A resposta

Eram dias difíceis. Uma série de acontecimentos parecia conspirar para me arrancar do eixo consciencial no qual eu queria me alinhar. Quando há desequilíbrio, nos afastamos da luz. Em sequência, tudo parece piorar. Irritação e impaciência se misturam em uma combinação explosiva. Não havia muito tempo, eu retornara de um breve retiro em um templo budista, do qual eu gostava muito. Alguns dias de meditação, silêncio e tranquilidade me fizeram muito bem. Contudo, todo equilíbrio e serenidade que eu tanto apreciava, e acreditava já ter conquistado, me abandonaram pouco depois. O meu pai não estava bem de saúde; tentei entrar em contato com o médico que o acompanhava havia muitos anos e conhecia todo o seu histórico clínico; ele não me atendeu nem retornou a ligação. Enviei uma mensagem e continuei sem resposta. Eu queria evitar uma internação hospitalar, pois a última não tinha sido uma boa experiência. Mas teria de tomar uma decisão nas próximas horas e a opinião do médico seria fundamental. Não era só. A pequena editora que eu montara após o fechamento da agência de publicidade enfrentava dificuldades financeiras e acumulava prejuízos todos os meses. Para culminar, eu apostara as últimas fichas que tinha para publicar um novo autor, possuidor de raro talento; negociara com a gráfica um desconto para pagamento antecipado. Preparara tudo com muito carinho. Contratara uma excelente diagramadora para cuidar do acabamento da obra e deixara a capa a cargo de um artista plástico muito criativo. Ambos realizaram as suas tarefas com mestria. Eu me empenhara diretamente, e me endividara mais um pouco, na divulgação do lançamento da obra em uma afamada feira literária. Tudo parecia perfeito até chegar a notícia que a gráfica entrara com pedido de concordata. Na prática, o prazo para entregar os exemplares estava suspenso e não havia qualquer possibilidade de reaver o dinheiro. Para acirrar as minhas emoções, embora não tenha o hábito, naquela noite liguei a televisão. Um comentarista econômico falava sobre uma pesquisa que revelava o alto índice de pequenas empresas que encerravam as suas atividades no país. De cada dez, oito fechavam antes de completar um ano de funcionamento. Pensamentos sombrios começaram a dialogar imediatamente comigo. Como se não bastasse, a reportagem seguinte noticiava o grave estado de saúde de um cantor muito popular. Os médicos que o atendiam no hospital não acreditavam em sua recuperação. Ele e meu pai eram amigos desde garotos.

O impulso inicial foi de procurar o médico e o empresário, dono da gráfica, para lhes dizer o quanto eles estavam sendo cruéis e não mediam as consequências dos seus atos na vida de outras pessoas, sobre as quais, de alguma maneira, assumiram responsabilidades. Quase nunca as reações impulsivas são boas conselheiras ou nos conduzem às melhores escolhas. Com dificuldade, consegui me conter. Lembrei de uma preciosa lição: as pessoas somente têm sobre você o poder que você concede a elas. Eu não permitiria que ninguém, independente do que fizesse, tivesse força para apagar a minha luz.

Contudo, confesso, não estava sendo fácil. As sombras dançavam ao meu redor uma canção sinistra entoada pelo medo. Desânimo e revolta ofereciam os seus serviços. Como eu já conhecia os seus mecanismos de ação, ergui as minhas defesas, para não permitir que elas me dominassem. Sim, sem a minha autorização, o ataque seria infrutífero. Para isso serve o conhecimento. Mas se não o usarmos como ferramenta no cotidiano, nenhuma utilidade ele terá. São nestes momentos que as escolhas se fazem mais importantes, pois definem as estradas que iremos percorrer. A consciência é quem determina a rota. O seu grau de maturidade será decisivo para evitar as interferências indevidas das emoções que tentam justificar, sempre através de raciocínios tortuosos, as decisões revanchistas e selvagens, além da tristeza e do desânimo. São provas difíceis que exigem muita determinação. Entre o saber e o ser existe uma enorme distância.

Na teoria tudo parece simples. De fato, é. Mas simplicidade não é sinônimo de facilidade. Atingir a simplicidade exige muito esforço. Será necessário afastar as névoas das sombras e os entulhos emocionais que nos distanciam de nós mesmos e da pureza da vida. Nada do que é simples é simplório. O olhar e as relações simplórias são banais, rasas e de uma vulgaridade atroz. A simplicidade é profunda por nos conduzir até a essência do ser, onde encontraremos a beleza da vida, dos outros e, principalmente, a nossa. Sem esse movimento primordial, nunca seremos quem viemos ser. Não conseguiremos encontrar qualquer outra resposta.

Como não sentir frustração e raiva diante daqueles acontecimentos? Elas me permeavam as entranhas, deixando um gosto amargo. Era necessário interromper esse fluxo e depois invertê-lo. Caso contrário, entraria em espiral descendente de sombras e escuridão, que podem se agigantar até atingir consequências muito danosas. O mundo está assolado por essa epidemia, cujo sintomas são bem conhecidos: depressão ou agressividade. Ninguém está imune. Humildade, compaixão; simplicidade, vontade e firmeza, servem como antídoto e resposta.

Era preciso envolver aquelas situações com essas virtudes. Não podemos exigir dos outros a perfeição que não temos; assim como nós, eles também têm as suas dificuldades e sofrimentos. Eu não podia permitir que os meus problemas pessoais e as minhas memórias dolorosas influenciassem o meu olhar. Também não podia ter com o médico e o dono da gráfica qualquer relação de dependência: “sem fulano ou beltrano, sem que tal situação ocorra, estarei perdido e será o meu fim”. Não, definitivamente não. Esse pensamento é consequência de uma consciência ainda imatura e alicerçada pelo medo. Quanto maior a dependência, maior o medo.

Quanto mais medo, mais sombras, mais escuridão, mais sofrimento e ainda mais medo. Esta é a espiral descendente e catastrófica. Pior, muito comum. Embora ninguém dependa de ninguém para ser feliz, livre, digno, amoroso e sereno, precisamos de todos para nos aperfeiçoar, compartilhar o que há em nós e receber tudo aquilo que nos for oferecido. O Caminho é solitário e solidário, concomitantemente. Ele é percorrido dentro e fora da gente ao mesmo tempo. Mas como fazer quando as nossas relações são problemáticas e estão danificadas? Por um lado, não podemos banalizar as relações e abrir mão delas diante de qualquer dificuldade, pois sempre serão fontes de aprendizado. De outro, é necessário entender que as relações não podem se tornar fontes de maus tratos, abusos e, principalmente, de nenhuma dependência. A mesma firmeza e vontade que devem existir para solucionar as delicadas questões inerentes a todos os relacionamentos, também devem estar presentes para estabelecer limites e criar novos nexos e ramificações de vida. Ciclos se encerram e se iniciam por toda a existência. Sem dramas. A vida precisa se renovar para seguir nos oferecendo respostas.

 Sentei-me na poltrona da sala, desliguei a TV, acendi um incenso e, em silêncio, fiz uma prece curta e sincera por luz e proteção. Que a minha própria luz pudesse me afastar da escuridão que se avizinhava e que eu conseguisse me proteger das ideias sombrias que ameaçavam tomar conta de mim. Isto também é um exercício de fé.

A brevidade da prece, nada tem a ver com a sua força. Não é na quantidade de palavras, mas na intensidade investida que reside o seu poder. Os poucos segundos de prece ressoaram por um tempo que não sei precisar, tanto pelo fluxo de vibrações sutis quanto pelo refluxo das emoções densas que me envolviam. Como ondas, vinham e iam. Aos poucos fui levado a um processo de purificação e equilíbrio. Envolvido em enorme sensação de bem-estar, o coração serenou e a mente pôde começar a pensar com clareza em busca de soluções. A esperança e a fé, virtudes fundamentais, se fizeram presentes em mim. Com elas, a alegria e o ânimo também retornaram.

Foi quando telefone tocou. O meu pai piorara muito em questão de poucas horas. Do táxi, enquanto me dirigia para a sua casa, solicitei uma ambulância. Como eu não tomara nenhuma decisão, pois ainda aguardava o contato do médico, a vida escolhera por mim. Sempre será a assim. Pior, quando acontece, as consequências costumam ser severas, não por punição, mas como método educativo. Não existem melhores mestres do que as escolhas. Usufrua delas ou nada aprenderá. A vida exercita a coragem para que o medo não estabeleça um império. Passei toda a noite e parte do dia seguinte envolvido com a internação do meu pai. Deixei o hospital quando acreditei que todos os cuidados tinham sido providenciados. Eu não tinha condições de trabalhar. Cansado, fui para casa descansar. Tomei um banho e tentei relaxar, mas estava difícil. Havia decisões vitais que precisavam ser tomadas na editora. Eu não podia deixar que a vida decidisse mais uma vez por mim. Contudo, o cansaço não me permitia pensar com leveza. Era inútil prosseguir. Uma noite bem dormida me colocaria em condições para explorar melhor o meu potencial no dia seguinte. Assim somos todos. Como a mente ainda estava agitada, envolvida em mil pensamentos, decidi ler para relaxar. O cansaço fazia com que as letras bailassem diante dos meus olhos. Liguei a televisão para assistir a um filme. A opção foi por um filme antigo, muito bom, que eu já tinha visto mais de uma vez. Acreditei que isso facilitaria o “não-pensar” que, por sua vez, ajuda na alteração do estado de consciência que leva ao sono profundo. No entanto, o filme tinha um excelente roteiro, com diálogos interessantes entre protagonista e antagonista. Isto me despertou. Era encantador ver o personagem sempre com a resposta perfeita em cada cena. “Ah, quando temos uma boa resposta nos momentos de dificuldade, nos encontros inusitados, a melhor palavra diante da perplexidade de todos, temos a sensação que solucionamos a vida e fechamos um capítulo da existência”, murmurei para mim mesmo. Eu tinha que aprender a ter as respostas exatas para cada cena da minha vida, pensei. 

Eu precisava dormir para acordar bem-disposto. Fechei os olhos e disse para mim mesmo: “Vós sois a luz do mundo. Aconteça o que acontecer, a vida me fornecerá as perfeitas ferramentas de superação. Basta que eu ofereça o meu melhor. Basta que eu serene o coração e pense com clareza. Basta que eu abrace a vida com todo o amor que há em mim. Sem mágoas nem lamentações. Todas as soluções partem de mim, pois elas me habitam. Eu sou a luz do mundo”. Isto também é fé e a melhor resposta que podemos nos dar diante dos inerentes problemas que enfrentamos. Isto é verdadeiro. Com essas ideias na mente, o cansaço pôde vencer as preocupações e eu adormeci.

No dia seguinte, sentei-me à mesa com uma caneca de café fresco e comecei a descontruir o problema. Sim, sempre é possível. Quando parece grande demais, uso um método infalível: por partes e em etapas. Certifiquei-me se o médico do meu pai tinha retornado o chamado. Sem resposta. O meu pai já estava internado e com boa assistência, não havia razão para eu me alterar e sair do meu eixo. “Tenho apenas o domínio sobre mim mesmo e isto basta”, murmurei. No entanto, pelas experiências anteriores, eu sabia que no hospital os médicos se revezam de acordo com os plantões. Isto criava uma ciranda de opiniões e responsabilidades que, embora não fosse necessariamente ruim, me trazia a sensação que eu podia oferecer algo melhor ao meu pai. Fiz alguns contatos e me indicaram uma médica que aceitaria a função de mediar o tratamento hospitalar. Marcamos para nos conhecer e conversar na hora do almoço, no quarto onde meu pai estava internado. Etapa seguinte, liguei para a gráfica e pedi para falar com o responsável. Eu precisava ao menos explicar a minha situação na tentativa de sensibilizá-lo a imprimir os livros que já estavam pagos. Liguei várias vezes e as desculpas mudavam à medida de quem atendia o telefone. Deixei recado pedindo um retorno, mas já havia entendido a resposta. Naquela fase de resoluções, fiz a parte cabível. Esgotar as possibilidades é importante pela tranquilidade necessária para se fechar um ciclo.

“Quanto mais difícil for a batalha, mais luz extrairei dela”, pensei enquanto me dirigia ao hospital. Cheguei na hora marcada. Para minha surpresa, a médica não somente já estava no quarto à minha espera, como era muito jovem, recém-saída da faculdade. Tinha a idade aproximada das minhas filhas. O impacto inicial não foi positivo, pois imediatamente, sem nada falar, questionei se ela teria capacidade para cuidar de um paciente cujo problema se multiplicava em vários. De diabetes à insuficiência cardíaca. No entanto, algo calou o meu preconceito. Ela conversava alegremente com o meu pai. Falavam de diversos assuntos relativos à vida dele, repleta de acontecimentos curiosos, pois tinha sido um homem aventureiro e afeito à riscos. Esse interesse fez com que despertasse nele um ânimo arrefecido, como se a jovem médica tivesse aumentado a intensidade de uma chama que se apagava. Naquele momento, entendi que, independente da carreira escolhida, se médico ou padeiro, se advogado ou pedreiro, sem importar se recém-formado ou experiente, indispensável perceber se o indivíduo exerce aquela atividade como profissão ou como sacerdócio. Nada faz tanta diferença. Nada tem tanto poder de transformação quanto o amor. A jovem médica dispensava um cuidado extremo aos seus pacientes porque ela amava a cura. A medicina para ela não era um meio de vida, mas o fio condutor da própria vida. Naquele instante me dei conta que ninguém, por mais experiente ou afamado que fosse, poderia oferecer tanto ao meu pai. Silenciosamente, agradeci à vida pela resposta. 

Com o ânimo renovado, fui ao banco. Restava-me pegar um empréstimo, não apenas para manter a editora funcionando, mas para conseguir imprimir os livros a tempo de lançar a obra na feira literária, na qual eu já havia reservado o espaço. O problema dos empréstimos é que o banco acaba se tornando uma espécie de sócio privilegiado da empresa. Eu passaria a trabalhar para mim e para ele. Porém, algumas vezes é a melhor alternativa. Quando entrei na agência, eu raciocinava sobre quais taxas de juros seriam aceitáveis. Fui recebido com polidez pelo gerente, o qual eu conhecia havia muitos anos. Uma nova surpresa. Nem chegamos a discutir as condições do empréstimo; o meu crédito estava esgotado. Embora durante muitos anos, no período da bonança, eu tivesse feito investimentos dos quais o banco se locupletara, naquele momento eu me tornara desinteressante como seu parceiro de negócios. Com modos educados, o gerente deixara claro a minha situação: “Você é um risco que o banco não pode arcar”.

Eu entendia que, como gerente, ele estava restrito às diretrizes do banco, mas sabia também que ele podia ter se sensibilizado e ao menos ter tentado o empréstimo junto à diretoria. Havia uma história que nem sequer foi levada em conta. Ah, como eu queria um roteirista de Hollywood para escrever a exata e merecida resposta ao gerente, e por consequência, ao banco, como acontece nos bons filmes. Como não havia, ofereci o silêncio como resposta. Não deixei que qualquer tipo de ressentimento me dominasse. “Eu sou senhor de mim e andarilho da luz”, me aconselhei em um diálogo relâmpago entre o ego e a alma. Apertei a sua mão com firmeza e firmei os meus os olhos nos seus. Isto era a parte final da minha resposta. Ele não conseguiu sustentar o olhar nem por um segundo e abaixou a vista. No tempo oportuno, a consciência dele permitiria encontrar as palavras não ditas daquela resposta.

A ideia de ser considerado um risconão me trouxe qualquer mágoa. Ao contrário, gostei de me imaginar desta maneira. Não se vive uma boa história sem riscos. Não haverá vida nem evolução. Para qualquer risco, o amor é a perfeita resposta.

Voltei para casa. Estava quase na hora da tarde virar noite. Sentei-me à escrivaninha. Com uma caneca de café fresco à frente, comecei a criar soluções. Em todo labirinto há uma saída. Sempre. A saída nunca está nas bordas, mas no centro. Ou seja, não procure nos outros, mas em você mesmo. Mil ideias se aproximaram. As primeiras eram sombrias. Sim, elas estão sempre presentes, mas eu as refutava à medida que chegavam. As sutis, eu examinava com carinho. Ora, como sei que um pensamento é denso ou sutil? É simples. Quando trouxer com ele desejos de vingança, de retribuir na mesma moeda, mágoa, ressentimento, frustração, vitimização, revolta, tristeza e emoções afins, possuem raízes nas sombras. Não os deixe entrar. Se forem portadores de entusiasmo, de esperança na vida, de fé em si mesmo, de humildade e de compaixão para oferecer a outra a face, a face da luz, abra as portas da mente e do coração. Assim é a cena inicial de um novo e bonito filme. Eu acreditava nisto. Eu acredito nisso.

As horas se passaram. Quando me dei conta, o céu estava repleto de estrelas. A Lua Nova ainda não encontrara o Sol, mas estava pronta para renovar o próprio ciclo. As ideias seguiam indo e vindo, incessantemente. Até que, em determinado momento, olhando para a estante acima da escrivaninha, vi um livro de fotos que a agência publicara, havia muitos anos, para uma montadora de automóveis. Era uma coletânea de fotos de uma expedição que partira da Patagônia e finalizara no Alasca. As Américas do Sul ao Norte. Na época, o dono de uma pequeníssima gráfica me procurara pedindo uma oportunidade. Ele sabia que não tinha condições de concorrer em muitos aspectos com as grandes gráficas, mas disse que oferecia uma dedicação pessoal impossível às outras, pois se envolvia pessoalmente em cada detalhe da produção. “Eu amo o que faço”, falou. Prometeu que eu não me arrependeria se confiasse nele. Ele era um risco. Contrariando a lógica empresarial, apostei nele. O resultado foi maravilhoso. 

Encontrei o telefone da gráfica. Já era tarde, mas liguei mesmo assim. Foi o próprio dono quem atendeu. Todos os funcionários já tinham encerrado o expediente, mas ele continuava lá verificando alguns detalhes. Há luz nos detalhes de todas as coisas. Identifiquei-me. Ele lembrou de mim com alegria. Contou que aquela encomenda tinha sido angular para a sua empresa, pois permitiu adquirir uma moderna impressora que o levou a novos contratos. A gráfica crescera e ele era muito grato a oportunidade que eu concedera. Contei a ele que a agência fechara e, agora como editor, eu enfrentava uma séria dificuldade. Expliquei a ele. Em seguida, pedi para imprimir os livros que seriam usados na feira literária. Ressaltei que eu somente poderia honrar o pagamento depois que vendesse uma determinada quantidade de exemplares. Acrescentei que não poderia estabelecer uma data. Fui honesto com ele: eu era um risco e entenderia caso ele não pudesse ou quisesse me ajudar. O grau da dificuldade fixa o valor das virtudes. Aí está a porta estreita. Houve alguns segundos de suspense, que pareceram durar uma eternidade. Ele me respondeu: “Você não imagina a alegria que estou sentindo. Claro que imprimirei os livros. Você me paga quando puder”. Com os olhos marejados, sozinho em casa, agradeci à vida por aquela resposta.

Passados alguns dias, entre os cuidados com o meu pai, que melhorava a passos largos com a atenção dedicada pela jovem médica, e os afazeres do lançamento do livro, que seria determinante para o futuro da editora, recebi uma mensagem do médico que acompanhara o meu pai durante muitos anos e, até então, não me respondera. Em poucas palavras e de modo formal, disse que estava em um congresso no exterior e perguntava como passava o meu pai. Sem entrar em detalhes sobre a internação e a jovem médica, agradeci o contato, disse que o susto tinha passado e que o meu pai estava bem. Foi a minha resposta.

Papai teve alta na véspera do lançamento do livro, na metade do prazo previsto. Voltou para a sua casa com feições de bem-estar e uma alegria como há muito eu não o via. A dedicação e o carinho têm este poder, impossíveis a qualquer frasco de remédio que se possa encontrar nas prateleiras de uma farmácia. 

A divulgação do livro atingiu aos destinatários. Um ótimo público esteve presente no lançamento e a palestra ministrada pelo autor ficou lotada. As vendas se mantiveram em alta pelo tempo de duração da feira. Em um dos dias, passou pelo stand da editora o antigo médico de papai. Ao me ver, veio me cumprimentar. Com um resquício de ressentimento no tom das suas palavras, comentou que soube, por vias difusas, que o meu pai esteve internado e agora estava sob os cuidados de uma jovem médica. Eu poderia falar muitas coisas para ele, mas entendi que não precisava. Ele sabia que eu o procurara e ele demorara para retornar. O tempo de auxílio que o meu pai precisava não era necessariamente o que ele pôde oferecer naquele momento. Se ele tinha as necessidades e motivos dele, o meu pai e eu tínhamos os nossos. Não havia nenhum resquício de mágoa da nossa parte, mas também não existia culpa nem dependência. A consciência dele, quando afastada todas as sombras, o faria entender a resposta. Um olhar firme em seus olhos, foi a minha resposta. Eu não precisava acrescentar o que, em seu âmago, ele já sabia, mas ainda não aceitava. Após alguns segundos de silêncio que trazia em si o conteúdo de um bom filme, face as inúmeras ideias que me ocorreram, e provavelmente também ao médico, ele disse: “Tomara que você não se arrependa da escolha que fez”. Ele se referia ao distanciamento quanto a experiência, e talvez até mesmo ao prestígio profissional, que havia entre ele e a jovem médica. Ponderei como se as palavras escapassem pelos meus lábios: “Não existe arrependimento quando as escolhas são impulsionadas por amor”. Era a resposta da minha alma, ou melhor, o quanto dela já estava agregada à minha consciência. O médico girou nos calcanhares e se foi. Fiquei com sensação que tinha pegado emprestado aquela resposta do diálogo de algum filme.

No último dia, já próximo a hora de encerrar a feira, fui surpreendido com o gráfico, aquele que aceitara a ter o meu risco como se fosse dele, folheando um dos livros do stand. Ao vê-lo, fui em sua direção. Ofereci um sorriso sincero e o agradeci profundamente por aceitar a minha aposta. Ele me corrigiu: “A vida não é um jogo. Quando há luz, sempre haverá vitória. Sem a necessidade de brigas nem lamentações. Na ausência de luz, o maior dos ganhos não trará nenhuma conquista, ainda que se insista no contrário”. Fez uma breve pausa antes de concluir: “De todas as perguntas que já me fiz, essa foi a melhor resposta”. 

Comentei que as vendas tinham superado as expectativas. Ainda naquela semana, eu faria uma transferência bancária quitando o débito com a gráfica. Ele sorriu e esclareceu: “Não vim à feira para isso. Outro motivo me trouxe aqui. Em um momento muito difícil da minha vida, mesmo sem me conhecer, você acreditou em mim. Isto foi transformador. Naquela época cheguei a procurá-lo na agência. Queria agradecer pessoalmente. Fui informado que você tinha saído de férias. Passaria um bom tempo estudando em um mosteiro”. Olhou-me com curiosidade e perguntou: “É isso mesmo?”. Apenas balancei a cabeça confirmando. O gráfico finalizou: “Então, estou aqui, com alguns anos de atraso, para agradecer”.

Eu não tinha palavras. Elas não poderiam preencher tanto sentimento. Com os olhos marejados, em silêncio, trocamos um forte e longo abraço. Era a perfeita resposta.

Imagem: Guatiero Boffi – Dreamstime.com

Discussões — 15 Respostas

  • Márcia 18 de abril de 2020 on 07:22

    Precisamos mais do que nunca desenvolver e ou aperfeiçoar estas virtudes 🙌
    Grata querido Yoskhaz 🙏

  • Wllisses Thel 28 de dezembro de 2019 on 09:13

    Irmão de jornada, só nos cabe retribuir ao mundo, com profundo sacerdócio, todo o amor nos doado aqui por ti. Gratidão infinita, gratidão, gratidão, gratidão…

  • Rafaelvaldez 17 de dezembro de 2019 on 09:36

    “Si hay luz ya te encontrara”.. y pues aqui estamos.. brillando de cara al sol!! Gracias a ti y tus maestros ascendidos.. Espero encontrarte en esta o en la otra vida hermano mio..

  • Adélia Maria Milani 15 de dezembro de 2019 on 20:29

    Gratidã! ♡♡♡♡♡♡☆☆☆

  • Sílvia Werneck 12 de dezembro de 2019 on 17:26

    Li o comentário de José Thiago de Carvalho Silva… como assim conhecer Yoskhaz?!?Meu sonho!!!

  • Sílvia Werneck 12 de dezembro de 2019 on 17:24

    Todos os textos, TODOS, arrancam lágrimas dos meus olhos… muita emoção. Esse em especial. Vivenciei inúmeras vezes essa “resposta” da vida. Acreditar num estranho e depois, receber a mesma confiança de volta. Isso é maravilhoso!!!

  • Karllus 12 de dezembro de 2019 on 16:02

    Existem também os “gráficos do decolar” rsrs, que são os que investem tempo e por vezes recursos, para ver o outro que nem mesmo é de seu meio de vivência alçar vôos só pra poder epreciar. Assim senti e identifiquei o gráfico dessa história em mim, é real, é verdade, é lindo e parece que sem intenção, é muito bom esse sentimento, quando acontece!

  • Karllus 12 de dezembro de 2019 on 15:45

    Rsrsrs👏👏👏🤭🤗🙏

  • Valter Franz Weber 25 de novembro de 2019 on 10:04

    O Universo em toda sua extensão infinita , torna-se pequeno quando envia ao nosso encontro e de maneira surpreendente ensinamentos tão profundos e de enorme sabedoria
    Muito e eternamente agradecido, o meu reconhecimento pela grandeza de suas palavras

  • JOSE THIAGO DE CARVALHO SILVA 24 de novembro de 2019 on 09:21

    Não há nada mais revigorante do que ler ensinamentos e aprendizados que somente a luz pode trazer. Apesar de ainda não conhecê-lo pessoalmente, o que terei o prazer de fazer no dia 07/12, desejo ao meu amado irmão de coração e espírito, toda a paz e luz para continuar nos enriquecendo com as suas obras e reflexões. Obrigado

  • Marise 23 de novembro de 2019 on 06:37

    Gratidão sempre!!!

  • Cintia 22 de novembro de 2019 on 18:15

    Também queria lhe abraçar Yoskhaz para agradecer!!! Confessar que sou totalmente dependente dos seus textos…rsrs…espero ansiosamente cada publicação e mergulho nas emoções de êxtase, alegria, cura, reconhecimento das minhas sombras e admiração pelo amor impregnado em cada palavra dos seus textos!!!! Gratidão!

  • Hélio Proença 22 de novembro de 2019 on 15:52

    A vida e suas surpreendentes respostas…sempre belas nos fazendo acreditar que sempre valerá à pena…
    Gratidão…

  • Terumi 20 de novembro de 2019 on 22:14

    Gratidão!🙏

  • Fernando Cesar Machado 19 de novembro de 2019 on 03:37

    Gratidão profunda, imensurável e sem fim irmão das estrelas,
    sem fim…