A medicina da coruja

O tambor de duas faces de Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom de compartilhar a filosofia do seu povo, rufava noite adentro nas montanhas do Arizona, ritmando uma doce canção ancestral cantada em dialeto nativo. Um dos amigos mais queridos do xamã havia falecido. Canção Estrelada estava sozinho em seu lugar de poder, um local onde ele gostava de ir quando queria se conectar com o lado invisível da vida. Era um platô no alto da montanha em cujo penhasco, bem à beira, uma árvore se mantinha em um equilíbrio improvável. No dia seguinte haveria um funeral na cidade, quando todos os colegas e integrantes da tribo estariam presentes. Quando cheguei e estendi a minha manta ao lado da fogueira, o xamã realizava esse cerimonial pessoal. Tudo começou pela manhã. Ao encontrar a sua casa vazia, fui informado por uma vizinha do acontecido. Não foi difícil imaginar onde eu o encontraria. Como ele não fez qualquer objeção com a minha chegada, me sentei e aguardei em silêncio até que se encerassem as canções. Canção Estrelada me olhou, arqueou os lábios em leve sorriso e me cumprimentou com um movimento de cabeça sem dizer palavra. Falei que sabia do acontecido e empenhei os meus sentimentos. Contei que, não por acaso, um grande amigo meu também tinha morrido há cerca de duas semanas. Isto tinha me abalado profundamente. Confessei que eu tinha uma enorme dificuldade de lidar com perdas desse tipo. No entanto, não era apenas isso.

Canção Estrelada ensinava lendas e canções ancestrais em uma escola local há muitos anos para as crianças. O novo diretor designado para o cargo, vindo da capital, tinha dispensado os serviços do xamã, pois entendia que pelo fato de ele não ter nível superior, estava impedido, por lei, de exercer essa função. Eu sabia o quanto Canção Estrelada amava contar histórias e cantar para a meninada. Era fácil perceber como deveria estar difícil para ele lidar com mais outra perda. Eu tinha tomado conhecimento desse fato quando fui ao armazém comprar alguns mantimentos antes de pegar a trilha e subir a montanha. Comentei para o xamã que lamentava também essa outra perda.

Ele me olhou com curiosidade, como quem se diverte com uma criança desajeitada, e disse: “Pode haver perda ou pode acontecer uma transformação. Pode haver drama ou evolução. A escolha é sua. As coisas sempre mudam e é bom que isto aconteça. Contudo, muitas vezes não estamos preparados e tudo parece escuro.” Fez uma breve pausa e falou como quem diz o óbvio: “Por isto vim conversar com a coruja.”

Atônito, falei que não tinha entendido. Perguntei se aquelas canções eram para chamar as corujas da floresta. Olhei para os lados para ver se as aves já estavam pousadas nas árvores. Canção Estrelada deu uma deliciosa risada e sacudiu a cabeça como quem diz que não era bem aquilo. Em seguida explicou: “Os animais não têm consciência, porém cada espécie, em razão do seu instinto, possui uma energia coletiva que paira sobre a atmosfera. Esta energia, embora não seja criadora, é fundamental na manutenção e equilíbrio do planeta. No xamanismo aprendemos a utilizar essa energia, típica de cada espécie, como instrumento de cura. Não diretamente no aspecto físico, mas como força de harmonia e superação nas esferas mental, emocional e espiritual.” Deu de ombros e concluiu: “Que, de alguma maneira, sempre trazem reflexos ao corpo físico.” Fez uma pequena pausa para colocar o fumo no fornilho de pedra vermelha do seu cachimbo e prosseguiu: “Embora possamos usar as energias de todas as espécies para a cura, sempre há alguns animais com quem temos maiores afinidades; são os nossos animais de poder.” Salientou que era uma explicação bem resumida do assunto e que costumava ensinar isso mais profundamente nas aulas em que ministrava para as crianças. Lembrou que os animais de poder eram a base para que cada um entendesse e construísse o próprio totem. Os totens representam as características espirituais, dons e forças predominantes que atuam em uma pessoa, tribo ou clã. Diante do meu espanto, disse: “O universo tem uma sofisticação bem além de onde os olhos podem ver e a imaginação pode alcançar.”

Eu quis saber a razão de ele vir conversar com a coruja. Canção Estrelada foi didático: “A coruja está na cabeça do meu totem pessoal. É o meu animal de poder predominante. Há momentos na vida que alguns acontecimentos tendem a nos empurrar para fora do nosso eixo de equilíbrio. Isto costuma acontecer para impulsionar os nossos avanços a partir da disposição que temos para buscar um novo ponto de harmonia interna. Nesses momentos uso a medicina da coruja para a minha cura.” Pedi para ele falar mais sobre o assunto. O xamã não se fez de rogado: “A coruja, em razão dos seus hábitos, é conhecida entre os povos nativos como a águia noturna. Ela possui uma enorme capacidade de enxergar no escuro; de ver o que os outros têm dificuldade para enxergar. A coruja vê através das noites do tempo.”

Acendeu o seu indefectível cachimbo, baforou algumas vezes e prosseguiu: “Por vezes, vivemos situações em que tudo parece escurecer. Do dia se faz noite. Ficamos perdidos na floresta da existência. Então, se faz necessário encontrar na escuridão o caminho de volta para a luz; a estrada de volta para a casa. Uso a energia da coruja como guia, para aprender a ver no escuro, para mostrar aos meus olhos a trilha da vida; afinal, sempre existirá um jeito diferente de seguir, uma nova possibilidade de ser e viver.”

Eu falei que sabia dos dois momentos difíceis pelos quais ele passava: o falecimento de um amigo e a demissão na escola. Como eu tinha muita dificuldade em lidar com a morte de pessoas próximas, insisti em falar que eu era solidário a ele pela perda que enfrentava naquele momento. O xamã, observando a fumaça do cachimbo que, iluminada pela fogueira, parecia dançar como uma bailarina no ar, explicou: “Há muito tempo não trato mais a morte como uma perda, mas como uma inevitável viagem movida pelo amor do universo, para que, no lado invisível, possamos seguir na jornada rumo à plenitude. A morte não me entristece.” Perguntei se ele achava que a vida era melhor no lado invisível. Canção Estrelada explicou: “Nem melhor nem pior, cada um seguirá na exata régua do nível de consciência e capacidade amorosa já conquistadas, sem escapar das inevitáveis lições cabíveis ao aperfeiçoamento pessoal.” Apontou para o céu e disse: “Há muitas estrelas no firmamento. Cada viajante seguirá para aquela com a qual tem afinidade, encontrando lá outros viajantes iguais a si, que pensam e sentem na mesmíssima sintonia, até que possa seguir a viagem para uma estrela mais brilhante. Isto é sabedoria, justiça e amor.” Tornou a baforar o cachimbo e concluiu: “Portanto, nunca sofro com a morte assim como não sofro quando um amigo viaja. Vou ao velório como quem vai se despedir na estação. Desejo-lhe boa viagem e o lembro para que não deixe aqui o seu coração; é importante que sempre se esteja por inteiro, esteja onde estiver. Como o amor é o laço que une a todos, sei que em algum momento tornaremos a nos abraçar.”

Falei que o discurso era muito bonito, mas que, na prática, eu tinha uma enorme dificuldade de conviver com a morte. Seja a minha, seja a de uma pessoa amada. Canção Estrelada deu de ombros e disse: “Para quem vive bem consigo mesmo, todos os dias são bons para morrer.”

Confessei para o xamã que aquelas palavras me incomodavam. Ele respondeu: “Este é o problema que encontro quando morre alguma pessoa próxima. Se vou ao velório e não mostro uma face de pesar, incomodo as pessoas por aquilo que julgam uma insensibilidade minha. Se não compareço por decidir me despedir ao meu jeito, em outro lugar, recebo uma sentença parecida em teor e condenação por um suposto descaso. Muitos me censuram por se sentirem incomodados pela leveza que tenho diante dessas situações. Como não entendem ou aceitam a morte como um ato de sabedoria, justiça e amor do universo, ficam apavorados; então, causo estranheza e me torno motivo de desconforto a eles. Para que o medo alheio não me perturbe, busco na coruja um olhar que não me deixe aprisionar na escuridão de outros olhares e sigo em paz; digno e livre, na plenitude de um olhar próprio.”

Perguntei como ele se sentia quanto à demissão na escola. Canção Estrelada foi enigmático: “O diretor pode me impedir de entrar no colégio e dar aulas. Contudo, ele não tem o poder de me impedir de ser quem eu sou. Tenho que respeitar as suas funções e decisões. Porém, também respeito o meu dom e as minhas escolhas. Não é necessário que haja conflito na coexistência das diferenças e que fiquemos perdidos na noite da existência. Sempre é possível ver o que muitos têm dificuldades em enxergar.”

No dia seguinte acompanhei o xamã ao velório do seu amigo. Gentil e discreto, ele se postou ao lado do corpo inerte e fez uma prece silenciosa e sincera para que o amigo, em espírito, seguisse em paz e com alegria. Mesmo diante de olhares de censura de uns e tristes de outros, cumprimentou a todos e se despediu. Na saída, encontramos a mãe de um dos alunos da escola. Ela comentou que outras mães tinham avisado que o xamã continuaria as suas aulas sobre a tradição e a filosofia nativa em sua casa, aos sábados à tarde. Ele confirmou a notícia e disse que todos eram bem-vindos.

No primeiro sábado, apenas aquela mãe compareceu com o seu filho. A aula foi na varanda da casa. No segundo sábado a varanda ficou pequena para as seis famílias que foram com os filhos assistir a aula. O xamã levou todos para debaixo do enorme carvalho que havia no quintal. Alguns sábados depois a casa de Canção Estrelada estava repleta de tanta gente. Mães e pais estenderam mantas coloridas pelo gramado. Levaram lanche e refresco. Eu estava encantado com tudo aquilo; as aulas tinham se transformado em cerimoniais de conhecimento e alegria. Sentado em sua cadeira de balanço debaixo da frondosa árvore que imperava no quintal, o xamã foi surpreendido com a chegada do diretor da escola no momento em que a aula daquele dia iria começar.

Fez-se um enorme suspense e o silêncio tomou o ambiente. O diretor atravessou até onde Canção Estrelada estava. Educado, explicou que as aulas do xamã tinham sido suspensas na escola em razão de uma regulamentação a qual estava sujeito sob pena de perder o cargo de diretor. Acrescentou que não era nada pessoal, que não tinha nada contra aquelas aulas e que, se fosse permitido, gostaria que o seu filho também participasse junto com as demais crianças. Canção Estrelada arqueou os lábios em doce sorriso e disse: “O amor dissipa a dor; onde há luz não cabe a escuridão. Muito obrigado por ter vindo e fique à vontade. Minha casa, sua casa”. O diretor fez sinal para que a sua esposa entrasse segurando o filho pela mão. Uma família se espremeu um pouco para compartilhar com eles a manta. Uma suave brisa refrescou aquela tarde de primavera. Por uma fração de segundo achei ter visto uma coruja pousada no carvalho. Houve muitas e muitas aulas sob a copa daquela árvore.

Canção Estrelada e o diretor da escola se tornaram grandes amigos. O respeito, a tolerância, a bondade, a sinceridade, a honestidade e o amor formam o bom caráter; a argamassa de todas as amizades. A coruja ensina que as diferenças só separam na escuridão; nunca na luz. Os conflitos apenas retratam a incapacidade de ver durante as noites da existência.

Naquele momento entendi a razão de a coruja estar presente nos emblemas de diversas instituições de ensino mundo à fora e o motivo de simbolizar a sabedoria em todas as tradições filosóficas e metafísicas desde os tempos imemoriais.

Discussões — 14 Respostas

  • Márcia Campos 11 de Abril de 2018 on 22:11

    Sem palavras..
    Me identifiquei
    Meu animal de poder é a Coruja

  • Vitória Vieira santos 1 de Abril de 2018 on 00:41

    Interessante eu pedir uma amiga faz 13 dias ,quando eu li esse texto fazia uns 3 dia de seu falecimento e esse texto foi de uma enorme serventia ,gratidão 😍♥️♥️

  • João Ricardo 30 de Março de 2018 on 21:04

    Assim como você, tenho dificuldades em lidar com perdas. Seja elas pela mudança de lugar, seja pela partida definitiva “morte”. Tento me convencer de que se trata apenas se uma partida, de uma nova tomada de rumo e que a vida continua, onde quer que estejamos.
    Morrer é renascer em outra dimensão, uma nova oportunidade que o universo é a lei do aprimoramento nos oferta.
    T.’.F.’.A.’.

  • Hildes Torres 28 de Março de 2018 on 21:31

    Cada dia que passa me apaixono mais ainda pelos seus textos. Obrigada!

  • Claudia Pires 26 de Março de 2018 on 16:17

    Sensacional! Grata!

  • Nazaré Dimaria 26 de Março de 2018 on 15:52

    Adoreiiiii..Gratidão.

  • Adélia Maria Milani 25 de Março de 2018 on 23:02

    Amei! Obrigada

  • Patricia Teixeira 25 de Março de 2018 on 19:09

    Que lindo!

    Excelente texto e reflexão!

  • Joane Faustino 25 de Março de 2018 on 16:03

    Gratidão!

  • Elvis 25 de Março de 2018 on 13:26

    Muito obrigado pelos ensinamento que iluminam meus caminhos. Que o Deus do universo o abencoe.

  • Tiago Ferreira 25 de Março de 2018 on 13:15

    Gratidão smp yoskhaz 👏🙏

  • Rita Soares 23 de Março de 2018 on 14:34

    Fantástico… Lição maravilhosa… Gratidão. 🙂

  • Romario Sales 23 de Março de 2018 on 13:56

    Gratidão por compartilhar.
    “Para quem está bem consigo mesmo, todo dia é um bom dia para morrer.”
    Excelente reflexão!

  • Augusto Xavier 23 de Março de 2018 on 09:20

    Excelente conto,obrigado amigo.