A sensibilidade e a vontade – o despertar e o mito da Bela Adormecida

Lá estava eu de volta à pequena e charmosa cidade que fica no sopé da montanha que abriga o mosteiro. Havia dois anos que eu não encontrava o Loureiro, o sapateiro amante dos livros de filosofia e dos vinhos tintos. Como de costume, o trem me deixara na estação ainda de madrugada. Com o céu salpicado de estrelas, eu andava solitário pelas ruas estreitas e sinuosas, calçadas com pedras seculares, enquanto a cidade dormia. O silêncio me era companheiro. Adoro música, mas o silêncio me é indispensável para pensar. As ideias são muito valiosas, porém, igualmente perigosas. Elas iluminam e escurecem uma existência; libertam ou aprisionam, seguem ou subvertem o fluxo dos dias. Pensar com clareza define a leveza da vida. Mas como pensar sempre com clareza? Eu estava envolvido em meus pensamentos na tentativa de compreender melhor a influência dos sentimentos na formação das ideias, quando dobrei a esquina e vi a clássica bicicleta do sapateiro encostada no poste em frente à oficina. Fui recebido com um forte abraço e um sorriso sincero, marcas registradas da elegância do Loureiro. Embora sempre cuidadoso no vestir, bem barbeado e com a vasta cabeleira branca aparada e penteada, a sua gentileza com todas as pessoas conferia a ele um inesquecível encanto. Sem demora, estávamos com duas canecas fumegantes de café sob o balcão e a disposição de conversarmos por toda a eternidade, típica de quando dois amigos se reencontram. Comentei que nos últimos tempos estava às voltas para entender como os sentimentos e as paixões interferem na construção do pensamento. Ele bebeu um gole de café e disparou de modo desconcertante: “As emoções são pensamentos ainda não pensados”.

Abro um pequeno parêntese na minha narrativa para ressaltar as nomenclaturas por mim utilizadas. As emoções, ou paixões, são as sensações mais densas, nascidas das sombras, aspecto mais primitivo do ser, como o orgulho, a vaidade, a ganância, o ciúme, entre outras, todas têm o medo como raiz. Os sentimentos são sutis, sempre ligados a uma virtude, como a humildade, a compaixão, a pureza, a sinceridade, entre muitas mais, todas subtipos do amor. As emoções estão para os sentimentos assim como o medo está para o amor. A importância da questão é que, sejam as emoções, sejam os sentimentos, ambos criam formase se tornam aspectos da nossa personalidade. 

Pedi para ele explicar melhor. O sapateiro aprofundou: “As emoções são ideias que habitam o inconsciente, ainda não codificadas, entendidas e admitidas pelo consciente. Surgem do instinto selvagem de autopreservação, ou seja, do medo, e se tornam destrutivas por se nutrirem do conceito do eu ou vocêe não do eu com você. Daí a nossa enorme dificuldade em lidar com elas quando se manifestam, pois alguém terá de perder. Não raro, somos nós. Um conceito primitivo que só admite a vitória se houver também uma derrota. O outro será sempre visto com desconfiança e receio, como se fosse um predador natural”. 

“As emoções nos acompanham desde tempos imemoriais. São íntimas, mas estranhas. Convivemos com alguém em nós, mas desconhecemos a sua origem e essência”. Bebericou mais um pouco de café antes de ponderar: “Imagine viver com outra pessoa em uma mesma casa sem nunca ter sentado para conversar, saber dos seus gostos e dificuldades. É exatamente assim que nos relacionamos com as nossas emoções. Estamos resignados quanto à sua interferência e transferimos ao mundo as causas dos nossos sofrimentos. Por isso não saímos do lugar. Tornam-se companhias desagradáveis pelo sofrimento que causam. Por isso tanto conflito. Ninguém gosta de sentir raiva ou ciúme, apenas para ficar nos exemplos mais básicos, mas essas emoções fizeram morada em nós há tanto tempo que muitos a consideram inevitáveis e até mesmo úteis. Como mecanismo de defesa, na tentativa infrutífera de evitar o sofrimento, criamos cascas cada vez mais grossas que nos afastam da nossa essência. A alma é a nossa face mais pura, a morada das virtudes e do amor sem fim. Em nosso atual estágio evolutivo a alma ainda está em semente”.

“Somos ego e alma. Longe da alma o ego fica insensível. Distante do ego a alma não floresce. Apesar da sensação de segurança oferecida por uma quantidade cada vez maior de camadas criadas pelas sombras, que dominam o ego imaturo e desorientado a pretexto de protegê-lo, em verdade, culmina com o seu distanciamento da realidade. Contudo, a agonia dos desencontros permanece; ela mora no âmago do ser. Apenas não a percebemos com nitidez. Por sua acidez, a agonia nos corrói, entorpece, e por fim, adoece”.

“Quando falta sensibilidade para conosco, não haverá compreensão com quem está ao nosso redor. O egoísmo não surge pela vontade deliberada em ser egoísta, mas da ignorância e da indolência quanto a si mesmo. Fazemos a rota contrária à luz quando tentamos explicar os tumultos do mundo antes de arrumar a bagunça que existe em casa. Daí nasce a intolerância e a impaciência. Temos soluções fáceis para todos, apenas as nossas são difíceis. Apontamos um caminho que ninguém segue, nem mesmo nós. Entende a influência da insensibilidade em nossas vidas? O amor não passará de poesia e o egoísmo será um bom negócio. Onde não há amor existe medo. O medo nos faz egoístas. Envolvidos em um insalubre círculo vicioso, nos tornamos ainda mais insensíveis, seja quanto aos outros, seja em relação a nós mesmos. Terminaremos descrentes, desanimados e amargos”.

Perguntei como poderíamos inverter esse processo. Loureiro explicou: “Quando entendidas as razões das suas origens, as emoções fazem o movimento primordial rumo à evolução. É o passo inicial para se transformarem em sentimentos. Contudo, dá muito trabalho, além de ser um exercício bastante desagradável. Poucos são os que estão prontos para ficar face a face consigo mesmo e se examinar por inteiro. Não falo do corpo, mas da personalidade. Admitir os seus equívocos, as suas dificuldades e os vícios comportamentais. Embora seja difícil, revela um grande segredo: aquilo que aborrece oculta a passagem à plenitude. Não por acaso, em farmacologia, se extrai o remédio do veneno”.  

“A sua personalidade, o seu jeito de lidar consigo e reagir ao mundo, parte é ego, parte é alma. São as duas faces de um mesmo ser, ambas fundamentais, pois enquanto uma cuida de aspectos ligados à sobrevivência, a outra é essencial à transcendência. Alinhar uma a outra sob um mesmo eixo é imprescindível à evolução, razão maior da existência. A alma, a nossa essência mais sutil e sagrada, ainda embrionária, fica impedida de germinar sem os cuidados do ego. É preciso vontade. O ego está para a alma como o jardineiro está para a semente. Um jardineiro imaturo e descuidado impedirá a semente de desenvolver todo o seu potencial. Viverá no deserto de si mesmo. A razão de existir da semente não é permanecer como grão, mas se transformar em flor e fruto. Uma alma esquecida se manifesta em sofrimento. Longe da alma, distante da luz. Onde não há luz resta a escuridão”.

“Dentro de um lugar escuro, sentimos medo. Então, esta sombra traiçoeira, típica de todo ego imaturo e selvagem, se apodera da nossa mente e coração. Promete que irá nos proteger e cria mecanismos de defesa. A máscara, em qualquer das suas muitas manifestações, é perigosa pelo longo tempo que nos mantêm aprisionados em seus enganos de força e poder. Elas criam personagens para atravessarmos a existência. Entretanto, não nos avisam que esses subterfúgios nos afastam da nossa essência. Insistem na ilusão como fuga da realidade. Aconselham conquistas de vitórias efêmeras que se desmancham no dia seguinte”. 

“Olhe para si e perceba as transformações pelas quais você passou, o quanto o seu ego se aproximou da sua alma; quais amores floresceram em você. Somente isto serve de conteúdo para contar a verdadeira história de alguém”. 

“Todas as sombras são filhotes do acasalamento de duas sombras maiores: o medo e a ignorância. O desconhecimento sobre si mesmo é a maior de todas as ignorâncias. Conhecer todos os livros e assuntos é erudição; conhecer a si próprio é sabedoria. A ignorância ocorre porque o vício ancestral por atalhos e facilidades nos torna indolentes, nos rouba a vontade. Sem vontade, de nada adianta qualquer outra virtude. A falta de vontade nos torna insensíveis. Ao evitar o difícil enfrentamento sobre si mesmo, impedimos o encontro do ego com a alma. A máscara criada pelo medo e pela ignorância cria cascas que nos furtam a sensibilidade e esgotam a vontade. Enquanto o ego acreditar no jogo das sombras, seguiremos como um jardineiro relapso; a alma se manterá em semente, envolvida em ervas e larvas, impedida de germinar, florescer e frutificar. Essa é a razão dela precisar do ego, pois o despertar precisa ser um ato consciente”.

Brinquei ao dizer que o ego é o Príncipe Encantado que irá acordar a Bela Adormecida do sono eterno com um sincero beijo de amor. Loureiro concordou: “Sim, este é verdadeiro mito da Bela Adormecida. Sem esse encontro não haverá dias melhores. Toda a beleza do Reino ficará escondida por trás de uma densa floresta”.

“A sensibilidade e a vontade possuem importâncias vitais à expansão de consciência”.

 “Contudo, não é fácil e exige muito esforço. É indispensável ir aos alicerces das emoções para compreender as suas origens, entender como elas se estruturam, compreender as suas desnecessidades, aprender como desconstruir cada uma delas e, somente então, será possível transmutá-las por sentimentos. A importância disto é que emoções e sentimentos são formadores da personalidade em um sistema que se retroalimenta. Os conflitos engordam as emoções e intensificam a dor. A recíproca se aplica com o sofrimento acirrando as paixões e enrudecendo a personalidade. Enquanto não interrompermos esse ciclo sombrio prosseguiremos amargos, tristes, agressivos, pessimistas e desanimados. Ir ao encontro da alma é uma escolha do ego. Para tanto, há que se ter alguma sensibilidade e muita vontade”.

O sapateiro esvaziou a caneca de café e ponderou: “Por que tal situação me incomoda tanto? Por qual razão as escolhas de fulano me chateiam ou irritam? Por que motivo quero tanto alguma coisa? Eu preciso disso? Por que me sinto infeliz? Será que tenho em mim tanto amor quanto imagino? Eu compartilho o amor que gostaria de receber? Quantas vezes simplesmente reagimos sem aprofundar ou perceber o cerne da questão. A ausência de sensibilidade nos deixa endurecidos e tontos. A falta de vontade nos faz ficar estagnados. Vivemos por repetição”.

Perguntei como ele conceituava a sensibilidade. Loureiro foi didático: “A sensibilidade nasce da compaixão. É uma virtude complexa, pois agrega em sua raiz outras virtudes, como a empatia, a paciência e a humildade. A palavra compaixão significa compartilhar um mesmo sofrimento. É a capacidade de se colocar no lugar do outro, de entender a sua dor ou dificuldade; por isto a empatia se faz necessária. Mas não é só. É indispensável possuir a consciência que não se pode exigir do outro um comportamento do qual ele ainda não é capaz, embora seja relevante motivá-lo à superação. Porém, tenha paciência, pois existirão barreiras e até mesmo resistência por parte do acolhido. Neste momento, há que se ter a humildade para não exigir de ninguém a perfeição que não temos para oferecer”.

“A compaixão que temos de ter com tudo e todos ao nosso redor, também se faz necessária conosco. Sem nenhum resquício de vitimização ou transferência de responsabilidade, temos que nos tratar com sinceridade e coragem, mas também com doçura e amor. Em verdade, o bom combate, aquele travado entre luz e sombras na parte mais íntima do ser, se encerra com um lindo casamento entre o ego e a alma”.

Comentei que assim acontecia na história da Bela Adormecida. Os contos de fada prometem finais felizes. Talvez eles estejam falando a verdade, desde que saibamos decodificar os segredos das histórias infantis. Em resposta, o sapateiro arqueou os lábios em leve sorriso. Eu tinha ido para uma conversa e recebera uma preciosa aula. Aquelas palavras me ajudariam mais à frente. Os encontros com o Loureiro eram sempre ricos e naquele dia ele estava inspirado ao extremo. Eu precisava de silêncio para pensar. Decidi subir a montanha para passar alguns dias no mosteiro. Trocamos um forte abraço e a promessa sincera de nos reencontrar dentro de alguns dias. Tinham muitas histórias mal contadas que ainda habitavam em mim e estavam à espera de entendimento.

Imagem: Philcold – Dreamstime

Discussões — 7 Respostas

  • Paula Fernanda 18 de novembro de 2019 on 11:29

    Que você desça as montanhas para reencontrar o Loureiro depois dessa reflexão… quando eu descer quero apreciar essa conversa. Gratidão sempre ❤🌹🌻

  • Fernando Cesar Machado 18 de novembro de 2019 on 04:07

    Gratidão profunda e sem fim Yoskhaz, sem fim …

  • Adélia Maria Milani 17 de novembro de 2019 on 21:26

    GRATIDÃO!!

  • Joane Faustino 17 de novembro de 2019 on 07:39

    ♥️✨🌺

  • Magnum 17 de novembro de 2019 on 07:11

    Palavras enriquecedora.

  • Alcídia 16 de novembro de 2019 on 02:11

    Amei!!!

  • Terumi 15 de novembro de 2019 on 23:56

    Gratidão! 🙏