As maravilhas da dúvida

“Qual é a coisa certa?”, me perguntou o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, como fazia Sócrates, o filósofo grego, que devolvia uma pergunta com outra como método de raciocínio. Estávamos sentados na cantina do mosteiro diante de uma caneca de café e um pedaço de bolo de aveia. Desde sempre eu me sentia desconfortável com uma série de dilemas do cotidiano. De questões políticas e sociais que, de alguma maneira, atingem a todos até incertezas quanto à minha vida pessoal, como trocar de namorada, trabalho, cidade ou estilo de vida. Argumentei que a todo instante nos deparamos com dúvidas que nos incomodam em diferentes escalas, algumas são banais, outras muito sérias. O ruim é que as dúvidas causam enorme desconforto. Para piorar, em face das minhas incertezas eu me deparava com pessoas de opiniões divergentes, contra ou a favor, ambas convictas de suas posições e apresentando fortes argumentos. Falei que queria me livrar do incômodo da dúvida e saber sempre a coisa certa a fazer. Então, veio a pergunta do Velho sobre qual era a coisa certa. Respondi que se eu perguntei era porque não sabia e precisava de uma resposta. O monge bebeu um gole de café e disse: “A minha resposta desenha a minha verdade, não necessariamente a sua. É necessário que você se esforce para encontrar aquela que irá lhe completar, por isto o desconforto. Bendita seja a dúvida!”.

O esconderijo do mal

Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom de transmitir a sabedoria ancestral do seu povo através das músicas e das histórias que contava, acendeu o fornilho de pedra vermelha do seu indefectível cachimbo e deu uma baforada. Era um final de tarde de outono, estávamos sentados na varanda da sua casa e nos cobríamos com mantas coloridas para afastar o frio típico das montanhas do Arizona nessa época do ano. Eu tinha acabado de chegar de viagem e a primeira coisa que o xamã me perguntou, logo após aos cumprimentos, foi o motivo pelo qual eu “parecia carregar tanto peso nas costas”. Sim, era verdade, eu estava mal. Dei um sorriso amarelo como quem é visto sem as roupas do personagem que criamos para interpretar quem não somos nos palcos da vida e declarei que o mundo não era um bom lugar para se viver. Em seguida narrei alguns problemas que enfrentava em razão do posicionamento absurdo de algumas pessoas contrários aos meus. Sentenciei que, sem dúvida, o planeta é habitado por gente atrasada, insensível e ruim.

Um pouco sobre a paixão e o amor

Chovia muito e eu apressei o passo. Me alegrei assim que dobrei a esquina da rua estreita e sinuosa onde se localiza a oficina de Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos. Vi a sua clássica bicicleta encostada ao poste. Ao entrar na loja uma profusão de perfumes, cheiros de couro e café fresco se misturavam ao de flores. Foi uma grata surpresa encontrar Valentina sentada ao balcão. Ela tinha acabado de chegar. Embora também fosse monja da Ordem, nem sempre nos encontrávamos no mosteiro, uma vez que o compromisso assumido por todos os integrantes da irmandade é o de passar um mês ao ano para estudos, debates e reflexão. Nossas datas andaram desencontradas nos últimos tempos. Valentina tinha a poesia como arte, a engenharia como ofício. Eu a considerava uma poetisa singular, expoente da sua geração. Fui recebido com alegria por ambos. Logo estava sentado com uma caneca fumegante à minha frente. Perguntei pelo próximo livro e ela contou que terminava uma coletânea de poemas sobre o amor. Falou que pensava em dividir a obra em duas partes; em uma abordaria as mágoas provocadas pelo amor, enquanto a outra mostraria o poder encantador do amor. Comentei que a dor era a parte podre do amor. Ela concordou, quando fomos interrompidos pelo sapateiro: “Vocês entendem muito pouco sobre o amor.”

A porta estreita

O Sermão da Montanha é o eixo central dos estudos da Ordem, todos os demais textos, oriundos das mais diversas tradições filosóficas e metafísicas, são variantes a aprofundar e colorir esse valioso pensamento. Eu estava sentado em uma confortável poltrona na biblioteca do mosteiro, com o olhar perdido na bela paisagem oferecida por suas janelas, refletindo sobre as palavras proferidas nas colinas de Kurun Hattin, quando fui surpreendido pelo Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem. Ele trouxe da cantina duas canecas com café, colocou uma delas na pequena mesa ao meu lado e foi escolher um livro nas prateleiras. Sorri em agradecimento à gentileza e o convidei para sentar na poltrona à minha frente. Aproveitaria que estávamos a sós para conversarmos um pouco. Ele aceitou, se acomodou, bebeu um gole de café e quis saber o que eu estava lendo. Respondi que lia esse precioso legado filosófico, mais precisamente a parte em que falava sobre a porta estreita. ‘Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçosa é a estrada que conduz à perdição e numerosos são os que por aí entram. Estreita, porém, é a porta e difícil o caminho da vida e raro são os que o encontram’, li o pequeníssimo trecho. Comentei que o texto poderia ser um pouco mais extenso para fornecer mais detalhes e explicações quanto ao seu conteúdo. O Velho balançou a cabeça e disse: “O texto está perfeito em sua concisão. Lembre que ele foi elaborado não para alguns, mas para todos. É preciso que, ao seu modo, atinja os mais diversos níveis de consciência. Cada qual encontrará a profundidade a que estiver disposto a mergulhar. O Sermão da Montanha é o Código do Caminho, porém respeito quem o veja como uma grande bobagem”.

A lei da ação e reação

Eu tinha ido encontrar o Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos, em uma agradável taberna próxima à sua oficina. Logo após o garçom encher as nossas taças foi inevitável não desviarmos a atenção para a mesa ao lado. Um casal começou a discutir um pouco acima do tom até que a moça se levantou, disse ao rapaz que “tudo é ação e reação” e foi embora. Ficamos alguns minutos em silêncio até que o artesão comentou displicente: “As leis da vida são inexoráveis”. Eu o corrigi, acrescentando que a Lei da Ação e Reação era uma lei da Física, mais precisamente uma das três Leis de Newton, renomado físico inglês. Com ar professoral expliquei que para toda ação existe uma reação de igual intensidade e sentido contrário. Loureiro me olhou com doçura como quem está diante de uma criança exibida e disse: “Exato. Por ser uma lei da Física trata-se de uma lei do Universo; logo uma lei da vida, que atinge não apenas coisas e objetos, mas os relacionamentos e define o destino próximo de cada pessoa. Como uma sábia e amorosa bordadeira, o Universo tece a teia da vida de todos nós usando as leis como trama para que não reste nenhum fio solto”. Fiquei alguns instantes refletindo sobre aquelas palavras até que me dei por vencido e confessei que não tinha entendido todo o sentido do raciocínio.

O campo de batalha

O céu tinha amanhecido azul após dias cinzentos de muita chuva. Todos pareciam alegres no mosteiro, menos eu. Um dilema pessoal me corroía e furtava a minha paz. Sentado na cantina divagava a minha dúvida diante de uma xícara de café e um pedaço de bolo de aveia quando tive os pensamentos interrompidos pelo Velho, como chamávamos o monge mais antigo da Ordem. Ele me convidou para ajudá-lo a colher cogumelos na floresta no arredor do mosteiro. Explicou que o sol forte após os dias chuvosos era perfeito para a germinação dessas iguarias aos pés dos carvalhos da montanha. Acrescentou que pretendia fazer a sua famosa sopa de cogumelos no jantar. Logo que entramos em uma trilha o monge disse perceber a minha agonia e perguntou qual era o motivo. Expliquei que um grande amigo tinha me convidado para acompanhá-lo durante as férias em um acampamento de refugiados na África. Ele fazia parte de uma organização internacional de médicos que prestava atendimento em várias regiões do planeta onde havia carência de cuidados pela manutenção da vida. O Velho se virou para mim enquanto andava com seus passos lentos, porém firmes, e disse: “É um serviço maravilhoso e indispensável prestado por esses homens e mulheres, médicos ou não, no esforço de levar um pouco de conforto e muita cura em lugares onde há ausência de condições básicas de sobrevivência. Eu estive em um desses acampamentos anos atrás, durante uma insensata guerra local e me confesso encantado com a compaixão, a misericórdia e a generosidade depositada em forma de amor incondicional. Apesar de tanta dor e sofrimento, você entende a grandeza da vida e as maravilhas da superação no esforço de fazer diferente e melhor”.

Os tons da prudência

Quando dobrei a esquina para entrar na estreita rua onde se localizava a oficina de Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos, me alegrei ao avistar a sua clássica bicicleta encostada no poste. Era cedo, o sol acabara de surgir para evaporar o sereno que umedece o calçamento de pedras em agradável sensação de andar por entre as brumas. Fui à oficina em busca de café e um pouco de prosa vadia. Ao entrar me deparei com outros amigos do artesão. Sentados, enquanto Loureiro lhes enchia as xícaras, eles estavam reunidos em uma espécie de assembleia informal. O sapateiro me recebeu com a alegria habitual, me acomodou sentado sobre uma caixa de madeira e logo me entregou uma caneca fumegante para afastar o frio da manhã e acordar as ideias. Aqueles homens tinham entre si uma amizade que os unia há muito tempo. Ele me explicou que a turma teve mais um integrante, René, o dono da mais tradicional banca de revistas da cidade, falecido há pouco. Em frente à banca, todos os dias, bem cedo, esses amigos se reuniram durante anos para conversar sobre qualquer assunto enquanto aguardavam o jornal do dia chegar. Era um ritual que fazia parte da história de todos eles. O filho do jornaleiro tinha assumido o negócio, ainda durante o tratamento do pai, mas agora, em razão de uma dívida, o distribuidor se negava a entregar novos jornais e revistas. Sem renovar o material para trabalhar a banca estava prestes a fechar. O filho os procurara em busca de dinheiro emprestado para quitar o débito e evitar que o tradicional negócio cerrasse as portas. O problema é que o filho, que morara fora por muito tempo, não tinha boa fama na cidade.

De volta para a casa

Quando virei a esquina e não vi a clássica bicicleta de Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos, encostada no poste em frente à sua oficina, pensei que não estava com sorte naquele dia. Os horários improváveis e inusitados de funcionamento da sapataria já tinham virado lenda na pequena e charmosa cidade que fica ao sopé da montanha que acolhe o mosteiro. Eu estava triste. Desde sempre, o meu relacionamento com a minha mãe tinha sido complicado, como se amor e mágoa se alternassem no palco da vida, gerando memórias que acabavam por atrapalhar os dias a serem vividos. Tínhamos tido mais uma discussão e eu queria encontrar com o bom artesão. Eu precisava falar para lembrar o que já sabia e ouvir para aprender o que ainda não sabia. Era a hora do almoço e decidi ir a uma agradável cantina perto dali. Como se o acaso existisse, quando entro no restaurante me deparo com o sapateiro sentado à mesa com uma mulher mais jovem que ele. Eu não a conhecia. Quando me aproximei percebi que eles estavam de mãos dadas e tinham as faces molhadas em lágrimas. Recuei, mas ele me viu, abriu um sincero sorriso e me chamou. Me presenteou com um forte abraço e me apresentou a moça. Era a sua filha mais nova. Ela tinha saído muito cedo de casa, após muitas brigas com o pai, abandonara a universidade sem a devida conclusão e ficara anos sem dar notícias. Eu conhecia a história e sabia que Loureiro a procurara por muito tempo sem sucesso. Ela acabara de voltar. A alegria pelo reencontro transbordava em ambos.

A estação

Na pequena e charmosa cidade que fica no sopé da montanha que acolhe o mosteiro há uma secular estação de trem. Estávamos, eu e o Loureiro, o elegante sapateiro amante dos vinhos e dos livros, sentados em um antigo banco de madeira à espera de sua sobrinha, que a pedido da mãe, uma das irmãs do artesão, passaria alguns dias com o tio, na tentativa de ajudá-la a dissolver a angústia que a abatia. Era muito cedo e o sol ainda não ganhara força para afastar o frio da madrugada. Percebi que ele estava encantado com todo aquele movimento de chegadas e partidas, típico de qualquer estação. Antes que eu lhe indagasse sobre o assunto, surgiu a sua sobrinha. Era uma moça na casa dos trinta anos. Muito bonita, porém, bastante abatida. Eles trocaram um abraço forte, como fazem os que se amam ao se encontrarem. Fomos apresentados e ela foi muito gentil. A jovem disse que precisava de um café, pois não conseguira dormir bem no vagão. Fomos a uma cafeteria ali mesmo. Quando a simpática garçonete colocou sobre a mesa as canecas fumegantes acompanhadas de pão quente com o delicioso queijo da região, a sobrinha abriu o coração. Lamentou que a vida tinha virado ao avesso.

Beleza oculta

Pelas manhãs era comum encontrar o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, no jardim do pátio interno do mosteiro, cuidando das plantas. Tinha predileção pelas rosas, às quais ele dedicava horas a fio. Sempre que possível, eu gostava de acompanhá-lo, não pelo gosto à jardinagem, mas pelas conversas proporcionadas. Nesse dia, ele foi procurado por uma jovem. A moça se declarou desencantada pela vida. Tudo lhe parecia sem graça, os dias eram cinzentos e as pessoas desprovidas de encanto. Confessou que a alegria a irritava por parecer idiotice. Os dias não passavam de uma sucessão de erros e frustrações. Não existia razão para sorrir. Ao final dos seus lamentos perguntou se o Velho era feliz. O monge que a tudo ouviu com paciência e atenção enquanto cuidava do jardim, mostrou na palma da mão uma pequena lagarta que tinha tirado das flores, guardou-a no bolso da túnica para depois soltá-la na floresta e disse: “Sempre haverá motivos para sorrir; a alegria é uma semente possível de germinar até mesmo no deserto. A alegria é uma escolha da sabedoria e do amor”.

A moça interrompeu para dizer que tudo era muito poético e pouco prático. Não fazia sentido a alegria ser uma escolha. Muito menos ligada à sabedoria e ao amor. O Velho explicou: “O sofrimento é uma escolha. A alegria é a alternativa”. A jovem se irritou. Acusou a insensibilidade do monge em relação aos problemas alheios, alguns muito sérios. O Velho, sem perder a serenidade prosseguiu: “O problema nunca será o verdadeiro problema. O problema é a maneira como cada um escolhe enfrentar as inevitáveis adversidades. Você pode percebê-lo como uma barreira intransponível e restar frustrada. Então, você tem um problema. Porém, pode entender que ali reside uma lição para aprendizado e superação. Nesse caso, você está diante de um mestre. A cada curva podemos estagnar ou evoluir. A decisão é pessoal; cada qual viaja sob condições próprias, como herdeiro de suas escolhas”.

A ânfora da humildade

Eu estava de volta ao Himalaia. Era uma promessa que tinha feito a mim mesmo, retornar uma vez por ano à vila chinesa, próxima ao Tibete, para estudar o Tao com Li Tzu. A única hospedaria que havia no lugar estava sempre lotada de alunos de todas as partes do mundo, sedentos por conhecer um pouco mais sobre o milenar Tao Te Ching, o Livro do Caminho e da Virtude. As reservas, na prática, eram de pouca utilidade e não garantiam a vaga. As reclamações quase nunca surtiam efeito, pois a anciã responsável pela pousada respondia, sempre sorrindo, em inglês ou mandarim, de acordo com a conveniência dela em se fazer entender. No pequeno espaço que servia como recepção, eu disputava com um homem enorme, com mais de dois metros de altura, forte como um halterofilista, quem ficaria com o último quarto vago. Ambos tínhamos reserva, a minha era anterior a dele, mas ele chegara à hospedaria minutos antes de mim. Discutíamos, cada qual com suas razões e argumentos, diante da anciã que parecia se divertir, uma vez que não parava de sorrir, embora o tom da discussão aumentasse a cada palavra proferida. Até que ele pegou a chave do quarto das mãos dela e disse que a questão estava resolvida: ele ficaria com o quarto, salvo se eu fosse capaz de tomar a chave dele. Repleto de raiva, não reagi. A diferença de força física anunciava uma grande surra, caso eu aceitasse jogar pelas regras do meu oponente. Pedi à anciã que tomasse uma atitude contra aquela arbitrariedade. Ela apenas deu ombros e respondeu, em seu idioma, algo que interpretei como “nada posso fazer”. Claro, sem abandonar o sorriso. Como se não bastasse, e com efeito devastador para mim, ainda ouvi uma série de provocações e piadas desagradáveis por parte do meu desafeto enquanto me retirava da hospedaria.

Fui ao encontro de Li Tzu e narrei todo o ocorrido. Em resposta, o mestre taoista me convidou a tomar chá com ele. Fechei os olhos para controlar a ira e apenas concordei com a cabeça. Fomos à cozinha e, sem nenhuma pressa, ele foi misturando várias folhas desidratadas em um coador para depois deixá-las em infusão por alguns minutos. Tudo sem dizer palavra. Bastante irritado, perguntei se ele não iria comentar sobre o que eu tinha contado. Li Tzu respondeu: “Por ora, o silêncio. Ele permite que você ouça o seu coração. Será sempre o melhor mestre”. Depois encheu as duas xícaras e as colocou sobre a mesa de madeira rústica. Então, falou: “Você perdeu a batalha”. Questionei se ele me aconselhava a reagir de maneira violenta e lutar pela chave do quarto. Ele balançou a cabeça em negativa e disse: “Claro que não. A sua derrota foi decretada quando se permitiu sentir raiva. A sombra foi mais forte do que a luz”.

A flor da simplicidade

Estávamos eu e o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, em uma prestigiosa universidade para um ciclo de palestras sobre as várias faces da inteligência: cognitiva, emocional, artística e espiritual. Falariam cientistas, professores, psicanalistas, filósofos e artistas. No intervalo, logo após a fala de um famoso intelectual, fomos tomar um café. O outono oferecia um clima agradável e as mesas do lado de fora da cafeteria permitiam uma deliciosa integração com o campus arborizado. O sol nos acariciava por entre as folhas. Comentei com o monge que não tinha gostado desse último palestrante. Na verdade, acrescentei, achei o discurso desnecessariamente rebuscado, pomposo, repleto de palavras não usadas no dia a dia e, pior, confuso. O Velho bebeu um gole de café e disse: “As águas precisam ser turvas para que não percebam que são rasas”. Pedi para que explicasse melhor. Ele foi didático: “Quem deseja o entendimento de uma ideia se expressa de maneira clara, salvo se o fruto ainda não está devidamente maduro para ser colhido da árvore. Alguns confundem hermetismo com sofisticação. A verdadeira sofisticação reside na simplicidade; consiste em tornar simples uma ideia elaborada ou difícil. A sabedoria é simples; a simplicidade é uma virtude poderosa e rara, indispensável a todas as demais virtudes”.

O mundo é o espelho da sua alma

A angústia me dominava quando entrei na biblioteca do mosteiro em busca de alguma leitura que aliviasse a aflição da minha alma. Sentado em uma confortável poltrona, com um livro repousado no colo, o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, olhava para as montanhas através de uma das janelas, quando teve a sua atenção desviada para mim. Ao perceber pelo meu semblante a desordem interna que imperava, franziu as sobrancelhas como maneira de perguntar o que havia acontecido. Reclamei do descaso das pessoas no trato pessoal, de como eram insensíveis, materialistas e individualistas. Relatei várias situações para exemplificar a razão do meu sentimento. Falei de como esse comportamento provocava tragédias desnecessárias. Eu me sentia abandonado e deslocado. Definitivamente, concluí, a humanidade estava perdida e o mundo não era um bom lugar para se viver. O monge sorriu, como quem se diverte com uma criança que reclama que não ganhou um doce, se levantou e guardou o livro na estante apropriada, foi até outra prateleira em busca de um título diferente. Procurou por algo em suas páginas por breves instantes, guardou-o no bolso da túnica, segurou meu braço e me encaminhou para fora da biblioteca. Depois falou: “Vamos conversar no refeitório; preciso de uma xicara de chá bem quente”. Alguns minutos depois, diante de duas canecas fumegantes, ele iniciou a conversa: “Se você está bem consigo estará bem com o mundo. O olhar que cada qual tem sobre si mesmo será a lente pela qual enxergará a vida. Isto definirá a clareza, as cores e a extensão do universo que é o mesmo para todos, mas diferente para cada um de nós. O mundo, feio ou bonito, será sempre o espelho da sua alma”.

Amar é uma arte de muitas virtudes

Eu acompanhava o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, em um ciclo de palestras que ele ministrava, quando recebi o convite para a festa de aniversário de oitenta anos de um parente muito querido. Seria em uma cidade próxima de onde estávamos. Convidei o Velho para ir comigo; ele aceitou de imediato. Confessei a minha contrariedade em encontrar alguns parentes com os quais restara rusgas do passado. Falei que na festa encontraria com um primo, que foi um dos meus melhores amigos na adolescência, mas que em determinado momento nos desentendemos e brigamos. Eu não lhe dirigia a palavra há anos. Pedi para que ele não estranhasse. O Velho comentou: “As cerimônias, sejam pessoais, familiares, profissionais ou religiosas são importantes rituais, não apenas de celebração da vida, mas de aproximação, não somente entre iguais, aqueles que vibram na mesma sintonia energética, porém, e tão importante quanto, é a chance de encontro entre aqueles que possuem divergências que necessitam ser pacificadas. A diferença no olhar nunca deve ser motivo para o distanciamento do coração. São as flores do respeito, da compaixão, da humildade, da paciência e da coragem indispensáveis no jardim do amor. Para amar não basta o bem-querer. O amor é uma arte de muitas virtudes”.

O ser inteiro

Tinha feito calor o dia inteiro. A brisa que descia das montanhas tornava o final da tarde bastante agradável no mosteiro. Encontrei o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, sentado em uma confortável poltrona situada em uma das varandas que permite uma belíssima vista dos vales que se avizinham abaixo de nossa sede. Pedi para sentar ao seu lado e ele concordou com um movimento de cabeça. Por me conhecer há algum tempo, foi direto ao ponto: “O que lhe aflige”? Expliquei que muitas vezes, mesmo na certeza de tomar a decisão correta, algum desconforto se instalava em mim, o que era uma contradição. Ele pediu para que eu fosse mais específico e acrescentou: “Vamos ao caso concreto”.

Expliquei que um grande amigo tinha me pedido dinheiro emprestado. Era um valor considerável. Embora eu tivesse a quantia, que estava guardada para outros fins, neguei o empréstimo. Isto furtara a minha paz nos últimos dias. Ponderei que estranhava os meus próprios sentimentos, uma vez que a convicção da minha escolha deveria pacificar o meu coração. Com os olhos vagando no horizonte, o Velho falou: “O espírito, a verdadeira identidade eterna de todos nós, em sua infância, nosso atual estágio, tem o ego distante da alma como se estivéssemos divididos em dois. Por um lado, o ego se empenha pelas conquistas materiais e os prazeres sensoriais, os aplausos e o brilho social. Pelo outro, a alma se alegra com as vitórias dos sentimentos sobre os instintos, com a superação das dificuldades, com a transmutação das próprias sombras em luz. O ego quer o reconhecimento do mundo; a alma quer que o melhor de si brote para o mundo. O ego está ligado às paixões; a alma ao amor. O ego está no âmbito do eu; a alma pensa em nós. Na viagem do aperfeiçoamento o Caminho nos impõe escolhas. Com o ser dividido em dois as decisões criam conflitos internos. Estes conflitos geram desequilíbrio em todos os níveis”. Deu uma pausa antes de acrescentar: “Temos que alinhar o ego à alma, no sentido de que os desejos daquele estejam em harmonia com as buscas desta. Da mesma maneira temos que trabalhar o ‘eu’ sem esquecer o ‘nós’, sendo que a recíproca também se aplica. Ou seja, cuidar do mundo sem esquecer de si. São partes da mesma arte. Assim o ser se torna uno, se liberta das angústias mundanas, conhece a plenitude e a paz”.

Uma questão de respeito

O tambor de duas faces rufava compassado ao toque de Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom de perpetuar a sabedoria ancestral do seu povo através da palavra. Pedi autorização para me sentar na manta colorida estendida na sua frente, do outro lado da fogueira. Sem abrir os olhos, ele apenas sorriu e balançou a cabeça de modo sutil. Enquanto eu me acomodava, o xamã começou a cantar uma música de puro agradecimento por estar ali em comunhão com a Mãe-Terra, naquela noite sem lua, com o céu salpicado de estrelas. Quando ele silenciou a melodia, falei que eu precisava conversar. Contei que estava muito chateado. Eu tinha tido uma discussão com um dos meus melhores amigos. Ele teve um comportamento bastante desrespeitoso comigo em uma determinada situação. Estávamos sem nos falar já há algum tempo. Canção Estrelada acendeu o seu cachimbo com o fornilho de pedra vermelha, sem pressa, como se a noite não tivesse fim, tragou duas vezes, me convidou para fumar e não disse palavra.

No dia seguinte me chamou para acompanhá-lo até uma pequena cidade próxima, perto da sua casa, nas montanhas do Arizona, para algumas compras. Fomos em sua caminhonete. No trajeto aproveitei para tornar a tocar no assunto da briga com o meu amigo. Narrei os detalhes e fundamentei os motivos da minha decepção. Canção Estrelada quis saber a razão de eu não procurar esse amigo para uma conversa na tentativa de reatar laços valiosos: “Se a lembrança dele a toda hora lhe vem ao coração é porque um bom fruto restou”, acrescentou. Respondi que ele era quem estava errado, logo, cabia a ele me procurar. Era uma questão de respeito. O xamã ficou com os olhos tristes e silenciou a voz.

O tamanho de um sonho

Era uma manhã de primavera, o sol equilibrava a brisa gelada da montanha e trazia uma agradável sensação térmica. Eu estava na frente do mosteiro apertando os parafusos das dobradiças do enorme portão principal, quando tive a atenção desviada para um carro luxuoso que estacionou no pátio externo. De dentro dele desceu um anão. Logo o reconheci como um famoso comediante em programas de TV. Sem dúvida, era um ator talentoso que nunca usou a sua altura como subterfúgio para nenhuma piada. Seu humor era fino e inteligente. Nos últimos anos comandava um talk-show de grande audiência. Ele se dirigiu a mim de maneira educada e pediu para falar com o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem. Enquanto seguíamos para o refeitório, onde o Velho gostava de conversar com as visitas, quase sempre ao redor de uma mesa com bolos, biscoitos, queijos e café, deixando-os à vontade como se estivessem em casa, o homem confidenciou que estivera ali uma vez, há quase duas décadas, quando ainda era uma aspirante aos palcos, e aquele dia tinha sido angular em sua vida.

O Velho ofereceu um belo sorriso quando o viu. O ator perguntou se o monge se recordava dele e o Velho aquiesceu com a cabeça. Eu trouxe canecas fumegantes de café e fui convidado a me sentar com eles. Em seguida, o visitante falou que retornara ao mosteiro para agradecer. Confessou que quando estivera ali, naquela tarde que parecia distante, estava preste a desistir da carreira, face às enormes dificuldades que encontrava. Porém, a conversa com o monge o enchera de coragem para prosseguir e enfrentar todas as adversidades. O Velho tornou a sorrir e disse: “A coragem não foi minha, mas sua. Ninguém pode lhe dar o que já é seu. Ela estava adormecida, eu apenas a despertei para luta. A batalha você travou sozinho. Dominou o medo, transformou as incertezas, enfrentou o preconceito em relação à sua estatura física, que eram muitos e bastante agressivos, com paciência, trabalho e arte. Mostrou ao mundo que o importante não é o tamanho de uma pessoa, mas a dimensão do seu sonho”.

O passado é um veneno

Loureiro, o elegante sapateiro amante dos vinhos e dos livros, fechou a oficina ao meio-dia e andávamos pelas ruas estreitas e sinuosas da secular cidadezinha localizada no sopé da montanha que abriga o mosteiro. Era um sábado típico de outono, com o céu claro, sem névoas e o sol aquecia a pele sobre o casaco fino. Estávamos alegres rumo ao nosso restaurante predileto para almoçar e, claro, beber algumas taças de tinto. Amenidades eram a pauta do dia, quando logo na porta encontramos Helena, uma amiga em comum, muito abalada, trazendo no rosto olheiras fundas como registros de noites mal dormidas. Aceitou, de pronto, o convite para sentar à mesa conosco e, mesmo sem ser perguntada, logo começou a falar sobre as causas da desordem emocional que a transtornava. A dor parecia não caber dentro de si e por isto precisava desabafar. Ela acabara de encerrar mais um casamento. Já era o quinto ou sexto, teve alguma dificuldade de saber se um deles poderia ser considerado como tal em razão da sua curta duração. Se disse decepcionada com as pessoas em geral. Confidenciou que a intimidade revelava faces desagradáveis que impossibilitavam a convivência a longo prazo. Helena falou por um bom tempo, desfiando os seus lamentos e ouvíamos com paciência, até que o artesão quis saber se ela já tinha sido feliz, alguma vez, no amor. Nesse instante, os olhos dela brilharam e um sorriso, que parecia impossível, surgiu em seu belo rosto.

O dia da independência

Fiquei feliz ao ver a clássica bicicleta de Loureiro, o elegante sapateiro amante dos vinhos e dos livros, encostada no poste em frente a sua oficina. Eu estava mal. Uma série de acontecimentos, com diferentes pessoas, me faziam sentir em um caldeirão de emoções que variavam entre a irritação e a tristeza. Fui recebido com um forte abraço e alegria sincera. O artesão pediu para eu me acomodar enquanto passaria um café fresco para animar a nossa conversa. Falei que precisava desabafar e trocar ideias, pois parecia que o mundo havia criado um complô contra mim. De uma hora para outra, muitas das minhas relações se tornaram problemáticas ou frustrantes. Relatei alguns desentendimentos e decepções que ocorreram há dias com diversas pessoas que eu muito presava. Acrescentei que tudo acontecera ao mesmo tempo e arrisquei a brincar dizendo que parecia karma. Loureiro repousou duas canecas cheias de café sobre o balcão e disse: “Karma é aprendizado. Todo karma é um mestre que vai aprimorar e fortalecer o aprendiz. Entendidas as lições o karma desaparece, assim como aquele tipo de situação, até então recorrente, por não haver mais razão de ela existir. Por outro lado, o Karma se prolonga, e até endurece, na medida que nos recusamos a evoluir. Se a vida é uma universidade, o karma se resume nas matérias que devemos cursar”.

De volta ao topo do mundo

Falei ao Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, que passaria o meu aniversário no mosteiro de Takshang, próximo à cidade de Paro, no Butão. Queria o silêncio e a energia desse mosteiro budista, de difícil acesso, encravado no Himalaia, para meditar e refletir sobre o momento em que me encontrava, mais precisamente a respeito da empresa em que eu era sócio. Tínhamos recebido uma proposta de outra firma, bem maior e de âmbito internacional, para uma fusão que geraria, além de um grande ganho financeiro e uma mudança angular em meu estilo de vida. Desde a ter que usar terno no dia a dia até morar em outra cidade, fora as incontáveis reuniões e rotinas típicas das grandes empresas. Os meus sócios, éramos três, estavam animadíssimos com a possibilidade que se apresentava. O meu coração não me deixava compartilhar de tamanho entusiasmo. A nossa empresa navegava com tranquilidade, não éramos ricos, mas tínhamos uma vida confortável e, acima de tudo, havia tempo para eu me dedicar a outras atividades que me eram valiosas, como a Ordem, os estudos, a escrita, os encontros com os amigos, a convivência familiar, entre outros bens intangíveis. No entanto, não é toda hora que surge uma oportunidade para subir de patamar financeiro e todos me pressionavam para que eu decidisse logo. A mudança no jeito de viver era o que agoniava. A dúvida me corroía.

O Velho me aconselhou: “Gosto das transformações, pois são bons indícios de evolução. No entanto, nem toda fruta é doce assim como nem toda regra é absoluta. Quando sair do Butão, pegue a estrada que desce o Himalaia pelo lado chinês. Você encontrará uma agradável vila. Lá, procure por Li Tzu, o mestre taoista. Se deixe encantar por tudo que acontecer”. Agradeci e parti sem entender exatamente ao que o monge se referia.

O topo do mundo

Enchi uma caneca de café na cantina e fui à biblioteca do mosteiro. Era final da tarde e eu ansiava por um pouco de leitura e reflexão. Encontrei com o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, sentado em uma confortável poltrona com o olhar entretido nas montanhas avistadas através das enormes janelas. Ele me cumprimentou com um sorriso sincero. Ao me perceber perdido nas prateleiras entre os inúmeros bons títulos, de Yogananda a Fernando Pessoa, de Chico Xavier a Lao Tsi, passeando entre Espinosa e Jung, o monge sussurrou: “Faça como Paulo, o apóstolo dos gentios. Dizem que ele sempre abria a Bíblia ao acaso quando queria um texto para meditar. Como o acaso não existe, ele sempre encontrava as palavras das quais precisava”. Sentei-me com as Escrituras e a página que se apresentou falava de uma passagem que me incomodou desde a primeira vez em que li, na qual mestre Jesus diz que é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Céu. Li e reli todo o capítulo. Insatisfeito, perguntei ao Velho se o dinheiro era um impeditivo à iluminação. Ele me olhou como a uma criança e disse com a sua voz suave: “Claro que não. O dinheiro é uma ferramenta maravilhosa, passível de semear bons frutos, desde, é claro, que utilizado de maneira correta”. Argumentei de que não isso que estava escrito.

O amor não precisa ser perfeito

Quando entrei eles já estavam conversando. Loureiro, o sapateiro amante dos vinhos e livros, escutava as lamúrias de um sobrinho sobre as dificuldades que tinha nos relacionamentos afetivos. Fomos apresentados. O jovem, bastante educado, disse que não se incomodava de eu participar da conversa. Na verdade, achava muito bom, pois seria mais uma opinião a clarear o seu entendimento. O elegante artesão foi passar um bule de café enquanto o rapaz me explicava que, em suma, quanto mais ele conhecia uma pessoa maior era a sua decepção. Sentenciou que as máscaras não se sustentam no convívio pessoal e, o que se revela, definitivamente nunca o agradou.

Loureiro, que enchia as nossas canecas sobre o balcão com café fresco, aproveitou a deixa e disse: “Todos desejamos ser amados e admirados. É a vontade latente do nosso ego: os holofotes e os aplausos. Então, inconscientemente criamos personagens que acreditamos serem reais para interpretar os papéis que atinjam tal objetivo”. O sobrinho interrompeu para acrescentar que era exatamente isso que não gostava nas pessoas. Buscava por aqueles que fossem autênticos. “Mas, de certa maneira, eles são”, corrigiu o tio. O rapaz disse que o sapateiro estava sendo contraditório. Loureiro iniciou a sua explicação ao estilo socrático, com uma pergunta: “Quando você se interessa por uma moça costuma se aproximar mostrando o quanto é vaidoso, orgulhoso, teimoso e egoísta”?

As ferramentas do amor

 

Quando o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, entrou na agradável biblioteca do mosteiro, eu estava imerso na reflexão de um trecho do livro de parábolas de Rami. O monge retirou um livro da estante e se acomodou em uma confortável poltrona ao meu lado. Reparei que era o milenar Tao Te Ching ou o Livro do Caminho e da Virtude, de Lao Zi. Como estávamos apenas os dois na biblioteca, ousei puxar assunto. Falei que, por acaso, lia um livro que também abordava o valor das virtudes e, além de enaltecer a coragem como uma delas, sentenciava que ‘o amor é para os fortes’. O monge, com a sua voz sempre suave, foi lacônico em seu comentário: “Sim, é verdade”. Discordei sob o argumento de que o amor, por toda a sua importância, estava à disposição de todos, indiscriminadamente. O Velho me olhou com a sua enorme paciência e disse: “Sim, também é verdade”. Balancei a cabeça e mexi as mãos, como se esses movimentos pudessem amplificar as minhas razões, para acrescentar que ele estava sendo incoerente: o amor era para todos ou apenas para os fortes. Pedi para ele se decidir. O monge arqueou os lábios em leve sorriso e começou a explicar: “Você confunde tudo, Yoskhaz. Não percebe que se trata de coisas diferentes? Ou melhor, de situações em que o amor se apresenta de maneiras distintas”?

“Sim, o amor está ao dispor de cada pessoa, pois, por ser a força que rege o universo, repousa na essência de todos. O amor é a estrada e o destino. É a virtude maior por estar presente em todas as demais virtudes ou elas deixam de existir. No entanto, para viver o amor, ao menos em toda a sua extensão, precisamos dessas outras virtudes como instrumentos de disseminação do bem. Assim, permitimos, não apenas o desenvolvimento do próprio ser, mas a propagação da luz por ele emanada até a mais distante das estrelas. O universo agradece e nos retribui também em luz por gratidão e justiça”. Deu uma breve pausa e prosseguiu: “O amor é a virtude indispensável nas transformações, logo, sem ele não há evolução. No entanto, o amor adormecido em cada um de nós precisa de trabalho para despertar e crescer nas adversidades. Amar quem nos ama é fácil; amar quando as situações são favoráveis, muitos conseguem; amar nas adversidades é permitido apenas aos fortes”.

Valiosos pilares

 

Na charmosa cidadezinha que fica no sopé da montanha que acolhe o mosteiro, aos sábados, todo o comércio encerrava a sua atividade ao meio-dia, salvo restaurantes, cafeterias e pubs, pontos de encontro para alegres almoços ou reunião de amigos. A famosa exceção era a oficina de Loureiro, o elegante sapateiro, amante dos livros e dos vinhos. A loja de Loureiro funcionava em horário irregular e inusitado. Encontrá-la aberta a qualquer hora do dia ou da noite era um autêntico jogo de sorte. Naquele sábado à tarde, antes de retornar ao mosteiro, arrisquei encontrá-lo para um café e uma conversa vadia. A loja estava fechada. Como a minha carona era apenas para a noite, tentei uma taberna pouco concorrida, a qual ele muito apreciava. Encontrei o artesão acomodado em uma confortável poltrona, ao lado de uma pequena mesa com uma taça de tinto e um abajur que lhe permitia ler O Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa, com invejável tranquilidade. Quando fui cumprimentá-lo, se aproximou, quase ao mesmo tempo, outro amigo dele. O homem estava com os olhos vermelhos e inchados de tanto chorar. De imediato, contou que na noite anterior fora surpreendido com o término de um romance que, embora não tenha durado muito tempo, havia sido intenso. Loureiro, ao perceber que o amigo não tinha me notado, nos apresentou. Renê, este era o seu nome, me tratou de maneira educada.  O sapateiro pediu para que puxássemos cadeiras para ficarmos mais próximos a ele, pois o seu tom de voz era sempre muito suave. Acrescentou para o Renê que poderiam conversar sobre o seu dilema em outra hora, uma vez que a minha presença poderia constrangê-lo. O homem disse que não tinha problema nenhum. Precisava desabafar e ouvir algumas palavras que pudessem arrefecer a sua dor.

A semente

 

Eu caminhava pelas montanhas do Arizona ao lado de Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom de usar a música para perpetuar a sabedoria do seu povo, quando paramos em um pequeno platô com uma vista encantadora. Ele estendeu o seu manto colorido no chão, acendeu o inconfundível cachimbo com fornilho de pedra vermelha e me pediu para preparar uma fogueira. Depois ritmou com o seu tambor de duas faces uma sentida cantiga ancestral na qual pedia proteção para nunca abandonar ‘o lado ensolarado da estrada’. Ficamos um tempo que não sei precisar sem dizer palavra, como viajantes no mundo das ideias, até que o xamã rompeu o silêncio: “Há muitos elementos na natureza que considero sagrados pelo simbolismo que representam. O nascer do sol pela importância da luz em nossas vidas; o voo da águia por me ensinar a ver todas as coisas do alto; as estrelas para lembrar que existem outros mundos além deste; a mudança das estações pela lição da renovação dos ciclos; a borboleta para me lembrar que a lagarta pode ter asas; o rio para não me deixar esquecer que todas as águas um dia chegam ao mar. No entanto, nada me encanta tanto quanto a semente”. Deu uma baforada e prosseguiu: “Enfim, há lições por todos os lados. O sagrado está misturado ao mundano a espera de ser revelado”. Quando eu iria interromper para perguntar sobre a semente, a conversa mudou de curso. Ele falou: “Assim como a magia aguarda o momento do feiticeiro”.

A maior das mentiras

 

Loureiro, o sapateiro que costurava o couro como ofício e as ideias como arte, andava ao meu lado pelas estreitas ruas de pedras da charmosa cidadezinha que fica ao sopé da montanha que abriga o mosteiro. Procurávamos um restaurante para almoçar. Escolhemos um bem sossegado para que pudéssemos prosear à vontade. Assim que entramos ele encontrou uma amiga de longa data, uma artista plástica que se tornara muito famosa devido aos seus quadros. Embora viajasse por todo o mundo por conta de convites e exposições, sempre que possível ela retornava àquela pequena cidade a fim de reencontrar as suas raízes, como maneira de não esquecer a essência que a movimentava. ‘O conhecimento sobre a minha aldeia é que me concede o poder do mundo’, repetiu a famosa frase quando o sapateiro lhe perguntou o que fazia ali ao invés de estar em Nova York, Londres ou Paris. Imediatamente ela nos convidou para sentar à sua mesa. Eu a conhecia por fotos de revistas, mas me impressionou a sua elegância e, principalmente, o seu magnetismo, embora não parecesse fazer qualquer esforço para uma coisa ou outra. Devia ter a idade de Loureiro e os cabelos brancos e curtos, como os do sapateiro. Decidira não mais usar tintura; a maquiagem era quase nenhuma. Alegou que ‘dá muito trabalho e no mais, já há tinta demais na minha vida’. Rimos. Fiquei pensando se a elegância não residia na sua sofisticada simplicidade. Perguntada sobre as novidades, ela disse que teria de ir a Madri dentro de alguns dias, pois um dos seus quadros fora escolhido para compor uma mostra no Museu do Prado sobre ‘sentimentos ocultos’. Tirou da bolsa uma foto da tela para nos mostrar. Era um belíssimo quadro, de enormes dimensões, daqueles que ocupam uma grande parede, no qual ela retratava uma mulher jovem e sozinha no salão de uma festa. Ela disse que batizou o trabalho como “A Maior das Mentiras”. Eu quis saber a razão do título. A artista me respondeu que depois que terminou a obra achou que era triste o sorriso da mulher retratada. Confessou que se sentiu incomodada com a tela, no entanto, ressaltou, não sabia nem tentava entender a razão daquela interpretação, pois pintava com o inconsciente.

O sentido da vitória – outra vertente

 

Eu estava acompanhando o carpinteiro que trocava as dobradiças do portão do mosteiro quando fui surpreendido pela chegada de um sobrinho do Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem. O jovem, na casa dos trinta anos de idade, tinha as feições transtornadas e chegara em busca de algumas palavras do tio que pudessem explicar a tempestade que assolara o seu casamento. Ao encaminhar o rapaz, encontrei o Velho na biblioteca do mosteiro lendo As Parábolas de Rumi. Embora fosse um lugar de absoluto silêncio, como estávamos a sós, o monge decidiu que ali mesmo conversaria com sobrinho, ao menos até o momento em que chegasse alguém. Fiz menção de me retirar, mas o monge pediu para que eu ficasse. Sem demora, o rapaz desabou toda a sua incompreensão e mágoa sobre o que estava acontecendo. Explicou que o início do casamento fora muito complicado e apenas depois de muitas brigas conseguiu convencer a esposa da necessidade de ela mudar o seu comportamento em relação a diversos aspectos da sua vida social e profissional. Precisava entender que se tornara uma mulher casada. Acrescentou que havia sido uma vitória, após muitas discussões, a mudança de atitudes da esposa. No entanto, logo depois, ela começou a ficar triste sem motivo aparente. Deprimida, procurou ajuda com uma conhecida psicanalista. O tratamento fez efeito, pois, aos poucos, ela recuperou o sorriso aberto e encantador. No entanto, há poucos dias ela comunicou que desejava o divórcio. O jovem não entendia a falta de reconhecimento da esposa, pois ele atravessara ao seu lado o período mais sombrio do romance e, quando tudo parecia resolvido, ela decidira partir. Não, não concordava nem entendia a separação. Mesmo assim, a mulher foi embora levando consigo apenas o que cabia em uma mala.

A revelação

 

A minha primeira fase como discípulo na Ordem foi representada por muitas perguntas a respeito dos mistérios que envolvem a vida. Algo que sempre considerei positivo, pois me impulsionava a reflexão e também me ensinou muito sobre paciência e serenidade, pois as respostas apenas são permitidas quando estamos prontos para entendê-las. Não que elas sejam negadas, mas pelo motivo de não conseguirmos vê-las, como se um manto de invisibilidade as envolvessem até que mudem os nossos olhos. Eu tinha terminado de varrer o jardim e antes de seguir para a biblioteca do mosteiro passei no refeitório para pegar uma caneca de café. Livros e café é uma combinação que sempre adorei. Encontrei com o Velho diante de um pedaço de bolo de aveia, com um olhar distante. Pedi licença para interromper os seus pensamentos e me sentar ao lado para um pouco de conversa. Ele me autorizou com um doce sorriso. Falei que tinha lido um poema atribuído a um antigo alquimista persa que relatava a conversa entre um caravaneiro e um grão de areia. Havia uma parte que muito me intrigava:

“Grão de Areia: Eu sou o deserto.

Caravaneiro: Não, você é apenas parte do deserto. Sem você, o deserto continuará a ser o deserto.

Grão de Areia: Engano. Na minha falta o deserto restará incompleto e viajará à minha procura.

Caravaneiro: Você devaneia entre a soberba e a loucura.

Grão de Areia: Entendo o seu julgamento. Cada qual o faz com os olhos que possui no momento. Acredite, ver é uma arte.

Caravaneiro: Diga-me, o que não percebo?

Grão de Areia: A fonte em que bebo. Não há o todo sem a parte.

Caravaneiro: Simples assim?

Grão de Areia: A parte traz o todo em si; eu trago o deserto em mim.

Para conhecer o deserto há que se desvendar o grão.

Este é o poder e a revelação”.

A verdade não dói

 

Caminhávamos pelas ruas estreitas e sinuosas da charmosa cidadezinha que fica no sopé da montanha que acolhe o mosteiro. O sol do final da tarde realçava as cores das casas e do calçamento de pedra. Loureiro, o sapateiro que remendava o couro como ofício e costurava as ideias como arte, estava com fome e seguíamos rumo à cafeteria da Sophie, onde são feitos os melhores sanduíches do planeta, em busca do seu predileto: em pão de brioche, fatias de presunto; um pouco de mel e canela; generosas lascas de parmesão e um ovo mole por cima. Vai ao forno para gratinar. Café para acompanhar até o poente; lá apenas servem vinho à noite. São as rigorosas regras da casa. A garçonete que veio nos servir era a Regina, uma colega de longa data, que ficou feliz em nos ver. Ela disse que o turno dela já terminara e perguntou se poderia sentar-se conosco. Permissão concedida, avental guardado e tínhamos ao nosso lado uma pessoa que precisava muito falar, como aquela criança que corre para mostrar todos os seus brinquedos quando chega uma visita. De pronto, ela revelou que vivia uma grave crise conjugal. Morava há algum tempo com outra moça, bem mais jovem, por quem era apaixonada. No entanto, sempre a apresentou a todos como uma sobrinha que viera passar um período na cidade. Na noite anterior tiveram uma grave discussão, na qual a namorada a acusava de ser preconceituosa por não admitir perante a todos o verdadeiro afeto que as unia, seja pela diferença de idade ou pelo fato de serem ambas mulheres.

A arte de se manter suspenso no ar

 

Quando entrei para a Ordem tinha a errônea ideia que a vida no mosteiro era simplesmente contemplativa, afastada de todas as impurezas do mundo como maneira de manter os monges puros. Embora houvesse um período inicial de recolhimento para a adequada iniciação, no qual havia muito estudo e meditação, logo éramos enviados de volta ao mundo como método eficaz de conhecimento e aperfeiçoamento de si mesmo. O Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, costumava dizer que “o sagrado não está separado do mundano, mas oculto nele”. É no convívio comum do cotidiano que podemos entender melhor as nossas reações e as arestas que ainda fazem sangrar. Apará-las é o aperfeiçoamento necessário; o aperfeiçoamento leva à transformação; a transformação se traduz em evolução. Os períodos de solidão e reflexão são tão férteis quanto as fases de convívio social ou profissional. Na verdade, são as partes distintas de uma mesma aula. Elas se diferenciam para se completarem.

O destinatário do amor

 

Era uma fria manhã de outono. O sol aquecia o corpo sobre o pesado casaco de lã. Eu andava pelas ruas estreitas e tortas da charmosa cidadezinha que fica no sopé da montanha que acolhe o mosteiro em busca da oficina de Loureiro para um café quente e um pouco de prosa. Eu estava triste pela ingratidão de algumas pessoas do meu convívio por não corresponderem ao amor que lhes era oferecido por mim. O sapateiro, que costurava o couro como ofício e as ideias como arte, me recebeu com a alegria habitual e logo estávamos sentados ao balcão com duas canecas fumegantes. Depois de expor as minhas insatisfações, questionei ao meu amigo o fato de o amor ser a causa de tanto sofrimento. Achava contraditório, uma vez que esse sentimento está inegavelmente ligado ao bem e à luz. Afinal, sendo o amor algo tão bom, não deveria permitir que ninguém sofresse em seu nome. O artesão bebericou o café e respondeu como quem fala o óbvio: “Sofrem pelo simples fato de não entenderem o amor”. Discordei. Falei que o amor é inerente a todas as pessoas. Acrescentei que não deveria haver um único ser humano na face da Terra que desconhecesse o amor. Loureiro sorriu e disse: “Sim, é verdade. No entanto, tê-lo conosco não significa que já saibamos decifrá-lo. E mais, não é apenas o amor que corre nas veias de toda a gente, porém, todos os sentimentos, os melhores e os piores. Sem exceção. Identificar cada um deles é fundamental; não permitir que uns contaminem outros é parte da arte do andarilho”.

As chaves da evolução

 

O Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, tinha acabado de ministrar uma palestra em uma prestigiosa universidade. Eu tinha sido designado para acompanhá-lo na viagem. Quando andávamos em busca de um táxi que nos levasse até a estação ferroviária, fomos abordados por uma professora da instituição, que de maneira educada, disse que tinha assistido à palestra e tinha ficado intrigada. Nos convidou para almoçar no restaurante da própria universidade, pois gostaria de conversar um pouco mais com o monge. O convite foi aceito. A mulher foi direto ao assunto. Falou que tinha gostado muito de toda a exposição, mas algo a intrigara. Pelo que entendera, o Velho dissera que o único objetivo de todos nós era evoluir. Apenas isto. O monge balançou a cabeça confirmando. Ela, sempre gentil, falou que discordava. Alegou que não acreditava que a vida continuasse após a morte. Explicou que as ideias de reencarnação ou de qualquer espécie de deus eram frutos de mentes pouco desenvolvidas ou supersticiosas que tinham medo de encarar a realidade de que a morte era o fim. Portanto, sustentou, o sentido da vida era tão somente a busca da felicidade.

O Velho ofereceu um belo sorriso e com o seu jeito tranquilo disse: “Eu concordo com você”. A professora se mostrou surpresa com a resposta e ele explicou: “Acreditar ou não em Deus e em qualquer dos conceitos da imortalidade do espírito não deve mudar em absolutamente nada os valores que norteiam a vida de uma pessoa. Ninguém precisa crer na existência de outra dimensão para seguir a lei espiritual maior que consiste em fazer aos outros somente o que desejamos que nos façam. Alguns dos homens mais fantásticos que conheci são ateus, outros são religiosos. São pessoas maravilhosas que norteiam as próprias vidas no esforço de serem melhores a cada a dia e possuem um enorme respeito por todos. Entendem que não vivem sozinhas no planeta. Logo, embora o encontro da própria felicidade seja uma jornada solitária, se entrelaça pela vida de todos, pois é nesse convívio que ela é ensinada e exercitada”. Deu uma pequena pausa antes de concluir: “Não apenas concordo que todos devem buscar a felicidade, mas acho até que já fazem isto. No entanto, percebo uma enorme dificuldade em alguns para entender o processo”.

As ferramentas da luz

 

O sol ainda não tinha nascido quando cheguei à pequena e charmosa cidade que fica no sopé da montanha que abriga o mosteiro. Eu tinha aproveitado uma carona em um caminhão de entrega e vagava a esmo pelas ruas estreitas e sinuosas enfeitadas com o seu belo piso de pedras. A umidade do orvalho refletia a luz bruxuleante dos lampiões públicos, compondo um bonito cenário. O barulho dos meus passos maculava o império do silêncio naquela hora da madrugada. Decidi arriscar e caminhei até a oficina de Loureiro, o sapateiro amante dos vinhos e dos livros; os tintos e os de filosofia eram os preferidos. Remendar o couro era o seu ofício; costurar ideias, a sua arte. A loja do artesão era famosa pelos horários improváveis e inconstantes de funcionamento. Quando virei a esquina, à distância avistei a sua clássica bicicleta encostada no poste. Percebi que aquele seria um bom dia. Fui recebido com a alegria habitual e logo estávamos sentados com duas canecas fumegantes de café sobre o balcão. Falei que precisava desabafar e conversar um pouco, pois me via diante de uma delicada questão: em recente viagem a uma grande metrópole onde fui acompanhar o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, em um ciclo de palestras que ele ministrou dentro de uma universidade, vi a esposa de um primo em situação clara de extraconjugalidade. Ela, ao perceber que eu presenciara a cena, me procurou para que eu nada revelasse. Contou que era um caso antigo e mal resolvido que precisava de uma resolução dentro dela. Acrescentou que amava o meu primo e não queria destruir a família que havia construído com ele e com os dois filhos do casal. Disse, ainda, que ao solucionar o enigma do coração em si, tinha certeza que seria uma esposa ainda melhor. Me pareceu que falava com sinceridade. De fato, ela e meu primo, com os filhos, pareciam formar uma família feliz. No entanto, a omissão, por vezes, é quase uma mentira. Contar ou não contar, eis o meu dilema, uma vez que eu tinha um compromisso comigo mesmo de ser sempre honesto, não abandonar a verdade e nunca me distanciar da boa moral.

Loureiro ouviu sem dizer palavra, ao final, bebericou o café e comentou: “Não vejo nenhum dilema”. Como não? Me surpreendi. Falei que toda boa pessoa deve nortear as suas escolhas pela boa moral, formada pelas virtudes que enobrecem o caráter humano. O artesão concordou com a cabeça. Acrescentei que ser fiel com a verdade era uma dessas virtudes cardeais. Desta vez o sapateiro negou com a cabeça e disse: “Nem sempre”.

A porta

 

De todos os lugares do mosteiro, a biblioteca sempre foi o meu preferido. Escolher um dos inúmeros títulos disponíveis, se acomodar em uma de suas confortáveis poltronas e dividir a atenção entre as letras e a maravilhosa paisagem das montanhas, proporcionada pelas enormes janelas, permitem momentos de pura magia. Muitas vezes encontrei o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, em algum canto, encantado pela leitura ou em viagem profunda nos mares da reflexão. Nesse dia, eu tinha acabado de escolher um livro quando percebi que ele me observava. Arqueou as sobrancelhas querendo saber qual eu escolhera. Mostrei a capa e ele sorriu em aprovação. Era uma coletânea de palestras ministradas por Yogananda. Aproveitei que havia uma poltrona vaga ao seu lado e me sentei. Perguntei o que ele lia. O monge respondeu em um sussurro: “O Sermão da Montanha”. Certa vez, ele tinha me revelado que lia esse pequeno texto todos os dias antes de iniciar qualquer outra leitura, porém não imaginava que ele falava em sentido literal. Diante da minha expressão de surpresa, o Velho falou: “As letras do Sermão são vivas e sempre me trazem ensinamentos sem fim”. Eu já o tinha lido várias vezes e perguntei sobre qual trecho o monge meditava. Ele disse com a sua voz suave: “Aquela parte que diz que ‘estreita é a porta e apertado o caminho da vida. Raros são os que o encontram’”. Eu disse que sabia do que se tratava e me adiantei para mostrar toda a erudição que pensava ter. Falei que aquele capítulo tinha a função de orientar sobre o cuidado para não insistirmos nas estradas largas da perdição. Acrescentei que não encontrava maiores dificuldades em sua interpretação, bastava que fôssemos sempre honestos. Simples assim. O Velho me ofereceu um doce sorriso de agradecimento em resposta e voltou a se concentrar na leitura e em seus pensamentos. Fiquei orgulhoso de mim.

O bom combate

Eu estava desgostoso da vida. Flanava pelas ruas sinuosas e estreitas da pequena e charmosa cidade que fica no sopé da montanha que acolhe o mosteiro quando passei em frente a uma padaria. O perfume do pão fresco foi irresistível. Me sentei e pedi que fizessem um sanduíche com manteiga, mel, canela e uma fatia generosa de queijo. Para acompanhar, uma caneca de café. Neste instante, Loureiro, o elegante sapateiro, rompe pela porta. Ao me ver, abre um sincero sorriso e, com os braços abertos, se aproxima. Após um forte abraço, pergunto se foi o cheiro do pão ou o acaso que nos atraiu ali. Ele me olha como a uma criança e diz: “O acaso não existe”. Falei que até tinha pensado em passar na sua oficina, mas não quis atrapalhar o ritmo do seu trabalho no meio da tarde. Ele, que era famoso na cidade por ter horários inusitados para abrir ou fechar a loja, falou: “Encerrei o expediente por hoje. Vim conversar contigo”. Ri e comentei que ele não tinha como saber que eu estava na padaria, pois até mesmo eu não sabia que estaria ali há cinco minutos atrás. Loureiro deu de ombros, como quem fala o óbvio, e disse: “Eu também não sabia, pelo menos até entrar aqui e ver a agonia desenhada em seu rosto. Então, entendi”. Abaixei os olhos e agradeci em silêncio.

A bagagem

O Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, tinha sido convidado a ministrar uma série de palestras sobre os mais variados temas em outro mosteiro, bem distante do nosso, onde funciona uma irmandade com preceitos distintos da qual pertenço. Na essência, as diferenças mais aproximam do que afastam. Naquela época, eu era o discípulo designado para acompanhar o monge. Todos ficaram encantados com o Velho. Uma imagem serena, sempre com um sorriso discreto no rosto, o olhar que espelhava paciência, as palavras sábias pronunciadas em voz mansa e, principalmente, com atitudes, mesmo nos pequenos gestos, que transbordavam o mais puro amor. Ele dizia que servir como exemplo é o argumento mais poderoso que alguém pode oferecer; é a “verdade viva”. Por duas vezes, nessa viagem, o monge pediu para que eu abrisse a palestra do dia com introduções rápidas sobre o tema que seria abordado em seguida por ele, fato que me rendeu alguns elogios, muito mais como reflexo das aulas do Velho do que por mérito meu. No entanto, eu estava mal. Um aluno daquele mosteiro que me cedera uma vaga em seu quarto durante os dias que ali ficamos vinha me perturbando com uma saraivada de críticas, seja em relação ao breve discurso que iniciava as palestras, seja por causa de algum outro comportamento meu que ele indicava como inadequado. Em tudo ele apontava defeito. Quando o Velho entrou no quarto para saber se eu já estava pronto para viajarmos de volta, me encontrou arrumando a mala tal e qual se encontrava o meu coração: em total bagunça e desalinho.

Questionado, relatei os motivos da minha irritação. O Velho pediu para que eu parasse de arrumar a mala e fôssemos caminhar um pouco. Lembrei que tínhamos que partir, e ele disse: “É necessário entender o que levamos na bagagem para prosseguir a viagem”. Falei que colocava na mala apenas as minhas roupas e pertences pessoais. O bom monge apontou a mala sobre a cama com o queixo e me corrigiu: “Não falo dessa mala”, colocou a mão no próprio peito e complementou: “Me refiro à bagagem sagrada, aquela que levamos no coração”.

O ladrão de magia

Sempre que possível, eu retornava às montanhas do Arizona para uma temporada ao lado de Canção Estrelada, o xamã que semeava a sabedoria ancestral do seu povo através da palavra, cantada ou não. Já estava lá há cerca de um mês quando ele me chamou para uma conversa ao redor da fogueira. Tal convite era sempre recebido como uma honra e, confesso, eu ansiava por esse momento todas as vezes que o visitava. Esses encontros eram à noite, sob o teto de estrelas. Na maioria das vezes o xamã já me aguardava sentado ao redor da fogueira. Como explicou certa vez, o fogo é um importante elemental no auxílio à transmutação das velhas formas. Ele fez sinal com a cabeça para eu me acomodar sobre uma manta estendida ao seu lado. Canção Estrelada cantou uma sentida canção, acompanhado pelo seu tambor de duas faces, em que agradecia ao Criador pela oportunidade de estar ali naquele momento e pelas intuições e inspirações a serem concedidas, expressadas através das palavras. Depois acendeu o seu inconfundível cachimbo com fornilho de pedra vermelha. Nesses pequenos rituais era comum que fumássemos juntos o mesmo cachimbo, como gesto de admiração pela sabedoria e coragem de um pelo outro.

Era um pequeno e importante cerimonial mágico. Cerimonial porque era um encontro entre pessoas com o mesmo propósito e que se respeitam; mágico porque magia é transformação, mecanismo essencial da evolução. O nexo causal é sempre o amor para que haja a permissão e a participação dos mensageiros iluminados das esferas invisíveis.

A melhor namorada

 

Quando entrei na oficina de Loureiro, o elegante sapateiro decidiu encerrar o expediente, embora ainda estivéssemos no meio da tarde. Apreciador dos vinhos tintos e dos livros de filosofia, ele tinha no martelo e no alicate as ferramentas do seu ofício; as ideias com que coloria o mosaico da vida, os instrumentos da sua arte. A sua loja não tinha hora determinada para abrir ou fechar. O seu funcionamento variava de acordo com a vontade do artesão e, na pequena cidade, os horários inusitados da oficina já tinham virado uma lenda. Assistiríamos, os dois, em uma animada taberna, a uma partida de futebol pela TV. Era um dos aguardados jogos finais do campeonato. Loureiro achou que ainda dava tempo para conversar um pouco antes de irmos e foi passar um bule de café para animar as palavras. Quando ele colocou as duas canecas fumegantes sobre o balcão, fomos surpreendidos por um tornado em forma de gente. A irmã caçula do sapateiro invadiu a pequena oficina e nos dava a sensação de que o seu ímpeto abalava tudo a sua volta. Lucy era o seu nome. Há muito deixara de ser uma menina. Embora já tivesse mais de meio século de existência, ainda mantinha o viço da juventude. Seus olhos azuis contrastavam com a pele morena e os cabelos negros; era belíssima. Uma pessoa agradável no trato, atenciosa e boa amiga. Muito dedicada aos estudos, tinha se tornado uma respeitável juíza de direito da região, o que lhe proporcionava, sob o aspecto financeiro, uma vida confortável. Apesar de tantos atributos, não era feliz. Um dos seus desejos era ter um casamento estável, ao lado de uma pessoa com quem pudesse compartilhar todos os momentos da vida. Embora com muitas qualidades pessoais, os seus relacionamentos afetivos eram efêmeros e, por motivo que não conseguia entender, não se sustentavam. Este era o motivo daquela visitava repentina, o seu último namorado acabara de encerrar o romance.

Eu e o outro

 

O garçom abriu a garrafa e gentilmente completou as nossas taças. Eu estava em um daqueles dias em que sentimos vontade de conversar sobre a vida e ouvir a opinião de quem respeitamos. Um tio muito querido, que passara recentemente por situações difíceis e que não estava sabendo equacionar o seu lado emocional, me trazia preocupações. Aproveitei que tinha ido à pequena e secular cidade situada no sopé da montanha que abriga o mosteiro e convidei o Loureiro, o elegante sapateiro, amante dos vinhos e dos livros, para uma conversa. Os tintos e os de filosofia eram as suas predileções. Remendar o couro era o seu ofício; costurar a vida, a sua arte. A taberna estava vazia e silenciosa, bem ao fundo podia-se ouvir uma rádio que tocava jazz, nada que nos fizesse aumentar o volume baixo da voz. Relatei ao bom artesão os fatos que se sucederam com esse tio, de quem eu muito gostava e que fora bem próximo de mim na infância e na adolescência. Ele perdera o único filho em um acidente e, em seguida e em razão disto, o seu casamento entrara em crise, culminando no divórcio. Eu tinha estado com ele e o encontrara bastante depressivo, com a clara expectativa de que eu tirasse férias das minhas atividades profissionais e largasse o meu serviço na Ordem para ir ampará-lo. Se por um lado eu sentia vontade de ajudar, por outro não queria modificar a minha vida a tal ponto. Enfim, eu estava dividido.

Loureiro bebeu um gole de vinho e soltou um suspiro de aprovação. Era uma boa safra. Depois me mirou nos olhos e falou sobre o meu tio: “Quando não sabemos nos relacionar com as próprias emoções a razão costuma se perder na floresta escura do desespero. A falta de maturidade em enfrentar os problemas que se apresentam, apenas revelam o despreparo daquele espírito em aprender as lições que lhe cabem”. Questionei quais os aprendizados poderiam caber nas situações que o meu tio vivenciava. O sapateiro respondeu com tranquilidade: “Não faço a mínima ideia. Eu estaria sendo leviano se pretendesse apontar as lições alheias no Caminho ou arrogante ao tentar elencar as soluções objetivas do mundo. Somente sei que conflitos surgem para alavancar a nossa evolução. É como os mestres se disfarçam para oferecer os valiosos ensinamentos depois que nos recusamos em aprendê-los de maneira mais suave. É o universo, em profundo gesto de amor, revelando que não desistirá de nenhum de nós”.

O jogo das sombras

 

O dia ainda não tinha amanhecido quando entrei na cozinha do mosteiro. Eu tinha dormido mal, sono intermitente e com as ideias em turbilhão. Quando a mente não consegue descansar é o corpo quem paga a conta pela desarmonia que invade e ocupa, corrompendo o ser como um todo. O cansaço, por potencializar a irritação e a mágoa, sempre será um péssimo conselheiro. Era a minha exata situação naquele momento. Há alguns dias eu vinha em crescente discórdia com outro discípulo da Ordem. Tudo começara por um motivo bobo, uma pequena crítica que ele fizera ao trabalho filantrópico que eu coordenava. Retribuí apontando falhas de conduta em relação àquele que me censurou. Ele replicou subindo o tom da crítica. A troca de farpas foi ganhando dimensões inesperadas e, na tarde anterior, em discussão ríspida, quase chegamos às vias de fato. Ou seja, por pouco não trocamos chutes e socos. As ofensas verbais não conseguimos evitar.

Quando peguei o bule para passar o café, percebi que estava cheio e quente. Alguém chegara ali antes de mim. Só quando virei para trás foi que vi o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo do mosteiro, sentado em absoluto silêncio e reflexão, com uma caneca fumegante à frente. Ele me ofereceu um sorriso sincero quando nossos olhares se cruzaram. Com um gesto sutil do queixo, me convidou para sentar ao seu lado. Enchi uma xícara com café e fui ao seu encontro. Antes que ele pudesse articular qualquer palavra, abri o verbo, disse que precisava desabafar e narrei todo o conflito. O monge me ouviu com sua enorme paciência e quando encerrei, ele falou com a voz baixa e tranquila: “Você veio em busca de conselhos ou de cumplicidade? De alguém que lhe diga a verdade ou de alguém que lhe dê razão”? Mostrei-me indignado, pois não havia qualquer dúvida de que eu estava certo e que o outro discípulo deveria, no mínimo, ser advertido. Sem se alterar, o Velho disse: “Para todo fato há no mínimo duas versões, além da verdade”.

O sofrimento é uma escolha

 

Eu tinha chegado cedo à pequena e charmosa cidade situada no sopé da montanha que acolhe o mosteiro. Tudo parecia ainda adormecido em suas ruas seculares de pedra, quando, para a minha surpresa, ou quase, vejo a antiga bicicleta de Loureiro, o sapateiro amante dos livros e vinhos, encostada no poste em frente à sua oficina. O horário de funcionamento da sua loja era imprevisível e improvável. Nunca sabíamos quando a encontraríamos aberta. Fui recebido com alegria e um sorriso sincero. O meu amigo tinha acabado de passar o café e nos sentamos ao balcão com duas xícaras fumegantes para uma conversa vadia. O elegante artesão tinha no remendo do couro o seu ofício; a costura da vida pelas linhas da sua estranha filosofia, uma arte. Naquele dia não foi diferente, mais uma vez ele me desconcertou com o imponderável. O sapateiro comentou que uma de suas sobrinhas, filha de sua irmã, tinha acabado de sair da oficina. Ela estava muito abalada, pois o seu marido resolvera dissolver o casamento. Tinha vindo em busca de uma palavra de consolo, de uma ideia que servisse de lanterna para iluminar os seus passos.  Perguntei se a moça tinha saído melhor depois da conversa com o tio. Então, Loureiro começou a me surpreender: “Acho que não. Na verdade, saiu daqui pior do que entrou. Mas com o tempo ela irá entender o que eu tentei explicar”. Eu quis saber o que ele havia dito para aliviar a aflição da moça que gerou o efeito contrário. O sapateiro respondeu com naturalidade: “Todo sofrimento é uma escolha”.

O melhor dos mundos

 

No mosteiro é fabricado, apenas em alguns meses do ano, uma pequena e apreciada quantidade de chocolate em barras. Confeccionado de maneira artesanal, com as melhores sementes de cacau oriundas de países tropicais, baunilha e mel fornecidos por cuidadosos produtores da região, segue à risca uma receita secular, apenas conhecida entre os monges. O chocolate é famoso entre aficionados e tem toda a sua produção imediatamente vendida, mesmo limitando a quantidade individual de compra. O valor arrecadado ajuda a custear boa parte das despesas da Ordem. Não toda.

Certa vez, o Velho, como carinhosamente chamamos o decano da Ordem, teve que viajar em razão de compromissos e me deixou como assistente do Lucca, um tranquilo monge que há décadas era responsável pela produção do chocolate. Nada parecia ser tão importante ou dar tanta alegria ao monge. Meticuloso, não permitia que nada fugisse à receita ou alterasse o sabor da iguaria. Histórias contadas como lendas, de um período anterior ao meu ingresso na Ordem, relatam que, certa vez, ele proibiu a venda quando um auxiliar alterou, em quantidades mínimas, a exata proporção dos ingredientes. Manteve-se irredutível, mesmo com todos no mosteiro elogiando o sabor, com diferença quase imperceptível em relação à receita original. Em outra ocasião, se negou a produzir o chocolate ao recusar as sementes de cacau recebidas, que, segundo o seu entendimento, não tinham a qualidade indispensável. Foram anos em que o mosteiro enfrentou dificuldades financeiras, face à ausência da renda proveniente da venda do chocolate.

Lei das infinitas oportunidades

 

O Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, já tinha me falado do código não-escrito, um conjunto de leis universais que regula a vida em diversos planos da existência e que sujeita o destino de todos. O entendimento de como funciona essas regras amplia a consciência, afina as escolhas e pavimenta o Caminho. Já tínhamos conversado sobre a lei dos ciclos e a sua importância. Eu tinha ouvido falar da existência das leis da evolução, da afinidade, da ação e reação, entre outras. Na primeira vez em que tornei a ficar a sós com ele, eu quis saber mais sobre a lei das infinitas oportunidades. O Velho estava ao fogão, preparando uma sopa de cogumelos frescos, uma iguaria famosa no mosteiro. Sugeriu que eu o auxiliasse enquanto ele cozinhava: “A alquimia nasceu na cozinha”, falou de jeito gaiato. Em seguida começou a explicar: “Talvez nenhuma outra lei seja tão clara para demostrar a incomensurável generosidade da vida e a enorme sabedoria do universo. Ela fala dos nossos erros e do amor com que somos tratados”.

Pediu para que eu cortasse algumas cebolas e prosseguiu: “O código não-escrito regula o processo evolutivo de cada um de nós, impondo a exata lição para a qual já estamos aptos. A premissa inicial é que a razão da existência, neste plano, é a evolução espiritual. Em suma, estamos aqui para evoluir. Perceber isto é um bom começo, pois permite entender que os mestres estão disfarçados e nos aplicam os devidos ensinamentos através do nosso convívio com os outros e pela maneira como reagimos diante dos conflitos enfrentados. Este é o método desta universidade, não há outro”.

O muro

 

O prédio do mosteiro é uma sólida construção em paredes de pedras que atravessa os séculos com a mesma firmeza da montanha que o abriga. Ou quase. Um dos muros começou a dar sinais de deterioração e fiquei responsável por sua manutenção. Dentre as várias opções, escolhi uma construtora cujo o dono era um amigo dos tempos de colégio e que aparentava capacidade para levar a termo a tarefa. Apesar de todos os avisos de que não se tratava de um simples conserto, mas de uma restauração, na qual todas as características originais deveriam ser mantidas, o resultado foi desastroso. Eu estava irritadíssimo quando encontrei com o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem. Era final da tarde, horário em que ele se dedicava à leitura. Pediu para que o acompanhasse até a biblioteca. Sentamos em confortáveis poltronas ao lado de enormes janelas, tendo como paisagem a bela floresta dos arredores. Serviu-nos com xícaras fumegantes de café. Logo, comecei a desfiar meu rosário de lamentações sobre a reforma do muro. Disse que estava muito decepcionado com aquele amigo, que fez um serviço muito aquém do contratado e, pior, do prometido. O Velho comentou com doçura: “De fato ficou muito ruim, teremos que refazer o trabalho”.

Falei que lamentava a escolha, porém já tinha tomado providências. Enviei uma dura mensagem relatando a queixa, exigindo que o muro fosse refeito dentro dos padrões exigidos. Não satisfeito, telefonei para ele e tracei críticas com palavras duras. O monge me observou com os olhos repletos de compaixão e perguntou: “Como você se sente”? Confessei que estava mal, uma mistura se sentimentos que migravam entre a tristeza de ter brigado com um amigo e a raiva por ele ter me decepcionado. O Velho rebateu: “Isto é muito pior do que o muro mal remendado. Ninguém precisa de um muro perfeito para ser feliz; de um coração tranquilo, sim”.

O vampiro e o mito da imortalidade

 

Encontrei fechada a oficina de Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos. Filosofia e tinto eram as suas preferências. Me dirigi a uma aconchegante taberna, onde o meu amigo costumava beber uma taça antes de ir para casa. Dei sorte. Lá estava ele, sentado em uma confortável poltrona, ao lado de um abajur, entretido na leitura. Fui recebido com a alegria de sempre pelo artesão, elegante no vestir e no agir. Quando ele repousou o livro sobre a mesa, reparei que era Drácula, do escritor irlandês Bram Stoker, um clássico da literatura. Falei que nunca tinha lido aquela obra, embora a história do vampiro fosse de conhecimento de todos e, eu tivesse assistido ao filme, com o mesmo nome, dirigido pelo Francis Coppola. Pedi uma taça de vinho para acompanhar o bom sapateiro e perguntei se o filme era fiel ao enredo do livro. Loureiro se acomodou na poltrona e falou: “Isso é o que menos importa”. Antes que eu pudesse falar algo, ele prosseguiu: “A questão contida em Drácula é o mito da imortalidade que a história tem como pano de fundo. Todo o fascínio pelo vampirismo, que é anterior ao próprio Drácula, nasce do desejo incontrolável da humanidade, desde o início dos tempos, em vencer a morte. Dentro de toda a inconstância característica da vida de qualquer pessoa, a morte sempre foi a única certeza. Porém, sempre incomodou porque esteve ligada a ideia do fim”.

Comentei que os alquimistas sempre se empenharam na busca, não só pela pedra filosofal, que permitia transformar chumbo em ouro, mas, também, em descobrir o segredo do elixir da vida eterna, na esperança de que vida fosse infinita e as conquistas pessoais não se perdessem no éter da existência. O artesão arqueou os lábios em leve sorriso e disse: “A diferença está no fato de que, enquanto o vampirismo glorifica a perenidade do corpo, os alquimistas descobriram que a imortalidade está presente através do espírito, a verdadeira persona de cada um. O espírito é eterno; logo, somos todos eternos. O corpo é apenas uma vestimenta provisória, necessária para frequentar a universidade desta existência, neste planeta. Troca-se de roupa até não precisar mais dela”.

A ponte para a felicidade

 

Estávamos, eu e o Velho, como carinhosamente chamávamos o decano da Ordem, chegando ao mosteiro de uma viagem, quando fomos abordados por um rapaz no portão, que, de modo educado, pediu uma prosa de dois minutinhos com o monge. Como se desconhecesse o cansaço, o Velho convidou o visitante para um café no refeitório onde poderiam conversar com mais calma. Enquanto esquentava a água, eu ouvia a conversa dos dois. O jovem se revelou desiludido com o mundo. Nenhuma das possibilidades que a vida apresentou foi satisfatória e capaz de torná-lo um homem feliz. Sentia-se amarrado às estruturas impostas pela sociedade, a quem culpava por sua agonia; dizia-se incompreendido por amigos e parentes, causadores da sua insatisfação.  O monge logo ponderou o raciocínio do visitante: “Ninguém o pode impedir à felicidade, salvo você a si mesmo. Não transferir responsabilidades é um bom início”.

Abraçando as sombras

 

Todos os discípulos da Ordem tinham sido avisados que um de nós, em breve, seria consagrado monge em cerimônia permitida apenas aos iniciados. Não tive dúvidas de que eu seria o escolhido. Embora não fosse o aluno mais antigo, era o mais próximo do Velho, como carinhosamente chamávamos o decano do mosteiro. A ansiedade tomou conta de mim, me senti orgulhoso e fiquei algumas noites em claro imaginando como seria o ritual de passagem, tão comentado entre paredes, de discípulo para monge. Até que veio a notícia de que outro aprendiz era quem seria consagrado. O que parecia dia se tornou noite. A brisa agradável, que me acariciava o ego, se tornou uma violenta tempestade, capaz de varrer os meus melhores sentimentos para um lugar tão distante que tive a sensação de nunca mais encontrá-los.

O ciúme me convenceu de que aquela decisão era injusta.  A inveja chegou para me avisar que a vida era assim, injusta por natureza. Para piorar, o escolhido para se tornar monge tinha sido o aprendiz com quem eu mais debatia e combatia nas aulas de filosofia e de metafísica. A mágoa me cobriu com um espesso véu para segredar que bons sentimentos são frutos da árvore da ingenuidade: um carneiro não sobrevive no meio de lobos. Sim, eu era a perfeita vítima.

Um espírito livre.

 

Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom de semear a filosofia do seu povo através da palavra, cantada ou não, conversava com uma sobrinha em uma mesa ao ar livre, debaixo de uma enorme árvore frondosa. O sol da primavera aquecia o corpo e trazia aconchego à alma. Avistei-os de longe. O ancião e a bela moça, na casa dos vinte anos, com longas tranças e os olhos puxados como o tio, riam com vontade. Ela aproveitara as férias na universidade para visitar a família. Vestia-se como uma jovem da sua idade, com jeans, camiseta e tênis. Ao me perceber, o xamã fez sinal para que eu me aproximasse. Eles falavam sobre a postura divergente da sobrinha em relação a determinados comportamentos de vários alunos, com os quais ela não concordava. Entretanto, de tão enraizados, nenhum dos colegas ousava a pensar diferente, fazendo com que agissem por automatismo ao invés de se permitirem novas possibilidades. Claro que a moça começava a colher olhares atravessados e, até mesmo, desafetos. Em seguida, a jovem pediu licença, pois iria ajudar a mãe em seus afazeres. Ao se despedir, Canção Estrelada a mirou nos olhos e disse com jeito sereno: “O novo sempre assusta as mentes preguiçosas. É como chegar em casa e encontrar um estranho. Com o tempo, percebemos que a casa não é nossa, mas do estranho. E mais, ele não quer que você vá embora. Deseja apenas que aprenda uma outra maneira de se relacionar com a realidade. Lembre-se, todo espírito livre é afeito ao novo”.

Jamais.

 

Estávamos no trem. Eu e o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo do mosteiro, seguíamos em uma demorada viagem a uma cidade onde ele ministraria uma palestra em renomada universidade. Aproveitei a oportunidade para questionar sobre as dificuldades do aperfeiçoamento pessoal. Sugeri a existência de um manual mais simples para nos orientar no Caminho, vez que os textos sagrados são por demais complexos e, não raro, possuem interpretações herméticas e codificadas. O Velho balançou os ombros e disse: “Não faça a ninguém o que você não quer que façam a você”, deu uma pequena pausa para que eu pensasse um pouco no que ele acabara de falar e concluiu: “Todo aperfeiçoamento do ser consiste em viver esse ensinamento maior. Quer algo mais simples do que isso”?

Falei que achava tudo muito complicado, pois sempre há um exercício de possibilidades entre luz e sombras. O Velho rebateu: “Por isso todas as escolhas são sagradas. Elas definem quem somos. Portanto, preste sempre atenção: cada gesto ou palavra é semente de discórdia ou paz”. Eu disse que entendia, mas confessei que tinha dificuldade e precisava de ajuda. O monge ficou em silêncio por algum tempo e falou: “Existe o Manual do Andarilho”, deu uma pequena pausa e complementou em tom gaiato, evidenciando o bom humor e a evidente brincadeira: “Ele é destinado às crianças”. Rimos. Claro que tal livro não existe. Todavia, eu o provoquei e pedi para que ele facilitasse as coisas para mim. O Velho, sempre generoso, foi em frente: “Preste atenção à Regra do Jamais. São como placas de sinalização para proteger o motorista na estrada”:

A outra face, outra vez.

 

A biblioteca do mosteiro é encantadora. Uma enorme variedade de títulos em um ambiente de silêncio e conforto, além da vista espetacular das montanhas permitida por suas enormes janelas, em estimulante convite à reflexão. Ali era comum encontrar o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, nos finais de tarde, sentado em uma das poltronas, com os olhos perdidos entre letras e paisagem. Lembro de certa vez, ainda nos meus dias de iniciação, que me aproximei e, ávido por conhecimento, pedi a ele uma relação de livros para aprofundar os meus estudos. Ele me observou com bondade e disse: “Comece por ler qualquer dos livros, o importante é iniciar. Aos poucos o seu próprio interesse vai direcionar a leitura na medida da sua necessidade”. Argumentei que a explicação era falha, pois não poderia deixar ao acaso o direcionamento dos meus estudos. O monge arqueou os lábios em leve sorriso e falou: “O acaso não existe. O importante é que você esteja por inteiro em cada página lida e que o seu gosto lhe sustente para que não haja abandono. De alguma estranha maneira, todos os caminhos levam ao destino”. Recusei a resposta. Então, perguntei a ele se, hipoteticamente, apenas fosse permitido ler um único livro em toda a sua a vida, qual escolheria. A nova resposta veio rápida e objetiva: “O Sermão da Montanha”.

O melhor mantra.

 

Eram os meus primeiros dias no mosteiro, quando nem pensava em me tornar um discípulo da Ordem. O convite era para que me hospedasse por curto período. Minha vida passava por momentos de grandes turbulências, eram problemas sobre problemas. Como se não bastassem, dúvidas existenciais me assolavam. Eu estava ali na procura da fórmula que me levasse à solução dos conflitos. A figura do Velho, como carinhosamente chamávamos o decano do mosteiro, era o que mais me chamava atenção, seja pelo seu jeito cativante ou pela visão desconcertante em relação à vida. Naquela manhã, ele fizera uma reflexão para todos os presentes sobre o poder transformador do amor. Suas palavras suscitaram muitos questionamentos em mim, porém não ouvi nada que me ajudasse de modo objetivo. Logo em seguida, o encontrei no refeitório tomando café. Aproveitei a oportunidade para relatar um recente conflito com um parente sobre questões de herança, fato gerador de uma escalada crescente de confusões em minha família. Falei que não sabia como pacificar a briga. O monge disse com a voz serena: “Entenda que cada qual só consegue viajar até a fronteira da própria consciência.  Perceber a sombra alheia é passo importante para iluminar a sua. No entanto, para transmutá-la será necessário que suas escolhas passem a ser diferentes e melhores do que foram até agora”. De pronto perguntei como deveria agir. O Velho arqueou os lábios em belo sorriso e falou: “Está ruim? Polvilhe com amor”.

Por um lado, achei interessante, por outro, enigmático.

O espectro da dominação.

 
“A necessidade de dominar o outro permeia todo o mal desde o início dos tempos”, falou Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom de ensinar a sabedoria do seu povo através da palavra, cantada ou não. A noite chegava de mansinho estendendo seu belo manto de estrelas no firmamento. Ele tinha me pedido para acender a fogueira enquanto enchia de fumo o fornilho de pedra vermelha do seu inseparável cachimbo. Conversávamos sobre o fio que costura a cortina de sombras que impede a claridade do olhar. Ele expunha o seu ponto de vista: “A raiz desse mal é a ignorância e o seu equivocado entendimento sobre o medo. O Grande Espírito nos ofertou o medo para que fosse uma ferramenta a nos alertar dos perigos inerentes à vida, comuns na natureza. Os ruídos na noite escura, os predadores traiçoeiros, o penhasco escorregadio. Mas ao invés de nos integrarmos à natureza, em absoluto respeito a todos os seres que a compõe, decidimos por dominar a tudo que a envolve, em total descontrole do ego inseguro. Alguns animais, domesticamos; os que por temperamento selvagem não foi possível, matamos ou prendemos em jaulas como troféus à visitação. Não satisfeitos, decidimos por também dominar todas as pessoas de nossas relações. Em estado primitivo de sabedoria a liberdade alheia assusta por acreditarmos que somente estaremos seguros se dominarmos tudo e todos à nossa volta. A alegria do convívio é trocada pelo desejo insensato em sermos donos das pessoas e das coisas com o quais nos relacionamos. Perdemos a leveza. Acabamos por escolhemos o conflito ao invés da harmonia. Muitos se iludem nesse exercício vazio de poder, sem perceber que se tornaram escravos de suas desnecessidades e vítimas infelizes de seus enganos”. Deu uma pequena pausa para baforar o cachimbo e manter o fornilho aceso. Depois falou: “Então, surgem os sofrimentos inerentes aos que querem a vida no cabresto de seus desejos. São os semeadores da agonia e das lágrimas”.

“É imprescindível enfrentar o medo, pois a covardia não melhora o destino de ninguém. Não se acanhe por sentir medo. Saiba que só há coragem onde antes existia o medo. A sabedoria consiste em entender o medo. O medo é a semente da flor da coragem”

“Tudo se inicia em uma sucessão de equívocos. A ignorância nos faz crer que apenas conquistaremos a paz ao dominar o que nos assusta. Para piorar, acabamos por viciar o ego em sensações de poder ao interpretar a subjugação do outro como uma vitória. Só existe paz na alegria de escolher por amor. Só existe amor quando se entende que conquistar a própria liberdade consiste, também, em respeitar a liberdade alheia. Uma não existe sem a outra”.

Falei da dificuldade em convivermos com outras pessoas, no entanto, não percebia a sombra da dominação tão presente entre as pessoas. Canção Estreladas desviou os olhos, que estavam fixos nas labaredas, para me mirar com compaixão e disse: “Como não, filho? Veja, por exemplo, o ciúme, uma emoção muito comum a todos. Nasce da ignorância quanto a exata compreensão do amor. O amor, por definição, é um sentimento ligado não apenas à liberdade, mas à própria evolução do ser. Quanto mais amor e liberdade movimentar as escolhas, mais iluminada é a criatura. Para tanto, não deve amarrar ou impor condições para a existência dessas virtudes. Se algema ou impõe tributos de qualquer natureza, com certeza, não há liberdade nem é amor”.

Franziu as sobrancelhas, gesto comum quando falava mais sério e disse: “Uma pessoa tem certa admiração por outra e projeta sobre ela toda a sua vontade em viver o amor. Porém, em paralelo, é invadido por enorme medo de que o seu sentimento, de alguma maneira ou em algum momento, deixe de ser correspondido. O que faz? Dispara um ou vários dos mecanismos de dominação. Controles, limites, cobranças, proibições de diversos tipos. Percebe que é muito parecido como sempre fez com os animais em tempos remotos? O que não consegue domesticar, tenta aprisionar. Pior, em casos mais graves, agride, destrói ou mata”.

O xamã pediu para que eu lhe passasse um cobertor para ele se aquecer da noite que começava a esfriar. Em seguida, prosseguiu: “O ciúme é uma sombra que se manifesta no exato instante em que surge o medo de perder a pessoa amada. Mas como perder o que não se pode ter? Você deve sentir e viver o amor, o que é bem diferente de tentar controlar ou aprisionar o outro. Percebe a diferença? Ao invés alçar o próprio voo e respeitar o voo alheio em respeito e admiração ao amor e à liberdade, negamos a beleza do Caminho toda vez que manipulamos para cortar as asas de alguém. Sem perceber, acabamos por pisar nas flores do nosso próprio jardim”.

“Por isto que ouvimos equivocadamente que ‘não há paz no amor’. Claro, nos recusamos a entender o amor”!

Ficamos um longo tempo sem dizer palavra. Eu mirava o fogo, ele viajava nas estrelas. Resolvi quebrar o silêncio e perguntei sobre outras situações em que o desejo ancestral de dominação nos levava ao mesmo comportamento de outrora. Canção Estrelada disse com paciência: “Ainda nos comportamos como se apenas fosse possível a dualidade em ser senhor ou escravo; uma eterna e inevitável relação entre possuidor e possuído. Na tribo, no trabalho, em família. Por quê? Insegurança é a resposta. Temos dificuldade em conviver como e ao lado de seres livres. A liberdade parece assustar e ameaçar. Por quê? Simplesmente porque não fomos educados a nos relacionar de modo sadio com a liberdade e com o amor. Quantas vezes usamos da força bruta, do poder financeiro ou da lógica tortuosa, como elementos para acuar e dominar o outro, cerceando a sua liberdade de escolha, seja pelo fato de ela nos incomodar por recusar qualquer comando, seja apenas para exercitar a nefasta sensação de dominação. Em suma, puro medo. Assim, sem perceber, insistimos em sustentar a aparência em frágeis estruturas que chamamos de ‘ordem’ ao invés de trocá-la definitivamente pela paz. A ordem é de razão social; a paz é tesouro exclusivo da alma plena. A ordem é o anseio dos dominadores; a paz, uma conquista dos libertadores”.

Eu quis saber como escapar de todo esse processo nocivo e ultrapassado de dominação. Canção Estrelada tornou a franzir as sobrancelhas e falou: “Uma preciosa lição é entender que ‘qualquer pessoa só terá sobre você o poder que você consentir a ela’. Não conceda a ninguém tal poder. Pois, todas as vezes que acontecer, você conhecerá a agonia e o sofrimento da escravidão moderna. Nascemos para voar, não para enfeitar a gaiola alheia. A recíproca também se aplica: abandone a ideia, sob qualquer pretexto, de ser dono de alguém. Jaulas ou asas. Eis uma escolha que nos permitimos todos os dias”.

“No mais, vigiai e vigiai. Não ao outro, mas a si próprio, pois ninguém será um inimigo tão poderoso como as sombras que o aconselham. Dominador ou dominado, ambos apodrecem no mesmo cárcere. Na necessária interdependência de todas as relações, a liberdade é pressuposto indispensável da alegria e para a paz”. Deu uma pequena pausa e concluiu: “E do amor, é claro!”.

Transgredir é preciso.

 

Era a hora dos estudos. Leitura e reflexão na biblioteca do mosteiro. Silêncio e quietude. A luz do fim da tarde entrava pela janela oferecendo claridade e a bela paisagem das montanhas. Como de costume, passei antes no refeitório para pegar uma caneca com café. O Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, conversava com um rapaz que viera nos visitar, sentado à cabeceira da enorme mesa. Quando me aproximei, fui surpreendido pelas palavras do monge: “Transgredir é preciso”. Ao perceber o impacto que a frase causara em mim, fez um sinal com os olhos para que eu me acomodasse ao lado deles.

Desapego é transformação.

 

Ela estava lá. A bicicleta encostada no poste foi primeira coisa em que reparei quando dobrei a estreita e sinuosa rua da oficina na charmosa cidadezinha próxima à montanha que abriga o mosteiro. O sol do fim de tarde refletia nas ruas de pedra e emprestava tons pastéis às construções seculares. Como a loja de Loureiro, o sapateiro amante dos livros de filosofia e dos vinhos tintos, não funcionava em horários regulares, encontrá-lo era sempre um jogo de sorte. Fui saudado com a alegria e a elegância habituais. Ele passou um café fresco e quando sentamos diante das canecas fumegantes, fomos surpreendidos pela chegada de uma sobrinha do artesão. Uma moça bonita, educada e com feições de incertezas coloridas no rosto, que tinha vindo passar uns dias de descanso no interior. Após os cumprimentos de praxe, a jovem foi bem objetiva. Sempre ouvira o tio falar em suas conversas sobre a importância do desapego. Entretanto, ela era paciente de um prestigiado psicanalista na capital e, na última consulta, foi aconselhada a não abandonar os seus desejos, pois isto significava desistência e, por consequência, um sinal de fraqueza.

Armadilhas contra a paz.

 

“Todas as vezes que você pensa, fala ou age movido pelas paixões densas e pesadas, alimentará o poder das sombras. Dentro e fora de você”, falou o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem. Em seguida, concluiu: “Por mais absurdo que possa parecer, acredite, ninguém lhe prejudica mais do que você a si mesmo. Isto serve para todos”.

Estávamos sentados no refeitório do mosteiro, apenas os dois, apreciando o saboroso chá que o Velho preparava com uma mistura de ervas que colhia na floresta do arredor, enquanto admirávamos o por do sol por entre as montanhas. Ele tinha me chamado para conversar por perceber a minha alteração de comportamento após um aborrecido telefonema. O monge me ofereceu uma xícara acompanhada de uma pergunta: “Qual é o único preceito do Código de Ética da Ordem”? Como me calei, ele mesmo respondeu: “Nunca alimentar as sombras”. Deu uma pequena pausa para que eu fosse, aos poucos, alinhando a ideia e prosseguiu: “ Simples, não? Afinal somos todos do bem e, a princípio, não queremos compromisso com o mal”. O monge esperou eu concordar antes de corrigir: “Errado, não é nada fácil. Temos uma enorme dificuldade em identificar as próprias sombras e tudo que as estimula, dentro e fora de nós”. Tornou a calar por instantes e disse: “O grande truque das sombras são seus mil disfarces, a ponto de você pensar que elas não se escondem em suas entranhas”.

Ser livre é simplesmente ser.

 

O Velho, como carinhosamente chamávamos o decano da Ordem, era sempre convidado a dar palestras em universidades e colégios mundo afora. Em geral, essas instituições se situam em grandes metrópoles, onde ficávamos hospedados por dois ou três dias. Nessa época, já acostumado ao silêncio do mosteiro, teve um período que, confesso, logo me sentia incomodado com a mudança de ambiente, ao contrário do monge, que possuía uma fantástica capacidade de adaptação. Ele flanava pelas largas avenidas admirando o movimento das lojas, a correria das pessoas ou mesmo o barulho urbano com a mesma leveza e encantamento com que trilhava a montanha, em silêncio, observando as flores silvestres e colhendo cogumelos para as sopas de que tanto gostava. Quando me via irritado com toda aquela zoeira e pressa, ele me lembrava: “A paz habita em ti. Não conceda a permissão para que nada nem ninguém a abale”. Depois arqueava os lábios em breve sorriso e dizia: “Esse poder é seu, aprenda a usá-lo”.

Dançando com a saudade.

Conheci Loureiro, o sábio sapateiro, há muitos e muitos anos, em um cemitério.

Eu acabara de ingressar na Ordem e fui designado para acompanhar o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo do mosteiro, no velório de um grande amigo dele que havia partido. Conseguimos uma carona e na sinuosa estrada que desce a montanha em sentido à pequena e charmosa cidade localizada no sopé, o monge veio assoviando uma alegre canção. Ele parecia feliz. Estranhei, mas calei. No velório, a capela se fazia pequena para tanta gente; a viúva estava debruçada sobre o caixão, aos prantos e inconsolável. Lamentava profundamente a perda. A quem ia lhe dar os pêsames, perguntava como faria ao entrar em casa e não mais encontrar o falecido. Dizia que não teria forças para esvaziar o armário ou dormir no quarto do casal. Alguns lhe desejavam coragem, outros a aconselhavam a ter fé. Achei o ambiente apropriadamente dramático para um enterro e relaxei. Salvo pelo Velho, que, com constante sorriso no rosto, falava com todos de maneira discreta, porém descontraída. Era o único que me parecia à vontade em estar ali. Acomodei-me em um canto e fiquei a observar, até que chegou o irmão do defunto. Era Loureiro, o elegante sapateiro, amante dos livros e dos vinhos. Seu rosto parecia o de um ator italiano e tinha o porte de um bailarino espanhol. Naquela época seus cabelos ainda estavam grisalhos, vestia uma calça cáqui de fina alfaiataria e uma bonita camisa imaculadamente branca, contrastando com as cores escuras do ambiente. Tal e qual o Velho, estava sorrindo e cheguei a desconfiar que estava feliz. Cumprimentou a todos com discrição, mas sem alterar o belo sorriso que lhe coloria o rosto, o que gerou muitos olhares de reprovação. Ao se dirigir à viúva, teve o abraço rejeitado. Sem se sentir ofendido, o sapateiro tirou uma pequena gaita do bolso da calça e pediu educadamente a permissão para tocar uma canção. Em singela homenagem, tocaria a música que o irmão mais gostava de ouvir. Uma velha canção irlandesa, de ritmo alegre, cujos versos falavam sobre a beleza de viver. Em cólera, a viúva o acusou de estar tripudiando sobre a morte do marido em atitude de total desrespeito, seja pelas cores claras da roupa ou pelo jeito jovial. Ouvi alguns breves comentários em apoio a mulher.

Loureiro escutou a tudo sem dizer palavra. Quando ela se calou, ele disse: “Amo o meu irmão. Fomos os melhores amigos, desde sempre. O que você encara como o fim de uma história vejo como o início de uma longa viagem para terras distantes, onde ele poderá viver dias ainda melhores, a colher perfumadas flores, pois, nesta existência semeou amor por onde passou. Esta capela nada mais é do que a plataforma da estação. Respeito, mas não vejo motivo para tristeza. Quero comemorar o belo homem que foi, o grande espírito que se tornou, celebrar a minha saudade com alegria e dar-lhe um ‘até breve’”. Loureiro foi interrompido pelos gritos de censura da viúva e se formou uma pequena confusão.  O Velho rapidamente passou o braço sobre os ombros do sapateiro, fez um sinal com a cabeça para mim e saímos dali.

Lei da Renovação.

“É necessário, de tempos em tempos, esvaziar as gavetas do coração”, me disse o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo do mosteiro. Ele tinha me convidado para um passeio pela floresta, localizada nos arredores, ao perceber a minha inquietação e irritabilidade com os demais monges e discípulos da Ordem. Uma nova situação familiar tinha trazido à tona lembranças desagradáveis que alteraram o meu humor no trato para com todos e a minha paz para comigo mesmo. Reclamei bastante da maneira como algumas pessoas tinham me magoado no passado. Ele me olhou com sua enorme compaixão e disse: “O ressentimento cria uma verdadeira algema energética que te mantém atado ao ofensor em uma terrível prisão sem grades. A mágoa entope de sujeira o seu armário sagrado, o coração. A raiva envenena as águas que abastecem a fonte da vida, o amor”. Deu uma pequena pausa e concluiu: “É impossível ser feliz sem perdoar”.

Argumentei que eu já tinha perdoado, porém me negava a esquecer para não permitir que me magoassem de novo. O Velho riu com vontade quando falei isso, o que me trouxe ainda mais irritação. Depois, olhou como se mirasse uma criança e me instigou: “Você não conhece o perdão”. Falei que ele estava enganado, pois eu não desejava nenhum mal àqueles que me ofenderam e, assim, eu decretara o perdão. O Velho balançou a cabeça em negação e disse: “Não, Yoskhaz. Não desejar o mal é o primeiro degrau até o perdão; depois limpamos os escaninhos da alma até esquecermos a ofensa; por fim, desejamos o bem do agressor. Este é o percurso até o perdão”.

Equilíbrio improvável.

 

Eu caminhava pelas montanhas do Arizona ao lado de Canção Estrelada, o xamã que possuía o dom de transmitir a sabedoria dos seus ancestrais através da palavra, cantada ou não. Ele queria me mostrar o seu Lugar de Poder, como se denomina na mitologia nativa o local onde cada qual se sente mais à vontade para se conectar com a inteligência cósmica. “De todos os lugares do planeta é possível abrir um canal ou uma ponte, no entanto, há locais, por razões diversas, onde a ligação é mais intensa. O mar é um santuário; a montanha, uma catedral; a sua casa, um templo. Seja pela quietude, pelo som das estrelas, pela integração com a Mãe-Terra. Por alguma razão pessoal ou por ser um lugar onde as pessoas vão há séculos rezar, como nas igrejas, ancorando a forte vibração do universo, cada indivíduo deve encontrar o local onde sinta a força dessa conexão”, explicou o xamã. Ao chegar ao Lugar de Poder de Canção Estrelada, um pequeno platô bem próximo ao cume, não tinha como deixar de perceber uma árvore, presa pelas pontas da raiz, resistindo bravamente na beira de um penhasco, de maneira elegante e impensável, contra o vento, a chuva, o sol, a neve e a gravidade. Comentei que ela não conseguiria aguentar muito tempo. O xamã sorriu e disse com seu rosto vincado por dezenas de invernos: “Ela está nessa mesma condição desde que eu era menino e vinha passear nesta montanha com o meu avô. Provavelmente continuará depois que eu realizar a grande viagem”. Fez uma pequena pausa e continuou: “Uma raiz forte é indispensável para enfrentar as tormentas que existem na vida. Não é diferente com ninguém”. De pronto, perguntei o que era necessário para eu ter uma raiz tão poderosa capaz de me manter inabalável às piores tempestades.

“As raízes de cada um são o conjunto de três coisas: saber exatamente quem você é e não fugir ao combate do aperfeiçoamento pessoal”. Falei que faltava uma última coisa. Ele olhou para a árvore-equilibrista antes de concluir: “A terceira parte da raiz consiste em dominar a arte do equilíbrio improvável. Lembrar-me disto foi a função desta árvore por toda a minha vida. Isto a torna sagrada para mim”.

A Lei dos Ciclos.

 

O Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo do mosteiro, tinha sido convidado para ministrar uma palestra em prestigiosa universidade. Nessa época, eu era o discípulo designado a acompanhá-lo. Ao final de seu discurso, como de costume, respondia a uma infinidade de perguntas. Sua abordagem sobre os vários aspectos da vida era sempre desconcertante. Dessa vez, não foi diferente. Ele atendeu a todos com carinho e paciência. Já no metrô, de volta ao hotel, uma mulher veio falar conosco. Explicou que tinha assistido à palestra e nos chamou para almoçar. Brincou ao dizer que era uma maneira de arrancar mais um pouquinho do monge. Aceitamos, e fomos para um restaurante próximo. Já acomodados, ela falou um pouco sobre a sua vida e se lamentou que determinada situação sempre se repetia, como uma história que insistia em ser recontada infinitas vezes, algo que a entristecia e lamentou o próprio carma. O Velho a olhou com bondade e disse: “Penso que há um equívoco em relação ao entendimento do que os antigos denominaram como carma. Hoje em dia, falam como se significasse uma punição. Não, de jeito nenhum. Carma é aprendizado”.

“Não faz sentido que o Universo, com toda generosidade e mestria, tenha qualquer outra intenção, salvo a de nos aperfeiçoar. Muitas vezes a lição endurece em razão da teimosia ou do embrutecimento do aluno. Lição aprendida, carma extinto. Simples assim”.

A face oculta do ciúme.

 

Aos domingos, sempre que possível, eu assisto a missa na catedral da pequena e charmosa cidade que se situa no sopé da montanha que abriga o mosteiro. Naquele dia, o sermão do padre alertava para o que considerava uma banalização dos relacionamentos afetivos, onde as pessoas investiam pouco, segundo ele, não só na construção e adequação da vida a dois, como no convívio social em si. Ele clamava por paciência e compaixão em relação ao outro. Em suas palavras, a humanidade está desistindo de si própria com muita facilidade. Encerrado o cerimonial, eu caminhava por entre as vielas de pedras silenciosas refletindo em tudo que foi dito e os muitos aspectos que envolvem a questão, quando fui surpreendido por Loureiro, o amante dos vinhos e dos livros, em sua antiga bicicleta a me cruzar os passos. Um bom sinal, já que o artesão era um dos últimos bastiões em remendar bolsas e sapatos como opção à troca. A sapataria era o seu ofício, na filosofia exercia a sua arte. Feliz por me ver, sugeriu que sentássemos em uma cafeteria próxima.

Com duas xícaras fumegantes à frente, puxei a conversa falando sobre o sermão dominical e a larga complexidade de uma tendência atual, com suas várias facetas. O sapateiro bebericou o café e quando faria um comentário, nossa atenção foi desviada para um jovem casal que discutia na mesa ao lado. Embora fizessem em voz baixa, quase inaudível, as feições fechadas revelavam uma tempestade de sentimentos conflitantes. O rapaz se retirou de maneira repentina. Em seguida, os olhos da moça se banharam em lágrimas. Loureiro a convidou para sentar conosco e disse para ficar à vontade para conversar ou apenas ouvir. Deu-lhe a palavra de que não faríamos qualquer pergunta. A intenção, sem que fosse dita, era apenas para ela não sentir eventual sensação de abandono. A jovem aceitou e confessou que precisava desabafar. O artesão concordou: “O mais importante em uma conversa nem sempre são os conselhos que recebemos, porém, ouvir a própria voz. Falar costuma nos revelar segredos inconfessáveis do próprio inconsciente”.

A pena além da pena.

 

Toda vez que eu tinha que ir à pequena e charmosa cidade situada no sopé da montanha que abriga o mosteiro não perdia a oportunidade de visitar o Loureiro, o elegante sapateiro, amante dos livros e vinhos. Remendar o couro era o seu ofício; costurar ideias, a arte. Nem sempre eu conseguia encontrá-lo, pois sua oficina funcionava em horários aleatórios. Naquele dia, já ao final da tarde, me alegrei ao ver a sua antiga bicicleta encostada ao poste em frente à loja. Um bom sinal. O bom amigo pediu que esperasse um pouco para terminar um serviço e, em seguida, seguimos para uma silenciosa taberna em busca de boa prosa e uma taça de tinto. Ao garçom que nos atendeu, ele pediu um pedaço de queijo, de marca famosa, para acompanhar o vinho. De imediato retruquei lembrando que o dono daquele conhecido laticínio havia sido condenado por um crime gravíssimo. Falei que não me sentia à vontade para comer daquela marca de queijo e sugeri que pedíssemos uma outra coisa. “Comer do queijo te fará cúmplice do crime?”, perguntou o artesão. Respondi que não iria compactuar com atitudes ultrajantes e acrescentei que agia de acordo com a minha consciência. Ele me olhou com bondade antes de falar: “Sim, sempre agimos em sintonia com as nossas melhores razões e é muito ruim quando isto não acontece. No entanto, expandir a consciência além dos condicionamentos sociais será sempre um exercício de transformação e leveza”.

“Para tanto, a pergunta que devemos fazer é: qual o sentimento que me move? Pois, palavras e atos revelam o que cada qual traz no coração”. De pronto falei que a vontade de fazer justiça me levava àquela decisão. “O sujeito já não cumpre a pena imposta por uma sentença condenatória aplicada por um juiz de Direito”? Eu disse que sim e ele prosseguiu com outra pergunta: “Por que o desejo de ser mais real do que o rei”? Falei que não tinha entendido a colocação. “Toda sociedade é regulada por um conjunto de leis que lhe estabelecem direitos e deveres; regras e limites objetivando a boa convivência”. Interrompi alegando que muitas leis são injustas, algumas rigorosas demais, outras lenientes em demasia. Fora as que beneficiam determinados grupos em detrimento de outros. “É verdade”, concordou o sapateiro para acrescentar em seguida: “Entretanto, toda legislação espelha o exato ponto de evolução da média daquela sociedade e avança conforme haja transformações pessoais. Impor mudanças sem conscientização sedimentada no âmago do ser não se sustenta e não levará às necessárias metamorfoses. Será apenas maquiagem. Cada qual deve ser o retrato da sociedade que almeja através de suas ações. As leis, naturalmente com algum atraso, virão a reboque. Só assim subiremos os degraus”.

Memórias contaminadas.

 

Um dos trabalhos que eu mais gostava de realizar era o de ajudar o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, a cuidar do jardim interno do mosteiro. Aprendi que tudo no mundo reage na exata medida dos nossos sentimentos, em troca incessante. Com as plantas não é diferente. De sobra ainda conversava com o monge e ouvia as suas conversas com outras pessoas. Tudo era aprendizado. Naquele dia, lembro-me bem, fazia um frio não muito intenso em céu azul e o calor do sol trazia um aconchego morno ao corpo, o monge foi surpreendido pela visita de uma sobrinha. A moça, na casa dos vinte anos, estava com a alma em grande bagunça; não conseguia alinhar ideias e sentimentos.

O motivo era o seu relacionamento com o pai. Desde o berço a jovem morou apenas com a mãe. Esta, logo se casou e teve outro filho. Sempre teve uma boa convivência em casa com o irmão e o marido da mãe. O pai, ainda que pese as grandes diferenças de relacionamento com a mãe, nunca deixou de procurar a filha, embora não na maneira que a menina desejava, entendia ou lhe foi dito que ele precisava fazer. Nos últimos tempos as tentativas do pai em se fazer mais presente a incomodavam de uma maneira que ela não sabia explicar, embora não admitisse, e mostravam uma escura lacuna sentimental que necessitava ser colorida. Ela nem sempre reagia bem a essas investidas paternas.

Sentados em um banco de pedra, a jovem desfiou um rosário de situações passadas em que apontava a ausência do pai, onde entendia que ele deveria ter sido atuante. A presença dele, agora mais intensa, de algum jeito, trazia desconforto. O Velho a ouviu com a sua enorme paciência até que ela esgotasse o rol de críticas.  Depois, ele disse com ternura: “Existe um mar de ressentimentos e você parece se afogar nele. Sobreviver nas águas da mágoa só é possível com a boia do perdão; perdoar é respeitar o direito do outro as mesmas infinitas oportunidades que você teve e tem”. Olhou a sobrinha nos olhos e perguntou: “Onde você estaria se a cada equívoco não lhe fosse permitido renovar as chances”? Sem esperar resposta, complementou: “Somente o conhecimento de si próprio concede as bênçãos da tolerância para com toda a gente, degrau fundamental para a paz”.

Maravilhosos vilões.

 

Na pequena e secular cidade, situada no sopé da montanha que abriga o mosteiro, tem um antigo e charmoso cinema em frente à praça da igreja que eu frequentava sempre que os afazeres da Ordem permitiam. Nessa noite, ao final da sessão, encontrei com Loureiro, meu amigo artesão, amante dos livros e dos vinhos. Filosofia e tinto eram as suas preferências. Consertar sapatos era o seu ofício; remendar almas, sua arte. Ele logo me convidou para uma taça em uma silenciosa taberna próxima. A conversa versou sobre o filme que acabáramos de assistir. Eu disse que o que mais me chamava a atenção era o fato de o vilão ter “roubado” a cena, face o excelente trabalho do ator na composição do personagem. O elegante artesão bebeu um gole antes de falar: “Quanto melhor o vilão, mais interessante é o herói. O vilão é essencial na vida do herói, por ajudar no seu aprimoramento. Assim na arte como na vida”.

Discordei de maneira veemente. Eu conhecia pessoas insuportáveis e o meu desejo era simplesmente fazê-las desaparecer como que em um passe de mágica. Loureiro riu e disse: “Se todos nós tivéssemos esse poder, perderíamos as melhores oportunidades de aprendizado e, consequentemente, de evolução. Os vilões têm um importante papel em nossas vidas, assim como nas telas. São os conflitos que movimentam as histórias tanto na realidade quanto na ficção e, para tanto, é indispensável que o antagonista provoque o protagonista a descobrir o melhor de si”.

A melhor parte.

Quando o homem chegou em frente ao mosteiro, o céu ainda era um manto de estrelas. Desceu do carro para apreciar a beleza da construção apenas em seus contornos, possível pelas poucas lâmpadas acesas. Alguém tinha lhe falado da Ordem, da sua raiz secular, dos estudos de filosofia e metafísica aos quais seus monges se dedicavam, além dos trabalhos comunitários. Os únicos sons que ouvia eram dos animais noturnos da floresta próxima. Ele ainda era jovem e tinha abandonado a medicina dois anos após se diplomar, quando terminara a especialização em psiquiatria, para apostar em uma sociedade empresarial com um bom amigo. Os negócios deram certo e tinha ganho muito dinheiro. Comprou um apartamento confortável em badalado bairro de uma metrópole muito apreciada em cartões postais; teve carros caros, mulheres lindas e cobiçadas, viajou pelo mundo, mas nada arrancava ou preenchia o vazio em seu peito, como uma espécie de buraco negro que aos poucos parecia engolir toda a sua luz. Foi surpreendido por um ruído de passos vindo da mata, mas não sentiu medo. Virou-se e viu um facho de luz se aproximando aos poucos. Um monge, com a cabeça coberta pelo capuz a se proteger do frio, caminhava em passos lentos, porém firmes, com um pequeno cesto em uma das mãos e uma lanterna na outra. “As amoras ficam mais saborosas quando colhidas sob o orvalho”, disse o monge quando bem próximo, a mostrar as pequenas frutas acomodadas no cesto. “Adoro geleia”, complementou com absurda naturalidade de quem parecia esperar uma visita desconhecida naquela hora da madrugada. Convidou-o para entrar e tomar um café.

O jovem se apresentou enquanto se dirigiam ao refeitório e perguntou o nome do monge. “Todos me chamam de Velho”. Diante da feição de espanto do outro, acrescentou o ancião: “Penso que é um bom nome. A velhice me trouxe evidentes limitações físicas, um aviso para que eu perceba que a próxima estação está próxima. Por outro lado, me libertou de medos e iluminou sombras. Me fez entender o Caminho, ser leve, aprender o valor da dignidade, o sentido da liberdade e a importância do amor sobre todas as coisas e pessoas. Deu-me uma plenitude no sentir que o vigor da minha juventude não ofereceu e teve o mérito de me trazer até aqui”. Abaixou o capuz para que o homem pudesse apreciar o seu rosto vincado e complementou: “Quando me olho no espelho vejo cada ruga como um capítulo da minha vida, a contar as guerras que precisei atravessar para entender o valor da paz, como um caravaneiro que precisa enfrentar o deserto inóspito para entender toda a beleza e valor do oásis, que por ironia, sempre esteve escondido dentro dele, à sua espera”, finalizou com sua voz mansa e sorriso sincero.

O encantamento dos rituais.

 

A manhã parecia modorrenta. Era o último dia do ano e eu acompanhava pela web os preparativos para as festas em vários lugares do mundo. Todos os jornais traziam as mesmas notícias. A preguiça e o mau humor estavam instalados nas minhas entranhas. Após o desjejum, o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, percebendo o desânimo, me convidou para uma caminhada por uma das trilhas na floresta da montanha que abriga o mosteiro. Por algum motivo que não sei explicar, andar ativa a mente e comecei a desfiar minhas lamentações sobre a desnecessidade das comemorações de Ano Novo, afinal seria uma noite como as outras, com nuvens ou estrelas e o sol inexoravelmente raiaria pela manhã. O monge nada comentou. Animado ao imaginar que ele concordava comigo, quis saber o que ele pensava. O Velho me olhou rapidamente, me ofereceu um sorriso gaiato e disse: “Acho que você está muito chato, Yoskhaz” e continuou andando.

Tristes credores.

 

O vento frio do outono circulava junto comigo pelas estreitas e sinuosas ruas de pedra da secular cidadezinha situada no sopé da montanha que abriga o mosteiro. A tarde ainda estava pela metade, eu já tinha encerrado os meus afazeres e aguardava uma carona que só aconteceria no início da noite. Meu corpo encolhido se protegia das rajadas por entre muros e reentrâncias das charmosas construções, até que vi a antiga bicicleta de Loureiro, o elegante sapateiro, amante dos livros e vinhos, encostada no poste em frente à sua oficina. Consertar sapatos era o seu ofício; remendar almas, um dom. Satisfeito com a sorte, pensei que nada podia ser melhor do que um café quente acompanhado de boa conversa em um final de tarde vadia. Assim que entrei na loja quase fui derrubado por uma bela mulher, já de meia-idade, que saiu como um trator desgovernado pela própria irritação. O bom artesão me recebeu com o seu melhor sorriso e, logo após sentarmos diante de duas canecas fumegantes colocadas sobre o balcão da oficina, disse se referindo a mulher que por pouco não me levou ao chão: “É uma credora emocional. Uma triste e eterna credora”, deu uma pausa antes de completar: “Pelo menos é assim que se arvora diante de todos que cruzam os seus passos”.

Eu quis saber sobre a razão do termo. Ele explicou: “Os tristes credores são aqueles que não sabem reagir diante das dificuldades que se impõem. Como sabemos, sempre viveremos situações desconfortáveis e, por pior que seja, o problema nunca é o problema em si, mas a dificuldade de reação diante da situação. A inércia é prejudicial e surge por não percebermos as lições escondidas por trás de todos os problemas. É fundamental entender que todos os conflitos trazem consigo mestres ocultos a despertar o melhor de nossas capacidades. Todos os problemas são ferramentas de transformação pessoal, desde que o enfrentemos com dignidade e sabedoria”.

As sutilezas da verdade.

O Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, cuidava do jardim no pátio interno do mosteiro quando chegou um homem que nos procurou em busca de amparo às suas aflições. Sentia-se atormentado com uma série de atitudes do passado que, agora, vinham lhe corroer a consciência. O Velho fez sinal para que eu mesmo o atendesse sentado à sombra da roseira. O homem me contou uma triste história onde impusera dor e sofrimento a outras pessoas. Indignado, fui duro em minhas palavras, sem poupar a minha revolta pelo que acabara de ouvir. Visivelmente constrangido, o homem agradeceu, por educação, não por sentimento, se levantou e foi embora. O monge que a tudo assistira, disse: “A sabedoria milenar nos ensina que ‘não é não; sim é sim’, mas temos a escolha de dizer a verdade com mel ou com fel”. Retruquei dizendo que não podemos vacilar com a verdade. Dura ou amarga ela tem que ser dita. “Nesse caso, ele tinha a exata medida dos equívocos do passado, precisando mais de compaixão do que de reprimenda”, o monge expôs seu ponto de vista.

O Velho repousou o alicate no bolso, me ofereceu um sorriso bondoso e falou: “A verdade será sempre um valioso remédio. Como todo medicamento, a dose inadequada se torna veneno”.

A fuga do mundo.

Era um típico dia de inverno. O céu azul, completamente sem nuvens, permitia que o sol nos acariciasse a pele sobre o casaco de lã, em gostosa sensação de aconchego. O dia ainda amanhecia quando fui chamado ao portão para encaminhar um senhorzinho que desejava conversar com o Velho, como carinhosamente chamávamos o decano da Ordem. Como era cedo, o monge sugeriu que a conversa fosse no refeitório ao imaginar que o visitante partira ainda no escuro para alcançar o mosteiro, na montanha, àquela hora. Como a meditação era a primeira atividade do dia, ainda em jejum, e já realizada, todos nos sentamos à enorme mesa. Quando os demais monges se retiraram para os seus afazeres, o Velho perguntou ao visitante como poderia ajudá-lo. O homem manifestou a vontade de fugir do mundo, vez que a solidão o corroía por se sentir abandonado por filhos e netos, cujas visitas eram cada vez mais raras. Tinha a forte resolução de abraçar a vida monástica, aderindo às fileiras da Ordem. Com o olhar suave e voz repleta de bondade, o monge começou a explicar: “Solidão não significa desistência, tampouco fugir do mundo lhe trará a desejada paz. É necessário entender a busca para direcionar o leme do destino”. O homem declarou que estava cansado das ingratidões da vida em sociedade, que tinha se dedicado ao trabalho e à família por toda sua existência para receber apenas esquecimento como moeda de troca. Amargurado, confessou que, se não tinha mais importância para os seus, era melhor se afastar.

“Tudo errado”, disse o velho depois de ouvir com paciência todo o rosário de lamentações. “Para começar é bom lembrar que cada qual tem seus afazeres, compromissos e interesses que tomam tempo. Todos têm uma vida pessoal para cuidar. Aceitar que não somos o centro da vida alheia é um bom início para afastar as lamentações indevidas”.

O sentido da vitória.

 

Era fim de tarde, estávamos sentados na estação a espera do trem que nos levaria até a pequena cidade no sopé da montanha que acolhe o mosteiro. Tínhamos ido visitar uma jovem que passava por tratamento oncológico em um moderno hospital de uma metrópole não muito distante. Como de costume, o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, parecia encantado com tudo a sua volta. O movimento, as lojas, as pessoas; a alegria e a tristeza nas chegadas ou partidas; os abraços emocionados, sorrisos e choros de encontros e despedidas; os solitários. “Esta gare é a síntese do mundo”, comentou sem me olhar, sabendo que eu o observava. Comentei que achava estranho a mania de ele encontrar beleza em tudo e em todos. “É preciso exercitar o ver-além das aparências, das formas e, principalmente, da ilusão. É necessário nos encantar com a essência. O Mestre nos ensinou que ‘quando seu olho é bom, todo o seu corpo é luz’”, citou um pequeno trecho do Sermão da Montanha.

O poder das escolhas.

 

“Ser forte é uma escolha. Ninguém nasce corajoso ou covarde, no entanto, todos os dias, a toda hora, fazemos a escolha por fugir ou enfrentar a batalha que se apresenta dentro e fora de nós”, falou Canção Estrelada, o xamã que através da palavra, cantada ou não, narrava a sabedoria ancestral do seu povo. Estávamos apenas os dois, sentados em torno de uma pequena fogueira sob o manto de estrelas a inspirar a conversa. Naquele dia tinha ocorrido um cerimonial destinado aos jovens da tribo que selava a passagem da adolescência para a vida adulta. Lembrei das palavras ditas pelo xamã ao encerrar o ritual: “O entendimento de que você é capaz de resolver os problemas que surgem, a aceitação da responsabilidade que lhe cabe e a coragem para a luta, desenham a maturidade formada no guerreiro, que somente após ser lapidado em muitas batalhas estará pronto para se sentar entre os sábios”.

O escudo contra o mal.

“Solicitar ajuda das forças luminosas do Universo em prol de uma dificuldade da qual não se tem nenhum controle é louvável, pois demonstra humildade”, disse o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, a um homem que veio ao mosteiro suscitar auxílio em uma situação que lhe afligia. Em seguida alertou: “No entanto, pedir auxílio para que façam o trabalho que lhe cabe, apenas revela a falta de entendimento das Leis, pois não acontecerá. A vida não endurece para maltratar, mas para ensinar. Não há privilégios, apenas lições”

Como uma tempestade que chega sem anunciar, a vida desse homem parecia, de uma hora para outra, virada ao avesso. Brigas familiares insensatas e complicações profissionais que levaram à dificuldade financeira inesperada, eram as consequências imediatas e visíveis do inferno que ele vivia em solo terreno. Com os olhos mareados, se confessou desorientado para continuar na luta. Estávamos no refeitório, os três, e eu lhes servia café com bolo de milho. O homem, de ótima aparência e muito culto, narrou que até há poucas semanas navegava em águas tranquilas pelos mares da vida. Uma família aparentemente bem estruturada; sócio de uma empresa que gerava lucros suficientes para sustentar condição material bem acima da média. Até que, em algum momento, tudo desandou.

“A vida exige movimento. Assim, te fará caminhar por gosto ou imposição. A inércia e o comodismo são ferramentas das sombras a atolar o viajante. Aos que buscam incessantemente o aperfeiçoamento do próprio ser, a vida há de ser generosa, a fornecer todas as condições necessárias para o prosseguimento de uma viagem serena”, explicou o Velho. Deu uma pequena pausa, sorveu um gole de café e prosseguiu: “Aos que se iludem eleitos dos deuses, alheios a tudo e a todos, aos que se imaginam ‘escolhidos’, não tardará o desequilíbrio sobre as situações que o sustentam. A Lei do Serviço é parte do Código Não Escrito e obriga ao trabalho e ao progresso espiritual. Crises emocionais, brigas afetivas, desavenças familiares, dificuldades econômicas ou doenças, são alguns dos instrumentos de instabilidade utilizados pelo Universo para impor novo momento de adaptabilidade diante da realidade alterada.  Agora a criatura caminhará por necessidade”.

“O Caminho é muito generoso em te permitir escolher as rotas da viagem, entretanto, muito justo em elaborar as dificuldades inerentes ao trajeto. O Mestre ensinou há milênios que devemos atravessar a porta estreita das virtudes. No entanto, muitos ainda escolhem seguir pela estrada larga das vantagens indevidas. Afagam o ego em prejuízo a alma. O resultado? Após os prazeres imediatos e transitórios, anda-se em círculos por trilhas cada vez mais escuras e esburacadas. Agonia e tristeza se apresentam como companheiras de viagem”. O homem, muito sensibilizado, confessou que, de fato, não vinha oferecendo o melhor de si. Aflito, perguntou ao Velho como poderia mudar a própria vida, pois não sabia para onde seguir. O monge arqueou os lábios em um sorriso repleto de compaixão e disse: “Quer um novo Caminho? Basta mudar o seu jeito de caminhar”.

“Problemas sinalizam a necessidade de mudanças. Entenda o que você precisa transformar em si e se dedique a isto com sinceridade. Só então chegará a ajuda da esfera invisível”.

O homem argumentou que sofria muito, não imaginava como fazer e, mais, a atual situação se mostrava tão nebulosa que não acreditava ser capaz de solucionar todos os problemas sem a ajuda das forças superiores. O Velho respondeu com a voz bondosa: “O Universo não quer que você sofra, porém exige que você evolua para chegar a próxima estação. Aprender, se transformar, compartilhar e seguir são momentos distintos de cada etapa nas inúmeras existências permitidas, como escolas de sabedoria e amor”.

O homem disse que precisava também de muita proteção, pois tudo de ruim parecia acontecer a ele naquele momento. O monge mordiscou um pedaço do bolo e falou: “Estamos sujeitos à inexorável Lei da Ação e Reação, uma das que compõe o Código Não Escrito. Ela atrai para a sua vida pessoas e situações que lhe são adequadas, não por punição, mas de acordo com o rigor necessário para o aprendizado do aluno, no mesmo diapasão de suas atitudes. O perfume da flor atrai pássaros e borboletas; o odor do esgoto chama para si os ratos e as baratas. Assim, escolhemos os que nos acompanham e definimos o destino próximo”.

“Ninguém está fora do alcance das Leis. Os guardiões ou anjos do Universo ficam impedidos de interferir em razão da situação conflitante ser parte da lição que cabe a você. Assim, você precisa se ajudar para ser ajudado. É uma grande ilusão achar que a casa do mal é o mundo. A sua raiz está em cada um de nós, em maior ou menor intensidade, a depender da expansão de consciência individual. Acredite, ninguém lhe prejudica mais do que você mesmo. Equalizar emoções e pensamentos nas ondas de Luz, envolvendo-os com amor, para que possam se materializar em boas atitudes é a defesa mais eficaz contra o mal. Pois, cria uma abóbada de proteção energética a sua volta, a permitir a aproximação de seus exércitos com maior rapidez, permissão e poder. Como pode ver, o melhor escudo contra o mal é um coração puro”.

“Nunca lhe faltará o auxílio. Entretanto, cada qual terá a ajuda na exata medida das suas necessidades de desenvolvimento, da vontade sincera de se transformar, de semear flores para quem vem atrás. Não podemos esquecer que as dificuldades nos trazem as lições indispensáveis para o aprimoramento da alma, muitas vezes ainda bem embrutecida, necessitando de métodos rigorosos de aprendizado”.

“Reflexões e meditações no encontro consigo próprio são ferramentas poderosas para a ampliação de consciência. Leituras auxiliam na criação de ideias e sustentação filosófica. As preces germinadas no coração são de extremo valor, pois auxiliam no equilíbrio emocional e o auxílio rogado, de algum jeito, nunca faltará, no entanto, não esqueça que santo nenhum dará os passos que cabem a você. A ajuda jamais chegará em forma de carroças repletas de ouro ou que a pessoa amada se dobre aos seus desejos. O auxílio vem através de sinais que indicam um novo sentido e aos ‘acasos’ que criam situações inimagináveis a fim de nos proteger. Ou por intermédio de intuições luminosas que indicam as indispensáveis metamorfoses da alma, as mudanças em seu sentir, pensar e agir”.

“Esta é a alquimia da vida: a transformação de sombras em luz, de dor em amor. Este é o mais precioso dos milagres e muitos nem se dão conta de que os têm na mão”.

Como um vício moderno, o homem reclamou da situação do planeta, que está tudo errado em todo lugar e do mal que parece campear sem rédeas. O monge mirou em seus olhos com doçura e falou: “Quando lamentamos o mundo, criticamos a nossa própria situação interna. O mal é fruto das sombras que habitam cada um de nós, nossas imperfeições e dificuldades, a formar um coletivo de iniquidades. Do contrário é também verdadeiro afirmar que somos a Luz na construção do bem e na manutenção da Obra. Através dos séculos o mundo sempre foi a exata fotografia de nossos corações. Do meu e do seu. Quer mudar o mundo? Transforme a si próprio. Como? Aperfeiçoe as suas escolhas”. O homem acenou com a cabeça em concordância, mais por desconcerto do que por satisfação.

Em seguida, tornou a lamentar a própria situação e insistiu que lhe fosse dito como, de forma objetiva, poderia reverter as atuais dificuldades. “Não faço a menor ideia”, disse o Velho. Diante do olhar atônito do homem, pediu para que eu lhe servisse mais um pouco de café e explicou: “Administrar a vida alheia é muito fácil e tentador, entretanto também demonstra leviandade e arrogância. O exercício da vida, com suas dores e delícias, é a ferramenta pessoal e intransferível de que dispomos para desenvolver as asas da alma, alavancar a nossa evolução. Entenda, aceite e use adequadamente a liberdade de buscar e decidir”.

“Apesar de nunca lhe faltar ajuda – e que sejamos claros, não para um desfecho mágico dos seus problemas, pois o auxílio não será na medida dos desejos do seu ego, mas das necessidades de sua alma, ou seja, por intermédio de condições para alterar, por si e através de si, a realidade – a parte mais importante do processo terá que ser feita por você, na ampliação de sua consciência, no burilar do coração, no desapego dos velhos conceitos. Medidas que refletirão no aprimoramento das suas escolhas”.

Observou o homem por alguns instantes e aconselhou: “Procure o silêncio e a quietude para ficar a sós consigo. Mergulhe fundo, conhecer a si próprio é a estrada para a plenitude. Estabeleça para si mesmo cláusulas invioláveis de amor e dignidade. Perceba o que precisa ser modificado em sua vida. Absolutamente tudo pode ser diferente e melhor. Todos os sábios já fizeram isso para romper a dureza do casulo e sentir as asas da liberdade”.

O Velho pediu para unirmos as mãos e fez uma prece sentida por amor e Luz. O homem agradeceu educadamente a conversa, a oração e partiu. A sós com o Velho, falei que tinha a impressão de que o visitante tinha ficado um tanto decepcionado. “Poucos aceitam os encargos e o trabalho que lhes cabem. Todavia, se as minhas palavras forem uma boa semente, cedo ou tarde germinará”, disse o monge. Deu uma pequena pausa e finalizou: “Na verdade, as transformações exigem grandes esforços que nem todos parecem dispostos a operar. Pensam ser mais fácil rogar por um milagre, que nunca virá, pois o bom educador não faz o dever do aluno. Roga-se por socorro para que se materialize um castelo de muros altos a garantir privilégios e mordomia, quando, na realidade, a ajuda sempre chegará em forma de ponte, toda vez que existir a vontade sincera do andarilho em caminhar e atravessar o abismo”.

 

 

Meu personagem favorito.

Estava com Loureiro em uma taberna na pequena e secular cidade próxima da montanha que acolhe o mosteiro. Tínhamos acabado de trocar ideias sobre sofrimentos e decepções. O bom sapateiro fundamentara, com mestria, que o amor não é causa de nenhuma dor e vem sendo injustiçado, desde sempre, por darmos ouvidos às sombras, emoções sem nobreza, ao invés de compreendermos toda a grandeza de um sentimento capaz de mudar o mundo pela capacidade de fazer florescer o melhor que existe em nós. Já tínhamos solicitado a conta, quando, de repente, ele diz: “Mas penso que não é só. Sempre que falamos das sombras nos referimos àquelas mais conhecidas como inveja, medo, ciúme, vaidade e ignorância. Muitas vezes esquecemos a mentira, talvez por nos ser tão íntima”. Confesso que fiquei atônito. Ele percebeu, riu e explicou: “De todas as sombras, talvez a mentira seja o cárcere de libertação mais difícil, por ser a mais sorrateira. Falo da mentira que contamos para nós mesmos. Ela nos leva à fuga da realidade na ilusão do conforto de quem teme as atribulações do bom combate. Essa sombra no leva a criar e a interpretar papéis distantes da verdade”. Deu uma pequena pausa e foi adiante: “Existe mais da nossa essência na parte que escondemos do que no pedaço que mostramos; há mais oculto no fundo da gaveta do que aquilo exposto na vitrine. Isto é o que vendemos de nós, aquilo é o que somos. Esta é a razão de muitas frustrações”.

Pedi para que fosse mais claro no seu raciocínio. O bom sapateiro teve boa vontade: “Criamos personagens, repletos de virtudes que ainda não temos, a nos representar nos círculos sociais. Todos desejam ser amados, admirados e idolatrados. Na superfície todos conseguem se mostrar bons e circulam na ilusão de ser o que ainda não são. No entanto, os relacionamentos impõem a hora do mergulho profundo”. Deu uma pausa e concluiu: “Então, a intimidade irá revelar o melhor e, também, o pior que há em nós. É inevitável”.

Ninguém sofre por amor.

Era aquela hora indefinida em que não sabemos se é dia ou noite. Algumas lojas já começavam a se preparar para fechar. Apressei o passo pelas estreitas e sinuosas ruas da secular cidade próxima à montanha que acolhe o mosteiro da Ordem. Queria encontrar a oficina de Loureiro ainda aberta para convidá-lo a beber uma taça e conversar. O elegante sapateiro era amante dos livros e dos vinhos. Filosofia e os tintos eram a sua preferência. A sua antiga bicicleta encostada no poste em frente era sinal de que eu estava com sorte. Quando entrei na loja quase esbarrei com uma bela jovem que saía. Percebi suas feições tristes e os olhos avermelhados de chorar. Fui recebido com a alegria de sempre. Loureiro era um príncipe, seu reino era a nobreza no trato pessoal com toda a gente, a elegância dos gestos e do pensamento. Ele costumava dizer que “É preciso iluminar os passos e não empurrar para o abismo. A hora e a maneira de usar as palavras é uma mestria”. Sem que eu precisasse perguntar, me disse que a moça era sua sobrinha e tinha vindo conversar sobre a recente separação. A moça estava inconsolável.

Seguimos para taberna e depois do primeiro gole, comentei o fato das pessoas se abrirem tanto com ele. “Talvez por eu nada perguntar. Acho que isto as deixa à vontade para falar”. Conversamos um pouco sobre o motivo de os relacionamentos afetivos causarem tanto sofrimento. Aproveitei para falar sobre algo que me intrigava: se o amor é algo tão bom, por que este precioso sentimento causa tanta tristeza?

O sapateiro se mostrou logo disposto a enfrentar a questão: “Antes de tudo, se faz necessário entender o amor. Sem nenhuma dúvida o amor é a força mais poderosa do universo, a energia que move e transforma o viajante para as próximas estações do Caminho. O amor é a matéria prima dos milagres desde o início dos tempos, a argamassa que une as pessoas, envolve os mais puros encontros, alimenta a humanidade em suas ceias espirituais. É o sentido da vida. Logo, que fique bem claro: ninguém sofre ou mata por amor”.

Alegria, alegria.

O Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, tinha sido convidado pelo vigário da igreja localizada na pequena e charmosa cidade próxima à montanha que abriga o mosteiro, um amigo de longa data, para proferir algumas palavras durante a missa de domingo. Ele me chamou para acompanhá-lo e nos fez chegar cedo para aguardar no banco da praça em frente à igreja. O Velho gostava de sentir o sol que aquecia o corpo diante da manhã fria de outono. O sol, o frio, os esquilos, pais que passeavam com seus filhos pequenos, filhos que passeavam com seus pais anciões, a algazarra das crianças, os jardins e os pássaros, enfim, a vida pulsando em todas as suas manifestações encantava o monge. “Tudo isso alimenta o meu silêncio”, comentou.

A missa transcorreu tranquilamente em seu cerimonial até que o Velho, foi chamado a subir no púlpito. O vigário alertou aos presentes que não estranhassem a linha de discurso do monge, embora profundamente cristão, pertencia a uma ordem esotérica secular, dedicada ao estudo da filosofia e da metafísica. O Velho agradeceu e iniciou: “Eu vou tecer algumas palavras sobre a grandeza da gratidão, essa virtude tão mal interpretada”.

“Alguns estão aqui aflitos a solicitar auxílio por problemas que se sentem incapazes de resolver; outros para agradecer pelas dádivas concedidas; muitos, apenas para se banharem nas energias de amor e luz que inundam esta casa. Cada qual com os seus motivos, razões, sentimentos e fé. Todos merecem acolhida, respeito e carinho. Mas desde sempre me fiz duas perguntas: qual o critério da esfera espiritual para atender as súplicas, vez que algumas são atendidas, outra não? A outra, qual a melhor maneira de agradecer por tudo de bom que foi ofertado? Foram questões que tomaram bastante tempo em minhas meditações”, fez uma pequena pausa para que todos refletissem por instantes e prosseguiu: “Conheço os que realizam doações preventivamente, como forma de ‘ficar bem’ com os amigos divinos a garantir proteção e privilégios. Há os que preenchem generosos cheques em prol de instituições religiosas e filantrópicas para ‘quitar a dívida’ do pedido atendido. Para estes e aqueles posso afiançar o total equívoco de suas intenções. O Céu ou o plano espiritual, independente do nome que lhe atribua, não é um balcão de negócios”. A voz do Velho tinha a habitual serenidade e, embora baixa, se podia ouvir claramente até a última fileira; o silêncio era absoluto.

O enigma da paciência.

O Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo do mosteiro, parecia encantado com as roseiras do pátio e as podava como bom jardineiro. Pedi para lhe fazer companhia. Ele anuiu com a cabeça e os seus olhos me indicaram um banco próximo para sentar. Ficamos em silêncio por um bom tempo a alimentar a alma com a quietude das horas. Até que perguntei se podíamos conversar. O monge arqueou os lábios em breve sorriso que interpretei como uma permissão. Discorri as minhas reflexões e dúvidas sobre a virtude da paciência e a sua importância para a felicidade. Ele ouviu sem dizer palavra, depois recolheu o alicate no bolso, acomodou-se à sombra em outro banco na minha frente e falou enquanto se distraia com uma pequena lagarta na palma da mão que acabara de arrancar da roseira: “A paciência é alimento indispensável da alma na estrada para a plenitude do ser, onde reside a paz”, pausou por alguns instantes como se buscasse as melhores palavras e seguiu: “No entanto, a paciência é uma virtude valiosa que possui um precioso enigma. A chave para decifrá-lo é a sensibilidade”.

De pronto, eu quis saber mais. O Velho me mirou nos olhos e disse: “Antes de qualquer coisa, há que se ter boa vontade com tudo e com todos. Entender que as pessoas se comportam de acordo com o seu nível de consciência e carga emocional momentânea e pretérita, ajuda a paciência a encontrar o seu lugar em nós. Não adianta ensinar uma criança a calcular uma raiz quadrada se ela ainda não domina as quatro operações básicas da matemática ou explicar algo enquanto está adormecida. Em nossas relações pessoais não é diferente. Ter esse compasso é perceber o passo do mundo, a entender que as relações se desenvolvem de acordo com a evolução e possibilidades dos interlocutores. A natureza não dá saltos. Aos poucos, tudo e todos se aperfeiçoam”.

Dever de casa.

 

Eu tinha terminado um longo e proveitoso período de estudos. Leituras, meditações, reflexões, conversas profundas, foram partes importantes da busca por conhecimento no ciclo encerrado. O Velho, como carinhosamente chamávamos o decano do mosteiro, me lembrou que teoria sem prática é remédio esquecido na gaveta, que perde a razão de existir por não curar. “Conhecimento só vira sabedoria quando vivenciado em todas as nossas relações”, alertava o monge para os discípulos. Eu me olhava de maneira diferente, como se possuidor de uma importante ferramenta em busca da melhor maneira de usá-la. Questionei ao velho monge qual seria, para mim, a melhor aplicação dos meus dons e talentos. Ele estava entretido na poda de uma roseira, mas sempre paciente com todos, me olhou por cima dos óculos e disse: “Não tenho tal correio. Toda escolha é importante, não sendo aconselhável transferi-la a ninguém, por mais querido e bem-intencionado que seja o interlocutor. O poder de decidir sobre o destino é, ou deveria ser, personalíssimo. Não abdique da liberdade que a vida lhe concede em suas escolhas, pois de qualquer forma, seja seguindo o seu coração ou a lógica alheia, você não escapará das responsabilidades e consequências. Portanto, erre ou acerte pelas suas verdades. A Vida lhe impõe o caminhar como única maneira de entender o Caminho”.

A grande aventura.

Eu caminhava pelas ruas medievais da pequenina cidade que fica no sopé da montanha que acolhe o mosteiro. Era acossado pelos ventos frios de outono que obrigavam a me proteger entre os vãos e muradas das antigas construções. Alegrei-me ao ver a clássica e bem conservada bicicleta de Loureiro encostada no poste em frente a sua oficina. Encontrei o bom sapateiro elegantemente vestido, como de costume, a trabalhar em uma cara bolsa de uma belíssima mulher, que aguardava o conserto. Fomos apresentados e o hábil artesão explicou que a jovem tinha sido amiga de escola da sua filha, portanto, a conhecia desde criança. Contente em me ver, ele pediu para que eu esperasse um pouco, pois queria me falar sobre um novo livro de filosofia enquanto tomávamos um café. Trabalhar sobre o couro era o ofício de Loureiro; prosear sobre filosofia, a sua arte. Nem tinha me aquietado em um canto, a bela mulher continuou a falar das viagens por lugares exóticos que já tinha feito. Passeios de balão sobre vulcões, saltos de paraquedas em queda livre, perigosas corredeiras em frágil caiaque, entre outras façanhas. Arrematou afirmando seu enorme gosto pela aventura. O sábio artesão, imerso no trabalho, não disse palavra. Logo em seguida, como se sentisse dificuldade na quietude e no silêncio, a jovem falou que não via a hora de iniciar a escalada ao Everest que programara para o próximo verão e começou a discorrer sobre os preparativos e riscos da nova empreitada. Até que em determinado momento da narrativa, disse que esse gosto pela aventura adquiriu do ex-marido. Nesse momento, o sapateiro sem levantar a cabeça, apenas me olhou por sobre os óculos que lhe corrigiam a vista cansada, permaneceu calado e voltou ao trabalho. Como em uma ópera previsível, logo em seguida, ela contou de como tinha sido feliz naqueles anos, mas fez questão de ressaltar, sem parecer muito sincera, que não gostaria de encontrá-lo em uma dessas viagens. Logo em seguida, deixou transparecer certa mágoa pelo fim do casamento, que evidentemente ocorrera contra a sua vontade. Loureiro levantou a cabeça, mirou a bela moça nos olhos e disse com bondade: “O mais interessante nas pessoas não é o que elas mostram, mas o que escondem”.

“Já parou para pensar que todo esse seu interesse por viagens pode estar apenas adiando a grande aventura da sua vida?”, perguntou para a moça, que de início pareceu curiosa, querendo saber ao que se referia o sapateiro. Ele explicou: “O que você tem que questionar é se viaja em busca de simples divertimento ou por fuga, na ilusão de retornar a um momento de sua vida que não existe mais. Pense bem”, pediu o sábio sapateiro.

Levemente irritada e com uma voz em um tom acima, disse acreditar que a história do seu casamento ainda estava longe de acabar, pois família do seu antigo marido a adorava e todos lhe afirmavam que ele jamais encontraria uma esposa melhor. O velho artesão, mantendo a voz baixa e doce, falou: “Você entende que todos esses passeios perigosos apenas ocultam a mais fantástica de todas as viagens que você algum dia ousou a realizar?”. A moça quis saber de qual viagem ele falava. “A da libertação”, concluiu o sapateiro.

Pelo prisma da Luz.

“O que nos faz bom ou mau não é o que nos acontece, mas como reagimos ao fato”, disse o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo do mosteiro, provocando uma grande discussão na universidade de uma grande metrópole, onde fora convidado para uma mesa de debates com filósofos, professores, cientistas e artistas. Um dos participantes, homem culto e gentil, discordou frontalmente, argumentando que as pessoas são frutos do meio em que vivem. Articulado com as palavras e ótima retórica, sustentou que as experiências do convívio social obrigam e aprisionam as escolhas, através de seus sucessos e traumas. O Velho tornou a discordar: “Atribuir ao mundo a responsabilidade por nossos erros é vestir a fantasia da pobre vítima. Isto não ajuda ninguém em nada. É fundamental que se dispa do personagem para entender que se pode fazer diferente. Seguir sem a culpa que limita, mas com a responsabilidade de que agora em diante fará melhor, pois terá compromisso com a Luz”.

A luz da verdade.

Eu andava amuado pelos cantos do mosteiro. Evitava tarefas que precisasse conversar com os outros discípulos ou monges. Tudo me irritava. Ao perceber o meu estranhamento, o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, me convidou para um passeio no jardim. Enquanto ele puxava conversa, eu insistia em respostas monossilábicas, a demostrar todo o meu mau humor. Em certo momento, o Velho falou: “Quanto mais iluminado é um espírito, mais bem-humorado é o seu comportamento. As Esferas Superiores, independente da forma como você as conceba, são revestidas em ambiente alegre. Ao contrário do que muitos intelectuais imaginam, não existe sabedoria na irritação e na impaciência. A verdade é libertadora, assim se torna fonte de infinita alegria e paz”. Neste instante eu parei de andar, olhei para o monge e lhe disse que essa era a questão do meu desânimo em relação à humanidade, pois a verdade de uma pessoa não era necessariamente a verdade da outra. Logo, eu não previa um final feliz para o mundo. O Velho sentou em um banco de madeira, como quem não tem pressa, antes de falar com sua voz suave: “A verdade é aparentemente instável, pois a consciência das pessoas está em constante evolução e diferentes níveis”. Interrompi sob a alegação de que ali estava o motivo de eternos conflitos. “Não”, rebateu o monge. “Exatamente neste ponto reside a Inteligência Cósmica. Ao impor a convivência entre aqueles que se encontram em distintos momentos evolutivos, permite que uns ensinem a outros. Ela nos torna alunos e professores em incessantes lições. Temos a oportunidade de vivenciar a beleza de compartilharmos amor e sabedoria através da convivência. Na medida que o entendimento se amplia, as pessoas, cada qual em seu momento, começam a perceber a importância de bens imateriais em detrimento às riquezas aparentes; a valorização de sentimentos mais sublimes ao invés das emoções mais sensoriais. Aos poucos o amor mostra a sua grandeza diante do ódio; o perdão liberta da mágoa. Somente na beleza da transformação individual será possível modificar e alinhar o planeta”.

A voz do coração.

Encontrei Canção Estrelada – o xamã recebera este nome por causa do seu dom de preservar e semear a tradição do seu povo através da palavra, cantada ou não – trocando o couro do seu tambor de duas faces em frente à sua tenda. Eu tinha resolvido sair da cidade por um tempo, andava chateado com as duras críticas que os originais do meu último romance tinham recebido, a ponto de me levar a duvidar do meu próprio talento como escritor. Até tinha recebido alguns elogios, no entanto as críticas foram ferozes e a tristeza me corroía as entranhas. Assim que o vi, derramei todas as minhas queixas. Do jeito que ele estava trabalhando, continuou e sem levantar os olhos, falou: “Você não está sabendo dar a exata medida às opiniões alheias. Nem todo elogio é sincero nem toda crítica é justa”. Ele parou de encordoar o tambor por alguns instantes, me mirou nos olhos e falou com sua voz mansa e rouca: “Já lhe ensinei sobre o Portal Sul, penso que chegou a hora de falar sobre o Portal Oeste, onde mora o urso na Roda de Cura”. Mandou-me descansar e que fosse ao seu encontro quando “o Grande Mistério agasalhasse a Terra com seu manto de estrelas”.

À noite encontrei o xamã sentado, sozinho, em frente a uma pequena fogueira. Convidou-me para fumarmos juntos o seu inseparável cachimbo de fornilho de pedra. Após algumas baforadas em silêncio, falou: “A Roda de Cura é o símbolo sagrado que representa a vida de cada um nesta existência. A vida é o tratamento de cura do espírito. A cada lição aprendida ou ferida cicatrizada avançamos um aro na Roda”. Deu uma pausa e prosseguiu: “No lado Oeste da Roda, onde o sol se põe, fica o espaço sagrado do Urso, a sua caverna, onde ele se retira para o sono invernal depois de experimentar todos os alimentos das demais estações”. Aguardei sem dizer palavra, pois não estava entendendo onde Canção Estrelada queria chegar. “O urso procura o silêncio da caverna para se aquietar e ficar um longo período a digerir tudo que comeu. Com a chegada da primavera, ele acorda mais forte para enfrentar e viver a vida. Esta é a lição e o poder do urso. Conosco não é diferente”. Insisti que continuava sem entender. Ele me olhou com sua enorme paciência e disse: “Cada vez mais as pessoas ouvem todas as vozes em detrimento às palavras do próprio coração. Escutam muito, mas entendem pouco. Percebo uma enorme busca por distração e divertimento, não que isto seja ruim, mas estão desaprendendo a ouvir a sua própria verdade, pois têm cada vez mais dificuldades em ficar apenas consigo, como se não entendessem que a solidão é um exercício necessário para escutar a voz do coração. Ou será que estão fugindo de encontrar consigo próprias? Por que temem tanto esse encontro?”.

Sabemos mais do que fazemos.

Mais um dia de trabalho se encerrava na pequena e secular cidade próxima à montanha que acolhe o mosteiro da Ordem. Apressei o passo na esperança de conseguir encontrar a oficina de Loureiro ainda aberta. Não que eu tivesse qualquer conserto a fazer, mas queria conversar um pouco com aquele amigo querido. Ao longe pude perceber a sua bicicleta ainda encostada ao poste de iluminação, sinal de que eu estava com sorte. O sapateiro, elegante como sempre no vestir e no agir, me recebeu com alegria e, para minha surpresa, estava com Sara, a Moreneta, como carinhosamente chamava a filha, uma belíssima e jovem mulher com longos cabelos negros, razão do apelido. Ela, que agora morava na capital, onde trabalhava e cursava o doutorado em prestigiosa universidade, tinha vindo passar uns dias com o pai. Muito meiga e educada disse que nos deixaria a sós para conversarmos e que o aguardaria mais tarde em casa. Loureiro me mostrou os novos livros de filosofia que a filha lhe trouxera de presente. A filosofia era a outra paixão do bom sapateiro. Ele me convidou para uma taça de vinho em uma silenciosa taverna próxima dali. Fomos a pé e antes mesmo de chegarmos, lhe indaguei de como foi a experiência de educar sozinho uma filha. “Sabemos mais do que somos. Todos temos conhecimentos que não conseguimos exercer. Então, a vida, em sua infinita inteligência, nos impõe conflitos e dificuldades para que entendamos a sua beleza e nos obrigue a vivenciá-los. Cabe a nós aproveitar as preciosas lições com alegre resignação”, falou de maneira a mostrar os alicerces do raciocínio que construiria.

A outra face.

 

Profundamente irritado, fui me sentar no final da enorme mesa onde todos juntos, discípulos e monges, fazem as suas refeições no mosteiro. No pátio, há pouco, eu tinha tido uma séria discussão com outro jovem discípulo. O Velho, como chamávamos carinhosamente o decano da Ordem, me observou por alguns momentos, mas me deixou quieto durante o almoço. Após todos se retirarem em silêncio, o velho monge se aproximou e me convidou para um passeio no jardim. Antes que ele perguntasse qualquer coisa, desfiei toda a minha indignação em relação ao colega que tinha sido bastante severo em suas críticas para comigo. Uma mãe tinha nos procurado em busca de apoio emocional e espiritual pela razão da imensurável dor de ter perdido um filho. Orientei-a para que se dirigisse ao orfanato mantido por nossa irmandade na pequena cidade, ao sopé da montanha que abriga o mosteiro, para que lá servisse voluntariamente por duas semanas e, somente então, nos procurasse para conversar. A minha intenção, expliquei de pronto ao monge, é que essa mãe entendesse que sempre existem dificuldades maiores que as nossas, mas que também, ali poderia ser um bom depositário para o amor que ela tinha no coração. Transferir o eixo do sentimento que nutria pelo filho que partiu para as crianças que não tinham pai e mãe, iria arrefecer a sua dor, dar sentido à vida e iluminar seus passos. Quando retornasse para conversar conosco estaria mais receptiva a ouvir as palavras que lhe acalentariam e explicariam as Leis Não Escritas do Caminho. No entanto, o outro discípulo me recriminou. Na sua opinião eu tinha sido insensível em não disponibilizar mais tempo para consolar a mãe no momento em que ela mais precisava, pois, uma boa palavra tem o poder de estancar a dor que sangra. Este era o conflito e o motivo da discussão.

Indaguei se eu estava errado. “Não”, respondeu o Velho. De imediato perguntei se ele chamaria o outro discípulo para uma conversa séria, seguida da devida repreensão e pedidos de desculpas. “Não”, tornou a falar o monge. Como assim? Um erro não tinha que ser reparado? Não somos responsáveis por nossos atos? Saraivei o Velho com perguntas repletas de indignação.

O monge me mirou com seus belos olhos, brilhantes de compaixão, emoldurados em pele vincada pelo tempo e pela luta, antes de dizer: “Quando duas pessoas discutem, ambas podem ter razão. Nesse caso, não havia solução errada e qualquer das duas medidas seria acertada”. Aleguei que a verdade era única. Ele discordou: “A verdade se aproxima de acordo com o nível de consciência das pessoas, a alterar, por causa e consequência, a sua sensibilidade em relação ao sentimento do mundo. Muito do que foi absoluto para você há anos, hoje não é mais revestido de convicção. A Verdade é una, entretanto, o seu real entendimento ocorre de mansinho, aos poucos, na medida de cada passo no Caminho”.

O mercador de sonhos.

Era noite alta e eu não conseguia dormir. Resolvi sair da tenda e encontrei Canção Estrelada – o xamã que recebera esse nome pelo seu dom de compartilhar a sabedoria nativa através de suas histórias, cantadas ou não – fumando seu inconfundível cachimbo de fornilho de pedra. Pedi permissão para sentar ao seu lado e lamentei que vinha com dificuldades para pegar no sono. Ele me olhou com seu jeito sereno, deu uma longa baforada e disse: “Você precisa ter uma conversa séria com o Mercador de Sonhos”. Claro que não entendi do que ele falava e pedi para que fosse mais claro. “Você sabe por que os índios pintam o rosto quando vão a um cerimonial ou quando antigamente iam à guerra?”, a sua pergunta tornava tudo ainda mais confuso em minha mente. Diante da minha negativa, ele falou: “As pinturas não são aleatórias ou estéticas, mas revelam, de acordo com as cores e os traços, a magia de cada um”. Magia? Quis saber a que se referia com este termo. “Todos, sem exceção, temos nossos dons e talentos que devemos usar com criatividade. A sua magia é o que lhe torna especial. Ela pode se expressar de diversas maneiras seja pelo dom da sabedoria através do talento de ensinar, da compaixão para acolher os necessitados, da verdade para semear a justiça, da coragem para oferecer segurança, da sensibilidade para ajudar aflorar os sentimentos. Enfim, são inúmeros dons e talentos a se manifestar na essência de cada pessoa, a refletir na maneira como ela Caminhará em Beleza semeando os bons frutos por onde passar. É a espada do guerreiro, como os ancestrais metaforicamente falavam. Isso tem que ser aplicado em seu trabalho ou profissão, pois quando o guerreiro não usa a sua espada, ela enferruja e ele se torna amargo”.

Eu preciso disso?

Era um jovem e promissor advogado. Tinha aproveitado uns poucos dias de folga para se aconselhar com o Velho, de quem ouvira falar. Enquanto eu o encaminhava para a sala onde haveria o encontro, tentei lhe mostrar a beleza de nosso mosteiro, suas colunas trabalhadas e paredes seculares, onde há muito se ancorava a paz do silêncio, das orações, dos estudos e do serviço de benemerência. Porém, ele tinha pressa. Interrompeu a história que eu narrava sobre a abadia, para comentar sobre a importância dos processos em que atuava e sobre seus feitos nos tribunais, onde dobrava o convencimento dos juízes pelo peso de sua inteligência.  Tinha urgência em encontrar logo o Velho, vez que trabalhos de sumo valor o aguardavam. No entanto, antes que chegássemos ao local onde o velho monge gostava de receber as pessoas para conversar, o encontramos no jardim interno do mosteiro a se distrair com algumas plantas. O rapaz foi recebido com sincera alegria pelo ancião, como de costume, embora não o conhecesse. Imediatamente o advogado começou a falar sobre uma ação que movia contra uma poderosa multinacional que lhe renderia milhões em honorários. Explicou que teria de peticionar neste processo até o dia seguinte e pediu para que fossem direto ao motivo de sua visita. “Dinheiro é uma ferramenta importante, pode-se fazer muita coisa boa com ele. Assim como a sua profissão, na luta por um equilíbrio e entendimento entre as pessoas. Use-as com sabedoria”, limitou-se a comentar o monge. Em seguida perguntou ao rapaz: “Posso lhe ajudar em algo?”.

A resposta foi a ansiedade e o estresse. Contou que em razão disso já tinha sido internado por problemas cardíacos, tinha dificuldade em seus relacionamentos afetivos e não conseguia dormir sem a ajuda de ansiolíticos. No entanto, acreditava ser o preço do sucesso. “Quem lhe recomendou a visita ao mosteiro? ”, perguntou o monge. O advogado respondeu que foi um tio chamado Jonas, um humilde marceneiro que lhe visitou quando esteve convalescendo no hospital. Deixou escapar, com uma ponta de vergonha, que foi a única visita movida apenas por carinho, despida de qualquer outro interesse. “Você é sobrinho do Jonas?”, alegrou-se o Velho. “Tenho muito respeito e admiração pelo seu tio. Toda vez que uma criança entra no orfanato da cidade, ele constrói e doa um berço para o pequenino. Usa seus dons e talentos com o coração. Gosto muito de estar e conversar com ele”.

O jovem retrucou, pois entendia que o tio deveria concentrar seus esforços para sair da vida simples que levava. Comprar uma casa maior, montar uma oficina mais moderna. Não tinha que se preocupar com problemas que não eram seus. O Velho arqueou os lábios em breve sorriso e disse: “Deve ser triste não ter com quem se preocupar. Jonas é um homem feliz”. O advogado riu e disse que o tio era um irresponsável.

O Velho o mirou com seus olhos repletos de compaixão e perguntou: “Ele precisa disso? ”. A pergunta era apenas retórica e se referia ao estilo de vida e bens que o sobrinho acreditava que Jonas deveria perseguir. Antes que o rapaz pensasse em responder, o convidou para sentar ao seu lado em um banco de pedra, à sombra de uma enorme roseira. Em seguida comentou: “Ganhar o pão de cada dia com dignidade é sagrado, assim como é legítimo e louvável o esforço para uma vida confortável. Todos temos necessidades básicas de alimentação, moradia, educação e saúde”. A brisa leve da tarde tornava o jardim ainda mais agradável. O Velho continuou: “O problema é que desde sempre a humanidade parece não estar satisfeita e saciada com o que tem e, então, continua sua busca desesperada para ter mais. Não sabe impor limites a si mesma. Isto traz, de imediato dois problemas. O primeiro é que as pessoas se tornam eternamente insatisfeitas, a alimentar um ego já gordo e cada vez mais voraz a se agigantar nas sombras da vaidade e da ganância. A outra, é que acaba sobrando pouco tempo para pensar e exercitar as questões primordiais do ser, onde se adquire as verdadeiras riquezas”.

O jovem, brilhante por ofício nas técnicas da argumentação e contestação, rebateu que conhecia aquele velho discurso, mas que na verdade o mundo só respeitava e reverenciava as pessoas poderosas e, para tanto, quanto maior a fortuna, mais consideração lhe renderiam e, no uso deste poder, poderia melhor contribuir para a caridade no futuro. O monge sorriu com os olhos e disse: “Penso que talvez você esteja equivocado na escolha das pessoas que dá valor e considera importantes. Sem dúvida que o dinheiro pode ser um instrumento poderoso para a realização do bem, mas se torna desastroso quando tem por finalidade alimentar o orgulho. Assim, como um martelo, a sua escolha é que definirá se será usado para a construção ou demolição” e prosseguiu: “Ao contrário do que muitos pensam, a melhor compaixão não carece de dinheiro, mas de sabermos priorizar nosso tempo, sentimento e interesse. Você pode cuidar da sua arte ou ofício com mestria enquanto interage com o mundo oferecendo o seu coração. Assim como o Jonas”.

O jovem argumentou com argúcia que as pessoas são diferentes. Assim, distintos são os conceitos, os objetivos e as necessidades de conforto. Questionou até onde era legítimo se concentrar somente em seus objetivos antes de pensar em ajudar aos outros. O monge disse com sua voz mansa: “Sim, cada qual é único e nisto reside a fortuna da vida. Existe um mantra valioso que qualquer um pode recitar nessas horas: ‘Eu preciso disso?’. Temos que nos questionar sobre os verdadeiros limites da própria necessidade. Quanto mais estreito for o limite do ego mais ampla será as fronteiras da alma. Acredite, as prioridades mudam na medida que o nível de consciência se transforma. Questiono a luta insana por carros mais potentes em centros urbanos engarrafados e, que, ao final, levarão apenas o corpo, pois a alma, muitas vezes, não foi a lugar nenhum. Ou casas cada vez mais luxuosas em bairros exclusivos, ao custo de montanhas de dinheiro, ou mesmo dívidas, como símbolos de ostentação, status e, ironicamente, isolamento. Não raro encontro com pessoas na busca frenética por mais roupas, sapatos e relógios. Será que nunca se perguntam ‘Eu preciso disso?”.

O advogado balançava a cabeça em negação e seus olhos transbordavam ironia. O monge nem de longe pareceu ofendido e continuou com sua fala mansa: “Quantas vezes você adiou uma reunião de negócios pela atenção a um filho que precisa de tempo ao seu lado e de seus conselhos a lhe indicar os bons trilhos da vida, serenando seu coraçãozinho ao sentir uma mão forte a lhe apoiar? A última vez que foi levar um pouco de carinho aos seus pais ou desmarcou um compromisso profissional para ouvir um amigo em dificuldade?”. Com a expressão simples que lhe era peculiar, o Velho tornou a perguntar: “Do que você realmente precisa, filho? Esta resposta vai revelar seu atual nível de consciência e definir as alegrias e sofrimentos que lhe acompanharão no Caminho”.

O jovem tornou a explicar, como se falasse para um ancião ingênuo, que trabalhava muito e, em troca, precisava presentear a si próprio atendendo a alguns desejos. O Velho respondeu de imediato: “As sociedades se movimentam inconscientemente a distrair a nossa atenção para as questões primordiais do ser. Vejo pessoas que até para relaxar criam um monte de lugares que supostamente não podem deixar de ir, como rota de fuga a lhes furtar o precioso encontro consigo mesmo. Já parou para pensar o que nos leva a fugir de nós mesmos?”, deu uma pequena pausa e concluiu: “Entendo a vontade de nos acarinhar após uma dura batalha. No entanto, podemos presentear o ego ou a alma. E as consequências são um brilho forte de curta duração, logo acompanhada de um grande vazio ou uma estranha e infinita luz a lhe dar a sensação do todo”.

O jovem advogado sorriu, balançou levemente a cabeça como se ouvisse um louco e se levantou. Educadamente agradeceu ao monge pelo seu tempo, mas lamentou que a visita não o ajudaria. Confessou, com uma ponta de sarcasmo, que esperava ouvir uma revelação secreta sobre os mistérios da vida. O monge se levantou e abraçou o rapaz. Depois lhe falou com mansidão: “O que muitos chamam de mistério, nada mais é do que as lições que negamos. Então, nos aprisionamos em um ciclo até que cada um o decodifique para si. Isto pode trazer sofrimento. Porém, a vida floresce pela alegria das almas e disponibiliza a mais fina sabedoria para todos, sem privilégio ou distinção. Está no ar, no silêncio, nos sorriso e abraços. Basta que se preste atenção e tenha a ousadia de pensar diferente. Nada será mais revolucionário do que colocar o mais puro amor na ponta de cada escolha ao se perguntar ‘Eu preciso disso?’ ”.

Eu quis acompanhar o rapaz até os portões do mosteiro, mas ele me dispensou e partiu.

A sós, o Velho comentou com doçura: “Um dia ele volta”. Eu quis saber se o advogado retornaria ao mosteiro. “Volta para o seu próprio coração. Não poderá fugir dele por toda a eternidade. Em algum momento terá que refazer as suas prioridades. Suas necessidades mudarão quando se cansar do vazio e do deserto e do abandono”. Olhou para as primeiras estrelas que começam a enfeitar a noite e finalizou: “Quem você pensa ter encontrado a paz, o jovem, rico e talentoso advogado ou o tio carpinteiro, humilde e misericordioso?”.

Apenas abaixei os olhos como resposta. Em seguida lhe ofereci um chá. Ele me olhou sério e mantrou: “Eu preciso disso?”, para em seguida piscar o olho e falar com seu jeito gaiato: “Muito!”. Rimos e seguimos para o refeitório.

 

Os pilares da paz.

A pequena cidade, no sopé da montanha que abriga o mosteiro, despertava. Suas ruas seculares, estreitas e tortas, ainda estavam molhadas do orvalho da noite. Como eu tinha chegado cedo para os meus afazeres, segui até a pequena loja de Loureiro a fim de convidá-lo para um café. De longe pude avistar sua antiga bicicleta encostada junto ao poste, em frente à porta já descerrada. Fui recebido com a alegria costumeira pelo amigo, sempre elegante nas vestes e nas atitudes. Alto e magro, sua vasta cabeleira branca não escondia a idade avançada. Calça bem cintada de cor preta a contrastar com a camisa de branco imaculado, ambas de fina alfaiataria. O sapateiro repousou as ferramentas sobre a bancada de trabalho e saímos os dois, como bons meninos, a rir pelas ruas em direção à padaria. Sentados, com as canecas quentes à frente, a espera do pão fresco, não pude deixar de notar algo que sempre me chamava a atenção: a paz permanente que irradiava do olhar e das palavras daquele sapateiro. Sempre me indagava sobre tal poder. Porém, nossa conversa versou, como sempre, para a filosofia, a paixão de Loureiro, a devorar todos os livros que lhe chegavam às mãos. “Apesar de todos os avanços, e estes são incontestáveis, os meus preferidos ainda são os gregos. Tudo que precisamos aprender já sabíamos há três mil anos”, comentou. Perguntei se essa era a fonte de que ele bebia para exalar a serenidade tão admirada por mim. “Toda a paz de que você precisa nasce do entendimento de que nenhum acontecimento no mundo, por mais trágico que possa parecer, poderá abalar os alicerces da sua alma sem a sua permissão”.

Os labirintos da vida.

Todo sábado, pela manhã, tem uma deliciosa feira na praça principal da pequenina cidade próxima a montanha que acolhe o mosteiro. As ruas são sinuosas e estreitas, ainda estão calçadas por pedras para não lhe negar a origem medieval. Guloseimas, artesanatos, embutidos, queijos, frutas e hortaliças frescas são vendidas pelos moradores e agricultores das proximidades. A música alegre tocada por jovens e anciões no centro da praça colore o estado de espírito que predomina no rosto de todos. Naquele dia, o sol agradável da primavera aquecia o frio das primeiras horas da manhã e oferecia as cores típicas da estação. O Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, tinha me convidado para acompanhá-lo à feira com a desculpa de que precisava comprar mel para a receita de um bolo apreciado por todos os monges. Na verdade, ele admirava muito a troca espiritual entre toda a gente, seja dentro ou fora do mosteiro. Com seu sorriso franco, olhos brilhantes e fala mansa, conversava com todos que lhe cruzavam os passos lentos, porém firmes. Impressionante perceber como ele era querido, apesar de não possuir um níquel para oferecer. Em determinado momento, encontrou uma jovem mulher, muito bonita e bem vestida, cuja família, proprietária de vasta extensão de terras nos arredores, remontava a uma aristocracia que tende a desaparecer. Suas feições eram tristes, seus olhos pareciam sem vida. Ela pareceu contente por encontrar o Velho e nos convidou para sentar em uma cafeteria próxima.

Com xícaras fumegantes à frente, a mulher começou a desfilar sua enorme tristeza em relação aos infortúnios do destino. Apesar da enorme herança que lhe tinha sido destinada e ter acesso ao que o mundo tinha de mais caro, não conseguia ser feliz nem ver encanto nas coisas. Nada lhe dava contentamento. O velho monge lhe ouviu com sincero interesse por longos minutos, sem dizer palavra. Ao final, com os olhos mareados, uma lágrima escorreu no belo rosto da jovem. Ele lhe ofereceu um sorriso confortador e perguntou: “Você sabe o que é um labirinto?”. A moça fez que sim com a cabeça e respondeu que era um emaranhado de corredores que parece não levar a lugar nenhum, cuja saída é difícil de encontrar. “A vida, por vezes, apresenta-se como um labirinto”, o Velho falou ainda enigmático a construir o seu raciocínio. A mulher quis saber mais. Ele a mirou nos olhos com doçura antes de completar: “Quem não sabe aonde precisa ir estará sempre perdido”.

O caçador de estrelas.

Eu passei vários períodos de minha vida ao lado de Canção Estrelada, xamã do povo nativo da Estrada Vermelha, com quem aprendi muito. Certa vez, quem me mandou para lá foi o próprio Velho, como chamávamos o mais antigo monge da Ordem. O motivo foi que eu estava me indispondo frequentemente com outros monges do mosteiro, com os comerciantes da pequena cidade próxima e, até mesmo, com amigos e familiares. “Quando pensamos que o mundo atrapalha os nossos sonhos é porque existe algo de muito errado dentro de nós”, assim ele justificou a minha mudança temporária de ares.

Fui recebido com a alegria de sempre pelo xamã, mas não tardou e, após os primeiros dias de férias compulsórias, comecei a me indispor com alguns membros da tribo. Claro que eu estava insatisfeito comigo, tinha um olhar enevoado em relação a algumas situações e, principalmente, sempre atribuía a alguém a responsabilidade pela minha infelicidade. Por um lado, não percebia; por outro, faltava coragem de admitir para mim mesmo as minhas próprias dificuldades que tanto me incomodavam, causadora daqueles pequenos conflitos pontuais. Canção Estrelada me observou por um tempo sem dizer palavra, até que certa noite me convidou para sentar ao seu lado em frente a uma fogueira. Estávamos só os dois. Eu observava seus movimentos, enquanto ele, sem pressa, completava com tabaco o fornilho de pedra do seu cachimbo e tínhamos a Via Láctea como obra de arte na parede do Infinito. A noite mal começava. Eu quis saber qual o motivo de ele sempre me chamar para conversar diante das labaredas. “O Grande Mistério utiliza o poder dos quatro elementais – água, ar, terra e fogo – para purificar e alimentar o planeta. Sinto-me à vontade diante do poder do fogo que ilumina, aquece e queima as velhas formas”, falou enquanto dava a primeira baforada. Interrompi para perguntar ao que se referia com o termo “velhas formas”. “São sentimentos e ideias que já não nos servem mais e, por ultrapassados, devem ser transmutados. A vida precisa que sempre haja lugar para o novo, seja no planeta ou dentro de nós”, explicou. Em seguida me passou o cachimbo, seus olhos miravam os meus, como reza o costume, em sinal de amizade e respeito. Vi o fogo refletindo em suas pupilas enquanto ele falava: “Está na hora de falarmos sobre o Caçador de Estrelas”. Antes que eu perguntasse do que se tratava, o ancião explicou: “É todo aquele que trilha a Estrada Dourada da Iluminação”.

O espelho da minha alma é você.

“O perfeito olhar é aquele capaz de encontrar beleza onde todos apenas enxergam desastre”, disse o Velho, como carinhosamente chamávamos o mais antigo monge da Ordem, quando, de tão irritado que eu estava, passei por ele e não o notei. Seu olhar maduro percebeu que o meu coração estava em tempestade. Virei-me e desabafei toda a insatisfação com acontecimentos recentes. Em discurso longo, narrei ao Velho toda a minha indignação em relação à ignorância que ainda campeia solta no mundo. Ele me ouviu pacientemente até que eu desanuviasse o último resquício de intolerância, depois comentou com seu jeito manso: “O que mais nos incomoda nos outros é reflexo dos nossos mais graves defeitos”.

Discordei veementemente, pois certos comportamentos eram, por absolutos, incompatíveis com os meus. “A maioria, com certeza, sim. Alguns, não. E são justamente estes que sua alma, manifestada através do inconsciente, reconhece as próprias dificuldades e o seu ego, na ilusão de lhe proteger, repudia a sombra alheia, pois teme que o mundo veja outra igual em você”. Deu uma pequena pausa, me observou por alguns instantes e concluiu: “Percebe que o que tira o prumo e rasga a serenidade é ter que conviver com o erro que existe no outro, justo aquele que lhe faz lembrar a existência de dificuldade bem parecida e familiar? Exatamente aquela que você quer esquecer ou se enganar que não é parte da sua personalidade. Esta afinidade funciona como um espelho e o narciso não quer se ver feio. Mas o que o ego esconde, a alma sinaliza para que possa ser transformado”. Abaixei os olhos e não disse palavra.

A arte da renúncia.

Eu tinha descido a montanha onde se localiza o mosteiro da Ordem e caminhava através das ruas estreitas e antigas da secular cidadezinha mais próxima. Chovia muito e estava mais escuro do que a hora determinava. Era muito cedo e o comércio começava a abrir as suas portas. De longe vi a bicicleta do Loureiro estacionada em frente à sua pequena loja. Por décadas tinha sido o único meio de transporte que aquele ancião se permitiu usar. Sorri comigo pela alegria de passar alguns instantes com pessoa tão ilustre. Assim que entrei, Loureiro me olhou por cima dos óculos, largou o alicate, arqueou os lábios e se levantou de braços abertos para me receber. Como sempre, o homem alto e magro estava impecavelmente vestido. A calça preta de pregas bem cintada, sustentada por suspensórios, fazia uma boa combinação com sua elegante camisa branca abotoada até o pescoço, com as mangas arregaças na altura do cotovelo para não atrapalhar o ofício. Seus cabelos, da mesma cor da blusa, embora ainda fartos e bem penteados, sinalizavam a idade avançada. Loureiro era sapateiro desde sempre. Nas horas vagas gostava de um bom vinho e amava os livros. Os seus prediletos eram os tintos e os de filosofia.

Tinha ido por causa das minhas sandálias, cujas tiras de couro, cansadas do uso, tinham arrebentado. Apesar de velhas, eu gostava do conforto que me proporcionavam, como se elas e meus pés já tivessem selado a paz há tempos. Depois dos cumprimentos e uma caneca de café bem quente para afastar o frio, perguntei se as sandálias teriam reparo ou me restaria procurar por novas. “Penso que as pessoas estão perdendo o bom hábito de consertar as coisas, o que pode acabar por refletir em suas relações. É necessário a sensibilidade para perceber o que não serve mais e o que merece remendo. Se a vida, e tudo nela se tornarem descartáveis, em breve minha profissão, assim como a razão do meu existir, perderão o sentido”, disse, entre graça e razão, enquanto levava as sandálias para a sua bancada de trabalho. “Sente-se. Trocaremos uma prosa enquanto faço o reparo”.

A beleza do perdão.

“É impossível ser feliz sem perdoar”, disse o Velho para uma jovem senhora que foi ao mosteiro em busca de consolo. Estávamos sentados no refeitório e eu lhes servia uma xícara quente de café. Ela acabara de narrar o seu drama pessoal e estava inconsolável, pois não se julgava merecedora daquele destino. Aflita, a mulher confessou que o que a mantinha em pé era assistir ao sofrimento de quem tinha lhe atingido e por isto não o perdoaria jamais. O Velho fechou o cenho diante de tamanha intolerância, no entanto, os olhos brilhantes em seu rosto enrugado transbordavam misericórdia. “Penas eternas é uma adequação às sombras e não faz nenhum sentido com as ideias trabalhadas pela Luz, sempre disposta a conceder novas chances. O erro faz parte do aprendizado e, para tanto, requer inúmeras oportunidades.  Só um anjo poderá enumerar todos os erros da própria vida”.

A mulher rebateu dizendo que já tinha cometido alguns erros, porém nunca por maldade. O monge manteve o tom sereno em sua voz. “O desencontro entre as pessoas reside em julgarmos os outros através do rigor dos fatos, das feridas que nos deixaram e desejar que sejamos julgados por nossas intenções. Sempre temos motivos que justificam nossos atos, né?”, deu uma pequena pausa para que a mulher refletisse sobre as suas palavras e seguiu: “Esta é a questão. Tamanho descompasso é a raiz do conflito nas relações. Por isto a necessidade do mergulho nas profundezas de si mesmo. Esqueça as máscaras e os personagens sociais que criamos com o ego, no afã de nos proteger, no desejo de ser aplaudido em público. Falo das sombras que escondemos, que anseia por luz nos porões ainda escuros da alma, que apenas quer ressaltar os defeitos alheios na vã esperança de esconder os nossos. Perdemos tempo demais na ilusão de corrigir os erros dos outros ao invés de aperfeiçoar o nosso próprio coração para que possa refletir a beleza das atitudes que ainda não temos. Pode apostar, ao nos conhecer de verdade passamos a ser mais tolerantes com os demais”.

A magia de encontrar consigo.

Canção Estrelada estava sentado à porta de sua tenda. Baforava seu indefectível cachimbo com fornilho de pedra. Era aquela hora em que o dia vira noite. O sol já tinha ido e a lua ainda não havia chegado. Eu me sentia cansado, tinha acabado de chegar da cidade e estava bastante aborrecido com uma série de problemas pessoais. Há dias andava mal-humorado. “Tem horas que dá vontade de desparecer”, lamentei a sorte quando passei pelo xamã. “Fugir do mundo não te fará escapar da vida”, ele respondeu com um sorriso irônico. Calei-me e tentei seguir. Eu apenas queria me banhar e dormir, mas ele me mandou sentar. “Hoje vou te ensinar sobre o Porta do Sul”, falou e em seguida me passou o cachimbo para que eu fumasse junto com ele, sinal de confiança e respeito. Pegou seu tambor de duas faces para ritmar uma sentida canção nativa. Fechei os olhos e me deixei envolver naquela ambiência de paz. “Na Tradição do Caminho Vermelho, a Roda da Vida – ou Roda de Cura, vez que a vida nada mais é do que um infinito processo de cura do espírito na exata medida da sua evolução – possui quatro portais, representados pelas direções magnéticas do planeta. Em geral gosto de começar pelo Leste, onde moram os antepassados que aprenderam a cavalgar com o vento. Porém, contigo vou começar pelo Sul”, explicou. Antes que desse tempo de eu perguntar o motivo, ele disse. “Existe uma necessidade urgente de você se despir do personagem que criou na vã ilusão de se proteger de tudo e de todos. Onde tenta enganar que é forte, habita a sua fraqueza. Isto fez com que tenha abandonado a sua verdadeira força. Tudo que não faz parte de nós, atrapalha por inadequação”.

Amor não é troca.

Não raro escuto as pessoas falando que “damos amor e queremos receber amor. Amor é troca”, como sentença definitiva. Não, amor não é troca. A troca é a base do comércio que, sim, ajuda a movimentar o planeta e a dirimir as diferenças entre os povos, porém, amor não é mercadoria para ser negociado. O amor tem que ser incondicional, sem exigir absolutamente nada de volta ou não é amor. Amor não é moeda de convivência, mas o verdadeiro sentido dos relacionamentos. Na verdade, quando se reclama que o outro não nos devolveu o amor que lhe oferecemos, estamos transferindo para terceiros a responsabilidade pelo nosso vazio existencial. Um ser integral a caminho da harmonia interior sabe que toda a paz e felicidade de que necessita para se sentir pleno é construída dentro de si por si. A partir de então passa a compartilhar com todos o belo sentimento que lhe encanta o coração. Como um casaco tricotado com a agulha da sabedoria e pelas linhas do amor, que pronto, tem-se o desprendimento de entregar a quem está com frio, sem esperar absolutamente nada de volta, salvo a própria alegria de ter levado um pouco de conforto a alguém. É imprescindível entender que somente você é responsável por sua felicidade. Transferir ao outro a responsabilidade de lhe fazer feliz é inadequado, tolo e, cedo ou tarde, surgirão os conflitos naturais oriundos de quem carrega um fardo que não pode suportar. Não se pode exigir do outro o preenchimento do vácuo de sua alma, pois tal desafio é pessoal e inerente à evolução de cada um. Ninguém tem a obrigação de fazer ninguém feliz. O que é diferente de sempre oferecer o seu melhor para o sorriso e o conforto de alguém. Ser amado é maravilhoso e uma das dádivas divinas da vida, mas é necessário aceitar que o amor do outro não é nem será a base da sua felicidade. Esta tem que ser construída aos poucos dentro de você. Cada um de nós, sem exceção, possui as ferramentas necessárias para fortalecer a alma a alcançar a plenitude em completa liberdade, ao largo de qualquer dependência emocional. Dependências, afetiva ou sentimental, nada mais são do que prisões sem grades – embora algumas estejam bem disfarçadas em gaiolas doces e douradas – onde não podemos nos permitir apodrecer.

Milagres são transformações ocultas em nós.

“O que chamamos de magia em outras Tradições recebe o nome de milagre. Muda-se o nome, mas é a mesma força e poder”, falou Canção Estrelada, ancião nativo do Povo do Caminho Vermelho, enquanto preparava o cachimbo de fornilho de pedra. Estávamos sentados em volta de uma pequena fogueira sob o manto fantástico da Via Láctea a nos provocar indagações sobre os mistérios do universo. Esperei que ele desse uma pequena baforada e, assim, convidasse seus ancestrais que já cavalgam com o vento para participar da nossa conversa. Depois me fitou com as labaredas refletidas em seus olhos e explicou: “Magias ou milagres são como chamamos transformações que ainda não conseguimos explicar. O importante é entender que você é parte do milagre, assim como a semente só germina se encontrar solo fértil. Cada qual é o seu do próprio jardineiro, que sem o devido trabalho nenhuma rosa fará florescer. O sol e a chuva são para todos, porém a semeadura é pessoal e intransferível. O essencial é entender que cada qual tem que fazer a sua parte para se encantar com a magia da vida”.

Explicou, ainda, que existe um intercâmbio incessante entre esferas, porém os aliados do plano invisível somente podem intensificar o trabalho conosco se estivermos preparados: “Somos os pilares da ponte em que atravessam; portanto, quanto mais firmes forem os alicerces, maior o trânsito deles. Sem o aperfeiçoamento de um código moral próprio, onde não se pratique nenhum mal a qualquer coisa ou pessoa, não se chega a lugar nenhum. Tais conceitos são os sólidos fundamentos da alma”, acrescentou.

A maturidade traz em si a verdadeira liberdade.

“A maturidade nada mais é do que o entendimento de si e a disposição de se transformar. Isto é libertador”, disse o Velho enquanto procurávamos cogumelos em uma floresta próxima ao mosteiro depois de uma noite de chuva. O sol brilhava por entre as folhas, lambia nossos rostos e aquecia na manhã ainda fria. “Entender quem somos, nossas dificuldades e belezas, permite que deixemos para trás o que em nós não serve mais e abre a perspectiva de inventar o que queremos ser. Este é o poder do Caminho”, complementou. Um belo rouxinol pousou em um galho de uma árvore próxima e nos presenteou com uma pequena sinfonia, só encontrada nas matas. Depois alçou voo. Comentei que todos gostariam de ter asas como os pássaros para alcançar as alturas. Ele retrucou de plano: “Pássaros voam por determinismo biológico. As asas da liberdade são metafóricas, fruto da sabedoria e do amor, flor das escolhas que se faz a cada passo do Caminho”.

Falei que Mahatma Gandhi certa vez, quando preso, comentou que há homens mais livres nas celas no que vagando pelas ruas. O velho retrucou: “Gandhi era um iniciado, uma alma antiga e iluminada. Claro que não falava das mentes sombrias que enveredaram pelas raias da criminalidade e da ignorância. Ele se referia à liberdade do pensar desperto dos preconceitos e condicionamentos culturais e sociais. A liberdade de pensar além; de perceber que as mais cruéis prisões são aquelas que não têm grades”. Parou um pouco e concluiu: “Liberdade é muito mais do que o direito de vagar a esmo pelas ruas ou levar uma vida completamente descompromissada. Isto, em geral, caracteriza os foragidos da vida. Estes costumam estar aprisionados no pior dos cárceres, a própria consciência. A verdadeira liberdade traz em si a responsabilidade. A responsabilidade por suas escolhas e compromissos. Temos compromisso com tudo que amamos e na medida que ampliamos a nossa esfera amorosa crescem as nossas asas, nos permitindo voos cada vez mais altos. Nossas asas têm o tamanho de nossos corações. As nossas escolhas, por sua vez, geram consequências e temos que nos responsabilizar por elas. A serenidade deste entendimento, ainda que isto signifique mais esforço e trabalho, pois cada qual terá os desafios próprios ao seu aprendizado, chama-se maturidade”.

Isto não têm importância.

A magia da vida acontece enquanto vivemos as coisas banais do dia a dia, dizia o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo do mosteiro. Lembro disto ao perceber como desperdiçamos tempo e energia em situações que não têm nenhuma importância para as nossas vidas e, desta maneira, terminamos por atrasar a fantástica viagem ao permitir que naveguemos em círculos. “Isto não tem importância” é um mantra de uma única frase que ele repetia e ensinava o tempo todo. Todos os dias há pelo menos um momento mágico que pode transformar a vida. O segredo para ver e atravessar esse portal reside em suas escolhas e, para exercê-las com plenitude, não se pode estar distraído ou enfraquecido com o que não tem importância. As urgentes desnecessidades são armadilhas do Caminho.

O sagrado mora no seu coração.

Certa vez assisti a um filme, desses hollywoodianos, com muita ação, onde o protagonista era um frio assassino profissional que passa a ser perseguido tanto pela polícia quanto pela máfia. Sua aparente indiferença em relação a qualquer tipo de sentimento era a tônica da sua personalidade e a principal razão de sua nefasta eficiência. No entanto, durante a sua fuga carregou por todo o tempo um vaso de plantas, salvo engano, pois faz muito tempo, com uma orquídea. Aquela singela flor era o depositário de todo e único amor que esse homem conhecia. Ele se preocupava com ela, pois era preciso que a colocasse no sol, regasse, vigiasse de eventuais pragas para que não morresse. A planta era motivo de preocupação, pois dependia completamente dele para continuar viva; a orquídea tinha a capacidade de fazer florescer o melhor de um homem embrutecido em sua consciência. Aquela flor era sagrada.

Sagrado é tudo aquilo que nos religa à divindade, que permite que possamos exercitar nossos sentimentos mais nobres, nos ensina a ser pessoas melhores e alavanca a nossa evolução. Em um pequeno altar que tenho em casa há vários objetos aparentemente mundanos, mas que trazem tamanha significação pessoal que os tornam sagrados para mim. Algumas pessoas mais distraídas nem percebem que ali reside importante parte do meu templo. Por exemplo, tenho três malabares de circo. Quando me recolho para as minhas reflexões, meditações e orações eles me lembram que distribuir alegria por onde passar é a melhor forma de agradecer a Vida pelas bênçãos e lições disponibilizadas a mim durante a jornada. Eles são sagrados para mim.

O sagrado está oculto no profano.

As mais belas histórias são as de superação.

Não raro escuto pessoas dizendo que fariam tudo “exatamente igual” se iniciassem novamente a sua trajetória de vida. Se é apenas uma alusão a como aprenderam com os próprios erros e como eles ajudaram a chegar onde estão, entendo. Sim, por vezes, os erros são preciosos mestres que nos oferecem valiosas lições, embora a vida disponibilize outros, como a percepção e o amor, que permitem encurtar tempo e pavimentar a estrada. São as mesmas lições oferecidas pelo erro, porém ministradas de maneira suave, afinal aprende-se por imposição ou gosto. A escolha é sempre nossa. No entanto, na maioria dos casos vejo alguns amigos sustentando verbalmente a repetição da trajetória de vida por vergonha, negação ou orgulho. Pena, pois a não aceitação do próprio caminho trilhado impede de entendermos quem realmente somos, por consequência, não permite ver as transformações que devemos operar em nós, atrasando a viagem evolutiva e, assim, a paz da plenitude que tanto ansiamos.

Revejo a minha história e, grato às duras lições que o erro me ofereceu, percebo que poderia fazer diferente. Pessoas que magoei, voltas em círculos que dei por teimosia, tempo e energia desperdiçados com situações que não tinham nenhuma importância e por aí vai. A lista é enorme. É verdade que aquele era o meu nível de consciência naquele momento e ali eu não conseguia perceber que poderia fazer de outra maneira. Sim, sempre é possível fazer diferente e melhor.

Embora ainda muito longe de onde tenho que chegar, já não sou o mesmo da partida. Mudou o olhar e o viver. Não é assim com todos nós?

Só há coragem onde antes existia o medo.

As histórias de ficção encantam a humanidade desde o início dos tempos porque revelam segredos escondidos no inconsciente. Embora interfiram em nosso jeito de ser, não raro, demoram a ser decodificados. Justamente lá, no inconsciente, por ser território selvagem, as sombras atuam e terminam por alterar nossas vidas. Através das aventuras imaginárias narradas nos livros ou nas telas, o herói enfrenta vilões perigosos, encontra dificuldades inesperadas, precisa superar limites, aprende com perdas e frustrações para no final encontrar o maior tesouro: ele próprio.

A ficção, no fundo, conta a história de cada um de nós disfarçada com outra roupa, cenário e maquiagem. A necessidade que temos do herói nasce ao identificarmos a coragem indispensável para enfrentar nossos dragões e permitir que o melhor em nós floresça. O guardião dessa ponte que todos precisam atravessar é o medo.