A noite

Acordei, como acontece quase todos os dias, com o céu salpicado de estrelas. Adoro o silêncio e a quietude da madrugada, como se me convidassem à reflexão, meditação e oração. Peguei uma caneca com café, fui até a varanda e me deixei envolver pela ambiência de introspecção que a noite traz. Como ensinava Li Tzu, o mestre taoísta, sobre a importância das polaridades opostas, caracterizada pelo contrair para construir e o expandir para compartilhar, em movimentos alternados e complementares de infinitos ciclos evolutivos. Existe a hora de mergulhar em si para construir o ser; existe a hora de ir ao mundo para lapidar o ser. Um momento alimenta e inspira o seguinte; de dentro para fora, de fora para dentro. A vida exige ambos os movimentos. Essa era a razão da noite em contraponto com o dia, raciocinei.

Era um sábado. Eu tivera uma semana de muita correria e afazeres. Encontros, compromissos e escolhas. Havia um livro quase pronto. Em paralelo com os textos espiritualistas, decidi escrever um romance sobre um trapezista que tem a sua memória apagada ao sofrer uma queda. Eu precisava rever o texto para enviar à edição. Um amigo tinha me emprestado o seu pequeno sítio em um distrito encravado no alto na Serra do Mar, o conjunto de montanhas que envolve a cidade do Rio de Janeiro. De carro, um trajeto de menos de duas horas de onde moro até lá.

Eu precisava rever o texto do livro novo com calma, não era só isto. Acima de tudo, eu precisava pensar. Tinha muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. Uma clara mudança de ciclo na minha vida, ensinamentos que se encerravam para que novas lições se apresentassem. Sem fechar a agência de publicidade, de onde provinha a minha subsistência, eu me encantava com a pequeníssima editora que havia montado para publicar os livros que me eram importantes. A cada dia, a ideia de compartilhar a fina flor do conhecimento construído há milênios, e ainda restrito a pequenos círculos esotéricos, me fascinava. Livros de profundo conteúdo, publicados séculos atrás, difíceis de serem encontrados, mereciam uma nova abordagem, associada ao olhar e à linguagem contemporânea. Os assuntos mais importantes que existem hoje, tais como o amor, a liberdade, a paz, a dignidade e a felicidade, vêm sendo debatidos desde tempos imemoriais, com uma lucidez ainda desconcertante aos nossos dias. Questões consideradas atuais têm equações bem solucionadas por antigos pensadores. Sem renegar o importantíssimo avanço da ciência e a permissão mais intensa do tráfego de conhecimento entre os mundos visível e invisível, pois, são valiosos mecanismos que trazem clareza as respostas e nos ajudam a evoluir. As chaves para abrir as portas da plenitude do ser estão disponíveis há muito tempo. O amor não é uma novidade, ele está no mundo desde a sua criação. Novos conteúdos ajudam a iluminar as palavras dos sábios de antigas sociedades, codificadas em razão de tumultuados contextos históricos. Tudo que estava oculto, em verdade, já tinha sido revelado, somente não conseguíamos entender. Avançamos, embora ainda falte muito a compreender. Ainda existem muitos livros que merecem um olhar mais atencioso em razão da amplitude que oferecem. Eu me sentia impulsionado a me envolver mais profundamente com tudo isso.  Era preciso entender os acontecimentos da minha existência para aproveitar e harmonizar as oportunidades de transformação que se ofereciam a mim. Quando entendemos o sentido, tudo se encaixa. Assim são os ciclos existenciais. 

Eu sempre gostei de meditar dentro de igrejas e templos pela maravilhosa energia que possuem. Também sempre tratei os mares, rios e florestas como santuários; as montanhas como catedrais cósmicas. Além de cuidar do pequeno apartamento onde moro, para que seja um recanto sagrado e me envolva com boas vibrações. Assim devem ser todas as casas. Portais de percepção se estabelecem em razão das intensas conexões que ancoram quando você se dispõe a isto. Naquele momento, ir para o sítio, ter contato com a natureza, matas e montanhas, talvez me ajudasse a entender o ciclo que se apresentava, mas eu ainda não conseguia fazer a devida leitura.

Todo processo de mudança traz questionamentos e dúvidas. Não raro, medo. São questões diferentes, embora pela confusão interna que provoca, seja comum misturarmos como se fossem a mesma coisa. O medo é o pior dos conselheiros, pois ele nunca nos indica a estrada do amor. O medo tolhe o amor. O medo furta a nossa melhor parte, inibe a criatividade, impede de sermos únicos, diferentes e melhores. Ele nos proíbe da avançar. O medo é diferente da precaução e da sensatez. Estas, se por um lado nos indicam limites, de outro, nos mostram as oportunidades que não devem restar desperdiçadas. Os questionamentos e as dúvidas são típicos de quando estamos diante do desconhecido, de novos ciclos e jornadas. São saudáveis por nos fazer buscar as respostas que precisamos, de nos impulsionar para além de onde estamos. Ampliam a consciência, estimulam as virtudes e afiam as escolhas. Então, quando bem aproveitados, trazem crescimento. Bem diferente do medo que nos rouba a confiança; se não acreditarmos em nós mesmos, não iremos a lugar nenhum.

Como se não bastassem todos os questionamentos que eu tinha em razão de um novo ciclo que surgia, um comentário feito por um funcionário da agência me trouxe um enorme desconforto. Como havia uma excelente equipe de criação na empresa, o meu afastamento gradual do comando, poderia conduzir a situações indesejadas e não previstas: nada impediria que esses profissionais saíssem para montar a sua própria agência. Segundo esse funcionário, havia um movimento neste sentido. Não seria difícil para eles, pois possuíam talento e experiência. Então, não apenas os meus planos, porém, toda a estrutura financeira prevista para os próximos anos desabaria.   

Confesso, deu medo. Se todos saíssem, a minha situação ficaria bastante complicada. Eu teria de arregaçar as mangas e voltar de maneira intensa ao trabalho na agência. Pior, com a equipe esfacelada ou mesmo sozinho. Perderia boa parte dos clientes que eu já delegara para tratarem diretamente com esses profissionais no intuito de agilizar os serviços e aprimorar responsabilidades. Eu teria de montar outra equipe, algo quase nunca fácil e, possivelmente, demorado. A agência tinha uma equipe tão azeitada que nos entendíamos quase sem falar, tamanha era a afinidade. Muitos começaram como estagiários e nunca mais saíram. Mas tudo muda o tempo todo. 

Respirei fundo e ponderei comigo: se fosse o caso, teria de haver respeito à liberdade de quem quisesse partir, assim como foram acolhidos quando decidiram ficar. Não há liberdade sem amor; o amor não cobra impostos. Porém, seria estranho chegar lá e não os encontrar. Vê-los competindo contra mim. Se eu desistisse de manter a agência, iria à falência. O conforto dos meus dias havia sumido antes mesmo de algo acontecer. O medo tem este poder.

Talvez fosse um boato sem nenhum fundamento. Mas a mera possibilidade, me amedrontava; deixava o sono agitado; roubava a concentração necessária a outros importantes afazeres; tirava o gosto dos dias. Era como se uma parte de mim houvesse desaparecido. Não se vive com medo. Literalmente. O medo é o ladrão da existência. Com medo, você está vivo, mas fica sem vida dentro de si. Saber lidar com o medo é uma arte. O medo é como um daqueles vírus da gripe. Quando você descobre a vacina para inoculá-lo, ele se transforma em outro. Eu tinha vivido diversas situações de medo ao longo da vida. Um a um, eles foram educados e superados. No entanto, como uma fábrica que não desliga as máquinas, insistimos em produzir medos por todo o tempo. Alguns bem insensatos, outros quase factíveis. Todos são assustadores. Quando intensos, formam a noite da existência.

O sítio parecia ficar depois da última curva do mundo, face a estrada estreita, ora pedregosa, ora lamacenta. O carro trafegava com lentidão e dificuldade. A casa era um pouco mais do que uma cabana. Sem vizinhos e sinal de celular. Com um fornecimento irregular de energia elétrica, eu ficaria satisfeito se desse para manter a casa acesa à noite e aquecer a água do chuveiro. “O suficiente me basta”, repeti para mim o mantra dos filósofos estoicos quando lá cheguei.

Logo no primeiro dia, depois de arrumar a bagagem e verificar o estado dos utensílios da casa, fiz uma trilha, que eu já conhecia, até um mirante onde é possível vislumbrar uma paisagem belíssima. Quando retornei no final da tarde, nuvens escuras e pesadas apressavam a chegada do anoitecer. Cheguei no sítio junto com a chuva, que se intensificou com o passar das horas. Estava frio. Eu acendia a lareira no momento em que o fornecimento de eletricidade foi interrompido, fato comum na região. Não me importei. Com o calor e a claridade oferecidos pelo fogo, puxei a poltrona para próximo à lareira. Enchi uma taça de vinho, cortei um pedaço de pão recheado com frutas secas e os coloquei em uma pequena mesa ao lado de onde me sentaria. Estava disposto a ler até o instante de dormir. Foi quando me dei conta que esquecera de levar a sacola com os livros destinados à leitura naquele período de retiro. “Não se lamente e se reinvente com a situação”, tornei a repetir outro valioso mantra. Aproveitaria o tempo para revisar o livro que enviaria à edição. Quando liguei o notebook, me dei conta que não o tinha carregado antes de sair de casa.  Prossegui no trabalho, mas a bateria durou menos de uma hora. Devorei o pão e esvaziei a taça de vinho. Restara o fogo e eu. Ao nosso redor, a noite.

Em verdade, eu estava diante de mais um dos valiosos, embora sempre adiados, encontros que temos de ter conosco. Embora inevitáveis à evolução, evitamos pelo desconforto que causam. Eles trazem à tona as mágoas, as lembranças desagradáveis e as sombras que teimamos em varrer para debaixo do tapete. Contudo, a poeira continua dentro de casa. Empurramos para o inconsciente as situações e emoções que não queremos enfrentar por acreditar impossível a sua transmutação. Fazemos isto por não acreditarmos no poder que temos sobre as nossas próprias vidas. Sim, não fazemos por medo. Naquele dia, o encontro trouxe a mim o temor da bancarrota, da falência financeira caso os principais profissionais da equipe decidissem sair da agência.

Sob a desculpa que eu queria apenas relaxar naquele primeiro dia, considerei que deveria ter algum livro em um canto qualquer daquela casa. Em verdade, não passava de uma fuga para não enfrentar o medo que me afligia. Um livro seria perfeito para me entreter naquele momento. Um vício comum e vulgar, como se a distração fosse capaz de driblar o medo que, no rolar dos dias, apaga a vida que existe em nós.

Acendi uma vela para vasculhar a casa. Encontrei somente um exemplar empoeirado da Bíblia. Não era bem a leitura que eu desejava para relaxar naquele instante. Deixei-a de lado e decidi ir para o quarto dormir. Mas não consegui. Ao me deitar, o medo pareceu se agigantar. Em minha mente, todos os funcionários da agência pediam demissão, os clientes rescindiam os contratos. A agência falira. Eu me via na miséria e no abandono. O medo tem o poder de se projetar nas lentes de aumento típicas do desequilíbrio; situações que nunca irão acontecer, mas que nos destroem internamente. Ficamos fracos e nos sentimos como se fôssemos trapos humanos. O medo nos diz que a esperança é tola e o mundo é ruim. As pessoas são más e o amor não passa de versos bonitos de poemas irreais. 

Nessas horas, um simples detalhe é de extrema importância para que não sejamos sugados pelos esgotos da existência: uma consciência desperta. Precisamos da sabedoria da alma para mostrar a tentativa de domínio das sombras; necessitamos, também de um ego firme e determinado a reagir. Assim como precisamos de uma alma forte, também necessitamos de um ego forte. A morte do ego, como se costuma repetir de maneira equivocada, se traduziria em suicídio do ser pela ausência de vontade, pelo desânimo que se instala. Alma forte e ego fraco se evidencia no “tudo sei, mas nada faço”; compõem uma existência de contemplação e aprimoramento sem nenhuma construção. Ora, somos artistas da própria vida e coautores do mundo. A alma orienta, o ego realiza. 

O contrário, ego forte e alma fraca levam ao abismo da escuridão e do sofrimento. A confusão que se faz é porque se confunde um ego orgulhoso, ganancioso e vaidoso como se fossem significados de força. Egos assim, em verdade, são apenas imaturos. As sombras dão uma falsa sensação de poder ao ego para esconder a fragilidade proveniente do medo, em uma prática recorrente de enganos e ilusões. Isto cria um ego inchado, de vistosa aparência, mas vazio em essência. Um ego forte é um ego consciente do seu real estágio evolutivo, disposto a agir e transformar a própria realidade através das possibilidades oferecidas pela luz. Assim teremos um ego sem medo, alimentado pelo amor e pela sabedoria da alma. As sombras envenenam o ego ao fazê-lo beber nas águas turvas do medo; a alma o fortalece com sua inesgotável fonte límpida de virtudes. As virtudes são as variantes do amor. As escalas da jornada rumo à luz.

Troquei de posição na cama, me virei de um lado para o outro inúmeras vezes. Até que cansei de fugir da batalha e decidi por me enfrentar. O fogo da lareira ainda ardia. Sentei-me na poltrona, fiz uma oração para me conectar com os meus mestres e guardiões. Meditei para encontrar comigo mesmo. A primeira coisa que eu disse para mim foi: “O pior nunca acontece, salvo seu eu for ao seu encontro”. Eu estava disposto a seguir em sentido inverso ao desastre. Tinha em mim o firme propósito da luz. Passado um tempo que não sei precisar, fui envolvido em agradável atmosfera de serenidade. Veio-me a intuição para ler a Bíblia que, havia pouco, eu deixara de lado.

Tenho sincera predileção pelo Sermão da Montanha, no Livro de Mateus e pelo Evangelho de João. Este, além de conter trechos épicos de profunda poesia, que nos remete ao estilo de Homero em sua Odisseia, também escrito em grego, tem o interessante detalhe do autor se declarar testemunha ocular dos fatos narrados. Ao iniciar a leitura encontramos um poema ontológico, sob viés esotérico, onde trocamos a palavra verbo, do vocábulo original lógos, por consciência, de tradução igualmente cabível:

“No princípio era a consciência e a consciência estava com Deus, e Deus era a consciência. A consciência no princípio estava com Deus. Todas as coisas existiram por ação dela e sem ela nada existiu. Nela estava a vida e a vida era a luz dos homens. E a luz brilha na escuridão, e a escuridão não dominou a luz”.

Algo despertou em mim. A consciência é composta pela alma e também pelo ego. Mutuamente, ego e alma são essenciais para iluminar a escuridão do mundo e, principalmente, do microuniverso particular de cada indivíduo. As questões de sobrevivência, quando bem aproveitadas, impulsionam à plenitude por nos levar a transcender quem somos. Para tanto, se faz necessário manter a alma e o ego em unidade de propósitos. Uma situação somente possível quando trazemos para o consciente todo o conteúdo do inconsciente. Isto nos torna inteiros. Então, tudo se ilumina e a escuridão se dissipa na clareza da mente, através do conhecimento de quem eu souEu soua consciência ampla formada pela harmonização do inconsciente com o consciente, das memórias pacificadas, das sombras iluminadas, do ego alinhado à alma; sobrevivência e transcendência, construção e lapidação, contração e expansão em movimentos contínuos rumo à luz. 

Eu sou, esta pequena sentença de apenas duas palavras sempre soou forte em mim, embora eu desconhecesse a razão. Ajeitei-me na poltrona e prossegui em uma leitura atenta, me esforçando para me lembrar de utilizar os conhecimentos já adquiridos. Caso contrário, de nada me serviriam. Percebi que estava próximo a algum novo ensinamento, mas não conseguia ainda saber qual era. 

Segui na leitura. Mais à frente encontro a exclamação: “Eu soua voz de quem clama no deserto”. Adiante, leio: “Eu souo pão do deserto”. Dou-me conta que a pequena sentença, eu sou, aparece de modo sistemático. “Eu soua porta”; “eu soua ressureição e a vida”; “eu soua vinha verdadeira”; “eu souo bom pastor”. Todas estas frases estão no Evangelho de João. Eu tinha uma antiga indagação em relação a essa maneira de se expressar, da necessidade conjugar tanto o verbo serna primeira pessoa. Principalmente vindo de um mestre da grandeza de Jesus, cuja passagem no planeta se caracterizou pela extrema humildade e profundo amor. Eu sabia que havia ali um tesouro oculto, o qual eu nunca encontrara e, por isto, não entendia a utilidade. Prossegui na leitura e, sem demora, reencontro a sentença: “Eu soua luz do mundo”. Era a chave.

Lembrei-me de outra valiosa passagem. Fui ao Sermão da Montanha. Estava lá: “Vós soiso sal da terra”.  Na linha seguinte: “Vós soisa luz do mundo”. (Eu sou / vós sois) … a luz do mundo”. 

Sim, o grande professor falava dele, mas também se referia a cada um de nós.

“Eu e o Pai somos um”, encontramos escrito mais adiante. Se eu chego ao Pai por intermédio do Filho, esta nova soma, agora com três elementos, também é igual a um. Em verdade, todas as somas são iguais a um. Ele e o Pai estão em mim. Logo, eu também sou.

Eu conhecia os textos, mas nunca os tinha conectado dessa maneira. 

Folheei mais algumas páginas, ainda no Sermão da Montanha, sabendo o que eu buscava: 

            “A candeia do corpo é o olho. Se teu olho for simples todo o teu corpo será luz”.

Um aforismo que precisa da exata leitura esotérica para uma melhor interpretação: “A candeia (a luz) do corpo (o universo) é o olho (a consciência). Está escrito no singular para diferenciar os olhos físicos do olhar da alma. Apenas ela, a consciência, me permitirá verquem eu soue a realidade à minha volta, para então me transformar e evoluir, desde que auxiliado pelas mãos da alma, o ego. Se teu olho (a consciência) for simples (humilde, sincera e amorosa, sem ilusões, subterfúgios e disfarces) todo o teu corpo (o universo) será luz”. 

Em outras palavras: “A luz do universo é a consciência. Se a tua consciência for virtuosa todo o universo será iluminado”.

A minha luz nasce na minha consciência. Por pura lógica, em uma mente iluminada não existe escuridão. O medo desaparece por completo. Volto às páginas de João e encontro: “Vós sois deuses”. Sim, somos deuses. Claro, um deus ainda em semente, embrionário, que preciso fazer brotar, crescer, florescer e frutificar. Então, conseguirei “remover as montanhas”. Sorri. Nada me falta. Em mim, toda a luz.

Porém, não fiquei satisfeito. Eu tinha a chave, mas não sabia qual porta abrir. As ideias apenas começavam a clarear. Era preciso pensar. Admiro o estilo socrático na confecção das ideias. O indispensável enfrentamento das perguntas sem fim para o encontro com as infinitas respostas. 

O que impede a manifestação plena da face sagrada que trago em mim? Ou seja, que me impede de ser por inteiro? Tão e somente as minhas sombras. Elas iludem, tolhem e me desviam de quem eu sou. Entre várias outras, estava o medo que me assolava naqueles dias. 

Por que eu sentia medo? Eu tinha a consciência que, se as sombras são minhas, não fazia sentido em tratá-las como inimigas. Seria um contrassenso. Não posso eliminar nem ignorar uma parte de quem sou, mas posso educá-la. Educar é trazer para a luz. As sombras são paixões amargas nascidas de conceitos deturpados. As suas raízes estão nos vazios que sinto, mas não entendo; nas dificuldades e fragilidades que tenho, mas não admito. O ódio surge quando me recuso a aceitar o fato de me negarem algo; a cobiça se faz presente quando atropelo a sensatez para que os meus desejos são sejam frustrados. E o medo? Por que sinto medo? Sinto medo porque não acredito em mim, na minha força e poder. 

Todas as vezes que o medo me envolve é um sinal da minha incapacidade de enfrentar e superar uma dificuldade. Quando me recuso à transformação crio a ilusão de incapacidade. Por não acreditar em mim, me torno um dependente desesperado pelo auxílio de pessoas e de situações capazes de amparar os meus interesses, de me arrancar do abismo que, sem me dar conta, despenquei. Perco o poder sobre a minha vida, entrego o controle dos meus dias. Enfraqueço. A minha luz se apaga.

Por que não acredito em mim? Pelo fato de ignorar ou desprezar que eu souEu souo sal da terra (o gosto pela vida), eu soua porta (o caminho que tenho que percorrer), eu soua vinha verdadeira (in vino veritas, em mim encontrarei a verdade),eu souo pão da vida (trago em mim o necessário, a força e o poder). Tudo de essencial e mais valioso que existe na vida está em mim. A liberdade, a paz, a felicidade, a dignidade e o amor me aguardam no âmago do ser. Se eu não for capaz de encontrar as plenitudes da vida em mim mesmo, não as encontrarei em nenhum outro lugar. Ora, se tudo aquilo que necessito está dentro e depende apenas de mim, não há nada no mundo que possa me amedrontar. Um raciocínio que me pareceu de uma lógica, clareza e lucidez desconcertantes. 

Embora simples e óbvio, fomos condicionados a temer o mundo e nos julgar incapazes de lidar com a maioria das situações. Por acreditar que o mundo é um lugar sombrio, vivemos amedrontados, assustados pelo perigo de não conseguirmos usufruir do mel da vida. Tudo pelo fato de termos desaprendido sobre a nossa essência. Eu soua luz, e também o mel do mundo. Toda escuridão e amargura serão dissipadas pela minha luz e doçura.

As outras pessoas de nada valem? Elas são valiosas e indispensáveis, pois o convívio é a têmpera da vida. Os relacionamentos forjam a personalidade no fogo das diferenças, aprimora o fio da virtude no corte das escolhas, ensina sobre a resiliência necessária para que o melhor aço, o amor, jamais se quebre durante o bom combate. Os relacionamentos nos levam aos conflitos, fazem surgir as sombras. Contraditório? Não. Simplesmente educativo. Somente assim aprendo sobre a arte de acender a luz na escuridão. Então, adquiro força e poder.

E, no caso específico, se todos me abandonarem e a agência falir? Este era o medo que me levara até ali. Ele furtava a alegria e a serenidade daqueles dias, produzia a agonia que me corroía o coração. Não é justo nem sensato interferir ou tentar manipular as escolhas alheias. Trata-se um domínio insensato e contrário a liberdade de todos os envolvidos. Inclusive a minha, pois, quando insisto em agir dessa maneira, fico aprisionado à vontade dos outros. Não existe liberdade quando tento impor os meus interesses sobre a vida de qualquer pessoa. A recíproca também se aplica. Faltará dignidade sempre que eu não tratar alguém do jeito que eu não gostaria que me tratassem. Da mesma maneira, não me permitirei seguir por onde não quero ir. Toda felicidade construída fora desses princípios será de mera fachada e não resistirá a menor ventania.

Ponderei que cabia a mim agir de maneira sincera comigo para que pudesse ser honesto com os profissionais que trabalhavam na agência. As relações precisam ser justas para serem saudáveis. Nada parece prestar quando estamos insatisfeitos. Era preciso ouvi-los para entender se a raiz da insatisfação era procedente. Se fosse, eu deveria propor algo diferente; se entendesse que não, que estava no meu limite, nada mais poderia fazer. Sem mágoas nem ressentimentos. Todos devem buscar o melhor para sim, sempre com o devido respeito às fronteiras individuais.

E se todos os funcionários fossem embora? A agência fecharia e eu enfrentaria enorme dificuldade financeira. Ora, não existe um mestre escondido por detrás de cada dificuldade para nos ensinar uma lição? Eu não sou a luz do mundo? Tudo aquilo que necessito para ser inteiro e pleno não está em mim? Para atingir a paz é indispensável aprender a dissipar todos os medos. Para tanto, eu precisava aplicar a teoria à prática. Eu precisava viver o Eu Sou.

O nome disto é fé. Quando acredito em mim, movimento a força da luz que me habita.

Lembrei do Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo do mosteiro: “Não é fácil a aplicabilidade desta virtude, a fé. Quando conseguimos, nos transporta a outro patamar da existência, pela autonomia que proporciona. Antigas inseguranças e velhos medos deixam de assustar. Descobrimos quem somos nós e paramos de opor obstáculo à propagação da luz. Assim interrompemos a criação das sombras”.

“O contrário da paz não é a guerra. É o medo. Somente a fé desmancha o medo. A fé é a sintonia que me comunica com as estrelas e me ensina sobre como usar a luz. A qualidade, tanto da transmissão quanto da habilidade, será diretamente proporcional à confiança que tenho em quem eu sou”

O pior nunca acontece, pois se trata de mera criação mental, uma absurda ideia oriunda de desordens emocionais. O medo não é natural, mas uma falha na elaboração de ideias, formada por uma consciência imatura, ainda sobre intensa influência da suposta incapacidade para lidar com o imponderável. Se a agência fechar? Fechou. Sem dramas nem vítimas. Ciclos se encerram e se iniciam, em manutenção aos eternos movimentos inerentes à evolução vida. “Se até os dinossauros sumiram, por que a minha agência não pode desaparecer?”, pensei e sorri. 

Sempre terei a mim mesmo. A minha consciência, virtudes e escolhas ninguém poderá me roubar. Salvo se eu permitir. Naquele instante assumi o sincero compromisso de nunca conceder tamanho poder a ninguém. Uma agradável leveza me envolveu.

Eu não quero que algo aconteça, mas se eu não conseguir mudar a trajetória dos fatos, o que farei? Modifico a mim mesmo para me tornar um pouco diferente e melhor a cada dia. Sigo construindo e aperfeiçoando quem eu sou. A Vida está sempre atenta, corrige as rotas, mas não abandona ninguém. Cada parte é essencial ao todo. Contudo, devo ter zelo quanto aos novos caminhos e oportunidades, sem nunca deixar de acreditar na minha luz. Nunca deixar de acreditar em mim. Eu sou

Você não tem medo das portas se fecharem? Isto somente acontece quando assim permito. Eu soua porta! Não é o mundo nem a vida quem me fecham os caminhos. É o medo. Ele impede que eu me torne quem eu sou.

Quando me ilumino, a vida protege os meus passos. Ela sorri e sinaliza a direção. Aceito o encerramento do ciclo e agradeço as lições disponibilizadas. Em seguida, inicio uma nova fase. Nada será de acordo com os meus desejos, tudo acontecerá na medida das minhas necessidades evolutivas. Cada vez mais me torno quem eu sou. Isto basta por ser bastante.

Contudo, não se pode esquecer da velha e boa lição: todo verdadeiro poder se alicerça na humildade. Qualquer traço de arrogância será suficiente para criar um novo obstáculo à luz. Então, uma sombra torna a se formar. Com ela, o medo volta à cena. O medo está contido em todas as sombras.

Na lareira, a última brasa de lenha se apagou. Restou a noite e eu. Parara de chover. Havia música no silêncio. As nuvens se dissipavam para que as estrelas participassem daquele baile. A noite já não era escura nem amedrontava. A minha luz me iluminava. Tudo estava claro. Naquele instante entendi a razão de a noite existir. Ela nos ensina a acender a nossa própria luz para dissolver toda a escuridão.

Convidei a noite para dançar. Sem medo, o dia amanheceu em paz.

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Imagem: Zoltan Tarlacz (foto sobre tela de Van Gogh exposta no MoMa) – Dreamstime.com

Discussões — 17 Respostas

  • Egle 15 de outubro de 2019 on 16:26

    A VIDA É O TRATAMENTO DE CURA DA ALMA.
    A VIDA SEMPRE TE COLOCA NA DIREÇÃO CERTA, MESMO QUE EM ALGUM MOMENTO PAREÇA SER ERRADA. E ENTRE OS FINS E COMEÇOS, A FÉ SE TORNA O COMBUSTÍVEL NECESSÁRIO PARA CONTINUAR NESTA GRANDE, MISTERIOSA E MARAVILHOSA JORNADA.
    GANHANDO OU PERDENDO, GRATIDÃO SEMPRE, POIS ESTAMOS A CAMINHO DE NOS ENCONTRAR EM VERDADE, FELICIDADE, PAZ E PRINCIPALMENTE AMOR.

  • Ivone Andrade 7 de outubro de 2019 on 17:41

    Sou uma das mulheres mais destemidas que conheci. Ultimamente, o medo tem tomado conta de mim, em um certo contexto de minha vida. Esse texto chega às minhas mãos em um momento extremamente oportuno. Gratidão!

  • Paola 3 de outubro de 2019 on 15:06

    Bravo!! Excelente texto, lindas reflexões. Agradeço.

  • Terumi 30 de setembro de 2019 on 23:54

    Gratidão! 🙏

  • Adélia Maria Milani 30 de setembro de 2019 on 19:50

    Gratidão! ♡★☆☆☆♥♡

  • Rejane 30 de setembro de 2019 on 18:28

    Era tudo que eu precisava ler! Eu tinha a chave EU SOU mas nunca soube usa-la. Gratidão

  • Silvia Helena Soares 28 de setembro de 2019 on 21:41

    Texto profundo… chegou em boa hora. Gratidão!

  • ANDREA APARECIDA RIBEIRO 28 de setembro de 2019 on 21:14

    Nesta noite o medo me paralisava. Não conseguia nortear meus pensamentos e nem meu corpo respondia, querendo se entregar. A Sua luz me encontrou. Eu Sou luz agora Yoskhaz, sei o que fazer e o medo se foi. A sentelha divina está viva, eu não a encontrava mais em mim, estava procurando lá fora. Gratidão!

  • Rosana 28 de setembro de 2019 on 07:24

    Ahhh Yoskhaz… é amor sim, isso aqui que eu sinto no meu coração por você🙏🏻✨❤️

  • KENIA FERNANDES 26 de setembro de 2019 on 19:55

    Gratidão!

  • Ana Lúcia Tavares 26 de setembro de 2019 on 16:15

    Sou grata por ter a felicidade de encontrar esses textos, e que me ajudam refletir, e encontrar respostas para muitos conflitos da minha alma…quem sou eu? Eu sou…

  • Fernando Cesar Machado 25 de setembro de 2019 on 12:36

    Gratidão profunda e sem fim Yoskhaz, sem fim…

  • Vandson 25 de setembro de 2019 on 04:16

    Em certos pontos é difícil até diferenciar seus desafios dos meus, tudo se mistura em uma coisa só. Obrigado pela mão estendida, por mostrar a direção da luz essencial e equilibrar o tempero do Ser.

  • Pedro 25 de setembro de 2019 on 01:07

    Q texto maravilhoso! Sempre impecável e pontual Yoskhaz ☺️

  • Alexandre Gomes da Silva 24 de setembro de 2019 on 15:06

    Esse texo apareceu em um momento de minha vida. Momento igual ao vivido pelo autor. Agradeço a minha Consciência por me lembrar quem sou.

  • Domingos 24 de setembro de 2019 on 11:59

    Muito Obrigado! Este tesouro em forma de texto chegou em um momento muito oportuno para mim.
    A noite passada foi muito longa e escura…
    Que brilhe intensamente a luz de um novo dia que está chegando.
    Obrigado!
    Que a paz esteja com você!!!

  • André filipe 24 de setembro de 2019 on 10:31

    Estas linhas parecem cada vez mais encaixar com os desafios que tenho encarado recentemente em minha vida. Estes textos parecem falar comigo, alimentando minha alma e dando forças para continuar a batalha. Agradeço mais uma vez pela oportunidade de ler e entender certas coisas que vem acontecendo meu amago e cada vez mais vou conseguindo entender mais de mim e do mundo que me cerca.