Aprisionados em si

“Todas as vezes que alguém está aprisionado em si mesmo, mostra aquilo que não é. Então, sofre em razão da artificialidade pela qual passa conduzir a sua vida”, me disse Loureiro, o elegante sapateiro amante dos vinhos tintos e dos livros de filosofia. Ele prosseguiu: “A artificialidade da existência é a negação da verdade. Ocorre quando as escolhas estão em descompasso com os princípios ordenadores da vida transmitidos pela alma, o regente interior”. Interrompi para saber a definição de verdade. Loureiro explicou: “Verdade são as fronteiras já desbravadas da consciência”. Ele prosseguiu: “Ao nos afastar da verdade, a vida perde o sentido e a existência, aos poucos, fica sem sabor. Dentro da gente os pensamentos ficam desalinhados e não conseguem avançar, como se andassem em círculos e, em determinado momento, deixamos de acreditar que seja possível chegar a algum lugar diferente e melhor. Os sentimentos, como um armário repleto de gavetas bagunçadas, restam confusos e passam a nos confundir ao invés de nos revestir em beleza. Desorientado pelo vazio que sente, mas não consegue fazer a leitura, o indivíduo é dominado por uma tristeza inexplicável, ao menos para ele mesmo, e, cada vez mais, quer viver dentro de um casulo escuro, distante da alegria dos outros e dos dias de sol. Em outros casos, passa a reagir de modo hostil a qualquer incômodo, mesmo sem causa aparente que justifique a aspereza da atitude. Vivem com uma navalha afiada pronta para cortar. Acreditam que a causa de tanto incômodo está no mundo, sem jamais cogitar que possa residir dentro deles. Desânimo e impaciência são os sintomas distintos de uma mesma enfermidade existencial: o cárcere da alma”. 

Tive essa conversa com Loureiro, o sapateiro amante dos vinhos tintos e dos livros de filosofia, havia muitos anos. Na época, eu estava a caminho do mosteiro para mais um período de estudos, quando passei em sua oficina, na pequena e charmosa cidade, de ruas estreitas e sinuosas, que fica no sopé da montanha. Lembrei dessas palavras quando tirei uns dias para visitar uma das minhas filhas. Ao contrário do que eu esperava, não a encontrei sorridente e saltitante, características inerentes ao seu jeito de ser. Embora estivesse feliz com o nosso encontro, depois de quase um ano, havia uma tristeza impossível de esconder, de tamanha força que ofuscava a sua luz. Quando me abraçou, chorou muito. Disse que tinha sido muito bom que eu tivesse ido, pois precisava conversar. Do aeroporto, pegamos o metrô, deixamos a mala no apartamento em que ela morava e fomos para uma cafeteria que eu adorava naquela mesma rua.

Devidamente acomodados com duas canecas fumegantes sobre a mesa, sem que eu precisasse perguntar, ela começou a falar. Contou que, junto às suas melhores amigas, tinham aproveitado um feriado prolongado para se divertirem em uma casa de campo de uma dessas colegas. Todas estudavam na mesma universidade, salvo a dona da casa, que havia abandonado os estudos ainda no primeiro ano do curso. Com o falecimento dos pais, havia recebido uma enorme herança. Como era muito dinheiro, “mais do que seria capaz de gastar”, entendeu que a faculdade era desnecessária, pois não precisaria mais trabalhar. O seu tempo seria todo dedicado em “aproveitar a vida”. No entanto, a amizade permanecera intacta. Nos dias iniciais tudo correu bem e elas se divertiram muito, ouviram música, cozinharam, passearam ao ar livre, relembraram fatos e confidenciaram intimidades. Em determinado momento, sem que a minha filha soubesse explicar a razão, Liz, como se chamava a dona da casa, se tornou agressiva com uma das meninas. A cada dia, mais uma garota entrava no rol das excluídas por ela. O clima na casa começou a ficar tenso até que houve uma discussão desagradável. A viagem terminou alguns dias antes da data marcada, todas muito zangadas com o comportamento da Liz. “Eu não sei o que aconteceu, pai. Amo a Liz, mas nos ofendemos como se fôssemos inimigas mortais. A amizade acabou”, disse a minha filha com a face banhada em lágrimas.

Pedi para que ela se acalmasse. Era preciso pensar com clareza, algo impossível sem a devida serenidade. Entender os fatos é compreender a causa das reações e as suas motivações, sejam as suas, sejam as dos outros. Após a compreensão será possível alocar os acontecimentos dentro do coração sem nenhum sofrimento. Como eu já tinha esvaziado a caneca de café ao ouvir a história, contada de modo fragmentado, pedi para que ela fosse relembrando todos os pormenores daqueles dias para que pudéssemos chegar ao âmago da questão e desarmar a armadilha que causava tanta dor. Sim, não sofremos por ser alvo das ações de ninguém, mas da maneira como reagimos às atitudes e escolhas alheias. Por exemplo, somente me ofendo com a palavra proferida por alguém quando o meu orgulho está no comando; algo que jamais acontece quando estou sob a orientação da humildade e da compaixão. Ao morder a isca oferecida pelas sombras, as nossas próprias sombras, a armadilha se fecha e nos aprisiona. Ao aprender a desmontá-la, passamos a conhecer os seus mecanismos e podemos evitá-las dali em diante. Isto nos concede um poder incomensurável.

Choramingando, ela lamentou: “Não precisava de nada daquilo, pai”. Eu a lembrei de algo importante: “A intimidade tem o poder de quebrar todas as regras de convivência. Tanto para o bem quanto para o mal. É uma ferramenta que, como as demais, temos de aprender a fazer bom uso dela”.

Por causa do movimento no balcão, demorei um pouco para retornar com uma nova caneca repleta de café. Em seguida, pedi para que ela me relatasse os dias na casa de campo de maneira linear. Ao falar sobre os primeiros dias, pude ver o sorriso de alegria no rosto da minha menina, até que chegou o momento da primeira briga. Como as confusões da Liz com as demais colegas tinha sido uma atitude aparentemente inexplicável por parte da dona da casa, percebi a conexão do conflito, acontecido pela manhã, a uma conversa que as garotas tiveram na noite anterior sobre os seus estágios nas férias de verão. Como é rotineiro naquela universidade, os alunos aproveitam o período prolongado de três meses sem aula para estagiarem em grandes empresas, como maneira de aplicar na prática a teoria apreendida em sala de aula. O assunto tinha surgido quando a Liz convidou a todas para passarem as próximas férias em uma outra casa que ela tinha em uma praia muito agradável. As garotas comentaram que não poderiam ir, pois estavam compromissadas com os estágios. Foi quando uma delas, a Cris, muito empolgada, contou como havia gostado da experiência vivida no ano anterior; ela estava muito animada, pois tinha recebido um convite da mesma empresa para retornar nas próximas férias. Isto lhe dava a esperança de acabar contratada ao final da faculdade. As outras garotas também falaram sobre os seus projetos e anseios profissionais. Menos a Liz, por motivos óbvios. 

Tenho o cacoete de sacudir a cabeça quando uma ideia me assalta. A minha filha sempre se divertiu com isto e sorriu. Eu estava inspirado naquela manhã: “Somos um, mas somos muitos”. 

Ao me deparar com o espanto dela diante daquela afirmação, expliquei: “Preste atenção à sua mente e perceba se não parece uma sala de bate-papo, com muitas pessoas falando ao mesmo tempo. São muitas vozes que querem e precisam ser ouvidas. Somos bem mais do que ego e alma, mas tudo aquilo que interfere em suas formações e desenvolvimentos. Somos os raciocínios claros e também os obscuros, as emoções densas e os sentimentos sutis, as informações do mundo que nos chegam em avalanche, toda ciência e mística que conhecemos, os interesses e a ética que, não raro, se contradizem, as sombras e as virtudes que nos são afins a cada momento evolutivo, os instintos ancestrais, os condicionamentos culturais, os preconceitos que temos e desconhecemos, o querer raso e a vontade profunda, as forjas sociais e das leis que insistem em moldar a nossa verdade, o medo que grita ‘não’, o amor que diz ‘sim’, os desejos insensatos e também os merecidos, as memórias dolorosas e as lembranças felizes, as decepções e as mágoas, os abraços e beijos de amor, os convites para as euforias, as portas das alegrias, as sagradas intuições, além das escolhas, sejam as acertadas, sejam as equivocadas. Este é o povo que nos habita. Cada um de nós é uma tribo em si mesmo. Somos muitos, mas somos um. Entender quem está no comando define o mel e o fel da existência. O fundamental é entender que todos os habitantes são importantes, pois contam uma parte da nossa história e mostram o que ainda carece de evolução. Muitos sangram e clamam por cura; alguns estão perdidos em busca de orientação. Outros podem e devem ajudar. É preciso oferecer ao povo que existe dentro da gente um único norte para seguir em harmonia, caso contrário, não haverá evolução. E nada causa maior mal-estar do que a estagnação do ser”.

“Os desencontros de uma pessoa refletem a bagunça da sua tribo: a incoerência entre os princípios existentes na alma e os valores escolhidos pelo ego. A raiz está em não entender as vozes que falam dentro da gente. Ou não saber qual ouvi-las e a razão dos seus gritos. Por vezes, é tanta confusão que a angústia e a melancolia se instalam sem que se identifique com facilidade a origem do desajuste”. Fiz uma pausa e concluí: “Isto é estar aprisionado em si mesmo, pois quando acontece significa que você não conseguirá ir a lugar nenhum. Enquanto perdurar, não conhecerá a amplitude da paz, a profundidade do amor, a alegria da dignidade, a imensidão da liberdade nem a leveza da felicidade. Aprisionado em si mesmo, será apenas um espectro da potencialidade de tudo aquilo que poderia ser. Mas não é”. 

“Resignado com a confusão e a amargura, não conseguirá encontrar a saída do labirinto que se tornou os seus pensamentos, continuamente assolados por tempestades emocionais. Procurará pelas paredes externas que o leva ao mundo e nada achará, pois antes é necessário atravessar a porta que o conduzirá ao interior de si mesmo. Então, após este encontro, estará pronto para se maravilhar com as verdadeiras belezas da vida. Enquanto não acontecer, se conformará em ser quem não é”. Concluí: “Não há encanto nisto”.

Ficamos alguns instantes sem dizer palavra. Ela precisava alocar a ideia de que era mil em uma. Sem dúvida, muitos nos habitam e conversam conosco; uma fauna diversificada de interesses e origens. São as muitas partes de um mesmo ser; alinhá-las sob um mesmo eixo é primordial para que qualquer pessoa possa se tornar inteira; nada pode sobrar, nada há de faltar, sob risco de a integralidade não se completar. Pisquei o olho para ela e quis saber: “Entendeu?”.

Qualquer ideia nova precisa do devido tempo até que seja metabolizada no ser e possa, então, fazer parte do viver. A minha filha disse que entendia onde eu queria chegar com o meu raciocínio, mas o achava inconsistente, pois a Liz abandonara a faculdade por considerar desnecessário prosseguir nos estudos. Ela não precisaria ingressar no mercado de trabalho. Queria apenas “ser livre”, conforme as suas próprias palavras. “Foi uma escolha dela”, explicou.

Aprofundei o raciocínio: “Em verdade, existe somente uma única prisão na vida, uma cela cruel que não é construída com tijolos nem com concretos. São os nossos sofrimentos. Sofremos pelo único motivo de não termos aprendidos a alinhar os pensamentos, a lidar com as emoções e, principalmente, a entender as causas e consequências das nossas escolhas. Em verdade, ignoramos quem somos. Isto nos leva a nos afogar em mágoas e decepções”. Olhei-a com seriedade e falei: “As chaves que nos trancam no cárcere do sofrimento é a mesma que nos libertam. As escolhas”.

“Você tem razão quando diz que todos querem a liberdade. A liberdade é um princípio insofismável. No entanto, quais são os valores pelos quais você a conquistará?”. 

“Seria viajar por todos os lugares que se queira conhecer? Ter tanto dinheiro a ponto de não precisar se preocupar com a própria sobrevivência? Passar os dias somente contemplando a beleza da natureza sem nada precisar construir? Se sentir tão importante a ponto de achar que não necessita dar satisfação a ninguém? Não ter uma pessoa ao lado que lhe cause dissabores ou necessite de cuidados? Nunca precisar obedecer a uma ordem ou cumprir uma tarefa exaustiva? Liberdade seria não ter obrigações nem comprometimentos? Ter tudo e todos à disposição sem nunca precisar servir a ninguém?”.

“Deste modo, sem se dar conta, acredita-se alcançar a liberdade através do ócio, do desrespeito, da fuga, do egoísmo, do orgulho e da vaidade. Acredite, você conhecerá muitos países, mas não irá a lugar nenhum; você conviverá com muitos, mas não se relacionará com ninguém. Os valores contrários à liberdade são diametralmente opostos à luz. Estar solto não é o mesmo que ser livre. Não basta possuir princípios nobres como liberdade, amor, dignidade, paz e felicidade, sem nada saber sobre os valores indispensáveis para alcançá-los”.

“Liberdade é o poder de ir além de si mesmo, de desenvolver a potência incomensurável que existe dentro de cada ser.  Todo o resto são dias de mera viagem sem nenhuma jornada”.

“Ao contrário do que se acredita, por parecer paradoxal, não se consegue ser livre sem assumir sérios compromissos, seja consigo mesmo, seja com a luz. Somente com os passos iluminados o Caminho ficará protegido e apresentará veredas até então inimagináveis diante dos seus olhos. Você apenas entenderá a força de ser livre quando, na iminência de queda no abismo, perceber as suas próprias asas se abrindo. Apenas se se descobre a verdadeira liberdade quando se aprende a diferença entre se jogar e voar. Não se chega a este ponto sem que haja muito comprometimento”.  

Os olhos da minha menina brilhavam de atenção. Animei-me em prosseguir: “Contudo, cada um tem que entender aquilo que deseja para a sua vida. Não existem dois caminhos iguais; não há modelos a serem seguidos, portanto, é primordial inventar um jeito próprio de caminhar. Ele é único e, por isto, traz consigo uma beleza singular. Lembre, os seus desejos libertam, quando impulsionados por amor, ou aprisionam, se dominados pelo medo”.

Ela interrompeu para falar que o medo é importante por nos alertar dos perigos do mundo. Discordei: “Não é o medo que cumpre esta função. Porém, uma valiosa virtude, a precaução”. Ela pediu para eu explicar a diferença. Fui ao início: “O medo tem a sua raiz ancestral em nossos instintos de sobrevivência, de subjugar o outro para dominá-lo e evitar que ele faça o mesmo conosco. Usamos o ataque como estratégia de defesa, somos hostis ou reagimos mal porque fomos condicionados a acreditar que um tem que se sobrepor ao outro, que o mais forte irá eliminar o mais fraco. Um raciocínio no qual predomina a dificuldade que ainda temos em conviver com as diferenças e contrariedades. Por qual razão é preciso derrotar o outro? Por que o mais frágil tem de perecer? Onde há medo não existe liberdade, tampouco amor. O medo não deixa que eu trate os outros como gostaria de ser tratado, então a dignidade também desaparece. O medo sufoca a paz, pois nasce da falta de confiança em mim e da fé na luz que me ilumina e é capaz de dissipar toda e qualquer escuridão. Ao contrário, o medo alimenta e agiganta esta escuridão”.

“A precaução funciona por um sistema interno diferente e totalmente oposto ao medo. Ela nos avisa que a todo o momento estamos diante de uma bifurcação onde existe a possibilidade de escolha entre o amor e o medo; a luz e o brilho”. A memória me levou a fatos longínquos, filosofei: “O brilho é a máscara preferida das sombras”. Em seguida, prossegui: “A precaução nos lembra da oportunidade que surge a cada instante para sermos diferentes e melhores, que o céu e o inferno não estão em lugar nenhum, salvo em nossos corações. Todos os dias se abrem portas que nos conduzirão às estrelas ou aos abismos”.

A minha filha interrompeu para questionar se a reação hostil da Liz seria o mal-estar de ter se visto diante dessa bifurcação. Lembrou da conversa sobre os estágios de verão, quando todas as amigas se mostraram animadas, com exceção da própria Liz. Por suas próprias escolhas, estava impedida a esta experiência que tanta alegria provocava nas demais. Ela estava sendo avisada, por si mesmo, que aquela era uma oportunidade de retroceder e refazer a sua história. A Liz estava ouvindo a voz virtuosa da precaução dizendo para ela sobre a necessidade de enfrentar o medo de ser ela mesma, de se expandir internamente para que pudesse viver tudo de bom que existe na vida. Negar a verdade nos faz sangrar sem cessar. Contudo, cada um somente aceita a verdade que já consegue suportar.

“Enquanto o medo limita, a liberdade amplia quem somos”, a minha filha me disse como se falasse para ela mesma ouvir. Abri os braços como quem diz sim, aquele era o mecanismo da armadilha que aprisionara a Liz. A minha filha aprofundou o raciocínio: “Essa premissa me leva ao inevitável raciocínio de que o mal é uma criação mental que preciso aprender a descontruir se algum dia eu quiser me libertar?”. Sorri e balancei a cabeça em anuência.

Prossegui: “Reflita um pouco e perceba algo definitivo: assim como todas as pessoas, ninguém a prejudicou mais do que você a si mesmo. O medo foi a principal razão. Contudo, o medo continua sendo o principal motor a mover o mundo”.

“Enfim, a diferença entre o medo, sempre sombrio, e a precaução, eterna fonte de luz, é um verbo pequenino e precioso, que não recebe a importância que merece. O querer”.

Ela voltou a divergir. Argumentou que todos querem ser livres. Ponderei: “O querer é a vontade primordial de viajar. Os fundamentos que constroem o querer são as rotas que definirão se o viajante chegará ao destino. Entender os valores é indispensável para se alcançar os princípios desejados. Então, a viagem se torna uma jornada”. 

“Se faz necessário entender os seus objetivos, a escala das suas prioridades e viver de modo coerente a elas. Estes serão sempre os limites da sua verdade. O amor não assina contrato com o egoísmo, a liberdade nada tem a ver com a ausência de compromissos, a paz nunca terá o medo como conselheiro, a dignidade não se alia ao orgulho e a felicidade sabe que prosperidade e riqueza possuem conceitos distintos”.

“As prisões existem. Entretanto, não passam de construções conceituais, nas quais ideias oprimem mais do que as grades de ferro e o medo é mais sólido e difícil de derrubar do que cidades inteiras de argamassa e concreto”.

A minha menina me provocou: “Complexo, não?”. Lembrei mais uma vez de Loureiro, ao citar um aforismo atribuído a um sábio da Renascença: “A mais complexa de todas as sofisticações é a simplicidade”.

“Complexa por precisar desconstruir as obsoletas formas que moldaram quem eu não sou; enquanto viver quem eu não sou anularei quem eu sou. Assim, me aprisiono em mim mesmo. Complexa pela necessidade de desmascarar as ilusões que serviram de esconderijos para a verdade; e a verdade, embora indispensável, nem sempre nos abraça com delicadeza, principalmente quando a recusamos por longo tempo. Complexa por despir as fantasias que vesti pelo medo que as pessoas não gostassem de mim ou descobrissem sobre as minhas inseguranças e receios. Complexa por eu ter acreditado que subterfúgios e artifícios realçariam a minha beleza, quando, em verdade, a escondem por negar a essência pela qual a vida floresce”. 

Fiz uma pergunta retórica: “Qual a verdade que cada um de nós consegue suportar?”. Fiz uma pequena pausa e poderei: “Somente a simplicidade tem a força necessária de nos levar até ela”.

“A simplicidade reside em admitir que o rei está nu e que este rei sou eu. Nada é tão difícil na vida. Ao lado da humildade, a simplicidade me abre os portais da lucidez.  Sem isto, a vida não se inicia. A transformação estará à distância exata do alcance do meu olhar e terá a dificuldade estabelecida pelo meu querer”.

“Não raro você terá que abrir mão de valores admirados no mundo, desmanchar condicionamentos, construir os conceitos que passarão a balizá-la daqui pra frente, entender os princípios que deseja e os verdadeiros valores que a possibilitarão alcançá-los, conviver com inevitáveis críticas, assumir os riscos inerentes à vida, dizer não quando era mais fácil falar sim, aceitar quando parecia mais conveniente negar, entre outras dificuldades. Viver no eixo da própria luz não é fácil, mas é libertador”.

Finalizei com mais duas indagações: “Entende o motivo pelo qual não existe liberdade sem compromisso? Entende a razão de, algumas vezes, termos de retroceder para conseguir avançar? Entende como a maneira como alguém trata os outros é o espelho de como ela se relaciona consigo mesma?”. Eu não me referia apenas a Liz, mas todos nós. 

Ficamos um tempo sem dizer palavra. Foi ela quem quebrou o silêncio: “A liberdade é bem mais do que a sensação de andar solto e sem destino por todos os cantos do mundo”. Aproveitei o comentário para trazer uma lição deixada por Sócrates: “Onde quer que eu vá, eu também irei”. Diante do espanto da minha filha, expliquei: “Eu me acompanharei todos os dias, onde quer que eu esteja. Sou a bagagem que não tenho como evitar. Entretanto, ela pode estar arrumada ou bagunçada. Isto define se o euque está comigo é livre ou está aprisionado em si mesmo. Define também o alcance dos meus dias, se me permitirei uma longa jornada ou se viajarei a lugar nenhum”.

Tornamos a ficar em silêncio até que a minha menina lamentou a amizade perdida. Até então, a Liz e ela tinham se dado muito bem. Entretanto, as atitudes hostis tinham sido bem desagradáveis. Lembrei a ela sobre o essencial: “Perceba que a agressividade da Liz é um grito de socorro. Ela está aprisionada em si mesmo e não sabe qual voz ouvir das muitas que a habitam. A tribo está em conflito. A sua amiga precisa de ajuda. Mas, claro, ela precisa entender e, acima de tudo, querer. É possível que a Liz ainda esteja na fase da negação, então caberá a você somente ter paciência e esperar. Cada um tem o seu próprio ritmo de caminhar. A vontade é a força-motriz da evolução. O seu eixo é o amor e as virtudes; a sabedoria, o timoneiro sagaz. Contudo, a amizade de vocês passa por uma etapa angular: pode se perder para sempre ou estar pronta para o seu momento mais sublime, quando um amigo nos faz acreditar no poder da nossa própria luz. A liberdade é uma conquista personalíssima. Ninguém pode concedê-la a ninguém, pois é uma etapa importante do ciclo evolutivo”. 

“A liberdade é ampla e profunda. Amplitude e profundidade são aspectos distintos. A profundidade se refere à capacidade de uma pessoa em mergulhar dentro dela mesma; então, passo a passo, a entender as transformações permitidas pelas verdades através das infinitas possibilidades de expansão do ser. A amplitude se caracteriza na coerência das escolhas cotidianas com as verdades alcançadas; o exercício do viver. O ser livre é longitudinal e latitudinal ao mesmo tempo. Enquanto a longitude leva ao autoconhecimento, a latitude impulsiona à autolibertação. 

Dei de ombros e provoquei: “A escolha é sua. Permite entender o quanto de vontade existe dentro você e também do alcance da sua própria consciência. A vontade é reflexo da autoestima, do amor que já floresceu por si mesma. Você precisará sempre da força proveniente da vontade, pois terá, muitas vezes, de andar na contramão do fluxo dominante, de enfrentar a dificuldade de fazer o que poucos fariam ou muitos desaconselhariam. Contudo, quando em plena sintonia com a verdade que você já conhece, os seus dias serão envolvidos em alegria e leveza”. 

A minha filha me olhou com seriedade. De início, as suas feições ficaram contraídas. Depois, o olhar vagou pelo espaço entre dimensões. Uma reação natural quando muitas vozes dialogam dentro da gente. É preciso saber qual iremos ouvir e, mais ainda, alinhar todas sob um mesmo trilho para que haja serenidade e condições de avançar. Aguardei por um tempo que não sei precisar. Esvaziei a caneca de café e fui ao balcão buscar mais uma. Na volta, a minha filha comentou: “Talvez a Liz tenha se aprisionado em si mesmo no descuido de um dia qualquer. Acredito que ela também esteja sofrendo com tudo o que aconteceu. Quem sabe não consigo ajudá-la ao meu jeito?”. Sem aguardar nenhuma manifestação da minha parte, pediu licença e saiu com o celular na mão. Pela vidraça da cafeteria pude ver ela que fazia uma ligação da calçada. Ela falava com a Liz. Conversaram por alguns minutos. Quando desligou, ela se virou para mim, fechou o punho e estendeu o polegar. Em seguida, deu um sorriso que eu ainda não tinha visto desde que chegara. Ela fez um sinal que me encontraria mais tarde, mandou um beijo e saiu saltitante, como se os seus pés não tocassem no chão. Uma nova jornada começara.

Fechei os olhos, agradeci à vida pela sua magia e fui tomado por uma inconfundível alegria.

Imagem: Michal Balada – Dreamstime.com

Discussões — 10 Respostas

  • Michelle 29 de fevereiro de 2020 on 15:38

    ❤️🌹

  • Adélia Maria Milani 25 de fevereiro de 2020 on 21:59

    Gratidão!!!🙏🙏🙏🙏🙏⭐⭐⭐⭐💜💜💜💜🙏

  • Greyce 25 de fevereiro de 2020 on 10:06

    Que texto sutil e maravilhoso, profundo no ensinamento. Obrigada!

  • Heitor 22 de fevereiro de 2020 on 11:00

    Mais uma vez, um texto espetacular.
    Admiro sua capacidade de demonstrar como a simplicidade resolve situações, aparentemente, tão complexas.

  • Terumi 21 de fevereiro de 2020 on 22:16

    Gratidão!🙏

  • Karllus 19 de fevereiro de 2020 on 22:52

    Gratidão companheiro!

  • Ian 19 de fevereiro de 2020 on 20:40

    Muito útil esses ensinamentos, grato Yoskhaz!

  • André Filipe 18 de fevereiro de 2020 on 16:25

    Mais uma vez era o texto que eu precisava ler neste momento, a vida e suas sincronicidades. Grato por estas lindas palavras!

  • Fernando Cesar Machado 18 de fevereiro de 2020 on 11:40

    Gratidão profunda e sem fim Yoskhaz,
    sem fim…

  • Alessandra 17 de fevereiro de 2020 on 23:23

    Que Lindo! Gratidão, Yoskhaz!❤️💭