Um pouco sobre iscas e armadilhas

“Qual toda a realidade que você conhece?”, ouvi o Carlos perguntar para o Marcelo quando me aproximava com o café que eu tinha ido buscar no balcão. O Marcelo, roteirista e escritor, havia anos nos presenteava com histórias de um universo fantástico, onde animais antropomórficos duelavam pelos encantos do poder e da vida em Morserus. Embora fosse um mundo ficcional, oferecia um interessante olhar sobre a realidade que nos permeia e explicava muito do que fica por detrás da aparência rasa que nos acostumamos a viver. Carlos, tradutor e professor de idiomas, com o seu o raciocínio linear ajudava a por ordem à mente quântica do Marcelo. Quando criatividade e disciplina se alinham sob um mesmo eixo a ideia ganha forma através da arte. Antes mesmo de bebericar o café, o escritor respondeu: “A realidade é o limite do mundo pela ótica do observador”. Como bom professor, a pergunta seguinte aprofundava a anterior: “Quais os parâmetros que estabelecem as fronteiras da realidade ao indivíduo?”. O roteirista não teve dúvida: “A consciência”. Fez uma pausa e complementou explicação: “No entanto, ao contrário do que muitos acreditam, a consciência não é apenas o pensar, mas também o sentir. As emoções, e tudo mais que as envolvem, são amarras ao pensar. De outro lado, os sentimentos fomentam as suas asas. Assim, enquanto as emoções criam paredes intransponíveis à realidade, os sentimentos ampliam a sua percepção”. Carlos interrompeu para saber quais as diferenças entre emoções e sentimentos. O escritor explicou: “As emoções, ou paixões, são os impulsos movidos pelas sombras, que por sua vez se alimentam dos instintos, condicionamentos, desejos desvairados, anseios imaturos, memórias dolorosas e preconceitos ainda arraigados ao âmago do ser. Os sentimentos estão ligados às virtudes, às sensações serenas, equilibradas e educadoras. São emanações de luz; é o amor na diversidade dos seus frutos”. O tradutor indagou como alguém poderia identificar se estava envolvido por emoções ou sentimentos. Marcelo explicou: “A alegria é o principal indicativo. Os sentimentos nos deixam harmonizados com a vida, enquanto as paixões nos deixam, ora eufóricos, ora aflitos”. Carlos insistiu: “Como saber se estou alegre ou eufórico?”. O escritor esclareceu: “Preste atenção aos fundamentos e a profundidade daquilo que sente. A alegria nos envolve quando compreendemos os movimentos evolutivos da vida e toda a sua beleza. A euforia nos invade quando um prazer, meramente sensorial ou mundano, nos é permitido”. Bebeu um gole de café antes de justificar as razões da sua obra: “Em Morserus as histórias são contadas pelo viés das sombras e tento que o leitor entenda como o pensamento é escravo das emoções”. Fez uma breve pausa e concluiu como se fechasse um dos seus contos: “Apenas quando envolvido por sentimentos, sempre virtuosos, o pensar terá liberdade para ultrapassar os muros limitadores da existência impostos pelas paixões, sempre sombrias, e ampliar a realidade conhecida”.

Acomodei-me na poltrona. Aquela tarde prometia uma grande magia. Carlos provocou: “Não será possível separar as emoções do livre pensar?”. Marcelo não titubeou: “O pensamento é uma ferramenta indispensável para transformar emoções em sentimentos; a mente tem uma função didática sobre o coração. A recíproca também se aplica. Enquanto um não restar serenado, o outro não conseguirá a desenvoltura necessária para auxiliar a evolução do ser. Crescem em perfeita simbiose. A mente precisa ter força suficiente para conduzir as emoções até a luz. Iluminadas, atingem a maioridade ao se transmutarem em sentimento. Os sentimentos são poderosos trampolins ao exercício do pensar pelo impulso que proporcionam. Enquanto esta equação não se completar, a realidade permanecerá com curto alcance”. 

Arrisquei acrescentar um ingrediente ao caldeirão: “Quando emocionalmente abalados ficamos suscetíveis às armadilhas morais. Nelas aprisionamos a melhores escolhas. Então os Guardiões do Caminho não nos permitirão avançar por ainda estarmos despreparados para os próximos Portais. Nenhum momento merece qualquer desperdício. Toda situação é preparatória para o passo seguinte. É preciso estar preparado para prosseguir a viagem. Por isto, a ética é tão importante, pois é balizadora e orientadora; serve como alerta ou freio de emergência para não deixar que as escolhas despenquem quando a nebulosidade das paixões nos cegarem diante do abismo”. Bebi um gole de café e comentei: “O poder está na mente, mas o coração tem força para desequilibrá-la ao menor descuido”. 

O dom de professor do Carlos não nos permitia nenhuma acomodação. Ele indagou: “Uma pessoa fria, aquela que se mantém distante dos seus sentimentos e emoções, tem uma melhor percepção da realidade?”. A experiência do Marcelo como criador de vidas em Morserus facilitou a resposta: “Não, definitivamente não. Essa pessoa não se abalará com o mal nem se alegrará com o bem. Não se pode confundir um indivíduo sereno, aquele que sabe bem equilibrar os sentimentos e as emoções em si, do outro que os reprime; são situações distintas. As emoções devem restar educadas e iluminadas, jamais negadas. Quando recalcadas ou desprezadas, acumulam energia para explodir sobre alguém ou implodir o próprio indivíduo. Ao invés disto, quando as emoções são transmutadas por sentimentos se tornam impulsionadoras para um pensar mais claro e amplo. Abdicar dos sentimentos é abrir mão da força de transformação que contêm; é abrir mão de uma das melhores partes do ser. Como se fôssemos um barco, os sentimentos são as velas que nos impulsionam e nos fazem zarpar dos portos. A essência dos barcos está na travessia. Não se pode navegar sem estarmos com as velas abertas. Esta será a extensão da navegação de cada pessoa sobre a realidade. A mente precisa dessa força para alcançar mares distantes e inimagináveis”.

“De outro lado, uma pessoa movida apenas pelos sentimentos, sem a âncora, o leme e a bússola da razão, tende a se desorientar e desequilibrar com facilidade; será como um barco à deriva que, diante das inevitáveis tempestades, acabará por se chocar aos rochedos da existência. Conhecerá sucessivos naufrágios. Nenhum barco chega ao destino apenas por abrir as suas velas aos ventos da vida”. 

Voltei a me intrometer na conversa e a trouxe para o prumo inicial: “Por exemplo, imagine analisar uma determinada situação pelo prisma de uma emoção demolidora como a raiva. Sem dúvida, o mundo ganhará contornos escuros e cinzentos; nada nem ninguém prestará; as fronteiras dos relacionamentos se estreitarão. As escolhas seguirão os trilhos do afastamento, da mágoa e da retribuição no mesmo tom. Não existirá avanço. De outro lado, transmutar a raiva e se deixar envolver pela compaixão por entender que todos os equívocos são frutos da ignorância e do medo, em uma das suas diversas manifestações, nos faz caminhar. Examine um mesmo fato sob ambos os vieses; perceba como o olhar se altera e, por consequência, a realidade se modifica. Lembre, a consciência se traduz na percepção que cada um tem de si e de tudo mais ao redor. Quanto mais profundo for o entendimento sobre si mesmo, maior a clareza quanto à vida. Esta compreensão traz alegria à alma, ânimo aos dias, leveza à existência e multiplica as possibilidades de escolha. Expansão de consciência não é somente o livre pensar, mas também a beleza e a nobreza dos sentimentos, o sutilsentir. Concomitantemente”.  

Os bons professores são inesquecíveis. Carlos aprofundou o diálogo: “Em maior ou menor escala, seja na gravidade da prática de um crime, seja em atos corriqueiros e nem sempre percebidos, como a indiferença, o desprezo ou o sarcasmo, por que praticamos o mal?”. Em seguida esclareceu a pergunta adaptando um famoso aforismo do filósofo francês Jean Paul Sartre: “Afinal, o inferno não está somente nos outros”. Foi o criador de Morserus quem respondeu: “Você compreenderá que o mal apenas é praticado por aquele que sofre”. 

“O indivíduo sofre quando se distancia de si mesmo, da sua essência virtuosa e do eixo ético que o orienta. Sofre porque não consegue ser e viver tudo aquilo que traz em potência no seu âmago. Isto acontece quando o amor, ainda em estágio embrionário, não consegue florescer diante de um fato específico; o olhar fica embotado, o raciocínio encolhe e a vida se reduz”. 

“A compreensão de quem é dominado pelo ressentimento e pela mágoa será igual daquele envolvido por compaixão e misericórdia perante um mesmo fato? Claro que não. Então, pergunto: as escolhas serão as diferentes?”. O professor apenas sorriu, satisfeito perante a nitidez do raciocínio, como quem diz: “Quase sempre”. 

Marcelo retomou a narrativa: “É inegável que tudo se altera. Ao permitir que um sentimento ocupe o lugar de uma emoção, substituímos as lentes pelas quais observamos o mundo e compreendemos a realidade. Enquanto no compasso da densidade das emoções a realidade se estreita, ao passo da sutileza dos sentimentos ela se amplia”.

Aproveitando-se das metáforas existentes no universo fantástico de Morserus, o autor finalizou: “As emoções são como galáxias nebulosas que sugam o melhor do viajante. Os sentimentos são portais de luz que elevam a jornada a outros patamares de existência pelas transformações que proporcionam”. 

O Carlos não estava satisfeito. Os bons professores sabem a necessidade do pensamento em movimento: “Sem dúvida, por serem nebulosas, as emoções estreitam a realidade por reduzir a clareza do pensar e, por consequência, a capacidade perceptiva da consciência quanto a quem somos e a tudo mais ao redor. Contudo, haveria outros fatores limitantes à realidade?”. O escritor esvaziou a xícara de café e se recusou a prosseguir sem o “precioso líquido negro”. Rimos. Fui buscar mais. Devidamente reabastecidos, Marcelo prosseguiu: “Sem dúvida. Os fatores mais atuantes são as sombras, por seus aspectos desvirtuantes e enganadores. Por causa delas, surgem as máscaras; instrumentos que criamos para nos esconder de nós mesmos quando diante do espelho existencial. As sombras nos contam as mentiras que gostamos de ouvir. Para evitar as dificuldades iniciais da verdade, oferecem rotas de fuga através da inércia e da ilusão. Mas não são as únicas limitadoras. Os condicionamentos, as lembranças desastrosas, os preconceitos e os dogmas são outros terrenos nos quais nos acostumamos a ficar atolados. Como naqueles cenários cujos painéis cinematográficos ao fundo se movem enquanto os atores, apesar dos seus carros velozes, permanecem sem sair do lugar; ao expectador imaturo ou desatento haverá a ilusão do movimento, quando, em verdade, nada terá acontecido”. O tradutor pediu ao autor que explicasse melhor a sua ideia. Assim foi feito: “Desde a infância existe alguém para nos explicar sobre a realidade e nos mostrar o tamanho do mundo. Pais, professores, amigos, livros e filmes, que apesar de muitas vezes terem as melhores intenções, foram movidos por teorias que nunca questionaram, por ideias que não ousaram subverter, por sonhos reprimidos, por voos nunca alçados, por fábricas de notícias que espalham o medo de viver. Recolham as asas e deixem que apenas o painel se mova, alertam aqueles que nunca foram além do conhecido ou do permitido. Deixe a vida o levar, aconselham sobre a segurança existente na imobilidade. Muitos foram e jamais voltaram, avisam sem saber o que conheceram aqueles que ousaram a ir além dos cenários produzidos para o mero entretenimento coletivo. Já imaginou que quem gostou simplesmente não quis voltar? Até porque não há muito sabor ao se caminhar para trás. Não raro, herdamos o medo e as limitações de quem nos orienta. Sem nos darmos conta, aprendemos a olhar com olhos que não são os nossos. Pior, nos viciamos neles e acreditamos que são os únicos. Teimamos em seguir pelas galáxias nebulosas sem nos darmos conta dos portais de luz que estão logo ao lado”.

Carlos indagou: “Qual a distância entre galáxias e portais?”. Marcelo respondeu: “A distância de uma simples escolha. Todos os dias temos centenas à disposição. Não a usamos por não entendermos todo o seu poder de transformação”.

Animado, o professor continuou a provocar: “Como discernir as galáxias dos portais?”. O escritor explicou: “Um método muito eficaz para começar é entender aquilo que não quero mais para mim. Ninguém quer aquilo que incomoda e faz sofrer, certo?”. O raciocínio era insofismável. Ele prosseguiu: “Contudo, fuja da tentação de achar que o outro é o seu problema. Lembre, ninguém pode ter tamanho poder sobre você”.

O professor queria ir mais longe: “Existem pessoas que são muito chatas e parecem ter prazer em nos aporrinhar”. Marcelo explicou: “Sim, o mundo está lotado delas. Mas elas só nos afetam com a nossa permissão. Entenda que esse comportamento reflete a escuridão onde elas se encontram. A falta de luz causa medo. Tenhamos compaixão, mas sejamos firmes; tenhamos misericórdia, mas impeçamos que ela furte a nossa serenidade e nos impeça de caminhar. Porém, preste muita atenção: por vezes, somos nós uma delas. Quando estamos no escuro, não conseguimos nem ao menos enxergar as nossas próprias sombras. Este é momento em que somos dominados, mas não percebemos. Tristeza ou agressividade são as manifestações dolorosas mais comuns. Mas o sofrimento tem duas faces. Quando envolvido por amor, se torna uma alavanca de superação e evolução; o que há de melhor em nós floresce. Com ausência de amor, o sofrimento nos entorpece com o intuito de nos deixar insensíveis à escuridão; então se torna o fio condutor das escolhas movidas pelo medo”.  

O criador de histórias tinha nos indicado uma rota de viagem até então desconhecida. O tradutor quis saber mais: “Você diz que, apesar do sofrimento, tristeza e agressividade, persistimos na prática de maiores ou menores males em razão do entorpecimento que as emoções provocam?”.

O autor explicou: “Isto acontece todas as vezes que uma emoção, por sua densa nebulosidade, nos rouba a clareza do pensar. Algo comum quando uma situação nos leva à nocaute. Diante de um fato desagradável temos, a princípio, duas opções. Entender os fundamentos emocionais e racionais que nos levaram a estar ali. Perdoar, corrigir a própria postura, se comprometer com a reparação do dano e assumir o compromisso perante a si mesmo de fazer diferente e melhor em uma próxima ocasião, são atitudes normais quando estamos mais maduros espiritualmente. Ainda imaturos, na tentativa de não sofrer, recortamos o fato e o sofrimento decorrente para jogá-lo no lixo, como se fosse possível esquecer. Percebe que é um tipo de entorpecimento, algo muito comum às crianças pela falta de entendimento e possibilidades? Acabamos por carregar, em diferentes níveis, essa prática conosco. Assim nascem os traumas. A depender da sua intensidade, o recorte das emoções leva a inibição dos sentimentos como maneira de se entorpecer para não sofrer com as lembranças ou ter de lidar com situações semelhantes àquelas do passado”.

“O medo de enfrentar, entender e desconstruir o sofrimento se torna parte de nós e emudece a nossa melhor parte. Ficamos insensíveis a menores ou maiores males, como se fossem inevitáveis. Pior, nos acostumamos a eles. Alguns deixam de incomodar, pois não os sentimos mais. Tornam-se corriqueiros, como se fossem eventos inevitáveis à nossa realidade. Alguns sofrem tanto, que acreditam na irreversibilidade da dor e do gosto azedo da vida”. 

“O entorpecimento reduz o olhar e, por consequência, as escolhas. Amargos, passamos a buscar o lado ruim de todas as coisas e pessoas. Somos atraídos às galáxias nebulosas. Lá encontraremos o império das sombras. As fronteiras se estreitam e nos deixamos sugar pelas vias tortuosas que, nesses momentos, nos parecem mais íntimas. Afinal, estão conosco há bastante tempo. No entanto, entender o funcionamento das veredas sombrias permite descobrir como chegar às estradas iluminadas. As trilhas que encolhem a realidade estão muito próximas: dentro de nós. É preciso saber evitá-las. Contudo, os caminhos por onde expandimos a realidade estão no mesmo lugar. É preciso saber encontrá-los”. 

Carlos lembrou que muitas pessoas sustentam não possuir nenhum trauma. Em resposta, Marcelo citou um dos geniais diálogos de Zemial, um dos personagens mais incríveis do universo fantástico que ele narra com mestria: “O que está entorpecido em vós? Lá encontrará a residência da amargura e da dor. Mas não se assuste, os primeiros raios de sol incomodam a quem se acostumou à rotina da escuridão”.

Enquanto bebíamos o café para que não esfriasse, alocávamos cada uma daquelas palavras. O professor quis saber onde o escritor conhecera aquelas ideias. O autor explicou: “Em Morserus. À medida que crio o ambiente ficcional dos personagens entendo melhor o mundo no qual vivo, as suas relações e necessidades, as causas das tristezas e das alegrias que nos cerceiam ou impulsionam. Percebo o sentido e a razão de todas as coisas. Compreendo a necessidade das transformações sem fim. Essas são algumas das funções da arte”. Fez uma breve pausa antes de complementar: “No momento estou debruçado em cima de uma história na qual o protagonista, apesar do bom coração e ideias elevadas, se descuida diante de uma emoção desvairada e despenca no abismo da insensatez. O maior perigo é quando acreditamos estar inatingíveis aos truques das paixões avassaladoras. Toda atenção sempre será pequena”.

Com o olhar vagando por universos distantes, o professor murmurou: “As emoções são as iscas adequadas às armadilhas morais. Não raro, aprisionam as melhores escolhas”. O escritor apenas arqueou os lábios em leve sorriso. 

Discussões — 6 Respostas

  • Terumi 11 de novembro de 2019 on 23:06

    Gratidão! 🙏

  • Fernando Cesar Machado 11 de novembro de 2019 on 03:53

    Gratidão profunda e sem fim irmão das estrelas,
    sem fim Yoskhaz,
    sem fim…

  • Yoskhaz Beatriz Unruh 10 de novembro de 2019 on 12:03

    Claro!!!!!

  • Beatriz Unruh 10 de novembro de 2019 on 11:20

    Seus textos são muito interessantes. Posso compartilhar?

  • Joane Faustino 10 de novembro de 2019 on 10:07

    ♥️🌺✨💫

  • Claudia Pires 10 de novembro de 2019 on 09:27

    Grata pelo entendimento entre emoções e sentimentos.