Incoerências

Adoro São Paulo. Tenho uma relação de carinho com a cidade que não consigo explicar. Em suas ruas, em especial no Centro e em bairros mais antigos, me sinto dentro de um universo de infindável força revitalizadora. Gosto de ver as cidades como seres vivos. Cada uma possui uma personalidade própria, inspirando as pessoas que ali estão. Nenhuma é melhor nem pior do que outra. Todas são diferentes, com os seus atributos e magias. Possuem energias específicas ancoradas em sua ambiência e paisagem, em parte, por causa das histórias que acolheram. Nova Iorque nunca será igual a Paris, nem Tóquio à Moscou. Temos o ânimo modificado por onde andamos e sofremos influências distintas do lugar onde estamos. Diferentes sensações nos envolvem em Porto Alegre ou no Recife, ambas com suas belezas e vibrações distintas. Ficamos à vontade naquelas que nos são afins. Ou nos encantamos com as cidades que nos oferecem o tipo de energia que carecemos. São Paulo foi construída pela força dos imigrantes. Homens, mulheres e crianças, oriundos de todos os cantos do planeta, introduziram em um mesmo caldeirão os ingredientes culturais específicos que, misturados por uma incomensurável vontade de fazer acontecer, criaram o espíritode São Paulo. Nada de novo existe em minhas palavras. Desde sempre, São Paulo foi a musa inspiradora, não apenas dos seus moradores, mas de artistas maravilhosos. Paulicéia Desvairada, um livro de poemas de Mário de Andrade, um marco para o movimento modernista brasileiro, nos anos 1920, no qual o autor abusa da experimentação artística na literatura, em época de profundas ousadias, tanto em relação ao crescimento da cidade quanto na maneira de ser e viver das pessoas, refletida na arte e fomentando o surgimento de uma valiosa e singular cultura. Na música, meio século depois, Sampa, de Caetano Veloso, oferece um lindo e profundo olhar filosófico sobre São Paulo, mostrando uma mesma cidade que, apesar das incoerências e, talvez por causa delas, se fortaleceu e se manteve encantadora. Há que se ter olhos de ver. As incoerências, muitas vezes, são apenas aparentes. Não raro, surgem diante da falta de entendimento que temos sobre algo ou alguém que, mais à frente, irá nos explicar quem somos. Cada pessoa ou cidade tem o seu próprio enigma. De certo, São Paulo se transformou sem se afastar da sua alma. Isto a manteve na vanguarda de si mesmo e também acontece conosco quando vivemos próximos à nossa essência. 

Eu estava lá por dois motivos cujas datas eram próximas. A estreia de um espetáculo teatral dirigido pelo meu irmão e o lançamento do livro de um grande amigo. Como seriam na sexta-feira e no sábado, respectivamente, me programei para passar o final de semana em São Paulo. A visita a uma exposição que acontecia no MASP e um passeio por uma conhecida feira de antiguidades que acontece na Praça Benedito Calixto, faziam parte da programação. Desembarquei no aeroporto cheio de planos e animado, ainda na manhã de sexta-feira. Depois de deixar a bagagem no hotel, fui a uma pequena livraria especializada em exemplares já fora de edição e difíceis de encontrar. O livreiro, ainda ao modo antigo, não usava a internet para divulgação ou venda do seu fantástico acervo. Quem quisesse que fosse até lá e se perdesse pelas estantes entre as milhares de obras que guardavam. Encontrar sozinho um determinado exemplar era uma tarefa quase impossível. Apesar de ir à livraria todas as vezes que visitava a cidade, eu nunca conseguira entender a lógica das suas prateleiras. Era indispensável o auxílio do livreiro. Contudo, a sua alegria em ajudar era enorme, assim como era impressionante a facilidade com que localizava um livro, qualquer que fosse o título. Ao contrário do que se pode imaginar, o livreiro não era um ancião, vestido com um terno impecável e óculos de grau, como um arquétipo do guardião de segredos ocultos encerrados nas linhas subliminares dos livros proibidos. Nada disto. O livreiro era um rapaz com pouco mais de trinta anos, repleto de tatuagens, brincos, piercings e amante das bandas clássicas de rock’n roll. Ao contrário do estereotipo comum ao preconceito, era extremante educado, gentil e muito culto. Ao pedir por um título, ele nos convidava a acompanhá-lo até o local onde o exemplar estava guardado e, no trajeto, comentava sobre o livro requisitado. Sempre tive a sensação de que ele tinha lido a todos. Foi em um momento assim, enquanto transitávamos por entre as estantes, que me deparei com a Denise. De pouco adianta ter planos para si quando estes não se coadunam com aqueles traçados pelo universo. Por mais que se queira o inverno, é impossível impedir a chegada da primavera.

A Denise era uma monja da Ordem Esotérica dos Monges da Montanha, irmandade dedicada ao estudo da filosofia e da metafísica, do qual eu era membro havia muitos anos. Eu a tinha conhecido no mosteiro, onde os monges, como são denominados os seus integrantes, precisam estar uma vez por ano para os estudos. Ela era diretora de um banco e possuía uma personalidade muito dinâmica. Inteligente, bem articulada e colaborativa, era muito querida por todos na Ordem. Contudo, ela tinha desaparecido e não estivera no mosteiro nos últimos anos. A sua ausência foi sentida, mais ainda pela falta de notícias. A última informação, não confirmada, trazida por um monge, foi que pedira demissão do banco em que trabalhara desde muito jovem. Todos estranharam e se preocuparam, mas ninguém conseguira contato com ela. Tínhamos idades aproximadas. Denise tinha se tornado como um dos livros raros daquelas estantes, aparentemente perdido no meio de outros tantos. Difícil de achar e preciosa pelo seu conteúdo. 

Ao me ver, ela abriu um amável sorriso. Trocamos um abraço demorado. Falei da saudade que todos no mosteiro sentiam dela. Perguntei se o seu afastamento ocorrera por causa de algum aborrecimento que tivera. Ela negou: “Claro que não. O motivo foi bem diferente. A vida me ofereceu outro plano de voo e eu o aceitei”. Como ela deve ter notado um enorme ponto de interrogação nas minhas feições, acrescentou: “Vamos tomar um café? Desconfio que eu precisava mesmo conversar contigo”. Entendendo ainda menos, aceitei o convite. O livreiro me trouxe o livro procurado. Era o Manual de Epicteto, cujo texto original, datado de dois mil anos, foi reeditado havia mais de vinte anos, acrescidos com comentários escritos pelo Velho, o monge mais antigo da Ordem, em tiragem reduzida. Como o Velho não autorizara uma nova edição, o livro se tornara uma joia rara. Agradeci, paguei o exemplar e saímos. Na mesma rua, sentamo-nos em uma cafeteria.

Diante de duas xícaras fumegantes de café, Denise me contou: “A minha vida sofreu uma mudança angular. Sempre tive um relacionamento distante com a minha mãe. O meu pai faleceu ainda na minha infância. Passada a fase inicial de luto, a minha mãe foi trabalhar. Foi muito importante para ela. Isto ajudou a reconstruir a sua vida, além de atender às nossas necessidades de sobrevivência. Também serviu para ela se equilibrar emocionalmente. Mamãe era jovem e muito bonita. Teve alguns namorados até que se apaixonou pelo João e eles se casaram. Ele veio morar conosco. Era um bom homem, trabalhador, honesto e pacato. Contudo, viveram um para o outro, uma grande paixão que não lhes permitiu olhar para mais ninguém. Tenho três irmãos, todos do primeiro casamento. Sempre tivemos comida à mesa, roupas limpas para vestir, escola e livros. Contudo, eu sempre tive uma sensação, que na época não conseguia interpretar, que eu tinha uma casa, mas não tinha uma família. Sim, são coisas bem diferentes. Embora fossemos seis a morar sob o mesmo teto, os meus irmãos e eu, após a morte do meu pai, ficamos sem orientação e com a sensação não compreendida que faltava o amálgama que nos mantinha unidos sob um mesmo sentimento. Cada um foi construindo a própria vida e interpretando o mundo sem nenhuma ajuda ou qualquer nexo que nos aproximasse. Aos poucos, na medida que crescíamos, fazíamos faculdade e, ao começar a trabalhar, saíamos de casa. As ligações afetivas restaram esmorecidas”.

“Eu morei com a minha mãe até me casar. Talvez cedo demais, ainda não tinha terminado a faculdade. Embora não soubesse, no fundo eu procurava por uma família, aquela que se desmanchara na partida do meu pai. O João nunca quis esse papel para ele, assim como a minha mãe pareceu se desinteressar pela função de mãe. Importava o romance deles, as viagens que faziam e a vida que tinham, que não nos incluía. Tinham conosco um relacionamento respeitoso, mas longe de ser amoroso. As minhas dúvidas, anseios e importantes questões emocionais ligadas à adolescência, de fundamental importância na construção da personalidade, ficaram em segundo plano. Contanto que eu não causasse nenhum problema, tudo o que eu fizesse estava certo para ela. Eu não tinha noção do meu próprio valor. Isto me trouxe dificuldade de aceitação e autoestima. Tive que refazer muitas estradas que percorri. Aprendi muito, mas do jeito mais difícil. Por diferentes motivos, o meu casamento naufragou. Formada em Economia, o emprego no banco foi uma rota de fuga e de encontro. Mergulhei no trabalho, onde procurava suprir através das relações profissionais a incompletude que existia em mim”. 

Interrompi para comentar: “Não creio que tenha conseguido”. Denise concordou: “Claro que não. À medida que escalava os cargos no organograma do banco, eu me tornava uma pessoa de sólida aparência e rarefeita em essência”. Bebeu um gole de café, o olhar vagou por universos distantes e murmurou como se falasse consigo: “Quem era a Denise?”, deu uma pausa e acrescentou: “Ser uma importante diretora de um dos maiores bancos do país, por si só, não explica ninguém”. Tornou a bebericar o café e ponderou: “Eu não sabia quem eu era até porque não sabia o que eu procurava”. 

Ela me olhou como quem faz uma confissão e disse: “É triste se tornar uma pessoa importante para os outros e não ser ninguém para si mesmo”.

“Esta era crise que eu vivia, mas ainda não entendia. Somos mais o nosso inconsciente do que o nosso consciente. Não temos ideia da influência do inconsciente em nossas escolhas e emoções. É difícil comensurar como as lembranças desconfortáveis funcionam como geradoras de emoções densas e censuram a criação de sentimentos mais leves e de novas ideias. Por sua vez, isso nos traz sofrimentos que não admitimos nem conseguimos decodificar enquanto não migrar essas memórias do inconsciente para o consciente. As emoções são somente os sintomas. Para se erradicar uma enfermidade é indispensável encontrar a sua causa”.

Veio-me uma frase do alquimista Marcello Schweitzer, que tinha me chamado atenção em um dos seus últimos contos: “A consciência é um viajante; ideias e sentimentos são estradas”. Denise parou por alguns segundos para refletir. Em seguida, concordou: “Não conheço definição melhor. Naquela época eu não tinha ideia de qual estrada eu percorria dentro de mim”.

Pedi para ela prosseguir em sua história. Denise contou: “Foi quando em uma viagem, o acaso me levou ao mosteiro. Assisti a uma palestra do Velho, conversei com vários monges. No ano seguinte, nas minhas férias, retornei para o primeiro período de estudos. Voltei várias vezes depois”. Tornou a me olhar com seriedade e revelou: “Isto mudou a minha vida. Aos poucos, fui entendendo quem eu era, quem eu não era, quem eu queria ser e aquilo que teria de fazer para ir de um ponto ao outro. Comecei a compreender o que me impedia de ser inteira”. Parou por segundos, como se um turbilhão de lembranças bailasse à sua volta e disse: “Também foi muito importante entender como as lembranças dolorosas, muitas que acreditamos esquecidas, têm forte influência em nossas escolhas e nem nos damos conta disto. A necessidade de dissolvê-las em luz é fundamental para as transformações imprescindíveis rumo à plenitude”. Voltei a interromper, pois algo parecido tinha acontecido comigo: “Assim é com todos. Embora seja um processo lento e que exige muito esforço, possui tanto encanto e beleza que fica quase impossível voltar atrás após ultrapassarmos as primeiras fases”.

Denise balançou a cabeça em anuência e contou: “Então cada um inicia a busca pelo caminho que possui afinidade. Uns trilham pela Filosofia, outros pela História, alguns pela Física, pela Arte ou pela Religião, entre muitos mais. Todos os caminhos levam, ao seu tempo, a mesma verdade. Eu fui estudar Psicanálise, tenho fascínio pelo inconsciente e toda influência oculta que exerce em nossas vidas”.

Perguntei qual tinha sido a razão da mudança angular que culminou com o seu afastamento da Ordem: “Passados alguns anos de convivência harmoniosa no mosteiro, a minha carreira profissional seguiu em ascendência, até que fui cogitada a assumir o cargo de vice-presidente do banco. Embora não fosse um convite, o meu nome era comentado abertamente como uma indicação inevitável. Claro que fique animadíssima, afinal tinha entrado na empresa ainda como estagiária de economia no setor de investimentos. No dia da reunião, eu já tinha até um discurso pronto, mas a indicação recaiu sobre outro colega, não menos capaz. A decepção foi enorme, mas eu já tinha aprendido a lidar com situações parecidas, comum ao ambiente corporativo das grandes empresas. Segui o meu trabalho com igual dedicação de antes, mas sem o mesmo entusiasmo. São coisas diferentes, é como se a dedicação fosse o corpo e o entusiasmo fosse a alma de tudo o que fazemos. Quando isto acontece de faltar um ou outro, acredite, o resultado esmorece. Algo tinha se rompido dentro de mim. De início pensei que fosse a decepção, mas com o passar dos meses fui entendendo que o banco não mais me cabia. Já não havia a afinidade nem a conexão de antes. Era o mesmo banco, continuava um ótimo lugar para trabalhar, um emprego que havia me possibilitado muitas coisas e aprendizados. Contudo, eu já não era mesma. Eu tinha mudado. A minha vida também manifestava a mesma vontade de mudar. Quando isto acontece, não devemos impedir a transformação. Ou sofreremos muito”.

“Esses fatos ocorreram há cerca de três anos. Na mesma época, o João falecera. Abalada emocionalmente, o sofrimento alterou o funcionamento do organismo da minha mãe, agravado por sua idade avançada. Ela passou a precisar de ajuda intensiva. Reuni-me com os meus irmãos. Eles foram unânimes em decidir por sua internação em uma excelente clínica geriátrica, especializada nesses tipos de cuidados. Alegaram falta de tempo e o distanciamento que a nossa mamãe tinha imposto a si mesmo desde a nossa infância. Não há como negar que, em razão de tudo que havíamos vivido, era uma decisão justa. Estávamos dispostos a contribuir para que ela tivesse a melhor assistência possível, porém, à distância. Chegamos a tratar com uma clínica muito recomendada por médicos conhecidos”. 

“No dia que a internamos, ao me despedir dela, o seu olhar me tocou o coração. Eram olhos que entediam perfeitamente a razão de ela estar ali, mas também traziam o arrependimento por não ter feito diferente e melhor como mãe. Ela, naquele momento, tomara consciência de parte da vida que desperdiçara ao lado dos seus filhos. Não havia qualquer rancor ou mágoa por parte dela, ao contrário, era como se os seus olhos me pedissem desculpas. Aquele olhar teve um efeito transformador em mim”. 

“Naquele instante, entendi que estava me sendo oferecido uma oportunidade única: resgatar o relacionamento pendente com a mamãe e pacificar as minhas memórias. De dissolver e iluminar a relação ruim que eu tivera com ela e, com isso, a influência sobre o meu modo de ser e de viver, que acabara sendo determinante para que todos os meus relacionamentos naufragassem. Sem isso, eu não conseguiria ter uma relação saudável comigo, com a vida nem com ninguém. As minhas fraturas emocionais eram trazidas como soldados da linha de frente de uma batalha, com a pretensa intenção de me proteger. Eu ficava preocupada, ansiosa e tensa para que situações semelhantes à minha infância não se repetissem. Assim, o melhor olhar me era roubado por mim mesma”.

“Descobri algo de importância fundamental. Diferente do que se acredita, as emoções sombrias, que tanto nos aprisionam e nos impedem de caminhar, estão mais arraigadas aos hábitos do que aos fatos do passado. Desfazer essas emoções é criar novos hábitos de ser e de viver, novos olhares para ver a si, os outros e o mundo”.

“As emoções densas, assim como os sentimentos sutis, criam um padrão de pensamento e, mais sério, de percepção. Através dessas ideias iremos interpretar cada fato de modo superficial ou profundo; a sensibilidade aproxima ou afasta o melhor olhar. No entanto, sem novos hábitos, nada evolui”.

“Nenhum sofrimento se desmancha sem amor. É importante entender que o amor tem graus e degraus. Escolhemos o tipo e o nível de amor que oferecemos a nós, aos outros e a vida. Que seja sempre o mais intenso, com maior comprometimento, pois apenas este possui força transformadora”.

E voltou à sua história: “Pedi demissão no banco no mesmo dia. Voltei à clínica geriátrica, rescindi o contrato, paguei a multa e levei mamãe para minha casa. Moro em um apartamento grande em Higienópolis. Acomodei-a em um quarto com todo conforto e assumi perante a mim mesma o compromisso de oferecer a ela o meu melhor, principalmente carinho e dedicação, elementos estruturais do amor. Vi quando os seus olhos voltaram a brilhar”. 

Perguntei a Denise se a sua escolha estava livre de culpa em relação à sua mãe, por causa da responsabilidade ancestral de cuidarmos de nossos pais, e da frustração de ter sido preterida no banco. Ela arqueou os lábios em sorriso e respondeu com sincera serenidade: “Muitos até hoje acham que pedi demissão pela decepção de não ter sido escolhida como vice-presidente. Assim como os meus irmãos pensam que eu me sentiria culpada em deixar a mamãe internada na clínica. Os meus dias no banco já tinham se esgotado havia algum tempo. Era somente a vida me sinalizando quando fui preterida do cargo. Um estilo de vida que não mais me acrescentava, ainda que repleta de vantagens aparentes. Um ciclo chegara ao fim. Durante muito tempo foi muito bom e teve sentido, mas algo tinha mudado dentro de mim. Quando isto acontece, algo também tem que mudar por fora. Por isto, a importância dos hábitos. Os estudos no mosteiro me ensinaram isso. Eu não era mais a mesma, logo uma existência com a mesma rotina não me cabia mais. Eu estava diante de uma bela oportunidade para refazer uma trajetória de amor e de vida com a mamãe. Uma indispensável fase do meu processo de libertação se apresentava para mim. Era hora de desfazer os nós do ninho para conseguir voar”.

“Vale ressaltar que nenhuma censura cabe quanto as escolhas feitas pelos meus irmãos nem aos colegas que seguiram trabalhando no banco. Resumir as situações como se fossem meras questões de certo ou errado é reduzir a vida em um simplismo vulgar. Cada um tem o seu caminho e sabe dos seus passos”.

“Eu sei apenas de mim. Mesmo assim, bem menos do que gostaria. Fui uma executiva forte ao mesmo tempo em que me sentia frágil como mulher. Não foi somente o meu casamento que naufragou; todos os meus outros relacionamentos também afundaram. As influências do passado são avassaladoras e, pior, quase imperceptíveis. Eu buscava nos meus namorados o amor e a atenção que não tive na infância. Era um amor imaturo, ainda mais preocupado em receber do que em dar. Algo impossível de alguém suprir. Tudo desmoronava e eu os culpava. Eu mesma não entendia as minhas causas”.

“A minha incompletude afetiva, cuja raiz era a fragilidade das relações familiares, me fizeram uma pessoa insegura e desconfiada afetivamente. Arvorei-me no direito de estabelecer regras e condições incabíveis, acreditando que era um modo de me proteger das decepções que tivera na infância. Nenhum relacionamento é saudável assim. Para compensar, me tornei uma executiva eficiente e admirada. Inconscientemente, eu tentava contrabalançar o vazio amoroso com a excelência profissional. Impossível funcionar”.

“Pode parecer incoerente. De fato, é. Mas apenas enquanto eu não entendia as razões ocultas que verdadeiramente me moviam. Somente a partir do entendimento das causas, foi possível reconstruir a personalidade, refazer as buscas e aperfeiçoar as escolhas. Muito do que somos, não somos nós”.

Interrompi para alegar a incoerência daquilo. Rimos. Denise explicou: “São experiências tão dolorosas a ponto de nos tornarmos outro, bem diferente de quem podíamos ser pela influência que os sofrimentos, mesmo no inconsciente, exercem no livre pensare no leve sentir. As incoerências são incompletudes do passado enquanto no ostracismo da consciência. Quantos, assim como eu, têm as tristes lembranças nas pontas dos dedos e, sem se dar conta disto, não percebem o motivo pelo qual a vida continua a nos escapar pelas mãos?”.

Esvaziou a xícara de café e concluiu: “Essa é a história e os fundamentos do meu afastamento da Ordem. Mas sinto que se aproxima a hora de eu retornar. A minha alma pede por isto. Ela fala conosco por todo o tempo, a correria e o barulho do mundo é que nos impede de ouvi-la. Basta um pouco de quietude e solidão para entrarmos em sintonia com ela. Como eu precisava de tempo para um mergulho profundo em mim mesma, tomei a decisão de trocar o número do celular e o e-mail. Por isto, não me encontraram”. Perguntei se ela trabalhava, afinal a sobrevivência é necessária. A Denise explicou: “Trabalho muito. Tenho sido filha em tempo quase integral nos últimos três anos, além de ter me tornado a minha melhor amiga. Nesse período tive a oportunidade de, além de encontrar comigo, de reencontrar uma mãe que eu havia perdido na infância. Temos conversado muito e, aos poucos, passamos a limpo o nosso passado. Eu entendo os motivos dela; ela compreende as minhas razões. É impressionante como a clareza no pensar nos traz a leveza no sentir. A dissolução das tristezas contidas em minhas memórias me libertou dos sofrimentos e das emoções que me impediam os voos de longo alcance.  Isto vale por uma existência”. Em seguida, acrescentou: “Quanto a sobrevivência, fiz um pé de meia no banco. Ao longo dos anos adquiri alguns imóveis. Mantenho-me destes aluguéis. Não é muito, mas é o suficiente. Isto me basta”. 

O entardecer me lembrou dos meus compromissos. Convidei a Denise para ir à estreia da encenação teatral dirigida pelo meu irmão. Ela aceitou com um sorriso inesquecível. Pediu apenas para passarmos em sua casa, pois queria ver como a sua mãe estava. Explicou que após o primeiro ano, quando ela própria cuidava sozinha da mãe, montou uma equipe de dedicadas cuidadoras profissionais que a mantinham sob os cuidados necessários. Assim pôde se dedicar mais à leitura e à reflexão profunda, indispensáveis ao processo de autoconhecimento. Com tempo para conversarem, e com muita paciência, mãe e filha davam novas cores aos fatos que se escondiam nos porões escuros da mente e do coração. “Já consigo olhar para trás sem nenhuma melancolia. O meu passado não mais interfere no meu presente”, confessou com a alegria de quem descobre o poder de cura do perdão.

O espetáculo foi maravilhoso. Após fomos jantar. No dia seguinte, estivemos no lançamento do romance do Marcelo Cezar, um amigo que também é um irmão. Conversamos muito por todo o final de semana. Em determinado momento, a Denise me perguntou se eu a achava incoerente, pois dedicara toda a existência a uma atividade profissional que se dissolvera de tal modo nela, que parecia nunca ter sido parte da sua vida. “Terei desperdiçado o meu tempo?”, questionou. Balancei a cabeça e respondi de pronto: “Todas as relações e situações são escolas de excelência. Toda incoerência é absoluta até encontrarmos o nexo que a explica e que nos preparou para estarmos aqui. As incoerências escondem as verdades que ainda não descobrimos, é a manifestação do inconsciente que ainda não foi entendida. Quando acontece, agregamos algo a percepção que temos de nós mesmos; então, expandimos a consciência”. Denise sorriu e me beijou.

Em seguida, perguntei se ela se achava incoerente. Ela tornou a sorrir e disse: “Alguns colegas do banco juram que sim. Desconfio que os meus irmãos também. Mas a minha consciência é o verdadeiro tribunal e o único magistrado capaz de me julgar. Todo resto é especulação e conversa de botequim”. Fechou os olhos e ponderou: “Aquilo que muitos veem como incoerência, eu considero como patrimônio”. Pedi para ela explicar melhor. Denise assim o fez: “O patrimônio real é somente aquilo que ninguém pode me tomar. Apenas tenho o que já está agregado a minha consciência. Ela se estrutura em ideias e sentimentos. Os hábitos a modificam. Todo resto é fugaz”.

“Fui incoerente ao entendimento de muitos. Não me surpreendo. Entendi que as emoções são os sentimentos incompreendidos e que toda ideia amarga revela um amor sufocado. O sofrimento que perdura cria as incoerências. Elas são aparentes e temporárias, pois duram somente o tempo de revelarmos a nós mesmos a verdadeira vontade e voz. Então, da incoerência se faz o pilar sólido da perfeita coerência. Contudo, embora essencial, nada muda apenas por saber e sentir; novos hábitos são indispensáveis para a vida se renovar”.

“No mais, ter uma infância repleta de carência e aflições, como a minha, não chega a ser uma tragédia. Fazer disso uma incoerência sem fim a ponto de obstruir a plenitude do ser é a única tragédia. Todos anseiam fervorosamente por amor, mas poucos já superaram o medo de amar”.

Era hora de embarcar. Um beijo e a promessa de que nos encontraríamos no Rio de Janeiro no final de semana seguinte. Desde então, em constante ponte-aérea, eu me tornei paulistano e a Denise, carioca.

Imagem: Alf Ribeiro – Dreamstime.com

Discussões — 13 Respostas

  • Vanessa Leticia 7 de abril de 2020 on 22:27

    Bingooo! Mais uma vez me identificando nos textos! Adorei a leitura e as definições! Gratidão Yoskhaz! Semelhanças, leituras coincidentes… interessante isso! Tens algum texto sobre Coincidências?! Adoraria ler! Paz e muita inspiração para que continues nos presenteando a cada dia!

  • Márcia Campos 5 de janeiro de 2020 on 06:22

    Chorei 💝
    Trocou-me a alma
    Que conto magnífico
    Que história/estória tocante e reveladora dos trajetos do inconsciente..
    Exuberante correlação com a incoerência..
    Yoskhas, sua vida dá sentido para muitas outras vidas 💕✨

  • Viviane Barbosa 2 de janeiro de 2020 on 22:12

    Maravilhoso, incrível me achei nessas linhas.

    Gratidão infinita.

  • Adélia Maria Milani 15 de dezembro de 2019 on 21:19

    Gratidão l ♡♡♡★☆☆★♡♡♥

  • Rita Ferreira 2 de dezembro de 2019 on 08:34

    Que bela história… gratidão, Yoskhaz! Muito bom conhecer histórias assim! Demonstração da nossa humanidade, e do quanto somos capazes de nos superar, apesar de supostas incoerências… maturidade e sabedoria para escolher o melhor caminho a seguir… parabéns! Felicidade!👏👏👏👏🙏

  • Claudia Lima 1 de dezembro de 2019 on 09:50

    É de uma riqueza, que encanta a alma! 💜

  • Terumi 29 de novembro de 2019 on 01:02

    Gratidão! 🙏

  • Hélio Proença 28 de novembro de 2019 on 11:33

    Yoskhaz estas ponte aéreas…muito bom..
    Lindo texto, ótimas reflexões..

  • Rafael 26 de novembro de 2019 on 00:10

    Sem palavras para agradecer .. é incrível como a minha alma sempre encontra verdades em seus textos, de uma forma que chego a vibrar, Mestre Yoskhaz!!

  • Maico 25 de novembro de 2019 on 22:50

    “É triste se tornar uma pessoa importante para os outros e não ser ninguém para si mesmo”.
    No meu caso, me sinto ninguém pra mim mesmo e muito menos importante para qualquer outra pessoa.
    Teus textos são uma das poucas coisas que alegram meu coração. Sou eternamente grato por compartilhar essa sabedoria linda.

  • Luis Fernando de Brito 25 de novembro de 2019 on 15:05

    Que bela história de amor.
    O universo promove situações encantadoras.
    Gratidão.

  • Natan Jaderson Pinheiro Rodal da Silva 25 de novembro de 2019 on 10:28

    Gratidão Yoskhaz!!!

  • Fernando Cesar Machado 25 de novembro de 2019 on 01:59

    Gratidão profunda,
    imensurável e sem fim Yoskhaz,
    sem fim…