O penúltimo dia da travessia – o voo do falcão

Era o penúltimo dia da travessia. Desde muito cedo eu estava de pé. O céu tinha a tonalidade rosada, típica de quando o sol ainda não venceu a linha do horizonte. Eu andei com o caravaneiro para um local afastado do acampamento. Ele avisou que seria o último treinamento antes de chegarmos ao oásis. Em seguida me passou o falcão. Senti a pressão das garras em torno da grossa luva de couro que eu usava no braço esquerdo. Em pensamento, enviei à ave as orientações quanto a ver além dos olhos, mas, principalmente, quanto à simples alegria de se sentir em pleno voo. Retirei a touca que lhe cobria a cabeça. O pássaro me olhou por um breve instante, em seguida fiz o movimento de impulsão e o falcão logo ganhou altura no céu. Planou em círculos por longos minutos até que repentinamente recolheu as enormes asas junto ao corpo em posição aerodinâmica instintiva para um mergulho vertiginoso ao solo. Retornou com uma serpente em suas garras. O caravaneiro se manteve impassível, atitude que interpretei como um sinal de aprovação. Sem nada dizer, eu sorri para mim. Retornamos ao acampamento que despertava. Fui à tenda do refeitório e me servi de uma caneca com café fresco. Tornei a me afastar do acampamento. Com os olhos vasculhei os arredores em busca da bela mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli. Há dias não conversávamos. Muitas coisas importantes tinham acontecido. Eu sentia falta de falar com ela e, principalmente, de ouvi-la. A sua maneira de pensar era peculiar e interessante. No entanto, não a vi naquela manhã. Quem se aproximou foi a Ingrid, a astrônoma nórdica de cabelos ruivos, ao lado do Paolo, o seu simpático namorado italiano. Traziam nos rostos a expressão de encantamento típica dos casais apaixonados. Ofereceram-me alguns biscoitos para acompanhar o café. Aceitei e os convidei para sentarem ao meu lado. Acomodados na areia, Ingrid comentou que logo que chegássemos montaria os telescópios para iniciar os seus estudos sobre a constelação apenas visível do oásis. Paolo brincou dizendo que ela não precisava ter pressa, pois as estrelas a esperariam por alguns milhões anos. Rimos. Em seguida, ele quis saber se eu me considerava pronto para encontrar com o sábio dervixe. Também brincando, lembrou que, ao contrário das estrelas, eu não teria tanto tempo para fazer aquilo a que me propunha. Concordei com ele. Contudo, ponderei que o tempo, embora fosse um limitador da existência, nunca seria um adversário, a depender de como nos relacionamos com ele.

Paolo ponderou que não era bem assim. Como era um homem polido, pediu desculpas antecipadas pelo que falaria, mas lembrou que o encontro com o dervixe poderia se frustrar por vários motivos. Doença, morte, viagem inesperada, compromissos urgentes, há situações imponderáveis a impedir a conversa que eu desejava ter. Então a cansativa viagem se mostraria improdutiva. Concordei que eu tinha me proposto à travessia em razão dos enormes conhecimentos sobre as coisas do céu e da terra que o sábio poderia compartilhar comigo. Era inegável que tal encontro poderia nunca acontecer. Todavia, cada dia no deserto tinha sido de incomensurável sabedoria a ponto de não deixar qualquer rastro de perda ou de decepção se a conversa não fosse possível. “Penso que a caravana foi como um grão de trigo que a cada dia cresceu em mim. Sinto o grão pronto para se transformar em pão. Pão que me alimentará e que levarei sempre comigo para oferecer em todas as demais travessias que vier a fazer. Se eu encontrar com o dervixe o meu coração ficará em festa; caso contrário, nada também me faltará. Aprendi a encontrar em mim, quando alinhado à luz, o suficiente à ceia de cada dia”, argumentei. Em seguida, conclui: “Somente com a minha permissão os fatos do mundo terão força capaz de atormentar a minha alma.”

Paolo questionou se não era um olhar arrogante perante mim mesmo. Eu propus a ele um raciocínio diferente: “Penso que dependerá sempre dos olhos com os quais eu me perceber. Se eu me enxergar repleto em sabedoria não passarei de um estúpido a incorrer em antigos erros. Se eu entender o exato tamanho que tenho me permitirei os novos erros; com eles a possibilidade dos conhecimentos ainda inimagináveis.” Olhei para a imensidão do deserto e expliquei: “O que não posso é condicionar a minha paz ou felicidade aos acontecimentos da caravana ou do oásis. Isto seria uma concessão indevida sobre a minha vida.”

“A mim cabe a vigilância sobre as minhas escolhas para que sejam sempre manifestas em virtudes. Ao me iluminar embelezo a caravana e o oásis. Mesmo que ninguém perceba, o deserto me reconhecerá. Isto me basta.”

“Um fato pode me desagradar, posso desaprovar determinada atitude alheia, pode uma escolha não satisfazer a ninguém na caravana ou o dervixe do oásis não entender as razões que me movem, porém entendo que isso faz parte de um mundo onde todos estão em processo de aprendizado. Os equívocos serão inevitáveis. Inclusive os meus. Não raro, erro em escolhas sobre algo que já conheço. Entretanto, saber não significa ser; trata-se apenas do passo inicial. Todavia, nada disso pode me descontrolar, abater ou paralisar. Evito a culpa que aprisiona em função da dependência que gera. Escolho trabalhar com a responsabilidade pessoal de fazer diferente e melhor da próxima vez.”

“Este é o único poder que tenho. Contudo, é de uma força incomensurável; ele muda o mundo por transformar a mim mesmo. Com ele sou invencível como o pequeno grão de areia que traz a alma do deserto em si e a manifesta. Esse é o exercício pelo qual tenho a possibilidade de, a cada dia, me aproximar um pouco mais da imagem e da semelhança de Deus. Esta é a travessia para luz. A caravana parte todos os dias bem cedo.”

Aproveitando a metáfora que eu fazia, Paolo lembrou que no deserto há severas tempestades de areia que costumam fazer enormes estragos às caravanas. Balancei a cabeça em concordância e disse: “Sem dúvida. As tempestades movimentam os grãos de areias, soterram algumas caravanas, porém, passam. O deserto permanece incólume.” Fiz uma pausa para prosseguir: “Em suma, as tempestades nunca destroem o deserto, apenas atingem o que está fora dele.”

“Assim, não posso condicionar a plenitude do ser à obtenção de algum bem material; de algo ou condição externa a mim. Preciso das coisas concretas para atravessar a existência; todavia, apenas o que é abstrato interessa à vida. No concreto, o tangível; no abstrato, a verdade. Logo, não preciso esperar o acontecimento de algum fato, seja na caravana, seja no oásis, para viver a felicidade, em paz, com liberdade, dignidade e amor.”

“Se eu viver cada dia na dependência do que ainda não tenho ou na espera de alguma realização – além das minhas próprias transmutações – o tempo será em vão; as tempestades se comportarão com uma fúria destruidora. A mais terrível das tempestades, quando bem aproveitada, somente servirá para impulsionar o pequeno grão de areia para longe, a um ponto ainda inimaginável, além de fantástico. Há muitos recantos no deserto, longe dos oásis, com impensadas maneiras de ser e viver.” Olhei para o horizonte e conclui: “Faça a travessia, aproveite a caravana, se divirta no oásis; mas seja o grão de areia que é parte do deserto e, por isto, traz em si todo o poder do deserto.”

Estava na hora de partirmos. A Ingrid falou para o Paolo realizar aquele trecho da travessia ao meu lado para continuarmos a conversa. Ela aproveitaria para seguir a marcha ao lado do astrólogo com quem gostava de discutir sobre as estrelas. Brincou ao dizer que astrônomos gostavam de conversar sobre o céu com os astrólogos, apesar de não concordarem em quase nada. Rimos. Deu um beijo no namorado e se foi. O italiano emparelhou o seu camelo ao meu. Partimos. Passados alguns minutos, Paolo pediu para eu explicar melhor a teoria sobre qual eu me referia. Ofereci o melhor que pude: “Existem muitos tipos de vícios. Drogas e jogos de azar são os mais comuns por serem os mais visíveis pelos estragos aparentes que proporcionam. No entanto, há outros, talvez mais perigosos, por serem de sofisticada percepção, não nos permitem entender a dependência que nos aprisiona.” Citei uma frase conhecida na Ordem Esotérica dos Monges da Montanha da qual eu era membro: “‘A pior prisão é aquela que não tem grades.’” Em seguida, prossegui: “Quem não se percebe preso não sente falta da liberdade. Não esqueçamos que as únicas grades que têm força para nos manter cativos são aquelas que nós próprios criamos ou permitimos que nos imponham. São todas meramente conceituais, frutos da ignorância e do atavismo dominador. As grades de ferro podem conter um corpo; jamais uma alma livre. As grades intelectuais, emocionais e espirituais mantêm uma alma cativa por milênios. Por exemplo, ‘apenas serei feliz se fulano agir de determinada maneira; se beltrano aprovar a minha escolha’ são situações comuns e desnecessárias. Em verdade, nocivas. Mas há outras subespécies que condicionam a felicidade à conquista de um diploma, à compra de uma casa ou à realização de uma viagem. Não que haja algo de errado em querer um diploma, uma casa ou em fazer uma viagem. O que não pode é ficar na dependência da ocorrência de um fato externo para viver a leveza da plenitude apenas possível no âmago do ser.”

“Assim acontece com a paz. Aguardamos que alguém faça algum movimento para que alcancemos a sonhada paz. Preciso do consentimento de fulano para que os dias sejam serenos; necessito da aceitação de beltrano para que a vida se pacifique em mim. Mentiras a nos enganar, as quais repetimos para nós mesmos todos os dias! Não passam de dependências; como tais, todas inúteis. Não é diferente com a dignidade. Nada além do que há em mim a impede. Para ser digno basta que eu trate os outros como gosto que me tratem. Nada mais é necessário. Não há nada a se esperar, em absoluto; é uma simples escolha. Como as demais plenitudes, depende somente da maneira como irei me relacionar comigo mesmo.”

O italiano me interrompeu para saber quais eram as plenitudes de que eu tanto falava. Eu lhe disse: “A plenitude total é composta das cinco plenitudes básicas: a liberdade, a paz, a dignidade, o amor incondicional e a felicidade. Nenhuma delas reside em qualquer fato externo a você. Todas estão em sementes no âmago de cada pessoa. Fazer com que floresçam é o sentido da vida.”

Ao longe, à frente da caravana, vi o caravaneiro cavalgando sobre o seu cavalo branco levando o imponente falcão sobre as grossas luvas de couro que usava no braço esquerdo. A imagem me lembrou do ensinamento e serviu de inspiração: “Nada do que existe ou acontece além do falcão pode impedir a beleza do seu voo. Não importa a caça ou o clima; vale a leveza de voar e a verdade oculta além dos olhos.”

Paolo me perguntou como tornar as plenitudes uma realidade. Respondi sem titubear: “Através das escolhas. Tão e somente. A plenitude é o céu azul; as virtudes são as asas do falcão.”

O italiano quis saber de quais virtudes eu me referia. Especifiquei: “Humildade, simplicidade, compaixão, sinceridade, generosidade, delicadeza, firmeza, mansidão, honestidade, coragem, pureza, justiça, misericórdia, alegria, fé, entre algumas outras. Todas tendo o amor como o vento que lhes sustentam o voo.”

“Os nossos relacionamentos e os fatos do mundo são alimentos ou são venenos à medida da capacidade do falcão em lidar com o quanto do deserto já consegue sobrevoar e enxergar.”

Paolo lembrou das doenças e da morte como fatores impeditivos à plenitude. Tornei a oferecer outro olhar: “As doenças são cármicas, logo estão ligadas ao nosso aprendizado. Podem nos falar sobre as existências passadas; nestes casos as trazemos como herança hereditária. Outras estão em sintonia à existência atual. São situações que nos abalaram emocionalmente e não restaram devidamente absorvidas na essência do ser. Na busca incessante por pureza e cura a alma expurga aquilo que a intoxica. Pode ser em agressividade ou depressão; as chamadas ‘feridas da alma’. Pode, de outro lado, desencadear o funcionamento deficiente de algum órgão ou mesmo um tumor; as denominadas ‘enfermidades do corpo’. Para uma pessoa desatenta será uma desgraça sem precedentes. Para o indivíduo conectado à evolução será uma maravilhosa oportunidade de aprendizado e superação. Ainda que haja sequelas ou o perecimento físico haverá a cura do espírito, a quintessência do ser, desde, é claro, que ele tenha encontrado o mestre oculto que traz a lição inerente àquela dificuldade. As doenças das existências têm por finalidade nos conduzir à cura para a vida.”

“A morte do corpo, por sua vez, embora seja uma certeza incontestável, permanece incompreendida. A morte, em verdade, é um ato de amor do universo pela vida.” De amor? Paolo estranhou. Tentei explicar: “Um gesto de amor por cada um de nós, pela possibilidade de prosseguir no processo evolutivo em renovadas condições. Quando assim entendemos, o tempo finito da existência se torna ato de profunda sabedoria nos impulsionando à infinitude da luz. Então, podemos abraçar o tempo como fazemos a um amigo.”

“Se eu viver cada dia como uma fonte inesgotável de virtudes, sejam nas manhãs aconchegantes de sol, sejam nas noites frias de inverno, o tempo se mostrará como um animado mestre de cerimônias quando me informar que o show terminou. Sem dúvida o espetáculo valerá tanto o preço da luta cobrado pela existência quanto o valor da luz ensinado pela vida.”

Veio a ordem para a caravana parar para o habitual descanso breve e uma refeição ligeira. Apeamos dos camelos. A Ingrid veio ver como o namorado estava. Paolo disse que estava bem. Ela trouxe um cantil com água e algumas tâmaras desidratadas. Bebemos e comemos em silêncio. Quando a marcha foi retomada, Ingrid se afastou. Tornamos a emparelhar as montarias e o italiano pediu que eu me alongasse no assunto:

Prossegui: “Aproveitar em cada dia a possibilidade de se conhecer um pouco mais, de tentar algo diferente, de fazer um pouco melhor do que antes; eis a magia da vida. Em todos os dias portas se abrem a outros patamares da existência na oportunidade de realizar em si algo não tentado até então. As escolhas aparentemente impossíveis através de olhares impensados. Quando nos permitimos essa possibilidade acabamos por descobrir que podemos ir mais; que podemos ver além dos olhos; que podemos voar mais alto. Que podemos ser o mestre e o aprendiz; o falcoeiro e o falcão. Isto, de modo inevitável, se refletirá no mundo. Na transformação do ser está a fortuna da existência, a riqueza da evolução, a revolução do mundo, a nossa herança ao planeta. Quando vivemos assim não resta vício nem vazio. Todo o momento importa, cada acontecimento agrega valor pelo aprendizado que traz. Nada falta nem excede; quando completos transbordamos para a vida.”

“Assim os alquimistas transformam o chumbo em ouro.”

“Não importa o que aconteça no mundo; o importante é aquilo que no mundo aconteceu e teve força de transformação íntima. A história de uma pessoa não se narra pelos seus atos heroicos mundo afora, mas pelos fatos que o levaram a transmutar a si mesmo universo adentro.” Calei-me por alguns instantes antes de prosseguir: “A lição é para todos; contudo, o aprendizado é pessoal. A exata dimensão do mundo está na medida da compreensão de si próprio; daquilo que o envolve e o impulsiona. Assim funciona a consciência a nos moldar a realidade.”

“Aprender, transmutar, compartilhar e seguir, estes são os quatro capítulos do manual de cada dia no deserto. Esta é a grande lição da caravana; também é o poder incomensurável do viajante. Um poder que se expande ou se encolhe nas réguas das virtudes aplicadas. Toda a luz apenas começa a iluminar quando aprendemos a acender o próprio fogo. Depois cabe continuar alimentando a chama; aos poucos, o entorno irá se clarear em alcances cada vez maiores. Qualquer coisa além disso não se se faz necessária; é mera peça de decoração.”

Paolo argumentou que lamentavelmente quase nunca conseguimos realizar tudo o que projetamos. Tentei mostrar a ele outro olhar: “Se olharmos apenas o quanto ainda não realizamos sempre restará uma frustração pela infinitude do todo em si. Qualquer realização no mundo está vinculada a acidentes extrínsecos, ou seja, dependem muitas vezes de fatores alheios à sua vontade. Assim, não há porque sofrer se o efeito está, em parte, desvinculado ao esforço dedicado. Vale o aprendizado, a transformação, o compartilhamento e prosseguimento da travessia sem fim; infinito é o deserto. Entretanto, se nos alegrarmos em fazer o melhor dentro do oferecido a cada dia teremos uma diferente e pequena parte do todo acrescida a nós diariamente. Nada será em vão ou restará desperdiçado. Nenhuma decepção, apenas a alegria da serena plenitude.”

O italiano não disse mais palavra. Ele precisava de silêncio para alocar aquelas ideias em si; aproveitar as que julgasse úteis e descartar aquelas que acreditasse desnecessárias. As ideias são sazonais; algumas se apresentam em tamanha perfeição por já estarem maduras, outras não prestam ou ainda não estamos prontos para elas. Seguimos calados por incontáveis minutos. Quando nos demos conta, entardecia. Chegou a ordem para a caravana parar e montar o acampamento. Era a última noite. Afastei-me para, em oração, agradecer ao deserto por aquela travessia. Não havia faltado nem luz nem proteção. A quietude foi interrompida por Paolo. O italiano retornou para questionar sobre uma das plenitudes, o amor incondicional. Lembrou que eu havia falado da liberdade, da paz, da dignidade e da felicidade. Nem uma palavra sobre o amor. Ele acrescentou da importância do amor em nossas vidas, em como a ausência de amor nos impede a uma existência plena. Tive uma estranha sensação, pois, de alguma maneira, eu esperava que o Paolo voltasse com essa questão. Embora estranha, era uma sensação boa. Sorri para mim; sorri para ele. Em seguida, abordei o tema: “O amor é a virtude mais sofisticada que existe, pois, para ser alcançada necessita de todas as demais virtudes a lhe sustentar. Apesar disto, o amor é essencial a cada virtude isolada.” Paolo me interrompeu para dizer que aquilo era um paradoxo. Eu expliquei: “Todo paradoxo é apenas aparente. Cada virtude se move e se orienta através de um impulso próprio de amor. Todas juntas se manifestam em magnitude máxima, o amor em forma de pura luz. A iluminação cósmica.” Para melhor compreensão usei uma analogia: “As virtudes são como as pétalas de uma flor. O amor é o miolo que as sustentam. Sem o miolo as pétalas perecem; sem as pétalas não há flor. Esta flor se chama luz.” O italiano quis saber seu eu me referia ao amor incondicional. Ponderei: “Amor incondicional, em verdade, é um pleonasmo. Todo amor, para assim ser, é incondicional por definição e pressuposto. O amor não impõe condições, não se sujeita às reações, não cobra taxas nem deixa dívidas. Não é credor, tampouco cria devedores.” Paolo tornou a interromper para falar que era muito triste ver pessoas que não conheciam o amor por nunca terem encontrado alguém que as amassem. Acrescentou que ele tinha muita sorte por ter o amor da Ingrid. Eu fiz as correções que entendia cabíveis: “O amor que você recebe da Ingrid não é seu; é dela. Tanto que ela pode decidir por nada mais lhe oferecer. Então, nada restará. Em verdade, o amor que você tem é tão e somente o amor que você compartilha. Este nasce em você. Com isto você pode dimensionar, orientar e sustentar a própria vida. Assim, nada faltará.”

“Não haverá dependências externas nem existirá sofrimento pelas escolhas alheias. Apenas liberdade, dignidade, felicidade e paz oriundas do amor cuja a fonte inesgotável é o próprio coração.”

“Esperar pelo amor dos outros é o dilema do amor; o equívoco na arte de amar. Raiz-mor de todas as dependências e sofrimentos.”

Mais uma vez fui interrompido. Desta vez pela Ingrid. A astrônoma veio buscar o namorado para jantar. Antes de ir, o italiano apertou a minha mão e me agradeceu pelos ensinamentos daquele dia. Eles se afastaram. Sozinho, me percebi na outra ponta de onde eu sempre estivera. Lembrei da inúmeras conversas que tivera com aqueles com os quais eu considerava os meus mestres. O Velho, o Loureiro, o Canção Estrelada e o Li Tzu formavam o quarteto mágico a me indicar as inúmeras maneiras para eu encontrar o meu jeito pessoal de acender a minha própria luz, sem precisar da luz alheia a me iluminar nas noites comuns ao Caminho. Ou à travessia.

Não! Afastei a ideia da mente. Eu gostava da prática de ter os mestres, não para decidir por mim – este é o papel odioso dos gurus que geram tantos vícios emocionais, intelectuais e espirituais ao afundar os seguidores em crises existenciais.  Prometi a mim mesmo que jamais me permitiria tamanho ardil – mas para indicar diferentes possibilidades de olhares e de escolhas. Eu nunca me consideraria um mestre nem teria qualquer aprendiz; uma ideia que eu afastava com sincera repulsa. Fiquei mais algum tempo envolto em meus pensamentos quando o caravaneiro se aproximou com o falcão pousado na grossa luva de couro que usava no braço esquerdo. Comentei que ele dissera que o treino da manhã teria sido o último da travessia. Ele nada disse, apenas fez um sinal para acompanhá-lo. Afastamo-nos um pouco mais. De pé ao seu lado, vi o caravaneiro falar ao pássaro, em pensamento. Por instantes, achei que tivesse ouvido as palavras não ditas. Quando ele tirou a touca, a ave olhou para mim e, em seguida, para o caravaneiro. Era como se estivesse agradecendo. E se despedindo.

Com o impulso do braço o falcão ganhou altura. Dessa vez não planou em círculos. Voou para longe, para além da última duna, para um lugar no céu onde os meus olhos não conseguiam enxergar. De uma maneira que não saberia explicar, eu não me surpreendi, assim como eu tinha certeza de que nunca mais veria aquele falcão. Ao contrário do que eu mesmo acreditaria até então, me alegrei por isto.

O caravaneiro comentou como se falasse consigo: “A leveza de conquistar sem possuir”. Houve uma rápida troca de olhares entre nós. Um entendimento profundo, difícil de ser medido em palavras. Sorri para o deserto.

O caravaneiro enterrou a sua grossa luva de couro nas areias do deserto. Entendi que ele não mais a usaria. Aquela missão terminara. Fiz menção em fazer o mesmo com a minha luva. Ele me olhou nos olhos, sacudiu a cabeça para que eu não fizesse o mesmo e avisou: “A sua missão começa aqui.” Em seguida, retornou ao acampamento. Preferi ficar a sós com o silêncio e a quietude. Passado algum tempo, senti saudade da bela mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli, das conversas que tínhamos. Há dias eu não falava com ela. Ela não apareceu naquela noite. Em sua homenagem decidi subir uma enorme duna que tinha à minha frente. Ela gostava de bailar no alto das dunas, de se sentir próxima às estrelas quando queria entrar em comunhão com o deserto. Escalei a duna. Lá de cima, bem ao fundo, me foi possível avistar o oásis.

 

 

 

 

Discussões — 11 Respostas

  • Hildes Torres 6 de dezembro de 2018 on 22:00

    Ah! Meu coração….

  • Leonardo Cunha 18 de novembro de 2018 on 18:54

    Venha apenas agradecer. Agradeço pela oportunidade a mim concebida de ler e interpretar tão bela obra.
    Acredito que os leitores, assim como eu, atravessaram contigo esse Deserto,já não são mais os mesmos,tanta sincronicidade,tanto aprendizado.
    Obrigado meu amigo,que Deus continue abençoando seu caminho.

  • Vivi Barbosa 18 de novembro de 2018 on 17:30

    Namastê e gratidão por compartilhar tanta sabedoria e amor.
    Estou muito feliz por ter aprendido tanto com a prática do que tive a oportunidade de apreciar.
    “Só existe Saudades, onde existe amor”.
    Com certeza terei Saudades.

  • André Filipe 18 de novembro de 2018 on 13:25

    Mais uma vez me senti em casa dentro desta oratória…

  • Silvana Ceccon 16 de novembro de 2018 on 19:47

    Querido Yoskhaz! Vc não sabe como foi atravessar esse deserto com vc . Lições atrás de lições!!! Muito sincronismo mesmo nessas sei la 42 semanas não sei, mas pareceu uma gestação inteira? Comprei seus livros pois seus contos quero para sempre perto, mas confesso que quis atravessar o deserto de uma vez e pra minha surpresa não tinha essa jornada nos livros e fui lendo uma de cada vez e as coisas acontecendo na vida e pra mim não podia ser diferente. Agradeço por ter me empretado lupa em momentos de tristeza, por ter compartilhado seus aprendizados de uma forma tão encantadora. Vc tem Luz própria e ilumina os caminhos! É um Jedi…rsrs. Sou muito grata ao universo que te trouxe pra perto. Grata Yoskhaz! Abraços 🌻

  • Vidyapriya 15 de novembro de 2018 on 10:33

    O que dizer da identificação das histórias que toca profundamente a alma. Admiração, Inspiração, elevação, expansão …. gratidão sempre ao Universo que nos guia através de sua Sabedoria. Adorei o depoimento do Domingos e do Romário. As conexões e as sincronicidades são auspícios neste momento cósmico de grandes transições. Namaste 🙏

  • Michelle 15 de novembro de 2018 on 07:25

    🌹❤️

  • Domingos M. Júnior 14 de novembro de 2018 on 22:03

    Faço minhas todas as palavras do comentário do Romário Sales.
    Em 2012 eu me propus um desfio pessoal que irá ser concretizado com sucesso em fevereiro de 2019.
    Na época, muito antes de conhecer seus textos, Yoskhaz, eu fiz uma analogia a este período de sete anos como sendo “a travessia de um deserto”.
    Como o acaso não existe e “os dedos do Universo são longos”, eu acabei conhecendo seus textos através de um amigo e companheiro de “travessia”.
    Quanta “coincidência” esta travessia estar se aproximando do fim ao mesmo tempo que se aproxima do fim a minha travessia pessoal.

    Hoje, no dia do meu 39º aniversário, a travessia chegou ao seu 39º dia.

    A conquista vislumbrada há algum tempo está consolidada!

    Já avisto o Oásis…

    O que posso dizer e compartilhar com alegria é que não sou mais o mesmo viajante que iniciou a travessia em 2012!

    O deserto me transformou…

    Conhecer seus textos faz parte das incríveis e agradáveis surpresas que a Travessia me proporcionou.
    O Universo encontrou uma maneira de entrar em sintonia com pessoas na mesma freqüencia de minha busca.

    Já lhe agradeci antes em particular.
    Hoje o faço em público.
    Novamente. Eternamente.

    Obrigado por me auxiliar na dura batalha que é transmutar minhas sombras em Luz.
    Obrigado por me auxiliar a transformar o chumbo em ouro.

    Essa travessia está se aproximando do fim.

    Que venham as Próximas !!!

    E assim vamos seguindo essa Viagem sem fim.

    Um fraternal Abraço.

  • Adélia Maria Milani 14 de novembro de 2018 on 21:48

    How, Romario Sales!

    Gratidão, yoskhaz! ♡♡★☆

  • Joane Faustino Araújo 14 de novembro de 2018 on 20:41

    Gratidão 🌹♥️

  • Romario Sales 14 de novembro de 2018 on 10:31

    Eu estava ansioso por ouvir o penúltimo dia da caminhada no deserto.
    Atualizava a pagina todos os dias, na esperança do deleite em profundas reflexões.Hoje, ao ler a narrativa, maravilhado com os degraus de evolução que Yoskhaz conseguira galgar ao longo da peregrinação, me veio a mente: Todo trabalho grandioso precisa de tempo para eclodir e mostrar sua plena transformação.
    Obrigado por compartilhar conosco o seu bem mais precioso: o seu tempo.