Uma face comum e oculta de todos nós

O dia ainda não tinha amanhecido. Enquanto a cafeteira trabalhava, fiz uma breve prece, entremeada com uma rápida meditação, um ritual próprio e diário no qual encontro comigo, meus mentores e guardiões, e assumo alguns compromissos perante à Luz em me esforçar para ser um pouco diferente e melhor do até então consegui, ao menos por mais um período entre o dia e a noite. Quase nunca consigo. Quando percebo os equívocos cometidos, as tentações que não resisti, as sombras que me vergaram, confesso a mim mesmo a dificuldade que me atrapalha, analiso o motivo do erro, penso se posso repará-lo de alguma maneira, me perdoo e torno a assumir o compromisso sincero por superação. Nas vezes que consigo, me alegro pela conquista. Há dias nos quais não percebo nenhuma vitória nem qualquer derrota, pois não existiram desafios no mundo para eu enfrentar dentro de mim. Nestes momentos me preocupo. Sei que estou sendo enganado.

Era um desses dias, sem novidade no front do bom combate. Enchi uma xícara de café e fui para a varanda do pequeno apartamento, onde moro, apreciar o céu salpicado de estrelas. Eu vagava em pensamentos distantes, quando o celular tocou. Teresa, uma amiga que eu não encontrava havia muitos anos, pedia que eu fosse visitá-la. Ela estava internada no INCA – Instituto Nacional do Câncer – e os médicos não tinham qualquer expectativa para a sua cura. Metástases espalharam o tumor para diversos órgãos e, em breve, o seu corpo sucumbiria. Sem demora, fui ao seu encontro.

Emocionado, chorei muito quando entrei no quarto. Serena, Teresa me acalmou ao lembrar que nenhuma despedida é definitiva. Os seus olhos cor de mel possuíam uma vitalidade que o corpo não conseguia mais expressar. Eu sabia que ela estava na plataforma de embarque e o trem não tardaria. Tínhamos nos conhecido ainda jovens e logo nos tornamos amigos. Fui padrinho do seu casamento e lembro de ter ido ao primeiro aniversário do Pedro, o seu filho. Aos poucos fomos perdendo o contato, mas a amizade permaneceu intacta. O que une os amigos é a pureza dos sentimentos. Isto torna as verdadeiras amizades imperecíveis. Não há tempo nem espaço capaz de separar os amigos. Teresa era uma psicóloga muito requisitada. Várias vezes li entrevistas e artigos que ela escrevia para revistas e jornais. Possuidora de um equilíbrio emocional nato, tinha outro atributo bastante raro: aperfeiçoada visão crítica. Uma valiosa capacidade de analisar um fato sobre todos os ângulos possíveis. Isto a tornava uma terapeuta de enorme eficiência, por ajudar os pacientes a se observarem por faces aparentemente desconhecidas. Quando conseguimos é revelador. Uma vez ela me disse: “Há mais história no silêncio do que nas palavras de qualquer pessoa. Não raro, o que falamos é para despistar quem somos”.

Passada a emoção inicial do encontro em situação tão delicada, perguntei pelo Davi, o seu marido. Teresa me atualizou: “Divorciamo-nos alguns anos atrás. Ele e a Beth estavam apaixonados e se casaram”. Atônito, perguntei: “A Beth não era a sua melhor amiga?”. Eu lembrava que ela tinha sido madrinha do casamento da Teresa. Teresa deu de ombros e disse: “Acontece”. Em seguida, esclareceu: “A Beth foi a minha amiga mais íntima até ela ficar grávida e ter que me contar que o pai era o Davi. Então, descobri que se relacionavam desde o tempo que eu ainda namorava com ele”. Fez uma pausa e comentou: “Eu acreditei que vivia o casamento perfeito, mas me enganei”. Fez uma pausa como quem se recorda de alguns fatos e confessou: “Em verdade, eu não quis ver. Olhando para trás, consigo enxergar todas as evidências de um relacionamento naufragado, mas eu me negava a admitir”.

Perguntei se ela preferia mudar de assunto. Ela disse que não. Era a primeira vez que conversava com alguém sobre detalhes da sua separação. Chegara a hora de fazer uma catarse antes de partir. Teresa explicou: “A palavra catarse vem do idioma grego e significa purificação. Preciso me libertar dessas emoções antes de partir, pois não as quero na bagagem. Viajamos mais e melhor quando livres e leves”.

Eu quis saber a razão de ela falar assim. Teresa respondeu: “Quando soube da gravidez da Beth e do longo relacionamento extraconjugal que mantinham, reagi com aparente tranquilidade e equilíbrio. Não houve gritos nem desespero, ofensas nem pedidos de explicação. Sabemos que essas cenas não adiantam de nada. Somente pedi para ele arrumar a mala e ir embora. Vi quando ele atravessou a porta da sala para iniciar uma nova etapa da sua vida. Antes de sair, o Davi se declarou aliviado por aquilo estar acontecendo, pois não suportava mais me enganar. Pediu-me desculpas e partiu, embora sem falar, com inegável alegria nos olhos. Desejei felicidades ao novo casal e não derramei uma única lágrima”. Neste instante vi os seus olhos marejados. Ela não conseguiu conter o choro reprimido durante anos. 

Ficamos alguns minutos sem dizer palavra. Não precisava. No silêncio existia a narrativa de uma história mal resolvida. Negar um fato para si próprio não o extingue. Era perceptível que a calma demonstrada pela Teresa depois do divórcio não era oriunda de uma raiva equacionada e educada pelas suas virtudes, mas de uma raiva reprimida e negada. Ela explicou as suas razões: “Eu não queria admitir para mim mesma que eu sofria com as escolhas do Davi e com o comportamento da Beth. Eu recalcava a raiva que sentia por ter sido enganada e, também, pela felicidade deles. Acreditava que por ser uma psicóloga requisitada e famosa, eu estava acima e além da raiva, uma sombra encontrada nas personalidades imaturas e selvagens. Uma emoção típica dos pacientes e, portanto, inconcebível à terapeuta. Eu me acreditava acima das sombras comuns”. 

“Por conduzir tantas pessoas à cura, acreditei no personagem que criei para mim. Uma profissional que conhecia os mistérios das paixões humanas e dominava os seus mecanismos de manifestação e cura. Portei-me como uma semideusa. E como consta na mitologia, me acreditei uma imortal”.

“Logo eu, tão perspicaz em encontrar as sombras alheias, não as percebi em mim”.

“Na maioria das vezes, negamos ou nem mesmo percebemos as máscaras que usamos. Não por sermos hipócritas ou mentirosos, mas por não entendermos a razão de as sombras se manifestarem em nós e por nós. Não é fácil lidarmos com elas. Usamos as máscaras por medo. Mas não é um medo de todo consciente, pois, está conosco desde a mais remota lembrança. De tão antigo e íntimo, ignoramos a sua presença e influência. Falo do medo da rejeição por sermos diferentes e únicos, por não entender que a grandeza e a força nascem quando admitimos que somos pequenos e frágeis. Que somos iguais a todos e, ao mesmo tempo, diferentes de todos. Então, podemos iniciar um movimento de avanço e crescimento. Mas o inconsciente, onde mora a alma quando ainda não harmonizada ao ego, apesar de pouco perceptível, tem uma influência enorme, por ser parte de quem somos. Preciso do seu conteúdo para me tornar inteiro e pleno. As sombras são como os fatos: negá-las não as fazem desaparecer. Sem alargar as fronteiras do consciente além das terras do inconsciente, serei como um iceberg, onde apenas conheço a parte visível acima da linha d’água. Porém, a menor parte. Se faz necessário unir de modo harmonioso esses dois territórios, o da sobrevivência e o da transcendência. Ao viver somente uma pequena parte de quem sou, aos poucos se abrirá um enorme vazio entre a aparência e a essência. Foi neste abismo que eu caí”.

“Eu segui me portando como se tudo estivesse sob controle. Muita gente tomou conhecimento dos fatos, até porque era impossível esconder, pois tínhamos amigos em comum e a barriga da Beth crescia todos meses. Quando me perguntavam se eu tinha quebrado a casaou a cara deles, eu respondia aparente serenidade: Imagina, claro que não. Que sejam felizes!”.

Interrompi para dizer que ainda bem que ela não se comportou de maneira descontrolada. Com certeza agravaria a situação e se sentiria pior com essas atitudes. Teresa concordou: “Sim, fico feliz que não reagido de modo agressivo, sem me valer de nenhuma violência. Abomino este tipo de descontrole emocional. Quanto a isto, sem dúvida, fiz o que tinha de ser feito”. Em seguida, fez uma ressalva: “No entanto, não cuidei de um monstro nascido em razão daquele fato: um enorme ódio. Que quanto mais eu o percebia, mais eu o espremia para as profundezas do meu ser. Todos os dias me vinha a lembrança das circunstâncias do divórcio. Sabe o que eu fazia? Tratava de desviar a atenção dos meus pensamentos para outros fatos. Dizia para mim mesmo que eu estava acima daquelas paixões e situações, nada daquilo era digno de mim. Entende que ao me acreditar acima da escuridão humana me tornei uma presa frágil para ela?”. 

Balancei cabeça em anuência. Comentei que a negação do ódio concedia espaço e o deixava solto para se movimentar dentro dela. As sombras adoram quando fingimos que elas não existem, pois campeiam sem nenhum controle, crescem e, em algum momento, assumem o poder. Sempre de forma desastrosa. 

Ela mesma esclareceu: “Sim, exato. O que eu deveria ter feito? Eu precisava ter sido sincera comigo, ter me chamado para uma conversa honesta e dito: Teresa, você está morrendo de raiva. Literalmente, pois, o ódio envenena quem o destila. Se não o quero como companheiro ou conselheiro, preciso fazer com que evolua para que não se agigante. Embora as palavras possam trazer algum engano, são coisas bem diferentes. Agigantar é crescer para fora, evoluir é crescer para dentro. O agigantamento do ódio é a desumanização. A evolução do ódio é a compaixão. É preciso abraçá-lo com carinho e sem pudor para mostrar ao ódio que não podemos exigir de ninguém a perfeição que não temos a oferecer. Claro que temos de estancar o mal, mas não precisamos do ódio para isto. Para que o mal não deixe sequelas, o perdão é o perfeito elixir. Não se consegue perdoar sem compaixão. Os equívocos de cada pessoa são inversamente proporcionais à expansão consciência e as virtudes que já possuí. Contudo, pela longa jornada que temos pela frente até a Luz, em maior ou menor grau, todos têm de aprender a lidar com os seus próprios erros para que possam ter paciência e compaixão com os outros. Se pensarmos bem, constataremos que compaixão e a paciência que temos com o mundo está ligada a humildade já sedimentada em nós”.

“Esquecer é bem fácil do que perdoar, pois, para perdoar precisamos nos passar a limpo, admitir as próprias dificuldades e, não raro, entender como colaboramos para que aqueles fatos ocorressem. Aprendemos e ensinamos o tempo todo, como uma vela que se acende na chama de outra para juntas iluminar um enorme salão. No mais, esquecer é exercício dos tolos. Ninguém esquece, apenas varre para debaixo do inconsciente a memória dolorosa. Mas ela não morre nem vai embora. Renegada, ela fica à espreita como ficam os predadores, para ao menor descuido, dar o bote certeiro, retornar à cena e assumir o protagonismo”.

“Perdoar é parar de alimentar o mal e, em seguida, fomentar o bem. Não podemos permitir que ninguém prossiga nos fazendo mal, temos de estancar isto da melhor maneira possível. Como nem sempre sabemos como fazer, uma maneira segura é enfraquecê-lo por inanição. Somos muito vigilantes quanto ao mal que existe no mundo e nos descuidamos daquele que sorrateiramente sufoca a nossa melhor parte. Este é o mal mais comum, aquele que fazemos a nós mesmos. É o mais destrutivo por estar localizado dentro da gente. Também o mais perigoso, pois demoramos muito a perceber e admitir. Assim é o ódio que sentimos. O ódio é como a lagarta que come e destrói as flores virtuosas que existem nos jardins do inconsciente. Quando tratada com amor e sabedoria, a lagarta entrará no casulo feito com os fios de seda da compaixão. A metamorfose do perdão a transformará em borboleta”. 

“Sabemos que o perdão se completou quando podemos rever quaisquer fatos da nossa história sem qualquer sofrimento. Entendemos as lições que cada evento nos proporcionou e do crescimento alcançado. Então, agradecemos e sorrimos. Enquanto, este olhar não for possível, acredite, a lagarta está viva e longe do casulo. Ao demorarmos muito, quieta e sorrateira, ela destruirá todo o jardim de virtudes até restar apenas um deserto. Neste momento, agigantada e sem controle, abrirá as portas do inconsciente para invadir o consciente”. 

“Por ignorar que poderia se transformar em borboleta, a lagarta se agiganta, até se tornar um monstro e emerge à superfície do indivíduo. Assim surgem as tragédias pessoais”.

“Para tanto, o passo inicial é não se acreditar acima das pessoas comuns, não se imaginar melhor que ninguém. É preciso se admitir suscetível às paixões mais vis. Somente então será possível transmutá-las. As emoções mais densas percorrem as entranhas de todas as pessoas. Medo, ciúme, vaidade, orgulho, inveja, entre outras, nos são inerentes. Aprender o que fazer quando uma delas nos visita é a diferença de ficar na escuridão ou seguir rumo à Luz”.

“O indivíduo que diz estar livre das sombras é alguém perdido de si mesmo, que teima em se enganar. Será uma presa fácil e terá de lidar com os efeitos mais desastrosos, como um marinheiro distraído que ignora o perigo da tempestade que se avizinha no horizonte por acreditar que ela nunca alcançará a sua embarcação”.

“Eu precisava entender que, embora tratasse os meus pacientes envolvidos com emoções semelhantes, eu não estava imune as mesmas paixões. Faltou-me entendimento por não haver humildade. Somente assim seria possível começar o meu processo de cura. Exatamente como sempre fiz com eles”. Com os olhos mostrando resignação, fez uma pergunta retórica: “Mas eu era a terapeuta, entende a dificuldade?”.

Os olhos tornaram a ficar marejados e ela disse: “Eu não tive coragem de dizer isso para mim mesma”. Fez uma pausa e prosseguiu: “Então sucumbi ao monstro que eu criei e alimentei. Poderia ter perdido a batalha de diversas maneiras. De um lado, com agressividade, em uma das suas diversas formas. Poderia ter me tornado uma pessoa amarga e rancorosa até beirar as raias do descontrole absoluto, com a prática de um execrável homicídio passional, por exemplo. De outro, poderia ter sido tomada por uma tristeza profunda, da apatia ao suicídio, intercalado pelos diversos estágios da depressão. Todos esses casos são gritos silenciosos daqueles que não entendem ou não dão conta das emoções que os movimentam. É o desespero daqueles que se perderam de si mesmo, então, abandonados, acreditam não ter sobrado nada”. 

“Entretanto, somatizar o ódio é outra forma de manifestação da lagarta crescida e bem mais comum do que acreditamos. Desequilíbrios emocionais e sofrimentos demorados, às vezes, ao invés de se manifestarem através comportamentos extremos de agressividade ou tristeza, o fazem por meio de alterações patológicas em alguns dos diversos órgãos do corpo. Muitos tumores nascem assim”. Pediu para eu pegar um copo d`água na mesa de cabeceira, bebeu um gole e, sem nenhuma ponta de rancor, disse: “Eu fizum câncer”.

Eu disse para Teresa não ser tão rigorosa com ela mesma nem se culpar pela doença que a acometia. Lembrei que crianças, ainda em idade tenra, sem tempo para metabolizar um sofrimento em tumor, também enfrentavam o câncer. Ela discordou: “É preciso distinguir as doenças genéticas daquelas adquiridas por maneiras insalubres de pensar e de sentir. Estas são consequências da ignorância com que lidamos com as nossas sombras. Os sofrimentos quando somatizados não se manifestam somente em forma de tumores, mas de inúmeras outras maneiras, tendo como reflexo algum mau funcionamento no organismo”. 

Olhou-me nos olhos e falou: “Não se trata de inventar uma culpa, mas de viver com responsabilidade. Apenas assim conseguirei aprender, superar e avançar”. Fez uma breve pausa e prosseguiu: “Pela primeira vez, desde o divórcio, estou sendo sincera comigo. Acredite, é um encontro maravilhoso por desmanchar todas as ilusões que me enganavam e as mentiras que eu insistia em contar para mim mesma. Assim, finalmente posso ser honesta com o mundo e vislumbrar a beleza da vida. Eu sou a responsável pela doença que me acometeu. Ninguém mais. Isto, ao contrário do que você imagina, não dói. Em verdade, é digno e libertador, pois ao perceber a sabedoria contida em todos os fatos, liberto a todos de qualquer culpa. A Beth e o Davi foram apenas eles mesmos, fizeram do jeito que sabiam, de acordo com as suas consciências, com as quais encontrarão as dores e as delícias de ser quem são. Não me cabe julgar. Assim é com todos. Eu sou a única responsável pela minha vida, ninguém mais. Se eu tivesse entendido isto antes, teria sido mais feliz e, com certeza, amado muito mais. Posso partir em paz pelo amor que resgato em meus últimos dias de existência. Sigo feliz, pelo que aprendi, e leve, pois deixo para trás aquilo que não mais me serve. Daqui pra frente tenho condições de amar mais e melhor”.

Em seguida, concluiu o raciocínio daquela conversa: “Quando ignoramos as próprias sombras, significa que elas nos levaram para a escuridão absoluta”. Pedi para ela explicar melhor. Teresa foi didática: “Já reparou que quando entramos em um quarto completamente escuro não conseguimos ver nenhuma sombra?”. Dei de ombros e comentei que precisamos de um pouco de luz para que as sombras fiquem visíveis. Ela arqueou os lábios em um singelo sorriso e finalizou: “Exato, precisamos de luz para conseguir enxergar as sombras. No entanto, nos iludimos que na escuridão elas não existem. Quando não vemos as sombras, acredite, elas continuam presentes e ficaram enormes. Estamos no escuro absoluto”.

Uma maravilhosa e indescritível atmosfera nos envolveu. Os olhos cor de mel de Teresa eram como dois potentes faróis tamanha a luz que irradiava. Encostei ao lado da cama, segurei as suas mãos e juntos fizemos uma prece silenciosa em agradecimento à sensação de plenitude que sentíamos. Na bagagem que Teresa levaria para a próxima estação foram acrescidas, de última hora, algumas riquezas imperecíveis. Ela travara e acabara por vencer o bom combate. Partiria mais forte e melhor do que chegou. Seja por ter feito bem a tantos pacientes, seja por, finalmente, ter curado a si mesma.

Perguntei por Pedro. Ela explicou que nada tinham conversado sobre a sua saúde. Contou que ele se casara e morava no Canadá. Entendia que como o seu quadro era irreversível, contar ao filho somente compartilharia um sofrimento que se alongaria até a sua partida, sem que ele nada pudesse fazer para impedir. Do jeito como decidiu, não deixaria de ser doloroso, mas seria um único impacto. Quando irremediável, a superação do sofrimento costuma ficar um pouco mais fácil, argumentou. Eu quis saber quem contaria ao Pedro. Teresa me respondeu ao fixar os seus olhos nos meus. Antes que eu pudesse recusar a missão, ela movimentou os lábios me enviando um beijo. Em seguida, me ofereceu um sorriso doce e fechou os olhos. Apenas tornaria a abri-los nas Terras Altas.

Três dias depois, eu estava no Aeroporto do Galeão, quando o sistema de som anunciou o voo que faria a minha conexão até Toronto. Eu tinha muitas coisas boas para falar ao Pedro sobre a sua mãe. A mulher incrível que ela foi e o enorme legado de cura que nos deixou. Uma andarilha incansável que se dispôs a aprender até o último minuto. No entanto, uma coisa eu não poderia esquecer de lhe falar, pela utilidade e sabedoria que continha. Foram as últimas palavras que ela me disse naquela madrugada no hospital: “O maior truque das sombras é nos iludir que elas não existem em nós”.

Imagem: Subbotina – Dreamstime.com

Discussões — 15 Respostas

  • Alcídia Batista 12 de outubro de 2019 on 09:10

    Que história linda!!!!

  • Alcídia Batista 12 de outubro de 2019 on 08:46

    Amei a história de Teresa, tenho uma amiga psicóloga que teve depressão mas se achava muito forte e pensava que era imune. Mas é tão humana quanto qualquer um de nós. Vou ler pra ela a história de Teresa!!!!

  • Hélio Proença 26 de setembro de 2019 on 11:08

    Isso sim é uma viagem que vale a pena….somos viajantes rumo a luz..
    Gratidão!

  • Claudia Pires 20 de setembro de 2019 on 12:07

    Lindo e comovente.

  • Jeane 19 de setembro de 2019 on 13:27

    Gratidão!!! Fiquei emocionada…

  • Adriana Dinoá 19 de setembro de 2019 on 08:46

    Ao enxergarmos que as dificuldades ,que podem chegar através de doenças,almas que cruzam nossos caminhos,dificuldades que aparecem a todo momento,na verdade são pontes que nos movimentam em direção a nossa evolução rumo à luz .
    São campos de prova que nos são colocados para que possamos aprimorar nossas virtudes e enxergarmos,aceitarmos e transmutarmos nossas sombras

  • Adélia Maria Milani 17 de setembro de 2019 on 22:24

    Gratidão!★☆♡♡♥★☆

  • Domingos Magalhães Júnior 15 de setembro de 2019 on 07:26

    Ah, Yoskhaz…

    Muito obrigado, meu Irmão!

    “Como o acaso não exite e os dedos do Universo são longos”, esse tesouro em forma de texto chegou até mim em um momento muito oportuno.

    Que a Força esteja com você!

    Ah… Minha segunda travessia pelas areias do deserto já vão pelo trigésimo dia.

    Eu ficaria realmente muito feliz se algum dia pudermos compartilhar alguns minutos de uma boa conversa e duas canecas fumegantes de café… rsrsrs (quem sabe?)

    Que no dia de hoje possamos, sim, ser um pouco diferentes e melhores, pelo menos enquanto o sol cumprir sua jornada entre o Oriente e o Ocidente.

    E quando a noite chegar, que possamos refletir sobre o dia que se passou e constatar: por um dia eu consegui !!!! Que assim seja!

    #partiu front do bom combate !!!!

    Um fraternal abraço !!!!!

  • Leandro 15 de setembro de 2019 on 06:05

    Que a Luz seja com você Yoskhaz, Gratidão 🙏

  • Terumi 14 de setembro de 2019 on 22:33

    Gratidão! 🙏

  • Fernando Machado 14 de setembro de 2019 on 10:56

    Gratidão profunda e sem fim Yoskhaz, sem fim…muito obrigado irmão

  • Brian 14 de setembro de 2019 on 04:39

    CATARSE

  • Magnum 13 de setembro de 2019 on 17:47

    a cada texto uma aprendizagem. Gratidão sempre.

  • RAFAEL 13 de setembro de 2019 on 15:22

    Gratidão por ser uma ponte que nos leva a eternidade…

  • silmara 13 de setembro de 2019 on 07:55

    Arrebatador e oportuno como sempre!!! Muito obrigada!!!