A dieta

Da casa onde moro, no Rio de Janeiro, até Sedona, nas montanhas do Arizona, é quase um dia de viagem, entre dois trechos aéreos e o percurso de carro desde Phoenix. Sempre chego muito cansado. Daquela vez não foi diferente. Quando cheguei, Canção Estrela, o xamã que tinha o dom de perpetuar as histórias ancestrais do seu povo, estava sentado na varanda com o seu indefectível cachimbo com fornilho de pedra vermelha. Após um forte abraço, ele se afastou um pouco, olhou-me como quem viu algo estranho e disparou: “Você não está bem”. Discordei, disse que era apenas o cansaço da viagem. Nada que uma noite de sono não fosse capaz de curar. O xamã deu de ombros, falou para eu me acomodar no quarto de hóspedes e que, após o banho, serviria uma sopa de raízes que havia preparado. Durante o jantar atualizamos as nossas vidas. Contei que passava por um momento muito bom, tudo corria bem na minha vida. Os negócios estavam equacionados, eu estava ao lado da mulher que amava, as minhas filhas estavam saudáveis e felizes. Eu escrevia todos os dias, trabalhava ao lado dos meus amigos na editora, visitava as meninas e, sempre que possível, viajava para passear. Eram dias de sol mesmo quando chovia. Mostrei que ele estava enganado quanto ao diagnóstico que elaborara. Canção Estrelada apenas me observou sem dizer palavra. Após o jantar, como de costume, fomos para a varanda. Não somente para que o xamã fumasse o seu cachimbo, mas também para que olhássemos às estrelas, um hábito do qual ele não abdicava. A noite estava linda. Após alguns minutos em silêncio, o xamã disse: “Quando os nossos pensamentos se distanciam das estrelas as ideias perdem a beleza, o coração fica sem viço e as raízes apodrecem”. Fez uma pequena pausa antes de arrematar: “O jeito de pensar define a maneira de ser e de viver”. Olhou-me nos olhos e sentenciou com a seriedade de um pai: “Você tem que parar de fazer o mal”.

Não gostei e rebati de imediato: “Eu não faço mal a ninguém. Esforço-me para ser sincero comigo e honesto em todas as minhas relações; ajudo as pessoas quando posso e acho que devo; não negocio com as sombras, não trapaceio a luz; cometi muitos erros no passado, mas aos poucos eles vêm diminuindo. Nos dias atuais tenho ficado mais atento em semear as minhas virtudes. Sei que ainda estou distante de onde quero chegar, mas tento me tornar uma pessoa diferente e melhor a cada dia”. Canção Estrelada, franziu as sobrancelhas ao falar: “Não tenho a menor dúvida quanto às suas palavras, filho. Sei do seu bom coração e do cuidado que existe para não prejudicar ninguém ao seu redor. Isto é verdadeiro. Contudo, o mal que você tem praticado não é contra os outros, mas para si mesmo”.

Sacudi a mão como quem diz que ele estava enganado e acrescentei: “Tenho cuidado de mim com muito amor. Pratico exercícios e tenho uma alimentação saudável. Exerço o meu dom e persigo o meu sonho, o propósito de vida que me anima e alegra a minha vida”. Canção Estrelada balançou a cabeça concordando comigo. Ele sabia que eu falava a verdade. Depois, olhou para as estrelas e disse: “Os seus pensamentos ainda carregam um enorme vício. Eles teimam em pensar nas piores coisas que existem. Ora teimam em lembrar de situações dolorosas, ora de projetarem situações futuras desagradáveis que, em sua maioria, jamais acontecerão. Porquanto, traz sofrimento. Rouba a leveza do seu ser, furta a beleza do viver, impede que você alcance as plenitudes e, muito grave, abre as portas do campo áurico que o envolve, os muros da sua fortaleza invisível de força, para que muita porcaria do astral o invada e devore a sua luz. Maus pensamentos dão origem as víboras do espaço que destilam veneno no coração, opacam o olhar, corroem a mente e sugam a energia vital”.

Ficamos um longo tempo sem dizer palavra. Eu estava incomodado com aquela conversa, pois acreditava ter alcançado um bom estágio evolutivo desde que o conheci, pelas muitas transformações que já havia conseguido sedimentar. Eu tinha avançado muito, era bem mais virtuoso do que antes, não cometia mais os velhos erros, nunca mais tivera rompantes emocionais, aprendera a me portar com serenidade diante das contrariedades inevitáveis à existência e, cada vez mais, me esforçava para harmonizar os mil eusque formam o meu eu. Se ainda não era inteiro por completo, era bem menos fragmentado do que antes. Isto se traduz em evolução. Cheguei em Sedona com a certeza de ouvir elogios e recebi uma reprimenda logo na entrada. Apesar da delicadeza com que era tratado, eu me sentia desconfortável e o meu silêncio naquele momento expressava isso. Canção Estrelada não se abalou e me aconselhou: “Antes de dormir, feche os olhos, serene o coração e suavize a mente para se encontrar com o Grande Espírito. Então, faça a seguinte oração: Por favor, me ajude a me proteger de mim mesmo. Que eu consiga fazer deste inimigo o meu melhor amigo”.

Na manhã seguinte recebi várias ligações. Duas mexeram comigo. A primeira, foi de uma das minhas filhas para dizer que tinha sido convidada pelos pais do seu namorado para passar o feriado prolongado do final de ano com eles. Ela não confirmou se iria, apenas disse que recebera o convite. Lembrei que era um período que tradicionalmente nos reuníamos, junto com a minha outra filha, para viajarmos e convivermos mais intensamente. A intimidade é importante para quebrar as barreiras do formalismo e possibilitar que as pessoas se conheçam melhor; somente o convívio permite a intimidade. Como morávamos distantes, eu valorizava muito esses momentos que desfrutava ao lado das meninas. Ela apenas ouviu sem fazer qualquer manifestação. Embora eu não tivesse insistido, a simples possibilidade de não viajarmos fez com que eu remexesse uma série de situações dolorosas do nosso relacionamento no passado e projetasse algumas reações severas para o futuro.

Em seguida, recebi a notícia que uma jovem e talentosa ilustradora contratada para fazer um trabalho na editora recebera um convite para compor a equipe de desenhistas de um famoso estúdio cinematográfico. Ela teria que se mudar imediatamente para a Califórnia. Comemoramos ao telefone. Eu previra que em algum momento algo parecido aconteceria em razão do seu inigualável dom. No entanto, senti um desconforto, como se estivesse sendo avisado da iminência de um perigo que, a princípio, não identifiquei. O inconsciente tem a rapidez e o poder de associar um fato do presente a outro do passado, para nos dizer sobre alegrias e tristezas já vividas em situações semelhantes. Não demorou, um funcionário da editora entrou em contato para perguntar se ela terminaria o trabalho que fazia conosco. Lembrou que mais das metades das ilustrações estavam prontas e restariam perdidas caso ela interrompesse o serviço, pois os seus traços eram únicos; outro ilustrador levaria a um descompasso de estilos à obra ou teria de começar do zero. Como eu não tinha aventado esta hipótese de ela não finalizar o trabalho, fiz sérias e graves projeções sobre os prejuízos e as consequências cabíveis. Recordei que algo parecido havia ocorrido na época da agência de publicidade. O aviso de alerta disparado pelo meu inconsciente fazia a conexão entre fatos antigos e sensações atuais. Impulsionado por um passado repleto de complicações, projetei um amanhã lotado de chateações em ambas as situações.

Embora eu nada comentasse, a minha tranquilidade era apenas aparente; um incêndio me devastava internamente. Mantive as minhas atitudes educadas e a fala mansa, porém não havia serenidade na mente nem suavidade no coração. Em verdade, nada tinha acontecido. Contudo, os efeitos alimentados por memórias desagradáveis e agigantados por projeções catastróficas já se faziam devastadores e eram perceptíveis a olhos sensíveis. Envolvido em uma nebulosa de ideias e emoções sombrias, eu previa dias péssimos e de enormes dificuldades. Canção Estrelada ao me ver sentado na varanda, olhou-me profundamente por breves segundos e perguntou: “Aonde foi a leveza e a alegria que lhe pertencem?”. Fiz um breve relato dos fatos ocorridos naquela manhã. O xamã não esboçou palavra. Apenas deu de ombros como quem diz que não havia correlação entre fatos e efeitos.

Em seguida, ele me convidou para acompanhá-lo até uma rudimentar cabana de madeira que ele possuía no alto da montanha (já me referi a este local no texto A medicina do urso). Ficaríamos uns dias por lá. Fiquei animadíssimo, imaginando os cerimoniais que o xamã realizaria. Uma oportunidade imperdível. Enchemos a caçamba da sua surrada pick-up com utensílios e mantimentos. Por causa das péssimas condições da estrada o trajeto demorou quase duas horas. O lugar era lindo, cercado por uma natureza ainda selvagem e quase intocada. Guardamos as coisas e fomos dar um passeio pelas redondezas para apreciar a beleza do local e nos envolver com aquela maravilhosa energia telúrica. Na volta, já entardecia, acendi a lareira, pois fazia muito frio, me sentei acompanhado de um livro. Canção Estrelada ficou encarregado de cozinhar. Quando finalizou, levou à mesa duas refeições distintas. Uma a base de raízes, grãos e legumes para ele; para mim tinha um risoto com muita manteiga, bacon e linguiça. Estranhei, mas não me importei. No clima frio o organismo pede por alimentos mais gordurosos. Estava delicioso e eu me fartei. No dia seguinte, o ritual se repetiu. Eu estava adorando até que comecei a passar mal. Com forte indigestão, fiquei acamado. O xamã cuidou de mim. Tomei chás feitos com infusão de ervas medicinais que todas as manhãs ele saía para colher. Depois de alguns dias, acordei bem-disposto. 

Canção Estrelada me aguardava com a mesa posta para o desjejum. Havia alimentos de todos os tipos ao meu dispor. Conversávamos alegremente sobre um passeio que ele queria fazer a um lago próximo, cerca de uma hora de caminhada. Falei para ele não esquecer de levar o tambor de duas faces, eu estava ansioso por um cerimonial realizado em um lugar maravilhoso como aquele. Sem entrar em detalhes, lembrei das dificuldades com a minha filha e a ilustradora da editora. Eu tinha esperança que o cerimonial, por conduzir a um estado alterado de consciência, me permitisse uma intuição esclarecedora em relação a esses problemas. Enquanto falávamos, sem me dar conta, coloquei no prato apenas os alimentos saudáveis. Ele perguntou se eu não comeria o bacon e a linguiça que tinha fritado para mim. Falei que o meu corpo pedia por algo mais leve. O xamã falou com a sua voz rouca e serena: “A sua alma também”.

Falei que não tinha entendido. Canção Estrelada me explicou: “A sua alma é o âmago sagrado que o identifica no universo; é o seu código pessoal e a sua essência imortal. Ela é uma viajante do tempo, a andarilha das estrelas que ruma em sentido ao Grande Mistério. Você é tão e somente um personagem nesta existência e cumprirá diferentes papéis em diversos outros palcos que compõem a vida. A alma evolui a cada história vivida e registra em si a totalidade delas”.

“A alma se fortalece ou adoece com os alimentos que ingere. Tudo que o envolve atinge a sua alma, pois se refere ao Triangulo Sagrado formado pelos três vértices: expansão de consciência, florescimento das virtudes e aperfeiçoamento das escolhas. As suas emoções são a sobremesa do jantar servido pelos seus pensamentos. Ideias nocivas levam às paixões devastadoras. A sua mente envenena o seu coração. Então, a luz se apaga. Perde-se a leveza na vida e a alegria dos dias”.

Interrompi para dizer que ainda não entendia onde ele queria chegar. Canção Estrelada me lembrou do último dia na sua casa, em Sedona, quando mesmo mantendo o controle, mostrei o quanto as notícias que recebi da minha filha e da ilustradora da editora me devastaram. O xamã aprofundou: “Sem se dar conta, você escalou tons de sofrimentos diante de meras possibilidades. Simples construções mentais o levaram à criação de emoções insalubres. Diferentes construções o levarão a novas criações. Você é o que você pensa. O que você sente é gerado por quem você é”. Fez uma breve pausa para concluir: “Um novo jeito de ser e de viver passa necessariamente por uma nova maneira de pensar”.

“A mente aperfeiçoa o coração. Quando em sintonia com a luz, permitem a evolução da alma”.

“Para ser feliz não adianta apenas ser um homem bom e fazer o bem. Embora isto seja indispensável, é preciso aprender a pensar para que o coração consiga pulsar a beleza que existe na sua alma. Esta é a beleza que você também encontrará em todas as situações da sua vida”.

“Do contrário, pensamentos ruins que dimensionam ao extremo o nível das dificuldades, projetam sofrimentos e conflitos para além da sensatez, intoxicam o coração e geram enfermidades, tanto espirituais quanto físicas. O mundo fica feio e a vida se torna ruim. Como sintoma, o coração doentio e pesado expele emoções obscuras, repletas de sensações de injustiça e abandono. Tudo por causa de uma mente mal-educada e viciada em alimentos ruins de um homem bom e praticante do bem. Sem perceber, passará a maior parte do tempo envolvido com ideias más e infrutíferas, desperdiçando a sua luz na geração da própria felicidade. Mesmo sendo uma pessoa boa, a energia que o envolve será sombria. Você será infeliz e viverá dias tensos, sem entender a razão pela qual as pessoas se afastam de você”.

Canção Estrelada apontou com queixo o prato que eu havia preparado para o desjejum e comentou: “Não é só o corpo que precisa de uma dieta saudável. O jejum também é imprescindível à alma. Pensamentos e sentimentos alimentam a alma. O poder está na mente; a força reside no coração. Vícios no pensar envenenam o sentir; então, a alma adoece”.

Comemos em silêncio. Eu estudara sobre as viciações mentais e os danos que provocam na tecelagem neural. Também tinha conhecimento de como o inconsciente, em associações com fatos do passado e na ilusão de nos proteger, toma a iniciativa das nossas reações. Sem nos darmos conta, entramos no modo automático. Vivemos assustados, pessimistas e inseguros. Isto nos retira o poder das escolhas, fundamentais ferramentas evolutivas. Reagimos sem escolher, pois, as decisões não passam pelas ponderações sensatas do consciente por partirem do automatismo impensado no inconsciente. Somos nós, porém são faces pessoais que ainda não controlamos por desconhecimento. Uma influência determinante em nossas vidas que ainda não entendemos.

É como se o barco da minha existência tivesse outros timoneiros, ocultos de mim mesmo, o capitão da embarcação. Quando distraído, não percebo que eles assumem o leme para conduzir a nau pela rota das tristes lembranças ou através dos mares do medo de que o pior irá acontecer. Além das questões pessoais, também somos influenciados pelo atavismo ancestral que trazemos em nossos genes, por todas as guerras e pestes que acompanham a humanidade desde o início da civilização, que se transmitem por sucessivas gerações e engessam uma maneira de pensar calcada na miséria e na tragédia. Sem nos darmos conta, ignoramos que quando limitamos a maneira de pensar estreitamos as fronteiras do amor. A vida se apequena.

Depois do café da manhã, andamos por mais de uma hora até um belíssimo lago de águas plácidas. Acomodamos as mochilas debaixo de um carvalho frondoso. Animei-me quando Canção Estrelada pegou o tambor de duas faces, se sentou e começou a entoar uma linda canção nativa. Perguntei se faríamos um pequeno cerimonial sagrado. Ele negou: “A música é somente para agradecer aos guardiões do lago e da floresta a permissão e a proteção por estarmos aqui. É um jeito de harmonizar todas as energias presentes em um só pulsar através do ritmo do tambor”. Em seguida, acrescentou: “O cerimonial foi realizado na cabana. Espero que a lição da dieta seja bem aproveitada”.

“A memória e a imaginação, como tudo que existe, têm polaridade positiva ou negativa a depender de como as usamos. Quando bem usadas, a memória serve para agregar experiência ao ser e a imaginação auxilia a expandir os limites do viver. Entretanto, o mau uso delas pode nos levar a dois lugares onde não podemos morar: o passado e o futuro. Quando teimamos, tecemos a teia da ilusão; aquela que fantasia a realidade, reduz as escolhas e diminui as possibilidades de ação. Apenas posso ser aquie somente consigo viver o agora. O antes e o depois são amargas celas existenciais para aqueles que teimam em não sair destes locais. Em verdade, acabamos por viver em uma dimensão temporal absurda pelo fato de se tratar de lugares que não conseguimos atuar.” 

“Mentes viciadas em ideias insalubres se tornam prisioneiras dos próprios pensamentos. Ficam limitadas pelo sofrimento que causam a si próprias. Ninguém consegue pensar com amplitude e profundidade quando o coração está aflito e bagunçado”. 

“Procure se livrar das velhas amarras do pensar para que a consciência possa desmanchar as causas do sofrimento. A dor não é uma doença, mas somente o sintoma; o distúrbio está na maneira condicionada e, por isto, limitada e sofrida de pensar. O livre-pensar é a semente da liberdade.”

Não falei palavra. Canção Estrelada foi passear na floresta ao redor do lago; sentado debaixo do carvalho, me aquietei para encontrar cada nó que amarrava o meu pensar e me impedia a leveza no ser e a alegria no viver. Fiz uma prece para me conectar com as Terras Altas; em seguida, meditei para encontrar comigo. Aos poucos, na medida que o coração serenava, a mente clareava.

As soluções de todos os meus problemas estão em mim, jamais as encontrarei no mundo. Lá fora apenas somarei fatores e viverei o resultado da equação. No entanto, ela será resolvida no âmago do meu ser. Nem tudo acontecerá ao meu gosto, mas tudo se resolverá para o meu bem, ainda que tarde este entendimento.  Ora, caso a minha filha decidisse passar as festas de final de ano com a família do namorado, isto deveria ser motivo de alegria para mim, pois mostrava que ela alçava voos mais longos, ganhava autonomia e começava a escrever a própria história. Era maravilhoso e não significava que o seu amor por mim fosse menor. Ao contrário, era um amor que se ampliava em direção mundo. Nenhuma dependência é saudável, mesmo as emocionais. Por eu amá-la, amava também o seu voo.

Diferente não era a situação da ilustradora. Eu sempre a incentivei a voos mais altos, pois acreditava em seu enorme talento. Quando surgiu a oportunidade, não seria justo eu me chatear por ter acontecido em um momento inoportuno para a editora. Se ela não pudesse terminar as ilustrações, eu encontraria uma solução. Sempre encontramos um caminho quando há serenidade no sentir. Para isto, há que se ter clareza no pensar. A vida sempre reage no exato tom das minhas ações. 

Em parte, o inconsciente é responsável pelos nossos sofrimentos e, por isto, precisa de educação. Como? Faz-se necessário conhecer o seu conteúdo, mecanismos e funcionamento. Grosso modo, o inconsciente armazena todos os fatos e sensações vividas. Age como uma criança que sofreu muito e se assusta com tudo e com todos por temer dias iguais de escuridão e dor. Contudo, o medo nunca será um bom conselheiro pelo simples fato de cercear a vida e impedir que você desenvolva todas as suas possibilidades. Uma situação dolorosa do passado não irá necessariamente se repetir no futuro, mesmo que envolva as mesmas pessoas. Circunstâncias e pessoas mudam. O que dizer quando são pessoas diferentes mesmo em situações semelhantes? Pode dar errado? Somente se reagirmos por repetição e automatismo. Não é a ação do outro que estabelece o nível da sua dor, mas o jeito como você dimensiona e reage a ela. É indispensável dar uma chance a si mesmo para que a vida mostre toda a sua magia, mistério e encanto.

As escolhas alheias podem me atingir? Sim, mas apenas na superfície, jamais em profundidade. Fique atento a isto, pois será possível entender o poder que existe em você quando compreender que o mal que os outros podem lhe fazer é supérfluo. Contudo, o mal que fazemos a nós mesmos é infinitamente mais danoso. Quando sofremos prolongadamente por algo que alguém nos fez, a dor está sendo gerada dentro da gente e não vem mais de fora.

Quando eu me desequilibro por causa da escolha de alguém, qualquer que seja a situação, revela a imaturidade de quem ainda sou. Imaturidade é a fraqueza oriunda da ignorância. Permanecerei um indivíduo limitado e inseguro enquanto desconhecer a força que tenho ao viver sob o eixo de uma consciência virtuosa ligada à Luz. Quanto mais ampla e profunda for a conexão, maior a força e o poder.

A maturidade surge no momento que decido olhar para dentro de mim com coragem, sinceridade e compaixão para entender aquilo que ainda não compreendi e paro de culpar o mundo e aceito a responsabilidade integral pela minha vida. No diapasão desse raciocínio, compreendo que ao mudar as lentes com que me vejo modifico as cores do meu destino. Lentes sombrias, destino dramático; lentes luminosas, destino virtuoso.

Para tanto, é preciso ser livre para escolher as lentes. A boa notícia é que a liberdade começa no pensar, amadurece no sentir e finaliza com uma escolha firme. Nada mais, simples assim. Depende tão e somente de mim. Da dieta que estarei disposto a fazer, cada vez mais ampla e profunda até o dia do dia sem fim. Há que se ter uma vontade inquebrantável. Sofisticado assim. 

Naquela tarde, a minha liberdade somente existiria a partir do momento em que eu respeitasse e entendesse a liberdade de escolha da minha filha e da ilustradora. Do contrário, quem restaria aprisionado seria eu, pois os seus voos não careciam da minha autorização. Era justo e legítimo que elas se lançassem ao mundo. Eram conquistas pessoais de ambas. A maneira como fariam isso também lhes pertenciam. Eu as tinha incentivado, mas mesmo que não tivesse feito, não carecia de lamentos ou vitimização da minha parte. Fiz o meu melhor em prol delas e ponto final; esta seria a razão da minha alegria e leveza; amor não é troca nem gera dívida. Percebi que eu tropeçava nas minhas próprias pernas, ou seja, não fazia um bom uso do conhecimento que já possuía. O meu sofrimento servia de navalha para cortar as minhas próprias asas. Tudo em razão da viciação mental em aceitar a interferência das tristes lembranças e de acreditar nas projeções dolorosas. Sem me dar conta, eu tinha entregue o controle da minha mente e, por consequência, da minha vida. A quem? A outra parte de mim mesmo, a muitos dos meus eusainda desalinhados com a Luz. Era o momento de recuperar o controle. Para tanto, era indispensável identificá-los e educá-los. Educar é iluminar. Assim desmanchamos os sofrimentos.

Não se tratava de recalcar as memórias nem reprimir a criatividade, são áreas importantes do ser, mas de torná-las produtivas às novas ideias. A solução é mais simples que parece: nenhum bom pensamento provoca sofrimento. A dor sinaliza a existência de amarras no pensar. Se dói, vá ao âmago de si mesmo e acenda as partes apagadas. Uma mente luminosa será sempre fonte de leveza e alegria.

Quando Canção Estrelada retornou do passeio, parou na minha frente e me observou por alguns instantes. Depois, ao notar a mudança, sorriu e perguntou: “Entendeu o valor de uma dieta?”. Sem esperar resposta, prosseguiu: “Dieta não significa restrição; dieta é escolha, é a liberdade de se livrar da não-escolha. Dieta é a escolha de algo diante da não-escolha de todas as coisas; inclusive o que te faz mal e aprisiona. Dieta é quando menos é mais, por deixarmos para trás tudo o que não serve ou não precisamos. Dieta se traduz em liberdade”. Fez uma pausa antes concluir: “Quando nos perdemos nas veredas sombrias dos pensamentos as emoções densas turvam o olhar. Desorientados, deixamos que decidam por nós, entregamos o nosso destino a alguém que desconhecemos”.  Apenas balancei a cabeça em anuência. Sim, ainda há muitos desconhecidos dentro de mim.

Pensei na minha menina e na jovem ilustradora. Eu não tenho direito de determinar como as pessoas vão decidir sobre as suas vidas ou como irão me tratar. Mas tenho o poder de determinar as minhas escolhas e como tratarei a todos. Quando decido respeitar a liberdade alheia e a tratar bem a toda gente, me liberto e encontro aconchego em minhas próprias virtudes. A vida me acolhe e abraça. De uma forma sempre inusitada e nunca esperada, o universo me convida para dançar a sinfonia no mesmo compasso que executo os meus passos.

Como se faltasse mais um detalhe na sua explicação, o xamã pediu para que eu me posicionasse ao lado do carvalho. Em seguida, amarrou um dos meus pés à arvore; o outro pé ficou solto. Ele pediu para que eu caminhasse. Dei de ombros por saber impossível, mas obedeci. Movimentei o pé que estava solto, contudo, o passo não se completou pelo óbvio motivo de o outro pé estar preso. Canção Estrelada piscou um olho como quem conta um segredo e desvendou a metáfora: “Ninguém é livre enquanto sofrer. Um pé é a mente, outro é o coração. Precisamos dos dois para caminhar. Após a sabedoria entender o sofrimento, precisaremos do amor para desmanchá-lo. Quem quiser ser livre precisará de ambos”.

Uma indescritível e maravilhosa sensação me envolvia. A liberdade. Sim, a liberdade nasce no pensar e floresce no bem-sentir. Aqui e agora. Todos os dias e para sempre. 

Podem me impedir de frequentar palácios ou países. Podem me negar os desejos, gritarem mil vezes não, me roubarem, prenderem, enxotarem ou renegarem. Não importa. Pois, não me impedirão de amar, de ser digno, feliz e de viver em paz. Salvo eu mesmo, ninguém pode me impedir de alinhar todos os meus eussob o eixo do meu melhor eu, aquele integrado às minhas outras faces já conectadas à luz. 

Tudo que realmente tem valor possui raiz nas plenitudes ou floresce através delas; a liberdade é uma das suas cinco ramificações. O livre-viver nasce no livre-pensar. Isto, nenhum indivíduo, por mais poderoso que seja, pode me tomar sem a minha permissão. Naquele dia tomei a firme resolução de nunca conceder tamanho poder a ninguém, nem mesmo aos outros eus, aqueles ainda afeitos às sombras que me habitam. 

Voltamos à cabana quando as estrelas estavam altas no céu. Canção Estrelada caminhava à frente com uma lanterna. Atrás, sem dizer palavra, eu me encantava com as estrelas que pareciam diamantes espalhados sob o veludo negro da noite. Lado a lado, duas estrelas da cor de lápis-lazúli pareciam olhos a me observar. Juro, elas sorriam para mim. 

Imagem: Philcode – Dreamstime.com

Discussões — 18 Respostas

  • Ana Lúcia Tavares 20 de abril de 2020 on 21:45

    Gratidão.

  • Santana 20 de abril de 2020 on 11:05

    🌵🤛🏼

  • Angela Maria Tôrres 20 de abril de 2020 on 10:43

    Gratidão, gratidão e gratidão. Fiquei extasiada com esta narrativa.
    Ahooo

  • Edilamar 20 de abril de 2020 on 10:17

    Gratidão 🥰

  • Adelma Maria Milani 2 de abril de 2020 on 15:19

    Gratidão profunda e sem fim, sem fim…🙏🙏🤩🤩⭐❤️💜

  • Joane Faustino Araújo 12 de março de 2020 on 14:52

    Gratidão 🌹♥️✨

  • Jvm 5 de março de 2020 on 14:33

    Estou relendo os 40 dias da travessia no ritmo da quarenta, e me contentei em ver a referencia do texto.

  • Alcídia Batista 4 de março de 2020 on 19:23

    Nossa amei !!! “O jeito de pensar define a maneira de ser e viver”

  • Zilda Oliveira 4 de março de 2020 on 19:15

    “O jeito de pensar define a maneira de ser e de viver”. Cada reflexãoé uma luz que ilumina a alma…Gratidão!!

  • Silvana Ceccon 4 de março de 2020 on 15:58

    Yoskhaz! Suas histórias são sempre perfeitas para os momentos que passo. Fico encantada com a sincronia. Já li seus livros, atravessei desertos com vc como que numa gestação inteira diante de uma situação bem complicada da minha vida e as suas aventuras foram sempre luz para o meu mundo. Muita Gratidão por vc existir e presentar a todos com descobertas tão mágicas. Você é com certeza um ser humano iluminado. Muitas bênçãos pra vc! Abraços fortes.

  • Viviane Barbosa 4 de março de 2020 on 09:12

    Muita gratidão por esse texto, ele veio em um momento ímpar em minha jornada.

    Gratidão infinita por compartilhar tanta luz conosco.

  • Marcos André abreu de Santana 4 de março de 2020 on 03:53

    Muito profundo me ajudara muito daqui para frente obrigado pelo maravilhoso ensinamento Gratidão Gratidão Gratidão

  • R. Kaszas 3 de março de 2020 on 13:58

    Gratidão, luz, paz e amor

  • Tullio Tamburini 3 de março de 2020 on 09:16

    Como demorei tanto tempo para descobrir essa página muita gratidão

  • Jeane 3 de março de 2020 on 09:01

    Gratidão!!! Precisava de algo assim para iluminar meus pensamento…..

  • Walter Daniel Fernández 2 de março de 2020 on 23:33

    Gracias Yoskhaz

  • Terumi 2 de março de 2020 on 22:35

    Gratidão! 🙏

  • Fernando Cesar Machado 2 de março de 2020 on 13:24

    Gratidão,
    gratidão,
    gratidão.

    Gratidão profunda e sem fim,
    sem fim…