O melhor mágico do mundo

Eram dias modorrentos. Eu andava desanimado naquele período em que estava no mosteiro para estudos. Não conseguia me concentrar nas leituras nem nas meditações. As palestras e debates pareciam de uma chatice sem fim. As atividades físicas, como a ioga ou caminhadas pelas montanhas também não me despertavam interesse. Aos que me perguntavam sobre a razão do meu “olhar sem vida”, respondia que não mais alimentava ilusões quanto à humanidade. Argumentava que as nuvens da vaidade, da inveja, da ganância, da mentira e do medo tinham deixado o mundo para sempre sob as suas sombras. Até que encontrei o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, acomodado em uma poltrona na varanda do mosteiro, entretido com um livro. Ofereci de ir à cantina buscar uma xícara de café e ele aceitou com um lindo sorriso. Quando acomodei a caneca na mesa ao seu lado, o monge me convidou para sentar. Sem que ele me perguntasse nada, assim que me acomodei, soprei um vendaval de lamentos quanto à inutilidade da vida. Confessei que não via sentido em viver e, talvez, aqueles que viviam pela busca constante do prazer estivessem certos. O Velho deu de ombros e disse: “Depende daquilo que você entende como prazer”.

A realeza do mundo

O trem tinha me deixado cedo na estação da pequena e charmosa cidade que fica no sopé da montanha que acolhe o mosteiro. Como a minha carona até a sede da Ordem era para o final da tarde, decidi arriscar a encontrar aberta a oficina de Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos, lendária não apenas pela habilidade do artesão em costurar tanto o couro quanto as ideias, mas também pelos horários inusitados de funcionamento. Naquele dia a loja estava fechada, embora todo o comércio local estivesse em plena atividade. Um jornaleiro próximo me informou que o meu amigo tinha trabalhado noite adentro, cerrando as portas assim que amanheceu. Resolvi seguir para uma cafeteria em busca de uma xícara de café fresco e um pão com o bom queijo da região na chapa. Antes, comprei o jornal para me fazer companhia. Enquanto andava pelas ruas estreitas e sinuosas com calçamento secular de pedras, típicas daquela cidadezinha, passei os olhos nas manchetes e li que uma famosa rainha de um país europeu havia falecido. Embora o cargo fosse apenas protocolar e simbólico, sem qualquer poder administrativo, a reportagem relatava uma grande comoção. O enterro ocorreria com toda a pompa.

O sagrado

Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom de difundir a sabedoria do seu povo através da palavra, cantada ou não, baforava o seu indefectível cachimbo de fornilho de pedra vermelha enquanto, da varanda da sua casa, em silêncio, observávamos as cores com que o sol poente pintava as montanhas e o céu do Arizona. Na sala da casa, Canção Estrelada mantinha um pequeno altar. Diferente da minha tradição cristã, na qual mantenho imagens de Jesus, Fátima e Francisco de Assis ou na casa de Li Tzu, o mestre taoista, onde vemos pequenas estátuas de Buda, Shiva e Ganesha pelo jardim de bonsais, no altar do xamã repousava uma pena de águia, uma garra de urso, seus animais de poder, o tambor de duas faces usados em seus cerimoniais, algumas pedras que ele, em respeito, reverenciava como “o ‘povo’ mais antigo, que traz toda a memória e a energia dos acontecimentos vividos no planeta desde tempos imemoriais”, além de muitas plantas. Eu entendia bem como funcionava toda a linguagem e a ritualística xamânica com as suas fortes e belas conexões telúricas. No entanto, algo me causava estranheza. Tratava-se de um sapato de palhaço, bem antigo, daqueles tradicionais, enorme, colorido e com o bico propositalmente aberto.

Tomei coragem e perguntei a razão daquele objeto em seu altar. O xamã afastou o cachimbo da boca, fechou os olhos como se a memória o levasse a uma viagem distante e disse: “Na adolescência trabalhei como palhaço-mirim por um breve período em um circo que rodou esta região. Foi uma época de muitos risos”. Fez uma breve pausa e prosseguiu: “Ele é sagrado para mim”. Argumentei que não se tratava de um objeto sagrado, mas de uma agradável lembrança. Canção Estrelada virou a cabeça em minha direção para me olhar nos olhos e disse: “Tudo aquilo que me torna um homem melhor é sagrado. As imagens de mestre Jesus ou de mestre Buda apenas serão sagradas se tiverem em você a força de recordar as lindas lições deixadas por eles. Este é o poder delas”. Questionei como um sapato de palhaço poderia ajudar em seu processo evolutivo. O Xamã explicou com paciência: “A alegria é uma característica dos espíritos iluminados. Trata-se uma vigorosa ponte que nos liga ao mundo invisível. Todos os dias, quando passo pela sala de casa, o sapato tem o poder de não me permitir esquecer a importância da alegria na vida”. Fez uma pausa e concluiu: “A mais eficiente prece de gratidão ao Grande Mistério, por todas as bênçãos da existência, é a semeadura da alegria por onde passarmos”.

Os desertos do ser

Quando entrei no refeitório do mosteiro em busca de uma caneca cheia de café, percebi que o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, conversava com Valentina, uma jovem e bela monja da nossa irmandade. Ela é uma das poetisas mais talentosas da sua geração e, nas horas vagas, trabalha como engenheira em uma conhecida empresa aeroespacial. Eu tinha acabado de chegar ao mosteiro e não sabia que ela também estava lá para o seu período de estudos. Fiquei feliz em vê-la. Somente quando me aproximei foi que reparei as lágrimas escorrendo pela face da moça. Fiz menção em me afastar, mas ela sorriu ao me ver e me convidou para sentar com eles. Valentina brincou comigo ao dizer para eu não ter medo de mulheres que choram. Embora um pouco constrangido, sorri e balancei a cabeça ao afirmar que eu não tinha problemas com isso, apenas não queria atrapalhar a conversa. Ela insistiu para que eu sentasse. O Velho abriu um largo sorriso ao perceber que Valentina mantinha o bom-humor e a delicadeza apesar da dor, indicou com o queixo uma cadeira ao seu lado e disse: “Lágrimas são gotas que transbordam quando os mares do coração estão agitados”.

A fronteira entre a riqueza e a prosperidade

Um dos meus sócios na agência de publicidade conseguiu me localizar na única estalagem da pequena vila chinesa onde morava Li Tzu. Tanto o sinal do celular quanto a internet eram precários e intermitentes em razão do clima da região, não raro, assolada por fortes ventanias. O recado deixado na recepção era claro: eu deveria retornar imediatamente das minhas férias e interromper os estudos do Tao Te Ching que fazia com o mestre taoista. Uma conhecida multinacional tinha nos procurado para fechar um vultuoso contrato. Todavia, para atendê-la da melhor maneira, teríamos que rescindir os acordos com as pequenas e médias empresas que sempre foram uma base sólida para a agência. Toda a paz e a felicidade que eu estava sentindo nos estudos, na meditação e na prática da ioga, que iniciara naquela viagem, desapareceram por completo. Fiquei tenso e dividido entre ir e ficar; entre o risco de aceitar um negócio milionário que poderia despencar na variação dos interesses típicos de uma grande corporação, mas que, se mantido, me deixaria rico ou permanecer no atendimento às muitas firmas que nos acompanhavam desde o início da agência. Com os nervos exaltados, os sócios estavam divididos entre as opções. Acabei por discutir com um deles ao retornar a ligação.

Nos becos escuros do ciúme e da mentira

Os horários inusitados e irregulares de funcionamento da oficina de Loureiro, o elegante sapateiro amante dos livros e dos vinhos, já tinham virado lenda na charmosa cidadezinha localizada no sopé da montanha que acolhe o mosteiro. A única maneira de saber se o atelier estava aberto era ir até lá. Por isto, virar a esquina da estreita rua sinuosa, com calçamento de pedras, e me deparar com a sua clássica bicicleta encostada no poste em frente era motivo de alegria. Fui recebido com um sorriso sincero e um abraço forte. Eu disse que tinha ido em busca de uma boa conversa sobre um assunto que vinha me incomodando a tempos, o ciúme. Loureiro tinha no remendo do couro o ofício que executava com extrema habilidade; a costura de ideias era uma arte que ele trabalhava com rara mestria. O bom amigo decidiu encerrar o expediente, embora ainda estivéssemos no início da tarde, e me convidou para almoçar em um tranquilo restaurante próximo dali. Devidamente acomodados, o garçom completou as nossas taças com um delicioso tinto da região e, logo em seguida, eu comecei a contar que ultimamente vinha tendo muitas brigas com a minha namorada em razão do ciúme que atormentava o relacionamento. Os desentendimentos vinham escalando tons e as discussões estavam cada vez mais desgastantes. Confessei estar cansado de me sentir assim.

Inferno astral

Naquele ano, no período no qual passo um mês no mosteiro para estudo e reflexão, coincidiu com a chegada de um grande número de membros, fato que me obrigou a dividir um quarto com outro monge, como denominamos todos os integrantes iniciados na Ordem. Tínhamos, eu e ele, hábitos bem distintos, entre os quais, os horários de dormir e acordar. Eu me deitava mais cedo e, também, me levantava bem antes dele. Por mais que tivéssemos cuidado, luzes e ruídos nos incomodavam mutuamente, ora a um, noutra a outro, a depender das horas. Isto, aos poucos, foi criando um desgaste em nosso convívio. Paralelamente, na véspera da minha viagem para o mosteiro, eu tivera um grande entrevero com os sócios da minha empresa por não concordar com a maneira com que eles administravam os seus departamentos. Eu tinha chegado aborrecido às montanhas. Como se não bastasse, há poucos dias, eu discutira com a minha namorada, pelo telefone, por não gostar de uma postagem que ela havia feito em uma rede social. Até que certa noite, com dificuldades para dormir, me senti incomodado com o abajur da cabeceira do colega de quarto, aceso para o auxílio na leitura, além do barulho que ele fazia tanto para ir ao banheiro quanto para comer ou beber alguma coisa. Acabei por repreendê-lo de maneira rude. Tivemos um desagradável bate-boca, que escalou a altos tons, fazendo com que monges de outros quartos viessem intervir para que não chegássemos às vias de fato. No dia seguinte, após os ofícios da manhã, procurei pelo Velho, o monge mais antigo da Ordem, para conversar. Encontrei-o, distraído e feliz, podando as roseiras do jardim interno do mosteiro. Falei que estava em um mau momento e precisava conversar. Ele guardou o alicate no bolso da túnica de lã, me ofereceu um sorriso repleto de compaixão e disse: “Eu estava à sua espera. Foi bom você ter vindo”. Olhou para o céu e sugeriu: “Acho que logo começará a chover. Vamos conversar em minha sala”.

A vida não é curta

Era sábado à noite quando o ônibus estacionou na singela vila chinesa onde mora Li Tzu. Deixei a minha mochila na única estalagem do lugar e fui para a casa do mestre taoista. Como sempre, o portão estava aberto e a pouca iluminação era fornecida apenas por muitas velas espalhadas por todos os cantos, inclusive, no belo jardim de bonsais. Meia-noite, o gato preto que também morava lá, na espreita, desconfiado, me acompanhou o tempo todo com os olhos. Chamei pelo mestre algumas vezes, mas não obtive resposta. O silêncio apenas era quebrado por uma melodia alegre que vinha de longe. Achei que era deselegante esperar por ele em sua casa e, como eu estava sem sono, me deixei guiar pelo som animado. Atravessei algumas ruas sinuosas sempre tendo os meus tímpanos como bússola, até que cheguei a um sobrado de onde surgia a música. Subi os degraus de madeira da escada estreita e me deparei com uma espécie de baile aberto ao público. Surpreendi-me com Li Tzu dançando uma animada canção em companhia de uma bela moça. Em seguida, ele foi conversar com um grupo de amigos que pareciam felizes pela maneira como riam e se abraçavam. Estranhei o comportamento do pacato e silencioso mestre taoista.

Um pouco sobre máscaras, roteiros e sombras

Eu e Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos, tínhamos acabado de assistir a um filme no único cinema da pequena e charmosa cidade localizada no sopé da montanha que acolhe o mosteiro. Fomos para uma agradável livraria que abriga uma cafeteria na parte dos fundos em busca de boa prosa e café. A fita narrava a história de Dayse e Giovani, casal de namorados na faixa dos cinquenta anos de idade; ambos já tinham passado por outros relacionamentos. Ele era um tranquilo professor de matemática em uma escola do ensino médio, praticante de judo e dedicado aprendiz de roteirista. O seu sonho era contar ao mundo as histórias que o povoavam desde sempre. Passava boa parte das horas de folga aplicado em suas escritas. Ela era uma mulher alegre que vivia da generosa pensão deixada pelo marido falecido há muitos anos. Era uma pessoa caridosa, sempre atenciosa às necessidades alheias, que também gostava de passear com a amigas e se divertir. Para muitos formavam um casal perfeito. No entanto, tinham uma relação intermitente, de idas e vindas. A causa era sempre a mesma: ela, por vezes, se mostrava irritadiça e mal-humorada, seja com o pouco carinho que recebia do namorado, seja pela vida quieta que levava ao lado dele. Giovani, então, preferia se afastar na certeza de que ela não era a pessoa com a qual deveria compartilhar a sua vida afetiva. Passado alguns dias ou semanas, a namorada o procurava como se nada tivesse acontecido e o relacionamento era reatado, mais por comodidade do que por amor. Isto aconteceu várias vezes e sempre pelo mesmo motivo. Quando do último afastamento, embora não fosse uma separação declarada, ele tomara a decisão de não mais voltar, pois tinha a convicção que, apesar de a moça possuir muitas virtudes, não a amava.  Uma relação sustentada apenas por comodidade acabava por ser prejudicial a ambos. Entretanto, dessa vez, por acaso, tomara conhecimento de que ela estava envolvida com outra pessoa. De outro lado, Dayse soube, através de terceiros, de que Geovani tinha ciência do seu novo romance. Ela enviou uma mensagem de que a história não era exatamente como aparentava, desmentiu o novo romance, afirmou que Geovani ainda tinha lugar cativo em seu coração e voltou a um discurso, muito comum a ela, de transparência e fidelidade. Ela sempre lamentara que o seu casamento anterior fora muito afetado pelos contantes casos de infidelidade do marido falecido e, por isto, não tolerava tais situações. Segundo ela, este era o motivo pelo qual acabou levando-a também a ter relações extraconjugais durante o matrimônio. Mas o fato, agora revelado, era inegável. Embora tenha sentido ciúme, ele entendia o momento dela, respeitava o seu direito em tentar ser feliz ao lado de outra pessoa e pensava que, cedo ou tarde, o melhor seria também se envolver com alguém. O problema é que resolveu passar na casa de Dayse para devolver alguns pertences que estavam consigo e para dizer que poderiam ser bons amigos. Para a sua total surpresa, foi recebido com extrema agressividade, sendo alvo de acusações vagas e desconexas. A mulher alegou que tudo aquilo tinha acontecido por causa dele, que odiava a vida pouco movimentava que levava ao seu lado e, por fim, que sentia desprezo por ele e que se enganara quanto ao amor que sempre dissera sentir. Giovani passou dias sem entender a razão de tamanha reação. Até que decidiu escrever um roteiro sobre essa história, com a finalidade de contá-la para si mesmo, na tentativa de entender o fundo da questão. Ocorre que esse se torna o primeiro roteiro que ele consegue vender a uma produtora. Na sessão de estreia reencontra com Dayse no saguão do cinema; ela, feliz, está acompanhada do seu novo namorado; ele, feliz, pela realização de um sonho. A cena final é uma troca se sorrisos entre os dois, deixando ao expectador a conclusão que melhor aprouver.

A minha cidade

Naquele ano, quando entrei no mosteiro para mais um período de estudos, eu estava desiludido com a humanidade. Logo que encontrei com o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, ele me perguntou o motivo de eu estar abatido e com os ombros curvados. “Parece que carrega o peso do mundo nas costas”, comentou. Falei que andava desanimado diante tanto egoísmo e agressividade. Comentei que cogitava a possibilidade de mudar de cidade, pois aquela onde eu morava se mostrava inabitável. Acrescentei que era mal administrada, as pessoas só pensavam nelas mesmas e não mediam os meios de atingir os seus objetivos. O bom monge disse: “A violência sob qualquer aspecto e nível é muito ruim. De outro lado, pensar em si é muito bom e até mesmo fundamental, desde que tenha por intuito compartilhar o melhor que cresce e habita dentro de cada um de nós. O ser é como uma fazenda que precisa de cuidado constante para que o solo esteja fértil, aproveitando cada semente gerada através das experiências vividas; encontros e desencontros serão sempre um valioso celeiro a fomentar a plantação. O grão, quando recebido com carinho, fertilizado pelas chuvas dos sentimentos nobres, fortalecido pelo sol das ideias sutis que lhe estoura a casca permitindo a manifestação da essência transformadora, polinizado pelos ventos oriundos das diferenças pessoais, adubado pelas virtudes aperfeiçoadoras da vida, protegido conscientemente das ervas daninhas que sufocam o crescimento, com o olhar atento do fazendeiro que encontra a beleza em um simples caroço por perceber a árvore que nele está oculta e, por fim e não menos importante, com a sabedoria de aguardar pelo tempo indispensável ao amadurecimento para que da semente ocorra o milagre da flor”. Fez uma pequena pausa antes de prosseguir: “Uma fazenda abandonada se torna imprestável; assim como, perde o sentido aquela que desperdiça a sua produção. Há que se ter amor tanto para produzir quanto para distribuir os frutos”. Olhou-me nos olhos e falou: “Assim são as cidades. Moramos na cidade que construímos dentro de nós”.

Metades

A casa de Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom de transmitir a sabedoria ancestral do seu povo através da palavra, estava vazia quando entrei. O bule de café ainda estava quente, me servi de uma caneca e fui para a varanda. Uma simpática vizinha me informou que ele estava em uma escola próxima dali, ministrando uma animada palestra para uma turma de adolescentes. Quando entrei no auditório, uma jovem, de olhos perspicazes, perguntava a ele qual a razão da nossa existência. O xamã respondeu de pronto: “Evoluir, simplesmente evoluir”. A moça, longe de se dar por satisfeita com a resposta, indagou sobre o significado da evolução. Canção Estrelada arqueou os lábios em leve sorriso e disse: “Evoluir é ampliar o nível de consciência e expandir a capacidade de amar. O amor é o sentido da vida. No entanto, pelo seu enorme poder e complexidade, precisamos da sabedoria para nos orientar nessa conquista”. Deu uma pequena pausa e concluiu: “Embora o amor seja a nossa essência, conhecemos muito pouco sobre o amor”. A jovem insistiu em seus questionamentos e quis saber qual era a conquista a que o xamã se referia. Atencioso, ele respondeu: “Se o amor é a razão da vida e a essência de cada um de nós, a conquista a que me refiro é quanto à parte não revelada; ao outro que somos e desconhecemos”. Como todo bom contador de histórias, deu uma pausa dramática e disparou: “Metade de mim eu sei quem é, a outra parte ainda é um enigma”.

A arte de ajudar os outros

Eu e Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos, tínhamos acabado de almoçar em um dos nossos restaurantes preferidos na pequena e charmosa cidade localizada no sopé da montanha que abriga o mosteiro. Por saber que ainda conversaríamos por um bom tempo, o garçom, um velho conhecido, deixou um bule de café fresco em nossa mesa, quando fomos surpreendidos por Paola, uma sobrinha querida do artesão. Ela tinha entrado no restaurante apenas para tomar um café e divagar sobre algumas questões pessoais e ficou feliz em nos encontrar. Sentou-se conosco e disse que era bom estarmos ali, pois queria ouvir o que o tio pensava a respeito de algo que a chateava nos últimos meses. Fiz menção em deixá-los a sós, mas Paola, gentil, falou que não era necessário. Em seguida, contou que, como o tio já sabia, namorava com Giovani por quase quatro anos. O primeiro período tinha sido de muitas alegrias e descobertas, viagens e total sintonia. Com o passar do tempo tudo parecia desandar e os desentendimentos eram cada vez mais constantes.

Além do fim do túnel

Ao lado de Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos, buscávamos um restaurante que ainda servisse almoço no meio da tarde. Tinha chovido forte durante todo o dia. Aproveitamos a esteada para singrarmos as ruas estreitas e tortas da pequena e charmosa cidade localizada no sopé da montanha que acolhe o mosteiro. As pesadas nuvens deixavam o céu escuro e fizeram com que os lampiões se acendessem mais cedo do que de costume. Conversávamos de maneira alegre e vadia, como dois amigos que se sentem felizes pelo simples fato de estarem juntos, enquanto desviávamos das poças d’água formadas no calçamento contruído com pedras seculares. Ao entrarmos no restaurante nos deparamos com Carlo, um amigo em comum. Tomamos um susto. Nem de longe parecia aquele homem confiante, bonito e bem cuidado que estávamos acostumados a ver. Tínhamos nos encontrado há menos de um mês e ele aparentava estar muito bem. Naquele dia era o reverso da pessoa que conhecíamos. Carlo estava abatido, encurvado, sem viço, parecia um espectro de si mesmo.

Uma viagem entre o Tao e a Fé

Li Tzu, o mestre taoista, pediu para que eu chegasse cedo em sua casa. Quando saí da estalagem o céu era um manto salpicado de estrelas. Andei pelas ruas da vila chinesa encantado com a beleza oferecida pela Via Láctea, perdido em ilações quanto aos infinitos mundos existentes no universo. Encontrei Li Tzu finalizando a sua meditação diária. Ele estendeu dois tapetes para que eu o acompanhasse em seus exercícios de ioga. Meia-noite, o gato preto que também morava na casa, nos observava com um olhar preguiçoso. Claro que eu fiquei bem aquém das posições complexas conseguidas pelo sereno ancião chinês. Ao final, nos dirigimos para a cozinha e me sentei à mesa, enquanto ele nos servia um saboroso chá. Perguntei, para puxar assunto, se ele tinha o hábito de olhar para o céu e pensar em todo o mistério que envolve as estrelas. Ele me olhou com curiosidade, como seu eu lhe perguntasse o óbvio, e disse: “Entender o todo ajuda a saber quem sou; me conhecer faz com que eu sinta o poder do todo em mim”.

Um fiel carcereiro

Era domingo. Aproveitei a carona do caminhão que entregava leite no mosteiro e desci rumo à pequena e charmosa cidade localizada no sopé da montanha. Eu queria assistir à missa em sua bela catedral gótica, em frente à praça. O dia ainda amanhecia enquanto eu andava pelas ruas sinuosas calçadas com pedras seculares, ouvindo o barulho dos meus passos, tamanho era o silêncio, em busca de uma caneca de café para acordar os pensamentos. Arrisquei passar na oficina de Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos, onde os horários inusitados de funcionamento eram tão famosos quanto a boa prosa do seu proprietário. Sorri comigo mesmo ao ver a clássica bicicleta de Loureiro encostada no poste. Quando entrei na loja fiquei surpreso ao encontrar uma mulher sentada ao balcão, ao lado do artesão, entre café e lágrimas. Fiz menção em dar meia-volta, mas o sapateiro ofereceu um sorriso sincero quando me viu e convidou para sentar com eles. Fomos apresentados e Loureiro, sempre gentil, logo colocou uma xícara fumegante com café fresco nas minhas mãos. Nancy era uma pediatra muito requisitada e querida na cidade. Ela foi muito simpática e não se incomodou de eu participar da conversa. Apesar de ser uma mulher em idade madura e inteligente, sofria muito em seus relacionamentos afetivos. O ciúme a atormentava desde a adolescência quando começou a namorar.

O sal da terra

 

Encontrei o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, por acaso, do lado de fora dos muros do mosteiro. Ele voltava de um passeio na floresta localizada no arredor. Como havia chovido nos dias anteriores e o sol reaparecera, aquela manhã estava perfeita para a colheita dos cogumelos que germinam aos pés dos carvalhos. Provavelmente, à noite, teríamos a sua famosa sopa. Eu tinha saído para fumar um cigarro. Como sempre, o monge estava bem-humorado, no bom equilíbrio entre a alegria e a serenidade. Cumprimentou-me com um sorriso sincero, mostrou a cesta repleta de cogumelos e comentou que a colheita tinha sido proveitosa. Não teceu qualquer comentário a respeito do cigarro. Quando ele fez menção de prosseguir para atravessar os portões do mosteiro, eu comentei que voltara a fumar para não me suicidar. O Velho apenas comentou: “Trágico, não”? E seguiu. Logo adiante, deu uma pequena parada, se virou e disse: “Estarei na cantina”. Piscou um olho como quem conta um segredo e falou: “Ouvi dizer que um bom café é perfeito após o cigarro”. E tornou a seguir. Com os olhos acompanhei os seus passos lentos, porém, firmes, até desaparecer por entre os muros.

A carta de Paulo

 

Uma palestra proferida pelo Velho, como era carinhosamente chamado o monge mais antigo do mosteiro, para os demais membros da Ordem, tinha abordado sobre a indispensabilidade do amor como elemento essencial às demais virtudes, além da sua enorme força de transformação. Como era costume, ao final, iniciamos os debates. Frank pediu a palavra. Ele era um jovem membro da OEMM – Ordem Esotérica dos Monges da Montanha –, filho de um dos fundadores, já falecido. Apesar da pouca idade, mal completara trinta anos, tinha graduação em jornalismo, completara o mestrado e o doutorado em sua área de atuação profissional e possuía um discurso articulado e culto. Recentemente, em razão da crise econômica enfrentada pelo país em que morava, fora demitido de um grande jornal impresso, no qual respondia pelo caderno cultural. Frank argumentou ser prejudicial para uma pessoa o excesso de virtudes. Explicou que vivíamos em um mundo injusto, habitado por pessoas imperfeitas, gerando relações humanas complicadas e conflitantes. Acrescentou que para sobreviver na selva, como denominou a civilização contemporânea, era imprescindível uma boa dose de maldade.

A maratona

 

Eu estava de volta na pequena vila chinesa, encravada no Himalaia, próxima ao Butão. Queria estudar um pouco mais com Li Tzu, o mestre taoista. O ônibus tinha me deixado muito cedo na única estalagem local e como só haveria quartos disponíveis depois do meio-dia, deixei a minha mochila e segui para a casa de Li Tzu, na esperança de acompanhá-lo em um bom chá quente. O sol se apresentava em raios tímidos e quase não havia pessoas nas ruas. O portão da casa do mestre taoista nunca era trancado. Entrei sem fazer barulho. Senti o perfume do incenso e uma paz absoluta. Encontrei Li Tzu sobre um pequeno tapete, estendido no jardim de bonsais, fazendo complicados exercícios de ioga. Um gato preto, chamado Meia-noite, que também morava na casa, deitado ao lado, observava a tudo, preguiçosamente. Fui recebido com um sorriso sincero e sem cessar a sua prática, o mestre taoista disse para eu me servir de chá. Fui à cozinha; sobre o fogão havia um bule com uma mistura deliciosa de ervas e flores em infusão. Voltei com uma xícara cheia, me sentei ao seu lado e ofereci para tocar uma música no meu celular para acompanhar a ioga. Li Tzu disse: “Agradeço, mas aprecio a voz do silêncio. Já há muitos ruídos e barulhos durante o dia. Não quero perder essa iguaria que o amanhecer me permite”. Foi impossível não perceber as difíceis posturas de ioga executadas pelo mestre taoista, mormente em razão da sua idade. Ele tinha sido colega de faculdade do Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, em uma prestigiosa universidade inglesa, quando ambos eram jovens. Comentei isso enquanto, sentados à mesa, fazíamos o desjejum. Embora a alimentação de Li Tzu fosse frugal e o seu corpo, magro; as suas feições esbanjavam saúde, além de extrema serenidade. Acrescentei que, apesar de ser bem mais moço, eu não seria capaz de realizar nenhum daqueles exercícios. Ele me olhou como a uma criança e explicou: “O Tao nos ensina que tudo é possível. O Tao vem do céu e estamos sob o céu”.

A beleza de ser único

 

Canção Estrelada, o xamã que tinha dom de perpetuar a filosofia do seu povo através da palavra, cantada ou não, rufava o seu tambor de duas faces em melodia sentida enquanto o dia amanhecia. A música era uma oração de comunhão pela alegria de nos sentirmos parte essencial do universo e, em resposta, todo esse poder vibrava em nosso ser. Apagamos a fogueira e descemos a montanha. Quando chegamos à casa do xamã, um dos habitantes da aldeia o aguardava para pedir ajuda. Ele estava muito triste com o seu filho, sempre inseguro e medroso, bem diferente dos outros garotos da sua idade e do próprio pai. Lamentou que o menino tivesse nascido covarde. Canção Estrelada o convidou para sentar na varanda, nos serviu café, acendeu, sem pressa, o seu inseparável cachimbo com fornilho de pedra vermelha enquanto ouvia o pai explicar que o filho estava com treze anos e em breve teriam na aldeia o ritual de passagem para a vida adulta, o Cerimonial de Iniciação, cuja prova principal eram os combates corpo a corpo entre os garotos como demonstrações de coragem e habilidade. O xamã baforou o cachimbo e disse: “Ninguém nasce fraco; ser forte é uma escolha permitida a todos. No entanto, conhecer a própria força é a raiz da magia pessoal; perceber a dimensão e o poder do universo em si e diante de si alimenta a coragem, ensina sobre a humildade e transforma o ser. Traga-o aqui amanhã”.

Os seres-pássaro

 

 

Encontrei com o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, sentado na agradável varanda do mosteiro com o olhar perdido nas maravilhosas montanhas dos arredores. Ofereci uma xícara de café e ele aceitou com um sorriso. Quando coloquei a caneca na pequena mesa ao seu lado fui convidado para sentar. Ele quis saber se algo me preocupava. Neguei. O monge, então, me perguntou a razão dos meus olhos tristes. Era difícil esconder os sentimentos da percepção apurada do Velho. Acomodei-me na poltrona ao lado e contei que eu tinha começado a namorar uma mulher que ocupava um cargo importante na empresa com a qual a minha agência de publicidade tinha assinado um vultuoso contrato. Tínhamos nos conhecido durante as reuniões para o fechamento do negócio. O namoro evoluiu bem até que perdeu o encanto para mim sem nenhuma razão específica. Ela era uma mulher bonita, inteligente e meiga. Nossas conversas eram doces como os seus beijos. No entanto, algo havia esmorecido em meu coração. Quando encerrei o relacionamento ela acusou de ter me envolvido por interesse comercial ao invés de por sincera afeição. Eu estava triste porque não queria que ela tivesse aquela imagem de mim.

Aqui e agora

 

Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos, encheu as nossas canecas com café fresco para iniciarmos uma conversa vadia quando fomos surpreendidos por Zinedine, um simpático artista plástico local, que se dedicava a esculpir peças em bronze. Embora tivesse talento e sensibilidade, a maior parte das suas obras estavam inacabadas. Ora porque enquanto esculpia uma peça era tomado por outra ideia, que considerava melhor, e abandonava a anterior; noutras vezes largava o trabalho no meio por não o considerar suficientemente bom. O tempo parecia lhe passar com rapidez, esgotando a herança deixada pela família. Tinha grande urgência de que a arte passasse a ser também um ofício e fonte do seu sustento, fato que o deixava cada vez mais agoniado. Contou que acabara de chegar de uma viagem e, embora tivesse sido bem agradável, confessou que a partir de determinado momento sentiu saudades de casa. Ocorre que passados alguns dias do regresso, já tinha sido tomado por uma enorme vontade em tornar a viajar. Loureiro ofereceu a ele uma xícara de café e disse: “Viajar pode ter um efeito parecido a renovar o guarda-roupa da alma ao nos depararmos com outras culturas: maneiras diferentes de ser na vida e estar no mundo. Isto amplia as possibilidades e indica rumos nunca antes imaginados, o que é maravilhoso. Como somente sentimos saudades do que é bom, revela que em casa introduzimos ao cotidiano os hábitos que nos agradam e alegram. Se ao estar fora, depois de um determinado momento, você não sente falta da sua casa e rotina, revela que há algo de errado em suas escolhas ou que ainda não sabe onde é a sua casa nem entendeu a rotina que deve construir para si. A viagem tem o poder de nos revelar o caminho de casa”, deu uma pequena pausa antes de concluir: “Em todos os sentidos”.

A barganha

 

Era um domingo de primavera, eu e o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, tínhamos ido à pequena e charmosa cidade que fica ao sopé da montanha que acolhe o mosteiro para assistir à missa. Não raro, o Velho era convidado pelo pároco local, seu amigo pessoal, a falar sobre algum assunto. Perguntei sobre qual tema dissertaria naquela manhã, ele me respondeu que ainda não sabia. Como tínhamos chegado cedo, aguardávamos sentados em um enorme banco de madeira na praça em frente à igreja aproveitando o sol que nos aquecia, enquanto as crianças, levadas pelos pais, corriam em alegre algazarra. Dois homens pediram licença de maneira educada e dividiram o banco conosco. Logo, começaram a conversar entre eles. Percebi que o Velho, disfarçadamente, prestava atenção à conversa e o repreendi com um olhar severo. Ele riu com jeito maroto e continuou. Acabou que também comecei a prestar atenção ao papo dos dois. Um deles confessou ao outro de que os negócios não iam bem. Nem de longe andavam como no passado. Sério, disse que tinha feito uma aposta na loteria cujo prêmio estava acumulado em muitos milhões e, se fosse o ganhador, jurou que adotaria uma criança. Acrescentou que os seus filhos já estavam encaminhados na vida e talvez fosse a hora de dar esse passo. No entanto, somente o faria com a devida tranquilidade financeira. O colega concordou e lembrou dos altos custos em criar uma criança. Falou que também tinha apostado naquela extração da loteria. Se o premiado fosse ele, não chegaria ao ponto da adoção, mas também jurou fazer um vultuoso aporte econômico em prol de alguma instituição filantrópica. Logo os sinos começaram a chamar para a missa e a grande maioria das pessoas que estavam na praça se dirigiram para a igreja.

Pequenas grandes coisas

 

Acordei antes do sol e fui até a varanda da casa de Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom de semear a sabedoria do seu povo através da palavra e da música, onde eu estava hospedado. Ele estava sentado em uma cadeira de balanço e tinha os olhos fixos no Leste, “a casa da águia”, como costumava falar, à espera do amanhecer. Me serviu uma xícara de café e continuou a colocar fumo no fornilho de pedra vermelha do seu indefectível cachimbo. Baforou algumas vezes e, em seguida, pegou o seu tambor de duas faces para entoar uma sentida canção no dialeto nativo que, em tradução não-literal, significa “Os ciclos da vida”, na qual agradece ao Grande Espírito as infinitas oportunidades oferecidas a cada dia para se renovar e prosseguir na Longa Estrada Dourada. Não muito tempo depois, ainda envolvidos em nossas preces e reflexões, fomos interrompidos pela irmã do xamã, acompanhada por seu filho caçula, que acabara de entrar na vida adulta. Ela veio pedir que o irmão aconselhasse o jovem, que embora muito inteligente, andava desinteressado pelos afazeres simples do cotidiano por se considerar predestinado a realizar algo grandioso. Isto também o tornara relapso no trato com os outros, pois, no seu entendimento, as pessoas não eram capazes de compreender a sua enorme capacidade e o seu brilhante destino. Canção Estrelada apenas fechou os olhos e balançou de leve a cabeça como maneira de dizer que entendia e estava disposto a atender ao pedido. A irmã sorriu em agradecimento e se retirou. Eu quis saber se também deveria sair, mas ele fez um gesto com a mão de que não era necessário. O xamã fechou os olhos e se manteve em silêncio. Impaciente, o jovem não parava de se mexer na cadeira, até que disse que aquilo era pura perda de tempo. Canção Estrelada olhou o sobrinho com doçura e começou a contar uma história:

Encontro marcado

 

O Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, me repreendeu apenas com o olhar, sem dizer palavra. Eu estava no jardim interno do mosteiro falando ao celular, quando apenas é permitido usá-lo à noite, no quarto, para não desperdiçarmos o melhor da vivência oferecida no mosteiro. A OEMM – Ordem Esotérica dos Monges da Montanha – é uma irmandade secular dedicada ao estudo da filosofia e da metafísica. Os monges e aprendizes, como são denominados os seus membros, têm o compromisso de passar ao menos um mês por ano no mosteiro para estudos, debates e reflexões. Após, retornam às suas casas, famílias, trabalhos e atividades rotineiras tentando aplicar o aprendizado assimilado. O conhecimento apenas se transforma em sabedoria quando utilizado em nossos relacionamentos no dia a dia; caso contrário, não passará de uma ferramenta enferrujada por inutilidade. Encerrei a ligação e fui me desculpar com o monge. Expliquei que estava prestes a fechar um importante contrato para a minha agência e precisava tomar algumas precauções. Confessei a tensão que me envolvia, pois temia ser passado para trás, como ocorrera em outra ocasião, embora envolvessem diferentes pessoas. O Velho apenas ouviu as minhas explicações e nada falou.

Como se não bastasse, eu andava disperso naqueles dias. Outro motivo de preocupação era o ciúme que sentia da minha nova namorada. Ela era uma atriz de teatro e estava em cartaz com uma peça de grande sucesso. Muitas pessoas a procuravam para cumprimentar e conversar, fato que me causava insegurança, agravada pela sua beleza, simpatia e talento. Contei tudo isso ao Velho quando fui convidado para uma conversa na varanda do mosteiro, emoldurada pelas belas montanhas que o acolhem. A minha falta de concentração acabaria por desperdiçar a estadia daquele ano, caso eu não revertesse a situação. Acabei por tornar ao assunto da ligação do dia anterior na tentativa de justificar o distanciamento. O Velho ouviu todas as minhas queixas com paciência e, ao final, citou uma passagem do Sermão da Montanha: “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a face de Deus”. Em seguida comentou: “Percebe que a ausência de uma única virtude, no caso me refiro à pureza, tem o poder de anular todas as demais virtudes e furtar a sua paz?”.

Uma delicada virtude

 

Os fortes ventos do final do outono anunciavam a chegada do inverno e assolavam a pequena e charmosa cidade que fica no sopé da montanha que acolhe o mosteiro. Eu caminhava por suas ruas sinuosas tentando me proteger do frio, quando avistei a clássica bicicleta de Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos, encostada no poste em frente ao atelier. Fui recebido com alegria e uma caneca de café. Sentados ao antigo balcão de madeira, íamos começar uma conversa vadia quando um sobrinho do artesão entrou na oficina em busca de abrigo e prosa. O jovem realizara uma audiência em seu tumultuado processo de divórcio no singelo fórum da cidade e o trem que o levaria de volta para a cidade, onde agora morava, apenas partiria ao anoitecer. Ele estava bastante chateado e logo começou a desabafar com o tio sobre a enorme aporrinhação que o divórcio lhe causava. Tudo por causa da separação de bens. Explicou que a ex-mulher se negava a reconhecer os seus direitos e a entregar o que era seu por justiça. Disse que a lei era clara e definia o que pertencia a cada um. O artesão interrompeu com um sutil comentário: “A lei pode ser clara, a justiça nem tanto”.

As maravilhas da dúvida

 

“Qual é a coisa certa?”, me perguntou o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, como fazia Sócrates, o filósofo grego, que devolvia uma pergunta com outra como método de raciocínio. Estávamos sentados na cantina do mosteiro diante de uma caneca de café e um pedaço de bolo de aveia. Desde sempre eu me sentia desconfortável com uma série de dilemas do cotidiano. De questões políticas e sociais que, de alguma maneira, atingem a todos até incertezas quanto à minha vida pessoal, como trocar de namorada, trabalho, cidade ou estilo de vida. Argumentei que a todo instante nos deparamos com dúvidas que nos incomodam em diferentes escalas, algumas são banais, outras muito sérias. O ruim é que as dúvidas causam enorme desconforto. Para piorar, em face das minhas incertezas eu me deparava com pessoas de opiniões divergentes, contra ou a favor, ambas convictas de suas posições e apresentando fortes argumentos. Falei que queria me livrar do incômodo da dúvida e saber sempre a coisa certa a fazer. Então, veio a pergunta do Velho sobre qual era a coisa certa. Respondi que se eu perguntei era porque não sabia e precisava de uma resposta. O monge bebeu um gole de café e disse: “A minha resposta desenha a minha verdade, não necessariamente a sua. É necessário que você se esforce para encontrar aquela que irá lhe completar, por isto o desconforto. Bendita seja a dúvida!”.

O esconderijo do mal

 

Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom de transmitir a sabedoria ancestral do seu povo através das músicas e das histórias que contava, acendeu o fornilho de pedra vermelha do seu indefectível cachimbo e deu uma baforada. Era um final de tarde de outono, estávamos sentados na varanda da sua casa e nos cobríamos com mantas coloridas para afastar o frio típico das montanhas do Arizona nessa época do ano. Eu tinha acabado de chegar de viagem e a primeira coisa que o xamã me perguntou, logo após aos cumprimentos, foi o motivo pelo qual eu “parecia carregar tanto peso nas costas”. Sim, era verdade, eu estava mal. Dei um sorriso amarelo como quem é visto sem as roupas do personagem que criamos para interpretar quem não somos nos palcos da vida e declarei que o mundo não era um bom lugar para se viver. Em seguida narrei alguns problemas que enfrentava em razão do posicionamento absurdo de algumas pessoas contrários aos meus. Sentenciei que, sem dúvida, o planeta é habitado por gente atrasada, insensível e ruim.

Assim nascem as asas

 

Chovia muito e eu apressei o passo. Me alegrei assim que dobrei a esquina da rua estreita e sinuosa onde se localiza a oficina de Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos. Vi a sua clássica bicicleta encostada ao poste. Ao entrar na loja uma profusão de perfumes, cheiros de couro e café fresco se misturavam ao de flores. Foi uma grata surpresa encontrar Valentina sentada ao balcão. Ela tinha acabado de chegar. Embora também fosse monja da Ordem, nem sempre nos encontrávamos no mosteiro, uma vez que o compromisso assumido por todos os integrantes da irmandade é o de passar um mês ao ano para estudos, debates e reflexão. Nossas datas andaram desencontradas nos últimos tempos. Valentina tinha a poesia como arte, a engenharia como ofício. Eu a considerava uma poetisa singular, expoente da sua geração. Fui recebido com alegria por ambos. Logo estava sentado com uma caneca fumegante à minha frente. Perguntei pelo próximo livro e ela contou que terminava uma coletânea de poemas sobre o amor. Falou que pensava em dividir a obra em duas partes; em uma abordaria as mágoas provocadas pelo amor, enquanto a outra mostraria o poder encantador do amor. Comentei que a dor era a parte podre do amor. Ela concordou, quando fomos interrompidos pelo sapateiro: “Vocês entendem muito pouco sobre o amor.”

A porta estreita

 

O Sermão da Montanha é o eixo central dos estudos da Ordem, todos os demais textos, oriundos das mais diversas tradições filosóficas e metafísicas, são variantes a aprofundar e colorir esse valioso pensamento. Eu estava sentado em uma confortável poltrona na biblioteca do mosteiro, com o olhar perdido na bela paisagem oferecida por suas janelas, refletindo sobre as palavras proferidas nas colinas de Kurun Hattin, quando fui surpreendido pelo Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem. Ele trouxe da cantina duas canecas com café, colocou uma delas na pequena mesa ao meu lado e foi escolher um livro nas prateleiras. Sorri em agradecimento à gentileza e o convidei para sentar na poltrona à minha frente. Aproveitaria que estávamos a sós para conversarmos um pouco. Ele aceitou, se acomodou, bebeu um gole de café e quis saber o que eu estava lendo. Respondi que lia esse precioso legado filosófico, mais precisamente a parte em que falava sobre a porta estreita. “Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçosa é a estrada que conduz à perdição e numerosos são os que por aí entram. Estreita, porém, é a porta e difícil o caminho da vida e raro são os que o encontram”, li o pequeníssimo trecho. Comentei que o texto poderia ser um pouco mais extenso para fornecer mais detalhes e explicações quanto ao seu conteúdo. O Velho balançou a cabeça e disse: “O texto está perfeito em sua concisão. Lembre que ele foi elaborado não para alguns, mas para todos. É preciso que, ao seu modo, atinja os mais diversos níveis de consciência. Cada qual encontrará a profundidade a que estiver disposto a mergulhar. O Sermão da Montanha é o Código do Caminho, porém respeito quem o veja como uma grande bobagem”.

A lei da ação e reação

 

Eu tinha ido encontrar o Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos, em uma agradável taberna próxima à sua oficina. Logo após o garçom encher as nossas taças foi inevitável não desviarmos a atenção para a mesa ao lado. Um casal começou a discutir um pouco acima do tom até que a moça se levantou, disse ao rapaz que “tudo é ação e reação” e foi embora. Ficamos alguns minutos em silêncio até que o artesão comentou displicente: “As leis da vida são inexoráveis”. Eu o corrigi, acrescentando que a Lei da Ação e Reação era uma lei da Física, mais precisamente uma das três Leis do Movimento de Isaac Newton, renomado físico inglês. Com ar professoral, expliquei que para toda ação existe uma reação de igual intensidade e sentido contrário. Loureiro me olhou com doçura como quem está diante de uma criança exibida e disse: “Exato. Por ser uma lei da Física trata-se de uma lei do Universo; logo uma lei da vida, que atinge não apenas coisas e objetos, mas os relacionamentos e define o destino próximo de cada pessoa. Como uma sábia e amorosa bordadeira, o Universo tece a teia da vida de todos nós usando as leis como trama para que não reste nenhum fio solto”. Fiquei alguns instantes refletindo sobre aquelas palavras até que me dei por vencido e confessei que não tinha entendido todo o sentido do raciocínio.

O campo de batalha

 

O céu tinha amanhecido azul após dias cinzentos de muita chuva. Todos pareciam alegres no mosteiro, menos eu. Um dilema pessoal me corroía e furtava a minha paz. Sentado na cantina divagava a minha dúvida diante de uma xícara de café e um pedaço de bolo de aveia quando tive os pensamentos interrompidos pelo Velho, como chamávamos o monge mais antigo da Ordem. Ele me convidou para ajudá-lo a colher cogumelos na floresta no arredor do mosteiro. Explicou que o sol forte após os dias chuvosos era perfeito para a germinação dessas iguarias aos pés dos carvalhos da montanha. Acrescentou que pretendia fazer a sua famosa sopa de cogumelos no jantar. Logo que entramos em uma trilha o monge disse perceber a minha agonia e perguntou qual era o motivo. Expliquei que um grande amigo tinha me convidado para acompanhá-lo durante as férias em um acampamento de refugiados na África. Ele fazia parte de uma organização internacional de médicos que prestava atendimento em várias regiões do planeta onde havia carência de cuidados pela manutenção da vida. O Velho se virou para mim enquanto andava com seus passos lentos, porém firmes, e disse: “É um serviço maravilhoso e indispensável prestado por esses homens e mulheres, médicos ou não, no esforço de levar um pouco de conforto e muita cura em lugares onde há ausência de condições básicas de sobrevivência. Eu estive em um desses acampamentos anos atrás, durante uma insensata guerra local e me confesso encantado com a compaixão, a misericórdia e a generosidade depositada em forma de amor incondicional. Apesar de tanta dor e sofrimento, você entende a grandeza da vida e as maravilhas da superação no esforço de fazer diferente e melhor”.

Expliquei que esse era o meu dilema. Eu entendia a beleza desse trabalho, no entanto, me confessei sem vontade de ir. Essa divisão interna me agoniava. Perguntei se eu estava errado em recusar o convite e a oportunidade. O Velho parou, me olhou com doçura. procurou uma pedra banhada em sol, pois a manhã ainda estava fria e se sentou. Depois, disse: “De jeito nenhum. Se afaste da dualidade aparente entre o certo e o errado. Cada um elege as escolhas de acordo com aprimoramento das virtudes que já lhe são inerentes. Essas decisões também sofrem influências do dom, do carma e do darma. Há que se ter entendimento e respeito por si e por todos; cada qual tem o seu campo de batalha. Para cada coração uma viagem está reservada”.

Os tons da prudência

 

Quando dobrei a esquina para entrar na estreita rua onde se localizava a oficina de Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos, me alegrei ao avistar a sua clássica bicicleta encostada no poste. Era cedo, o sol acabara de surgir para evaporar o sereno que umedece o calçamento de pedras em agradável sensação de andar por entre as brumas. Fui à oficina em busca de café e um pouco de prosa vadia. Ao entrar me deparei com outros amigos do artesão. Sentados, enquanto Loureiro lhes enchia as xícaras, eles estavam reunidos em uma espécie de assembleia informal. O sapateiro me recebeu com a alegria habitual, me acomodou sentado sobre uma caixa de madeira e logo me entregou uma caneca fumegante para afastar o frio da manhã e acordar as ideias. Aqueles homens tinham entre si uma amizade que os unia há muito tempo. Ele me explicou que a turma teve mais um integrante, René, o dono da mais tradicional banca de revistas da cidade, falecido há pouco. Em frente à banca, todos os dias, bem cedo, esses amigos se reuniram durante anos para conversar sobre qualquer assunto enquanto aguardavam o jornal do dia chegar. Era um ritual que fazia parte da história de todos eles. O filho do jornaleiro tinha assumido o negócio, ainda durante o tratamento do pai, mas agora, em razão de uma dívida, o distribuidor se negava a entregar novos jornais e revistas. Sem renovar o material para trabalhar a banca estava prestes a fechar. O filho os procurara em busca de dinheiro emprestado para quitar o débito e evitar que o tradicional negócio cerrasse as portas. O problema é que o filho, que morara fora por muito tempo, não tinha boa fama na cidade.

De volta para a casa

 

Quando virei a esquina e não vi a clássica bicicleta de Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos, encostada no poste em frente à sua oficina, pensei que não estava com sorte naquele dia. Os horários improváveis e inusitados de funcionamento da sapataria já tinham virado lenda na pequena e charmosa cidade que fica ao sopé da montanha que acolhe o mosteiro. Eu estava triste. Desde sempre, o meu relacionamento com a minha mãe tinha sido complicado, como se amor e mágoa se alternassem no palco da vida, gerando memórias que acabavam por atrapalhar os dias a serem vividos. Tínhamos tido mais uma discussão e eu queria encontrar com o bom artesão. Eu precisava falar para lembrar o que já sabia e ouvir para aprender o que ainda não sabia. Era a hora do almoço e decidi ir a uma agradável cantina perto dali. Como se o acaso existisse, quando entro no restaurante me deparo com o sapateiro sentado à mesa com uma mulher mais jovem que ele. Eu não a conhecia. Quando me aproximei percebi que eles estavam de mãos dadas e tinham as faces molhadas em lágrimas. Recuei, mas ele me viu, abriu um sincero sorriso e me chamou. Me presenteou com um forte abraço e me apresentou a moça. Era a sua filha mais nova. Ela tinha saído muito cedo de casa, após muitas brigas com o pai, abandonara a universidade sem a devida conclusão e ficara anos sem dar notícias. Eu conhecia a história e sabia que Loureiro a procurara por muito tempo sem sucesso. Ela acabara de voltar. A alegria pelo reencontro transbordava em ambos.

A estação

 

Na pequena e charmosa cidade que fica no sopé da montanha que acolhe o mosteiro há uma secular estação de trem. Estávamos, eu e o Loureiro, o elegante sapateiro amante dos vinhos e dos livros, sentados em um antigo banco de madeira à espera de sua sobrinha, que a pedido da mãe, uma das irmãs do artesão, passaria alguns dias com o tio, na tentativa de ajudá-la a dissolver a angústia que a abatia. Era muito cedo e o sol ainda não ganhara força para afastar o frio da madrugada. Percebi que ele estava encantado com todo aquele movimento de chegadas e partidas, típico de qualquer estação. Antes que eu lhe indagasse sobre o assunto, surgiu a sua sobrinha. Era uma moça na casa dos trinta anos. Muito bonita, porém, bastante abatida. Eles trocaram um abraço forte, como fazem os que se amam ao se encontrarem. Fomos apresentados e ela foi muito gentil. A jovem disse que precisava de um café. Fomos a uma cafeteria ali mesmo. Quando a simpática garçonete colocou sobre a mesa as canecas fumegantes acompanhadas de pão quente com o delicioso queijo da região, a sobrinha abriu o coração. Lamentou que a vida tinha virado ao avesso.

Beleza oculta

 

Pelas manhãs era comum encontrar o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, no jardim do pátio interno do mosteiro, cuidando das plantas. Tinha predileção pelas rosas, às quais ele dedicava horas a fio. Sempre que possível, eu gostava de acompanhá-lo, não pelo gosto à jardinagem, mas pelas conversas proporcionadas. Nesse dia, ele foi procurado por uma jovem. A moça se declarou desencantada pela vida. Tudo lhe parecia sem graça, os dias eram cinzentos e as pessoas desprovidas de encanto. Confessou que a alegria a irritava por parecer idiotice. Os dias não passavam de uma sucessão de erros e frustrações. Não existia razão para sorrir. Ao final dos seus lamentos perguntou se o Velho era feliz. O monge que a tudo ouviu com paciência e atenção enquanto cuidava do jardim, mostrou na palma da mão uma pequena lagarta que tinha tirado das flores, guardou-a no bolso da túnica para depois soltá-la na floresta e disse: “Sempre haverá motivos para sorrir; a alegria é uma semente possível de germinar até mesmo no deserto. A alegria é uma escolha da sabedoria e do amor”.

A moça interrompeu para dizer que tudo era muito poético e pouco prático. Não fazia sentido a alegria ser uma escolha. Muito menos ligada à sabedoria e ao amor. O Velho explicou: “O sofrimento é uma escolha. A alegria é a alternativa”. A jovem se irritou. Acusou a insensibilidade do monge em relação aos problemas alheios, alguns muito sérios. O Velho, sem perder a serenidade prosseguiu: “O problema nunca será o verdadeiro problema. O problema é a maneira como cada um escolhe enfrentar as inevitáveis adversidades. Você pode percebê-lo como uma barreira intransponível e restar frustrada. Então, você tem um problema. Porém, pode entender que ali reside uma lição para aprendizado e superação. Nesse caso, você está diante de um mestre. A cada curva podemos estagnar ou evoluir. A decisão é pessoal; cada qual viaja sob condições próprias, como herdeiro de suas escolhas”.

A ânfora da humildade

 

Eu estava de volta ao Himalaia. Era uma promessa que tinha feito a mim mesmo, retornar uma vez por ano à vila chinesa, próxima ao Tibete, para estudar o Tao com Li Tzu. A única hospedaria que havia no lugar estava sempre lotada de alunos de todas as partes do mundo, sedentos por conhecer um pouco mais sobre o milenar Tao Te Ching, o Livro do Caminho e da Virtude. As reservas, na prática, eram de pouca utilidade e não garantiam a vaga. As reclamações quase nunca surtiam efeito, pois a anciã responsável pela pousada respondia, sempre sorrindo, em inglês ou mandarim, de acordo com a conveniência dela em se fazer entender. No pequeno espaço que servia como recepção, eu disputava com um homem enorme, com mais de dois metros de altura, forte como um halterofilista, quem ficaria com o último quarto vago. Ambos tínhamos reserva, a minha era anterior a dele, mas ele chegara à hospedaria minutos antes de mim. Discutíamos, cada qual com suas razões e argumentos, diante da anciã que parecia se divertir, uma vez que não parava de sorrir, embora o tom da discussão aumentasse a cada palavra proferida. Até que ele pegou a chave do quarto das mãos dela e disse que a questão estava resolvida: ele ficaria com o quarto, salvo se eu fosse capaz de tomar a chave dele. Repleto de raiva, não reagi. A diferença de força física anunciava uma grande surra, caso eu aceitasse jogar pelas regras do meu oponente. Pedi à anciã que tomasse uma atitude contra aquela arbitrariedade. Ela apenas deu ombros e respondeu, em seu idioma, algo que interpretei como “nada posso fazer”. Claro, sem abandonar o sorriso. Como se não bastasse, e com efeito devastador para mim, ainda ouvi uma série de provocações e piadas desagradáveis por parte do meu desafeto enquanto me retirava da hospedaria.

Fui ao encontro de Li Tzu e narrei todo o ocorrido. Em resposta, o mestre taoista me convidou a tomar chá com ele. Fechei os olhos para controlar a ira e apenas concordei com a cabeça. Fomos à cozinha e, sem nenhuma pressa, ele foi misturando várias folhas desidratadas em um coador para depois deixá-las em infusão por alguns minutos. Tudo sem dizer palavra. Bastante irritado, perguntei se ele não iria comentar sobre o que eu tinha contado. Li Tzu respondeu: “Por ora, o silêncio. Ele permite que você ouça o seu coração. Será sempre o melhor mestre”. Depois encheu as duas xícaras e as colocou sobre a mesa de madeira rústica. Então, falou: “Você perdeu a batalha”. Questionei se ele me aconselhava a reagir de maneira violenta e lutar pela chave do quarto. Ele balançou a cabeça em negativa e disse: “Claro que não. A sua derrota foi decretada quando se permitiu sentir raiva. A sombra foi mais forte do que a luz”.

A flor da simplicidade

 

Estávamos eu e o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, em uma prestigiosa universidade para um ciclo de palestras sobre as várias faces da inteligência: cognitiva, emocional, artística e espiritual. Falariam cientistas, professores, psicanalistas, filósofos e artistas. No intervalo, logo após a fala de um famoso intelectual, fomos tomar um café. O outono oferecia um clima agradável e as mesas do lado de fora da cafeteria permitiam uma deliciosa integração com o campus arborizado. O sol nos acariciava por entre as folhas. Comentei com o monge que não tinha gostado desse último palestrante. Na verdade, acrescentei, achei o discurso desnecessariamente rebuscado, pomposo, repleto de palavras não usadas no dia a dia e, pior, confuso. O Velho bebeu um gole de café e disse: “As águas precisam ser turvas para que não percebam que são rasas”. Pedi para que explicasse melhor. Ele foi didático: “Quem deseja o entendimento de uma ideia se expressa de maneira clara, salvo se o fruto ainda não está devidamente maduro para ser colhido da árvore. Alguns confundem hermetismo com sofisticação. A verdadeira sofisticação reside na simplicidade; consiste em tornar simples uma ideia elaborada ou difícil. A sabedoria é simples; a simplicidade é uma virtude poderosa e rara, indispensável a todas as demais virtudes”.

O mundo é o espelho da sua alma

A angústia me dominava quando entrei na biblioteca do mosteiro em busca de alguma leitura que aliviasse a aflição da minha alma. Sentado em uma confortável poltrona, com um livro repousado no colo, o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, olhava para as montanhas através de uma das janelas, quando teve a sua atenção desviada para mim. Ao perceber pelo meu semblante a desordem interna que imperava, franziu as sobrancelhas como maneira de perguntar o que havia acontecido. Reclamei do descaso das pessoas no trato pessoal, de como eram insensíveis, materialistas e individualistas. Relatei várias situações para exemplificar a razão do meu sentimento. Falei de como esse comportamento provocava tragédias desnecessárias. Eu me sentia abandonado e deslocado. Definitivamente, concluí, a humanidade estava perdida e o mundo não era um bom lugar para se viver. O monge sorriu, como quem se diverte com uma criança que reclama porque não ganhou um doce, se levantou e guardou o livro na estante apropriada, foi até outra prateleira em busca de um título diferente. Procurou por algo em suas páginas por breves instantes, guardou-o no bolso da túnica, segurou meu braço e me encaminhou para fora da biblioteca. Depois falou: “Vamos conversar no refeitório; preciso de uma xicara de café”. Alguns minutos depois, diante de duas canecas fumegantes, ele iniciou a conversa: “Se você está bem consigo estará bem com o mundo. O olhar que cada qual tem sobre si mesmo será a lente pela qual enxergará a vida. Isto definirá a clareza, as cores e a extensão do universo que é o mesmo para todos, mas diferente para cada um de nós. O mundo, feio ou bonito, será sempre o espelho da sua alma”.

Amar é uma arte de muitas virtudes

Eu acompanhava o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, em um ciclo de palestras que ele ministrava, quando recebi o convite para a festa de aniversário de oitenta anos de um parente muito querido. Seria em uma cidade próxima de onde estávamos. Convidei o Velho para ir comigo; ele aceitou de imediato. Confessei a minha contrariedade em encontrar alguns parentes com os quais restara rusgas do passado. Falei que na festa encontraria com um primo, que foi um dos meus melhores amigos na adolescência, mas que em determinado momento nos desentendemos e brigamos. Eu não lhe dirigia a palavra há anos. Pedi para que ele não estranhasse. O Velho comentou: “As cerimônias, sejam pessoais, familiares, profissionais ou religiosas são importantes rituais, não apenas de celebração da vida, mas de aproximação, não somente entre iguais, aqueles que vibram na mesma sintonia energética, porém, e tão importante quanto, é a chance de encontro entre aqueles que possuem divergências que necessitam ser pacificadas. A diferença no olhar nunca deve ser motivo para o distanciamento do coração. São as flores do respeito, da compaixão, da humildade, da paciência e da coragem indispensáveis no jardim do amor. Para amar não basta o bem-querer. O amor é uma arte de muitas virtudes”.

O ser inteiro

Tinha feito calor o dia inteiro. A brisa que descia das montanhas tornava o final da tarde bastante agradável no mosteiro. Encontrei o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, sentado em uma confortável poltrona situada em uma das varandas que permite uma belíssima vista dos vales que se avizinham abaixo de nossa sede. Pedi para sentar ao seu lado e ele concordou com um movimento de cabeça. Por me conhecer há algum tempo, foi direto ao ponto: “O que lhe aflige”? Expliquei que muitas vezes, mesmo na certeza de tomar a decisão correta, algum desconforto se instalava em mim, o que era uma contradição. Ele pediu para que eu fosse mais específico e acrescentou: “Vamos ao caso concreto”.

Expliquei que um grande amigo tinha me pedido dinheiro emprestado. Era um valor considerável. Embora eu tivesse a quantia, que estava guardada para outros fins, neguei o empréstimo. Isto furtara a minha paz nos últimos dias. Ponderei que estranhava os meus próprios sentimentos, uma vez que a convicção da minha escolha deveria pacificar o meu coração. Com os olhos vagando no horizonte, o Velho falou: “O espírito, a verdadeira identidade eterna de todos nós, em sua infância, nosso atual estágio, tem o ego distante da alma como se estivéssemos divididos em dois. Por um lado, o ego se empenha pelas conquistas materiais e os prazeres sensoriais, os aplausos e o brilho social. Pelo outro, a alma se alegra com as vitórias dos sentimentos sobre os instintos, com a superação das dificuldades, com a transmutação das próprias sombras em luz. O ego quer o reconhecimento do mundo; a alma quer que o melhor de si brote para o mundo. O ego está ligado às paixões; a alma ao amor. O ego está no âmbito do eu; a alma pensa em nós. Na viagem do aperfeiçoamento o Caminho nos impõe escolhas. Com o ser dividido em dois as decisões criam conflitos internos. Estes conflitos geram desequilíbrio em todos os níveis”. Deu uma pausa antes de acrescentar: “Temos que alinhar o ego à alma, no sentido de que os desejos daquele estejam em harmonia com as buscas desta. Da mesma maneira temos que trabalhar o ‘eu’ sem esquecer o ‘nós’, sendo que a recíproca também se aplica. Ou seja, cuidar do mundo sem esquecer de si. São partes da mesma arte. Assim o ser se torna uno, se liberta das angústias mundanas, conhece a plenitude e a paz”.

Uma questão de respeito

O tambor de duas faces rufava compassado ao toque de Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom de perpetuar a sabedoria ancestral do seu povo através da palavra. Pedi autorização para me sentar na manta colorida estendida na sua frente, do outro lado da fogueira. Sem abrir os olhos, ele apenas sorriu e balançou a cabeça de modo sutil. Enquanto eu me acomodava, o xamã começou a cantar uma música de puro agradecimento por estar ali em comunhão com a Mãe-Terra, naquela noite sem lua, com o céu salpicado de estrelas. Quando ele silenciou a melodia, falei que eu precisava conversar. Contei que estava muito chateado. Eu tinha tido uma discussão com um dos meus melhores amigos. Ele teve um comportamento bastante desrespeitoso comigo em uma determinada situação. Estávamos sem nos falar já há algum tempo. Canção Estrelada acendeu o seu cachimbo com o fornilho de pedra vermelha, sem pressa, como se a noite não tivesse fim, tragou duas vezes, me convidou para fumar e não disse palavra.

No dia seguinte me chamou para acompanhá-lo até uma pequena cidade próxima, perto da sua casa, nas montanhas do Arizona, para algumas compras. Fomos em sua caminhonete. No trajeto aproveitei para tornar a tocar no assunto da briga com o meu amigo. Narrei os detalhes e fundamentei os motivos da minha decepção. Canção Estrelada quis saber a razão de eu não procurar esse amigo para uma conversa na tentativa de reatar laços valiosos: “Se a lembrança dele a toda hora lhe vem ao coração é porque um bom fruto restou”, acrescentou. Respondi que ele era quem estava errado, logo, cabia a ele me procurar. Era uma questão de respeito. O xamã ficou com os olhos tristes e silenciou a voz.

O tamanho de um sonho

Era uma manhã de primavera, o sol equilibrava a brisa gelada da montanha e trazia uma agradável sensação térmica. Eu estava na frente do mosteiro apertando os parafusos das dobradiças do enorme portão principal, quando tive a atenção desviada para um carro luxuoso que estacionou no pátio externo. De dentro dele desceu um anão. Logo o reconheci como um famoso comediante em programas de TV. Sem dúvida, era um ator talentoso que nunca usou a sua altura como subterfúgio para nenhuma piada. Seu humor era fino e inteligente. Nos últimos anos comandava um talk-show de grande audiência. Ele se dirigiu a mim de maneira educada e pediu para falar com o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem. Enquanto seguíamos para o refeitório, onde o Velho gostava de conversar com as visitas, quase sempre ao redor de uma mesa com bolos, biscoitos, queijos e café, deixando-os à vontade como se estivessem em casa, o homem confidenciou que estivera ali uma vez, há quase duas décadas, quando ainda era uma aspirante aos palcos, e aquele dia tinha sido angular em sua vida.

O Velho ofereceu um belo sorriso quando o viu. O ator perguntou se o monge se recordava dele e o Velho aquiesceu com a cabeça. Eu trouxe canecas fumegantes de café e fui convidado a me sentar com eles. Em seguida, o visitante falou que retornara ao mosteiro para agradecer. Confessou que quando estivera ali, naquela tarde que parecia distante, estava preste a desistir da carreira, face às enormes dificuldades que encontrava. Porém, a conversa com o monge o enchera de coragem para prosseguir e enfrentar todas as adversidades. O Velho tornou a sorrir e disse: “A coragem não foi minha, mas sua. Ninguém pode lhe dar o que já é seu. Ela estava adormecida, eu apenas a despertei para luta. A batalha você travou sozinho. Dominou o medo, transformou as incertezas, enfrentou o preconceito em relação à sua estatura física, que eram muitos e bastante agressivos, com paciência, trabalho e arte. Mostrou ao mundo que o importante não é o tamanho de uma pessoa, mas a dimensão do seu sonho”.

O passado é um veneno

Loureiro, o elegante sapateiro amante dos vinhos e dos livros, fechou a oficina ao meio-dia e andávamos pelas ruas estreitas e sinuosas da secular cidadezinha localizada no sopé da montanha que abriga o mosteiro. Era um sábado típico de outono, com o céu claro, sem névoas e o sol aquecia a pele sobre o casaco fino. Estávamos alegres rumo ao nosso restaurante predileto para almoçar e, claro, beber algumas taças de tinto. Amenidades eram a pauta do dia, quando logo na porta encontramos Helena, uma amiga em comum, muito abalada, trazendo no rosto olheiras fundas como registros de noites mal dormidas. Aceitou, de pronto, o convite para sentar à mesa conosco e, mesmo sem ser perguntada, logo começou a falar sobre as causas da desordem emocional que a transtornava. A dor parecia não caber dentro de si e por isto precisava desabafar. Ela acabara de encerrar mais um casamento. Já era o quinto ou sexto, teve alguma dificuldade de saber se um deles poderia ser considerado como tal em razão da sua curta duração. Se disse decepcionada com as pessoas em geral. Confidenciou que a intimidade revelava faces desagradáveis que impossibilitavam a convivência a longo prazo. Helena falou por um bom tempo, desfiando os seus lamentos e ouvíamos com paciência, até que o artesão quis saber se ela já tinha sido feliz, alguma vez, no amor. Nesse instante, os olhos dela brilharam e um sorriso, que parecia impossível, surgiu em seu belo rosto.

O dia da independência

Fiquei feliz ao ver a clássica bicicleta de Loureiro, o elegante sapateiro amante dos vinhos e dos livros, encostada no poste em frente a sua oficina. Eu estava mal. Uma série de acontecimentos, com diferentes pessoas, me faziam sentir em um caldeirão de emoções que variavam entre a irritação e a tristeza. Fui recebido com um forte abraço e alegria sincera. O artesão pediu para eu me acomodar enquanto passaria um café fresco para animar a nossa conversa. Falei que precisava desabafar e trocar ideias, pois parecia que o mundo havia criado um complô contra mim. De uma hora para outra, muitas das minhas relações se tornaram problemáticas ou frustrantes. Relatei alguns desentendimentos e decepções que ocorreram há dias com diversas pessoas que eu muito presava. Acrescentei que tudo acontecera ao mesmo tempo e arrisquei a brincar dizendo que parecia karma. Loureiro repousou duas canecas cheias de café sobre o balcão e disse: “Karma é aprendizado. Todo karma é um mestre que vai aprimorar e fortalecer o aprendiz. Entendidas as lições o karma desaparece, assim como aquele tipo de situação, até então recorrente, por não haver mais razão de ela existir. Por outro lado, o Karma se prolonga, e até endurece, na medida que nos recusamos a evoluir. Se a vida é uma universidade, o karma se resume nas matérias que devemos cursar”.

De volta ao topo do mundo

Falei ao Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, que passaria o meu aniversário no mosteiro de Takshang, próximo à cidade de Paro, no Butão. Queria o silêncio e a energia desse mosteiro budista, de difícil acesso, encravado no Himalaia, para meditar e refletir sobre o momento em que me encontrava, mais precisamente a respeito da empresa em que eu era sócio. Tínhamos recebido uma proposta de outra firma, bem maior e de âmbito internacional, para uma fusão que geraria, além de um grande ganho financeiro e uma mudança angular em meu estilo de vida. Desde a ter que usar terno no dia a dia até morar em outra cidade, fora as incontáveis reuniões e rotinas típicas das grandes empresas. Os meus sócios, éramos três, estavam animadíssimos com a possibilidade que se apresentava. O meu coração não me deixava compartilhar de tamanho entusiasmo. A nossa empresa navegava com tranquilidade, não éramos ricos, mas tínhamos uma vida confortável e, acima de tudo, havia tempo para eu me dedicar a outras atividades que me eram valiosas, como a Ordem, os estudos, a escrita, os encontros com os amigos, a convivência familiar, entre outros bens intangíveis. No entanto, não é toda hora que surge uma oportunidade para subir de patamar financeiro e todos me pressionavam para que eu decidisse logo. A mudança no jeito de viver era o que agoniava. A dúvida me corroía.

O Velho me aconselhou: “Gosto das transformações, pois são bons indícios de evolução. No entanto, nem toda fruta é doce assim como nem toda regra é absoluta. Quando sair do Butão, pegue a estrada que desce o Himalaia pelo lado chinês. Você encontrará uma agradável vila. Lá, procure por Li Tzu, o mestre taoista. Se deixe encantar por tudo que acontecer”. Agradeci e parti sem entender exatamente ao que o monge se referia.

O topo do mundo

Enchi uma caneca de café na cantina e fui à biblioteca do mosteiro. Era final da tarde e eu ansiava por um pouco de leitura e reflexão. Encontrei com o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, sentado em uma confortável poltrona com o olhar entretido nas montanhas avistadas através das enormes janelas. Ele me cumprimentou com um sorriso sincero. Ao me perceber perdido nas prateleiras entre os inúmeros bons títulos, de Yogananda a Fernando Pessoa, de Chico Xavier a Lao Tsi, passeando entre Espinosa e Jung, o monge sussurrou: “Faça como Paulo, o apóstolo dos gentios. Dizem que ele sempre abria a Bíblia ao acaso quando queria um texto para meditar. Como o acaso não existe, ele sempre encontrava as palavras das quais precisava”. Sentei-me com as Escrituras e a página que se apresentou falava de uma passagem que me incomodou desde a primeira vez em que li, na qual mestre Jesus diz que é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Céu. Li e reli todo o capítulo. Insatisfeito, perguntei ao Velho se o dinheiro era um impeditivo à iluminação. Ele me olhou como a uma criança e disse com a sua voz suave: “Claro que não. O dinheiro é uma ferramenta maravilhosa, passível de semear bons frutos, desde, é claro, que utilizado de maneira correta”. Argumentei de que não isso que estava escrito.

O amor não precisa ser perfeito

Quando entrei eles já estavam conversando. Loureiro, o sapateiro amante dos vinhos e livros, escutava as lamúrias de um sobrinho sobre as dificuldades que tinha nos relacionamentos afetivos. Fomos apresentados. O jovem, bastante educado, disse que não se incomodava de eu participar da conversa. Na verdade, achava muito bom, pois seria mais uma opinião a clarear o seu entendimento. O elegante artesão foi passar um bule de café enquanto o rapaz me explicava que, em suma, quanto mais ele conhecia uma pessoa maior era a sua decepção. Sentenciou que as máscaras não se sustentam no convívio pessoal e, o que se revela, definitivamente nunca o agradou.

Loureiro, que enchia as nossas canecas sobre o balcão com café fresco, aproveitou a deixa e disse: “Todos desejamos ser amados e admirados. É a vontade latente do nosso ego: os holofotes e os aplausos. Então, inconscientemente criamos personagens que acreditamos serem reais para interpretar os papéis que atinjam tal objetivo”. O sobrinho interrompeu para acrescentar que era exatamente isso que não gostava nas pessoas. Buscava por aqueles que fossem autênticos. “Mas, de certa maneira, eles são”, corrigiu o tio. O rapaz disse que o sapateiro estava sendo contraditório. Loureiro iniciou a sua explicação ao estilo socrático, com uma pergunta: “Quando você se interessa por uma moça costuma se aproximar mostrando o quanto é vaidoso, orgulhoso, teimoso e egoísta”?

As ferramentas do amor

 

Quando o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, entrou na agradável biblioteca do mosteiro, eu estava imerso na reflexão de um trecho do livro de parábolas de Rami. O monge retirou um livro da estante e se acomodou em uma confortável poltrona ao meu lado. Reparei que era o milenar Tao Te Ching ou o Livro do Caminho e da Virtude, de Lao Zi. Como estávamos apenas os dois na biblioteca, ousei puxar assunto. Falei que, por acaso, lia um livro que também abordava o valor das virtudes e, além de enaltecer a coragem como uma delas, sentenciava que ‘o amor é para os fortes’. O monge, com a sua voz sempre suave, foi lacônico em seu comentário: “Sim, é verdade”. Discordei sob o argumento de que o amor, por toda a sua importância, estava à disposição de todos, indiscriminadamente. O Velho me olhou com a sua enorme paciência e disse: “Sim, também é verdade”. Balancei a cabeça e mexi as mãos, como se esses movimentos pudessem amplificar as minhas razões, para acrescentar que ele estava sendo incoerente: o amor era para todos ou apenas para os fortes. Pedi para ele se decidir. O monge arqueou os lábios em leve sorriso e começou a explicar: “Você confunde tudo, Yoskhaz. Não percebe que se trata de coisas diferentes? Ou melhor, de situações em que o amor se apresenta de maneiras distintas”?

“Sim, o amor está ao dispor de cada pessoa, pois, por ser a força que rege o universo, repousa na essência de todos. O amor é a estrada e o destino. É a virtude maior por estar presente em todas as demais virtudes ou elas deixam de existir. No entanto, para viver o amor, ao menos em toda a sua extensão, precisamos dessas outras virtudes como instrumentos de disseminação do bem. Assim, permitimos, não apenas o desenvolvimento do próprio ser, mas a propagação da luz por ele emanada até a mais distante das estrelas. O universo agradece e nos retribui também em luz por gratidão e justiça”. Deu uma breve pausa e prosseguiu: “O amor é a virtude indispensável nas transformações, logo, sem ele não há evolução. No entanto, o amor adormecido em cada um de nós precisa de trabalho para despertar e crescer nas adversidades. Amar quem nos ama é fácil; amar quando as situações são favoráveis, muitos conseguem; amar nas adversidades é permitido apenas aos fortes”.

Valiosos pilares

 

Na charmosa cidadezinha que fica no sopé da montanha que acolhe o mosteiro, aos sábados, todo o comércio encerrava a sua atividade ao meio-dia, salvo restaurantes, cafeterias e pubs, pontos de encontro para alegres almoços ou reunião de amigos. A famosa exceção era a oficina de Loureiro, o elegante sapateiro, amante dos livros e dos vinhos. A loja de Loureiro funcionava em horário irregular e inusitado. Encontrá-la aberta a qualquer hora do dia ou da noite era um autêntico jogo de sorte. Naquele sábado à tarde, antes de retornar ao mosteiro, arrisquei encontrá-lo para um café e uma conversa vadia. A loja estava fechada. Como a minha carona era apenas para a noite, tentei uma taberna pouco concorrida, a qual ele muito apreciava. Encontrei o artesão acomodado em uma confortável poltrona, ao lado de uma pequena mesa com uma taça de tinto e um abajur que lhe permitia ler O Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa, com invejável tranquilidade. Quando fui cumprimentá-lo, se aproximou, quase ao mesmo tempo, outro amigo dele. O homem estava com os olhos vermelhos e inchados de tanto chorar. De imediato, contou que na noite anterior fora surpreendido com o término de um romance que, embora não tenha durado muito tempo, havia sido intenso. Loureiro, ao perceber que o amigo não tinha me notado, nos apresentou. Renê, este era o seu nome, me tratou de maneira educada.  O sapateiro pediu para que puxássemos cadeiras para ficarmos mais próximos a ele, pois o seu tom de voz era sempre muito suave. Acrescentou para o Renê que poderiam conversar sobre o seu dilema em outra hora, uma vez que a minha presença poderia constrangê-lo. O homem disse que não tinha problema nenhum. Precisava desabafar e ouvir algumas palavras que pudessem arrefecer a sua dor.

A semente

 

Eu caminhava pelas montanhas do Arizona ao lado de Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom de usar a música para perpetuar a sabedoria do seu povo, quando paramos em um pequeno platô com uma vista encantadora. Ele estendeu o seu manto colorido no chão, acendeu o inconfundível cachimbo com fornilho de pedra vermelha e me pediu para preparar uma fogueira. Depois ritmou com o seu tambor de duas faces uma sentida cantiga ancestral na qual pedia proteção para nunca abandonar ‘o lado ensolarado da estrada’. Ficamos um tempo que não sei precisar sem dizer palavra, como viajantes no mundo das ideias, até que o xamã rompeu o silêncio: “Há muitos elementos na natureza que considero sagrados pelo simbolismo que representam. O nascer do sol pela importância da luz em nossas vidas; o voo da águia por me ensinar a ver todas as coisas do alto; as estrelas para lembrar que existem outros mundos além deste; a mudança das estações pela lição da renovação dos ciclos; a borboleta para me lembrar que a lagarta pode ter asas; o rio para não me deixar esquecer que todas as águas um dia chegam ao mar. No entanto, nada me encanta tanto quanto a semente”. Deu uma baforada e prosseguiu: “Enfim, há lições por todos os lados. O sagrado está misturado ao mundano a espera de ser revelado”. Quando eu iria interromper para perguntar sobre a semente, a conversa mudou de curso. Ele falou: “Assim como a magia aguarda o momento do feiticeiro”.

A maior das mentiras

 

Loureiro, o sapateiro que costurava o couro como ofício e as ideias como arte, andava ao meu lado pelas estreitas ruas de pedras da charmosa cidadezinha que fica ao sopé da montanha que abriga o mosteiro. Procurávamos um restaurante para almoçar. Escolhemos um bem sossegado para que pudéssemos prosear à vontade. Assim que entramos ele encontrou uma amiga de longa data, uma artista plástica que se tornara muito famosa devido aos seus quadros. Embora viajasse por todo o mundo por conta de convites e exposições, sempre que possível ela retornava àquela pequena cidade a fim de reencontrar as suas raízes, como maneira de não esquecer a essência que a movimentava. ‘O conhecimento sobre a minha aldeia é que me concede o poder do mundo’, repetiu a famosa frase quando o sapateiro lhe perguntou o que fazia ali ao invés de estar em Nova York, Londres ou Paris. Imediatamente ela nos convidou para sentar à sua mesa. Eu a conhecia por fotos de revistas, mas me impressionou a sua elegância e, principalmente, o seu magnetismo, embora não parecesse fazer qualquer esforço para uma coisa ou outra. Devia ter a idade de Loureiro e os cabelos brancos e curtos, como os do sapateiro. Decidira não mais usar tintura; a maquiagem era quase nenhuma. Alegou que ‘dá muito trabalho e no mais, já há tinta demais na minha vida’. Rimos. Fiquei pensando se a elegância não residia na sua sofisticada simplicidade. Perguntada sobre as novidades, ela disse que teria de ir a Madri dentro de alguns dias, pois um dos seus quadros fora escolhido para compor uma mostra no Museu do Prado sobre ‘sentimentos ocultos’. Tirou da bolsa uma foto da tela para nos mostrar. Era um belíssimo quadro, de enormes dimensões, daqueles que ocupam uma grande parede, no qual ela retratava uma mulher jovem e sozinha no salão de uma festa. Ela disse que batizou o trabalho como “A Maior das Mentiras”. Eu quis saber a razão do título. A artista me respondeu que depois que terminou a obra achou que era triste o sorriso da mulher retratada. Confessou que se sentiu incomodada com a tela, no entanto, ressaltou, não sabia nem tentava entender a razão daquela interpretação, pois pintava com o inconsciente.

O sentido da vitória – outra vertente

 

Eu estava acompanhando o carpinteiro que trocava as dobradiças do portão do mosteiro quando fui surpreendido pela chegada de um sobrinho do Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem. O jovem, na casa dos trinta anos de idade, tinha as feições transtornadas e chegara em busca de algumas palavras do tio que pudessem explicar a tempestade que assolara o seu casamento. Ao encaminhar o rapaz, encontrei o Velho na biblioteca do mosteiro lendo As Parábolas de Rumi. Embora fosse um lugar de absoluto silêncio, como estávamos a sós, o monge decidiu que ali mesmo conversaria com sobrinho, ao menos até o momento em que chegasse alguém. Fiz menção de me retirar, mas o monge pediu para que eu ficasse. Sem demora, o rapaz desabou toda a sua incompreensão e mágoa sobre o que estava acontecendo. Explicou que o início do casamento fora muito complicado e apenas depois de muitas brigas conseguiu convencer a esposa da necessidade de ela mudar o seu comportamento em relação a diversos aspectos da sua vida social e profissional. Precisava entender que se tornara uma mulher casada. Acrescentou que havia sido uma vitória, após muitas discussões, a mudança de atitudes da esposa. No entanto, logo depois, ela começou a ficar triste sem motivo aparente. Deprimida, procurou ajuda com uma conhecida psicanalista. O tratamento fez efeito, pois, aos poucos, ela recuperou o sorriso aberto e encantador. No entanto, há poucos dias ela comunicou que desejava o divórcio. O jovem não entendia a falta de reconhecimento da esposa, pois ele atravessara ao seu lado o período mais sombrio do romance e, quando tudo parecia resolvido, ela decidira partir. Não, não concordava nem entendia a separação. Mesmo assim, a mulher foi embora levando consigo apenas o que cabia em uma mala.

A revelação

 

A minha primeira fase como discípulo na Ordem foi representada por muitas perguntas a respeito dos mistérios que envolvem a vida. Algo que sempre considerei positivo, pois me impulsionava a reflexão e também me ensinou muito sobre paciência e serenidade, pois as respostas apenas são permitidas quando estamos prontos para entendê-las. Não que elas sejam negadas, mas pelo motivo de não conseguirmos vê-las, como se um manto de invisibilidade as envolvessem até que mudem os nossos olhos. Eu tinha terminado de varrer o jardim e antes de seguir para a biblioteca do mosteiro passei no refeitório para pegar uma caneca de café. Livros e café é uma combinação que sempre adorei. Encontrei com o Velho diante de um pedaço de bolo de aveia, com um olhar distante. Pedi licença para interromper os seus pensamentos e me sentar ao lado para um pouco de conversa. Ele me autorizou com um doce sorriso. Falei que tinha lido um poema atribuído a um antigo alquimista persa que relatava a conversa entre um caravaneiro e um grão de areia. Havia uma parte que muito me intrigava:

“Grão de Areia: Eu sou o deserto.

Caravaneiro: Não, você é apenas parte do deserto. Sem você, o deserto continuará a ser o deserto.

Grão de Areia: Engano. Na minha falta o deserto restará incompleto e viajará à minha procura.

Caravaneiro: Você devaneia entre a soberba e a loucura.

Grão de Areia: Entendo o seu julgamento. Cada qual o faz com os olhos que possui no momento. Acredite, ver é uma arte.

Caravaneiro: Diga-me, o que não percebo?

Grão de Areia: A fonte em que bebo. Não há o todo sem a parte.

Caravaneiro: Simples assim?

Grão de Areia: A parte traz o todo em si; eu trago o deserto em mim.

Para conhecer o deserto há que se desvendar o grão.

Este é o poder e a revelação”.

A verdade não dói

 

Caminhávamos pelas ruas estreitas e sinuosas da charmosa cidadezinha que fica no sopé da montanha que acolhe o mosteiro. O sol do final da tarde realçava as cores das casas e do calçamento de pedra. Loureiro, o sapateiro que remendava o couro como ofício e costurava as ideias como arte, estava com fome e seguíamos rumo à cafeteria da Sophie, onde são feitos os melhores sanduíches do planeta, em busca do seu predileto: em pão de brioche, fatias de presunto; um pouco de mel e canela; generosas lascas de parmesão e um ovo mole por cima. Vai ao forno para gratinar. Café para acompanhar até o poente; lá apenas servem vinho à noite. São as rigorosas regras da casa. A garçonete que veio nos servir era a Regina, uma colega de longa data, que ficou feliz em nos ver. Ela disse que o turno dela já terminara e perguntou se poderia sentar-se conosco. Permissão concedida, avental guardado e tínhamos ao nosso lado uma pessoa que precisava muito falar, como aquela criança que corre para mostrar todos os seus brinquedos quando chega uma visita. De pronto, ela revelou que vivia uma grave crise conjugal. Morava há algum tempo com outra moça, bem mais jovem, por quem era apaixonada. No entanto, sempre a apresentou a todos como uma sobrinha que viera passar um período na cidade. Na noite anterior tiveram uma grave discussão, na qual a namorada a acusava de ser preconceituosa por não admitir perante a todos o verdadeiro afeto que as unia, seja pela diferença de idade ou pelo fato de serem ambas mulheres.

A arte de se manter suspenso no ar

 

Quando entrei para a Ordem tinha a errônea ideia que a vida no mosteiro era simplesmente contemplativa, afastada de todas as impurezas do mundo como maneira de manter os monges puros. Embora houvesse um período inicial de recolhimento para a adequada iniciação, no qual havia muito estudo e meditação, logo éramos enviados de volta ao mundo como método eficaz de conhecimento e aperfeiçoamento de si mesmo. O Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, costumava dizer que “o sagrado não está separado do mundano, mas oculto nele”. É no convívio comum do cotidiano que podemos entender melhor as nossas reações e as arestas que ainda fazem sangrar. Apará-las é o aperfeiçoamento necessário; o aperfeiçoamento leva à transformação; a transformação se traduz em evolução. Os períodos de solidão e reflexão são tão férteis quanto as fases de convívio social ou profissional. Na verdade, são as partes distintas de uma mesma aula. Elas se diferenciam para se completarem.

O destinatário do amor

 

Era uma fria manhã de outono. O sol aquecia o corpo sobre o pesado casaco de lã. Eu andava pelas ruas estreitas e tortas da charmosa cidadezinha que fica no sopé da montanha que acolhe o mosteiro em busca da oficina de Loureiro para um café quente e um pouco de prosa. Eu estava triste pela ingratidão de algumas pessoas do meu convívio por não corresponderem ao amor que lhes era oferecido por mim. O sapateiro, que costurava o couro como ofício e as ideias como arte, me recebeu com a alegria habitual e logo estávamos sentados ao balcão com duas canecas fumegantes. Depois de expor as minhas insatisfações, questionei ao meu amigo o fato de o amor ser a causa de tanto sofrimento. Achava contraditório, uma vez que esse sentimento está inegavelmente ligado ao bem e à luz. Afinal, sendo o amor algo tão bom, não deveria permitir que ninguém sofresse em seu nome. O artesão bebericou o café e respondeu como quem fala o óbvio: “Sofrem pelo simples fato de não entenderem o amor”. Discordei. Falei que o amor é inerente a todas as pessoas. Acrescentei que não deveria haver um único ser humano na face da Terra que desconhecesse o amor. Loureiro sorriu e disse: “Sim, é verdade. No entanto, tê-lo conosco não significa que já saibamos decifrá-lo. E mais, não é apenas o amor que corre nas veias de toda a gente, porém, todos os sentimentos, os melhores e os piores. Sem exceção. Identificar cada um deles é fundamental; não permitir que uns contaminem outros é parte da arte do andarilho”.

As chaves da evolução

 

O Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, tinha acabado de ministrar uma palestra em uma prestigiosa universidade. Eu tinha sido designado para acompanhá-lo na viagem. Quando andávamos em busca de um táxi que nos levasse até a estação ferroviária, fomos abordados por uma professora da instituição, que de maneira educada, disse que tinha assistido à palestra e tinha ficado intrigada. Nos convidou para almoçar no restaurante da própria universidade, pois gostaria de conversar um pouco mais com o monge. O convite foi aceito. A mulher foi direto ao assunto. Falou que tinha gostado muito de toda a exposição, mas algo a intrigara. Pelo que entendera, o Velho dissera que o único objetivo de todos nós era evoluir. Apenas isto. O monge balançou a cabeça confirmando. Ela, sempre gentil, falou que discordava. Alegou que não acreditava que a vida continuasse após a morte. Explicou que as ideias de reencarnação ou de qualquer espécie de deus eram frutos de mentes pouco desenvolvidas ou supersticiosas que tinham medo de encarar a realidade de que a morte era o fim. Portanto, sustentou, o sentido da vida era tão somente a busca da felicidade.

O Velho ofereceu um belo sorriso e com o seu jeito tranquilo disse: “Eu concordo com você”. A professora se mostrou surpresa com a resposta e ele explicou: “Acreditar ou não em Deus e em qualquer dos conceitos da imortalidade do espírito não deve mudar em absolutamente nada os valores que norteiam a vida de uma pessoa. Ninguém precisa crer na existência de outra dimensão para seguir a lei espiritual maior que consiste em fazer aos outros somente o que desejamos que nos façam. Alguns dos homens mais fantásticos que conheci são ateus, outros são religiosos. São pessoas maravilhosas que norteiam as próprias vidas no esforço de serem melhores a cada a dia e possuem um enorme respeito por todos. Entendem que não vivem sozinhas no planeta. Logo, embora o encontro da própria felicidade seja uma jornada solitária, se entrelaça pela vida de todos, pois é nesse convívio que ela é ensinada e exercitada”. Deu uma pequena pausa antes de concluir: “Não apenas concordo que todos devem buscar a felicidade, mas acho até que já fazem isto. No entanto, percebo uma enorme dificuldade em alguns para entender o processo”.

As ferramentas da luz

 

O sol ainda não tinha nascido quando cheguei à pequena e charmosa cidade que fica no sopé da montanha que abriga o mosteiro. Eu tinha aproveitado uma carona em um caminhão de entrega e vagava a esmo pelas ruas estreitas e sinuosas enfeitadas com o seu belo piso de pedras. A umidade do orvalho refletia a luz bruxuleante dos lampiões públicos, compondo um bonito cenário. O barulho dos meus passos maculava o império do silêncio naquela hora da madrugada. Decidi arriscar e caminhei até a oficina de Loureiro, o sapateiro amante dos vinhos e dos livros; os tintos e os de filosofia eram os preferidos. Remendar o couro era o seu ofício; costurar ideias, a sua arte. A loja do artesão era famosa pelos horários improváveis e inconstantes de funcionamento. Quando virei a esquina, à distância avistei a sua clássica bicicleta encostada no poste. Percebi que aquele seria um bom dia. Fui recebido com a alegria habitual e logo estávamos sentados com duas canecas fumegantes de café sobre o balcão. Falei que precisava desabafar e conversar um pouco, pois me via diante de uma delicada questão: em recente viagem a uma grande metrópole onde fui acompanhar o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, em um ciclo de palestras que ele ministrou dentro de uma universidade, vi a esposa de um primo em situação clara de extraconjugalidade. Ela, ao perceber que eu presenciara a cena, me procurou para que eu nada revelasse. Contou que era um caso antigo e mal resolvido que precisava de uma resolução dentro dela. Acrescentou que amava o meu primo e não queria destruir a família que havia construído com ele e com os dois filhos do casal. Disse, ainda, que ao solucionar o enigma do coração em si, tinha certeza que seria uma esposa ainda melhor. Me pareceu que falava com sinceridade. De fato, ela e meu primo, com os filhos, pareciam formar uma família feliz. No entanto, a omissão, por vezes, é quase uma mentira. Contar ou não contar, eis o meu dilema, uma vez que eu tinha um compromisso comigo mesmo de ser sempre honesto, não abandonar a verdade e nunca me distanciar da boa moral.

Loureiro ouviu sem dizer palavra, ao final, bebericou o café e comentou: “Não vejo nenhum dilema”. Como não? Me surpreendi. Falei que toda boa pessoa deve nortear as suas escolhas pela boa moral, formada pelas virtudes que enobrecem o caráter humano. O artesão concordou com a cabeça. Acrescentei que ser fiel com a verdade era uma dessas virtudes cardeais. Desta vez o sapateiro negou com a cabeça e disse: “Nem sempre”.

A porta

 

De todos os lugares do mosteiro, a biblioteca sempre foi o meu preferido. Escolher um dos inúmeros títulos disponíveis, se acomodar em uma de suas confortáveis poltronas e dividir a atenção entre as letras e a maravilhosa paisagem das montanhas, proporcionada pelas enormes janelas, permitem momentos de pura magia. Muitas vezes encontrei o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, em algum canto, encantado pela leitura ou em viagem profunda nos mares da reflexão. Nesse dia, eu tinha acabado de escolher um livro quando percebi que ele me observava. Arqueou as sobrancelhas querendo saber qual eu escolhera. Mostrei a capa e ele sorriu em aprovação. Era uma coletânea de palestras ministradas por Yogananda. Aproveitei que havia uma poltrona vaga ao seu lado e me sentei. Perguntei o que ele lia. O monge respondeu em um sussurro: “O Sermão da Montanha”. Certa vez, ele tinha me revelado que lia esse pequeno texto todos os dias antes de iniciar qualquer outra leitura, porém não imaginava que ele falava em sentido literal. Diante da minha expressão de surpresa, o Velho falou: “As letras do Sermão são vivas e sempre me trazem ensinamentos sem fim”. Eu já o tinha lido várias vezes e perguntei sobre qual trecho o monge meditava. Ele disse com a sua voz suave: “Aquela parte que diz que ‘estreita é a porta e apertado o caminho da vida. Raros são os que o encontram’”. Eu disse que sabia do que se tratava e me adiantei para mostrar toda a erudição que pensava ter. Falei que aquele capítulo tinha a função de orientar sobre o cuidado para não insistirmos nas estradas largas da perdição. Acrescentei que não encontrava maiores dificuldades em sua interpretação, bastava que fôssemos sempre honestos. Simples assim. O Velho me ofereceu um doce sorriso de agradecimento em resposta e voltou a se concentrar na leitura e em seus pensamentos. Fiquei orgulhoso de mim.

O bom combate

Eu estava desgostoso da vida. Flanava pelas ruas sinuosas e estreitas da pequena e charmosa cidade que fica no sopé da montanha que acolhe o mosteiro quando passei em frente a uma padaria. O perfume do pão fresco foi irresistível. Me sentei e pedi que fizessem um sanduíche com manteiga, mel, canela e uma fatia generosa de queijo. Para acompanhar, uma caneca de café. Neste instante, Loureiro, o elegante sapateiro, rompe pela porta. Ao me ver, abre um sincero sorriso e, com os braços abertos, se aproxima. Após um forte abraço, pergunto se foi o cheiro do pão ou o acaso que nos atraiu ali. Ele me olha como a uma criança e diz: “O acaso não existe”. Falei que até tinha pensado em passar na sua oficina, mas não quis atrapalhar o ritmo do seu trabalho no meio da tarde. Ele, que era famoso na cidade por ter horários inusitados para abrir ou fechar a loja, falou: “Encerrei o expediente por hoje. Vim conversar contigo”. Ri e comentei que ele não tinha como saber que eu estava na padaria, pois até mesmo eu não sabia que estaria ali há cinco minutos atrás. Loureiro deu de ombros, como quem fala o óbvio, e disse: “Eu também não sabia, pelo menos até entrar aqui e ver a agonia desenhada em seu rosto. Então, entendi”. Abaixei os olhos e agradeci em silêncio.

A bagagem

O Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, tinha sido convidado a ministrar uma série de palestras sobre os mais variados temas em outro mosteiro, bem distante do nosso, onde funciona uma irmandade com preceitos distintos da qual pertenço. Na essência, as diferenças mais aproximam do que afastam. Naquela época, eu era o discípulo designado para acompanhar o monge. Todos ficaram encantados com o Velho. Uma imagem serena, sempre com um sorriso discreto no rosto, o olhar que espelhava paciência, as palavras sábias pronunciadas em voz mansa e, principalmente, com atitudes, mesmo nos pequenos gestos, que transbordavam o mais puro amor. Ele dizia que servir como exemplo é o argumento mais poderoso que alguém pode oferecer; é a “verdade viva”. Por duas vezes, nessa viagem, o monge pediu para que eu abrisse a palestra do dia com introduções rápidas sobre o tema que seria abordado em seguida por ele, fato que me rendeu alguns elogios, muito mais como reflexo das aulas do Velho do que por mérito meu. No entanto, eu estava mal. Um aluno daquele mosteiro que me cedera uma vaga em seu quarto durante os dias que ali ficamos vinha me perturbando com uma saraivada de críticas, seja em relação ao breve discurso que iniciava as palestras, seja por causa de algum outro comportamento meu que ele indicava como inadequado. Em tudo ele apontava defeito. Quando o Velho entrou no quarto para saber se eu já estava pronto para viajarmos de volta, me encontrou arrumando a mala tal e qual se encontrava o meu coração: em total bagunça e desalinho.

Questionado, relatei os motivos da minha irritação. O Velho pediu para que eu parasse de arrumar a mala e fôssemos caminhar um pouco. Lembrei que tínhamos que partir, e ele disse: “É necessário entender o que levamos na bagagem para prosseguir a viagem”. Falei que colocava na mala apenas as minhas roupas e pertences pessoais. O bom monge apontou a mala sobre a cama com o queixo e me corrigiu: “Não falo dessa mala”, colocou a mão no próprio peito e complementou: “Me refiro à bagagem sagrada, aquela que levamos no coração”.

O ladrão de magia

Sempre que possível, eu retornava às montanhas do Arizona para uma temporada ao lado de Canção Estrelada, o xamã que semeava a sabedoria ancestral do seu povo através da palavra, cantada ou não. Já estava lá há cerca de um mês quando ele me chamou para uma conversa ao redor da fogueira. Tal convite era sempre recebido como uma honra e, confesso, eu ansiava por esse momento todas as vezes que o visitava. Esses encontros eram à noite, sob o teto de estrelas. Na maioria das vezes o xamã já me aguardava sentado ao redor da fogueira. Como explicou certa vez, o fogo é um importante elemental no auxílio à transmutação das velhas formas. Ele fez sinal com a cabeça para eu me acomodar sobre uma manta estendida ao seu lado. Canção Estrelada cantou uma sentida canção, acompanhado pelo seu tambor de duas faces, em que agradecia ao Criador pela oportunidade de estar ali naquele momento e pelas intuições e inspirações a serem concedidas, expressadas através das palavras. Depois acendeu o seu inconfundível cachimbo com fornilho de pedra vermelha. Nesses pequenos rituais era comum que fumássemos juntos o mesmo cachimbo, como gesto de admiração pela sabedoria e coragem de um pelo outro.

Era um pequeno e importante cerimonial mágico. Cerimonial porque era um encontro entre pessoas com o mesmo propósito e que se respeitam; mágico porque magia é transformação, mecanismo essencial da evolução. O nexo causal é sempre o amor para que haja a permissão e a participação dos mensageiros iluminados das esferas invisíveis.

A melhor namorada

 

Quando entrei na oficina de Loureiro, o elegante sapateiro decidiu encerrar o expediente, embora ainda estivéssemos no meio da tarde. Apreciador dos vinhos tintos e dos livros de filosofia, ele tinha no martelo e no alicate as ferramentas do seu ofício; as ideias com que coloria o mosaico da vida, os instrumentos da sua arte. A sua loja não tinha hora determinada para abrir ou fechar. O seu funcionamento variava de acordo com a vontade do artesão e, na pequena cidade, os horários inusitados da oficina já tinham virado uma lenda. Assistiríamos, os dois, em uma animada taberna, a uma partida de futebol pela TV. Era um dos aguardados jogos finais do campeonato. Loureiro achou que ainda dava tempo para conversar um pouco antes de irmos e foi passar um bule de café para animar as palavras. Quando ele colocou as duas canecas fumegantes sobre o balcão, fomos surpreendidos por um tornado em forma de gente. A irmã caçula do sapateiro invadiu a pequena oficina e nos dava a sensação de que o seu ímpeto abalava tudo a sua volta. Lucy era o seu nome. Há muito deixara de ser uma menina. Embora já tivesse mais de meio século de existência, ainda mantinha o viço da juventude. Seus olhos azuis contrastavam com a pele morena e os cabelos negros; era belíssima. Uma pessoa agradável no trato, atenciosa e boa amiga. Muito dedicada aos estudos, tinha se tornado uma respeitável juíza de direito da região, o que lhe proporcionava, sob o aspecto financeiro, uma vida confortável. Apesar de tantos atributos, não era feliz. Um dos seus desejos era ter um casamento estável, ao lado de uma pessoa com quem pudesse compartilhar todos os momentos da vida. Embora com muitas qualidades pessoais, os seus relacionamentos afetivos eram efêmeros e, por motivo que não conseguia entender, não se sustentavam. Este era o motivo daquela visitava repentina, o seu último namorado acabara de encerrar o romance.

Eu e o outro

 

O garçom abriu a garrafa e gentilmente completou as nossas taças. Eu estava em um daqueles dias em que sentimos vontade de conversar sobre a vida e ouvir a opinião de quem respeitamos. Um tio muito querido, que passara recentemente por situações difíceis e que não estava sabendo equacionar o seu lado emocional, me trazia preocupações. Aproveitei que tinha ido à pequena e secular cidade situada no sopé da montanha que abriga o mosteiro e convidei o Loureiro, o elegante sapateiro, amante dos vinhos e dos livros, para uma conversa. Os tintos e os de filosofia eram as suas predileções. Remendar o couro era o seu ofício; costurar a vida, a sua arte. A taberna estava vazia e silenciosa, bem ao fundo podia-se ouvir uma rádio que tocava jazz, nada que nos fizesse aumentar o volume baixo da voz. Relatei ao bom artesão os fatos que se sucederam com esse tio, de quem eu muito gostava e que fora bem próximo de mim na infância e na adolescência. Ele perdera o único filho em um acidente e, em seguida e em razão disto, o seu casamento entrara em crise, culminando no divórcio. Eu tinha estado com ele e o encontrara bastante depressivo, com a clara expectativa de que eu tirasse férias das minhas atividades profissionais e largasse o meu serviço na Ordem para ir ampará-lo. Se por um lado eu sentia vontade de ajudar, por outro não queria modificar a minha vida a tal ponto. Enfim, eu estava dividido.

Loureiro bebeu um gole de vinho e soltou um suspiro de aprovação. Era uma boa safra. Depois me mirou nos olhos e falou sobre o meu tio: “Quando não sabemos nos relacionar com as próprias emoções a razão costuma se perder na floresta escura do desespero. A falta de maturidade em enfrentar os problemas que se apresentam, apenas revelam o despreparo daquele espírito em aprender as lições que lhe cabem”. Questionei quais os aprendizados poderiam caber nas situações que o meu tio vivenciava. O sapateiro respondeu com tranquilidade: “Não faço a mínima ideia. Eu estaria sendo leviano se pretendesse apontar as lições alheias no Caminho ou arrogante ao tentar elencar as soluções objetivas do mundo. Somente sei que conflitos surgem para alavancar a nossa evolução. É como os mestres se disfarçam para oferecer os valiosos ensinamentos depois que nos recusamos em aprendê-los de maneira mais suave. É o universo, em profundo gesto de amor, revelando que não desistirá de nenhum de nós”.

O jogo das sombras

 

O dia ainda não tinha amanhecido quando entrei na cozinha do mosteiro. Eu tinha dormido mal, sono intermitente e com as ideias em turbilhão. Quando a mente não consegue descansar é o corpo quem paga a conta pela desarmonia que invade e ocupa, corrompendo o ser como um todo. O cansaço, por potencializar a irritação e a mágoa, sempre será um péssimo conselheiro. Era a minha exata situação naquele momento. Há alguns dias eu vinha em crescente discórdia com outro discípulo da Ordem. Tudo começara por um motivo bobo, uma pequena crítica que ele fizera ao trabalho filantrópico que eu coordenava. Retribuí apontando falhas de conduta em relação àquele que me censurou. Ele replicou subindo o tom da crítica. A troca de farpas foi ganhando dimensões inesperadas e, na tarde anterior, em discussão ríspida, quase chegamos às vias de fato. Ou seja, por pouco não trocamos chutes e socos. As ofensas verbais não conseguimos evitar.

Quando peguei o bule para passar o café, percebi que estava cheio e quente. Alguém chegara ali antes de mim. Só quando virei para trás foi que vi o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo do mosteiro, sentado em absoluto silêncio e reflexão, com uma caneca fumegante à frente. Ele me ofereceu um sorriso sincero quando nossos olhares se cruzaram. Com um gesto sutil do queixo, me convidou para sentar ao seu lado. Enchi uma xícara com café e fui ao seu encontro. Antes que ele pudesse articular qualquer palavra, abri o verbo, disse que precisava desabafar e narrei todo o conflito. O monge me ouviu com sua enorme paciência e quando encerrei, ele falou com a voz baixa e tranquila: “Você veio em busca de conselhos ou de cumplicidade? De alguém que lhe diga a verdade ou de alguém que lhe dê razão”? Mostrei-me indignado, pois não havia qualquer dúvida de que eu estava certo e que o outro discípulo deveria, no mínimo, ser advertido. Sem se alterar, o Velho disse: “Para todo fato há no mínimo duas versões, além da verdade”.

O sofrimento é uma escolha

 

Eu tinha chegado cedo à pequena e charmosa cidade situada no sopé da montanha que acolhe o mosteiro. Tudo parecia ainda adormecido em suas ruas seculares de pedra, quando, para a minha surpresa, ou quase, vejo a antiga bicicleta de Loureiro, o sapateiro amante dos livros e vinhos, encostada no poste em frente à sua oficina. O horário de funcionamento da sua loja era imprevisível e improvável. Nunca sabíamos quando a encontraríamos aberta. Fui recebido com alegria e um sorriso sincero. O meu amigo tinha acabado de passar o café e nos sentamos ao balcão com duas xícaras fumegantes para uma conversa vadia. O elegante artesão tinha no remendo do couro o seu ofício; a costura da vida pelas linhas da sua estranha filosofia, uma arte. Naquele dia não foi diferente, mais uma vez ele me desconcertou com o imponderável. O sapateiro comentou que uma de suas sobrinhas, filha de sua irmã, tinha acabado de sair da oficina. Ela estava muito abalada, pois o seu marido resolvera dissolver o casamento. Tinha vindo em busca de uma palavra de consolo, de uma ideia que servisse de lanterna para iluminar os seus passos.  Perguntei se a moça tinha saído melhor depois da conversa com o tio. Então, Loureiro começou a me surpreender: “Acho que não. Na verdade, saiu daqui pior do que entrou. Mas com o tempo ela irá entender o que eu tentei explicar”. Eu quis saber o que ele havia dito para aliviar a aflição da moça que gerou o efeito contrário. O sapateiro respondeu com naturalidade: “Todo sofrimento é uma escolha”.

O melhor dos mundos

 

No mosteiro é fabricado, apenas em alguns meses do ano, uma pequena e apreciada quantidade de chocolate em barras. Confeccionado de maneira artesanal, com as melhores sementes de cacau oriundas de países tropicais, baunilha e mel fornecidos por cuidadosos produtores da região, segue à risca uma receita secular, apenas conhecida entre os monges. O chocolate é famoso entre aficionados e tem toda a sua produção imediatamente vendida, mesmo limitando a quantidade individual de compra. O valor arrecadado ajuda a custear boa parte das despesas da Ordem. Não toda.

Certa vez, o Velho, como carinhosamente chamamos o decano da Ordem, teve que viajar em razão de compromissos e me deixou como assistente do Lucca, um tranquilo monge que há décadas era responsável pela produção do chocolate. Nada parecia ser tão importante ou dar tanta alegria ao monge. Meticuloso, não permitia que nada fugisse à receita ou alterasse o sabor da iguaria. Histórias contadas como lendas, de um período anterior ao meu ingresso na Ordem, relatam que, certa vez, ele proibiu a venda quando um auxiliar alterou, em quantidades mínimas, a exata proporção dos ingredientes. Manteve-se irredutível, mesmo com todos no mosteiro elogiando o sabor, com diferença quase imperceptível em relação à receita original. Em outra ocasião, se negou a produzir o chocolate ao recusar as sementes de cacau recebidas, que, segundo o seu entendimento, não tinham a qualidade indispensável. Foram anos em que o mosteiro enfrentou dificuldades financeiras, face à ausência da renda proveniente da venda do chocolate.

Lei das infinitas oportunidades

 

O Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, já tinha me falado do código não-escrito, um conjunto de leis universais que regula a vida em diversos planos da existência e que sujeita o destino de todos. O entendimento de como funciona essas regras amplia a consciência, afina as escolhas e pavimenta o Caminho. Já tínhamos conversado sobre a lei dos ciclos e a sua importância. Eu tinha ouvido falar da existência das leis da evolução, da afinidade, da ação e reação, entre outras. Na primeira vez em que tornei a ficar a sós com ele, eu quis saber mais sobre a lei das infinitas oportunidades. O Velho estava ao fogão, preparando uma sopa de cogumelos frescos, uma iguaria famosa no mosteiro. Sugeriu que eu o auxiliasse enquanto ele cozinhava: “A alquimia nasceu na cozinha”, falou de jeito gaiato. Em seguida começou a explicar: “Talvez nenhuma outra lei seja tão clara para demostrar a incomensurável generosidade da vida e a enorme sabedoria do universo. Ela fala dos nossos erros e do amor com que somos tratados”.

Pediu para que eu cortasse algumas cebolas e prosseguiu: “O código não-escrito regula o processo evolutivo de cada um de nós, impondo a exata lição para a qual já estamos aptos. A premissa inicial é que a razão da existência, neste plano, é a evolução espiritual. Em suma, estamos aqui para evoluir. Perceber isto é um bom começo, pois permite entender que os mestres estão disfarçados e nos aplicam os devidos ensinamentos através do nosso convívio com os outros e pela maneira como reagimos diante dos conflitos enfrentados. Este é o método desta universidade, não há outro”.

O muro

 

O prédio do mosteiro é uma sólida construção em paredes de pedras que atravessa os séculos com a mesma firmeza da montanha que o abriga. Ou quase. Um dos muros começou a dar sinais de deterioração e fiquei responsável por sua manutenção. Dentre as várias opções, escolhi uma construtora cujo o dono era um amigo dos tempos de colégio e que aparentava capacidade para levar a termo a tarefa. Apesar de todos os avisos de que não se tratava de um simples conserto, mas de uma restauração, na qual todas as características originais deveriam ser mantidas, o resultado foi desastroso. Eu estava irritadíssimo quando encontrei com o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem. Era final da tarde, horário em que ele se dedicava à leitura. Pediu para que o acompanhasse até a biblioteca. Sentamos em confortáveis poltronas ao lado de enormes janelas, tendo como paisagem a bela floresta dos arredores. Serviu-nos com xícaras fumegantes de café. Logo, comecei a desfiar meu rosário de lamentações sobre a reforma do muro. Disse que estava muito decepcionado com aquele amigo, que fez um serviço muito aquém do contratado e, pior, do prometido. O Velho comentou com doçura: “De fato ficou muito ruim, teremos que refazer o trabalho”.

Falei que lamentava a escolha, porém já tinha tomado providências. Enviei uma dura mensagem relatando a queixa, exigindo que o muro fosse refeito dentro dos padrões exigidos. Não satisfeito, telefonei para ele e tracei críticas com palavras duras. O monge me observou com os olhos repletos de compaixão e perguntou: “Como você se sente”? Confessei que estava mal, uma mistura se sentimentos que migravam entre a tristeza de ter brigado com um amigo e a raiva por ele ter me decepcionado. O Velho rebateu: “Isto é muito pior do que o muro mal remendado. Ninguém precisa de um muro perfeito para ser feliz; de um coração tranquilo, sim”.

O vampiro e o mito da imortalidade

 

Encontrei fechada a oficina de Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos. Filosofia e tinto eram as suas preferências. Me dirigi a uma aconchegante taberna, onde o meu amigo costumava beber uma taça antes de ir para casa. Dei sorte. Lá estava ele, sentado em uma confortável poltrona, ao lado de um abajur, entretido na leitura. Fui recebido com a alegria de sempre pelo artesão, elegante no vestir e no agir. Quando ele repousou o livro sobre a mesa, reparei que era Drácula, do escritor irlandês Bram Stoker, um clássico da literatura. Falei que nunca tinha lido aquela obra, embora a história do vampiro fosse de conhecimento de todos e, eu tivesse assistido ao filme, com o mesmo nome, dirigido pelo Francis Coppola. Pedi uma taça de vinho para acompanhar o bom sapateiro e perguntei se o filme era fiel ao enredo do livro. Loureiro se acomodou na poltrona e falou: “Isso é o que menos importa”. Antes que eu pudesse falar algo, ele prosseguiu: “A questão contida em Drácula é o mito da imortalidade que a história tem como pano de fundo. Todo o fascínio pelo vampirismo, que é anterior ao próprio Drácula, nasce do desejo incontrolável da humanidade, desde o início dos tempos, em vencer a morte. Dentro de toda a inconstância característica da vida de qualquer pessoa, a morte sempre foi a única certeza. Porém, sempre incomodou porque esteve ligada a ideia do fim”.

Comentei que os alquimistas sempre se empenharam na busca, não só pela pedra filosofal, que permitia transformar chumbo em ouro, mas, também, em descobrir o segredo do elixir da vida eterna, na esperança de que vida fosse infinita e as conquistas pessoais não se perdessem no éter da existência. O artesão arqueou os lábios em leve sorriso e disse: “A diferença está no fato de que, enquanto o vampirismo glorifica a perenidade do corpo, os alquimistas descobriram que a imortalidade está presente através do espírito, a verdadeira persona de cada um. O espírito é eterno; logo, somos todos eternos. O corpo é apenas uma vestimenta provisória, necessária para frequentar a universidade desta existência, neste planeta. Troca-se de roupa até não precisar mais dela”.

A ponte para a felicidade

 

Estávamos, eu e o Velho, como carinhosamente chamávamos o decano da Ordem, chegando ao mosteiro de uma viagem, quando fomos abordados por um rapaz no portão, que, de modo educado, pediu uma prosa de dois minutinhos com o monge. Como se desconhecesse o cansaço, o Velho convidou o visitante para um café no refeitório onde poderiam conversar com mais calma. Enquanto esquentava a água, eu ouvia a conversa dos dois. O jovem se revelou desiludido com o mundo. Nenhuma das possibilidades que a vida apresentou foi satisfatória e capaz de torná-lo um homem feliz. Sentia-se amarrado às estruturas impostas pela sociedade, a quem culpava por sua agonia; dizia-se incompreendido por amigos e parentes, causadores da sua insatisfação.  O monge logo ponderou o raciocínio do visitante: “Ninguém o pode impedir à felicidade, salvo você a si mesmo. Não transferir responsabilidades é um bom início”.

Abraçando as sombras

 

Todos os discípulos da Ordem tinham sido avisados que um de nós, em breve, seria consagrado monge em cerimônia permitida apenas aos iniciados. Não tive dúvidas de que eu seria o escolhido. Embora não fosse o aluno mais antigo, era o mais próximo do Velho, como carinhosamente chamávamos o decano do mosteiro. A ansiedade tomou conta de mim, me senti orgulhoso e fiquei algumas noites em claro imaginando como seria o ritual de passagem, tão comentado entre paredes, de discípulo para monge. Até que veio a notícia de que outro aprendiz era quem seria consagrado. O que parecia dia se tornou noite. A brisa agradável, que me acariciava o ego, se tornou uma violenta tempestade, capaz de varrer os meus melhores sentimentos para um lugar tão distante que tive a sensação de nunca mais encontrá-los.

O ciúme me convenceu de que aquela decisão era injusta.  A inveja chegou para me avisar que a vida era assim, injusta por natureza. Para piorar, o escolhido para se tornar monge tinha sido o aprendiz com quem eu mais debatia e combatia nas aulas de filosofia e de metafísica. A mágoa me cobriu com um espesso véu para segredar que bons sentimentos são frutos da árvore da ingenuidade: um carneiro não sobrevive no meio de lobos. Sim, eu era a perfeita vítima.

Um espírito livre.

 

Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom de semear a filosofia do seu povo através da palavra, cantada ou não, conversava com uma sobrinha em uma mesa ao ar livre, debaixo de uma enorme árvore frondosa. O sol da primavera aquecia o corpo e trazia aconchego à alma. Avistei-os de longe. O ancião e a bela moça, na casa dos vinte anos, com longas tranças e os olhos puxados como o tio, riam com vontade. Ela aproveitara as férias na universidade para visitar a família. Vestia-se como uma jovem da sua idade, com jeans, camiseta e tênis. Ao me perceber, o xamã fez sinal para que eu me aproximasse. Eles falavam sobre a postura divergente da sobrinha em relação a determinados comportamentos de vários alunos, com os quais ela não concordava. Entretanto, de tão enraizados, nenhum dos colegas ousava a pensar diferente, fazendo com que agissem por automatismo ao invés de se permitirem novas possibilidades. Claro que a moça começava a colher olhares atravessados e, até mesmo, desafetos. Em seguida, a jovem pediu licença, pois iria ajudar a mãe em seus afazeres. Ao se despedir, Canção Estrelada a mirou nos olhos e disse com jeito sereno: “O novo sempre assusta as mentes preguiçosas. É como chegar em casa e encontrar um estranho. Com o tempo, percebemos que a casa não é nossa, mas do estranho. E mais, ele não quer que você vá embora. Deseja apenas que aprenda uma outra maneira de se relacionar com a realidade. Lembre-se, todo espírito livre é afeito ao novo”.

Jamais.

 

Estávamos no trem. Eu e o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo do mosteiro, seguíamos em uma demorada viagem a uma cidade onde ele ministraria uma palestra em renomada universidade. Aproveitei a oportunidade para questionar sobre as dificuldades do aperfeiçoamento pessoal. Sugeri a existência de um manual mais simples para nos orientar no Caminho, vez que os textos sagrados são por demais complexos e, não raro, possuem interpretações herméticas e codificadas. O Velho balançou os ombros e disse: “Não faça a ninguém o que você não quer que façam a você”, deu uma pequena pausa para que eu pensasse um pouco no que ele acabara de falar e concluiu: “Todo aperfeiçoamento do ser consiste em viver esse ensinamento maior. Quer algo mais simples do que isso”?

Falei que achava tudo muito complicado, pois sempre há um exercício de possibilidades entre luz e sombras. O Velho rebateu: “Por isso todas as escolhas são sagradas. Elas definem quem somos. Portanto, preste sempre atenção: cada gesto ou palavra é semente de discórdia ou paz”. Eu disse que entendia, mas confessei que tinha dificuldade e precisava de ajuda. O monge ficou em silêncio por algum tempo e falou: “Existe o Manual do Andarilho”, deu uma pequena pausa e complementou em tom gaiato, evidenciando o bom humor e a evidente brincadeira: “Ele é destinado às crianças”. Rimos. Claro que tal livro não existe. Todavia, eu o provoquei e pedi para que ele facilitasse as coisas para mim. O Velho, sempre generoso, foi em frente: “Preste atenção à Regra do Jamais. São como placas de sinalização para proteger o motorista na estrada”:

A outra face, outra vez.

 

A biblioteca do mosteiro é encantadora. Uma enorme variedade de títulos em um ambiente de silêncio e conforto, além da vista espetacular das montanhas permitida por suas enormes janelas, em estimulante convite à reflexão. Ali era comum encontrar o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, nos finais de tarde, sentado em uma das poltronas, com os olhos perdidos entre letras e paisagem. Lembro de certa vez, ainda nos meus dias de iniciação, que me aproximei e, ávido por conhecimento, pedi a ele uma relação de livros para aprofundar os meus estudos. Ele me observou com bondade e disse: “Comece por ler qualquer dos livros, o importante é iniciar. Aos poucos o seu próprio interesse vai direcionar a leitura na medida da sua necessidade”. Argumentei que a explicação era falha, pois não poderia deixar ao acaso o direcionamento dos meus estudos. O monge arqueou os lábios em leve sorriso e falou: “O acaso não existe. O importante é que você esteja por inteiro em cada página lida e que o seu gosto lhe sustente para que não haja abandono. De alguma estranha maneira, todos os caminhos levam ao destino”. Recusei a resposta. Então, perguntei a ele se, hipoteticamente, apenas fosse permitido ler um único livro em toda a sua a vida, qual escolheria. A nova resposta veio rápida e objetiva: “O Sermão da Montanha”.

O melhor mantra.

 

Eram os meus primeiros dias no mosteiro, quando nem pensava em me tornar um discípulo da Ordem. O convite era para que me hospedasse por curto período. Minha vida passava por momentos de grandes turbulências, eram problemas sobre problemas. Como se não bastassem, dúvidas existenciais me assolavam. Eu estava ali na procura da fórmula que me levasse à solução dos conflitos. A figura do Velho, como carinhosamente chamávamos o decano do mosteiro, era o que mais me chamava atenção, seja pelo seu jeito cativante ou pela visão desconcertante em relação à vida. Naquela manhã, ele fizera uma reflexão para todos os presentes sobre o poder transformador do amor. Suas palavras suscitaram muitos questionamentos em mim, porém não ouvi nada que me ajudasse de modo objetivo. Logo em seguida, o encontrei no refeitório tomando café. Aproveitei a oportunidade para relatar um recente conflito com um parente sobre questões de herança, fato gerador de uma escalada crescente de confusões em minha família. Falei que não sabia como pacificar a briga. O monge disse com a voz serena: “Entenda que cada qual só consegue viajar até a fronteira da própria consciência.  Perceber a sombra alheia é passo importante para iluminar a sua. No entanto, para transmutá-la será necessário que suas escolhas passem a ser diferentes e melhores do que foram até agora”. De pronto perguntei como deveria agir. O Velho arqueou os lábios em belo sorriso e falou: “Está ruim? Polvilhe com amor”.

Por um lado, achei interessante, por outro, enigmático.

O espectro da dominação.

 
“A necessidade de dominar o outro permeia todo o mal desde o início dos tempos”, falou Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom de ensinar a sabedoria do seu povo através da palavra, cantada ou não. A noite chegava de mansinho estendendo seu belo manto de estrelas no firmamento. Ele tinha me pedido para acender a fogueira enquanto enchia de fumo o fornilho de pedra vermelha do seu inseparável cachimbo. Conversávamos sobre o fio que costura a cortina de sombras que impede a claridade do olhar. Ele expunha o seu ponto de vista: “A raiz desse mal é a ignorância e o seu equivocado entendimento sobre o medo. O Grande Espírito nos ofertou o medo para que fosse uma ferramenta a nos alertar dos perigos inerentes à vida, comuns na natureza. Os ruídos na noite escura, os predadores traiçoeiros, o penhasco escorregadio. Mas ao invés de nos integrarmos à natureza, em absoluto respeito a todos os seres que a compõe, decidimos por dominar a tudo que a envolve, em total descontrole do ego inseguro. Alguns animais, domesticamos; os que por temperamento selvagem não foi possível, matamos ou prendemos em jaulas como troféus à visitação. Não satisfeitos, decidimos por também dominar todas as pessoas de nossas relações. Em estado primitivo de sabedoria a liberdade alheia assusta por acreditarmos que somente estaremos seguros se dominarmos tudo e todos à nossa volta. A alegria do convívio é trocada pelo desejo insensato em sermos donos das pessoas e das coisas com o quais nos relacionamos. Perdemos a leveza. Acabamos por escolhemos o conflito ao invés da harmonia. Muitos se iludem nesse exercício vazio de poder, sem perceber que se tornaram escravos de suas desnecessidades e vítimas infelizes de seus enganos”. Deu uma pequena pausa para baforar o cachimbo e manter o fornilho aceso. Depois falou: “Então, surgem os sofrimentos inerentes aos que querem a vida no cabresto de seus desejos. São os semeadores da agonia e das lágrimas”.

“É imprescindível enfrentar o medo, pois a covardia não melhora o destino de ninguém. Não se acanhe por sentir medo. Saiba que só há coragem onde antes existia o medo. A sabedoria consiste em entender o medo. O medo é a semente da flor da coragem”

“Tudo se inicia em uma sucessão de equívocos. A ignorância nos faz crer que apenas conquistaremos a paz ao dominar o que nos assusta. Para piorar, acabamos por viciar o ego em sensações de poder ao interpretar a subjugação do outro como uma vitória. Só existe paz na alegria de escolher por amor. Só existe amor quando se entende que conquistar a própria liberdade consiste, também, em respeitar a liberdade alheia. Uma não existe sem a outra”.

Falei da dificuldade em convivermos com outras pessoas, no entanto, não percebia a sombra da dominação tão presente entre as pessoas. Canção Estreladas desviou os olhos, que estavam fixos nas labaredas, para me mirar com compaixão e disse: “Como não, filho? Veja, por exemplo, o ciúme, uma emoção muito comum a todos. Nasce da ignorância quanto a exata compreensão do amor. O amor, por definição, é um sentimento ligado não apenas à liberdade, mas à própria evolução do ser. Quanto mais amor e liberdade movimentar as escolhas, mais iluminada é a criatura. Para tanto, não deve amarrar ou impor condições para a existência dessas virtudes. Se algema ou impõe tributos de qualquer natureza, com certeza, não há liberdade nem é amor”.

Franziu as sobrancelhas, gesto comum quando falava mais sério e disse: “Uma pessoa tem certa admiração por outra e projeta sobre ela toda a sua vontade em viver o amor. Porém, em paralelo, é invadido por enorme medo de que o seu sentimento, de alguma maneira ou em algum momento, deixe de ser correspondido. O que faz? Dispara um ou vários dos mecanismos de dominação. Controles, limites, cobranças, proibições de diversos tipos. Percebe que é muito parecido como sempre fez com os animais em tempos remotos? O que não consegue domesticar, tenta aprisionar. Pior, em casos mais graves, agride, destrói ou mata”.

O xamã pediu para que eu lhe passasse um cobertor para ele se aquecer da noite que começava a esfriar. Em seguida, prosseguiu: “O ciúme é uma sombra que se manifesta no exato instante em que surge o medo de perder a pessoa amada. Mas como perder o que não se pode ter? Você deve sentir e viver o amor, o que é bem diferente de tentar controlar ou aprisionar o outro. Percebe a diferença? Ao invés alçar o próprio voo e respeitar o voo alheio em respeito e admiração ao amor e à liberdade, negamos a beleza do Caminho toda vez que manipulamos para cortar as asas de alguém. Sem perceber, acabamos por pisar nas flores do nosso próprio jardim”.

“Por isto que ouvimos equivocadamente que ‘não há paz no amor’. Claro, nos recusamos a entender o amor”!

Ficamos um longo tempo sem dizer palavra. Eu mirava o fogo, ele viajava nas estrelas. Resolvi quebrar o silêncio e perguntei sobre outras situações em que o desejo ancestral de dominação nos levava ao mesmo comportamento de outrora. Canção Estrelada disse com paciência: “Ainda nos comportamos como se apenas fosse possível a dualidade em ser senhor ou escravo; uma eterna e inevitável relação entre possuidor e possuído. Na tribo, no trabalho, em família. Por quê? Insegurança é a resposta. Temos dificuldade em conviver como e ao lado de seres livres. A liberdade parece assustar e ameaçar. Por quê? Simplesmente porque não fomos educados a nos relacionar de modo sadio com a liberdade e com o amor. Quantas vezes usamos da força bruta, do poder financeiro ou da lógica tortuosa, como elementos para acuar e dominar o outro, cerceando a sua liberdade de escolha, seja pelo fato de ela nos incomodar por recusar qualquer comando, seja apenas para exercitar a nefasta sensação de dominação. Em suma, puro medo. Assim, sem perceber, insistimos em sustentar a aparência em frágeis estruturas que chamamos de ‘ordem’ ao invés de trocá-la definitivamente pela paz. A ordem é de razão social; a paz é tesouro exclusivo da alma plena. A ordem é o anseio dos dominadores; a paz, uma conquista dos libertadores”.

Eu quis saber como escapar de todo esse processo nocivo e ultrapassado de dominação. Canção Estrelada tornou a franzir as sobrancelhas e falou: “Uma preciosa lição é entender que ‘qualquer pessoa só terá sobre você o poder que você consentir a ela’. Não conceda a ninguém tal poder. Pois, todas as vezes que acontecer, você conhecerá a agonia e o sofrimento da escravidão moderna. Nascemos para voar, não para enfeitar a gaiola alheia. A recíproca também se aplica: abandone a ideia, sob qualquer pretexto, de ser dono de alguém. Jaulas ou asas. Eis uma escolha que nos permitimos todos os dias”.

“No mais, vigiai e vigiai. Não ao outro, mas a si próprio, pois ninguém será um inimigo tão poderoso como as sombras que o aconselham. Dominador ou dominado, ambos apodrecem no mesmo cárcere. Na necessária interdependência de todas as relações, a liberdade é pressuposto indispensável da alegria e para a paz”. Deu uma pequena pausa e concluiu: “E do amor, é claro!”.

Transgredir é preciso.

 

Era a hora dos estudos. Leitura e reflexão na biblioteca do mosteiro. Silêncio e quietude. A luz do fim da tarde entrava pela janela oferecendo claridade e a bela paisagem das montanhas. Como de costume, passei antes no refeitório para pegar uma caneca com café. O Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, conversava com um rapaz que viera nos visitar, sentado à cabeceira da enorme mesa. Quando me aproximei, fui surpreendido pelas palavras do monge: “Transgredir é preciso”. Ao perceber o impacto que a frase causara em mim, fez um sinal com os olhos para que eu me acomodasse ao lado deles.

Desapego é transformação.

 

Ela estava lá. A bicicleta encostada no poste foi primeira coisa em que reparei quando dobrei a estreita e sinuosa rua da oficina na charmosa cidadezinha próxima à montanha que abriga o mosteiro. O sol do fim de tarde refletia nas ruas de pedra e emprestava tons pastéis às construções seculares. Como a loja de Loureiro, o sapateiro amante dos livros de filosofia e dos vinhos tintos, não funcionava em horários regulares, encontrá-lo era sempre um jogo de sorte. Fui saudado com a alegria e a elegância habituais. Ele passou um café fresco e quando sentamos diante das canecas fumegantes, fomos surpreendidos pela chegada de uma sobrinha do artesão. Uma moça bonita, educada e com feições de incertezas coloridas no rosto, que tinha vindo passar uns dias de descanso no interior. Após os cumprimentos de praxe, a jovem foi bem objetiva. Sempre ouvira o tio falar em suas conversas sobre a importância do desapego. Entretanto, ela era paciente de um prestigiado psicanalista na capital e, na última consulta, foi aconselhada a não abandonar os seus desejos, pois isto significava desistência e, por consequência, um sinal de fraqueza.

Armadilhas contra a paz.

 

“Todas as vezes que você pensa, fala ou age movido pelas paixões densas e pesadas, alimentará o poder das sombras. Dentro e fora de você”, falou o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem. Em seguida, concluiu: “Por mais absurdo que possa parecer, acredite, ninguém lhe prejudica mais do que você a si mesmo. Isto serve para todos”.

Estávamos sentados no refeitório do mosteiro, apenas os dois, apreciando o saboroso chá que o Velho preparava com uma mistura de ervas que colhia na floresta do arredor, enquanto admirávamos o por do sol por entre as montanhas. Ele tinha me chamado para conversar por perceber a minha alteração de comportamento após um aborrecido telefonema. O monge me ofereceu uma xícara acompanhada de uma pergunta: “Qual é o único preceito do Código de Ética da Ordem”? Como me calei, ele mesmo respondeu: “Nunca alimentar as sombras”. Deu uma pequena pausa para que eu fosse, aos poucos, alinhando a ideia e prosseguiu: “ Simples, não? Afinal somos todos do bem e, a princípio, não queremos compromisso com o mal”. O monge esperou eu concordar antes de corrigir: “Errado, não é nada fácil. Temos uma enorme dificuldade em identificar as próprias sombras e tudo que as estimula, dentro e fora de nós”. Tornou a calar por instantes e disse: “O grande truque das sombras são seus mil disfarces, a ponto de você pensar que elas não se escondem em suas entranhas”.

Ser livre é simplesmente ser.

 

O Velho, como carinhosamente chamávamos o decano da Ordem, era sempre convidado a dar palestras em universidades e colégios mundo afora. Em geral, essas instituições se situam em grandes metrópoles, onde ficávamos hospedados por dois ou três dias. Nessa época, já acostumado ao silêncio do mosteiro, teve um período que, confesso, logo me sentia incomodado com a mudança de ambiente, ao contrário do monge, que possuía uma fantástica capacidade de adaptação. Ele flanava pelas largas avenidas admirando o movimento das lojas, a correria das pessoas ou mesmo o barulho urbano com a mesma leveza e encantamento com que trilhava a montanha, em silêncio, observando as flores silvestres e colhendo cogumelos para as sopas de que tanto gostava. Quando me via irritado com toda aquela zoeira e pressa, ele me lembrava: “A paz habita em ti. Não conceda a permissão para que nada nem ninguém a abale”. Depois arqueava os lábios em breve sorriso e dizia: “Esse poder é seu, aprenda a usá-lo”.

Dançando com a saudade.

Conheci Loureiro, o sábio sapateiro, há muitos e muitos anos, em um cemitério.

Eu acabara de ingressar na Ordem e fui designado para acompanhar o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo do mosteiro, no velório de um grande amigo dele que havia partido. Conseguimos uma carona e na sinuosa estrada que desce a montanha em sentido à pequena e charmosa cidade localizada no sopé, o monge veio assoviando uma alegre canção. Ele parecia feliz. Estranhei, mas calei. No velório, a capela se fazia pequena para tanta gente; a viúva estava debruçada sobre o caixão, aos prantos e inconsolável. Lamentava profundamente a perda. A quem ia lhe dar os pêsames, perguntava como faria ao entrar em casa e não mais encontrar o falecido. Dizia que não teria forças para esvaziar o armário ou dormir no quarto do casal. Alguns lhe desejavam coragem, outros a aconselhavam a ter fé. Achei o ambiente apropriadamente dramático para um enterro e relaxei. Salvo pelo Velho, que, com constante sorriso no rosto, falava com todos de maneira discreta, porém descontraída. Era o único que me parecia à vontade em estar ali. Acomodei-me em um canto e fiquei a observar, até que chegou o irmão do defunto. Era Loureiro, o elegante sapateiro, amante dos livros e dos vinhos. Seu rosto parecia o de um ator italiano e tinha o porte de um bailarino espanhol. Naquela época seus cabelos ainda estavam grisalhos, vestia uma calça cáqui de fina alfaiataria e uma bonita camisa imaculadamente branca, contrastando com as cores escuras do ambiente. Tal e qual o Velho, estava sorrindo e cheguei a desconfiar que estava feliz. Cumprimentou a todos com discrição, mas sem alterar o belo sorriso que lhe coloria o rosto, o que gerou muitos olhares de reprovação. Ao se dirigir à viúva, teve o abraço rejeitado. Sem se sentir ofendido, o sapateiro tirou uma pequena gaita do bolso da calça e pediu educadamente a permissão para tocar uma canção. Em singela homenagem, tocaria a música que o irmão mais gostava de ouvir. Uma velha canção irlandesa, de ritmo alegre, cujos versos falavam sobre a beleza de viver. Em cólera, a viúva o acusou de estar tripudiando sobre a morte do marido em atitude de total desrespeito, seja pelas cores claras da roupa ou pelo jeito jovial. Ouvi alguns breves comentários em apoio a mulher.

Loureiro escutou a tudo sem dizer palavra. Quando ela se calou, ele disse: “Amo o meu irmão. Fomos os melhores amigos, desde sempre. O que você encara como o fim de uma história vejo como o início de uma longa viagem para terras distantes, onde ele poderá viver dias ainda melhores, a colher perfumadas flores, pois, nesta existência semeou amor por onde passou. Esta capela nada mais é do que a plataforma da estação. Respeito, mas não vejo motivo para tristeza. Quero comemorar o belo homem que foi, o grande espírito que se tornou, celebrar a minha saudade com alegria e dar-lhe um ‘até breve’”. Loureiro foi interrompido pelos gritos de censura da viúva e se formou uma pequena confusão.  O Velho rapidamente passou o braço sobre os ombros do sapateiro, fez um sinal com a cabeça para mim e saímos dali.

Lei da Renovação.

“É necessário, de tempos em tempos, esvaziar as gavetas do coração”, me disse o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo do mosteiro. Ele tinha me convidado para um passeio pela floresta, localizada nos arredores, ao perceber a minha inquietação e irritabilidade com os demais monges e discípulos da Ordem. Uma nova situação familiar tinha trazido à tona lembranças desagradáveis que alteraram o meu humor no trato para com todos e a minha paz para comigo mesmo. Reclamei bastante da maneira como algumas pessoas tinham me magoado no passado. Ele me olhou com sua enorme compaixão e disse: “O ressentimento cria uma verdadeira algema energética que te mantém atado ao ofensor em uma terrível prisão sem grades. A mágoa entope de sujeira o seu armário sagrado, o coração. A raiva envenena as águas que abastecem a fonte da vida, o amor”. Deu uma pequena pausa e concluiu: “É impossível ser feliz sem perdoar”.

Argumentei que eu já tinha perdoado, porém me negava a esquecer para não permitir que me magoassem de novo. O Velho riu com vontade quando falei isso, o que me trouxe ainda mais irritação. Depois, olhou como se mirasse uma criança e me instigou: “Você não conhece o perdão”. Falei que ele estava enganado, pois eu não desejava nenhum mal àqueles que me ofenderam e, assim, eu decretara o perdão. O Velho balançou a cabeça em negação e disse: “Não, Yoskhaz. Não desejar o mal é o primeiro degrau até o perdão; depois limpamos os escaninhos da alma até esquecermos a ofensa; por fim, desejamos o bem do agressor. Este é o percurso até o perdão”.

Equilíbrio improvável.

 

Eu caminhava pelas montanhas do Arizona ao lado de Canção Estrelada, o xamã que possuía o dom de transmitir a sabedoria dos seus ancestrais através da palavra, cantada ou não. Ele queria me mostrar o seu Lugar de Poder, como se denomina na mitologia nativa o local onde cada qual se sente mais à vontade para se conectar com a inteligência cósmica. “De todos os lugares do planeta é possível abrir um canal ou uma ponte, no entanto, há locais, por razões diversas, onde a ligação é mais intensa. O mar é um santuário; a montanha, uma catedral; a sua casa, um templo. Seja pela quietude, pelo som das estrelas, pela integração com a Mãe-Terra. Por alguma razão pessoal ou por ser um lugar onde as pessoas vão há séculos rezar, como nas igrejas, ancorando a forte vibração do universo, cada indivíduo deve encontrar o local onde sinta a força dessa conexão”, explicou o xamã. Ao chegar ao Lugar de Poder de Canção Estrelada, um pequeno platô bem próximo ao cume, não tinha como deixar de perceber uma árvore, presa pelas pontas da raiz, resistindo bravamente na beira de um penhasco, de maneira elegante e impensável, contra o vento, a chuva, o sol, a neve e a gravidade. Comentei que ela não conseguiria aguentar muito tempo. O xamã sorriu e disse com seu rosto vincado por dezenas de invernos: “Ela está nessa mesma condição desde que eu era menino e vinha passear nesta montanha com o meu avô. Provavelmente continuará depois que eu realizar a grande viagem”. Fez uma pequena pausa e continuou: “Uma raiz forte é indispensável para enfrentar as tormentas que existem na vida. Não é diferente com ninguém”. De pronto, perguntei o que era necessário para eu ter uma raiz tão poderosa capaz de me manter inabalável às piores tempestades.

“As raízes de cada um são o conjunto de três coisas: saber exatamente quem você é e não fugir ao combate do aperfeiçoamento pessoal”. Falei que faltava uma última coisa. Ele olhou para a árvore-equilibrista antes de concluir: “A terceira parte da raiz consiste em dominar a arte do equilíbrio improvável. Lembrar-me disto foi a função desta árvore por toda a minha vida. Isto a torna sagrada para mim”.

A Lei dos Ciclos.

 

O Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo do mosteiro, tinha sido convidado para ministrar uma palestra em prestigiosa universidade. Nessa época, eu era o discípulo designado a acompanhá-lo. Ao final de seu discurso, como de costume, respondia a uma infinidade de perguntas. Sua abordagem sobre os vários aspectos da vida era sempre desconcertante. Dessa vez, não foi diferente. Ele atendeu a todos com carinho e paciência. Já no metrô, de volta ao hotel, uma mulher veio falar conosco. Explicou que tinha assistido à palestra e nos chamou para almoçar. Brincou ao dizer que era uma maneira de arrancar mais um pouquinho do monge. Aceitamos, e fomos para um restaurante próximo. Já acomodados, ela falou um pouco sobre a sua vida e se lamentou que determinada situação sempre se repetia, como uma história que insistia em ser recontada infinitas vezes, algo que a entristecia e lamentou o próprio carma. O Velho a olhou com bondade e disse: “Penso que há um equívoco em relação ao entendimento do que os antigos denominaram como carma. Hoje em dia, falam como se significasse uma punição. Não, de jeito nenhum. Carma é aprendizado”.

“Não faz sentido que o Universo, com toda generosidade e mestria, tenha qualquer outra intenção, salvo a de nos aperfeiçoar. Muitas vezes a lição endurece em razão da teimosia ou do embrutecimento do aluno. Lição aprendida, carma extinto. Simples assim”.

A face oculta do ciúme.

 

Aos domingos, sempre que possível, eu assisto a missa na catedral da pequena e charmosa cidade que se situa no sopé da montanha que abriga o mosteiro. Naquele dia, o sermão do padre alertava para o que considerava uma banalização dos relacionamentos afetivos, onde as pessoas investiam pouco, segundo ele, não só na construção e adequação da vida a dois, como no convívio social em si. Ele clamava por paciência e compaixão em relação ao outro. Em suas palavras, a humanidade está desistindo de si própria com muita facilidade. Encerrado o cerimonial, eu caminhava por entre as vielas de pedras silenciosas refletindo em tudo que foi dito e os muitos aspectos que envolvem a questão, quando fui surpreendido por Loureiro, o amante dos vinhos e dos livros, em sua antiga bicicleta a me cruzar os passos. Um bom sinal, já que o artesão era um dos últimos bastiões em remendar bolsas e sapatos como opção à troca. A sapataria era o seu ofício, na filosofia exercia a sua arte. Feliz por me ver, sugeriu que sentássemos em uma cafeteria próxima.

Com duas xícaras fumegantes à frente, puxei a conversa falando sobre o sermão dominical e a larga complexidade de uma tendência atual, com suas várias facetas. O sapateiro bebericou o café e quando faria um comentário, nossa atenção foi desviada para um jovem casal que discutia na mesa ao lado. Embora fizessem em voz baixa, quase inaudível, as feições fechadas revelavam uma tempestade de sentimentos conflitantes. O rapaz se retirou de maneira repentina. Em seguida, os olhos da moça se banharam em lágrimas. Loureiro a convidou para sentar conosco e disse para ficar à vontade para conversar ou apenas ouvir. Deu-lhe a palavra de que não faríamos qualquer pergunta. A intenção, sem que fosse dita, era apenas para ela não sentir eventual sensação de abandono. A jovem aceitou e confessou que precisava desabafar. O artesão concordou: “O mais importante em uma conversa nem sempre são os conselhos que recebemos, porém, ouvir a própria voz. Falar costuma nos revelar segredos inconfessáveis do próprio inconsciente”.

A pena além da pena.

 

Toda vez que eu tinha que ir à pequena e charmosa cidade situada no sopé da montanha que abriga o mosteiro não perdia a oportunidade de visitar o Loureiro, o elegante sapateiro, amante dos livros e vinhos. Remendar o couro era o seu ofício; costurar ideias, a arte. Nem sempre eu conseguia encontrá-lo, pois sua oficina funcionava em horários aleatórios. Naquele dia, já ao final da tarde, me alegrei ao ver a sua antiga bicicleta encostada ao poste em frente à loja. Um bom sinal. O bom amigo pediu que esperasse um pouco para terminar um serviço e, em seguida, seguimos para uma silenciosa taberna em busca de boa prosa e uma taça de tinto. Ao garçom que nos atendeu, ele pediu um pedaço de queijo, de marca famosa, para acompanhar o vinho. De imediato retruquei lembrando que o dono daquele conhecido laticínio havia sido condenado por um crime gravíssimo. Falei que não me sentia à vontade para comer daquela marca de queijo e sugeri que pedíssemos uma outra coisa. “Comer do queijo te fará cúmplice do crime?”, perguntou o artesão. Respondi que não iria compactuar com atitudes ultrajantes e acrescentei que agia de acordo com a minha consciência. Ele me olhou com bondade antes de falar: “Sim, sempre agimos em sintonia com as nossas melhores razões e é muito ruim quando isto não acontece. No entanto, expandir a consciência além dos condicionamentos sociais será sempre um exercício de transformação e leveza”.

“Para tanto, a pergunta que devemos fazer é: qual o sentimento que me move? Pois, palavras e atos revelam o que cada qual traz no coração”. De pronto falei que a vontade de fazer justiça me levava àquela decisão. “O sujeito já não cumpre a pena imposta por uma sentença condenatória aplicada por um juiz de Direito”? Eu disse que sim e ele prosseguiu com outra pergunta: “Por que o desejo de ser mais real do que o rei”? Falei que não tinha entendido a colocação. “Toda sociedade é regulada por um conjunto de leis que lhe estabelecem direitos e deveres; regras e limites objetivando a boa convivência”. Interrompi alegando que muitas leis são injustas, algumas rigorosas demais, outras lenientes em demasia. Fora as que beneficiam determinados grupos em detrimento de outros. “É verdade”, concordou o sapateiro para acrescentar em seguida: “Entretanto, toda legislação espelha o exato ponto de evolução da média daquela sociedade e avança conforme haja transformações pessoais. Impor mudanças sem conscientização sedimentada no âmago do ser não se sustenta e não levará às necessárias metamorfoses. Será apenas maquiagem. Cada qual deve ser o retrato da sociedade que almeja através de suas ações. As leis, naturalmente com algum atraso, virão a reboque. Só assim subiremos os degraus”.

Memórias contaminadas.

 

Um dos trabalhos que eu mais gostava de realizar era o de ajudar o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, a cuidar do jardim interno do mosteiro. Aprendi que tudo no mundo reage na exata medida dos nossos sentimentos, em troca incessante. Com as plantas não é diferente. De sobra ainda conversava com o monge e ouvia as suas conversas com outras pessoas. Tudo era aprendizado. Naquele dia, lembro-me bem, fazia um frio não muito intenso em céu azul e o calor do sol trazia um aconchego morno ao corpo, o monge foi surpreendido pela visita de uma sobrinha. A moça, na casa dos vinte anos, estava com a alma em grande bagunça; não conseguia alinhar ideias e sentimentos.

O motivo era o seu relacionamento com o pai. Desde o berço a jovem morou apenas com a mãe. Esta, logo se casou e teve outro filho. Sempre teve uma boa convivência em casa com o irmão e o marido da mãe. O pai, ainda que pese as grandes diferenças de relacionamento com a mãe, nunca deixou de procurar a filha, embora não na maneira que a menina desejava, entendia ou lhe foi dito que ele precisava fazer. Nos últimos tempos as tentativas do pai em se fazer mais presente a incomodavam de uma maneira que ela não sabia explicar, embora não admitisse, e mostravam uma escura lacuna sentimental que necessitava ser colorida. Ela nem sempre reagia bem a essas investidas paternas.

Sentados em um banco de pedra, a jovem desfiou um rosário de situações passadas em que apontava a ausência do pai, onde entendia que ele deveria ter sido atuante. A presença dele, agora mais intensa, de algum jeito, trazia desconforto. O Velho a ouviu com a sua enorme paciência até que ela esgotasse o rol de críticas.  Depois, ele disse com ternura: “Existe um mar de ressentimentos e você parece se afogar nele. Sobreviver nas águas da mágoa só é possível com a boia do perdão; perdoar é respeitar o direito do outro as mesmas infinitas oportunidades que você teve e tem”. Olhou a sobrinha nos olhos e perguntou: “Onde você estaria se a cada equívoco não lhe fosse permitido renovar as chances”? Sem esperar resposta, complementou: “Somente o conhecimento de si próprio concede as bênçãos da tolerância para com toda a gente, degrau fundamental para a paz”.

Maravilhosos vilões.

 

Na pequena e secular cidade, situada no sopé da montanha que abriga o mosteiro, tem um antigo e charmoso cinema em frente à praça da igreja que eu frequentava sempre que os afazeres da Ordem permitiam. Nessa noite, ao final da sessão, encontrei com Loureiro, meu amigo artesão, amante dos livros e dos vinhos. Filosofia e tinto eram as suas preferências. Consertar sapatos era o seu ofício; remendar almas, sua arte. Ele logo me convidou para uma taça em uma silenciosa taberna próxima. A conversa versou sobre o filme que acabáramos de assistir. Eu disse que o que mais me chamava a atenção era o fato de o vilão ter “roubado” a cena, face o excelente trabalho do ator na composição do personagem. O elegante artesão bebeu um gole antes de falar: “Quanto melhor o vilão, mais interessante é o herói. O vilão é essencial na vida do herói, por ajudar no seu aprimoramento. Assim na arte como na vida”.

Discordei de maneira veemente. Eu conhecia pessoas insuportáveis e o meu desejo era simplesmente fazê-las desaparecer como que em um passe de mágica. Loureiro riu e disse: “Se todos nós tivéssemos esse poder, perderíamos as melhores oportunidades de aprendizado e, consequentemente, de evolução. Os vilões têm um importante papel em nossas vidas, assim como nas telas. São os conflitos que movimentam as histórias tanto na realidade quanto na ficção e, para tanto, é indispensável que o antagonista provoque o protagonista a descobrir o melhor de si”.

A melhor parte.

Quando o homem chegou em frente ao mosteiro, o céu ainda era um manto de estrelas. Desceu do carro para apreciar a beleza da construção apenas em seus contornos, possível pelas poucas lâmpadas acesas. Alguém tinha lhe falado da Ordem, da sua raiz secular, dos estudos de filosofia e metafísica aos quais seus monges se dedicavam, além dos trabalhos comunitários. Os únicos sons que ouvia eram dos animais noturnos da floresta próxima. Ele ainda era jovem e tinha abandonado a medicina dois anos após se diplomar, quando terminara a especialização em psiquiatria, para apostar em uma sociedade empresarial com um bom amigo. Os negócios deram certo e tinha ganho muito dinheiro. Comprou um apartamento confortável em badalado bairro de uma metrópole muito apreciada em cartões postais; teve carros caros, mulheres lindas e cobiçadas, viajou pelo mundo, mas nada arrancava ou preenchia o vazio em seu peito, como uma espécie de buraco negro que aos poucos parecia engolir toda a sua luz. Foi surpreendido por um ruído de passos vindo da mata, mas não sentiu medo. Virou-se e viu um facho de luz se aproximando aos poucos. Um monge, com a cabeça coberta pelo capuz a se proteger do frio, caminhava em passos lentos, porém firmes, com um pequeno cesto em uma das mãos e uma lanterna na outra. “As amoras ficam mais saborosas quando colhidas sob o orvalho”, disse o monge quando bem próximo, a mostrar as pequenas frutas acomodadas no cesto. “Adoro geleia”, complementou com absurda naturalidade de quem parecia esperar uma visita desconhecida naquela hora da madrugada. Convidou-o para entrar e tomar um café.

O jovem se apresentou enquanto se dirigiam ao refeitório e perguntou o nome do monge. “Todos me chamam de Velho”. Diante da feição de espanto do outro, acrescentou o ancião: “Penso que é um bom nome. A velhice me trouxe evidentes limitações físicas, um aviso para que eu perceba que a próxima estação está próxima. Por outro lado, me libertou de medos e iluminou sombras. Me fez entender o Caminho, ser leve, aprender o valor da dignidade, o sentido da liberdade e a importância do amor sobre todas as coisas e pessoas. Deu-me uma plenitude no sentir que o vigor da minha juventude não ofereceu e teve o mérito de me trazer até aqui”. Abaixou o capuz para que o homem pudesse apreciar o seu rosto vincado e complementou: “Quando me olho no espelho vejo cada ruga como um capítulo da minha vida, a contar as guerras que precisei atravessar para entender o valor da paz, como um caravaneiro que precisa enfrentar o deserto inóspito para entender toda a beleza e valor do oásis, que por ironia, sempre esteve escondido dentro dele, à sua espera”, finalizou com sua voz mansa e sorriso sincero.

O encantamento dos rituais.

 

A manhã parecia modorrenta. Era o último dia do ano e eu acompanhava pela web os preparativos para as festas em vários lugares do mundo. Todos os jornais traziam as mesmas notícias. A preguiça e o mau humor estavam instalados nas minhas entranhas. Após o desjejum, o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, percebendo o desânimo, me convidou para uma caminhada por uma das trilhas na floresta da montanha que abriga o mosteiro. Por algum motivo que não sei explicar, andar ativa a mente e comecei a desfiar minhas lamentações sobre a desnecessidade das comemorações de Ano Novo, afinal seria uma noite como as outras, com nuvens ou estrelas e o sol inexoravelmente raiaria pela manhã. O monge nada comentou. Animado ao imaginar que ele concordava comigo, quis saber o que ele pensava. O Velho me olhou rapidamente, me ofereceu um sorriso gaiato e disse: “Acho que você está muito chato, Yoskhaz” e continuou andando.

Tristes credores.

 

O vento frio do outono circulava junto comigo pelas estreitas e sinuosas ruas de pedra da secular cidadezinha situada no sopé da montanha que abriga o mosteiro. A tarde ainda estava pela metade, eu já tinha encerrado os meus afazeres e aguardava uma carona que só aconteceria no início da noite. Meu corpo encolhido se protegia das rajadas por entre muros e reentrâncias das charmosas construções, até que vi a antiga bicicleta de Loureiro, o elegante sapateiro, amante dos livros e vinhos, encostada no poste em frente à sua oficina. Consertar sapatos era o seu ofício; remendar almas, um dom. Satisfeito com a sorte, pensei que nada podia ser melhor do que um café quente acompanhado de boa conversa em um final de tarde vadia. Assim que entrei na loja quase fui derrubado por uma bela mulher, já de meia-idade, que saiu como um trator desgovernado pela própria irritação. O bom artesão me recebeu com o seu melhor sorriso e, logo após sentarmos diante de duas canecas fumegantes colocadas sobre o balcão da oficina, disse se referindo a mulher que por pouco não me levou ao chão: “É uma credora emocional. Uma triste e eterna credora”, deu uma pausa antes de completar: “Pelo menos é assim que se arvora diante de todos que cruzam os seus passos”.

Eu quis saber sobre a razão do termo. Ele explicou: “Os tristes credores são aqueles que não sabem reagir diante das dificuldades que se impõem. Como sabemos, sempre viveremos situações desconfortáveis e, por pior que seja, o problema nunca é o problema em si, mas a dificuldade de reação diante da situação. A inércia é prejudicial e surge por não percebermos as lições escondidas por trás de todos os problemas. É fundamental entender que todos os conflitos trazem consigo mestres ocultos a despertar o melhor de nossas capacidades. Todos os problemas são ferramentas de transformação pessoal, desde que o enfrentemos com dignidade e sabedoria”.

As sutilezas da verdade.

O Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, cuidava do jardim no pátio interno do mosteiro quando chegou um homem que nos procurou em busca de amparo às suas aflições. Sentia-se atormentado com uma série de atitudes do passado que, agora, vinham lhe corroer a consciência. O Velho fez sinal para que eu mesmo o atendesse sentado à sombra da roseira. O homem me contou uma triste história onde impusera dor e sofrimento a outras pessoas. Indignado, fui duro em minhas palavras, sem poupar a minha revolta pelo que acabara de ouvir. Visivelmente constrangido, o homem agradeceu, por educação, não por sentimento, se levantou e foi embora. O monge que a tudo assistira, disse: “A sabedoria milenar nos ensina que ‘não é não; sim é sim’, mas temos a escolha de dizer a verdade com mel ou com fel”. Retruquei dizendo que não podemos vacilar com a verdade. Dura ou amarga ela tem que ser dita. “Nesse caso, ele tinha a exata medida dos equívocos do passado, precisando mais de compaixão do que de reprimenda”, o monge expôs seu ponto de vista.

O Velho repousou o alicate no bolso, me ofereceu um sorriso bondoso e falou: “A verdade será sempre um valioso remédio. Como todo medicamento, a dose inadequada se torna veneno”.

A fuga do mundo.

Era um típico dia de inverno. O céu azul, completamente sem nuvens, permitia que o sol nos acariciasse a pele sobre o casaco de lã, em gostosa sensação de aconchego. O dia ainda amanhecia quando fui chamado ao portão para encaminhar um senhorzinho que desejava conversar com o Velho, como carinhosamente chamávamos o decano da Ordem. Como era cedo, o monge sugeriu que a conversa fosse no refeitório ao imaginar que o visitante partira ainda no escuro para alcançar o mosteiro, na montanha, àquela hora. Como a meditação era a primeira atividade do dia, ainda em jejum, e já realizada, todos nos sentamos à enorme mesa. Quando os demais monges se retiraram para os seus afazeres, o Velho perguntou ao visitante como poderia ajudá-lo. O homem manifestou a vontade de fugir do mundo, vez que a solidão o corroía por se sentir abandonado por filhos e netos, cujas visitas eram cada vez mais raras. Tinha a forte resolução de abraçar a vida monástica, aderindo às fileiras da Ordem. Com o olhar suave e voz repleta de bondade, o monge começou a explicar: “Solidão não significa desistência, tampouco fugir do mundo lhe trará a desejada paz. É necessário entender a busca para direcionar o leme do destino”. O homem declarou que estava cansado das ingratidões da vida em sociedade, que tinha se dedicado ao trabalho e à família por toda sua existência para receber apenas esquecimento como moeda de troca. Amargurado, confessou que, se não tinha mais importância para os seus, era melhor se afastar.

“Tudo errado”, disse o velho depois de ouvir com paciência todo o rosário de lamentações. “Para começar é bom lembrar que cada qual tem seus afazeres, compromissos e interesses que tomam tempo. Todos têm uma vida pessoal para cuidar. Aceitar que não somos o centro da vida alheia é um bom início para afastar as lamentações indevidas”.

O sentido da vitória.

 

Era fim de tarde, estávamos sentados na estação a espera do trem que nos levaria até a pequena cidade no sopé da montanha que acolhe o mosteiro. Tínhamos ido visitar uma jovem que passava por tratamento oncológico em um moderno hospital de uma metrópole não muito distante. Como de costume, o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, parecia encantado com tudo a sua volta. O movimento, as lojas, as pessoas; a alegria e a tristeza nas chegadas ou partidas; os abraços emocionados, sorrisos e choros de encontros e despedidas; os solitários. “Esta gare é a síntese do mundo”, comentou sem me olhar, sabendo que eu o observava. Comentei que achava estranho a mania de ele encontrar beleza em tudo e em todos. “É preciso exercitar o ver-além das aparências, das formas e, principalmente, da ilusão. É necessário nos encantar com a essência. O Mestre nos ensinou que ‘quando seu olho é bom, todo o seu corpo é luz’”, citou um pequeno trecho do Sermão da Montanha.

O poder das escolhas.

 

“Ser forte é uma escolha. Ninguém nasce corajoso ou covarde, no entanto, todos os dias, a toda hora, fazemos a escolha por fugir ou enfrentar a batalha que se apresenta dentro e fora de nós”, falou Canção Estrelada, o xamã que através da palavra, cantada ou não, narrava a sabedoria ancestral do seu povo. Estávamos apenas os dois, sentados em torno de uma pequena fogueira sob o manto de estrelas a inspirar a conversa. Naquele dia tinha ocorrido um cerimonial destinado aos jovens da tribo que selava a passagem da adolescência para a vida adulta. Lembrei das palavras ditas pelo xamã ao encerrar o ritual: “O entendimento de que você é capaz de resolver os problemas que surgem, a aceitação da responsabilidade que lhe cabe e a coragem para a luta, desenham a maturidade formada no guerreiro, que somente após ser lapidado em muitas batalhas estará pronto para se sentar entre os sábios”.

O escudo contra o mal.

“Solicitar ajuda das forças luminosas do Universo em prol de uma dificuldade da qual não se tem nenhum controle é louvável, pois demonstra humildade”, disse o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, a um homem que veio ao mosteiro suscitar auxílio em uma situação que lhe afligia. Em seguida alertou: “No entanto, pedir auxílio para que façam o trabalho que lhe cabe, apenas revela a falta de entendimento das Leis, pois não acontecerá. A vida não endurece para maltratar, mas para ensinar. Não há privilégios, apenas lições”

Como uma tempestade que chega sem anunciar, a vida desse homem parecia, de uma hora para outra, virada ao avesso. Brigas familiares insensatas e complicações profissionais que levaram à dificuldade financeira inesperada, eram as consequências imediatas e visíveis do inferno que ele vivia em solo terreno. Com os olhos mareados, se confessou desorientado para continuar na luta. Estávamos no refeitório, os três, e eu lhes servia café com bolo de milho. O homem, de ótima aparência e muito culto, narrou que até há poucas semanas navegava em águas tranquilas pelos mares da vida. Uma família aparentemente bem estruturada; sócio de uma empresa que gerava lucros suficientes para sustentar condição material bem acima da média. Até que, em algum momento, tudo desandou.

“A vida exige movimento. Assim, te fará caminhar por gosto ou imposição. A inércia e o comodismo são ferramentas das sombras a atolar o viajante. Aos que buscam incessantemente o aperfeiçoamento do próprio ser, a vida há de ser generosa, a fornecer todas as condições necessárias para o prosseguimento de uma viagem serena”, explicou o Velho. Deu uma pequena pausa, sorveu um gole de café e prosseguiu: “Aos que se iludem eleitos dos deuses, alheios a tudo e a todos, aos que se imaginam ‘escolhidos’, não tardará o desequilíbrio sobre as situações que o sustentam. A Lei do Serviço é parte do Código Não Escrito e obriga ao trabalho e ao progresso espiritual. Crises emocionais, brigas afetivas, desavenças familiares, dificuldades econômicas ou doenças, são alguns dos instrumentos de instabilidade utilizados pelo Universo para impor novo momento de adaptabilidade diante da realidade alterada.  Agora a criatura caminhará por necessidade”.

“O Caminho é muito generoso em te permitir escolher as rotas da viagem, entretanto, muito justo em elaborar as dificuldades inerentes ao trajeto. O Mestre ensinou há milênios que devemos atravessar a porta estreita das virtudes. No entanto, muitos ainda escolhem seguir pela estrada larga das vantagens indevidas. Afagam o ego em prejuízo a alma. O resultado? Após os prazeres imediatos e transitórios, anda-se em círculos por trilhas cada vez mais escuras e esburacadas. Agonia e tristeza se apresentam como companheiras de viagem”. O homem, muito sensibilizado, confessou que, de fato, não vinha oferecendo o melhor de si. Aflito, perguntou ao Velho como poderia mudar a própria vida, pois não sabia para onde seguir. O monge arqueou os lábios em um sorriso repleto de compaixão e disse: “Quer um novo Caminho? Basta mudar o seu jeito de caminhar”.

“Problemas sinalizam a necessidade de mudanças. Entenda o que você precisa transformar em si e se dedique a isto com sinceridade. Só então chegará a ajuda da esfera invisível”.

O homem argumentou que sofria muito, não imaginava como fazer e, mais, a atual situação se mostrava tão nebulosa que não acreditava ser capaz de solucionar todos os problemas sem a ajuda das forças superiores. O Velho respondeu com a voz bondosa: “O Universo não quer que você sofra, porém exige que você evolua para chegar a próxima estação. Aprender, se transformar, compartilhar e seguir são momentos distintos de cada etapa nas inúmeras existências permitidas, como escolas de sabedoria e amor”.

O homem disse que precisava também de muita proteção, pois tudo de ruim parecia acontecer a ele naquele momento. O monge mordiscou um pedaço do bolo e falou: “Estamos sujeitos à inexorável Lei da Ação e Reação, uma das que compõe o Código Não Escrito. Ela atrai para a sua vida pessoas e situações que lhe são adequadas, não por punição, mas de acordo com o rigor necessário para o aprendizado do aluno, no mesmo diapasão de suas atitudes. O perfume da flor atrai pássaros e borboletas; o odor do esgoto chama para si os ratos e as baratas. Assim, escolhemos os que nos acompanham e definimos o destino próximo”.

“Ninguém está fora do alcance das Leis. Os guardiões ou anjos do Universo ficam impedidos de interferir em razão da situação conflitante ser parte da lição que cabe a você. Assim, você precisa se ajudar para ser ajudado. É uma grande ilusão achar que a casa do mal é o mundo. A sua raiz está em cada um de nós, em maior ou menor intensidade, a depender da expansão de consciência individual. Acredite, ninguém lhe prejudica mais do que você mesmo. Equalizar emoções e pensamentos nas ondas de Luz, envolvendo-os com amor, para que possam se materializar em boas atitudes é a defesa mais eficaz contra o mal. Pois, cria uma abóbada de proteção energética a sua volta, a permitir a aproximação de seus exércitos com maior rapidez, permissão e poder. Como pode ver, o melhor escudo contra o mal é um coração puro”.

“Nunca lhe faltará o auxílio. Entretanto, cada qual terá a ajuda na exata medida das suas necessidades de desenvolvimento, da vontade sincera de se transformar, de semear flores para quem vem atrás. Não podemos esquecer que as dificuldades nos trazem as lições indispensáveis para o aprimoramento da alma, muitas vezes ainda bem embrutecida, necessitando de métodos rigorosos de aprendizado”.

“Reflexões e meditações no encontro consigo próprio são ferramentas poderosas para a ampliação de consciência. Leituras auxiliam na criação de ideias e sustentação filosófica. As preces germinadas no coração são de extremo valor, pois auxiliam no equilíbrio emocional e o auxílio rogado, de algum jeito, nunca faltará, no entanto, não esqueça que santo nenhum dará os passos que cabem a você. A ajuda jamais chegará em forma de carroças repletas de ouro ou que a pessoa amada se dobre aos seus desejos. O auxílio vem através de sinais que indicam um novo sentido e aos ‘acasos’ que criam situações inimagináveis a fim de nos proteger. Ou por intermédio de intuições luminosas que indicam as indispensáveis metamorfoses da alma, as mudanças em seu sentir, pensar e agir”.

“Esta é a alquimia da vida: a transformação de sombras em luz, de dor em amor. Este é o mais precioso dos milagres e muitos nem se dão conta de que os têm na mão”.

Como um vício moderno, o homem reclamou da situação do planeta, que está tudo errado em todo lugar e do mal que parece campear sem rédeas. O monge mirou em seus olhos com doçura e falou: “Quando lamentamos o mundo, criticamos a nossa própria situação interna. O mal é fruto das sombras que habitam cada um de nós, nossas imperfeições e dificuldades, a formar um coletivo de iniquidades. Do contrário é também verdadeiro afirmar que somos a Luz na construção do bem e na manutenção da Obra. Através dos séculos o mundo sempre foi a exata fotografia de nossos corações. Do meu e do seu. Quer mudar o mundo? Transforme a si próprio. Como? Aperfeiçoe as suas escolhas”. O homem acenou com a cabeça em concordância, mais por desconcerto do que por satisfação.

Em seguida, tornou a lamentar a própria situação e insistiu que lhe fosse dito como, de forma objetiva, poderia reverter as atuais dificuldades. “Não faço a menor ideia”, disse o Velho. Diante do olhar atônito do homem, pediu para que eu lhe servisse mais um pouco de café e explicou: “Administrar a vida alheia é muito fácil e tentador, entretanto também demonstra leviandade e arrogância. O exercício da vida, com suas dores e delícias, é a ferramenta pessoal e intransferível de que dispomos para desenvolver as asas da alma, alavancar a nossa evolução. Entenda, aceite e use adequadamente a liberdade de buscar e decidir”.

“Apesar de nunca lhe faltar ajuda – e que sejamos claros, não para um desfecho mágico dos seus problemas, pois o auxílio não será na medida dos desejos do seu ego, mas das necessidades de sua alma, ou seja, por intermédio de condições para alterar, por si e através de si, a realidade – a parte mais importante do processo terá que ser feita por você, na ampliação de sua consciência, no burilar do coração, no desapego dos velhos conceitos. Medidas que refletirão no aprimoramento das suas escolhas”.

Observou o homem por alguns instantes e aconselhou: “Procure o silêncio e a quietude para ficar a sós consigo. Mergulhe fundo, conhecer a si próprio é a estrada para a plenitude. Estabeleça para si mesmo cláusulas invioláveis de amor e dignidade. Perceba o que precisa ser modificado em sua vida. Absolutamente tudo pode ser diferente e melhor. Todos os sábios já fizeram isso para romper a dureza do casulo e sentir as asas da liberdade”.

O Velho pediu para unirmos as mãos e fez uma prece sentida por amor e Luz. O homem agradeceu educadamente a conversa, a oração e partiu. A sós com o Velho, falei que tinha a impressão de que o visitante tinha ficado um tanto decepcionado. “Poucos aceitam os encargos e o trabalho que lhes cabem. Todavia, se as minhas palavras forem uma boa semente, cedo ou tarde germinará”, disse o monge. Deu uma pequena pausa e finalizou: “Na verdade, as transformações exigem grandes esforços que nem todos parecem dispostos a operar. Pensam ser mais fácil rogar por um milagre, que nunca virá, pois o bom educador não faz o dever do aluno. Roga-se por socorro para que se materialize um castelo de muros altos a garantir privilégios e mordomia, quando, na realidade, a ajuda sempre chegará em forma de ponte, toda vez que existir a vontade sincera do andarilho em caminhar e atravessar o abismo”.

 

 

Meu personagem favorito.

Estava com Loureiro em uma taberna na pequena e secular cidade próxima da montanha que acolhe o mosteiro. Tínhamos acabado de trocar ideias sobre sofrimentos e decepções. O bom sapateiro fundamentara, com mestria, que o amor não é causa de nenhuma dor e vem sendo injustiçado, desde sempre, por darmos ouvidos às sombras, emoções sem nobreza, ao invés de compreendermos toda a grandeza de um sentimento capaz de mudar o mundo pela capacidade de fazer florescer o melhor que existe em nós. Já tínhamos solicitado a conta, quando, de repente, ele diz: “Mas penso que não é só. Sempre que falamos das sombras nos referimos àquelas mais conhecidas como inveja, medo, ciúme, vaidade e ignorância. Muitas vezes esquecemos a mentira, talvez por nos ser tão íntima”. Confesso que fiquei atônito. Ele percebeu, riu e explicou: “De todas as sombras, talvez a mentira seja o cárcere de libertação mais difícil, por ser a mais sorrateira. Falo da mentira que contamos para nós mesmos. Ela nos leva à fuga da realidade na ilusão do conforto de quem teme as atribulações do bom combate. Essa sombra no leva a criar e a interpretar papéis distantes da verdade”. Deu uma pequena pausa e foi adiante: “Existe mais da nossa essência na parte que escondemos do que no pedaço que mostramos; há mais oculto no fundo da gaveta do que aquilo exposto na vitrine. Isto é o que vendemos de nós, aquilo é o que somos. Esta é a razão de muitas frustrações”.

Pedi para que fosse mais claro no seu raciocínio. O bom sapateiro teve boa vontade: “Criamos personagens, repletos de virtudes que ainda não temos, a nos representar nos círculos sociais. Todos desejam ser amados, admirados e idolatrados. Na superfície todos conseguem se mostrar bons e circulam na ilusão de ser o que ainda não são. No entanto, os relacionamentos impõem a hora do mergulho profundo”. Deu uma pausa e concluiu: “Então, a intimidade irá revelar o melhor e, também, o pior que há em nós. É inevitável”.

Ninguém sofre por amor.

Era aquela hora indefinida em que não sabemos se é dia ou noite. Algumas lojas já começavam a se preparar para fechar. Apressei o passo pelas estreitas e sinuosas ruas da secular cidade próxima à montanha que acolhe o mosteiro da Ordem. Queria encontrar a oficina de Loureiro ainda aberta para convidá-lo a beber uma taça e conversar. O elegante sapateiro era amante dos livros e dos vinhos. Filosofia e os tintos eram a sua preferência. A sua antiga bicicleta encostada no poste em frente era sinal de que eu estava com sorte. Quando entrei na loja quase esbarrei com uma bela jovem que saía. Percebi suas feições tristes e os olhos avermelhados de chorar. Fui recebido com a alegria de sempre. Loureiro era um príncipe, seu reino era a nobreza no trato pessoal com toda a gente, a elegância dos gestos e do pensamento. Ele costumava dizer que “É preciso iluminar os passos e não empurrar para o abismo. A hora e a maneira de usar as palavras é uma mestria”. Sem que eu precisasse perguntar, me disse que a moça era sua sobrinha e tinha vindo conversar sobre a recente separação. A moça estava inconsolável.

Seguimos para taberna e depois do primeiro gole, comentei o fato das pessoas se abrirem tanto com ele. “Talvez por eu nada perguntar. Acho que isto as deixa à vontade para falar”. Conversamos um pouco sobre o motivo de os relacionamentos afetivos causarem tanto sofrimento. Aproveitei para falar sobre algo que me intrigava: se o amor é algo tão bom, por que este precioso sentimento causa tanta tristeza?

O sapateiro se mostrou logo disposto a enfrentar a questão: “Antes de tudo, se faz necessário entender o amor. Sem nenhuma dúvida o amor é a força mais poderosa do universo, a energia que move e transforma o viajante para as próximas estações do Caminho. O amor é a matéria prima dos milagres desde o início dos tempos, a argamassa que une as pessoas, envolve os mais puros encontros, alimenta a humanidade em suas ceias espirituais. É o sentido da vida. Logo, que fique bem claro: ninguém sofre ou mata por amor”.