A minha cidade

Naquele ano, quando entrei no mosteiro para mais um período de estudos, eu estava desiludido com a humanidade. Logo que encontrei com o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, ele me perguntou o motivo de eu estar abatido e com os ombros curvados. “Parece que carrega o peso do mundo nas costas”, comentou. Falei que andava desanimado diante tanto egoísmo e agressividade. Comentei que cogitava a possibilidade de mudar de cidade, pois aquela onde eu morava se mostrava inabitável. Acrescentei que era mal administrada, as pessoas só pensavam nelas mesmas e não mediam os meios de atingir os seus objetivos. O bom monge disse: “A violência sob qualquer aspecto e nível é muito ruim. De outro lado, pensar em si é muito bom e até mesmo fundamental, desde que tenha por intuito compartilhar o melhor que cresce e habita dentro de cada um de nós. O ser é como uma fazenda que precisa de cuidado constante para que o solo esteja fértil, aproveitando cada semente gerada através das experiências vividas; encontros e desencontros serão sempre um valioso celeiro a fomentar a plantação. O grão, quando recebido com carinho, fertilizado pelas chuvas dos sentimentos nobres, fortalecido pelo sol das ideias sutis que lhe estoura a casca permitindo a manifestação da essência transformadora, polinizado pelos ventos oriundos das diferenças pessoais, adubado pelas virtudes aperfeiçoadoras da vida, protegido conscientemente das ervas daninhas que sufocam o crescimento, com o olhar atento do fazendeiro que encontra a beleza em um simples caroço por perceber a árvore que nele está oculta e, por fim e não menos importante, com a sabedoria de aguardar pelo tempo indispensável ao amadurecimento para que da semente ocorra o milagre da flor”. Fez uma pequena pausa antes de prosseguir: “Uma fazenda abandonada se torna imprestável; assim como, perde o sentido aquela que desperdiça a sua produção. Há que se ter amor tanto para produzir quanto para distribuir os frutos”. Olhou-me nos olhos e falou: “Assim são as cidades. Moramos na cidade que construímos dentro de nós”.

Interrompi para falar que enquanto ele usou a metáfora da fazenda, eu tinha entendido. Entretanto, o conceito ficou confuso quando usado quanto à cidade. Ele enlaçou o seu braço no meu e nos encaminhou até a cantina do mosteiro sob a alegação de que aquela conversa precisava de uma caneca de café e um pedaço de bolo de aveia. Depois de acomodados, com uma xícara fumegante à frente, ele prosseguiu o raciocínio: “Quando estamos incomodados em um lugar temos o direito e o dever de buscar outro que melhor se adeque ao estilo de vida que escolhemos para nós. Grandes metrópoles movimentadas ou pequenas vilas bucólicas; locais que prezem pela modernidade, variedade de negócios, pelo farto oferecimento de serviços e diversões ou, em razão da quietude necessária naquele momento da existência, por uma cidadezinha que permita um maior contato com a natureza, onde o tempo parece transcorrer sem pressa. Todos os lugares são perfeitos centros de aprendizado e têm as suas funções e valores. No entanto, você não estará confortável em nenhum deles se a cidade que construiu dentro de você estiver desarrumada e não funcionar corretamente”.

Falei que começava a compreender, mas precisava que ele explicasse melhor. O monge foi atencioso: “Não faz diferença se está na Quinta Avenida em Nova Iorque ou em um monastério em Katmandu, quando por dentro tudo está bagunçado, você não encontrará o que procura. O melhor lugar, seja onde for, só será confortável se a cidade que construímos dentro da gente for bonita e próspera”. Comentei que não era bem assim, pois o planeta estava repleto de lugares miseráveis, seja pelas guerras, seja pelas condições sub-humanas impostas por governantes irresponsáveis. Argumentei que era impossível ser feliz vivendo em um lugar assim. O Velho deu de ombros e disse: “Cada espírito tem a sua necessidade própria de aprendizado e evolução. A imperfeição, embora não seja desejável, tem a importância de nos fazer entender e construir a perfeição, sempre ao nível da capacidade e ferramentas já conquistadas. Há os que precisam sair daquele local pela falta de sintonia com o seu momento evolutivo; outros fogem por covardia ou desistência. No entanto, há aqueles que procuram justamente essas cidades por entenderem a oportunidade maravilhosa de levar luz onde as sombras imperam. Estas pessoas fazem uma enorme diferença no mundo. Porém, para isto, é indispensável habitar em uma cidade interna e imaterial na qual reine a harmonia e a coragem ou restará condenado ao desespero e a amargura. Não tenha dúvida, esses indivíduos, ainda que morem em uma cidade física dominada pela pobreza moral, material ou mesmo sob ambas as condições, estarão plenos em felicidade, paz, liberdade e dignidade, pois farão o melhor uso dos bons frutos que produziram em suas fazendas internas. Ainda que haja muita turbulência e confusão em volta dos seus corpos, as suas almas habitam em cidades tranquilas e serenas”. Bebeu um gole de café e ponderou: “Vale salientar que a recíproca também se aplica. De nada vale ao corpo morar em cidades progressivas se o espírito habita em região ainda arraigada por conceitos ultrapassados. Não haverá serventia se estabelecer em belos vales floridos se o indivíduo é sacudido por intenso caos interno e as tempestades da existência o mantém em constante estado sombrio”.

Tornei a interromper para comentar que o raciocínio estava equivocado, pois embora eu morasse em uma cidade detestável, dentro de mim havia uma cidade maravilhosa e espiritualizada. O Velho me olhou com compaixão e perguntou: “Será”?

Respondi que eu não tinha dúvida. O bom monge expandiu o seu raciocínio: “Entender e arrumar a sua cidade interna permite que você se pacifique com a cidade em que mora, independente de qual seja. Quando não sabemos quem somos nenhuma cidade nos parecerá amigável. Não seremos cidadão de lugar nenhum. Sempre haverá problemas e desconforto”.

“Costumamos reclamar da violência urbana, mas costumamos esquecer as ofensas que proferimos diariamente nas mais diversas formas. Antes de lamentar temos que nos perguntar o quanto da agressividade urbana é fruto de sementes que lançamos descuidadamente ao vento? As sementes a que me refiro são nossos pensamentos, palavras e escolhas. Amaldiçoamos as insatisfações e contrariedades em conversas entre amigos, nas redes socias e até mesmo em pensamento. Quando, por exemplo, apregoamos os defeitos de comportamento de outra pessoa, desviamos a atenção quanto às nossas dificuldades e o trabalho no aperfeiçoamento das virtudes próprias, aquelas que nos são inerentes e as quais temos, por obrigação, de lapidar. Vigiamos os outros e esquecemos de tomar conta de nós. Na busca pela felicidade desejamos que todos se adaptem aos nossos interesses na vã tentativa de fugir ao esforço pela construção íntima, sem perceber o quanto isso alimenta conflitos. Assim, adiamos as transformações indispensáveis ao estado de plenitude que tanto ansiamos, em total contradição ao processo evolutivo. Nos tornamos amargos e desesperançosos na espera e na insistência que nos tragam aquilo que temos de buscar”.

“Lamentamos as ruas estreitas e esburacadas que não permitem a melhor fluição do tráfego ou o lixo espalhado nas calçadas atrapalhando a passagem e enfeando a paisagem. Porém, esquecemos de pavimentar, expandir e limpar as vias por onde transitam as nossas ideias, engarrafadas por preconceitos ou condicionamentos socioculturais que atravancam a circulação dos melhores desígnios, impedindo que os bons propósitos atravessem a Ponte do Discurso para chegarem à Praça das Ações Renovadoras. Você já se deu conta da quantidade de lixo mental e sentimental que produzimos diariamente? Quantas vezes por dia deixamos de usar a vassoura de luz para espanar a poeira de sombras que nos imobiliza e impede que saiamos do lugar ou torne mais agradável o lugar que habitamos em nós? Invariavelmente, todos os dias temos a oportunidade de recolher os dejetos de tudo de podre que ainda ocupa espaço interno e impede que as novas possibilidades se manifestem. É preciso despachar tudo aquilo que atravanca e não mais nos movimenta através dos caminhões da transformação, com os seus eficientes garis de limpeza pessoal”.

“Abominamos a corrupção governamental, mas não percebemos o quanto de egoísmo depositamos em nossas pequenas escolhas do cotidiano, muitas vezes mais por hábito e comodidade do que por questionamento. A corrupção nada mais é do que os braços longos do egoísmo individual que se junta a outros, ganha força e se espraia em nuvens pesadas sobre a cidade que moramos. Assim, acabamos por alimentar a decomposição moral da sociedade, que por ironia e tragédia, tanto incomoda”.

“Queixamo-nos da injustiça em diversos níveis sociais, contudo, fechamos os olhos quando da oportunidade de usufruir de algum privilégio. Aliás, costumamos usar as leis do mundo como escudo para garantir interesses em detrimento à pratica de um código ético escrito pelas preciosas virtudes no exercício de evolução do ser, como a justiça, a generosidade e a sensatez, na aplicação do discernimento luminoso e da boa vontade”.

“Lamentamos a arrogância dos poderosos; debochamos da vaidade pela aparência; ridicularizamos o orgulho de vidro dos que se imaginam fortes, esquecendo de burilar as virtudes primordiais da humildade e da compaixão que verdadeiramente oferecem o poder que liberta ao invés de dominar; fortalece sem esmagar; ilumina a essência, templo de toda a beleza”.

“Reclamamos que a cidade é mal governada sem nos dar conta de como administramos com desleixo as nossas escolhas, instrumentos vitais de transformação. Não temos dificuldade em apontar uma série de descasos e descuidos em relação à diversos aspectos civilizatórios. No entanto, somos incapazes de perceber o quanto nos abandonamos no comodismo da existência, relegando, cada qual a si mesmo, à mera sobrevivência pelo automatismo em que mapeou as escolhas pessoais e a manter apagados os lampiões dos becos sombrios. Em um primeiro momento, a luz costuma incomodar quando nos esquecemos na escuridão”.

“Enfim, nenhuma cidade do planeta lhe trará acolhimento enquanto o indivíduo não organizar e pacificar a cidade interna que arde em conflitos”. Deu uma pausa e concluiu: “Embora repleto de imperfeições, o desconforto que o mundo lhe causa é reflexo das suas dores e incompreensões, que ao projetá-las de maneira difusa, impedem o diagnóstico e a cura. Esse é o tratamento que permite encontrar as cores vibrantes da vida. A cura do ser é a perfeita engenharia de reconstrução do mundo. Todo o resto são obras de mera manutenção”.

“Seja a cidade que deseja”.

Abaixei os olhos. Não reconhecer os fundamentos nas palavras do monge era adiar a inevitável reforma da minha cidade interna. Confessei que ela estava despedaçada, em cacos, como um paciente que agoniza repleto em feridas. O Velho tocou o meu queixo para eu levantar a cabeça e disse com doçura: “Não lamente as feridas. Como nos ensinou Rumi, o sábio dervixe, ‘as feridas são as fendas por onde a luz atravessa, se instala e liberta’”.

Em agradecimento, ofereci um sorriso sincero. Só então, me dei conta que ainda não havia sorrido desde que tinha chegado ao mosteiro.

 

Discussões — 4 Respostas

  • Brunão 24 de julho de 2017 on 07:59

    “Em um primeiro momento, a luz costuma incomodar quando nos esquecemos na escuridão”.

    Prefeito!

  • Lourival Matias 23 de julho de 2017 on 23:20

    Simplesmente SENSACIONAL!

    Esse texto ilustra o quão estamos destruídos e o por que não nos encaixamos, sem paz interna e organização mental e sentimental, jamais estaremos bem em lugar algum, como uma cidade que deve ser organizada para funcionar, assim deve ser nossos sentimentos e pensamentos. Esse é o desafio, que as obras comecem…

  • Angélica Pellegrino 20 de julho de 2017 on 21:12

    Todos os dias é dia de arrumar a cidade interior! 🙂
    E sorrindo! 😀
    Receba a minha gratidão por mais essa Luz.

  • Claudia Pires 20 de julho de 2017 on 13:59

    Sensacional texto de cidadania interna.