O retorno

Como de costume, o trem passaria de madrugada na pequena e acolhedora cidade situada no sopé da montanha que abriga o mosteiro. Eu voltava para casa após mais um período de estudos. A mente e o coração estavam alegres pelos grãos de conhecimento e afeto semeados naqueles dias e a oportunidade de fazê-los germinar no retorno à rotina. No interior da semente existem uma árvore, folhas, flor e frutos. Enxergá-los é como acender luz na escuridão. Fazer a semente completar o seu ciclo é a obra da vida. A mesma natureza que deseja o seu crescimento, fornecendo o sol para aquecer, a chuva para irrigar, os insetos para polinização, também envia o sol para queimar, a chuva para afogar e os insetos para devastar. A fonte da construção é a mesma da destruição. Esta foi a ponte de ideias que me levou a pensar em várias características da minha personalidade que eu gostaria de modificar. Algumas sombras eu já conseguia identificar com bastante clareza, outras ainda estavam tênues para mim. Ações que no passado eu acreditava importantes por serem de defesa contra as maldades do mundo, eram somente aspectos deturpados da minha personalidade e cada vez mais faziam menos sentido pelo mal que me causavam. Eu já entendia que não precisava das minhas sombras para me defender das intempéries do mundo; as virtudes cumprem maravilhosamente bem esse papel, com a vantagem de me manter na luz. Contudo, era indispensável seguir na missão de identificar as sombras, pois elas são incansáveis em seus truques e disfarces. Isto definiria os traços e as cores com que eu iria desenhar quem passaria a ser e escreveria a minha história dali por diante. Todos os dias são angulares pelas possibilidades de transformações que oferecem. Embora cada vez menos, eu ainda me ofendia com algumas opiniões, me decepcionava com as escolhas alheias que podiam, ainda que indiretamente, me atingir e sentia irritação quando algo dava errado. Quando não explodia pela sensação de injustiça, implodia ao me sentir vítima das circunstâncias. No entanto, de um modo ou outro, eu ficava incomodado comigo mesmo. Ultimamente, em razão de ter consciência que ainda usava as navalhas das sombras ao invés das asas da luz, eu sofria quando tropeçava. As navalhas impedem os voos porque cortam as asas. Então, mesmo conseguindo ver o céu, o sol e as estrelas, mesmo encantado com as maravilhas do voo, eu não conseguia me lançar ao vento.

O vento gelado cortava a pele do rosto, enquanto eu, sentado no banco da estação, vagava em meus pensamentos. Não havia mais ninguém. Até que vejo, na outra ponta da plataforma, um homem vindo em minha direção. Ele caminhava sem pressa, mas também sem medo. Ao mesmo tempo que a sua presença me trouxe desconforto, me causou alento. Esta dubiedade de sensações me atordoou por alguns instantes. Ele estava vestido de maneira muito simples, não usava roupas caras nem carregava nenhuma bagagem. O seu casaco, bastante puído pelo longo uso, e a velha calça jeans, surrada pelo tempo, eram desapropriados para a temperatura baixa daquela noite. Contudo, havia uma elegância singular em seus trajes humildes, passos firmes e olhar sereno que me atordoou. Ele me pareceu confortável ao frio e ao vento daquela noite, como se aqueles fatores não fossem capazes de abalar a sua paz. Acompanhei a aproximação até que ele parou à minha frente. Havia doçura em seu olhar. Uma delicadeza típica daqueles que são incapazes de fazer qualquer mal. O homem não disse palavra.

Sem jeito, me desloquei um pouco para o lado do banco, oferecendo um lugar para ele se acomodar ao meu lado. Ele agradeceu com um sorriso e se sentou. Ficamos em silêncio por alguns instantes até que comentei que estava quase na hora do trem chegar. O homem respondeu de modo enigmático, porém com simpatia e paciência: “Ainda há tempo”. Falei que não tinha entendido. Ele explicou: “De conversarmos para nos conhecer melhor”. Fez uma pausa e prosseguiu: “Somos desconhecidos, mas somos íntimos”.

Continuei sem compreender. A interrogação nas minhas feições deve tê-lo feito prosseguir: “Você já ouviu falar de mim, mas não me conhece”. Observei os traços da sua face com atenção. Não, eu nunca o tinha visto. Nem mesmo na televisão ou no cinema. Entretanto, não havia como negar algo de familiar nele. Pensei, então, que talvez ele estivesse me confundindo com alguém. O homem negou a ideia: “Sei quem você é”. Fez uma pausa e continuou me surpreendendo: “Sei também quem você ainda não é”.

Um louco vagando de madrugada pela estação? Não com aquela luz no olhar. Perguntei o que ele sabia de mim. A cidade onde eu morava, a profissão que exercia ou o nome da minha empresa. Falei que precisava de qualquer uma destas respostas para eu acreditar no que ele me falava. O homem arqueou os lábios em leve sorriso e disse: “Nenhuma dessas questões tem qualquer relevância. São aspectos meramente existenciais, portanto, transitórios”. Tornou a fazer uma pausa, arqueou as sobrancelhas e ponderou: “Sei das suas alegrias e tristezas; sei das lembranças que fazem o seu coração sorrir e daquelas que tenta varrer para debaixo do tapete na tentativa de não lidar com elas; sei das escolhas que você fez para chegar até aqui e também daquelas que o deixaram distantes de onde poderia estar; sei das lições que conseguiu aprender e das que ainda não é capaz de entender; sei dos fatos que foram determinantes na sua vida, pois levaram você a preciosas transformações; sei dos mestres que conseguiu encontrar escondido em cada problema e dos que você deixou escapar. Estas são as coisas que importam, pois fazem parte do seu caminho. Todo resto é mera paisagem”.

“Eu estou aqui hoje porque você também já consegue perceber todas essas coisas, ou quase todas. Do contrário, não poderíamos ter esta conversa pela ausência de um interlocutor adequado”.

Atônito com aquelas palavras, voltei a desconfiar que estava diante de um louco. Como se adivinhasse os meus pensamentos, o homem esclareceu: “Sei das suas alegrias. De quando conseguiu entrar na faculdade e do dia da formatura, ao abraçar cada uma das suas filhas, dos textos que escreve, dos livros publicados, de conversar com os seus amigos e com Deus, ao conseguir estampar um sorriso no rosto de alguém, da gratidão por cada conquista, dos dias inquietos em busca de uma solução diferente quando um problema se repete, de todas as vezes que precisou se reinventar para sobreviver e prosseguir, de quando precisou se desmanchar para encontrar a própria essência e, daí, renascer; caso contrário, não conseguiria. Sei que não tem medo da morte nem da vida, mas que teme as reações que ainda não consegue controlar, dos pensamentos que não consegue educar e, como consequência, das emoções que tem dificuldade para iluminar. Sei das vezes que se aborrece porque errou e da luta para não se sentir culpado, do esforço para aceitar as responsabilidades e de não abandonar os compromissos. Sei do seu amor e da sua consagração à Luz, das lutas que trava consigo para não deixar que a escuridão, seja do mundo, seja a sua mesma, apague a chama que um dia se acendeu dentro de você. Sei da leveza que o envolve quando consegue olhar alguém que se opôs ao se caminho, não como um inimigo, mas como um aliado por lhe despertar virtudes desconhecidas. Sei das horas que você procura forças dentro e fora de si para não implodir em tristeza e também para não explodir em irritação; sei quando as encontra e quando se perde de si mesmo. Sei da alegria cada vez que torna a se reencontrar”.

Era verdade, eu me sentia assim mesmo todos os dias, como em uma batalha sem fim. Contudo, ponderei, todas as pessoas também se sentem assim. O homem admitiu que eu tinha razão, mas fez uma ressalva: “Porém, nem todas se aceitamassim”. Pedi para ele explicar melhor: “É impossível aceitar a verdade que não estamos prontos para suportar. Negar ou desconhecer a verdade nos faz idealizar uma personalidade inexistente, com características e atributos que gostaríamos de possuir, mas que não estão presentes. Uma fase difícil por acreditarmos que os problemas estão no mundo, nunca em nós. É quando declaramos que não somos perfeitos, não como um desejo de transformação ou evolução, mas para justificar os erros mais grosseiros, tão grotescos que não temos nem mesmo como escondê-los do nosso ego, ainda imaturo, tamanhos são os equívocos. Em verdade, precisamos de um ego forte para avançar”. 

Espantei-me. Como assim? Precisamos de um ego fortepara avançar? Não seria o contrário? O homem fez um movimento com as mãos para que eu o deixasse continuar. Desolado, fiz um gesto para ele prosseguir. Ele explicou: “Um ego forte não significa uma personalidade orgulhosa, vaidosa, arrogante, dominadora ou narcisista; estas são características de um ego ignorante. Um ego forte é um ego maduro, já capaz de se olhar diante do espelho com coragem, sinceridade e amor para aceitar todas as suas sombras e mentiras. Até mesmo o orgulho, a vaidade, a arrogância, o desejo de poder sobre os outros e o olhar único sobre o próprio umbigo. Todavia, apesar das enormes dificuldades que o habitam, está disposto a trazer luz para todos esses cantos escuros do seu ser. Sou, mas não quero mais ser, diz com honestidade para si mesmo. Um ego forte traz consigo o entendimento, a aceitação e a vontade firme pela cura. Esta é a etapa inicial para que ocorra o encontro. Somente, então, poderá ficar frente a frente com a alma para dialogar. Então, se desmanchar diante dela e, depois de absorvido, renascer integrado a ela. O ego não morre para que a alma nasça; seria uma ideia absurda perder uma parte importante de si mesmo, mormente por compor a personalidade, as ferramentas individuais ligadas à construção da sua grande obra, a própria vida, características que o tornam único. Faz-se um na fusão de dois, o ego e a alma. Tem-se a individuação. O ser fragmentado se torna inteiro e pode iniciar o ciclo de acesso às plenitudes no viver”.

“Contudo, preste atenção para não deturpar as minhas palavras. Eu falei em iniciar um ciclo. Possuir uma personalidade madura ou um ego forte não significa já estar alinhado à alma, mas pronto para começar o processo que possui três fases distintas: entender, aceitar e transmutar. Eis a alquimia que transforma chumbo em ouro. O ego fraco ainda está perdido em lamentos, irritação, dramas e vitimização, entre tristezas e hostilidades, na procura pelos culpados para os seus sofrimentos, buscando pelo ouro da vida além de si mesmo. Não se aceita nem faz ideia de quem seja. Distante da luz não está pronto para retornar, encontrar e conversar com a alma. Nesta ordem”.

“Outro detalhe importante, as plenitudes, ou seja, a liberdade, a paz, a dignidade, o amor e a felicidade não devem aguardar para serem vividas nas Terras Altas, pois estão à disposição nesta existência. Trata-se de um direito. Saiba como conquistar e usufruir desses bens que nos pertencem”.  

Como assim, nos pertencem? O que tínhamos em comum? Eu estava atônito. Uma avalanche de pensamentos me invadia a mente; o coração pulsava com intensidade. O apito do trem que se aproximava da estação aumentou a minha aflição. A conversa seria interrompida e eu precisava entender algumas coisas que pareciam confusas. Tirei o meu bilhete do bolso e mostrei ao homem na esperança de que ele fosse se sentar próximo a mim. Em uma sucessão de espantos, ele me mostrou o seu bilhete: estávamos na mesma poltrona do mesmo vagão. Comentei que deveria haver um erro e que teríamos problemas com a duplicidade de bilhetes. Ele explicou: “Não existe erro nem haverá problemas”. 

O trem irrompeu na plataforma. O barulho impedia qualquer conversa. A ventania causada pelo deslocamento de ar na entrada do trem à plataforma arrancou o bilhete das minhas mãos e o fez voar em direção aos trilhos. Aflito, quando o trem parou, tentei recuperar o bilhete. Em vão. Não consegui encontrá-lo e seria insensato me aventurar para debaixo do vagão. Talvez desse tempo de comprar outra passagem, raciocinei. Quando me virei, o homem não estava sentado no banco de madeira da estação. Olhei para todos os lados e não o encontrei. Foi quando percebi o seu bilhete sobre o banco, como se houvesse deixado para mim. Esperei que ele aparecesse até o momento que a locomotiva apitou sinalizando que partiria. Aguardei até o último instante. Como não o vi, embarquei usando a sua passagem.

O trem partiu. Pela janela tentei vê-lo nem que fosse para agradecer por ter me permitido viajar no seu lugar. Ele não estava na estação. Passado alguns minutos, serenei a mente e o coração. Era melhor aproveitar para descansar um pouco. Recostei a cabeça na poltrona, fechei os olhos. Não demorou, ouvi a voz do homem: “Vamos continuar a nossa conversa?”. Olhei para lado, não o vi no vagão; todos os passageiros dormiam. Neste instante, tudo começou a fazer sentido. Lembrei que passara por situações parecidas antes, principalmente durante a travessia no deserto, mas aquela era diferente. Estava em uma camada mais profunda. Como se as anteriores tivessem me preparado para esta. Entendi quem era aquele homem; compreendi que, em verdade, eu viajava com o meu bilhete. Sorri em gratidão e respondi a ele sem usar nenhuma palavra: “A conversa será longa. O momento é perfeito porque todos os dias são bons”. Eu iniciava o retorno à origem.  

Imagem: Philcold – Dreamstime.com

Discussões — 16 Respostas

  • Anna 30 de abril de 2020 on 09:58

    Sempre um presente! Gratidão.

    Namastê! 🌷

  • Luis Paulo Munhoz 26 de abril de 2020 on 22:48

    Quero agradecer pelo texto e mais ainda pela reflexão que provocou.
    Gratidão por compartilhar.
    Muita luz.

  • Bruno 25 de abril de 2020 on 17:23

    Grato pela crônica inspiradora, misterioso Yoskhaz!

  • Santana 25 de abril de 2020 on 13:54

    🌵🙏🏽

  • Edilamar 25 de abril de 2020 on 10:47

    Sincronicidade, principalmente a parte da briga dual mental, sentei diante do computador me questionando o porque ainda não havia superado certas emoções, como se forças fora de mim mesma estivesse trabalhando para meu fracasso, estava derrotada, por não encontrar respostas, supliquei por elas, aí ouvi um plim no celular e seu email me trazendo a resposta, sou grata sempre.Bora lá para a viagem ao meu interior mas com um destino.🥰

  • Leandro Moller 22 de março de 2020 on 12:58

    Legal Yoskhaz.

    Também aguardo pelo livro contendo os textos!

    Forte abraço

  • FILIPE GUERREIRO 20 de março de 2020 on 10:04

    MUITO BOM, ME FAZ TER NOVAS CONVICÇÕES

  • Yoskhaz Useene 17 de março de 2020 on 04:18

    Claro, irmão!!! 🙂

  • Jefferson Braga 16 de março de 2020 on 21:57

    Gratidão Yoskhaz!!

  • Useene 16 de março de 2020 on 11:25

    Tanta LUZ!

    Gostaria de publicar em meu blog. Posso?

    Gratidão!

  • Caroline 13 de março de 2020 on 16:23

    Muita luz em minha vida com suas palavras , gratidão yoskhaz !!! 🙂

  • Joane Faustino Araújo 13 de março de 2020 on 06:50

    Gratidão 🌹♥️ ✨

  • Margareth 12 de março de 2020 on 15:23

    Gratidão, é o que consigo expressar!

  • JVM 11 de março de 2020 on 04:47

    Questiono as vezes a vontade que sinto de comentar, seria uma breve demostração do ego ou seria apenas uma forma de agradecer por tudo que proporciona, Yoskhaz, não sei, mas busco questionamentos sobre algumas ações que antes de conhecer seus textos passavam despercebidos. Por favor não demore lançar os livros!

  • Fernando Cesar Machado 11 de março de 2020 on 03:29

    Sem palavras Yoskhaz,
    apenas a mais profunda e sem fim Gratidão…

    Gratidão Irmão,
    gratidão…

  • Alcídia Batista 10 de março de 2020 on 13:56

    Nossa que viagem maravilhosa pra dentro de si mesmo!!!