O poder das emoções

“Todo o conhecimento apenas tem valor se utilizado para uma vida melhor. Do contrário, se restringirá a mero discurso acadêmico ou páginas emboloradas de um livro na estante”. Quem me disse isto foi o Loureiro, o sapateiro que costurava ideias e pedaços de couro com a mesma habilidade. Estávamos em seu pequeno atelier, diante de duas canecas fumegantes de café. Eu relatara uma discussão que tivera, momentos antes, no mosteiro da Ordem, onde aprendia sobre filosofia e metafísica. Tudo começou quando eu me despedia das pessoas, ao término do período anual de estudos. O carro já estava no estacionamento à minha espera. Enquanto trocava os últimos abraços com os demais monges, com sinceras promessas de nos encontrarmos no ano seguinte, Sofia, uma iniciante na irmandade, me abordou. Na frente de todos, questionou o capricho com o qual eu tinha coordenado um curso aberto ao público. Elencou algumas atitudes minhas e questionou quanto as minhas verdadeiras intenções na condução das aulas. Acusou-me de estar mais interessado em brilhar do que no aprendizado oferecido aos participantes. No mesmo instante, fui tomado por uma intensa irritação. Ainda tentei argumentar com alguma sensatez. Porém, quando Sofia insistiu em suas razões, fui dominado pela raiva e a respondi no mesmo tom grosseiro. A discussão subiu degraus. Formou-se uma confusão horrível. Com o resquício do controle emocional que me restava, entrei no carro e fui para a pequena cidade no sopé da montanha que abrigava o mosteiro, onde eu pegaria um trem. Lá também ficava a oficina de Loureiro. Antes de ir à estação, decidi procurar o sapateiro para conversar e me acalmar. 

“Quando isto acontece, das paixões calarem as virtudes, sinaliza que deixamos de aprender ou de usar algo que aprendemos”, explicou o sapateiro.

Retruquei. “Aplico a linguagem adequada a cada interlocutor”, me justifiquei. Lembrei que fui provocado e reagi. Loureiro bebeu um gole de café e argumentou: “Sim, justamente a maneira como reagimos ao imponderável, e até mesmo ao injusto, é que nos permite avaliar o quanto já conseguimos caminhar. Será que você usou a melhor linguagem?”. Fez uma pausa e acrescentou: “As emoções são os lobos das sombras a serem adestrados para trabalhar em favor da luz”.

Ainda exaltado, falei que eu sabia de tudo aquilo. O sapateiro deu de ombros e comentou: “De pouco adianta saber sobre o que não estou disposto a ser”.

Por fim, perguntou como eu me sentia. Confessei que estava mal. Ele concluiu: “Quando alguma situação tem força suficiente para apagar a minha luz, significa que algo precisa ser mais bem trabalhado dentro de mim. Assim caminhamos”. 

Esses fatos aconteceram havia muitos anos. Depois disso, voltei ao mosteiro inúmeras vezes. Realizei vários estudos como aluno, ministrei aulas, proferi palestras. Contudo, nunca mais tinha encontrado com a Sofia. De início, os nossos períodos de viagem não coincidiram. Mais tarde, soube que ela se desligara da Ordem sem apresentar nenhum motivo. Apenas abandonara a irmandade.

Nos meses seguintes à discussão, eu refletira bastante sobre o acontecido. Aprendera que quando um fato desagradável fica recorrente na memória, significa que há uma ferida emocional ainda aberta carente de cura. 

Independentemente da provocação, eu reconhecia os meus erros. Embora a Sofia tivesse exagerado na dose e se equivocado na abordagem, ela tinha alguma razão. Eu me envaidecia muito nas funções que exercia naquela época, assim como poderia ter agido diferente e melhor quando me vi diante da reprimenda, ainda que não passasse de insultos disfarçados de boas intenções. Eu também não conseguira controlar o orgulho, ao me sentir atingido pelas críticas recebidas na frente de outras pessoas. O equívoco de ninguém justificará as minhas sombras. Sim, eu havia desperdiçado uma excelente oportunidade de exercitar todo o conhecimento que tinha. Todavia, tinha entendido o quanto eu ainda não era. 

Tinha comigo a vontade de um dia reencontrar a Sofia para desfazer aquele mal-entendido; que o perdão extrapolasse da alma para, em atitude, se manifestar em amor. A chance de vivenciar o conhecimento e a mudança. Perceber que as pessoas que éramos não mais existem, será sempre uma experiência maravilhosa de superação. Eis uma das sete maravilhas da existência.

A vida é uma escola de excelência na formação de mestres. Todos estamos matriculados. As relações pessoais, ora são as aulas, ora são as provas. O pressuposto para avançar nas matérias é a maneira como cada um se relaciona consigo mesmo e reage frente aos fatos que se opõem à nossa vontade.

Assim foi, assim é. 

Passado muitos anos, eu fui convidado para proferir uma palestra em um simpósio que abordava a correlação entre a ciência e a espiritualidade em uma universidade. Falaria de como, no decorrer da História, a ciência se inspirou na metafísica. O evento ainda não tinha começado. Estavam todos no hall de entrada, quando Sofia se aproximou para falar com um professor que conversava comigo. Não sei se me dirigiria palavra, mas ao reconhecê-la, sorri e abri os braços. Antes que ela se manifestasse, a envolvi em um forte abraço. Falei da alegria que sentia em estar de novo com ela depois de tanto tempo. Ela reagiu de maneira fria. Colocou as mãos nos meus ombros para afastar o corpo e murmurou: “Chega!”. Sem mais nada falar, se foi.

Foi tudo muito rápido e sutil. Ninguém ao redor percebeu. Mantive-me calado, porém, envolvido por uma energia densa, fiquei muito mal com o modo pelo qual fui tratado. Cheguei a duvidar se teria condições emocionais de realizar a palestra. Sentei-me sozinho em um canto para pensar e transmutar a emoção insalubre que tentava me dominar. Era preciso arrumar a casa. Lembrei que eu não poderia mudar a maneira de a Sofia se comportar, mas podia escolher quais sentimentos habitariam em meu coração. Surgiram alguns maus pensamentos e tratei de educá-los o quanto antes. A escuridão do mundo só apagará a minha luz se eu lhe der permissão. Não mais, disse para mim mesmo.

Aos poucos, me tranquilizei e voltei a me sentir em paz. Eu já tinha assistido àquela aula. Havia chegado a hora da prova. Acreditei estar aprovado. Embora não tenha tirado uma nota dez, pois fui tomado por perigosas paixões, conseguira me manter no eixo de luz. A reação interna, de início ruim, foi controlada em tempo hábil, sem gerar nenhuma consequência danosa. A invasão dos lobos ao templo foi dominada a tempo, sem qualquer estrago. A reação externa, se não foi negativa, tampouco se mostrou positiva; apenas neutra. Pois, em verdade, o meu silêncio não foi um gesto de sabedoria, mas de surpresa e espanto. Atribui-me uma nota sete.

Eu não imaginava que a prova estava começando.

Quando me sentei ao lado dos outros palestrantes, eu tornara a me sentir bem. Proferi a palestra com desenvoltura e, ao perceber o olhar atento do público, fui tomado por grande alegria. No final, como de costume, o mediador do simpósio permitiu às perguntas. A primeira a levantar a mão foi a Sofia. Autorizada, ela quis saber qual bibliografia sustentava a tese apresentada. Expliquei que não havia uma lista específica e ordenada de livros. A teoria exposta era uma interpretação pessoal do desenvolvimento científico ao longo dos séculos sob o prisma da metafísica. Lembrei, apenas para citar mais um exemplo, do ensinamento budista, que circula há três mil anos, de que o corpo reflete as emoções. Na atualidade, a medicina aponta, sem qualquer traço de dúvida, de que as preocupações, o estresse e o descontrole passional, afetam o sistema imunológico de modo negativo. Acrescentei que eu não era um cientista no sentido ortodoxo da palavra, mas apenas um filósofo espiritualista. A minha função se restringia a oferecer um olhar íntimo e sincero; ninguém estava obrigado a concordar. Sofia rebateu, dizendo que eu deveria me comportar de acordo com o local onde estava. Aquilo era uma universidade, repleta de acadêmicos. Não um bate-papo entre amigos. Ali era um lugar para se debater ciência, jamais um púlpito para os místicos.

A intenção da Sofia era me provocar. Isto se mostrou claro de imediato; o motivo pelo qual se originou, eu desconhecia. Se mantivesse a serenidade, eu teria condições de responder a todos os questionamentos, dentro dos limites do meu conhecimento. Caso contrário, teríamos uma discussão, como a ocorrida no mosteiro e mais uma chance restaria desperdiçada. Apesar do desconforto, a minha alma agradeceu diante da oportunidade que a vida me oferecia, de fazer diferente e melhor do que da vez anterior. 

Argumentei que não deveríamos ter preconceito em relação a nada. A mística deveria receber a merecida atenção. Na Grécia Antiga, a filosofia socrático-platônica cunhou o termo justamente para explicar a percepção da verdade além do conhecimento científico. Parecia-me indiscutível de como isso ajudou à evolução da humanidade através dos séculos. Enquanto a ciência contribuiu ao bem-estar material e físico, a mística investiu na expansão consciencial, sem a qual inexiste avanço real.

Em seguida, expliquei: “A mística nos fala sobre o valor da ética. Mesmo diante de um grande progresso tecnológico alcançado por uma sociedade, sem o aprimoramento ético, viveremos em um lugar tenso, inseguro e sombrio. A ética está ligada à prática do bem que, por sua vez, se alcança através do exercício das virtudes. Não há como negar o extremo benefício trazido pela ciência, apenas um louco sustentaria tamanho absurdo. Contudo, quem desde sempre nos falou de delicadeza, compaixão, sinceridade e amor, apenas para ficar em algumas poucas virtudes, foi a mística”. Acrescentei que o conflito entre a ciência e a mística era desnecessário. Ao contrário, pertencem a uma mesma família, cuja finalidade é o bem-estar da humanidade.

Sofia se levantou, apontou o dedo em minha direção e disparou que eu era uma fraude. Um ignorante à serviço do atraso intelectual. A minha palestra não passara de um monte crendices. A universidade não era lugar de universos paralelos e outras esquisitices. Houve um enorme burburinho. Ela disse para eu só voltar quando conseguisse explicar, de modo científico, a existência de Deus. Uma parte do público a aplaudiu. Animada, Sofia se levantou e manteve um olhar desafiador para mim.

Percebi de maneira clara que, para Sofia, tudo aquilo era continuação da briga ocorrida no mosteiro há muitos anos. As emoções afloradas naquela época, podem ter sido negadas ou reprimidas, nunca pacificadas dentro dela. Ao me reencontrar, ela voltou ao centro da arena e me chamava para a luta. Aceitar o convite era uma escolha minha.

Havia ódio em seu olhar. Um ressentimento que, quando dominador, ofusca as melhores razões, a menor sensatez e qualquer traço de verdade. Interessa a sensação passional de uma inexistente vitória, não importa a qual custo; seja com a confissão de derrota do oponente, situação difícil de ocorrer, seja com o seu linchamento moral, fato de amargas consequências. 

Naquele momento entendi o desprezo com que me tratou quando a abracei. O desprezo, em muitos aspectos, se parece com a ironia. Ambos têm uma enorme agressividade camuflada. Tanto num quanto noutro, há doses excessivas de orgulho e ressentimento. São maneiras de manifestar uma revolta incontida, com supostos contornos de polidez e pretensa superioridade intelectual. Infelizmente, ainda é uma maneira socialmente aceitável de ser agressivo. No fundo, mostra uma pessoa em uma escuridão tão intensa quanto aquele que disfere um palavrão ou aplica um soco.

Eu sabia que algo em mim a incomodava desde a época do mosteiro. Alguma coisa que falara, fizera ou a fazia recordar do seu passado. Eu não sabia o que era. Acreditei que no meu abraço existiria a mensagem subliminar de perdão e paz. De fato, havia para mim, não para Sofia. Naquele dia aprendi que cada um tem o seu tempo. Por isto, a paciência é uma virtude tão valiosa.

Essas ideias me ocorreram em fração de segundo. Eu estava sentado à mesa dos palestrantes; ela continuava de pé com o seu olhar desafiador. Sofia estava na arena me chamando para a briga. Eu poderia aceitar o convite e lutar com ela ao responder no mesmo diapasão. Havia a possibilidade de me recusar a entrar na arena para guerrear; bastava dizer que eu não debateria naquele tom de questionamento. Além de ter esse direito, isso evitaria uma confusão que se anunciava. Todavia, existia um terceiro viés: entrar na arena e a convidar para bailar comigo a grande sinfonia da vida. 

Esperei que o auditório voltasse a silenciar. Disse que gostaria de responder ao questionamento que me fora feito. Sofia colocou a mão na cintura, como se a minha insistência a impacientasse. Eu falei: “Eu sou incapaz de oferecer a prova científica do que me foi questionado. Eu não a tenho”. Irônica, ela me interrompeu para dizer que, então, eu deveria estar em um mosteiro, jamais em um reduto acadêmico. Ouvi o riso de algumas pessoas. O sarcasmo tem um enorme poder destruidor, por abafar os argumentos contrários. Isto o torna uma eficiente ferramenta das sombras. 

Se eu me permitisse sair do meu eixo de equilíbrio, a minha luz se apagaria. Outra oportunidade restaria desperdiçada. Tornei a esperar pelo silêncio e falei: “Há evidências de uma sabedoria muito além da capacidade humana de criação e entendimento desde o início dos tempos. Aos poucos, todo esse saber vem se tornando ciência. O incrível funcionamento da fotossíntese imprescindível à renovação da vida, o complexo sistema vascular, o intrigado funcionamento dos neurônios, a energia incomensurável contida em um minúsculo núcleo atômico e como se comportam os seus travessos elétrons; o movimento das correntes e das marés oceânicas que, ao cessar, encerraria a vida no planeta, são apenas alguns poucos dos infinitos exemplos de uma complexa e sábia interligação. A harmonia e a imprescindibilidade de tudo e de todos, como pequenas e grandes engrenagens, que ao defeito da menor delas, afeta o funcionamento de uma máquina gigantesca denominada Terra, sustentada ao sol através de uma força intangível conhecida como gravidade, segundo Newton, ou um espaço curvo como sugeriu Einstein. O sol, por sua vez, tão importante para nós, é um grão de areia, diante de outras galáxias, a maior parte delas ainda desconhecida pelo nosso tosco conhecimento. Aliás, olhar para as estrelas é um bom exercício para a indispensável humildade. Fazemos parte de algo do qual não temos a menor ideia, salvo na arrogância dos tolos. A mim parece evidente, à maneira como gosto de temperar a filosofia com a metafísica, que somos partes de um mesmo todo. Somos peças únicas, mas somos um. Mas, claro, posso estar errado.”. Fiz uma pausa e perguntei: “A questão que não cala em mim é quem criou, dirige e coordena tudo isso com tamanha perfeição e sincronia? O acaso? A natureza?”. Dei de ombros e disse: “São bons nomes, como quaisquer outros”. 

Antes que houvesse qualquer manifestação, prossegui: “Entretanto, concordo que, entre inúmeros outros exemplos, alguns ainda melhores do que os citados, todos continuam sendo apenas evidências e ilações místicas. Entretanto, a mística continua sendo um importante instrumento de percepção e entendimento de quem sou e de tudo ao meu redor. Não sob o ponto de vista científico, mas consciencial”.

“Porém, quando falo de consciência, preciso também falar de amor. São expansões que precisam estar irmanadas”. Fiz uma pausa proposital e prossegui: “O amor, esta virtude tão desejada quanto incompreendida. O temos tão perto e, ao mesmo tempo, tão distante”.  Apontei aleatoriamente para as pessoas do auditório e perguntei: “Alguém aqui presente é capaz de negar a existência do amor?”. Um burburinho se formou. Eu segui o raciocínio: “Claro que não. Até os brutos amam. Sem amor o sentido da vida se esgota nos ralos da mera sobrevivência. Sem amor não há transcendência. No entanto, qual a definição científica para o amor? Além da poesia, o amor não se traduz em palavras”. Fiz uma pausa e confessei: “O amor se sente; Deus também”. 

“Se algum cientista for capaz de demonstrar matematicamente o funcionamento do amor em nossas vidas, a sua incomensurável importância para uma existência plena, com argumentos além da mística, eu conseguirei comprovar a existência de uma consciência cósmica, também conhecida pelo nome de Deus”.

“Por isto, a linguagem preferida da mística é a arte. Pela transcendência, transformação e magia que traz”.  

Por um lapso de tempo, o silêncio foi absoluto. Quando Sofia fez menção em continuar a discussão, vieram alguns aplausos por parte do auditório. Isto talvez tenha freado o seu ímpeto; ela nada mais disse. Alguns estavam desconfortáveis; outros, desconcertados. Alguns concordavam; outros não. Eu tinha conseguido expor as minhas razões de maneira calma, simples e clara. Isto me bastava; conquanto, não me alegrava. A situação com a Sofia não se resolvera. Contudo, não dependia somente de mim.

Na saída, algumas poucas pessoas vieram me cumprimentar. O professor que organizara o simpósio veio agradecer e conversar comigo. Falou que, embora a minha palestra não fosse uma unanimidade, tinha convicção que fizera muita gente pensar. Isto era o mais importante.

Quando me dirigia à estação de metrô, a Sofia passou à minha frente. Ela não me dirigiu olhar. As suas feições estavam inamistosas, de quem continuava pintada para a guerra. Ao contrário do que ela podia acreditar naquele momento, a batalha não era contra mim. Era uma luta travada dentro dela mesmo, ainda longe de ser pacificada. Não consegui ver os lobos, mas os senti ao seu redor. Eu os reconheci, eram lobos iguais aos que acompanham quando me afasto de mim.

Naquele instante, me dei conta que ao convidar a Sofia para dançar comigo a canção da vida, eu pudesse ter feito de maneira equivocada. Todo aquele discurso sobre metafísica e amor, teria acirrado ainda mais o seu ressentimento. Ocorreu-me se, durante o curso no mosteiro, uma situação involuntária da minha parte não teria provocado nela as emoções que a devoravam. Vi quando ela entrou em uma cafeteria. Fui atrás. Sem que Sofia percebesse, deixei que fizesse o pedido e, antes que ela pagasse, falei para o balconista que queria a mesma coisa e me adiantei para pagar.

Ela me olhou assustada. Antes que pudesse reagir, falei: “Precisamos conversar”. Ela não disse palavra. Esperamos calados que entregassem os cafés e sentamos em uma mesa. Tomei a iniciativa: “Quero lhe pedir desculpas”. Sofia me indagou por qual motivo eu me desculpava. Fui honesto: “Quanto a briga no mosteiro, não sei ao certo. Mas hoje, ao fazer um grande elogio ao amor, me dei conta de quanto sou pobre deste amor que falo, mas mal conheço. As palavras que usei sobre o amor foram sinceras ao justificar as ideias que tenho sobre a vida. Mas o sentimento que as impulsionam será vazio se eu não as viver com intensidade. Ali, eu expus um pensamento que não me aproximou de você. Encantei a arquibancada, mas perdi o jogo. Aqui temos a chance de começar uma nova partida”.

A Sofia chorou. Foram lágrimas sentidas, típicas de quem trancou uma emoção dolorosa por muito tempo. Eu a abracei. Desta vez, recebi um abraço emocionado em retribuição. Esperamos que se acalmasse. Ela confessou que concordava com tudo o que eu havia dito na palestra. Assim, como na Ordem, adorava as aulas que eu ministrava. Contudo, percebia que eu falava em amor com um altruísmo que não possuía. Isto a incomodava, pois ela era igual a mim.

Rimos. Ponderei que provavelmente esse também tinha sido o ponto de eu ter me irritado tanto naquela época. Ela tinha arrancado uma das minhas máscaras. Ao invés de agradecer por ter me desnudado diante do espelho da verdade, eu me aborreci pela vergonha de me descobrir pelado. Rimos de novo.

Encorajada, Sofia começou a falar de si e das dificuldades que tinha para lidar com as suas sombras. Dos erros que cometeu e da vontade avançar no Caminho. Fiquei impressionado em como éramos parecidos. Confessou que todos os dias pensava em voltar ao mosteiro. Contou que nunca mais voltara porque desejou ter sido acalentada por todos após a briga que tivéramos. Como não aconteceu, não retornou. Reconhecia que não passava de um capricho inconcebível. O orgulho, a sua sombra mais poderosa, a impedia de voltar. Isto a fazia sofrer muito. 

Foi a minha vez de revelar: “A origem da sua dor é a mesma da minha. O orgulho nos corrói e mesmo assim relutamos em nos afastar dele. Apenas uma das muitas incoerências de quem somos. Dizem que para curar o orgulho é preciso fazer da humildade um lugar confortável para se viver”. Sofia balançou a cabeça e concordou: “Mais uma das muitas coisas que sabemos, mas ainda não conseguimos ser”. 

Conversamos muito sobre muitos assuntos e todas as coisas. Rimos muito. Sofia era uma mulher encantadora, inteligente e dona de um surpreendente bom humor. As emoções desvairadas escondiam toda essa beleza. Fomos embora somente quando a cafeteria fechou. A noite estava repleta de estrelas. Alegres, enfim, dançávamos a canção da vida.  

Transmutar as paixões por sentimentos. Eis outra das sete maravilhas da existência.

Fiquei observando-a ir embora. Não tinha nenhum lobo por perto. Eles se afastam quando paramos de alimentá-los.

Imagem: Cynoclub – www.dreamstime.com

Discussões — 12 Respostas

  • Greyce 21 de maio de 2019 on 17:15

    Encantada com os seus textos, que expressam tanta sensibilidade. Obrigada!

  • Adélia Maria Milani 19 de maio de 2019 on 23:23

    Gratidão! ♡ ☆ ♡ ♡

  • Nazaré Dimaria 17 de maio de 2019 on 22:35

    Encantada!

  • Karllus Marcelo 16 de maio de 2019 on 21:55

    Parabéns e muito grato yoskhaz! Seus textos nos fazem transitar, divagar, “bailar” em sua história ligando pontos a nossa própria. É muito divertido e leve poder nos ver nas suas histórias, divertido por causa da elegância com que vc as conta.

  • Ale Bombachi 16 de maio de 2019 on 10:48

    Gratidão, Amigo de Caminhada!

  • Rafaela 16 de maio de 2019 on 09:44

    Seus textos são portais na minha vida. Conseguem me levar pra uma atmosfera de reflexão e calor no coração.
    Obrigada pela entrega e desnudar da alma!

  • Fernando Machado 16 de maio de 2019 on 04:55

    Gratidão profunda e sem fim Yoskhaz, sem fim…

  • Marilin 15 de maio de 2019 on 20:07

    Seu blog mudou minha vida.

  • Claudia Pires 15 de maio de 2019 on 19:30

    👏👏👏👏

  • Gustavo Henrique Soares Ramos 15 de maio de 2019 on 16:10

    A sutil transação dos textos, que te trouxeram de aprendiz para, protagonista das próprias lições aqui expostas foi desconfortável no início. Sempre tive muito claramente a imagem do velho, loureiro, canção estrelada e outros, como marcos de evolução e antros de sabedoria. Assim ao me deparar com a sutil mudança dos últimos textos me vi afastado do conteúdo fixo anteriormente mostrado, confesso que tive a leve e errada percepção de que você teria a intenção de se arvorar como um mestre, entretanto vi que estava enganado, e acredite (já tendo lido todos os textos, alguns mais de uma vez) que fiquei muito, mas muito feliz com isso.
    Percebi que assim como o guarda da caravana no episódio da taverna, os ensinamentos passaram a uma fase mais real, aquela em que utiliza-se o conhecimento em prol de sanar as falhas, mesmo sem ter as bases espirituais completas (e quando vamos ? rs).
    Assim, por ver o quanto se abriu, disposto a expor suas próprias experiencias como mestre de si mesmo, sem medo de demonstrar todas as sombras que ainda o habitam, e com a humildade de se perceber como um metal ainda a ser martelado em prol de se tornar uma espada, vejo a concretização daquilo que foi dito por buda, “que retornaria na forma de amigo”, na forma de companheiro de viagem a ensinar por meio da vivência. Obrigado.

  • Juliana 15 de maio de 2019 on 09:58

    Fantástico!
    Como sempre.

  • Haian 15 de maio de 2019 on 09:54

    Buscai a Deus com toda sua alma,
    Esse é o segredo dos fortes!
    Gratidão!