O mito do Pinóquio

Era aniversário do meu sobrinho, o Lucas. Como os seus pais estavam em um simpósio fora do país, eu o convidei para almoçar. Eu o aguardava sentado à mesa do restaurante, situada em uma aprazível varanda, quando o vi estacionar a motocicleta. Havia algum tempo que não nos encontrávamos, mas o amor não se macula com a distância. Lucas tinha se tornado um rapaz alto e forte. A barba, uma tradição familiar, estava espessa e crescia. Ele me ofereceu um belo sorriso e, em seguida, me deu um abraço apertado. Estávamos alegres com o encontro. Já acomodados à mesa, Lucas pediu desculpas pelo atraso. A motocicleta tinha apresentado um defeito quando saía de casa. Falei que tivera sorte em encontrar um mecânico que a consertasse rapidamente. Ele explicou que resolvera o problema sozinho. Diante da minha admiração e total ignorância a assuntos relacionados a motores e afins, Lucas revelou a sua enorme paixão por motocicletas. Contou que certa vez, durante um feriado chuvoso, desmontara a motocicleta, peça por peça, apenas para entender o funcionamento de cada uma delas. Depois, a remontara por completo. Surpreso, perguntei se o envolvimento com a faculdade, ele cursava Psicologia, era igual. Lucas confessou que este era o seu grande dilema. Cada vez mais gostava menos da faculdade.

Sugeri que trocasse de curso ou de universidade. Ele admitiu que crescera em um lar harmonioso, cercado dos cuidados necessários para desenvolver todo o seu potencial. O meu irmão, pai do Lucas, era um prestigiado psicanalista e a sua mãe, uma psicóloga muito requisitada, ambos estudiosos do comportamento humano. Isto o ajudara muito e até gostava de conversar sobre o assunto. Entretanto, não conseguia se imaginar como terapeuta. Disse que, embora reconhecesse a importância, achava chata essa rotina profissional. Eu quis saber qual faculdade ele estaria disposto a cursar, pois haveria alguma que o interessasse. Lucas disse que o dilema que enfrentava era justamente o desinteresse em prosseguir nos estudos acadêmicos. Sonhava em montar uma pequena oficina para que pudesse passar a vida consertando motocicletas. Esta era sua paixão e estava disposto a abraçá-la.

Argumentei que ele poderia estudar Engenharia Mecânica, Desenho Industrial ou algo parecido, para no futuro projetar as motocicletas que tanto gostava. Lucas esclareceu que não se imaginava trabalhando em ambientes corporativos, comuns às grandes empresas. Queria a vida simples e intimista de uma pequena oficina, com contato direto com as motocicletas e seus aficionados. Foi impossível não me lembrar do Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos, um artesão de rara habilidade, que recusou reiterados convites de famosas grifes de calçados para trabalhar junto a elas. Era um jeito de ser e viver. 

Alertei que ele encontraria uma forte resistência por parte dos seus pais. Não por abandonar a Psicologia, mas por desistir da universidade, independente do curso que escolhesse. Teria de se preparar para não contar com o apoio deles. Ele esclareceu que ainda não tinha conversado com ninguém sobre o assunto. Lucas disse que gostaria de ouvir a minha opinião. Eu a expus com a clareza que me era possível: “Sou um grande admirador do conhecimento, pela formidável ferramenta evolutiva que se torna quando bem aproveitado. Contudo, também sou um ferrenho incentivador dos sonhos e dos dons pessoais. Aquilo que a tradição oriental denomina como dharma, a estrada do aprendizado individual, ou seja, do karma”

“Penso que uma coisa não anula a outra, ou seja, viver o sonho e exercitar o dom não deve levar ninguém a abandonar o conhecimento. Ao contrário, serve como aperfeiçoamento. Não se deve acreditar que trilhar a estrada do dharma, do sonho e do dom, seja fácil e não exija esforços ainda maiores. Ainda que abandonemos o dharma, lembre que o karma, as lições cabíveis nesta etapa evolutiva, nos acompanhará”. Bebi um gole d`água e ponderei: “No seu caso específico, haverá uma guinada radical quanto ao estilo de vida. Todavia, os estudos precisam sempre continuar, agora, de outra maneira”. 

Lucas falou que estava ciente quanto à saraivada de críticas que receberia da maioria das pessoas, pois trocaria o refinado ambiente acadêmico por uma oficina cheia de graxa e óleo; o som das palavras que debatiam ideias pelo barulho dos motores que precisam de regulagem. Sabia, também, que ficaria muito vulnerável às condenações pelo seu comportamento, caso o projeto que escolhera para si não desse certo. As consequências seriam rigorosas, com um preço alto a pagar, ao perceber que os seus colegas de faculdade avançaram na carreira profissional enquanto ele não fora a lugar nenhum. 

Dei de ombros e comentei: “Sim, aquilo que denominamos de preço a pagarnada mais é do que os inevitáveis efeitos de qualquer decisão. Lembrando que quando nos abstraímos de uma atitude, seja por medo, seja por indiferença, também haverá consequências. Acho mais sábio quando decidimos por gosto ou convicção. Causa e efeito é uma inexorável lei cósmica de amor, justiça e aprendizado. As escolhas tornam cada pessoa o deus da própria existência, por estar relacionada a construção da grande obra da vida, a evolução espiritual. Portanto, sempre existirá a necessidade de aperfeiçoar as escolhas através do florescimento das virtudes no ser e no viver, além de precisarmos expandir, de modo consciente, o melhor entendimento quanto a si mesmo, como método eficiente de compreensão do mundo ao redor”.

“Nesta linha de raciocínio, um indivíduo espiritualmente amadurecido, com o ego dialogando de maneira franca e amorosa com a alma, mais próximos a cada dia, nunca lamenta um acontecimento indesejado, mas o abraça em reverência sincera ao mestre que veio ofertar uma lição para o seu crescimento”. 

Lucas contou que vinha se preparando para essa decisão angular havia algum tempo. Notara que o trajeto inverso era mais seguro, por contar com o suporte de conceitos culturais estabelecidos desde sempre. Concordei com ele: “Tenho um colega que foi mecânico de automóveis na juventude, insistiu nos estudos, cursou a faculdade de Direito com enorme esforço e se tornou um respeitado magistrado. Sem dúvida, um homem merecedor de aplausos por seus méritos e conquistas. Embora também seja uma estrada difícil e repleta de valor, se torna segura pela admiração preestabelecida que invoca. Quando trilhamos os passos já consagrados da ascensão social contaremos com maior compreensão e apoio. São preconceitos quase imperceptíveis. Eles nos dominam por não percebermos as suas influências em nossa maneira de pensar. Formam o inconsciente coletivo. Quando movimentado pelas sombras, nos amarram às suas ideias, como se fossem cordas invisíveis a nos impedir atitudes renovadoras. Andar em círculos equivale a não sair do lugar. Sem que percebamos, essas cordas nos manipulam como a um fantoche, nos impedindo de ser quem poderíamos nos tornar”. 

“A contracultura é a tentativa de realização pessoal no sentido inverso do pensamento social dominante. Uma quebra de paradigmas que muitos chamam de caos, bobagem ou loucura, mas indispensável à evolução”.

O rapaz coçou a cabeça e admitiu que a sua vontade era fazer a rota contrária, mais suscetível aos riscos e críticas por não estar sinalizada e aprovada pelos parâmetros de escalada profissional e firmados dentro das regras sociais. Todavia, não tinha certeza se conseguiria. Ofereci ao Lucas o meu olhar: “Quem busca apenas por uma existência segura e se recusa a enfrentar riscos, nega a essência da vida. A História não se interessa pelos covardes, mas aprecia a coragem. Estes, que têm a ousadia de andar na contramão do mundo, mas no fluxo do universo, são os que revolucionam o mundo por abrir as janelas, até então fechadas, somente para nos lembrar dos raios de sol esquecidos no canto de um dia qualquer”.

O alertei para não se deixar conduzir pelas minhas palavras, pois as consequências de qualquer das escolhas que fizesse seriam arcadas somente por ele. Que nenhuma decisão deveria ser tomada antes de estar amplamente ramificada em sua alma. Haveria perdas e ganhos a serem considerados. Em seguida, o questionei: “Qual tipo de vida você quer para si? Existem várias opções disponíveis. Sempre haverá”. 

Se faz necessário entender a pergunta adequada para cada resposta que precisamos. Errar a leitura do mapa nos afasta do destino pretendido.

Lucas tornou a coçar a cabeça e disse que já sabia a decisão que gostaria de tomar. Confessou que havia um vazio dentro dele e compreendia como tinha de preenchê-lo.  O problema é que ficaria muito vulnerável e não gostava desta sensação. Tentei explicar a ele: “Impossível a coragem sem a sensação real de vulnerabilidade. O mais bravo dos guerreiros apenas se consagra na luta por saber que a morte está sempre próxima e, mesmo assim, ama as batalhas, porque lutar é o seu dom. Reconhece em cada oponente, não um inimigo, mas um mestre a aperfeiçoar as suas habilidades. Cada manifestação contrária é um golpe que, quando bem aproveitado, o tornará um pouco melhor. Então, os ama seus adversários. Ele se encontrará várias vezes com o fracasso e com a decepção, mas aprenderá a crescer no âmago de cada um deles. Assim, apesar das dificuldades, os dias serão leves e alegres”. 

Foi um almoço muito agradável, como são as conversas nas quais abrimos os nossos corações. Despedimo-nos e fiquei um tempo sem notícia do Lucas. No Natal, fomos passar a noite na casa do meu irmão, com a família reunida, como gosto de fazer sempre que possível, nesse importante cerimonial. Eu estava radiante, pois as minhas filhas vieram para estar conosco. Uma comum-união. Em síntese, amor é comunhão. Esta é a magia do Natal. A minha cunhada, uma pessoa gentil e bondosa, tinha preparado a ceia com muito carinho. Não faltava nada, salvo o Lucas que não chegava. Percebi uma troca tensa de olhares entre eles quando as minhas filhas perguntaram pelo primo. Enfim, Lucas chegou e uma nuvem pesada se instaurou no ambiente. Ele estava bêbado.

Embora de maneira educada, o pai o repreendeu com firmeza. Com os olhos marejados, a mãe o questionou o motivo pelo qual ele se envolvera com o álcool nos últimos meses, algo que nunca acontecera antes. Lucas cumprimentou a mim e as primas com doçura, como era do seu feitio. Depois, foi se sentar sozinho na varanda. Aproveitei a chegada de outros convidados e fui me sentar com o Lucas. Antes, pedi para a minha filha mais velha, com o seu natural bom humor, que ficasse como a guardiã de um portal e, com delicadeza, evitasse a entrada de qualquer pessoa na varanda. Ela piscou um dos olhos como quem diz “deixa comigo”.

A sós, não trocamos palavra por longos minutos. Lucas evitava me olhar. Foi ele que quebrou o silêncio para perguntar se eu sentia pena dele. “De jeito nenhum”, falei. Quis saber se eu viera repreendê-lo. “Também não”, fui sincero. Em seguida, esclareci: “Vim para dizer que não me importam os fatos. Saiba que poderá sempre contar comigo”. Lucas disse que tudo estava confuso. Pensava em fazer uma longa viagem. Tinha certeza que voltaria melhor. Eu ponderei: “Adoro viajar, pois me faz um bem enorme o contato com outras culturas e me ajuda a sentir saudade de casa. Ou não. Quando não sinto falta da rotina que criei para mim, ganho um bom referencial para saber sobre as mudanças que me são necessárias. Quando viajamos, uma coisa que temos de ter em mente é que cada um leva a si mesmo na bagagem para qualquer lugar que for. Podemos evitar lugares e pessoas, nunca a nós mesmos”.

Neste instante, os seus olhos encontraram com os meus. Aproveitei para saber dele: “Do que você foge?”. Lucas explicou que não era do quê, masde quem, ele fugia. Confessou que não teve coragem de largar a faculdade de Psicologia para montar uma oficina de motocicletas. Quando contou aos pais sobre o seu projeto, foi muito mal recebido. Eles se mostraram contrários à ideia, ficaram tristes com a mera possibilidade de tamanha transição. Lucas disse que amava os seus pais e não queria decepcioná-los. Tinha medo que com essa mudança os perdesse para sempre pelo afastamento e frustação que a sua decisão provocaria.

Premissas erradas levam a conclusões equivocadas. Esta é a base do jogo dos enganos. Estes são os pilares do raciocínio que fazem desabar a ponte da vida. O assunto é vasto, mas expliquei ao meu modo: “Ainda há pouco, falávamos de viagens e sobre termos saudades da nossa rotina”. Lucas me interrompeu e, de maneira educada, quis lembrar que as rotinas são sempre chatas e ninguém gosta delas. Falei que aquele discurso era um caso típico de uma conclusão errada porque partia de uma premissa equivocada. Expliquei a ele: “As rotinas são enfadonhas para aqueles quem levam a vida como uma obrigação. Tornam-se dias incríveis quando vivemos por cada descoberta. O que define o peso ou a leveza da vida é o quanto dos nossos gostos e aptidões inserimos a cada momento do dia”.

“Claro, afaste a insensatez e o desvario das condições ideais para se viver bem. Isto não existe. As condições existentes serão sempre as ferramentas perfeitas para o desenvolvimento pessoal. Todas as vezes que me ligo ao meu âmago, me conecto com o universo. Esta força passa a me intuir e fortalecer. As virtudes se apresentam, a consciência se amplia e as escolhas ficam simples e claras. Em cada dificuldade existe uma oportunidade disfarçada. Para tanto, quanto mais próximo do dharmamais leve será o karma”. 

“Dons e sonhos são fundamentais por fazerem parte de quem sou. Quem nos convenceu que essa não pode ser a nossa rotina?”.

Lucas disse que entendia as minhas palavras, mas jamais teria o apoio dos pais. Ele os amava e não queria perdê-los. Ponderei: “Enquanto você não tiver a si mesmo por inteiro, nunca os terá por completo. Descobrir quem sou ajuda o outro a se revelar para mim”.

“Os seus pais precisam do melhor que há em você. Para tanto, se faz necessário juntar as partes de si mesmo abandonadas ao longo da existência. Embora eles sejam preciosos aliados em sua jornada, apenas você poderá percorrê-la. No mais, não esqueça que, aqueles que oferecem resistência e oposição, também colaboram conosco por nos fazer despertar habilidades e virtudes ainda adormecidas”.

“Encontre o seu jeito de caminhar. Isto é único. Enquanto você negar a essência dos próprios passos não haverá nenhum caminho”.

Lucas chorou muito. Quis saber se ainda dava tempo de refazer a sua trajetória. Por experiência pessoal, pude responder com convicção: “Encontrei comigo com quase quarenta anos de idade. Acredite, é um encontro eterno. Todos os dias descubro algo que desconheço em mim. Nunca é tarde nem cedo demais. A melhor hora se define à medida que nos sentimos prontos para as novas descobertas. Elas não têm fim”.

Ele me perguntou como saberia qual era o momento certo. Não tive dúvida para responder: “A angústia sempre sinaliza a necessidade de transformação”.

Lucas sorriu pela primeira vez naquela noite. Era um sorriso lindo, que mostrava o poder contido em uma vontade que não mais se pode sufocar. Seria como tentar impedir a chegada da primavera para não ver o desabrochar das flores. Em seguida, disse que tomaria um banho e trocaria de roupa. Falei que prepararia um café forte para ele. Pedi que não bebesse mais álcool naquela noite. Lucas explicou que não mais precisava. Estava cansado de fugir. 

Os seus pais de alegraram ao vê-lo de banho tomado e roupa trocada. A fisionomia de Lucas estava ótima, assim como o humor. Conversou com os convidados e com as primas. A ceia ocorreu em perfeita comunhão. No decorrer da noite, as pessoas foram se despedindo. Ao final, ficamos apenas o meu irmão, a esposa, nossos filhos e eu. Lucas aproveitou o momento para comunicar a decisão de largar a faculdade de Psicologia. Abriria a sonhada oficina de motocicletas. Faria com recursos próprios; tinha feito algumas economias no decorrer dos anos. As minhas filhas, que nada sabiam, se olharam assustadas, porém, encantadas com aquela revolução pessoal. Queriam saber mais detalhes. As perguntas que faziam foram interrompidas pela indignação dos tios. A mãe do rapaz o lembrou que já haviam conversado sobre o assunto e tinham firmado uma decisão, da qual Lucas tinha se comprometido a cumprir. Ele terminaria a faculdade. Depois, teria apoio da família para seguir a carreira que desejasse. Alegou que tinham investido tempo e dinheiro em seus estudos. Não era sensato abandonar todo esse aprendizado. Lucas ponderou que nenhum ensinamento seria desperdiçado. Isto nunca acontece. Contudo, o conhecimento seria adaptado a uma nova realidade, a um ciclo de vida que se iniciaria em breve.

O pai, que ouvia a conversa entre a esposa e o filho, me olhou com censura e me acusou de subverter o bom senso de Lucas. Disse que de sã consciência ninguém trocaria uma experiência acadêmica por uma vida desprovida de estudos, como em uma oficina mecânica. Lembrou que o filho era inteligente e culto, com enormes chances de ter um consultório reconhecido pela cura que proporcionaria aos pacientes. Do contrário, teria uma existência entre graxa, óleos e motores, sem qualquer propósito edificante. Tentei mostrar outro olhar: “Não nego o enorme valor da ciência e da academia. No entanto, penso que há mais sabedoria para todas as dores no exercício das virtudes do que na aplicação da ciência. A gentileza de um sorriso, a sinceridade de um abraço, a simplicidade de uma boa palavra, a pureza de um olhar, a humildade de um gesto, a honestidade de um trato, a compaixão diante de uma necessidade, a misericórdia em abrigar um coração aflito, a fé por alimentar a esperança em alguém, são atributos sagrados que revolucionam o mundo por transformar o indivíduo e iluminar caminhos. Há mais poder de cura em cada virtude aplicada no cotidiano do que a mais sofisticada fórmula farmacêutica ou no mais elaborado tratado científico. Tais coisas não estão em uma universidade nem uma oficina; somente estarão no mundo se germinarem no âmago das pessoas. Para tanto, se faz indispensável que o indivíduo esteja bem para que haja algo em si de bom a oferecer. Aqueles que esquecerem de buscar as estrelas da vida na noite escura da existência despencarão no abismo da amargura. Não importa a profissão, o saldo da conta bancária nem onde moramos, sem os pilares dos dons e a argamassa dos sonhos não haverá ponte para atravessar o vazio da tristeza. A primavera será desperdiçada. Quais flores esperar de uma pessoa abandonada de si mesma, que vaga perdida no deserto da própria existência?”. 

O meu irmão disse que eu não passava de um filósofo medíocre, um escritor desprezível e um homem fracassado. Não à toa, eu tinha trocado de profissão uma vez e estava prestes a fazer de novo. Eu era um desorientado e uma péssima influência. A sua esposa me acusou de olhar a família com desprezo em razão dos vários relacionamentos afetivos que eu não conseguira sustentar. Falou que as minhas filhas foram estudar em países distantes por não me suportar.

Era verdade. Não era verdade. Somente premissas corretas legitimam conclusões acertadas.

As meninas se aproximaram de mim como para dizer que não concordavam com aquela acusação. Por diferentes motivos, naquela sala, todos tinham lágrimas nos olhos. Fez-se um silêncio sepulcral, típicos dos velórios que embalam a morte. Entretanto, todo final de ciclo traz na essência o despertar da vida.

Era a minha vez de falar: “Fiz muitas escolhas erradas na vida. As fiz de acordo com o nível de consciência que eu tinha em cada época. Ainda as farei, não as mesmas, porém, outras. Hoje, faria de outra maneira muitas das coisas que fiz ontem. O arrependimento tem a face luminosa do redirecionamento moral. Tive que ir à escuridão para entender onde está a luz; lidei com as paixões mais sórdidas para conhecer o poder do amor; dei volta ao mundo para compreender o valor da minha casa. Sempre que posso, transformo em arte aquilo que ficou em rascunho. Novos momentos, diferentes escolhas. Assim é com todos que estão dispostos a caminhar. Olho para trás e percebo o homem que eu era. Ele não mais existe. Sou eu, mas é outro. Sou um, mas fui muitos”. 

“Não me assusto. Ao contrário, me alegro. Ficaria triste se olhasse para trás e me observasse sem nenhuma mudança. Um claro sinal de que eu não saíra do lugar. Não houvera evolução. Há uma longa jornada pela frente, os erros sinceros me acompanharão. Porém, apenas os novos, nunca os velhos erros. Estes nos tornam hipócritas por se repetirem indefinidamente. O mais vulgar deles é aquele que nos impede de sonhar. O receio pelo inusitado é o pavor pelo risco. Fechar-se à ousadia é negar a vida. É o medo de amar a si mesmo”.  

“Este é o mito do Pinóquio”. Como assim? Todos se perguntaram sem entender esta última afirmação.

Expliquei: “Este conto infantil, ao contrário da lembrança mais comum, do nariz que cresce a cada mentira, traz no bojo o mito da ousadia; da vida que apenas acontece através da liberdade. Lembre que o Pinóquio é um boneco de madeira, um fantoche, cujo criador, o Gepeto, para torná-lo humano, corta as cordas que o amarram, limitam e manipulam. O boneco ganha a chance de virar menino quando começa a escolher. Seduzido pelas delícias efêmeras do mundo, comete uma sequência de erros, se animaliza com as orelhas de asno e vai às trevas na escuridão do ventre da baleia. Conhece o terror da ignorância e as consequências afins. Aprende que a mentira nos desfigura por negarmos quem somos. Gepeto o protege por todo o tempo. Não impendido que Pinóquio se lance à vida, mas por colocar o Grilo Falante, em verdade, a consciência que nos acompanha, dialogando com cada escolha do boneco. Criador e consciência, deixam que ele erre para que possa entender a diferença entre sombra e luz. Contudo, jamais o abandonam ou desistem dele. Sabem que o erro transforma e amadurece. O medo de errar desperdiçaria essa linda história. Lembrem que, ao final, o boneco de madeira evolui e, ao descobrir o próprio coração, a Fada da Vida o transforma em um menino de verdade. Contudo, ao contrário do Pinóquio, alguns de nós terminam a história do jeito que começaram, como meros fantoches. Eles têm medo de ousar”.

As meninas me abraçaram. Despedimo-nos sem muitas palavras e fomos embora. Fiquei alguns dias metabolizando a conversa daquela noite. Acredito que isto tenha acontecido com todos. Ficamos muito tempo sem nos falar. No Natal seguinte, viajei para passar com as minhas filhas. Mais um ano se passou. Incentivado pela nova namorada, decidi fazer a festa de Natal na minha casa. Liguei para o meu irmão e convidei ele, a esposa e o Lucas para virem. As meninas também estariam aqui.

Quando chegaram, traziam um sorriso sincero. Estávamos alegres pelo reencontro. Não foi preciso nenhuma explicação pelo ocorrido há dois anos. Tínhamos refletido e cada qual extraído a lição que lhe cabia. O amor tem o poder de pavimentar estradas para que todos se encontrem. Sem queixas. O meu irmão me abraçou longamente. Sem palavras, falávamos que entendíamos e respeitávamos um ao outro. Cada com o seu jeito e beleza de ser. Lucas chegou mais tarde. Parecia maior e mais bonito. A aura clara tem este poder. Veio com uma camisa que trazia no bolso a logomarca da sua oficina. Ele estava alegre e falante. Contou que abrira a oficina em Vargem Pequena, um bairro ainda bucólico e quase rural do Rio de Janeiro. Atendia a um nicho de aficionados pelas marcas Harley Davidson e Indian. O negócio crescera a ponto de ter que contratar ajudantes. 

Elogiei a logomarca e brinquei que na minha agência faríamos melhor. Ele riu e disse que aceitava qualquer ajuda. Em seguida, olhou para mim e disse que tinha voltado aos estudos, não em uma universidade, mas em uma escola livre de filosofia. Como todos se mostraram curiosos, ele disse que essa escola era inspirada em uma que existira em Palo Alto, na Califórnia, nos anos 1960, onde as pessoas podiam entrar para assistir a qualquer aula. Saíam também quando desejavam. O interesse pelo conhecimento era o único incentivo. Não havia diploma nem o curso tinha um fim. Diversas pessoas eram convidadas para dar aulas e os interesses eram os mais diversos. A filosofia era o eixo central. Havia aulas de história da arte, física quântica para leigos, espiritualidade, astrologia, psicanálise para iniciantes e vários assuntos afins. Assumira também, perante a si próprio, o compromisso de não parar de ler. Como um ritual sagrado que auxilia as infinitas transformações, ele lia todas as noites antes de dormir. Lucas era a expressão vibrante da felicidade.

À meia-noite brindamos. A sós, Lucas disse que tinha um presente para mim. Quando abri a caixa, dentro havia uma chave de rosca, uma ferramenta comum aos mecânicos. Junto, um bilhete que agradecia por eu ter ajudado a montar a oficina. Contive as lágrimas para dizer que nada teria acontecido sem a vontade dele de ousar a viver o seu dom e sonho: “Nada desperta em nós sem que não exista em potência”. Dei de ombros e brinquei: “Uma lição de Aristóteles”.  Ele arqueou os lábios em leve sorriso e comentou: “Nesse curso assisti uma aula sobre Sócrates. O filósofo grego dizia que um indivíduo pode ter trinta tiranos a reprimi-lo, mas quando se liberta de si mesmo, todos os demais se desmancham no ar. Escravidão é uma palavra que não se conjuga no plural”.

Lucas ainda era muito jovem, mas tive a nítida sensação de estar diante de um mestre que já conseguira romper com os cordões que impedem os bonecos de madeiras de conquistar a vida.

Discussões — 15 Respostas

  • Dalva Magalhães 7 de agosto de 2019 on 14:42

    O nosso Brasil falta muito amor União, infelizmente para um país tão lindo gratidão por tudo que resgatou.

  • Rose 2 de agosto de 2019 on 21:08

    Gratidão!

    Om Shanti!

    “Esteja certo que na religião do amor
    Não há crentes, nem descrentes
    O Amor abraça a todos.”

    (Rumi)

  • Ailton 1 de agosto de 2019 on 14:01

    Simplesmente incrível, eu leio seus manuscritos já fazem 3 anos, percebo o tanto de evolução e amor, com toda certeza me ajudou a tornar uma pessoa melhor.
    Eu amo viajar de moto, comecei a trabalhar aos 14 anos para realizar o meu sonho, aos 18 anos comprar uma moto e viajar sair por ai sem rumo, descobri com dos seus textos que viajar não pode ser uma fuga e sim um encontro, hoje com 26 anos, dou valor nas coisas mais simples, não espero viver apenas aos finais de semana (quando viajo de moto) e sim viver todos os dias no meu trabalho, faculdade, com a família ou sozinho, tudo fica lindo quando nos libertamos de nós mesmos. Me encanto com o pôr do sol que está disponível todos os dias e na correria do dia a dia não percebemos o quanto é lindo as coisas simples, mais intensidade e menos superficialidade.
    Obrigado por me ajudar a encontrar a verdadeira felicidade, não aquela superficial, mas sim aquela que percorre todo seu corpo e encontra morada no coração.
    Que Deus te abençoe imensamente no tamanho do universo.

  • Simone fronza 25 de julho de 2019 on 17:40

    Tão maravilhoso!!!! Seus textos inspiram e tocam profundamente o coração

  • Adélia Maria Milani 21 de julho de 2019 on 21:59

    Gratidão! ♡♡☆☆☆

  • Joane Faustino 21 de julho de 2019 on 16:13

    Gratidão 🌺♥️

  • Viviana Vettorazzi 20 de julho de 2019 on 09:03

    Incrível! Todas lições caem como uma luva! Gratidão, luz 🙏🏻

  • Karllus 20 de julho de 2019 on 00:51

    Fazer as escolhas sendo a paz interior o diapasão a orientar o caminho, vibrando na paz tudo se tem, tudo se faz!

  • Fernando Machado 18 de julho de 2019 on 15:08

    Gratidão profunda e sem fim Yoskhaz, sem fim…

  • Sílvia Werneck 18 de julho de 2019 on 13:51

    A cada texto fico mais apaixonada por Yoskhaz, sinônimo de sabedoria infinita! Compartilhando luz!

  • 7_tiagotattooer8 18 de julho de 2019 on 04:33

    Ola cheguei na hr do café em Yoskhaz?! Esse lindo alimento pra minha alma acaba de sai do forno?! rsrsr otimo trabalho amigo, satisfação total, obrg por mim obrg por vc. Obrg vida pela vida kkkk estou feliz fazer o que ne?! vamos compartilhar luz rsrsr!!!

  • Terumi 17 de julho de 2019 on 23:12

    Gratidão! 🙏

  • Claudia Pires 17 de julho de 2019 on 21:37

    MA-RA-VI-LHO-SO! !!!!! grata sempre. Parece que vc fala pra mim. É impossível não se emocionar.

  • André Filipe 17 de julho de 2019 on 12:38

    Agradeço mais uma vez pelo banho de sabedoria e emoção que este texto me trouxe nesta manhã fria de Julho.

  • Scam 17 de julho de 2019 on 11:36

    A verdade doi. Mas liberta…..