O décimo-quinto dia da travessia – navegar sem água

O dia amanhecia. Sentado na areia com uma caneca de café fresco na mão, eu observava o caravaneiro adestrar o seu falcão. Era encantador constatar que ela sempre retornava com o seu alimento, apesar da aridez do deserto. Os olhos sagazes da ave conseguiam encontrar algo onde, para olhos despreparados, não havia nada. Assim que o falcão pousou na grossa luva de couro que o caravaneiro usava no braço esquerdo, me levantei para me preparar para aquele dia da travessia. Enquanto eu colocava o meu alforje no camelo, ouvi a conversa descontraída de um grupo de mercadores que também integravam a caravana rumo ao oásis. Um deles, bem jovem, comentava que esperava logo ter condições de comprar uma bela casa em um aprazível bairro de Marraquexe, quando, então, pediria a sua namorada em casamento. Acrescentou que precisava de um bom lugar para criar os filhos que planejavam ter juntos. Outro, disse que não tirava férias há muitos anos. Estava cansado e precisava descansar. No entanto, somente faria isso quando conseguisse abrir a sua sonhada loja de tapetes no mercado central da cidade, pois queria ter condições de educar os filhos em boas escolas. Um terceiro mercador, mais velho, que também fazia parte do grupo, contou que, apesar de ser dono de várias lojas, também não tirava férias há muito tempo, quando almejava peregrinar a Meca. Esperava que o filho voltasse do exterior, onde fora cursar a universidade, para que assumisse o comando dos negócios da família. Alegou que não confiava em mais ninguém. Tudo arrumado, a caravana aprumou para partir. Para minha surpresa, quem alinhou ao meu lado foi Ingrid, a astrônoma, com quem eu tinha me desentendido no dia anterior. A proximidade dela me alegrava o coração.

Logo começamos a conversar. Contei a ela a conversa dos mercadores que acabara de ouvir e comentei o meu espanto pelo fato de as pessoas sempre estarem à espera de um acontecimento futuro para fazer aquilo que, acreditam, as farão felizes. Ela me perguntou o que eu faria quando retornasse do oásis, após o meu encontro com o sábio dervixe, “conhecedor de muitos segredos entre o céu e a terra.” Falei que era difícil responder, pois não tinha a menor ideia do que iria acontecer. Confessei que, no fundo, esperava por algo transformador. Ingrid quis saber se eu precisava estar com o sábio dervixe para mudar o rumo da minha vida, caso eu assim desejasse. Fiquei incomodado com o questionamento da astrônoma. Contei que já tinha realizado transformações angulares no curso da minha existência. Revelei que tinha formação em medicina, a qual abandonei para trabalhar com publicidade. Acrescentei que fiz isso quando me dei conta que o meu dom não era curar, mas criar. Falei, ainda, que eu estava triste e perdido naquela época. Conhecer a Ordem foi primordial para as mudanças que eu precisava fazer. Ela discordou. Falou que as mudanças já deveriam estar maduras em mim, mesmo que inconscientes. O convívio no mosteiro apenas facilitou o florescimento delas. Ingrid disse que, assim como na conversa dos mercadores, ficar à espera de algum acontecimento para efetuar as mudanças que sentimos necessárias era um erro. Argumentei que nem sempre temos as condições de fazer o que desejamos e que, sim, algumas vezes precisamos esperar por algo que está fora do nosso alcance.

Perguntei a ela o que pensava em fazer na volta da caravana, após ter estudado a constelação a que se propunha, visível apenas do oásis. A astrônoma explicou que, a se confirmar as suas desconfianças, iria escrever um artigo sobre o assunto. No mais, seguiria como professora. Aguardava a abertura de concurso para uma vaga na cátedra da universidade, pois vinha se preparando há tempos para isto. Falei que, como todas as pessoas, ela também esperava por algo, sem o qual não poderia realizar as pretendidas mudanças em sua vida. Ingrid discordou. Explanou que havia uma diferença entre as situações que estavam além das nossas escolhas e aquelas que estavam ao nosso alcance, mas que adiávamos por medo, egoísmo ou ignorância quanto ao próprio poder de transformação. Entender quando estamos verdadeiramente diante de um ou outro momento era um ato de sabedoria. E de coragem.

Argumentei que ela estava sendo contraditória; a astrônoma negou. Em seguida, contou que começou a sua carreira profissional como pesquisadora no observatório da sua cidade. Seguia um plano de estudos traçado pelo coordenador da sua equipe. Após alguns anos percebeu que tudo tinha ficado chato, pois o seu trabalho se limitava a verificar um conhecimento já consolidado pela ciência. Falou que era um trabalho importante, como são todos os trabalhos, mas que não era o seu dom. Disse que o seu dom era descobrir, desbravar, para depois compartilhar os novos conhecimentos. Isto a motivava, a tirava da cama todos os dias, animava a sua vida. Então, determinada da transformação que precisava, apesar da opinião contrária de algumas pessoas próximas, pediu demissão do observatório e partiu em viagem para a Antártica, decidida a realizar observações em uma determinada nebulosa, apenas visível a partir do Polo Sul. Na volta enviou o resultado dos seus estudos, em formato de artigo, para uma revista científica. Após alguns meses, apesar das incertezas, não havia arrependimento. O seu coração lhe dizia que tinha feito a coisa certa, pois tinha ido ao encontro com o seu sonho. A matéria acabou sendo publicada e, em razão da boa repercussão, ela foi convidada para ministrar aula na universidade na qual era professora. Acrescentou que amava o magistério pela possibilidade permitida em realizar pesquisas e difundir o conhecimento. Falei que ela tinha dado sorte, pois poderia estar desempregada e passando por sérias dificuldades. Ela balançou a cabeça e disse que, sim, era possível que isso tivesse acontecido. Porém, assumira o risco e os resultados que lhe são inerentes. Havia o risco que tudo desse errado. No entanto, o risco de ser feliz e de viver o seu sonho através do seu dom também era real. Então, fez uma escolha; a fez porque queria mudar a rota da sua existência. Sempre existe uma possibilidade de escolha, quase sempre fora das condições ideais de existência, quando se quer transformar a própria vida. Entretanto, as condições ideais não estão no mundo, mas dentro de você. Explicou que por ser uma mudança interna, em um lugar sagrado onde, salvo cada um a si mesmo, ninguém tem autorização para impedi-lo e, melhor ainda, você possui toda a permissão para criar.

Embora de alguma maneira as palavras de Ingrid me incomodassem, a conversa estava interessante. Até que, para o meu espanto, e sem acreditar no que meus olhos viam, a caravana se deparou com um navio encalhado no meio do deserto, a milhares de quilômetros do mar. O caravaneiro avisou que ali era o ponto da breve parada para descanso e uma ligeira refeição que costumávamos fazer no meio do dia. Todos os integrantes da caravana, mesmo os mais experientes, estavam maravilhados diante da cena improvável. Ouvi um turista, que viajava com frequência para visitar parentes que residiam no oásis, que no ano anterior a caravana encontrara o navio em outro local, que não aquele em que estávamos. Fato que, segundo esse turista, comprovava que o navio não estava encalhado, mas seguia navegando mesmo sem água. “Mistério” era a palavra mais ouvida naquele instante de êxtase.

Fotografamos o navio dezenas de vezes para que ninguém duvidasse da história que iríamos contar quando voltássemos para casa. Comentei com a Ingrid que mesmo assim muitos amigos não acreditariam em nossos relatos. A astrônoma sorriu e disse que ela mesma ainda custava a crer naquilo que seus olhos estavam lhe mostrando. Falou que estava com fome e iria pegar alguma coisa para comer. Sozinho, me afastei para fotografar à distância, com maior amplitude, quando me deparei com a bela mulher com olhos da cor de lápis-lazúli sentada na areia, quieta, observando a tudo de longe. Perguntei se podia me aproximar. Ela balançou a cabeça em permissão e apontou com o queixo um lugar para eu me sentar ao seu lado. Ficamos olhando para o absurdo navio por algum tempo até que perguntei se ela sabia algo sobre aquele mistério. A mulher explicou: “O navio faz parte das lendas do deserto.” Falei que lendas são histórias de ficção. Já o navio, ao contrário, estava na minha frente e era real. Sem dar importância ao meu comentário, como se a realidade também fosse naturalmente colorida com as tintas do irreal, ela prosseguiu: “Narra a lenda que havia um intrépido marinheiro que desde muito jovem esteve embarcado nesse navio. O seu sonho era viajar até um porto longínquo chamado Morserus, por causa de um sonho que tivera certa noite. Neste sonho, ao desembarcar em Morserus, encontraria a fortuna e a mulher da sua vida. Lá encontraria toda a felicidade que almejava. Como era um mero marinheiro, sujeito às ordens do capitão, não tinha como seguir para o destino desejado. Com o passar dos anos acabou se tornando o comandante do navio. Podia, então, seguir na direção para onde o seu sonho apontava.  No entanto, agora tinha outras e maiores responsabilidades. Ora não podia ir em razão de alguma carga que precisava entregar em ponto distante do planeta; ora porque as condições meteorológicas não aconselhavam. Sempre havia risco de tempestades e naufrágio. O tempo passou. Esse capitão manteve o barco singrando placidamente pelos mares do mundo enquanto a sua existência permitiu. Nunca naufragou, mas também nunca chegou em Morserus.”

“Nunca soube o que lhe reservava esse porto encantado. Entretanto, embora não revelasse a ninguém, nunca esqueceu do sonho. Desculpava-se em razão de nunca ter tido as condições adequadas para viajar para o porto do seu sonho. Convenceu a si mesmo de que sonhos são bobagens, coisas de quem não entende as responsabilidades da vida. Orgulhava-se de ser um homem sério e cumpridor dos seus deveres. Entretanto, sem entender o motivo, aos poucos foi perdendo a alegria, se tornou ranzinza e a vida restou mais sem graça a cada dia. Tornou-se um pessimista. Por não suportar a amargura do comandante, a tripulação abandonou o navio. Sozinho, o capitão navegou para outro mundo.”

Interrompi para dizer que não era errado ser responsável e cumpridor dos seus deveres. Acrescentei que, esotericamente falando, a vida não acontece quando chegamos ao cais, mas durante a travessia. A mulher balançou a cabeça em concordância: “Sim, é tudo verdade. No entanto, os sonhos são primordiais; eles animam a alma. A responsabilidade e os deveres não anulam os sonhos, ao contrário, os movimentam. Não basta navegar, é preciso saber aonde vamos; não basta fazer a travessia, é fundamental entender o propósito. Senão, restaremos abandonados e nunca chegaremos ao cais.”

Argumentei que sonhos, muitas vezes, não passam de meros delírios. A mulher tornou a concordar comigo e explicou: “Os delírios falam dos desejos de grandeza típicos de um ego dominante. Os sonhos nos revelam tudo aquilo que é essencial para a alma se libertar. Diferenciar um do outro define a direção na qual iremos aproar o navio; se rumo a Morserus ou se navegaremos em círculos.”

Fiquei alguns minutos em silêncio enquanto olhava para o navio. A mulher de olhos azuis tinha razão. É necessário, entre os muitos afazeres da existência, encontrar espaço e tempo para viver o sonho. Falei para ela que a lenda era muito bonita e continha uma bela lição, contudo, nem sempre é fácil, pois ora nos falta condições, ora falta coragem. A mulher sorriu diante da minha conclusão apressada e perguntou: “A história não acabou. Você quer saber como termina?” Pedi para ela continuar. A mulher concluiu: “Ao chegar no outro mundo, em um lugar próximo às estrelas, os bons espíritos trouxeram o capitão e o navio de volta. Só que agora ele tem que aprender a navegar sem água, pelas areias do deserto, para aprender que cada um cria as próprias condições para seguir o seu sonho. Somente assim, um dia, todos chegaremos a Morserus.”

Olhou-me profundamente e finalizou: “Quando partimos em busca do nosso sonho, vivemos em sintonia com a nossa alma. A nossa alma está afinada com a alma do mundo. Então, esta nos acolhe, protege e ilumina para que possamos navegar rumo ao destino que nos aguarda.”

Tornei a me fixar no improvável navio que navegava pelo deserto enquanto me encantava com todos os atributos proporcionados pela lenda. Quando me virei para falar com a bela mulher de olhos da cor de lápis-lazúli, sorri comigo mesmo pela cena recorrente: ela não estava mais ao meu lado.

 

 

 

 

 

 

 

 

Discussões — 8 Respostas

  • Romario Sales 6 de Abril de 2018 on 10:27

    Obrigado por compartilhar!

  • Silvana Ceccon 7 de Março de 2018 on 00:18

    É a história perfeita que eu precisava ouvir hoje. Como o mundo é preciso, a sincronicidade…Maiis uma vez Yoskhaz Gratidão por você nos levar a encontros com nossa alma. 😘💕

  • Helvia Dayrell 5 de Março de 2018 on 15:59

    Lindo texto! Gratidão! Obrigada!🌺👏🤗

  • Joane 4 de Março de 2018 on 03:14

    Gratidão 💗🌹

  • Elma 3 de Março de 2018 on 18:47

    Quanta riqueza de aprendizado em um texto belo, simples e profundo!!!!!!Simplesmente encantada e grata…

  • Douglas 3 de Março de 2018 on 16:17

    A mulher de olhos azuis é uma ninja do deserto.
    <3

  • Adélia Maria Milani 2 de Março de 2018 on 23:36

    Gratidão!

  • Hildes Torres 2 de Março de 2018 on 19:00

    O dia mais lindo para o meu coração. Obrigada!