Sobre fronteiras e prestações de contas

Yuri era daqueles amigos polêmicos, como costumam ser os espíritos livres. Não, isto não significa que era perfeito. Ao contrário, estava anos-luz de finalizar a Roda do Sansara, simbologia usada por algumas filosofias orientais para explicar fim dos ciclos reencarnatórios. Quando um espírito atinge determinado degrau evolutivo, principalmente em relação à iluminação das suas sombras e consequente pacificação das emoções desvairadas, prosseguirá a sua jornada em esferas de existência mais avançadas e sutis do que as da Terra. Yuri era um homem de opiniões apaixonadas e personalidade forte. Brigava, discutia e angariava antipatia com extrema facilidade. Mesmo assim era encantador. Mantinha o constante esforço para pensar além dos limites estagnantes dos condicionamentos e preconceitos culturais, que, por serem dominantes, costumam trazer o conforto de nos deixar desapercebido na multidão, sem as críticas comuns e severas feitas àqueles que ousam, não apenas a pensar de maneira diferente, mas a expressar as suas ideias sem temer as inevitáveis reações contrárias. Em geral, o mundo ainda tem dificuldade de entender que as diferenças não se anulam, mas se explicam pela complementação que oferecem.

Como se cada um guardasse uma parte da verdade. Apenas quando estiverem juntas, a teremos por inteiro.

Quando a ousadia do pensar se harmoniza com a serenidade do sentir, um importante passo é dado.

Eu o admirava desde a adolescência, quando o conheci. Mesmo quando não concordava com alguma das suas ideias, e isto acontecia na maioria das vezes, era inegável reconhecer a originalidade e a independência que possuíam. Fomos vizinhos no Estácio, bairro carioca que, no passado, agregava operários e boêmios em suas ruas. Ele era uns três anos mais velho que eu. Tinha uma complexão física robusta e temperamento destemido. Ficamos amigos desde o dia que nos conhecemos. Ele me salvou da covardia de levar uma surra de um garoto bem maior. Em agradecimento, dividi com ele uma barra de chocolate que tinha no bolso da bermuda. Yuri me adotou como irmão caçula e, a partir daquele dia, fomos inseparáveis por anos. Ele me salvava das encrencas que eu me metia, enquanto eu o ajudava nos deveres do colégio. Yuri não gostava de ir à escola. “Fora ler, escrever e fazer as operações básicas de matemática, eles não ensinam nada que seja útil”, repetia para quem quisesse ouvir. Inclusive para os professores. A antipatia que o meu amigo angariava era notória.

Desde cedo, Yuri tentou desistir da escola, mas foi persuadido a prosseguir nos estudos em razão da sua mãe, dona Jandira, uma costureira famosa no bairro tanto pelas roupas finas que fazia quanto pelo pulso firme que educava o filho. Quando entrei para a faculdade, os meus pais se separaram e eu tive que me mudar do Estácio. No início, ainda nos víamos de vez em quando. Aos poucos, os encontros foram rareando até que perdemos o contato por completo. Alguns anos depois, voltei ao bairro para rever as pessoas que fizeram parte dessa fase importante da minha vida. Encontrei pouca gente daquela época. Alguns tinham falecido, outros também se mudaram. Ninguém sabia do Yuri. Era a vida seguindo o seu curso. 

Muito tempo depois, li no jornal que alguns manifestantes tinham sido presos por incendiarem um ônibus vazio em um protesto político. Como sou avesso a qualquer forma de violência para alcançar ou sedimentar conquistas, sejam individuais, sejam coletivas, me senti desconfortável com a notícia. Para o meu espanto, reconheci o Yuri na foto dos manifestantes detidos. O desconforto aumentou ao me ver diante de um dilema. De um lado, uma prática de reivindicações que eu abominava o método. De outro, um velho e bom amigo. 

Eu tinha de fazer uma escolha. Após algumas ponderações, liguei para um advogado e, no dia seguinte, o juiz arbitrou uma fiança para o Yuri responder à acusação em liberdade. Paguei a fiança e fui esperá-lo na porta da delegacia. O seu sorriso, assim que me viu, foi inesquecível. Deu-me um forte abraço e logo estávamos conversando como se não tivessem se passado tantos anos. Fomos almoçar em delicioso restaurante, bem simples e sem frescuras, que fica em um beco próximo à Sala Cecília Meireles, na Lapa.  

Enquanto almoçávamos, ele me contou o ocorrido, assim como discorreu sobre os motivos que o levaram àquele ato. Discordei dele e apresentei as razões contrárias para um gesto que classifiquei como selvagem. Após nos olharmos com seriedade por alguns instantes, caímos na gargalhada. Tínhamos mudado, mas ainda éramos os mesmos meninos do Estácio. Ele era cada vez mais ele; eu me tornava mais eu mesmo a cada dia. Tudo que é essência e essencial fica; tudo mais vamos largando pela estrada. Éramos bem diferentes, mas algo nos aproximava.

Em seguida, bem ao seu estilo, sem qualquer rodeio, Yuri me perguntou: “Você correu para me tirar da cadeia por amor ou porque acredita ter alguma dívida comigo?”.

“Dívida?”, estranhei. Ele zombou: “Se muitos dos seus ossos ainda estão inteiros, agradeça a mim. Fiz os seus pais economizarem uma fortuna de ortopedista”. Rimos muito, era verdade. Retribuí a gentileza: “Eu lhe dei de presente um improvável diploma, além de salvá-lo da fúria da dona Jandira”. Outra verdade. Tornamos a rir. Como acontece quando dois velhos amigos se encontram, recordamos inúmeras situações que, olhando pelas lentes alongadas do tempo, nos eram divertidas. Em seguida, ele retornou a pergunta inicial: “Fez por amor ou para não se sentir culpado em virar as costas para um amigo em um momento de necessidade?”. 

“Fiz porque somos amigos. Isto basta por ser suficiente”, respondi com convicção. Em seguida, concluí: “A amizade é uma bonita forma de amor”. Yuri balançou a cabeça em anuência, bebeu um gole de vinho e disse: “Contudo, o amor tem muitas nuances”.

Expandiu o raciocínio: “Amamos as pessoas, a cidade que moramos, o planeta que vivemos; o conhecimento que os livros trazem, a magia proporcionada pela natureza e o conforto oferecido pela ciência. Amamos a nós mesmos. Porém, o quanto estamos dispostos a nos envolver determina o grau de amor que temos”. Pedi para ele explicar melhor. Yuri não se fez de rogado: “Amamos o amor, mas nem sempre nos comprometemos com ele”.

Ponderei com ele: “Temos que entender os limites de cada indivíduo. Vergaremos a coluna se tentarmos carregar um peso que não suportamos. Isto vale tanto para o corpo quanto para a alma. Como ensinava o poeta, tenho o sentimento do mundo e duas mãos. Cada um deve fazer aquilo que pode, dentro da sua capacidade ou irá se esgotar sem conseguir avançar”. Yuri voltou a concordar, porém, manteve o hábito de pensar diferente: “Sem dúvida. Amor é um compromisso que você assume perante a si mesmo. Depois, realiza. Compreender as próprias fronteiras é de extrema sabedoria. Alargá-las é um gesto de amor”.

“No entanto, como dizem os sábios, é o conhecimento sobre a sua aldeia que lhe dará o poder do mundo. Comece por amar a si próprio. Aprenda sobre você para entender os outros. Somos diferentes uns dos outros e, ao mesmo tempo, muitos parecidos. Únicos e iguais. Temos desejos, anseios, necessidades, dores e alegrias próximos e distantes.  Viva bem consigo, mas tenha compromisso com alguém. E depois, outro alguém, e mais outro”.

“Amor sem comprometimento é amor de superfície”.

Enquanto o garçom servia o peixe, eu ponderava comigo. Sim, todo amor que sentimos é real e verdadeiro. Contudo, a sua maior parte se restringe no sentir e discursar. Eu amava o mundo, mas tinha compromisso com pouquíssimas pessoas. Dizia que faltava amor, mas pouco o praticava. Amor é exercício. Você pode se limitar a andar pequenas distâncias ou pode percorrer maratonas. Eu determino o tamanho do amor que conheço e vivo. Comentei isso com o Yuri quando tornamos a ficar a sós. Ele concordou e, em seguida, argumentou: “No entanto, há muitos enganos. O mais corriqueiro é ver pessoas que, na ânsia de salvar o mundo, não percebem a sua casa arder em chamas. Ainda não entenderam quem de fato precisa de ajuda. É preciso ter amor em si para amar alguém. Quando isto acontece, o amor está em flor, concede as cores e embeleza a vida, mas ainda não a alimenta. Da flor ao fruto, somente no compromisso de repartir a sua melhor parte. Esta é a vida e a arte”.

Provoquei o Yuri: “Amar quem nos ama é para os fracos. Os fortes amam as dificuldades. Existe vantagem nisto?”. Ele abriu um lindo sorriso ao perceber a armadilha que eu preparara. Yuri escapou com facilidade: “Respeito nada mais é do que coerência aos seus princípios e valores. Se faz necessário haver nexo entre as suas escolhas e o seu código de ética pessoal; harmonia entre a sua vida e à verdade que já consegue perceber”. Franziu as sobrancelhas e, após as considerações, respondeu à pergunta: “Sim, existe vantagem quando seguimos sob o eixo da própria consciência. Este é o rumo. O amor não é apenas sentimento, é também ação. E sempre, reação. O amor não pode ser somente a paisagem da janela, mas um transporte a me conduzir para além do que sou. O amor não lava as mãos, longe disto, ele mergulha no sofrimento do mundo. Então, perfuma a alma”.

“Posso me entristecer com o desespero de alguém, me virar para lado e, em seguida, ter a atenção voltada para outro fato. Cada um com os seus problemas, posso dormir o sono dos justos com esta verdade. Amplio a realidade quando aprofundo a verdade. Pois, posso parar, dar um abraço e oferecer um braço. Eu escolho o traço e o embaraço. O amor me dá o compasso e a medida exata do meu passo. O amor é ato”.

Não havia como negar, ele estava repleto de razão. Enquanto pensávamos, experimentamos a comida; estava ótima. Em homenagem aos velhos tempos, tornei a provocá-lo: “Por suas palavras, posso concluir que o amor não é paz, porém, guerra?”. Por ser ateu, o Yuri mais uma vez me surpreendeu ao mencionar uma famosa passagem bíblica contida no Livro de Mateus: “Não vim trazer a paz, mas a espada”. Olhou nos meus olhos e inverteu a provocação por saber do meu apreço: “Foi Jesus quem disse. Não era ele o mestre do amor?”. 

Fechei os olhos e sorri de alegria pela oportunidade maravilhosa daquele momento. Lembrei dos ensinamentos do Velho, o monge mais antigo do mosteiro, e tentei reproduzi-lo: “Jesus se referia à espada da luz, ao aço das virtudes, aos golpes libertadores do amor no inevitável combate face as sombras que nos dominam. A paz não se confunde com o ócio nem com a comodidade. A paz é uma luta travada sem nenhum sangue, mas com a delicadeza típica das transformações que apenas a luz proporciona. De dentro para fora, de fora para dentro, em movimentos incessantes de leveza e pureza. O mestre falava de usar o coração como espada na guerra contra a escuridão. Perante a si mesmo, a batalha interna, o bom combate; ao mesmo tempo, alargando as fronteiras da vida. O mundo se expande ou se contrai na medida do amor que temos. Temos tão e somente aquilo que somos capazes de oferecer. Ninguém dá o que não possui; se tenho, apenas com o uso o sentido se completa. Nada do que é seu é uma concessão; todo o ser é uma conquista. Amor guardado é como uma espada perdida; amor aguardado é a batalha dos tolos. O amor existe para florescer no coração e frutificar no mundo, sem qualquer separação. Se quisermos vivê-lo apenas de uma maneira, ele será somente agonia e paisagem. Quando dos dois jeitos, o amor se faz serenidade e caminho”.

Yuri balançou a cabeça e não disse palavra. Terminamos o almoço em silêncio. Pedimos pudim de leite para a sobremesa. Enquanto aguardávamos o doce, ele quis saber se eu o recriminava por ter incendiado um ônibus durante o protesto que participava. “De jeito nenhum”, respondi. Perguntou se eu concordava. “De jeito nenhum”, respondi. Ele me instigou: “Pode fazer o favor de descer do muro e escolher um lado para ficar?”. Expliquei que não se tratava de indecisão ou recusa de opinião, ao contrário: “Não posso impor a ninguém o meu olhar, as minhas ideias ou vontades. Faço o que acho certo, erro e acerto, mas nas linhas da minha consciência. O fato de achar errado o seu jeito de protestar não me concede o direito de recriminá-lo. São coisas distintas. Ao recriminar, nego a você o direito às suas próprias escolhas. Se acho errado, apenas faço diferente. Ninguém precisa acompanhar o meu jeito de ser. Nem o seu. Apenas precisamos entender que as fronteiras do mundo estão nos limites do ser e do viver. Os limites libertam à amplidão. Parece paradoxal, mas não é. Quando entendo os limites alargo as possibilidades de atuação. Ao me afastar da dominação me aproximo da liberdade. Contudo, que haja maturidade. Todo efeito foi gerado pela ação que lhe deu causa. Este é o segredo da evolução”. Pisquei um olho como quem revela um mistério e disse: “Essa é a sabedoria do amor”.

Yuri coçou a cabeça. Um cacoete que tinha desde menino, ele o fazia quando se agitava. Em seguida, me questionou: “Como conquistar sem luta?”. Concordei com ele: “Impossível”. Em seguida ponderei: “Contudo, quaisquer que sejam as lutas, sempre será possível escolher as espadas que usaremos. Luz ou sombras, isto define o desfecho da guerra e o próximo capítulo da sua história pessoal. Ela ajuda a contar a História do mundo. Toda revolução verdadeira tem raiz na compreensão de si mesmo. Sem transformação consciencial toda mudança não passa de mera maquiagem e não resistirá às próximas chuvas”.

“A paciência na manutenção de um hábito pacífico tem mais força do que qualquer golpe violento para desmanchar as obsoletas maneiras de ser e de viver”. Pedimos café para encerrar o almoço. Eu prossegui: “Nada muda sem a transformação pessoal. Sem amor inexistirá mudança. Não haverá evolução”. Yuri contestou: “Precisamos de leis que nos garantam as mudanças”. Mostrei o meu olhar: “As leis são como as grades de um grande zoológico humano. Existem para conter a selvageria das pessoas. Sim, precisamos de leis, mas somente enquanto formos primitivos e estúpidos”. Esperei o garçom servir o café para prosseguir: “Um dos primeiros artigos da Constituição Federal afirma que todos são iguais perante lei. Uma sentença de inegável valor. Entretanto, precisa estar escrita nos livros porque ainda não está no coração e na mente dos homens. Precisa ser lembrada por não estar assimilada”.

Bebemos o café enquanto alocávamos as ideias. Sorri pela alegria de perceber como tudo se encaixa em um mesmo desígnio e falei: “Conhecemos bem o amor de superfície. É hora compreender o amor de profundidade. Precisamos falar e escrever sobre ele para que um dia fique sedimentado. Ou não restará nenhum amor”. 

Yuri instigou: “Os senhores do mundo acreditam que o amor é coisa para os ingênuos, sonhadores e poetas, algo distante daquilo que denominam como realidade”. Dei de ombros e comentei: “Não tem problema, nem que seja de pirraça, por divertimento, rebeldia ou para manter o incrível poder de um velho hábito: a gente continua amando assim mesmo. Não quero ser senhor de ninguém, mas não abro mão de ser senhor de mim. Ao final, na prestação de contas, a vida não se resumirá ao amor que sentimos, mas ao amor que tornamos fruto”.

Pedimos mais café. Tínhamos o mesmo vício e uma enorme vontade de continuar aquela conversa.

Imagem: Conceptcafe – Dreamstime.com

Discussões — 7 Respostas

  • Karllus 21 de outubro de 2019 on 23:51

    Café! Vou tomar novamente esse café amanhã. Gratidão!

  • Claudia Pires 21 de outubro de 2019 on 12:18

    👏👏👏👏👏👏

  • Fernando Cesar Machado 20 de outubro de 2019 on 09:50

    Gratidão imensurável Yoskhaz, profunda e sem fim, sem fim…

  • Moara 19 de outubro de 2019 on 00:19

    🙏🙏🙏😍💞

  • Terumi 18 de outubro de 2019 on 22:36

    Gratidão! 🙏

  • Tiago Ferreira 18 de outubro de 2019 on 00:43

    Gostei, estou esperando o continuar dessa conversa em Yoskhaz …

  • Adélia Maria Milani 18 de outubro de 2019 on 00:06

    Gratidão! !*☆♡★♥☆