Cuidado com o que você acredita

Era muito cedo. A pequena cidade que fica no sopé da montanha que abriga o mosteiro ainda adormecia. Bem, nem toda. Eu andava por suas ruas, estreitas e sinuosas, calçadas com pedras que, apesar de desgastadas, resistiam ao sol e à chuva há séculos. Percebia algumas poucas janelas com as lâmpadas acesas, talvez madrugadores como eu e o Loureiro, o elegante sapateiro que amava os vinhos tintos e os livros de filosofia, um mestre na costura do couro e na criação de ideias. O seu atelier era quase mítico, seja pelos horários inusitados de funcionamento, cujo o critério era somente a vontade do sapateiro, seja pelas conversas e embates filosóficos que ocorriam lá dentro. Sempre era motivo de alegria quando, ao dobrar a esquina, avistava a clássica e bem conservada bicicleta de Loureiro encostada no poste em frente à oficina. Significava, também, que eu poderia me deliciar com o perfume do couro e do café que impregnavam a sapataria. Eu estava envolto em meus pensamentos, enquanto caminhava solitário entre as ruas e o silêncio da cidade, quando me deparei com um muro pichado. Estranhei pelo fato de nunca ter visto nada igual naquele pacato e bem cuidado lugar; mais ainda, me chamou atenção o teor da frase escrita: cuidado com o que você acredita!

Logo os meus pensamentos mudaram e começaram a navegar em torno daquela ideia. Não por muito tempo. Ao virar a esquina, vi a bicicleta encostada no poste e me alegrei. Para, em seguida, encontrar cerradas as portas do pequeno atelier do meu amigo. Aquilo que, a princípio, poderia parecer incoerente, fazia algum sentido. Tinha uma pequena padaria na rua ao lado; era possível que o Loureiro estivesse lá para aproveitar a primeira fornada de pão do dia. O encontrei na última mesa, se deliciando com uma fatia de pão fresco coberta com o famoso queijo da região. E uma caneca de café, é claro. Fui recebido com um sorriso sincero e um forte abraço pelo elegante sapateiro de cabelos brancos, que mesmo em horário de trabalho, trajava uma calça preta com uma camisa lilás clara de fina alfaiataria. As mangas eram dobradas até o cotovelo para não atrapalharem os movimentos. Os sapatos eram de fabricação própria. Devidamente acomodado à mesa, com uma xícara fumegante de café à frente, comentei a certeza que tive de encontrá-lo ali quando me deparei com as portas fechadas da oficina. A bicicleta tinha sido a pista deixada por ele. Loureiro sorriu divertido e brincou: “Talvez você tenha encontrado o seu verdadeiro dom, Sherlock.” Rimos e eu acrescentei que, apesar dos horários inusitados da sapataria, o sapateiro era bem previsível. Ele tornou a se divertir e comentou: “Cuidado com o que você acredita.”

Isso me chamou a atenção. Lamentei sobre a mesma frase que, por acaso, há pouco eu vira pintada em um muro. Mostrei-me inconformado por terem feito aquilo, uma mácula na cidade sempre tão bem cuidada. Loureiro ponderou que o pichador talvez tenha procurado chamar a atenção das pessoas em tempos de redes sociais digitais, onde circula muitas informações de várias tendências e múltiplos interesses, nem sempre isentas nem revestidas de pureza, nas quais há muitas certezas e poucas verdades. Mais ainda, o teor do alerta rabiscado no muro de pedras era antigo, contemporâneo e eterno. Neste instante tivemos a conversa interrompida pela entrada de dois jovens operários que entraram na padaria para tomarem um café antes do serviço. Eram rapazes educados, mas como o ambiente estava quase vazio, podíamos ouvir que discutiam sobre política. Em breve haveria eleições presidenciais e eles mostravam visões opostas quanto ao assunto. Ambos se mostravam seguros em suas opiniões; as certezas eram antagônicas na análise de um mesmo fato. Menos de dez minutos, entre entrarem e saírem da padaria, pareceu tempo suficiente para desmancharem uma amizade em razão de convicções absolutas. Quando se foram, Loureiro me lembrou: “Cuidado com o que você acredita.”

Lamentei o desentendimento dos rapazes e falei que não me interessava por política. Achava o assunto muito chato. Sem dúvida havia coisas bem mais interessantes para eu me ocupar na vida. Loureiro concordou: “Sem dúvida, também não gosto. Todavia, Platão nos alertava que os homens que não gostam de política têm a sua cidade governada por aqueles que gostam. Isto, muitas vezes, traz dissabores.” Fez uma pequena pausa para comentar: “Dissabores costuma causar dessabores em relação à existência. Evite um para não se perder no outro.” A simpática garçonete deixou sobre a mesa mais fatias de pão com queijo derretido. Quando a nossa conversa parecia engrenar, fomos novamente interrompidos por um casal. Sentaram-se em uma mesa próxima. Eram proprietários de uma conhecida joalheria artesanal. Tinham clientes de vários países que os procuravam quando desejavam a confecção de uma peça específica e única. Ele era um ourives de raro talento; ela administrava o negócio. O tom de voz do homem estava alterado. Indignado, reclamava do sumiço de um pacote de dinheiro que guardara na gaveta da sua mesa após ter recebido como pagamento por parte de um cliente. Eles tinham alguns poucos funcionários, no entanto, apenas a secretária tinha acesso à sua sala. Lembrou que ela tinha comentado que o colégio do filho estava com as mensalidades atrasadas e os remédios usados pelo pai eram muito caros. Fazia todo o sentido e disse não ter a mínima dúvida. A esposa ponderava na tentativa de persuadi-lo a não registrar o ocorrido na delegacia para apontar a secretária como suspeita. Alegava que outra pessoa poderia ter pegado. Pediu para ele conceder o benefício da dúvida à funcionária. O ourives disse que concederia o benefício se tivesse, ao menos, um pouco de dúvida; ele tinha certeza quanto a autoria do furto. A secretária deveria responder pelo crime praticado. Iria à delegacia assim que terminasse o café. Neste instante a esposa desabou em um incontido choro que chamou a atenção de todos na padaria. Demorou um pouco para se acalmar. A garçonete trouxe uma xícara com chá de camomila; a mulher bebeu devagar e entre soluços. Balbuciou algumas palavras que o marido não conseguiu entender. Ele pedir para ela se acalmar e repetir. A esposa respirou fundo e disse: Fui eu. Diante do marido atônito, falou que sentia muita vergonha, porém, o remorso de permitir que alguém recebesse a culpa por um ato que não cometeu seria ainda maior. Explicou que o seu filho, enteado do marido, um rapaz com a vida descontrolada, precisou do dinheiro. Como queria evitar discussões em casa, em um momento de fraqueza, lançara mão ao dinheiro. O ourives nada falou. Ele não demonstrava nenhum resquício de rancor, pois amava a sua mulher. Tinha um olhar perdido para além das janelas que mostravam os primeiros raios de sol da manhã. Com os cotovelos apoiados na mesa, passava a mão na cabeça de modo lento e incessante, como se o gesto o ajudasse a pensar; não sabia o que pensar; não sabia o que dizer a si mesmo. Minutos atrás estava decidido a incriminar a secretária. Terminaram o café sem mais conversa e se foram. Loureiro me olhou e disse: “Cuidado com o que você acredita.”

A padaria naquela manhã insistia no papel de sala de aula. Ato contínuo, entraram duas senhorinhas, amigas desde a adolescência. Ocuparam a mesa que antes estava o casal. Pediram duas xícaras de café com leite acompanhadas de pão com manteiga na chapa. Como uma delas tinha problema de audição, conversavam em um tom acima da discrição. Foi inevitável ouvirmos. Estavam revoltadas com a abertura de um templo que professava doutrina religiosa diversa da delas. Tinham ouvido histórias horríveis sobre como se comportavam os adeptos daquela religião. Juravam, uma para a outra, sobre prática de rituais satânicos. Caso nenhuma atitude fosse tomada, logo toda a cidade restaria amaldiçoada. Sustentavam que tinham de iniciar um movimento para que o local tivesse as portas fechadas pelas autoridades. Começaram a traçar uma estratégia de guerra para derrotarem o culto ao mal, como definiam as cerimônias do novo templo. Iriam às rádios e jornais em busca do apoio da população; a salvação da cidade dependia delas. Sem que elas ouvissem, comentei com o sapateiro que eu conhecia o monge responsável pelo templo. Ele estivera várias vezes no mosteiro da Ordem; era uma pessoa simples, generosa, culta, de paz, que ministrava uma filosofia baseada no amor ao próximo e na boa vontade entre toda a gente. A conversa daquelas senhoras não passava de uma triste difamação; seria uma maldade os atos que desejavam praticar. O pior era perceber que elas acreditavam exercitar o bem com aquelas atitudes. Loureiro deu de ombros, como quem diz já ter avisado e sussurrou: “Cuidado com o que você acredita.”

Comecei a entender a ideia que ele transmitia, mas lembrei que precisamos da certeza para viver e fazer as escolhas inerentes à vida. O sapateiro me corrigiu: “Precisamos da busca incessante pela verdade; e quem nos leva à verdade não é a certeza, mas a dúvida.”

Falei que ele estava equivocado. Os grandes mestres da humanidade eram repletos de certeza. Loureiro tornou a discordar: “Não, Yoskhaz. A dúvida é humilde; a certeza é típica do orgulho e da arrogância. Precisamos de poucas certezas e muitas dúvidas. A dúvida é uma marca dos sábios. Para mim bastam poucas certezas: o poder do amor e a força das virtudes. Que tudo o mais me sejam dúvidas!”

“A dúvida te permite mudar, crescer e avançar. A certeza estaciona e faz estagnar.” Bebeu um gole de café e acrescentou: “Temos medo da dúvida, quando, em verdade, deveríamos nos apaixonar por ela. A dúvida traz o questionamento, o aperfeiçoamento do raciocínio, o aprimoramento do conhecimento. Do contrário, se tudo sei nada mais preciso aprender. A certeza é o pote cheio que nada mais cabe, sob o risco de ruir; a dúvida é a ânfora vazia, sedenta por vida.”

“Preste atenção aos tolos e me diga: eles são indivíduos repletos de certezas ou aqueles embebidos em dúvidas?” Não foi preciso pensar muito. Claro, o sapateiro tinha razão. Se faz necessário indagar, aprofundar, saber sempre mais. Isto somente é possível para quem convive em harmonia com as suas dúvidas. Sim, a dúvida é amiga e aliada dos sábios. Não à toa, a filosofia socrática, base do pensamento ocidental, era baseada na retórica, que consiste em um diálogo constante entre certezas e dúvidas, em responder uma pergunta com outra pergunta, estimulando a profundidade, não apenas como forma saudável na construção do conhecimento, mas na busca da verdade, à régua da expansão de consciência de cada pessoa. A verdade é uma jornada interior; a dúvida uma poderosa fomentadora dessa viagem.

O artesão lembrou de algo importante: “A grande característica do ser humano como animal racional, diferente das demais espécies, é a capacidade de formular um raciocínio para alterar e melhorar a realidade. As demais espécies, em maior ou menor grau, vivem basicamente por instinto, onde não cabe a dúvida. Em suma, a dúvida é atípica na vida selvagem e preciosa no desenvolvimento da civilização e na evolução da humanidade”. Mordeu um pedaço de pão com queijo e esclareceu: “A certeza é admirada por quem, perdido de si mesmo, se sente abandonado nos mares da existência e, desesperado, tenta se agarrar em uma convicção qualquer como um náufrago precisa de uma boia para não se afogar. A dúvida te ensina a nadar.”

“A certeza nem sempre sinaliza sabedoria; a certeza, por vezes, está longe da verdade. A História está repleta de tristes equívocos praticados por certezas que pareciam insofismáveis.” Perguntei como fazer diante de uma escolha quando eu estiver cheio de dúvidas. Loureiro respondeu com a sua maravilhosa simplicidade: “Escolha sempre por amor, simples assim.” Fez uma pausa para acrescentar: “Erramos sempre por falta de amor, nunca por excesso.”

“As virtudes são indispensáveis orientadoras do Caminho. Use-as à vontade! Elas serão valiosas para a redação de um código de ética pessoal que auxilia as escolhas e impede o mal na ausência do amor em momentos específicos. Ao entender que somos pobres em amor e ricos em dúvidas encontraremos o equilíbrio primordial para iniciarmos a busca pelo amor incondicional e a verdade.”

Loureiro esvaziou a xícara e concluiu: “Estamos aprisionados em cárceres de diversas naturezas; celas sobre celas; todas sem grades. As sombras, os preconceitos, as paixões desvairadas, os condicionamentos culturais, sociais e ancestrais são prisões cruéis por não permitirem perceber os grilhões que nos impede, não apenas a liberdade, mas também a paz, a dignidade, a felicidade e o amor em toda a sua amplitude.” Fez sinal para a garçonete trazer a conta e finalizou: “Contudo, nenhuma prisão é mais sorrateira do que a certeza. Ela é vigiada por um carcereiro disfarçado de herói: você mesmo”. Franziu a sobrancelha e tornou a lembrar: “Cuidado com o que você acredita. Não raro, a certeza são as barras invisíveis de uma prisão existencial.”

Bem-humorado, alertou: “Por fim, não esqueça, por favor, de sempre duvidar de mim também.” Rimos.

A garçonete trouxe a conta. Quando Loureiro abriu a bolsa de couro para pegar a carteira, vi lá dentro uma lata de tinta em aerossol. Lembrei do muro de pedras pichado perto dali. Ele piscou um dos olhos com jeito de menino travesso. Ri do garoto de quase setenta anos e agradeci a valiosa lição do filósofo impagável e imprevisível.

Discussões — 8 Respostas

  • Adélia Maria Milani 15 de fevereiro de 2019 on 17:48

    Gratidão! ♡ ☆ ♡

  • André Filipe 13 de fevereiro de 2019 on 11:39

    Grato mais uma vez por tantas doses de sabedoria e pela reflexão que elas proporcionam.

  • Iraci Eliana Fernandes Machado 10 de fevereiro de 2019 on 15:57

    Sensacional! Excelente texto!👏🙏

  • M M Schweitzer 7 de fevereiro de 2019 on 08:28

    Genial 🙂

  • Isabella 5 de fevereiro de 2019 on 18:20

    Obrigada!

  • Michelle 5 de fevereiro de 2019 on 07:27

    ❤️🌹

  • Sergio Abreu 4 de fevereiro de 2019 on 12:48

    Muito bom, para esse nosso tempo de certezas e filosofias de redes sociais, fica uma bela reflexão! Obrigado por partilhar!

  • Joane Faustino Araújo 2 de fevereiro de 2019 on 17:13

    Gratidão ❤️🌹