada disse com paciência: “Ainda nos comportamos como se apenas fosse possível a dualidade em ser senhor ou escravo; uma eterna e inevitável relação entre possuidor e possuído. Na tribo, no trabalho, em família. Por quê? Insegurança é a resposta. Temos dificuldade em conviver como e ao lado de seres livres. A liberdade parece assustar e ameaçar. Por quê? Simplesmente porque não fomos educados a nos relacionar de modo sadio com a liberdade e com o amor. Quantas vezes usamos da força bruta, do poder financeiro ou da lógica tortuosa, como elementos para acuar e dominar o outro, cerceando a sua liberdade de escolha, seja pelo fato de ela nos incomodar por recusar qualquer comando, seja apenas para exercitar a nefasta sensação de dominação. Em suma, puro medo. Assim, sem perceber, insistimos em sustentar a aparência em frágeis estruturas que chamamos de ‘ordem’ ao invés de trocá-la definitivamente pela paz. A ordem é de razão social; a paz é tesouro exclusivo da alma plena. A ordem é o anseio dos dominadores; a paz, uma conquista dos libertadores”.

Eu quis saber como escapar de todo esse processo nocivo e ultrapassado de dominação. Canção Estrelada tornou a franzir as sobrancelhas e falou: “Uma preciosa lição é entender que ‘qualquer pessoa só terá sobre você o poder que você consentir a ela’. Não conceda a ninguém tal poder. Pois, todas as vezes que acontecer, você conhecerá a agonia e o sofrimento da escravidão moderna. Nascemos para voar, não para enfeitar a gaiola alheia. A recíproca também se aplica: abandone a ideia, sob qualquer pretexto, de ser dono de alguém. Jaulas ou asas. Eis uma escolha que nos permitimos todos os dias”.

“No mais, vigiai e vigiai. Não ao outro, mas a si próprio, pois ninguém será um inimigo tão poderoso como as sombras que o aconselham. Dominador ou dominado, ambos apodrecem no mesmo cárcere. Na necessária interdependência de todas as relações, a liberdade é pressuposto indispensável da alegria e para a paz”. Deu uma pequena pausa e concluiu: “E do amor, é claro!”.

Transgredir é preciso.

 

Era a hora dos estudos. Leitura e reflexão na biblioteca do mosteiro. Silêncio e quietude. A luz do fim da tarde entrava pela janela oferecendo claridade e a bela paisagem das montanhas. Como de costume, passei antes no refeitório para pegar uma caneca com café. O Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, conversava com um rapaz que viera nos visitar, sentado à cabeceira da enorme mesa. Quando me aproximei, fui surpreendido pelas palavras do monge: “Transgredir é preciso”. Ao perceber o impacto que a frase causara em mim, fez um sinal com os olhos para que eu me acomodasse ao lado deles.

Desapego é transformação.

 

Ela estava lá. A bicicleta encostada no poste foi primeira coisa em que reparei quando dobrei a estreita e sinuosa rua da oficina na charmosa cidadezinha próxima à montanha que abriga o mosteiro. O sol do fim de tarde refletia nas ruas de pedra e emprestava tons pastéis às construções seculares. Como a loja de Loureiro, o sapateiro amante dos livros de filosofia e dos vinhos tintos, não funcionava em horários regulares, encontrá-lo era sempre um jogo de sorte. Fui saudado com a alegria e a elegância habituais. Ele passou um café fresco e quando sentamos diante das canecas fumegantes, fomos surpreendidos pela chegada de uma sobrinha do artesão. Uma moça bonita, educada e com feições de incertezas coloridas no rosto, que tinha vindo passar uns dias de descanso no interior. Após os cumprimentos de praxe, a jovem foi bem objetiva. Sempre ouvira o tio falar em suas conversas sobre a importância do desapego. Entretanto, ela era paciente de um prestigiado psicanalista na capital e, na última consulta, foi aconselhada a não abandonar os seus desejos, pois isto significava desistência e, por consequência, um sinal de fraqueza.

Armadilhas contra a paz.

 

“Todas as vezes que você pensa, fala ou age movido pelas paixões densas e pesadas, alimentará o poder das sombras. Dentro e fora de você”, falou o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem. Em seguida, concluiu: “Por mais absurdo que possa parecer, acredite, ninguém lhe prejudica mais do que você a si mesmo. Isto serve para todos”.

Estávamos sentados no refeitório do mosteiro, apenas os dois, apreciando o saboroso chá que o Velho preparava com uma mistura de ervas que colhia na floresta do arredor, enquanto admirávamos o por do sol por entre as montanhas. Ele tinha me chamado para conversar por perceber a minha alteração de comportamento após um aborrecido telefonema. O monge me ofereceu uma xícara acompanhada de uma pergunta: “Qual é o único preceito do Código de Ética da Ordem”? Como me calei, ele mesmo respondeu: “Nunca alimentar as sombras”. Deu uma pequena pausa para que eu fosse, aos poucos, alinhando a ideia e prosseguiu: “ Simples, não? Afinal somos todos do bem e, a princípio, não queremos compromisso com o mal”. O monge esperou eu concordar antes de corrigir: “Errado, não é nada fácil. Temos uma enorme dificuldade em identificar as próprias sombras e tudo que as estimula, dentro e fora de nós”. Tornou a calar por instantes e disse: “O grande truque das sombras são seus mil disfarces, a ponto de você pensar que elas não se escondem em suas entranhas”.

Ser livre é simplesmente ser.

 

O Velho, como carinhosamente chamávamos o decano da Ordem, era sempre convidado a dar palestras em universidades e colégios mundo afora. Em geral, essas instituições se situam em grandes metrópoles, onde ficávamos hospedados por dois ou três dias. Nessa época, já acostumado ao silêncio do mosteiro, teve um período que, confesso, logo me sentia incomodado com a mudança de ambiente, ao contrário do monge, que possuía uma fantástica capacidade de adaptação. Ele flanava pelas largas avenidas admirando o movimento das lojas, a correria das pessoas ou mesmo o barulho urbano com a mesma leveza e encantamento com que trilhava a montanha, em silêncio, observando as flores silvestres e colhendo cogumelos para as sopas de que tanto gostava. Quando me via irritado com toda aquela zoeira e pressa, ele me lembrava: “A paz habita em ti. Não conceda a permissão para que nada nem ninguém a abale”. Depois arqueava os lábios em breve sorriso e dizia: “Esse poder é seu, aprenda a usá-lo”.

Dançando com a saudade.

Conheci Loureiro, o sábio sapateiro, há muitos e muitos anos, em um cemitério.

Eu acabara de ingressar na Ordem e fui designado para acompanhar o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo do mosteiro, no velório de um grande amigo dele que havia partido. Conseguimos uma carona e na sinuosa estrada que desce a montanha em sentido à pequena e charmosa cidade localizada no sopé, o monge veio assoviando uma alegre canção. Ele parecia feliz. Estranhei, mas calei. No velório, a capela se fazia pequena para tanta gente; a viúva estava debruçada sobre o caixão, aos prantos e inconsolável. Lamentava profundamente a perda. A quem ia lhe dar os pêsames, perguntava como faria ao entrar em casa e não mais encontrar o falecido. Dizia que não teria forças para esvaziar o armário ou dormir no quarto do casal. Alguns lhe desejavam coragem, outros a aconselhavam a ter fé. Achei o ambiente apropriadamente dramático para um enterro e relaxei. Salvo pelo Velho, que, com constante sorriso no rosto, falava com todos de maneira discreta, porém descontraída. Era o único que me parecia à vontade em estar ali. Acomodei-me em um canto e fiquei a observar, até que chegou o irmão do defunto. Era Loureiro, o elegante sapateiro, amante dos livros e dos vinhos. Seu rosto parecia o de um ator italiano e tinha o porte de um bailarino espanhol. Naquela época seus cabelos ainda estavam grisalhos, vestia uma calça cáqui de fina alfaiataria e uma bonita camisa imaculadamente branca, contrastando com as cores escuras do ambiente. Tal e qual o Velho, estava sorrindo e cheguei a desconfiar que estava feliz. Cumprimentou a todos com discrição, mas sem alterar o belo sorriso que lhe coloria o rosto, o que gerou muitos olhares de reprovação. Ao se dirigir à viúva, teve o abraço rejeitado. Sem se sentir ofendido, o sapateiro tirou uma pequena gaita do bolso da calça e pediu educadamente a permissão para tocar uma canção. Em singela homenagem, tocaria a música que o irmão mais gostava de ouvir. Uma velha canção irlandesa, de ritmo alegre, cujos versos falavam sobre a beleza de viver. Em cólera, a viúva o acusou de estar tripudiando sobre a morte do marido em atitude de total desrespeito, seja pelas cores claras da roupa ou pelo jeito jovial. Ouvi alguns breves comentários em apoio a mulher.

Loureiro escutou a tudo sem dizer palavra. Quando ela se calou, ele disse: “Amo o meu irmão. Fomos os melhores amigos, desde sempre. O que você encara como o fim de uma história vejo como o início de uma longa viagem para terras distantes, onde ele poderá viver dias ainda melhores, a colher perfumadas flores, pois, nesta existência semeou amor por onde passou. Esta capela nada mais é do que a plataforma da estação. Respeito, mas não vejo motivo para tristeza. Quero comemorar o belo homem que foi, o grande espírito que se tornou, celebrar a minha saudade com alegria e dar-lhe um ‘até breve’”. Loureiro foi interrompido pelos gritos de censura da viúva e se formou uma pequena confusão.  O Velho rapidamente passou o braço sobre os ombros do sapateiro, fez um sinal com a cabeça para mim e saímos dali.

Lei da Renovação.

“É necessário, de tempos em tempos, esvaziar as gavetas do coração”, me disse o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo do mosteiro. Ele tinha me convidado para um passeio pela floresta, localizada nos arredores, ao perceber a minha inquietação e irritabilidade com os demais monges e discípulos da Ordem. Uma nova situação familiar tinha trazido à tona lembranças desagradáveis que alteraram o meu humor no trato para com todos e a minha paz para comigo mesmo. Reclamei bastante da maneira como algumas pessoas tinham me magoado no passado. Ele me olhou com sua enorme compaixão e disse: “O ressentimento cria uma verdadeira algema energética que te mantém atado ao ofensor em uma terrível prisão sem grades. A mágoa entope de sujeira o seu armário sagrado, o coração. A raiva envenena as águas que abastecem a fonte da vida, o amor”. Deu uma pequena pausa e concluiu: “É impossível ser feliz sem perdoar”.

Argumentei que eu já tinha perdoado, porém me negava a esquecer para não permitir que me magoassem de novo. O Velho riu com vontade quando falei isso, o que me trouxe ainda mais irritação. Depois, olhou como se mirasse uma criança e me instigou: “Você não conhece o perdão”. Falei que ele estava enganado, pois eu não desejava nenhum mal àqueles que me ofenderam e, assim, eu decretara o perdão. O Velho balançou a cabeça em negação e disse: “Não, Yoskhaz. Não desejar o mal é o primeiro degrau até o perdão; depois limpamos os escaninhos da alma até esquecermos a ofensa; por fim, desejamos o bem do agressor. Este é o percurso até o perdão”.

Equilíbrio improvável.

 

Eu caminhava pelas montanhas do Arizona ao lado de Canção Estrelada, o xamã que possuía o dom de transmitir a sabedoria dos seus ancestrais através da palavra, cantada ou não. Ele queria me mostrar o seu Lugar de Poder, como se denomina na mitologia nativa o local onde cada qual se sente mais à vontade para se conectar com a inteligência cósmica. “De todos os lugares do planeta é possível abrir um canal ou uma ponte, no entanto, há locais, por razões diversas, onde a ligação é mais intensa. O mar é um santuário; a montanha, uma catedral; a sua casa, um templo. Seja pela quietude, pelo som das estrelas, pela integração com a Mãe-Terra. Por alguma razão pessoal ou por ser um lugar onde as pessoas vão há séculos rezar, como nas igrejas, ancorando a forte vibração do universo, cada indivíduo deve encontrar o local onde sinta a força dessa conexão”, explicou o xamã. Ao chegar ao Lugar de Poder de Canção Estrelada, um pequeno platô bem próximo ao cume, não tinha como deixar de perceber uma árvore, presa pelas pontas da raiz, resistindo bravamente na beira de um penhasco, de maneira elegante e impensável, contra o vento, a chuva, o sol, a neve e a gravidade. Comentei que ela não conseguiria aguentar muito tempo. O xamã sorriu e disse com seu rosto vincado por dezenas de invernos: “Ela está nessa mesma condição desde que eu era menino e vinha passear nesta montanha com o meu avô. Provavelmente continuará depois que eu realizar a grande viagem”. Fez uma pequena pausa e continuou: “Uma raiz forte é indispensável para enfrentar as tormentas que existem na vida. Não é diferente com ninguém”. De pronto, perguntei o que era necessário para eu ter uma raiz tão poderosa capaz de me manter inabalável às piores tempestades.

“As raízes de cada um são o conjunto de três coisas: saber exatamente quem você é e não fugir ao combate do aperfeiçoamento pessoal”. Falei que faltava uma última coisa. Ele olhou para a árvore-equilibrista antes de concluir: “A terceira parte da raiz consiste em dominar a arte do equilíbrio improvável. Lembrar-me disto foi a função desta árvore por toda a minha vida. Isto a torna sagrada para mim”.

A Lei dos Ciclos.

 

O Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo do mosteiro, tinha sido convidado para ministrar uma palestra em prestigiosa universidade. Nessa época, eu era o discípulo designado a acompanhá-lo. Ao final de seu discurso, como de costume, respondia a uma infinidade de perguntas. Sua abordagem sobre os vários aspectos da vida era sempre desconcertante. Dessa vez, não foi diferente. Ele atendeu a todos com carinho e paciência. Já no metrô, de volta ao hotel, uma mulher veio falar conosco. Explicou que tinha assistido à palestra e nos chamou para almoçar. Brincou ao dizer que era uma maneira de arrancar mais um pouquinho do monge. Aceitamos, e fomos para um restaurante próximo. Já acomodados, ela falou um pouco sobre a sua vida e se lamentou que determinada situação sempre se repetia, como uma história que insistia em ser recontada infinitas vezes, algo que a entristecia e lamentou o próprio carma. O Velho a olhou com bondade e disse: “Penso que há um equívoco em relação ao entendimento do que os antigos denominaram como carma. Hoje em dia, falam como se significasse uma punição. Não, de jeito nenhum. Carma é aprendizado”.

“Não faz sentido que o Universo, com toda generosidade e mestria, tenha qualquer outra intenção, salvo a de nos aperfeiçoar. Muitas vezes a lição endurece em razão da teimosia ou do embrutecimento do aluno. Lição aprendida, carma extinto. Simples assim”.

A face oculta do ciúme.

 

Aos domingos, sempre que possível, eu assisto a missa na catedral da pequena e charmosa cidade que se situa no sopé da montanha que abriga o mosteiro. Naquele dia, o sermão do padre alertava para o que considerava uma banalização dos relacionamentos afetivos, onde as pessoas investiam pouco, segundo ele, não só na construção e adequação da vida a dois, como no convívio social em si. Ele clamava por paciência e compaixão em relação ao outro. Em suas palavras, a humanidade está desistindo de si própria com muita facilidade. Encerrado o cerimonial, eu caminhava por entre as vielas de pedras silenciosas refletindo em tudo que foi dito e os muitos aspectos que envolvem a questão, quando fui surpreendido por Loureiro, o amante dos vinhos e dos livros, em sua antiga bicicleta a me cruzar os passos. Um bom sinal, já que o artesão era um dos últimos bastiões em remendar bolsas e sapatos como opção à troca. A sapataria era o seu ofício, na filosofia exercia a sua arte. Feliz por me ver, sugeriu que sentássemos em uma cafeteria próxima.

Com duas xícaras fumegantes à frente, puxei a conversa falando sobre o sermão dominical e a larga complexidade de uma tendência atual, com suas várias facetas. O sapateiro bebericou o café e quando faria um comentário, nossa atenção foi desviada para um jovem casal que discutia na mesa ao lado. Embora fizessem em voz baixa, quase inaudível, as feições fechadas revelavam uma tempestade de sentimentos conflitantes. O rapaz se retirou de maneira repentina. Em seguida, os olhos da moça se banharam em lágrimas. Loureiro a convidou para sentar conosco e disse para ficar à vontade para conversar ou apenas ouvir. Deu-lhe a palavra de que não faríamos qualquer pergunta. A intenção, sem que fosse dita, era apenas para ela não sentir eventual sensação de abandono. A jovem aceitou e confessou que precisava desabafar. O artesão concordou: “O mais importante em uma conversa nem sempre são os conselhos que recebemos, porém, ouvir a própria voz. Falar costuma nos revelar segredos inconfessáveis do próprio inconsciente”.

A pena além da pena.

 

Toda vez que eu tinha que ir à pequena e charmosa cidade situada no sopé da montanha que abriga o mosteiro não perdia a oportunidade de visitar o Loureiro, o elegante sapateiro, amante dos livros e vinhos. Remendar o couro era o seu ofício; costurar ideias, a arte. Nem sempre eu conseguia encontrá-lo, pois sua oficina funcionava em horários aleatórios. Naquele dia, já ao final da tarde, me alegrei ao ver a sua antiga bicicleta encostada ao poste em frente à loja. Um bom sinal. O bom amigo pediu que esperasse um pouco para terminar um serviço e, em seguida, seguimos para uma silenciosa taberna em busca de boa prosa e uma taça de tinto. Ao garçom que nos atendeu, ele pediu um pedaço de queijo, de marca famosa, para acompanhar o vinho. De imediato retruquei lembrando que o dono daquele conhecido laticínio havia sido condenado por um crime gravíssimo. Falei que não me sentia à vontade para comer daquela marca de queijo e sugeri que pedíssemos uma outra coisa. “Comer do queijo te fará cúmplice do crime?”, perguntou o artesão. Respondi que não iria compactuar com atitudes ultrajantes e acrescentei que agia de acordo com a minha consciência. Ele me olhou com bondade antes de falar: “Sim, sempre agimos em sintonia com as nossas melhores razões e é muito ruim quando isto não acontece. No entanto, expandir a consciência além dos condicionamentos sociais será sempre um exercício de transformação e leveza”.

“Para tanto, a pergunta que devemos fazer é: qual o sentimento que me move? Pois, palavras e atos revelam o que cada qual traz no coração”. De pronto falei que a vontade de fazer justiça me levava àquela decisão. “O sujeito já não cumpre a pena imposta por uma sentença condenatória aplicada por um juiz de Direito”? Eu disse que sim e ele prosseguiu com outra pergunta: “Por que o desejo de ser mais real do que o rei”? Falei que não tinha entendido a colocação. “Toda sociedade é regulada por um conjunto de leis que lhe estabelecem direitos e deveres; regras e limites objetivando a boa convivência”. Interrompi alegando que muitas leis são injustas, algumas rigorosas demais, outras lenientes em demasia. Fora as que beneficiam determinados grupos em detrimento de outros. “É verdade”, concordou o sapateiro para acrescentar em seguida: “Entretanto, toda legislação espelha o exato ponto de evolução da média daquela sociedade e avança conforme haja transformações pessoais. Impor mudanças sem conscientização sedimentada no âmago do ser não se sustenta e não levará às necessárias metamorfoses. Será apenas maquiagem. Cada qual deve ser o retrato da sociedade que almeja através de suas ações. As leis, naturalmente com algum atraso, virão a reboque. Só assim subiremos os degraus”.

Memórias contaminadas.

 

Um dos trabalhos que eu mais gostava de realizar era o de ajudar o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, a cuidar do jardim interno do mosteiro. Aprendi que tudo no mundo reage na exata medida dos nossos sentimentos, em troca incessante. Com as plantas não é diferente. De sobra ainda conversava com o monge e ouvia as suas conversas com outras pessoas. Tudo era aprendizado. Naquele dia, lembro-me bem, fazia um frio não muito intenso em céu azul e o calor do sol trazia um aconchego morno ao corpo, o monge foi surpreendido pela visita de uma sobrinha. A moça, na casa dos vinte anos, estava com a alma em grande bagunça; não conseguia alinhar ideias e sentimentos.

O motivo era o seu relacionamento com o pai. Desde o berço a jovem morou apenas com a mãe. Esta, logo se casou e teve outro filho. Sempre teve uma boa convivência em casa com o irmão e o marido da mãe. O pai, ainda que pese as grandes diferenças de relacionamento com a mãe, nunca deixou de procurar a filha, embora não na maneira que a menina desejava, entendia ou lhe foi dito que ele precisava fazer. Nos últimos tempos as tentativas do pai em se fazer mais presente a incomodavam de uma maneira que ela não sabia explicar, embora não admitisse, e mostravam uma escura lacuna sentimental que necessitava ser colorida. Ela nem sempre reagia bem a essas investidas paternas.

Sentados em um banco de pedra, a jovem desfiou um rosário de situações passadas em que apontava a ausência do pai, onde entendia que ele deveria ter sido atuante. A presença dele, agora mais intensa, de algum jeito, trazia desconforto. O Velho a ouviu com a sua enorme paciência até que ela esgotasse o rol de críticas.  Depois, ele disse com ternura: “Existe um mar de ressentimentos e você parece se afogar nele. Sobreviver nas águas da mágoa só é possível com a boia do perdão; perdoar é respeitar o direito do outro as mesmas infinitas oportunidades que você teve e tem”. Olhou a sobrinha nos olhos e perguntou: “Onde você estaria se a cada equívoco não lhe fosse permitido renovar as chances”? Sem esperar resposta, complementou: “Somente o conhecimento de si próprio concede as bênçãos da tolerância para com toda a gente, degrau fundamental para a paz”.

Maravilhosos vilões.

 

Na pequena e secular cidade, situada no sopé da montanha que abriga o mosteiro, tem um antigo e charmoso cinema em frente à praça da igreja que eu frequentava sempre que os afazeres da Ordem permitiam. Nessa noite, ao final da sessão, encontrei com Loureiro, meu amigo artesão, amante dos livros e dos vinhos. Filosofia e tinto eram as suas preferências. Consertar sapatos era o seu ofício; remendar almas, sua arte. Ele logo me convidou para uma taça em uma silenciosa taberna próxima. A conversa versou sobre o filme que acabáramos de assistir. Eu disse que o que mais me chamava a atenção era o fato de o vilão ter “roubado” a cena, face o excelente trabalho do ator na composição do personagem. O elegante artesão bebeu um gole antes de falar: “Quanto melhor o vilão, mais interessante é o herói. O vilão é essencial na vida do herói, por ajudar no seu aprimoramento. Assim na arte como na vida”.

Discordei de maneira veemente. Eu conhecia pessoas insuportáveis e o meu desejo era simplesmente fazê-las desaparecer como que em um passe de mágica. Loureiro riu e disse: “Se todos nós tivéssemos esse poder, perderíamos as melhores oportunidades de aprendizado e, consequentemente, de evolução. Os vilões têm um importante papel em nossas vidas, assim como nas telas. São os conflitos que movimentam as histórias tanto na realidade quanto na ficção e, para tanto, é indispensável que o antagonista provoque o protagonista a descobrir o melhor de si”.

A melhor parte.

Quando o homem chegou em frente ao mosteiro, o céu ainda era um manto de estrelas. Desceu do carro para apreciar a beleza da construção apenas em seus contornos, possível pelas poucas lâmpadas acesas. Alguém tinha lhe falado da Ordem, da sua raiz secular, dos estudos de filosofia e metafísica aos quais seus monges se dedicavam, além dos trabalhos comunitários. Os únicos sons que ouvia eram dos animais noturnos da floresta próxima. Ele ainda era jovem e tinha abandonado a medicina dois anos após se diplomar, quando terminara a especialização em psiquiatria, para apostar em uma sociedade empresarial com um bom amigo. Os negócios deram certo e tinha ganho muito dinheiro. Comprou um apartamento confortável em badalado bairro de uma metrópole muito apreciada em cartões postais; teve carros caros, mulheres lindas e cobiçadas, viajou pelo mundo, mas nada arrancava ou preenchia o vazio em seu peito, como uma espécie de buraco negro que aos poucos parecia engolir toda a sua luz. Foi surpreendido por um ruído de passos vindo da mata, mas não sentiu medo. Virou-se e viu um facho de luz se aproximando aos poucos. Um monge, com a cabeça coberta pelo capuz a se proteger do frio, caminhava em passos lentos, porém firmes, com um pequeno cesto em uma das mãos e uma lanterna na outra. “As amoras ficam mais saborosas quando colhidas sob o orvalho”, disse o monge quando bem próximo, a mostrar as pequenas frutas acomodadas no cesto. “Adoro geleia”, complementou com absurda naturalidade de quem parecia esperar uma visita desconhecida naquela hora da madrugada. Convidou-o para entrar e tomar um café.

O jovem se apresentou enquanto se dirigiam ao refeitório e perguntou o nome do monge. “Todos me chamam de Velho”. Diante da feição de espanto do outro, acrescentou o ancião: “Penso que é um bom nome. A velhice me trouxe evidentes limitações físicas, um aviso para que eu perceba que a próxima estação está próxima. Por outro lado, me libertou de medos e iluminou sombras. Me fez entender o Caminho, ser leve, aprender o valor da dignidade, o sentido da liberdade e a importância do amor sobre todas as coisas e pessoas. Deu-me uma plenitude no sentir que o vigor da minha juventude não ofereceu e teve o mérito de me trazer até aqui”. Abaixou o capuz para que o homem pudesse apreciar o seu rosto vincado e complementou: “Quando me olho no espelho vejo cada ruga como um capítulo da minha vida, a contar as guerras que precisei atravessar para entender o valor da paz, como um caravaneiro que precisa enfrentar o deserto inóspito para entender toda a beleza e valor do oásis, que por ironia, sempre esteve escondido dentro dele, à sua espera”, finalizou com sua voz mansa e sorriso sincero.

O encantamento dos rituais.

 

A manhã parecia modorrenta. Era o último dia do ano e eu acompanhava pela web os preparativos para as festas em vários lugares do mundo. Todos os jornais traziam as mesmas notícias. A preguiça e o mau humor estavam instalados nas minhas entranhas. Após o desjejum, o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, percebendo o desânimo, me convidou para uma caminhada por uma das trilhas na floresta da montanha que abriga o mosteiro. Por algum motivo que não sei explicar, andar ativa a mente e comecei a desfiar minhas lamentações sobre a desnecessidade das comemorações de Ano Novo, afinal seria uma noite como as outras, com nuvens ou estrelas e o sol inexoravelmente raiaria pela manhã. O monge nada comentou. Animado ao imaginar que ele concordava comigo, quis saber o que ele pensava. O Velho me olhou rapidamente, me ofereceu um sorriso gaiato e disse: “Acho que você está muito chato, Yoskhaz” e continuou andando.

Tristes credores.

 

O vento frio do outono circulava junto comigo pelas estreitas e sinuosas ruas de pedra da secular cidadezinha situada no sopé da montanha que abriga o mosteiro. A tarde ainda estava pela metade, eu já tinha encerrado os meus afazeres e aguardava uma carona que só aconteceria no início da noite. Meu corpo encolhido se protegia das rajadas por entre muros e reentrâncias das charmosas construções, até que vi a antiga bicicleta de Loureiro, o elegante sapateiro, amante dos livros e vinhos, encostada no poste em frente à sua oficina. Consertar sapatos era o seu ofício; remendar almas, um dom. Satisfeito com a sorte, pensei que nada podia ser melhor do que um café quente acompanhado de boa conversa em um final de tarde vadia. Assim que entrei na loja quase fui derrubado por uma bela mulher, já de meia-idade, que saiu como um trator desgovernado pela própria irritação. O bom artesão me recebeu com o seu melhor sorriso e, logo após sentarmos diante de duas canecas fumegantes colocadas sobre o balcão da oficina, disse se referindo a mulher que por pouco não me levou ao chão: “É uma credora emocional. Uma triste e eterna credora”, deu uma pausa antes de completar: “Pelo menos é assim que se arvora diante de todos que cruzam os seus passos”.

Eu quis saber sobre a razão do termo. Ele explicou: “Os tristes credores são aqueles que não sabem reagir diante das dificuldades que se impõem. Como sabemos, sempre viveremos situações desconfortáveis e, por pior que seja, o problema nunca é o problema em si, mas a dificuldade de reação diante da situação. A inércia é prejudicial e surge por não percebermos as lições escondidas por trás de todos os problemas. É fundamental entender que todos os conflitos trazem consigo mestres ocultos a despertar o melhor de nossas capacidades. Todos os problemas são ferramentas de transformação pessoal, desde que o enfrentemos com dignidade e sabedoria”.

As sutilezas da verdade.

O Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, cuidava do jardim no pátio interno do mosteiro quando chegou um homem que nos procurou em busca de amparo às suas aflições. Sentia-se atormentado com uma série de atitudes do passado que, agora, vinham lhe corroer a consciência. O Velho fez sinal para que eu mesmo o atendesse sentado à sombra da roseira. O homem me contou uma triste história onde impusera dor e sofrimento a outras pessoas. Indignado, fui duro em minhas palavras, sem poupar a minha revolta pelo que acabara de ouvir. Visivelmente constrangido, o homem agradeceu, por educação, não por sentimento, se levantou e foi embora. O monge que a tudo assistira, disse: “A sabedoria milenar nos ensina que ‘não é não; sim é sim’, mas temos a escolha de dizer a verdade com mel ou com fel”. Retruquei dizendo que não podemos vacilar com a verdade. Dura ou amarga ela tem que ser dita. “Nesse caso, ele tinha a exata medida dos equívocos do passado, precisando mais de compaixão do que de reprimenda”, o monge expôs seu ponto de vista.

O Velho repousou o alicate no bolso, me ofereceu um sorriso bondoso e falou: “A verdade será sempre um valioso remédio. Como todo medicamento, a dose inadequada se torna veneno”.

A fuga do mundo.

Era um típico dia de inverno. O céu azul, completamente sem nuvens, permitia que o sol nos acariciasse a pele sobre o casaco de lã, em gostosa sensação de aconchego. O dia ainda amanhecia quando fui chamado ao portão para encaminhar um senhorzinho que desejava conversar com o Velho, como carinhosamente chamávamos o decano da Ordem. Como era cedo, o monge sugeriu que a conversa fosse no refeitório ao imaginar que o visitante partira ainda no escuro para alcançar o mosteiro, na montanha, àquela hora. Como a meditação era a primeira atividade do dia, ainda em jejum, e já realizada, todos nos sentamos à enorme mesa. Quando os demais monges se retiraram para os seus afazeres, o Velho perguntou ao visitante como poderia ajudá-lo. O homem manifestou a vontade de fugir do mundo, vez que a solidão o corroía por se sentir abandonado por filhos e netos, cujas visitas eram cada vez mais raras. Tinha a forte resolução de abraçar a vida monástica, aderindo às fileiras da Ordem. Com o olhar suave e voz repleta de bondade, o monge começou a explicar: “Solidão não significa desistência, tampouco fugir do mundo lhe trará a desejada paz. É necessário entender a busca para direcionar o leme do destino”. O homem declarou que estava cansado das ingratidões da vida em sociedade, que tinha se dedicado ao trabalho e à família por toda sua existência para receber apenas esquecimento como moeda de troca. Amargurado, confessou que, se não tinha mais importância para os seus, era melhor se afastar.

“Tudo errado”, disse o velho depois de ouvir com paciência todo o rosário de lamentações. “Para começar é bom lembrar que cada qual tem seus afazeres, compromissos e interesses que tomam tempo. Todos têm uma vida pessoal para cuidar. Aceitar que não somos o centro da vida alheia é um bom início para afastar as lamentações indevidas”.

O sentido da vitória.

 

Era fim de tarde, estávamos sentados na estação a espera do trem que nos levaria até a pequena cidade no sopé da montanha que acolhe o mosteiro. Tínhamos ido visitar uma jovem que passava por tratamento oncológico em um moderno hospital de uma metrópole não muito distante. Como de costume, o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, parecia encantado com tudo a sua volta. O movimento, as lojas, as pessoas; a alegria e a tristeza nas chegadas ou partidas; os abraços emocionados, sorrisos e choros de encontros e despedidas; os solitários. “Esta gare é a síntese do mundo”, comentou sem me olhar, sabendo que eu o observava. Comentei que achava estranho a mania de ele encontrar beleza em tudo e em todos. “É preciso exercitar o ver-além das aparências, das formas e, principalmente, da ilusão. É necessário nos encantar com a essência. O Mestre nos ensinou que ‘quando seu olho é bom, todo o seu corpo é luz’”, citou um pequeno trecho do Sermão da Montanha.

O poder das escolhas.

 

“Ser forte é uma escolha. Ninguém nasce corajoso ou covarde, no entanto, todos os dias, a toda hora, fazemos a escolha por fugir ou enfrentar a batalha que se apresenta dentro e fora de nós”, falou Canção Estrelada, o xamã que através da palavra, cantada ou não, narrava a sabedoria ancestral do seu povo. Estávamos apenas os dois, sentados em torno de uma pequena fogueira sob o manto de estrelas a inspirar a conversa. Naquele dia tinha ocorrido um cerimonial destinado aos jovens da tribo que selava a passagem da adolescência para a vida adulta. Lembrei das palavras ditas pelo xamã ao encerrar o ritual: “O entendimento de que você é capaz de resolver os problemas que surgem, a aceitação da responsabilidade que lhe cabe e a coragem para a luta, desenham a maturidade formada no guerreiro, que somente após ser lapidado em muitas batalhas estará pronto para se sentar entre os sábios”.

O escudo contra o mal.

“Solicitar ajuda das forças luminosas do Universo em prol de uma dificuldade da qual não se tem nenhum controle é louvável, pois demonstra humildade”, disse o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, a um homem que veio ao mosteiro suscitar auxílio em uma situação que lhe afligia. Em seguida alertou: “No entanto, pedir auxílio para que façam o trabalho que lhe cabe, apenas revela a falta de entendimento das Leis, pois não acontecerá. A vida não endurece para maltratar, mas para ensinar. Não há privilégios, apenas lições”

Como uma tempestade que chega sem anunciar, a vida desse homem parecia, de uma hora para outra, virada ao avesso. Brigas familiares insensatas e complicações profissionais que levaram à dificuldade financeira inesperada, eram as consequências imediatas e visíveis do inferno que ele vivia em solo terreno. Com os olhos mareados, se confessou desorientado para continuar na luta. Estávamos no refeitório, os três, e eu lhes servia café com bolo de milho. O homem, de ótima aparência e muito culto, narrou que até há poucas semanas navegava em águas tranquilas pelos mares da vida. Uma família aparentemente bem estruturada; sócio de uma empresa que gerava lucros suficientes para sustentar condição material bem acima da média. Até que, em algum momento, tudo desandou.

“A vida exige movimento. Assim, te fará caminhar por gosto ou imposição. A inércia e o comodismo são ferramentas das sombras a atolar o viajante. Aos que buscam incessantemente o aperfeiçoamento do próprio ser, a vida há de ser generosa, a fornecer todas as condições necessárias para o prosseguimento de uma viagem serena”, explicou o Velho. Deu uma pequena pausa, sorveu um gole de café e prosseguiu: “Aos que se iludem eleitos dos deuses, alheios a tudo e a todos, aos que se imaginam ‘escolhidos’, não tardará o desequilíbrio sobre as situações que o sustentam. A Lei do Serviço é parte do Código Não Escrito e obriga ao trabalho e ao progresso espiritual. Crises emocionais, brigas afetivas, desavenças familiares, dificuldades econômicas ou doenças, são alguns dos instrumentos de instabilidade utilizados pelo Universo para impor novo momento de adaptabilidade diante da realidade alterada.  Agora a criatura caminhará por necessidade”.

“O Caminho é muito generoso em te permitir escolher as rotas da viagem, entretanto, muito justo em elaborar as dificuldades inerentes ao trajeto. O Mestre ensinou há milênios que devemos atravessar a porta estreita das virtudes. No entanto, muitos ainda escolhem seguir pela estrada larga das vantagens indevidas. Afagam o ego em prejuízo a alma. O resultado? Após os prazeres imediatos e transitórios, anda-se em círculos por trilhas cada vez mais escuras e esburacadas. Agonia e tristeza se apresentam como companheiras de viagem”. O homem, muito sensibilizado, confessou que, de fato, não vinha oferecendo o melhor de si. Aflito, perguntou ao Velho como poderia mudar a própria vida, pois não sabia para onde seguir. O monge arqueou os lábios em um sorriso repleto de compaixão e disse: “Quer um novo Caminho? Basta mudar o seu jeito de caminhar”.

“Problemas sinalizam a necessidade de mudanças. Entenda o que você precisa transformar em si e se dedique a isto com sinceridade. Só então chegará a ajuda da esfera invisível”.

O homem argumentou que sofria muito, não imaginava como fazer e, mais, a atual situação se mostrava tão nebulosa que não acreditava ser capaz de solucionar todos os problemas sem a ajuda das forças superiores. O Velho respondeu com a voz bondosa: “O Universo não quer que você sofra, porém exige que você evolua para chegar a próxima estação. Aprender, se transformar, compartilhar e seguir são momentos distintos de cada etapa nas inúmeras existências permitidas, como escolas de sabedoria e amor”.

O homem disse que precisava também de muita proteção, pois tudo de ruim parecia acontecer a ele naquele momento. O monge mordiscou um pedaço do bolo e falou: “Estamos sujeitos à inexorável Lei da Ação e Reação, uma das que compõe o Código Não Escrito. Ela atrai para a sua vida pessoas e situações que lhe são adequadas, não por punição, mas de acordo com o rigor necessário para o aprendizado do aluno, no mesmo diapasão de suas atitudes. O perfume da flor atrai pássaros e borboletas; o odor do esgoto chama para si os ratos e as baratas. Assim, escolhemos os que nos acompanham e definimos o destino próximo”.

“Ninguém está fora do alcance das Leis. Os guardiões ou anjos do Universo ficam impedidos de interferir em razão da situação conflitante ser parte da lição que cabe a você. Assim, você precisa se ajudar para ser ajudado. É uma grande ilusão achar que a casa do mal é o mundo. A sua raiz está em cada um de nós, em maior ou menor intensidade, a depender da expansão de consciência individual. Acredite, ninguém lhe prejudica mais do que você mesmo. Equalizar emoções e pensamentos nas ondas de Luz, envolvendo-os com amor, para que possam se materializar em boas atitudes é a defesa mais eficaz contra o mal. Pois, cria uma abóbada de proteção energética a sua volta, a permitir a aproximação de seus exércitos com maior rapidez, permissão e poder. Como pode ver, o melhor escudo contra o mal é um coração puro”.

“Nunca lhe faltará o auxílio. Entretanto, cada qual terá a ajuda na exata medida das suas necessidades de desenvolvimento, da vontade sincera de se transformar, de semear flores para quem vem atrás. Não podemos esquecer que as dificuldades nos trazem as lições indispensáveis para o aprimoramento da alma, muitas vezes ainda bem embrutecida, necessitando de métodos rigorosos de aprendizado”.

“Reflexões e meditações no encontro consigo próprio são ferramentas poderosas para a ampliação de consciência. Leituras auxiliam na criação de ideias e sustentação filosófica. As preces germinadas no coração são de extremo valor, pois auxiliam no equilíbrio emocional e o auxílio rogado, de algum jeito, nunca faltará, no entanto, não esqueça que santo nenhum dará os passos que cabem a você. A ajuda jamais chegará em forma de carroças repletas de ouro ou que a pessoa amada se dobre aos seus desejos. O auxílio vem através de sinais que indicam um novo sentido e aos ‘acasos’ que criam situações inimagináveis a fim de nos proteger. Ou por intermédio de intuições luminosas que indicam as indispensáveis metamorfoses da alma, as mudanças em seu sentir, pensar e agir”.

“Esta é a alquimia da vida: a transformação de sombras em luz, de dor em amor. Este é o mais precioso dos milagres e muitos nem se dão conta de que os têm na mão”.

Como um vício moderno, o homem reclamou da situação do planeta, que está tudo errado em todo lugar e do mal que parece campear sem rédeas. O monge mirou em seus olhos com doçura e falou: “Quando lamentamos o mundo, criticamos a nossa própria situação interna. O mal é fruto das sombras que habitam cada um de nós, nossas imperfeições e dificuldades, a formar um coletivo de iniquidades. Do contrário é também verdadeiro afirmar que somos a Luz na construção do bem e na manutenção da Obra. Através dos séculos o mundo sempre foi a exata fotografia de nossos corações. Do meu e do seu. Quer mudar o mundo? Transforme a si próprio. Como? Aperfeiçoe as suas escolhas”. O homem acenou com a cabeça em concordância, mais por desconcerto do que por satisfação.

Em seguida, tornou a lamentar a própria situação e insistiu que lhe fosse dito como, de forma objetiva, poderia reverter as atuais dificuldades. “Não faço a menor ideia”, disse o Velho. Diante do olhar atônito do homem, pediu para que eu lhe servisse mais um pouco de café e explicou: “Administrar a vida alheia é muito fácil e tentador, entretanto também demonstra leviandade e arrogância. O exercício da vida, com suas dores e delícias, é a ferramenta pessoal e intransferível de que dispomos para desenvolver as asas da alma, alavancar a nossa evolução. Entenda, aceite e use adequadamente a liberdade de buscar e decidir”.

“Apesar de nunca lhe faltar ajuda – e que sejamos claros, não para um desfecho mágico dos seus problemas, pois o auxílio não será na medida dos desejos do seu ego, mas das necessidades de sua alma, ou seja, por intermédio de condições para alterar, por si e através de si, a realidade – a parte mais importante do processo terá que ser feita por você, na ampliação de sua consciência, no burilar do coração, no desapego dos velhos conceitos. Medidas que refletirão no aprimoramento das suas escolhas”.

Observou o homem por alguns instantes e aconselhou: “Procure o silêncio e a quietude para ficar a sós consigo. Mergulhe fundo, conhecer a si próprio é a estrada para a plenitude. Estabeleça para si mesmo cláusulas invioláveis de amor e dignidade. Perceba o que precisa ser modificado em sua vida. Absolutamente tudo pode ser diferente e melhor. Todos os sábios já fizeram isso para romper a dureza do casulo e sentir as asas da liberdade”.

O Velho pediu para unirmos as mãos e fez uma prece sentida por amor e Luz. O homem agradeceu educadamente a conversa, a oração e partiu. A sós com o Velho, falei que tinha a impressão de que o visitante tinha ficado um tanto decepcionado. “Poucos aceitam os encargos e o trabalho que lhes cabem. Todavia, se as minhas palavras forem uma boa semente, cedo ou tarde germinará”, disse o monge. Deu uma pequena pausa e finalizou: “Na verdade, as transformações exigem grandes esforços que nem todos parecem dispostos a operar. Pensam ser mais fácil rogar por um milagre, que nunca virá, pois o bom educador não faz o dever do aluno. Roga-se por socorro para que se materialize um castelo de muros altos a garantir privilégios e mordomia, quando, na realidade, a ajuda sempre chegará em forma de ponte, toda vez que existir a vontade sincera do andarilho em caminhar e atravessar o abismo”.

 

 

Meu personagem favorito.

Estava com Loureiro em uma taberna na pequena e secular cidade próxima da montanha que acolhe o mosteiro. Tínhamos acabado de trocar ideias sobre sofrimentos e decepções. O bom sapateiro fundamentara, com mestria, que o amor não é causa de nenhuma dor e vem sendo injustiçado, desde sempre, por darmos ouvidos às sombras, emoções sem nobreza, ao invés de compreendermos toda a grandeza de um sentimento capaz de mudar o mundo pela capacidade de fazer florescer o melhor que existe em nós. Já tínhamos solicitado a conta, quando, de repente, ele diz: “Mas penso que não é só. Sempre que falamos das sombras nos referimos àquelas mais conhecidas como inveja, medo, ciúme, vaidade e ignorância. Muitas vezes esquecemos a mentira, talvez por nos ser tão íntima”. Confesso que fiquei atônito. Ele percebeu, riu e explicou: “De todas as sombras, talvez a mentira seja o cárcere de libertação mais difícil, por ser a mais sorrateira. Falo da mentira que contamos para nós mesmos. Ela nos leva à fuga da realidade na ilusão do conforto de quem teme as atribulações do bom combate. Essa sombra no leva a criar e a interpretar papéis distantes da verdade”. Deu uma pequena pausa e foi adiante: “Existe mais da nossa essência na parte que escondemos do que no pedaço que mostramos; há mais oculto no fundo da gaveta do que aquilo exposto na vitrine. Isto é o que vendemos de nós, aquilo é o que somos. Esta é a razão de muitas frustrações”.

Pedi para que fosse mais claro no seu raciocínio. O bom sapateiro teve boa vontade: “Criamos personagens, repletos de virtudes que ainda não temos, a nos representar nos círculos sociais. Todos desejam ser amados, admirados e idolatrados. Na superfície todos conseguem se mostrar bons e circulam na ilusão de ser o que ainda não são. No entanto, os relacionamentos impõem a hora do mergulho profundo”. Deu uma pausa e concluiu: “Então, a intimidade irá revelar o melhor e, também, o pior que há em nós. É inevitável”.

Ninguém sofre por amor.

Era aquela hora indefinida em que não sabemos se é dia ou noite. Algumas lojas já começavam a se preparar para fechar. Apressei o passo pelas estreitas e sinuosas ruas da secular cidade próxima à montanha que acolhe o mosteiro da Ordem. Queria encontrar a oficina de Loureiro ainda aberta para convidá-lo a beber uma taça e conversar. O elegante sapateiro era amante dos livros e dos vinhos. Filosofia e os tintos eram a sua preferência. A sua antiga bicicleta encostada no poste em frente era sinal de que eu estava com sorte. Quando entrei na loja quase esbarrei com uma bela jovem que saía. Percebi suas feições tristes e os olhos avermelhados de chorar. Fui recebido com a alegria de sempre. Loureiro era um príncipe, seu reino era a nobreza no trato pessoal com toda a gente, a elegância dos gestos e do pensamento. Ele costumava dizer que “É preciso iluminar os passos e não empurrar para o abismo. A hora e a maneira de usar as palavras é uma mestria”. Sem que eu precisasse perguntar, me disse que a moça era sua sobrinha e tinha vindo conversar sobre a recente separação. A moça estava inconsolável.

Seguimos para taberna e depois do primeiro gole, comentei o fato das pessoas se abrirem tanto com ele. “Talvez por eu nada perguntar. Acho que isto as deixa à vontade para falar”. Conversamos um pouco sobre o motivo de os relacionamentos afetivos causarem tanto sofrimento. Aproveitei para falar sobre algo que me intrigava: se o amor é algo tão bom, por que este precioso sentimento causa tanta tristeza?

O sapateiro se mostrou logo disposto a enfrentar a questão: “Antes de tudo, se faz necessário entender o amor. Sem nenhuma dúvida o amor é a força mais poderosa do universo, a energia que move e transforma o viajante para as próximas estações do Caminho. O amor é a matéria prima dos milagres desde o início dos tempos, a argamassa que une as pessoas, envolve os mais puros encontros, alimenta a humanidade em suas ceias espirituais. É o sentido da vida. Logo, que fique bem claro: ninguém sofre ou mata por amor”.

Alegria, alegria.

O Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, tinha sido convidado pelo vigário da igreja localizada na pequena e charmosa cidade próxima à montanha que abriga o mosteiro, um amigo de longa data, para proferir algumas palavras durante a missa de domingo. Ele me chamou para acompanhá-lo e nos fez chegar cedo para aguardar no banco da praça em frente à igreja. O Velho gostava de sentir o sol que aquecia o corpo diante da manhã fria de outono. O sol, o frio, os esquilos, pais que passeavam com seus filhos pequenos, filhos que passeavam com seus pais anciões, a algazarra das crianças, os jardins e os pássaros, enfim, a vida pulsando em todas as suas manifestações encantava o monge. “Tudo isso alimenta o meu silêncio”, comentou.

A missa transcorreu tranquilamente em seu cerimonial até que o Velho, foi chamado a subir no púlpito. O vigário alertou aos presentes que não estranhassem a linha de discurso do monge, embora profundamente cristão, pertencia a uma ordem esotérica secular, dedicada ao estudo da filosofia e da metafísica. O Velho agradeceu e iniciou: “Eu vou tecer algumas palavras sobre a grandeza da gratidão, essa virtude tão mal interpretada”.

“Alguns estão aqui aflitos a solicitar auxílio por problemas que se sentem incapazes de resolver; outros para agradecer pelas dádivas concedidas; muitos, apenas para se banharem nas energias de amor e luz que inundam esta casa. Cada qual com os seus motivos, razões, sentimentos e fé. Todos merecem acolhida, respeito e carinho. Mas desde sempre me fiz duas perguntas: qual o critério da esfera espiritual para atender as súplicas, vez que algumas são atendidas, outra não? A outra, qual a melhor maneira de agradecer por tudo de bom que foi ofertado? Foram questões que tomaram bastante tempo em minhas meditações”, fez uma pequena pausa para que todos refletissem por instantes e prosseguiu: “Conheço os que realizam doações preventivamente, como forma de ‘ficar bem’ com os amigos divinos a garantir proteção e privilégios. Há os que preenchem generosos cheques em prol de instituições religiosas e filantrópicas para ‘quitar a dívida’ do pedido atendido. Para estes e aqueles posso afiançar o total equívoco de suas intenções. O Céu ou o plano espiritual, independente do nome que lhe atribua, não é um balcão de negócios”. A voz do Velho tinha a habitual serenidade e, embora baixa, se podia ouvir claramente até a última fileira; o silêncio era absoluto.

O enigma da paciência.

O Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo do mosteiro, parecia encantado com as roseiras do pátio e as podava como bom jardineiro. Pedi para lhe fazer companhia. Ele anuiu com a cabeça e os seus olhos me indicaram um banco próximo para sentar. Ficamos em silêncio por um bom tempo a alimentar a alma com a quietude das horas. Até que perguntei se podíamos conversar. O monge arqueou os lábios em breve sorriso que interpretei como uma permissão. Discorri as minhas reflexões e dúvidas sobre a virtude da paciência e a sua importância para a felicidade. Ele ouviu sem dizer palavra, depois recolheu o alicate no bolso, acomodou-se à sombra em outro banco na minha frente e falou enquanto se distraia com uma pequena lagarta na palma da mão que acabara de arrancar da roseira: “A paciência é alimento indispensável da alma na estrada para a plenitude do ser, onde reside a paz”, pausou por alguns instantes como se buscasse as melhores palavras e seguiu: “No entanto, a paciência é uma virtude valiosa que possui um precioso enigma. A chave para decifrá-lo é a sensibilidade”.

De pronto, eu quis saber mais. O Velho me mirou nos olhos e disse: “Antes de qualquer coisa, há que se ter boa vontade com tudo e com todos. Entender que as pessoas se comportam de acordo com o seu nível de consciência e carga emocional momentânea e pretérita, ajuda a paciência a encontrar o seu lugar em nós. Não adianta ensinar uma criança a calcular uma raiz quadrada se ela ainda não domina as quatro operações básicas da matemática ou explicar algo enquanto está adormecida. Em nossas relações pessoais não é diferente. Ter esse compasso é perceber o passo do mundo, a entender que as relações se desenvolvem de acordo com a evolução e possibilidades dos interlocutores. A natureza não dá saltos. Aos poucos, tudo e todos se aperfeiçoam”.

Dever de casa.

 

Eu tinha terminado um longo e proveitoso período de estudos. Leituras, meditações, reflexões, conversas profundas, foram partes importantes da busca por conhecimento no ciclo encerrado. O Velho, como carinhosamente chamávamos o decano do mosteiro, me lembrou que teoria sem prática é remédio esquecido na gaveta, que perde a razão de existir por não curar. “Conhecimento só vira sabedoria quando vivenciado em todas as nossas relações”, alertava o monge para os discípulos. Eu me olhava de maneira diferente, como se possuidor de uma importante ferramenta em busca da melhor maneira de usá-la. Questionei ao velho monge qual seria, para mim, a melhor aplicação dos meus dons e talentos. Ele estava entretido na poda de uma roseira, mas sempre paciente com todos, me olhou por cima dos óculos e disse: “Não tenho tal correio. Toda escolha é importante, não sendo aconselhável transferi-la a ninguém, por mais querido e bem-intencionado que seja o interlocutor. O poder de decidir sobre o destino é, ou deveria ser, personalíssimo. Não abdique da liberdade que a vida lhe concede em suas escolhas, pois de qualquer forma, seja seguindo o seu coração ou a lógica alheia, você não escapará das responsabilidades e consequências. Portanto, erre ou acerte pelas suas verdades. A Vida lhe impõe o caminhar como única maneira de entender o Caminho”.

A grande aventura.

Eu caminhava pelas ruas medievais da pequenina cidade que fica no sopé da montanha que acolhe o mosteiro. Era acossado pelos ventos frios de outono que obrigavam a me proteger entre os vãos e muradas das antigas construções. Alegrei-me ao ver a clássica e bem conservada bicicleta de Loureiro encostada no poste em frente a sua oficina. Encontrei o bom sapateiro elegantemente vestido, como de costume, a trabalhar em uma cara bolsa de uma belíssima mulher, que aguardava o conserto. Fomos apresentados e o hábil artesão explicou que a jovem tinha sido amiga de escola da sua filha, portanto, a conhecia desde criança. Contente em me ver, ele pediu para que eu esperasse um pouco, pois queria me falar sobre um novo livro de filosofia enquanto tomávamos um café. Trabalhar sobre o couro era o ofício de Loureiro; prosear sobre filosofia, a sua arte. Nem tinha me aquietado em um canto, a bela mulher continuou a falar das viagens por lugares exóticos que já tinha feito. Passeios de balão sobre vulcões, saltos de paraquedas em queda livre, perigosas corredeiras em frágil caiaque, entre outras façanhas. Arrematou afirmando seu enorme gosto pela aventura. O sábio artesão, imerso no trabalho, não disse palavra. Logo em seguida, como se sentisse dificuldade na quietude e no silêncio, a jovem falou que não via a hora de iniciar a escalada ao Everest que programara para o próximo verão e começou a discorrer sobre os preparativos e riscos da nova empreitada. Até que em determinado momento da narrativa, disse que esse gosto pela aventura adquiriu do ex-marido. Nesse momento, o sapateiro sem levantar a cabeça, apenas me olhou por sobre os óculos que lhe corrigiam a vista cansada, permaneceu calado e voltou ao trabalho. Como em uma ópera previsível, logo em seguida, ela contou de como tinha sido feliz naqueles anos, mas fez questão de ressaltar, sem parecer muito sincera, que não gostaria de encontrá-lo em uma dessas viagens. Logo em seguida, deixou transparecer certa mágoa pelo fim do casamento, que evidentemente ocorrera contra a sua vontade. Loureiro levantou a cabeça, mirou a bela moça nos olhos e disse com bondade: “O mais interessante nas pessoas não é o que elas mostram, mas o que escondem”.

“Já parou para pensar que todo esse seu interesse por viagens pode estar apenas adiando a grande aventura da sua vida?”, perguntou para a moça, que de início pareceu curiosa, querendo saber ao que se referia o sapateiro. Ele explicou: “O que você tem que questionar é se viaja em busca de simples divertimento ou por fuga, na ilusão de retornar a um momento de sua vida que não existe mais. Pense bem”, pediu o sábio sapateiro.

Levemente irritada e com uma voz em um tom acima, disse acreditar que a história do seu casamento ainda estava longe de acabar, pois família do seu antigo marido a adorava e todos lhe afirmavam que ele jamais encontraria uma esposa melhor. O velho artesão, mantendo a voz baixa e doce, falou: “Você entende que todos esses passeios perigosos apenas ocultam a mais fantástica de todas as viagens que você algum dia ousou a realizar?”. A moça quis saber de qual viagem ele falava. “A da libertação”, concluiu o sapateiro.

Pelo prisma da Luz.

“O que nos faz bom ou mau não é o que nos acontece, mas como reagimos ao fato”, disse o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo do mosteiro, provocando uma grande discussão na universidade de uma grande metrópole, onde fora convidado para uma mesa de debates com filósofos, professores, cientistas e artistas. Um dos participantes, homem culto e gentil, discordou frontalmente, argumentando que as pessoas são frutos do meio em que vivem. Articulado com as palavras e ótima retórica, sustentou que as experiências do convívio social obrigam e aprisionam as escolhas, através de seus sucessos e traumas. O Velho tornou a discordar: “Atribuir ao mundo a responsabilidade por nossos erros é vestir a fantasia da pobre vítima. Isto não ajuda ninguém em nada. É fundamental que se dispa do personagem para entender que se pode fazer diferente. Seguir sem a culpa que limita, mas com a responsabilidade de que agora em diante fará melhor, pois terá compromisso com a Luz”.

A luz da verdade.

Eu andava amuado pelos cantos do mosteiro. Evitava tarefas que precisasse conversar com os outros discípulos ou monges. Tudo me irritava. Ao perceber o meu estranhamento, o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, me convidou para um passeio no jardim. Enquanto ele puxava conversa, eu insistia em respostas monossilábicas, a demostrar todo o meu mau humor. Em certo momento, o Velho falou: “Quanto mais iluminado é um espírito, mais bem-humorado é o seu comportamento. As Esferas Superiores, independente da forma como você as conceba, são revestidas em ambiente alegre. Ao contrário do que muitos intelectuais imaginam, não existe sabedoria na irritação e na impaciência. A verdade é libertadora, assim se torna fonte de infinita alegria e paz”. Neste instante eu parei de andar, olhei para o monge e lhe disse que essa era a questão do meu desânimo em relação à humanidade, pois a verdade de uma pessoa não era necessariamente a verdade da outra. Logo, eu não previa um final feliz para o mundo. O Velho sentou em um banco de madeira, como quem não tem pressa, antes de falar com sua voz suave: “A verdade é aparentemente instável, pois a consciência das pessoas está em constante evolução e diferentes níveis”. Interrompi sob a alegação de que ali estava o motivo de eternos conflitos. “Não”, rebateu o monge. “Exatamente neste ponto reside a Inteligência Cósmica. Ao impor a convivência entre aqueles que se encontram em distintos momentos evolutivos, permite que uns ensinem a outros. Ela nos torna alunos e professores em incessantes lições. Temos a oportunidade de vivenciar a beleza de compartilharmos amor e sabedoria através da convivência. Na medida que o entendimento se amplia, as pessoas, cada qual em seu momento, começam a perceber a importância de bens imateriais em detrimento às riquezas aparentes; a valorização de sentimentos mais sublimes ao invés das emoções mais sensoriais. Aos poucos o amor mostra a sua grandeza diante do ódio; o perdão liberta da mágoa. Somente na beleza da transformação individual será possível modificar e alinhar o planeta”.

A voz do coração.

Encontrei Canção Estrelada – o xamã recebera este nome por causa do seu dom de preservar e semear a tradição do seu povo através da palavra, cantada ou não – trocando o couro do seu tambor de duas faces em frente à sua tenda. Eu tinha resolvido sair da cidade por um tempo, andava chateado com as duras críticas que os originais do meu último romance tinham recebido, a ponto de me levar a duvidar do meu próprio talento como escritor. Até tinha recebido alguns elogios, no entanto as críticas foram ferozes e a tristeza me corroía as entranhas. Assim que o vi, derramei todas as minhas queixas. Do jeito que ele estava trabalhando, continuou e sem levantar os olhos, falou: “Você não está sabendo dar a exata medida às opiniões alheias. Nem todo elogio é sincero nem toda crítica é justa”. Ele parou de encordoar o tambor por alguns instantes, me mirou nos olhos e falou com sua voz mansa e rouca: “Já lhe ensinei sobre o Portal Sul, penso que chegou a hora de falar sobre o Portal Oeste, onde mora o urso na Roda de Cura”. Mandou-me descansar e que fosse ao seu encontro quando “o Grande Mistério agasalhasse a Terra com seu manto de estrelas”.

À noite encontrei o xamã sentado, sozinho, em frente a uma pequena fogueira. Convidou-me para fumarmos juntos o seu inseparável cachimbo de fornilho de pedra. Após algumas baforadas em silêncio, falou: “A Roda de Cura é o símbolo sagrado que representa a vida de cada um nesta existência. A vida é o tratamento de cura do espírito. A cada lição aprendida ou ferida cicatrizada avançamos um aro na Roda”. Deu uma pausa e prosseguiu: “No lado Oeste da Roda, onde o sol se põe, fica o espaço sagrado do Urso, a sua caverna, onde ele se retira para o sono invernal depois de experimentar todos os alimentos das demais estações”. Aguardei sem dizer palavra, pois não estava entendendo onde Canção Estrelada queria chegar. “O urso procura o silêncio da caverna para se aquietar e ficar um longo período a digerir tudo que comeu. Com a chegada da primavera, ele acorda mais forte para enfrentar e viver a vida. Esta é a lição e o poder do urso. Conosco não é diferente”. Insisti que continuava sem entender. Ele me olhou com sua enorme paciência e disse: “Cada vez mais as pessoas ouvem todas as vozes em detrimento às palavras do próprio coração. Escutam muito, mas entendem pouco. Percebo uma enorme busca por distração e divertimento, não que isto seja ruim, mas estão desaprendendo a ouvir a sua própria verdade, pois têm cada vez mais dificuldades em ficar apenas consigo, como se não entendessem que a solidão é um exercício necessário para escutar a voz do coração. Ou será que estão fugindo de encontrar consigo próprias? Por que temem tanto esse encontro?”.

Sabemos mais do que fazemos.

Mais um dia de trabalho se encerrava na pequena e secular cidade próxima à montanha que acolhe o mosteiro da Ordem. Apressei o passo na esperança de conseguir encontrar a oficina de Loureiro ainda aberta. Não que eu tivesse qualquer conserto a fazer, mas queria conversar um pouco com aquele amigo querido. Ao longe pude perceber a sua bicicleta ainda encostada ao poste de iluminação, sinal de que eu estava com sorte. O sapateiro, elegante como sempre no vestir e no agir, me recebeu com alegria e, para minha surpresa, estava com Sara, a Moreneta, como carinhosamente chamava a filha, uma belíssima e jovem mulher com longos cabelos negros, razão do apelido. Ela, que agora morava na capital, onde trabalhava e cursava o doutorado em prestigiosa universidade, tinha vindo passar uns dias com o pai. Muito meiga e educada disse que nos deixaria a sós para conversarmos e que o aguardaria mais tarde em casa. Loureiro me mostrou os novos livros de filosofia que a filha lhe trouxera de presente. A filosofia era a outra paixão do bom sapateiro. Ele me convidou para uma taça de vinho em uma silenciosa taverna próxima dali. Fomos a pé e antes mesmo de chegarmos, lhe indaguei de como foi a experiência de educar sozinho uma filha. “Sabemos mais do que somos. Todos temos conhecimentos que não conseguimos exercer. Então, a vida, em sua infinita inteligência, nos impõe conflitos e dificuldades para que entendamos a sua beleza e nos obrigue a vivenciá-los. Cabe a nós aproveitar as preciosas lições com alegre resignação”, falou de maneira a mostrar os alicerces do raciocínio que construiria.

A outra face.

 

Profundamente irritado, fui me sentar no final da enorme mesa onde todos juntos, discípulos e monges, fazem as suas refeições no mosteiro. No pátio, há pouco, eu tinha tido uma séria discussão com outro jovem discípulo. O Velho, como chamávamos carinhosamente o decano da Ordem, me observou por alguns momentos, mas me deixou quieto durante o almoço. Após todos se retirarem em silêncio, o velho monge se aproximou e me convidou para um passeio no jardim. Antes que ele perguntasse qualquer coisa, desfiei toda a minha indignação em relação ao colega que tinha sido bastante severo em suas críticas para comigo. Uma mãe tinha nos procurado em busca de apoio emocional e espiritual pela razão da imensurável dor de ter perdido um filho. Orientei-a para que se dirigisse ao orfanato mantido por nossa irmandade na pequena cidade, ao sopé da montanha que abriga o mosteiro, para que lá servisse voluntariamente por duas semanas e, somente então, nos procurasse para conversar. A minha intenção, expliquei de pronto ao monge, é que essa mãe entendesse que sempre existem dificuldades maiores que as nossas, mas que também, ali poderia ser um bom depositário para o amor que ela tinha no coração. Transferir o eixo do sentimento que nutria pelo filho que partiu para as crianças que não tinham pai e mãe, iria arrefecer a sua dor, dar sentido à vida e iluminar seus passos. Quando retornasse para conversar conosco estaria mais receptiva a ouvir as palavras que lhe acalentariam e explicariam as Leis Não Escritas do Caminho. No entanto, o outro discípulo me recriminou. Na sua opinião eu tinha sido insensível em não disponibilizar mais tempo para consolar a mãe no momento em que ela mais precisava, pois, uma boa palavra tem o poder de estancar a dor que sangra. Este era o conflito e o motivo da discussão.

Indaguei se eu estava errado. “Não”, respondeu o Velho. De imediato perguntei se ele chamaria o outro discípulo para uma conversa séria, seguida da devida repreensão e pedidos de desculpas. “Não”, tornou a falar o monge. Como assim? Um erro não tinha que ser reparado? Não somos responsáveis por nossos atos? Saraivei o Velho com perguntas repletas de indignação.

O monge me mirou com seus belos olhos, brilhantes de compaixão, emoldurados em pele vincada pelo tempo e pela luta, antes de dizer: “Quando duas pessoas discutem, ambas podem ter razão. Nesse caso, não havia solução errada e qualquer das duas medidas seria acertada”. Aleguei que a verdade era única. Ele discordou: “A verdade se aproxima de acordo com o nível de consciência das pessoas, a alterar, por causa e consequência, a sua sensibilidade em relação ao sentimento do mundo. Muito do que foi absoluto para você há anos, hoje não é mais revestido de convicção. A Verdade é una, entretanto, o seu real entendimento ocorre de mansinho, aos poucos, na medida de cada passo no Caminho”.

O mercador de sonhos.

Era noite alta e eu não conseguia dormir. Resolvi sair da tenda e encontrei Canção Estrelada – o xamã que recebera esse nome pelo seu dom de compartilhar a sabedoria nativa através de suas histórias, cantadas ou não – fumando seu inconfundível cachimbo de fornilho de pedra. Pedi permissão para sentar ao seu lado e lamentei que vinha com dificuldades para pegar no sono. Ele me olhou com seu jeito sereno, deu uma longa baforada e disse: “Você precisa ter uma conversa séria com o Mercador de Sonhos”. Claro que não entendi do que ele falava e pedi para que fosse mais claro. “Você sabe por que os índios pintam o rosto quando vão a um cerimonial ou quando antigamente iam à guerra?”, a sua pergunta tornava tudo ainda mais confuso em minha mente. Diante da minha negativa, ele falou: “As pinturas não são aleatórias ou estéticas, mas revelam, de acordo com as cores e os traços, a magia de cada um”. Magia? Quis saber a que se referia com este termo. “Todos, sem exceção, temos nossos dons e talentos que devemos usar com criatividade. A sua magia é o que lhe torna especial. Ela pode se expressar de diversas maneiras seja pelo dom da sabedoria através do talento de ensinar, da compaixão para acolher os necessitados, da verdade para semear a justiça, da coragem para oferecer segurança, da sensibilidade para ajudar aflorar os sentimentos. Enfim, são inúmeros dons e talentos a se manifestar na essência de cada pessoa, a refletir na maneira como ela Caminhará em Beleza semeando os bons frutos por onde passar. É a espada do guerreiro, como os ancestrais metaforicamente falavam. Isso tem que ser aplicado em seu trabalho ou profissão, pois quando o guerreiro não usa a sua espada, ela enferruja e ele se torna amargo”.

Eu preciso disso?

Era um jovem e promissor advogado. Tinha aproveitado uns poucos dias de folga para se aconselhar com o Velho, de quem ouvira falar. Enquanto eu o encaminhava para a sala onde haveria o encontro, tentei lhe mostrar a beleza de nosso mosteiro, suas colunas trabalhadas e paredes seculares, onde há muito se ancorava a paz do silêncio, das orações, dos estudos e do serviço de benemerência. Porém, ele tinha pressa. Interrompeu a história que eu narrava sobre a abadia, para comentar sobre a importância dos processos em que atuava e sobre seus feitos nos tribunais, onde dobrava o convencimento dos juízes pelo peso de sua inteligência.  Tinha urgência em encontrar logo o Velho, vez que trabalhos de sumo valor o aguardavam. No entanto, antes que chegássemos ao local onde o velho monge gostava de receber as pessoas para conversar, o encontramos no jardim interno do mosteiro a se distrair com algumas plantas. O rapaz foi recebido com sincera alegria pelo ancião, como de costume, embora não o conhecesse. Imediatamente o advogado começou a falar sobre uma ação que movia contra uma poderosa multinacional que lhe renderia milhões em honorários. Explicou que teria de peticionar neste processo até o dia seguinte e pediu para que fossem direto ao motivo de sua visita. “Dinheiro é uma ferramenta importante, pode-se fazer muita coisa boa com ele. Assim como a sua profissão, na luta por um equilíbrio e entendimento entre as pessoas. Use-as com sabedoria”, limitou-se a comentar o monge. Em seguida perguntou ao rapaz: “Posso lhe ajudar em algo?”.

A resposta foi a ansiedade e o estresse. Contou que em razão disso já tinha sido internado por problemas cardíacos, tinha dificuldade em seus relacionamentos afetivos e não conseguia dormir sem a ajuda de ansiolíticos. No entanto, acreditava ser o preço do sucesso. “Quem lhe recomendou a visita ao mosteiro? ”, perguntou o monge. O advogado respondeu que foi um tio chamado Jonas, um humilde marceneiro que lhe visitou quando esteve convalescendo no hospital. Deixou escapar, com uma ponta de vergonha, que foi a única visita movida apenas por carinho, despida de qualquer outro interesse. “Você é sobrinho do Jonas?”, alegrou-se o Velho. “Tenho muito respeito e admiração pelo seu tio. Toda vez que uma criança entra no orfanato da cidade, ele constrói e doa um berço para o pequenino. Usa seus dons e talentos com o coração. Gosto muito de estar e conversar com ele”.

O jovem retrucou, pois entendia que o tio deveria concentrar seus esforços para sair da vida simples que levava. Comprar uma casa maior, montar uma oficina mais moderna. Não tinha que se preocupar com problemas que não eram seus. O Velho arqueou os lábios em breve sorriso e disse: “Deve ser triste não ter com quem se preocupar. Jonas é um homem feliz”. O advogado riu e disse que o tio era um irresponsável.

O Velho o mirou com seus olhos repletos de compaixão e perguntou: “Ele precisa disso? ”. A pergunta era apenas retórica e se referia ao estilo de vida e bens que o sobrinho acreditava que Jonas deveria perseguir. Antes que o rapaz pensasse em responder, o convidou para sentar ao seu lado em um banco de pedra, à sombra de uma enorme roseira. Em seguida comentou: “Ganhar o pão de cada dia com dignidade é sagrado, assim como é legítimo e louvável o esforço para uma vida confortável. Todos temos necessidades básicas de alimentação, moradia, educação e saúde”. A brisa leve da tarde tornava o jardim ainda mais agradável. O Velho continuou: “O problema é que desde sempre a humanidade parece não estar satisfeita e saciada com o que tem e, então, continua sua busca desesperada para ter mais. Não sabe impor limites a si mesma. Isto traz, de imediato dois problemas. O primeiro é que as pessoas se tornam eternamente insatisfeitas, a alimentar um ego já gordo e cada vez mais voraz a se agigantar nas sombras da vaidade e da ganância. A outra, é que acaba sobrando pouco tempo para pensar e exercitar as questões primordiais do ser, onde se adquire as verdadeiras riquezas”.

O jovem, brilhante por ofício nas técnicas da argumentação e contestação, rebateu que conhecia aquele velho discurso, mas que na verdade o mundo só respeitava e reverenciava as pessoas poderosas e, para tanto, quanto maior a fortuna, mais consideração lhe renderiam e, no uso deste poder, poderia melhor contribuir para a caridade no futuro. O monge sorriu com os olhos e disse: “Penso que talvez você esteja equivocado na escolha das pessoas que dá valor e considera importantes. Sem dúvida que o dinheiro pode ser um instrumento poderoso para a realização do bem, mas se torna desastroso quando tem por finalidade alimentar o orgulho. Assim, como um martelo, a sua escolha é que definirá se será usado para a construção ou demolição” e prosseguiu: “Ao contrário do que muitos pensam, a melhor compaixão não carece de dinheiro, mas de sabermos priorizar nosso tempo, sentimento e interesse. Você pode cuidar da sua arte ou ofício com mestria enquanto interage com o mundo oferecendo o seu coração. Assim como o Jonas”.

O jovem argumentou com argúcia que as pessoas são diferentes. Assim, distintos são os conceitos, os objetivos e as necessidades de conforto. Questionou até onde era legítimo se concentrar somente em seus objetivos antes de pensar em ajudar aos outros. O monge disse com sua voz mansa: “Sim, cada qual é único e nisto reside a fortuna da vida. Existe um mantra valioso que qualquer um pode recitar nessas horas: ‘Eu preciso disso?’. Temos que nos questionar sobre os verdadeiros limites da própria necessidade. Quanto mais estreito for o limite do ego mais ampla será as fronteiras da alma. Acredite, as prioridades mudam na medida que o nível de consciência se transforma. Questiono a luta insana por carros mais potentes em centros urbanos engarrafados e, que, ao final, levarão apenas o corpo, pois a alma, muitas vezes, não foi a lugar nenhum. Ou casas cada vez mais luxuosas em bairros exclusivos, ao custo de montanhas de dinheiro, ou mesmo dívidas, como símbolos de ostentação, status e, ironicamente, isolamento. Não raro encontro com pessoas na busca frenética por mais roupas, sapatos e relógios. Será que nunca se perguntam ‘Eu preciso disso?”.

O advogado balançava a cabeça em negação e seus olhos transbordavam ironia. O monge nem de longe pareceu ofendido e continuou com sua fala mansa: “Quantas vezes você adiou uma reunião de negócios pela atenção a um filho que precisa de tempo ao seu lado e de seus conselhos a lhe indicar os bons trilhos da vida, serenando seu coraçãozinho ao sentir uma mão forte a lhe apoiar? A última vez que foi levar um pouco de carinho aos seus pais ou desmarcou um compromisso profissional para ouvir um amigo em dificuldade?”. Com a expressão simples que lhe era peculiar, o Velho tornou a perguntar: “Do que você realmente precisa, filho? Esta resposta vai revelar seu atual nível de consciência e definir as alegrias e sofrimentos que lhe acompanharão no Caminho”.

O jovem tornou a explicar, como se falasse para um ancião ingênuo, que trabalhava muito e, em troca, precisava presentear a si próprio atendendo a alguns desejos. O Velho respondeu de imediato: “As sociedades se movimentam inconscientemente a distrair a nossa atenção para as questões primordiais do ser. Vejo pessoas que até para relaxar criam um monte de lugares que supostamente não podem deixar de ir, como rota de fuga a lhes furtar o precioso encontro consigo mesmo. Já parou para pensar o que nos leva a fugir de nós mesmos?”, deu uma pequena pausa e concluiu: “Entendo a vontade de nos acarinhar após uma dura batalha. No entanto, podemos presentear o ego ou a alma. E as consequências são um brilho forte de curta duração, logo acompanhada de um grande vazio ou uma estranha e infinita luz a lhe dar a sensação do todo”.

O jovem advogado sorriu, balançou levemente a cabeça como se ouvisse um louco e se levantou. Educadamente agradeceu ao monge pelo seu tempo, mas lamentou que a visita não o ajudaria. Confessou, com uma ponta de sarcasmo, que esperava ouvir uma revelação secreta sobre os mistérios da vida. O monge se levantou e abraçou o rapaz. Depois lhe falou com mansidão: “O que muitos chamam de mistério, nada mais é do que as lições que negamos. Então, nos aprisionamos em um ciclo até que cada um o decodifique para si. Isto pode trazer sofrimento. Porém, a vida floresce pela alegria das almas e disponibiliza a mais fina sabedoria para todos, sem privilégio ou distinção. Está no ar, no silêncio, nos sorriso e abraços. Basta que se preste atenção e tenha a ousadia de pensar diferente. Nada será mais revolucionário do que colocar o mais puro amor na ponta de cada escolha ao se perguntar ‘Eu preciso disso?’ ”.

Eu quis acompanhar o rapaz até os portões do mosteiro, mas ele me dispensou e partiu.

A sós, o Velho comentou com doçura: “Um dia ele volta”. Eu quis saber se o advogado retornaria ao mosteiro. “Volta para o seu próprio coração. Não poderá fugir dele por toda a eternidade. Em algum momento terá que refazer as suas prioridades. Suas necessidades mudarão quando se cansar do vazio e do deserto e do abandono”. Olhou para as primeiras estrelas que começam a enfeitar a noite e finalizou: “Quem você pensa ter encontrado a paz, o jovem, rico e talentoso advogado ou o tio carpinteiro, humilde e misericordioso?”.

Apenas abaixei os olhos como resposta. Em seguida lhe ofereci um chá. Ele me olhou sério e mantrou: “Eu preciso disso?”, para em seguida piscar o olho e falar com seu jeito gaiato: “Muito!”. Rimos e seguimos para o refeitório.

 

Os pilares da paz.

A pequena cidade, no sopé da montanha que abriga o mosteiro, despertava. Suas ruas seculares, estreitas e tortas, ainda estavam molhadas do orvalho da noite. Como eu tinha chegado cedo para os meus afazeres, segui até a pequena loja de Loureiro a fim de convidá-lo para um café. De longe pude avistar sua antiga bicicleta encostada junto ao poste, em frente à porta já descerrada. Fui recebido com a alegria costumeira pelo amigo, sempre elegante nas vestes e nas atitudes. Alto e magro, sua vasta cabeleira branca não escondia a idade avançada. Calça bem cintada de cor preta a contrastar com a camisa de branco imaculado, ambas de fina alfaiataria. O sapateiro repousou as ferramentas sobre a bancada de trabalho e saímos os dois, como bons meninos, a rir pelas ruas em direção à padaria. Sentados, com as canecas quentes à frente, a espera do pão fresco, não pude deixar de notar algo que sempre me chamava a atenção: a paz permanente que irradiava do olhar e das palavras daquele sapateiro. Sempre me indagava sobre tal poder. Porém, nossa conversa versou, como sempre, para a filosofia, a paixão de Loureiro, a devorar todos os livros que lhe chegavam às mãos. “Apesar de todos os avanços, e estes são incontestáveis, os meus preferidos ainda são os gregos. Tudo que precisamos aprender já sabíamos há três mil anos”, comentou. Perguntei se essa era a fonte de que ele bebia para exalar a serenidade tão admirada por mim. “Toda a paz de que você precisa nasce do entendimento de que nenhum acontecimento no mundo, por mais trágico que possa parecer, poderá abalar os alicerces da sua alma sem a sua permissão”.

Os labirintos da vida.

Todo sábado, pela manhã, tem uma deliciosa feira na praça principal da pequenina cidade próxima a montanha que acolhe o mosteiro. As ruas são sinuosas e estreitas, ainda estão calçadas por pedras para não lhe negar a origem medieval. Guloseimas, artesanatos, embutidos, queijos, frutas e hortaliças frescas são vendidas pelos moradores e agricultores das proximidades. A música alegre tocada por jovens e anciões no centro da praça colore o estado de espírito que predomina no rosto de todos. Naquele dia, o sol agradável da primavera aquecia o frio das primeiras horas da manhã e oferecia as cores típicas da estação. O Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, tinha me convidado para acompanhá-lo à feira com a desculpa de que precisava comprar mel para a receita de um bolo apreciado por todos os monges. Na verdade, ele admirava muito a troca espiritual entre toda a gente, seja dentro ou fora do mosteiro. Com seu sorriso franco, olhos brilhantes e fala mansa, conversava com todos que lhe cruzavam os passos lentos, porém firmes. Impressionante perceber como ele era querido, apesar de não possuir um níquel para oferecer. Em determinado momento, encontrou uma jovem mulher, muito bonita e bem vestida, cuja família, proprietária de vasta extensão de terras nos arredores, remontava a uma aristocracia que tende a desaparecer. Suas feições eram tristes, seus olhos pareciam sem vida. Ela pareceu contente por encontrar o Velho e nos convidou para sentar em uma cafeteria próxima.

Com xícaras fumegantes à frente, a mulher começou a desfilar sua enorme tristeza em relação aos infortúnios do destino. Apesar da enorme herança que lhe tinha sido destinada e ter acesso ao que o mundo tinha de mais caro, não conseguia ser feliz nem ver encanto nas coisas. Nada lhe dava contentamento. O velho monge lhe ouviu com sincero interesse por longos minutos, sem dizer palavra. Ao final, com os olhos mareados, uma lágrima escorreu no belo rosto da jovem. Ele lhe ofereceu um sorriso confortador e perguntou: “Você sabe o que é um labirinto?”. A moça fez que sim com a cabeça e respondeu que era um emaranhado de corredores que parece não levar a lugar nenhum, cuja saída é difícil de encontrar. “A vida, por vezes, apresenta-se como um labirinto”, o Velho falou ainda enigmático a construir o seu raciocínio. A mulher quis saber mais. Ele a mirou nos olhos com doçura antes de completar: “Quem não sabe aonde precisa ir estará sempre perdido”.

O caçador de estrelas.

Eu passei vários períodos de minha vida ao lado de Canção Estrelada, xamã do povo nativo da Estrada Vermelha, com quem aprendi muito. Certa vez, quem me mandou para lá foi o próprio Velho, como chamávamos o mais antigo monge da Ordem. O motivo foi que eu estava me indispondo frequentemente com outros monges do mosteiro, com os comerciantes da pequena cidade próxima e, até mesmo, com amigos e familiares. “Quando pensamos que o mundo atrapalha os nossos sonhos é porque existe algo de muito errado dentro de nós”, assim ele justificou a minha mudança temporária de ares.

Fui recebido com a alegria de sempre pelo xamã, mas não tardou e, após os primeiros dias de férias compulsórias, comecei a me indispor com alguns membros da tribo. Claro que eu estava insatisfeito comigo, tinha um olhar enevoado em relação a algumas situações e, principalmente, sempre atribuía a alguém a responsabilidade pela minha infelicidade. Por um lado, não percebia; por outro, faltava coragem de admitir para mim mesmo as minhas próprias dificuldades que tanto me incomodavam, causadora daqueles pequenos conflitos pontuais. Canção Estrelada me observou por um tempo sem dizer palavra, até que certa noite me convidou para sentar ao seu lado em frente a uma fogueira. Estávamos só os dois. Eu observava seus movimentos, enquanto ele, sem pressa, completava com tabaco o fornilho de pedra do seu cachimbo e tínhamos a Via Láctea como obra de arte na parede do Infinito. A noite mal começava. Eu quis saber qual o motivo de ele sempre me chamar para conversar diante das labaredas. “O Grande Mistério utiliza o poder dos quatro elementais – água, ar, terra e fogo – para purificar e alimentar o planeta. Sinto-me à vontade diante do poder do fogo que ilumina, aquece e queima as velhas formas”, falou enquanto dava a primeira baforada. Interrompi para perguntar ao que se referia com o termo “velhas formas”. “São sentimentos e ideias que já não nos servem mais e, por ultrapassados, devem ser transmutados. A vida precisa que sempre haja lugar para o novo, seja no planeta ou dentro de nós”, explicou. Em seguida me passou o cachimbo, seus olhos miravam os meus, como reza o costume, em sinal de amizade e respeito. Vi o fogo refletindo em suas pupilas enquanto ele falava: “Está na hora de falarmos sobre o Caçador de Estrelas”. Antes que eu perguntasse do que se tratava, o ancião explicou: “É todo aquele que trilha a Estrada Dourada da Iluminação”.

O espelho da minha alma é você.

“O perfeito olhar é aquele capaz de encontrar beleza onde todos apenas enxergam desastre”, disse o Velho, como carinhosamente chamávamos o mais antigo monge da Ordem, quando, de tão irritado que eu estava, passei por ele e não o notei. Seu olhar maduro percebeu que o meu coração estava em tempestade. Virei-me e desabafei toda a insatisfação com acontecimentos recentes. Em discurso longo, narrei ao Velho toda a minha indignação em relação à ignorância que ainda campeia solta no mundo. Ele me ouviu pacientemente até que eu desanuviasse o último resquício de intolerância, depois comentou com seu jeito manso: “O que mais nos incomoda nos outros é reflexo dos nossos mais graves defeitos”.

Discordei veementemente, pois certos comportamentos eram, por absolutos, incompatíveis com os meus. “A maioria, com certeza, sim. Alguns, não. E são justamente estes que sua alma, manifestada através do inconsciente, reconhece as próprias dificuldades e o seu ego, na ilusão de lhe proteger, repudia a sombra alheia, pois teme que o mundo veja outra igual em você”. Deu uma pequena pausa, me observou por alguns instantes e concluiu: “Percebe que o que tira o prumo e rasga a serenidade é ter que conviver com o erro que existe no outro, justo aquele que lhe faz lembrar a existência de dificuldade bem parecida e familiar? Exatamente aquela que você quer esquecer ou se enganar que não é parte da sua personalidade. Esta afinidade funciona como um espelho e o narciso não quer se ver feio. Mas o que o ego esconde, a alma sinaliza para que possa ser transformado”. Abaixei os olhos e não disse palavra.

A arte da renúncia.

Eu tinha descido a montanha onde se localiza o mosteiro da Ordem e caminhava através das ruas estreitas e antigas da secular cidadezinha mais próxima. Chovia muito e estava mais escuro do que a hora determinava. Era muito cedo e o comércio começava a abrir as suas portas. De longe vi a bicicleta do Loureiro estacionada em frente à sua pequena loja. Por décadas tinha sido o único meio de transporte que aquele ancião se permitiu usar. Sorri comigo pela alegria de passar alguns instantes com pessoa tão ilustre. Assim que entrei, Loureiro me olhou por cima dos óculos, largou o alicate, arqueou os lábios e se levantou de braços abertos para me receber. Como sempre, o homem alto e magro estava impecavelmente vestido. A calça preta de pregas bem cintada, sustentada por suspensórios, fazia uma boa combinação com sua elegante camisa branca abotoada até o pescoço, com as mangas arregaças na altura do cotovelo para não atrapalhar o ofício. Seus cabelos, da mesma cor da blusa, embora ainda fartos e bem penteados, sinalizavam a idade avançada. Loureiro era sapateiro desde sempre. Nas horas vagas gostava de um bom vinho e amava os livros. Os seus prediletos eram os tintos e os de filosofia.

Tinha ido por causa das minhas sandálias, cujas tiras de couro, cansadas do uso, tinham arrebentado. Apesar de velhas, eu gostava do conforto que me proporcionavam, como se elas e meus pés já tivessem selado a paz há tempos. Depois dos cumprimentos e uma caneca de café bem quente para afastar o frio, perguntei se as sandálias teriam reparo ou me restaria procurar por novas. “Penso que as pessoas estão perdendo o bom hábito de consertar as coisas, o que pode acabar por refletir em suas relações. É necessário a sensibilidade para perceber o que não serve mais e o que merece remendo. Se a vida, e tudo nela se tornarem descartáveis, em breve minha profissão, assim como a razão do meu existir, perderão o sentido”, disse, entre graça e razão, enquanto levava as sandálias para a sua bancada de trabalho. “Sente-se. Trocaremos uma prosa enquanto faço o reparo”.

A beleza do perdão.

“É impossível ser feliz sem perdoar”, disse o Velho para uma jovem senhora que foi ao mosteiro em busca de consolo. Estávamos sentados no refeitório e eu lhes servia uma xícara quente de café. Ela acabara de narrar o seu drama pessoal e estava inconsolável, pois não se julgava merecedora daquele destino. Aflita, a mulher confessou que o que a mantinha em pé era assistir ao sofrimento de quem tinha lhe atingido e por isto não o perdoaria jamais. O Velho fechou o cenho diante de tamanha intolerância, no entanto, os olhos brilhantes em seu rosto enrugado transbordavam misericórdia. “Penas eternas é uma adequação às sombras e não faz nenhum sentido com as ideias trabalhadas pela Luz, sempre disposta a conceder novas chances. O erro faz parte do aprendizado e, para tanto, requer inúmeras oportunidades.  Só um anjo poderá enumerar todos os erros da própria vida”.

A mulher rebateu dizendo que já tinha cometido alguns erros, porém nunca por maldade. O monge manteve o tom sereno em sua voz. “O desencontro entre as pessoas reside em julgarmos os outros através do rigor dos fatos, das feridas que nos deixaram e desejar que sejamos julgados por nossas intenções. Sempre temos motivos que justificam nossos atos, né?”, deu uma pequena pausa para que a mulher refletisse sobre as suas palavras e seguiu: “Esta é a questão. Tamanho descompasso é a raiz do conflito nas relações. Por isto a necessidade do mergulho nas profundezas de si mesmo. Esqueça as máscaras e os personagens sociais que criamos com o ego, no afã de nos proteger, no desejo de ser aplaudido em público. Falo das sombras que escondemos, que anseia por luz nos porões ainda escuros da alma, que apenas quer ressaltar os defeitos alheios na vã esperança de esconder os nossos. Perdemos tempo demais na ilusão de corrigir os erros dos outros ao invés de aperfeiçoar o nosso próprio coração para que possa refletir a beleza das atitudes que ainda não temos. Pode apostar, ao nos conhecer de verdade passamos a ser mais tolerantes com os demais”.

A magia de encontrar consigo.

Canção Estrelada estava sentado à porta de sua tenda. Baforava seu indefectível cachimbo com fornilho de pedra. Era aquela hora em que o dia vira noite. O sol já tinha ido e a lua ainda não havia chegado. Eu me sentia cansado, tinha acabado de chegar da cidade e estava bastante aborrecido com uma série de problemas pessoais. Há dias andava mal-humorado. “Tem horas que dá vontade de desparecer”, lamentei a sorte quando passei pelo xamã. “Fugir do mundo não te fará escapar da vida”, ele respondeu com um sorriso irônico. Calei-me e tentei seguir. Eu apenas queria me banhar e dormir, mas ele me mandou sentar. “Hoje vou te ensinar sobre o Porta do Sul”, falou e em seguida me passou o cachimbo para que eu fumasse junto com ele, sinal de confiança e respeito. Pegou seu tambor de duas faces para ritmar uma sentida canção nativa. Fechei os olhos e me deixei envolver naquela ambiência de paz. “Na Tradição do Caminho Vermelho, a Roda da Vida – ou Roda de Cura, vez que a vida nada mais é do que um infinito processo de cura do espírito na exata medida da sua evolução – possui quatro portais, representados pelas direções magnéticas do planeta. Em geral gosto de começar pelo Leste, onde moram os antepassados que aprenderam a cavalgar com o vento. Porém, contigo vou começar pelo Sul”, explicou. Antes que desse tempo de eu perguntar o motivo, ele disse. “Existe uma necessidade urgente de você se despir do personagem que criou na vã ilusão de se proteger de tudo e de todos. Onde tenta enganar que é forte, habita a sua fraqueza. Isto fez com que tenha abandonado a sua verdadeira força. Tudo que não faz parte de nós, atrapalha por inadequação”.

Amor não é troca.

Não raro escuto as pessoas falando que “damos amor e queremos receber amor. Amor é troca”, como sentença definitiva. Não, amor não é troca. A troca é a base do comércio que, sim, ajuda a movimentar o planeta e a dirimir as diferenças entre os povos, porém, amor não é mercadoria para ser negociado. O amor tem que ser incondicional, sem exigir absolutamente nada de volta ou não é amor. Amor não é moeda de convivência, mas o verdadeiro sentido dos relacionamentos. Na verdade, quando se reclama que o outro não nos devolveu o amor que lhe oferecemos, estamos transferindo para terceiros a responsabilidade pelo nosso vazio existencial. Um ser integral a caminho da harmonia interior sabe que toda a paz e felicidade de que necessita para se sentir pleno é construída dentro de si por si. A partir de então passa a compartilhar com todos o belo sentimento que lhe encanta o coração. Como um casaco tricotado com a agulha da sabedoria e pelas linhas do amor, que pronto, tem-se o desprendimento de entregar a quem está com frio, sem esperar absolutamente nada de volta, salvo a própria alegria de ter levado um pouco de conforto a alguém. É imprescindível entender que somente você é responsável por sua felicidade. Transferir ao outro a responsabilidade de lhe fazer feliz é inadequado, tolo e, cedo ou tarde, surgirão os conflitos naturais oriundos de quem carrega um fardo que não pode suportar. Não se pode exigir do outro o preenchimento do vácuo de sua alma, pois tal desafio é pessoal e inerente à evolução de cada um. Ninguém tem a obrigação de fazer ninguém feliz. O que é diferente de sempre oferecer o seu melhor para o sorriso e o conforto de alguém. Ser amado é maravilhoso e uma das dádivas divinas da vida, mas é necessário aceitar que o amor do outro não é nem será a base da sua felicidade. Esta tem que ser construída aos poucos dentro de você. Cada um de nós, sem exceção, possui as ferramentas necessárias para fortalecer a alma a alcançar a plenitude em completa liberdade, ao largo de qualquer dependência emocional. Dependências, afetiva ou sentimental, nada mais são do que prisões sem grades – embora algumas estejam bem disfarçadas em gaiolas doces e douradas – onde não podemos nos permitir apodrecer.

Milagres são transformações ocultas em nós.

“O que chamamos de magia em outras Tradições recebe o nome de milagre. Muda-se o nome, mas é a mesma força e poder”, falou Canção Estrelada, ancião nativo do Povo do Caminho Vermelho, enquanto preparava o cachimbo de fornilho de pedra. Estávamos sentados em volta de uma pequena fogueira sob o manto fantástico da Via Láctea a nos provocar indagações sobre os mistérios do universo. Esperei que ele desse uma pequena baforada e, assim, convidasse seus ancestrais que já cavalgam com o vento para participar da nossa conversa. Depois me fitou com as labaredas refletidas em seus olhos e explicou: “Magias ou milagres são como chamamos transformações que ainda não conseguimos explicar. O importante é entender que você é parte do milagre, assim como a semente só germina se encontrar solo fértil. Cada qual é o seu do próprio jardineiro, que sem o devido trabalho nenhuma rosa fará florescer. O sol e a chuva são para todos, porém a semeadura é pessoal e intransferível. O essencial é entender que cada qual tem que fazer a sua parte para se encantar com a magia da vida”.

Explicou, ainda, que existe um intercâmbio incessante entre esferas, porém os aliados do plano invisível somente podem intensificar o trabalho conosco se estivermos preparados: “Somos os pilares da ponte em que atravessam; portanto, quanto mais firmes forem os alicerces, maior o trânsito deles. Sem o aperfeiçoamento de um código moral próprio, onde não se pratique nenhum mal a qualquer coisa ou pessoa, não se chega a lugar nenhum. Tais conceitos são os sólidos fundamentos da alma”, acrescentou.

A maturidade traz em si a verdadeira liberdade.

“A maturidade nada mais é do que o entendimento de si e a disposição de se transformar. Isto é libertador”, disse o Velho enquanto procurávamos cogumelos em uma floresta próxima ao mosteiro depois de uma noite de chuva. O sol brilhava por entre as folhas, lambia nossos rostos e aquecia na manhã ainda fria. “Entender quem somos, nossas dificuldades e belezas, permite que deixemos para trás o que em nós não serve mais e abre a perspectiva de inventar o que queremos ser. Este é o poder do Caminho”, complementou. Um belo rouxinol pousou em um galho de uma árvore próxima e nos presenteou com uma pequena sinfonia, só encontrada nas matas. Depois alçou voo. Comentei que todos gostariam de ter asas como os pássaros para alcançar as alturas. Ele retrucou de plano: “Pássaros voam por determinismo biológico. As asas da liberdade são metafóricas, fruto da sabedoria e do amor, flor das escolhas que se faz a cada passo do Caminho”.

Falei que Mahatma Gandhi certa vez, quando preso, comentou que há homens mais livres nas celas no que vagando pelas ruas. O velho retrucou: “Gandhi era um iniciado, uma alma antiga e iluminada. Claro que não falava das mentes sombrias que enveredaram pelas raias da criminalidade e da ignorância. Ele se referia à liberdade do pensar desperto dos preconceitos e condicionamentos culturais e sociais. A liberdade de pensar além; de perceber que as mais cruéis prisões são aquelas que não têm grades”. Parou um pouco e concluiu: “Liberdade é muito mais do que o direito de vagar a esmo pelas ruas ou levar uma vida completamente descompromissada. Isto, em geral, caracteriza os foragidos da vida. Estes costumam estar aprisionados no pior dos cárceres, a própria consciência. A verdadeira liberdade traz em si a responsabilidade. A responsabilidade por suas escolhas e compromissos. Temos compromisso com tudo que amamos e na medida que ampliamos a nossa esfera amorosa crescem as nossas asas, nos permitindo voos cada vez mais altos. Nossas asas têm o tamanho de nossos corações. As nossas escolhas, por sua vez, geram consequências e temos que nos responsabilizar por elas. A serenidade deste entendimento, ainda que isto signifique mais esforço e trabalho, pois cada qual terá os desafios próprios ao seu aprendizado, chama-se maturidade”.

Isto não têm importância.

A magia da vida acontece enquanto vivemos as coisas banais do dia a dia, dizia o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo do mosteiro. Lembro disto ao perceber como desperdiçamos tempo e energia em situações que não têm nenhuma importância para as nossas vidas e, desta maneira, terminamos por atrasar a fantástica viagem ao permitir que naveguemos em círculos. “Isto não tem importância” é um mantra de uma única frase que ele repetia e ensinava o tempo todo. Todos os dias há pelo menos um momento mágico que pode transformar a vida. O segredo para ver e atravessar esse portal reside em suas escolhas e, para exercê-las com plenitude, não se pode estar distraído ou enfraquecido com o que não tem importância. As urgentes desnecessidades são armadilhas do Caminho.

O sagrado mora no seu coração.

Certa vez assisti a um filme, desses hollywoodianos, com muita ação, onde o protagonista era um frio assassino profissional que passa a ser perseguido tanto pela polícia quanto pela máfia. Sua aparente indiferença em relação a qualquer tipo de sentimento era a tônica da sua personalidade e a principal razão de sua nefasta eficiência. No entanto, durante a sua fuga carregou por todo o tempo um vaso de plantas, salvo engano, pois faz muito tempo, com uma orquídea. Aquela singela flor era o depositário de todo e único amor que esse homem conhecia. Ele se preocupava com ela, pois era preciso que a colocasse no sol, regasse, vigiasse de eventuais pragas para que não morresse. A planta era motivo de preocupação, pois dependia completamente dele para continuar viva; a orquídea tinha a capacidade de fazer florescer o melhor de um homem embrutecido em sua consciência. Aquela flor era sagrada.

Sagrado é tudo aquilo que nos religa à divindade, que permite que possamos exercitar nossos sentimentos mais nobres, nos ensina a ser pessoas melhores e alavanca a nossa evolução. Em um pequeno altar que tenho em casa há vários objetos aparentemente mundanos, mas que trazem tamanha significação pessoal que os tornam sagrados para mim. Algumas pessoas mais distraídas nem percebem que ali reside importante parte do meu templo. Por exemplo, tenho três malabares de circo. Quando me recolho para as minhas reflexões, meditações e orações eles me lembram que distribuir alegria por onde passar é a melhor forma de agradecer a Vida pelas bênçãos e lições disponibilizadas a mim durante a jornada. Eles são sagrados para mim.

O sagrado está oculto no profano.

As mais belas histórias são as de superação.

Não raro escuto pessoas dizendo que fariam tudo “exatamente igual” se iniciassem novamente a sua trajetória de vida. Se é apenas uma alusão a como aprenderam com os próprios erros e como eles ajudaram a chegar onde estão, entendo. Sim, por vezes, os erros são preciosos mestres que nos oferecem valiosas lições, embora a vida disponibilize outros, como a percepção e o amor, que permitem encurtar tempo e pavimentar a estrada. São as mesmas lições oferecidas pelo erro, porém ministradas de maneira suave, afinal aprende-se por imposição ou gosto. A escolha é sempre nossa. No entanto, na maioria dos casos vejo alguns amigos sustentando verbalmente a repetição da trajetória de vida por vergonha, negação ou orgulho. Pena, pois a não aceitação do próprio caminho trilhado impede de entendermos quem realmente somos, por consequência, não permite ver as transformações que devemos operar em nós, atrasando a viagem evolutiva e, assim, a paz da plenitude que tanto ansiamos.

Revejo a minha história e, grato às duras lições que o erro me ofereceu, percebo que poderia fazer diferente. Pessoas que magoei, voltas em círculos que dei por teimosia, tempo e energia desperdiçados com situações que não tinham nenhuma importância e por aí vai. A lista é enorme. É verdade que aquele era o meu nível de consciência naquele momento e ali eu não conseguia perceber que poderia fazer de outra maneira. Sim, sempre é possível fazer diferente e melhor.

Embora ainda muito longe de onde tenho que chegar, já não sou o mesmo da partida. Mudou o olhar e o viver. Não é assim com todos nós?

Só há coragem onde antes existia o medo.

As histórias de ficção encantam a humanidade desde o início dos tempos porque revelam segredos escondidos no inconsciente. Embora interfiram em nosso jeito de ser, não raro, demoram a ser decodificados. Justamente lá, no inconsciente, por ser território selvagem, as sombras atuam e terminam por alterar nossas vidas. Através das aventuras imaginárias narradas nos livros ou nas telas, o herói enfrenta vilões perigosos, encontra dificuldades inesperadas, precisa superar limites, aprende com perdas e frustrações para no final encontrar o maior tesouro: ele próprio.

A ficção, no fundo, conta a história de cada um de nós disfarçada com outra roupa, cenário e maquiagem. A necessidade que temos do herói nasce ao identificarmos a coragem indispensável para enfrentar nossos dragões e permitir que o melhor em nós floresça. O guardião dessa ponte que todos precisam atravessar é o medo.

Jardineiro da alma.

“Somos herdeiros de nós mesmos”, disse o Velho, como carinhosamente chamávamos o mais antigo monge da Ordem. Subíamos uma pequena montanha próxima ao mosteiro por uma estreita trilha em uma manhã ainda fria da primavera. Éramos recepcionados por pequenas e coloridas flores silvestres que já mostravam todo o esplendor da estação e, subliminarmente, nos ensinavam a lição das fases da vida: após o rigor do inverno, que é indispensável para fortalecer a determinação do espírito, chegará a doçura da primavera a acalentar o coração. Todos os ciclos pessoais – o Caminho é um grande ciclo formado por inúmeros ciclos menores – têm a sua razão de ser e encerram valiosos ensinamentos ocultos e indispensáveis à evolução. Situações conflitantes e recorrentes a ponto de nos perguntarmos a razão da aparente repetição, revela nada mais do que a recusa em mudar a nossa maneira de olhar e agir, de entender e fazer diferente, enfim, de evoluir. Aprendida a lição, encerra-se aquele ciclo e, inexoravelmente, um novo se apresentará com outros momentos, livre dos velhos problemas. “Quem reclama do Caminho é porque não quer mudar o seu jeito de caminhar”, comentou com seu jeito peculiar de falar.

O ego deseja brilho, a alma anseia por luz.

 

Somente a clareza de entender realmente quem se é poderá te transformar na pessoa que buscas em ti. O ego, a parcela da consciência mais ligada às sensações primárias e imediatas, repleto de condicionamentos sociais e ancestrais, pensa te proteger ao criar um personagem moldado em modelo de suposta aceitação e admiração que ilude sobre o sentido da existência. O ego impulsiona o indivíduo a ser o mais belo, rico e importante, alimentando o vício do aplauso fácil na esteira do brilho efêmero no show das ilusões terrestres de prazeres baratos, resultados vazios e soluções improdutivas. As consequências, imediatas ou não, mas que um dia virão, são o sofrimento e as dificuldades nas relações pessoais. Além do desgosto consigo próprio. O ego, repleto de boas intenções, inventa virtudes que ainda não exercemos, direitos que não possuímos e, comumente nos vitimiza em relação aos movimentos do mundo, criando falsos motivos de revolta. Ou, ainda, nos força a fugir da realidade quando desagradável. Em qualquer dos casos leva à estagnação ao impedir de enfrentar a situação com a maturidade necessária para entender, se transformar, compartilhar e seguir adiante.

Ser gente nunca sai de moda.

A necessidade de andar na moda, a aflição inconsciente de estar em sintonia com o que se imagina ser moderno, revela uma busca por identificação e aceitação, uma vontade, em geral não percebida, de encontrar um lugar para se viver em paz. A moda nasce da necessidade cultural das pessoas de entender quem são e aonde caminham. Roupas, acessórios, carros, ideias enlatadas, maneiras de agir e falar tentam desesperadamente rotular o ser na tentativa de fazê-lo acreditar que pela casca se reconhece o valor da fruta. Em vão.

Perde-se a beleza de inventar a si próprio e a força de ser único. A moda traz consigo o perigo de projetar um suposto ideal que com certeza não somos.

O limite da forma estabelece fronteiras. Qualquer modelo pronto a ser usado rouba a originalidade do indivíduo, a beleza dos voos solos em altitudes inimagináveis, onde, só então, se defrontará com mundos e possibilidades apenas acessíveis a quem ousa ir além da normalidade e das permissões mundanas. O exercício da criatividade desenvolve as asas da liberdade.

A vida exige leveza.

“De quanto menos eu preciso mais livre sou. A liberdade traz consigo a leveza do espírito”, me disse um velho e sábio xamã do Povo Nativo do Caminho Vermelho sentado ao redor de uma fogueira em uma noite às vésperas do Pothlach. Canção Estrelada, como passou a ser conhecido depois que descobriu seu dom de iluminar o caminho das pessoas do seu clã através da palavra, cantada ou não, como uma lanterna de proa que mostra as ondas que estão por vir, explicava com paciência, para mim, a cerimônia do dia seguinte, onde cada um doaria objeto que lhe fosse precioso.

O despego a bens materiais é um bom  exercício para ajudar na renovação de ideias e conceitos que, às vezes, por estarem obsoletos, nos atrapalham na jornada. O simbolismo do ritual consiste em que cada um veja e entenda a necessidade de se renovar emocional, intelectual e espiritualmente. Ao abrir mão de algo de que somos apegados, aprendemos a transformar sentimentos e pensamentos que, por guardarmos inutilmente, se tornam pesados e atrapalham a caminhada. Entendemos que tudo pode ser diferente. A vida exige leveza.

O caos é do bem.

Usualmente usamos a palavra caos para nos referir a uma situação de desordem e confusão no mundo ou em nossas vidas. Em diversas tradições mitológicas o caos significa um vazio sem forma e ilimitado que propiciou o surgimento do universo. Na tradição platônica é um estado de desarmonia que precede uma nova ordem. O I Ching ensina que o caos traz a tempestade que permite a vida de novo florir. Na Física o termo é utilizado para explicar um sistema dinâmico que evolui de acordo com lei determinista, sensível a pequenas alterações iniciais. De certa maneira todas as definições se encaixam.

O caos é uma alavanca para a evolução. Pessoal e de toda a humanidade.

A lei da evolução é inexorável. Avançamos por gosto ou imposição, o que vai determinar o grau de dificuldade e o tempo do processo. O entendimento e as escolhas determinam a cada um as dores e as delícias da travessia.

Suas asas têm o tamanho do seu coração.

 

Não raro nos vemos na beira do abismo. Conflitos afetivos, problemas profissionais, rusgas familiares se assemelham em figura ao despenhadeiro que nos ameaça em queda e furta a paz. A vontade sincera de mudar o rumo de nossas vidas, iniciando novo trabalho mais adequado aos nossos verdadeiros dons e talentos, um relacionamento amoroso despido de mentiras e preconceitos, uma nova linha a costurar o esgarçado tecido familiar cujo desgaste, de tão antigo, se perdeu nos becos da memória são questões atuais que assolam a todos em gritos silenciosos no âmago de consciências e corações.

Qual a maneira mais sábia de atravessar um escaldante deserto, com seus inerentes perigos, ausências de água e vida, serpentes e escorpiões que lhe habitam? Qual o jeito mais inteligente de alcançar o cume da montanha enfrentando a aspereza da rocha vertical e do vento forte a assobiar em seus ouvidos sobre o perigo de iminente queda?

Ser é muito além de estar.

 

Todo texto ou palavra é sagrada se tem a força de iluminar o caminho. Dos muitos livros que nos servem de lanterna em auxílio nessa infinita e fantástica viagem, a Bíblia se mantêm como fonte inesgotável de sabedoria e amor, elementos indispensáveis para a nossa transmutação pessoal. Assim, aos poucos, transformamos o mundo.

Narram os evangelistas, em várias passagens dos quatro livros, que Jesus ao entrar em qualquer casa ou repartição saudava a todos com seu jeito sereno, “que a paz seja convosco”!

Por algum tempo acreditei se tratar de erro de tradução, vez que a Escritura foi escrita em aramaico para posteriormente ser traduzida para o grego e somente depois levada aos demais idiomas. Todos sabemos da dificuldade de trasladar uma língua em outra. Achava que o verbo correto seria esteja no lugar de seja. “Que a paz esteja convosco” me parecia a construção correta e, pelo visto, para muitos outros, pois já vi textos e sacerdotes assim se referindo a palavra do mestre. Eu estava errado.

Escravos contemporâneos.

 

Um dia você cansa de si mesmo. Da paisagem desbotada do seu quarto escuro, de ser o seu próprio carcereiro. Sim, as prisões mais cruéis tecem suas grades na engenharia de ideias enlatadas, preconceitos ou covardias impostas por medos alheios e ancestrais. Ou por alguém. Chegada a hora de experimentar as asas que sempre foram suas e nunca usadas. Então, você se lança em um voo absurdo nas profundezas coloridas e alturas iluminadas de um universo desconhecido e fantástico que se descortina na medida da sua leveza, coragem e ousadia. É assim que acontece quando se assume o protagonismo da própria vida. O poder, a magia e o encantamento são seus, pegue-os de volta!

Por vezes estamos aprisionados por conceitos que nos foram impostos e simplesmente aceitamos por medo ou comodidade, noutras subjugados por pessoas que, por algum motivo, não conseguimos nos insurgir contra a dominação permitida. As pessoas só têm sobre você o poder que você concede a elas. Entender este simples conceito é se olhar forte diante do espelho da vida.

A cura pela verdade.

 

Os povos nativos americanos, adeptos do xamanismo, têm um símbolo sagrado chamado Roda de Cura ou Roda da Vida. Não à toa, entendem que viver é um processo infinito de cura, caminhar em beleza pela infinita estrada da vida, nas palavras de um ancião Navajo. O símbolo tem a sagrada missão de nos lembrar que através de nossas relações vamos encontrar o remédio ou o veneno para as nossas dores. Na medida que aprendemos quem somos e pacificamos o nosso convívio com tudo e com todos saltamos um aro na Roda da Vida. Ficamos mais forte para seguir adiante.

Alquimistas modernos

 

Um dos grandes sonhos da humanidade através dos tempos é transformar ferro em ouro. O outro é a imortalidade. Assim, a humanidade atravessou os séculos a alimentar a ambição de viver para sempre, de maneira nababesca e sem o esforço do trabalho cotidiano. Bastaria um pedaço de metal barato no caldeirão em ebulição para que transformasse a mais antiga e preciosa mercadoria que o mercado tem notícia. Castelos luxuosos, mesa farta, prazeres todos para todo o sempre.

Existe uma boa literatura medieval desses cientistas que sobreviveu às explosões e ao tempo. Todas com criptografias próprias, como em códigos para que apenas os iniciados em assuntos esotéricos, fossem capazes de ler. Para alguns o motivo do segredo seria resguardar a fórmula que garantiria a transformação e a fortuna, pois se o valioso metal estivesse disponível a todos perderia o seu nobre valor. Outros têm certeza que tudo isso é uma grande bobagem.

O homem vive através dos séculos conforme seu nível de consciência a trazer para si as exatas experiências essenciais ao seu aprendizado. Culturas distintas se misturam propositalmente para que uns aprendam com outros e ensinem a alguns. Numa corrente invisível a humanidade cria elos de liberdade e unidade.

O livre pensar não é só pensar.

 

As piores prisões são as que não têm grades. A ilusão da liberdade é o mais cruel dos cárceres por não te permitir a consciência dos limites da suas escolhas, de não perceber que suas fronteiras estão cada vez mais estreitas e, ao contrário do que parece, apenas limita o tamanho e empalidece as cores do seu mundo. O livre pensar, a autonomia das ideias, o espaço para aceitar o diferente exige esforço, ousadia e coragem, mercadorias raras nas prateleiras dos corações e mentes.

O desequilíbrio é fundamental.

 

A vida é uma infinita e fantástica viagem a caminho da luz. Esta vida é apenas um trecho da estrada. Viajar significa evoluir; evoluir exige transformação. Ninguém nasce pronto. Entender que o que trouxemos na mochila até aqui nos foi útil, mas pode não nos servir mais, é sinal de sabedoria. Se faz necessário deixar algumas coisas para trás para dar lugar a outras. Reinventar-se todos os dias. Nada nos atrasa tanto quanto o trem perdido do preconceito, o voo cancelado das ideias obsoletas e o beco sem saída da atitudes ultrapassadas. Orgulho, vaidade e teimosia são pedras pesadas que, não raro, guardamos escondidas no fundo da mala, debaixo da blusa do ciúme e da calça do egoísmo. Precisamos de leveza para andar. É fundamental abrirmos espaço para o novo, trocarmos a bagagem.

Analise a sua mochila com carinho. O amor é o melhor manual para te indicar o conteúdo essencial.

O problema não é o problema.

 

O problema não é o problema, mas a incapacidade de prosseguir diante da adversidade. É a perda da possibilidade de transformação, uma decisão puramente interna, que depende apenas de si próprio. Você terá dois interlocutores durante esse processo: o ego que o fará sentir injustiçado, pois tem a certeza que não era merecedor dos difíceis acontecimentos e lhe aplicará a mais insalubre prisão, a vitimização. Do outro lado temos a alma, o espírito eterno que somos, que anseia por evolução e sabe que a covardia não muda a realidade.
A dificuldade é grave? Morte, doenças com sequelas irreversíveis, amores que se vão, falências dolorosas… E daí?… Impossível reverter externamente? Pode ser a Vida sinalizando que as mudanças devem ser dentro de nós.
Não, não é fácil e ninguém falou ao contrário.
Você fala assim porque não foi contigo, gritarão muitos. Não foi, não desta vez. Todos, sem exceção, enfrentam suas batalhas.
Cada um tem os problemas na exata razão da necessidade da sua evolução. O ego do sofredor tem uma dificuldade enorme de entender isto. Afinal somos todos do bem e quase perfeitos, não é assim? Sim e não. Todos caminhamos para a plenitude, porém a estrada é longa e se torna esburacada na medida que o andarilho teima em pisar torto. A falta de entendimento da maneira correta de andar torna a viagem mais difícil e demorada. Quer mudar o Caminho? Basta mudar o seu jeito de caminhar. Entenda que você pode se arrastar ou voar durante a travessia e esta escolha é toda sua. Patas ou asas? Basta que entenda, evolua e transforme a si próprio. As tradições xamânicas, que buscam a sabedoria na natureza, ensinam que essa é a lição da borboleta. O poder é seu.
Simples assim? Sim e não.

A magia das palavras

 

Todos somos feiticeiros e a palavra é o principal ingrediente do caldeirão. Através do que é dito ou escrito podemos convidar os povos a dançar, semeando alegria e esperança ou construir muros, espalhando ódio e medo. Este é o poder e ele é seu. Assim, cada manifestação se torna um ato de magia e define qual tipo de feiticeiro escolhemos ser.