A pena além da pena.

 

Toda vez que eu tinha que ir à pequena e charmosa cidade situada no sopé da montanha que abriga o mosteiro não perdia a oportunidade de visitar o Loureiro, o elegante sapateiro, amante dos livros e vinhos. Remendar o couro era o seu ofício; costurar ideias, a arte. Nem sempre eu conseguia encontrá-lo, pois sua oficina funcionava em horários aleatórios. Naquele dia, já ao final da tarde, me alegrei ao ver a sua antiga bicicleta encostada ao poste em frente à loja. Um bom sinal. O bom amigo pediu que esperasse um pouco para terminar um serviço e, em seguida, seguimos para uma silenciosa taberna em busca de boa prosa e uma taça de tinto. Ao garçom que nos atendeu, ele pediu um pedaço de queijo, de marca famosa, para acompanhar o vinho. De imediato retruquei lembrando que o dono daquele conhecido laticínio havia sido condenado por um crime gravíssimo. Falei que não me sentia à vontade para comer daquela marca de queijo e sugeri que pedíssemos uma outra coisa. “Comer do queijo te fará cúmplice do crime?”, perguntou o artesão. Respondi que não iria compactuar com atitudes ultrajantes e acrescentei que agia de acordo com a minha consciência. Ele me olhou com bondade antes de falar: “Sim, sempre agimos em sintonia com as nossas melhores razões e é muito ruim quando isto não acontece. No entanto, expandir a consciência além dos condicionamentos sociais será sempre um exercício de transformação e leveza”.

“Para tanto, a pergunta que devemos fazer é: qual o sentimento que me move? Pois, palavras e atos revelam o que cada qual traz no coração”. De pronto falei que a vontade de fazer justiça me levava àquela decisão. “O sujeito já não cumpre a pena imposta por uma sentença condenatória aplicada por um juiz de Direito”? Eu disse que sim e ele prosseguiu com outra pergunta: “Por que o desejo de ser mais real do que o rei”? Falei que não tinha entendido a colocação. “Toda sociedade é regulada por um conjunto de leis que lhe estabelecem direitos e deveres; regras e limites objetivando a boa convivência”. Interrompi alegando que muitas leis são injustas, algumas rigorosas demais, outras lenientes em demasia. Fora as que beneficiam determinados grupos em detrimento de outros. “É verdade”, concordou o sapateiro para acrescentar em seguida: “Entretanto, toda legislação espelha o exato ponto de evolução da média daquela sociedade e avança conforme haja transformações pessoais. Impor mudanças sem conscientização sedimentada no âmago do ser não se sustenta e não levará às necessárias metamorfoses. Será apenas maquiagem. Cada qual deve ser o retrato da sociedade que almeja através de suas ações. As leis, naturalmente com algum atraso, virão a reboque. Só assim subiremos os degraus”.

Insisti que a minha recusa por aquela marca de queijo demonstrava a minha insatisfação em relação à conduta criminosa do proprietário da marca. “A fronteira entre a barbárie e a civilização é a lei. No início dos tempos a ausência de lei levava a excessos e injustiças. Na atualidade, ir além dos parâmetros legais causam os mesmos danos. Traz pelo avesso do avesso o odioso comportamento de ‘fazer justiça com as próprias mãos’. Isto nada mais é do que a odiosa vingança”, Loureiro tentou explicar.

“A diversão na Idade Média era aos domingos ir para a praça da cidade para assistir o enforcamento de um infeliz qualquer. E como se a forca e a morte não fossem suficientes, o infeliz era obrigado a andar até o cadafalso no meio da multidão. A turba, ansiosa pela desgraça alheia, ofendia, atirava comida podre, cuspia, agredia a socos e pedradas em catarse de enorme sombra coletiva. Na grande maioria das vezes nem sabia o motivo da condenação, tampouco, e pior, as razões que o motivaram ou mesmo se era inocente”. Bebericou do vinho e prosseguiu: “No caso do laticínio, o sujeito já não foi condenado de acordo com as leis vigentes? Já não está trancafiado em absurda jaula humana? Como se não bastasse, ainda querem destruir tudo que lhe envolve a vida”? Deu uma pequena pausa e concluiu: “A diferença entre vingança e justiça é a dose de amor contida na decisão”.

Argumentei que eu possuía um código moral próprio e era indispensável a lealdade aos valores éticos que nele constavam. O artesão me olhou com bondade e falou de jeito sereno: “Não raro confundimos moral com moralismo. O moralismo traz a inflexibilidade na adequação dos notáveis conceitos de comportamento contidos na moral para melhor análise exigida por cada fato. Assim, termina por se tornar contrário à liberdade por aprisionar. A dignidade é a espinha dorsal das palavras e atitudes de um andarilho do Caminho. Mas para que ela não vire um açoite a maltratar todos que o cercam é necessário que esteja sempre revestida com os nobres sentimentos do amor e suas variantes: o perdão, a misericórdia, a compaixão e a caridade, além da humildade, é claro. Ou a Idade Média ainda estará dentro de nós”.

“Boicotar a fábrica do sujeito até a falência será a pena além da pena, pois também acertará centenas de funcionários que serão atingidos pela condenação do desemprego sem que tenham qualquer relação com o fato criminoso; relegar a família do infrator ao desterro moral e financeiro como se fossem coautores é, igualmente, ir além da pena, sempre pessoal e intransferível, atingindo a terceiros inocentes. Serão atos arbitrários embasados pelos absurdos do moralismo e pelo sentimento selvagem de vingança. Tudo isto é muito violento e pode se tornar um mal maior do que o próprio crime praticado”.

Ainda não satisfeito, falei que comer daquela marca de queijo era como se eu fosse permissivo com o crime. Loureiro abriu os olhos em espanto e rebateu de pronto: “De jeito nenhum. Por que desperdiçar a oportunidade de oferecer a outra face? Por que se negar a permitir outra chance? Por que é preciso manter vivo o obsoleto conceito bélico e antiquado de ‘terra arrasada’? Percebe que você confunde crime e criminoso em seu repúdio”? Falei que não estava entendendo onde ele queria chegar e o bom sapateiro tentou explicar: “O mal tem que ser combatido com a firmeza necessária a cada caso, sem nenhuma conivência, não resta a menor dúvida. No entanto, o malfeitor precisa ser ajudado para ser capaz de iluminar as próprias sombras. Percebe que a batalha dele, na essência, é a mesma que a minha ou sua, cada qual em sua dimensão? Todos nós já erramos e continuamos a errar. O erro faz parte do aprendizado e do próprio processo evolutivo, mas para tanto, é indispensável inúmeras novas oportunidades. Recomeçar sempre é uma lei imutável da Luz. A destruição do outro equivale à condenação eterna, atitude intimamente ligada às sombras, um resquício da selvageria que ainda nos habita”.

Abaixei os olhos e em silêncio tive que admitir, ao ver o meu passado como um filme rodado muito rápido, que eu era muito grato pelas inúmeras oportunidades que tive de refazer e recomeçar o Caminho. Sem novas chances o planeta seria um deserto de homens e mulheres. O artesão percebeu o constrangimento e me ajudou de jeito doce: “Desafio qualquer um a abrir o Código Penal de seu país e anotar de maneira sincera todos os delitos que já praticou e as vezes em que foi reincidente. Aplique a cada ato a pena mínima cominada e depois some. O melhor de nós terá muitos anos de cadeia para cumprir”. Lembrei que o Velho já havia feito esse exercício no mosteiro, uma lição de humildade que ele denominava “Espinho na Carne”, a lembrar de nossas próprias imperfeições antes de apontar as alheias. Loureiro finalizou: “As nossas sombras, sempre na ilusão de proteger, nos levam a crer, ainda que inconscientemente, que se construirmos uma imagem deplorável do outro vamos nos sentir melhor e, assim, nos enganam e emperram a inevitável marcha.  Ao desviar o olhar para os tropeços alheios, ao invés de mirar em nossas próprias limitações, fugimos do bom combate. Não, não somos melhores por crer que o outro é pior. Combater o mal sempre será trabalho de todo andarilho da Luz, a começar com a escuridão que se esconde nas próprias entranhas. Entender isto é conhecer com sinceridade a si próprio, a iniciar as indispensáveis metamorfoses que amadurecerão as asas para o fantástico voo até as Terras Altas da Existência, onde mora a paz”.

Aceitei de bom grado o queijo trazido pelo garçom e lhe apreciei o excelente sabor. Levantamos a taça em brinde a todos os mensageiros invisíveis da Luz: “Que possamos plantar com as próprias mãos as mais bonitas e perfumadas flores a construir o Jardim da Terra que o Coração Cósmico anseia”!

Discussões — 2 Respostas

  • Christina Mariz de Lyra Caravello 5 de fevereiro de 2016 on 01:42

    Boa noite Yoskhaz
    Não sei se já sou uma andarilha do Caminho. Mas tenho sido testada em várias ocasiões.
    Numa delas, fui extremamente enganada e prejudicada financeiramente por pessoas bem próximas a mim. Quando aconteceu , senti como se tivesse levado um soco em meu coração. Foi algo tão surreal que custei a assimilar e entender que eu havia sido roubada realmente. E depois fiquei sabendo que várias outras pessoas também e, por causa disso, se juntaram para tentar se ressarcir do prejuízo. E eu também.
    Depois de um certo tempo e de haver passado por situações bem constrangedoras junto às autoridades competentes fiquei sabendo que os responsáveis haviam sido condenados e presos, com tudo que isso quer dizer. Fiquei muito mal. Tinha uma longa história de vida entrelaçada com a deles. Numa das audiências de acareação com os outros credores tentei justificar perante o Juiz, que o que haviam feito não tinha sido por desonestidade, mas por necessidade.
    Os familiares deles deixaram de falar comigo e atribuiram a situação dos pais ao fato de eu haver me habilitado como credora. Esqueceram que havia muitos outros…
    E é aí, Yoskhaz, que entram os ensinamentos desse texto. Eu poderia tentar argumentar com eles contando sobre tudo que antecedeu o grande final…De como fui enganada, de como acreditei nas palavras deles até o dia em que tudo desmoronou a minha volta…Mas pensei e pensei muito….fiquei imaginando qual teria sido a versão contada e na qual, obviamente, eles haviam minimizado tudo que fizeram… E resolvi deixar que acreditassem no que quisessem porque ouvindo a minha história e acreditando nela como iriam encarar os pais? Já estavam passando por uma situação muito dolorosa …
    O que eu ganharia com isso? Eles tinham muito mais a perder…principalmente o respeito pelos pais.
    “A dignidade é a espinha dorsal das palavras e atitudes de um andarilho do Caminho. Mas para que ela não vire um açoite a maltratar todos que o cercam é necessário que esteja sempre revestida com os nobres sentimentos do amor e suas variantes: o perdão, a misericórdia, a compaixão e a caridade, além da humildade, é claro. Ou a Idade Média ainda estará dentro de nós”.
    Honestamente, não resolvi , um belo dia, perdoar, ter misericórdia nem compaixão. Esses sentimentos existem dentro de nós e eles vão aflorando quando pensamos no que os outros estão passando e sentindo e, então, também passamos a conhecer e sentir a Leveza.
    “Entender isto é conhecer com sinceridade a si próprio, a iniciar as indispensáveis metamorfoses que amadurecerão as asas para o fantástico voo até as Terras Altas da Existência, onde mora a paz”.

  • Fátima 4 de fevereiro de 2016 on 17:19

    Belíssima lição!