O observador

O metrô me deixou na estação de um badalado bairro de uma metrópole muito conhecida. Eu estava de férias e me dirigia a um famoso museu para ver uma exposição sobre o Egito Antigo, uma civilização fascinante pelos avanços e mistérios que a encerra. Havia muitas pessoas sentadas na escadaria que leva a entrada do museu; algumas descansavam, outras esperavam por alguém. O frio típico do outono fazia com que todos estivessem agasalhados. Eu subia os degraus quando, para a minha surpresa, reconheci a Valentina, uma monja da OEMM, também poetisa e engenheira aeroespacial, protegida por um elegante cachecol grená e um chapéu de feltro cinza. Sentada, com um copo de café na mão, parecia entretida e encantada ao observar as pessoas que passavam. A alegria do encontro foi mútua. Sem demora, perguntei onde ela conseguira o café. Com o queixo, apontou para uma carrocinha na calçada. Fui até lá. O ambulante me recebeu com um sorriso e me entregou dois copos com café. Falei que havia pedido apenas um. Ele explicou: “O outro é para a Valentina. Ela está há muito tempo sentada ali. O café deve ter acabado ou esfriado”. Cobrou o meu e disse que o dela era uma cortesia. Retornei à escadaria do museu, entreguei-lhe o copo, sentei-me ao seu lado na escada e contei a monja o inusitado diálogo que tivera com o vendedor. Perguntei se o conhecia de algum lugar, pois a chamou pelo nome. Ela disse: “Conheci o Juan há meia-hora, quando fui comprar café e comentei sobre a medalha de Nossa Senhora de Guadalupe que ele traz no cordão. Então, começamos a conversar. Ele nasceu no México e tem uma história muito bonita”. Eu quis saber as razões dessa beleza. Valentina narrou uma série de dificuldades de sobrevivência que o Juan enfrentava. Eram empecilhos comuns a milhões de pessoas espalhadas pelo mundo. A minha amiga esclareceu: “Assim como muitos, ele é o herói da sua própria história. Atravessou a fronteira ainda adolescente. No início as dificuldades eram gigantescas. Atualmente estão mais brandas, embora ainda sejam enormes. Como se a vida quisesse testar a sua coragem, vontade e fé. Todos os dias enfrenta diferentes e severos obstáculos, mas supera cada um deles com alegria, sem sequer pensar em desistir. Mesmo assim, segue semeando sorrisos através da delicadeza com que trata a toda a gente”. Olhou para Juan com admiração e me convidou a uma observação: “Ao superar as dificuldades, ele vence a si mesmo. Desperta forças, descobres poderes e vai além do que um dia imaginou”. Era impossível não concordar com a beleza daquele olhar. 

Perguntei se ela já tinha visitado a exposição. “Ainda não”, respondeu. Falei para irmos juntos. A monja balançou a cabeça, sorriu e disse: “Daqui a pouco. Deixe-me observar mais um pouco. Há mais informação e conhecimento nas ruas do que em qualquer museu”. Lembrei que a exposição era sobre uma civilização sem paradigma por todas as inovações e avanços que proporcionaram. Tantos, que muito daquela cultura ainda não fora revelado. Valentina concordou, em parte: “Sem dúvida que há muito valor em uma exposição sobre o Egito Antigo. Não é inteligente negar a verdade. Mas a verdade tem sutilezas e aspectos distintos. Entendê-los é também inteligência”. Falei que não tinha compreendido. Ela explicou: “Sem negar o valor de uma rica exposição como essa, a coleção mostra fragmentos materiais de uma civilização, ou seja, aspectos isolados de uma cultura”. Fez uma breve pausa, como se buscasse as melhores palavras e continuou: “É como um corpo inerte, desprovido de alma. Como uma necropsia, serve como estudo e permite muitos entendimentos, mas a parte mais importante não está presente, impedindo uma compreensão mais ampla e profunda”. Com um movimento das mãos me mostrou o movimento das pessoas ao nosso redor e disparou: “Existe mais informação e conhecimento nas ruas de qualquer cidade do planeta que o conteúdo recolhido pelo mais bem aparelhado museu”.

Questionei se ela não considerava a importância dos museus na construção do conhecimento. Valentina sacudiu a cabeça: “Não falei isto. Tanto que estou aqui para apreciar essa maravilhosa coleção. Contudo, desperdiçamos as melhores fontes de conhecimento, as pessoas”. Argumentei sobre os avanços inexplicáveis daquela civilização sob o ponto de vista da matemática, da astronomia, da linguagem escrita, de várias invenções, os mistérios da construção das pirâmides, da esfinge e dos exilados de Capela. Valentina concordou comigo: “Sim, sem nenhuma dúvida, foi uma civilização fascinante que deixou sem resposta muitas das nossas indagações. Em alguns aspectos, pareciam possuir um conhecimento além do nosso, embora tenham se passado alguns milênios”. Olhou-me nos olhos e perguntou: “Você já se deu conta do universo que existe dentro de cada pessoa?”. Sem esperar por uma resposta, concluiu: “Observar um indivíduo me ensina muito mais do que apreciar uma múmia”. 

“O comportamento humano é a fonte mais preciosa de conhecimento que existe. A começar por si mesmo. Dentro de cada pessoa está a semente da evolução. Portanto, observar os outros me ensina muito sobre quem sou. Não para a prática nefasta de julgar, pois em verdade não temos direito nem capacidade para isto. Mas para se conhecer melhor, olhar como se diante de um espelho, entender a razão dos incômodos que o comportamento dos outros provocam, corrigir equívocos, superar dificuldades, amar mais e melhor. Os mesmos princípios e leis que regem o universo também se aplicam a qualquer indivíduo”.

“Olhe ao nosso redor!”, exclamou. Havia dezenas de pessoas espalhadas na escadaria do museu. Muitas sentadas, algumas entrando, outras saindo. Uma fila enorme para adquirir o ingresso, além de vendedores e pedestres na calçada. Virou-se para mim e quis saber: “Observe a paisagem ao redor como se fosse uma vitrine da exposição, o que mais chama a sua atenção?”. 

Muitas coisas me chamavam a atenção. Tantas, que eu me perdia e não me concentrava em nenhuma delas. Valentina insistiu: “Continue a observação, sem pressa”. Em seguida, não deixou que a preocupação furtasse o foco do seu pedido: “Ainda faltam muitas horas para o museu fechar. Pense com calma, temos muito tempo”. Depois de alguns minutos, arrisquei um comentário: “A maioria das pessoas está com fones nos ouvidos ou mexendo nos seus celulares”. A monja arqueou os lábios em leve sorriso e exclamou: “Exato!”. 

“Percebe que as pessoas estão vivendo mais o universo digital do que o mundo real?”. Sem esperar uma resposta, emendou outra pergunta: “Por qual razão fazem isso?”. E seguiu com o questionário: “Por que aquele universo se tornou mais interessante do que este mundo?”, disse apontando para o chão. 

Dei de ombros como quem diz o óbvio e ponderei: “A internet e a informática facilitaram muito a vida das pessoas. O acesso ao conhecimento e à informação ficaram muito mais velozes. Antes despendíamos uma tarde na biblioteca quando hoje, em alguns segundos, acessamos em quase qualquer lugar que estejamos o mesmo conteúdo na tela do celular. Pagamos conta, assistimos filmes, conversamos com pessoas, que por intermédio das redes sociais se tornaram mais próximas. Tornou-se também uma fonte interessante e barata de diversão”. Valentina tornou a concordar: “Sim, é verdade, são ferramentas maravilhosas de integração, entretenimento e desenvolvimento humano. Não resta nenhuma dúvida”. Fez um movimento circular com a mão para mostrar as pessoas à nossa volta e questionou: “Contudo, para não virar abuso, o uso de algo necessita de limites. O que as pessoas procuram com esse comportamento ao viverem imersas no universo digital ou, em verdade, o que querem evitar com ele?”. 

Como demorei a falar, ela mesmo respondeu: “As pessoas”. Tornou a fazer uma pausa para que concatenasse a ideia e prosseguiu: “As pessoas querem se evitar, umas as outras. Qualquer relacionamento possui um grau de complexidade muito maior do que as fases do mais dos sofisticados games. O mundo digital em seus jogos e filmes não geram mágoas nem desentendimentos, pois têm as suas regras bem definidas. Os relacionamentos, não. As relações são imponderáveis, pois as reações se tornam imprevisíveis em razão dos mistérios existentes nas profundezas dos universos pessoais. Contudo, apesar das impensáveis dificuldades, ali estão as maiores riquezas. Tanto de amor quanto de sabedoria. Nenhum game pode oferecer isto”.

Comentei que as pessoas têm se relacionado bastante através das redes sociais. Desta vez a Valentina discordou: “Embora haja impensadas possibilidades nessa maravilhosa ferramenta, como a de reencontrar velhos amigos ou de dar voz as pessoas que antes não tinham um canal de tamanho alcance para manifestarem as suas opiniões, o mau uso ainda gera abusos. Mas isto é normal e tende a encontrar os seus próprios ajustes com o tempo, mesmo que nunca cesse a prática do mau uso de uma coisa boa. Mas me refiro a outro aspecto das redes sociais. Elas facilitaram a criação das máscaras. Talvez não haja outro período na História que as pessoas tenham criado tantos personagens para elas próprias. Com isto, se distanciam de si mesmas; ao se afastarem da própria essência aumentam a dificuldade para se relacionarem com os outros. Desaprendem. Hoje temos personagens interagindo com personagens. E, pasmem, mesmo sendo personagens bons e virtuosos, conseguem se desentender”. Deu de ombros e prosseguiu: “A aparência não traduz a essência. Sem perceber, as pessoas estão cada vez mais longes do mundo, pois ao contrário do que possa parecer, quando se distanciam de si mesmas se afastam de toda gente. Por isto, apesar da intensa e fantástica possibilidade de interação, acesso a informação e ao conhecimento tenho a sensação de que estamos mais longes da verdade”.

“Se por um lado o universo digital é um incrível instrumento do bem-viver pelas inúmeras facilidades que proporciona; de outro, tem sido usado como um canal de fuga da realidade. Quando se foge da realidade não se consegue chegar a lugar nenhum”.

Sentados na escadaria do museu, terminamos o café sem pressa e sem mais palavra. Depois fomos à exposição. Uma oportunidade de ter contato com relíquias que nos remetem a uma civilização com uma cultura singular e muito diversa da nossa. Um jeito de pensar e ver, de ser e viver bem diferente do que praticamos hoje. Não era apenas informação, mas conhecimento. A diferença entre os dois é que a informação somente nos concede conteúdo; o conhecimento amplia e aprofunda a maneira de pensar e ver, podendo se tornar angular como instrumento para a transformação do ser e no viver. Este é um dos aspectos importantes pelos quais se torna valioso o contato e o respeito por outras sociedades. Cabe a cada pessoa o filtro, o molde e a forja na transformação da informação em conhecimento. A sabedoria consiste em aplicar o conhecimento para desatar o nó da existência.

Era quase noite quando saímos do museu. A Valentina aceitou de pronto o meu convite para jantarmos. Andamos alguns quarteirões e entramos em um pequeno restaurante, quase uma lanchonete, especializado em sanduíches artesanais e omeletes. Ocupamos a última mesa vaga. Televisores instalados em pontos estratégicos transmitiam um noticiário com legendas e sem som. As pessoas estavam atentas ao relato de um triste crime cometido naquela tarde. Alguns conversavam, mas como os olhares estavam para as telas das TVs, não era difícil entender que falavam sobre a tragédia do dia. Valentina questionou: “Qual o conteúdo dessa informação está qualificado para virar conhecimento?”. Em resposta, apenas dei de ombros como quem diz não saber.

Uma jovem e simpática garçonete se aproximou para anotar o nosso pedido. Valentina quis saber como ela se chamava. Diante da surpresa da moça, explicou: “Saber o nome de todas pessoas com quem convivo ajuda a suavizar a impessoalidade que predomina a maioria das relações. Tudo que é impessoal se torna áspero. Como pode você me servir o jantar sem ao menos eu saber como se chama?”. Após o susto inicial, a jovem disse se chamar Beth. A monja perguntou se a garçonete também estudava, pois aparentava não ter mais de vinte anos de idade. A moça sorriu e uma luz acendeu em seus olhos. Ela explicou: “Estudo teatro e canto. Trabalho para pagar os cursos. Sonho interpretar grandes musicais”. Valentina revelou que Shakespeare era o seu dramaturgo predileto. Beth contou que o escritor inglês também era o seu autor favorito. Falaram sobre algumas das suas obras até que a jovem comentou com uma indagação retórica: “Nunca entendi a razão pela qual não existe um musical baseado em O mercador de Veneza. Já imaginaram o alcance e a riqueza de um espetáculo desse quilate?”. Sim, seria fantástico. 

Como quase todos estavam entretidos na tragédia do noticiário, pudemos conversar por vários minutos sem qualquer interrupção até que ela foi solicitada por outra mesa. Antes de sair, Beth ajudou no nosso pedido fazendo algumas sugestões e depois agradeceu: “Obrigado por se interessarem por mim. Tem noites que as pessoas falam comigo como se tivessem usando um aplicativo no celular. Não olham nos meus olhos; acho que não conseguem”. Franziu as sobrancelhas e arrematou: “Tudo que é impessoal gera distância e cria muros”, e nos presenteou com um lindo sorriso.

O gesto de Valentina, de mostrar interesse pelo outro, sem qualquer intenção secundária, era de uma incrível simplicidade. Requereu apenas compaixão, nada mais. Compaixão foi a virtude e a arte utilizadas para conectar o sentimento de outra pessoa ao seu coração. Assim, não somente destruiu um muro, mas construiu uma ponte. De um coração até outro. A demonstração da importância do outro para mim é o elo perdido que revela a nossa essência e nos permite abraçar o mundo. Naquele dia, como um observador privilegiado, pude presenciar dois desses abraços. De um modo bem simples e de mansinho, sem pompas nem alarde, como é o amor em suas inúmeras maneiras de amar. 

A sós, Valentina apontou a TV e comentou: “A televisão é uma preciosa ferramenta de entretenimento e informação. Entretanto, o mundo dos noticiários é sombrio e desanimador. Embora os fatos não sejam mentirosos, tenho a sensação que filtram o bem para servir somente o que há de pior nas pessoas, como se retroalimentassem o mal. Como conversamos mais cedo, nem toda informação gera conhecimento. Quando segmentada, a informação causa um efeito contrário, pois deforma o conhecimento. Seria como tentar sustentar um prédio sobre alicerces podres ou mal construídos. Em algum momento irá desabar”.

Questionei se ela se referia as deformações existenciais, aquelas que geram sofrimentos horríveis pela malformação do pensar. Em simbiose com o sentir, dará margem a paixões devastadoras, deturpando o ser e cerceando o viver. Cresce a cultura da dor e do medo alimentando a nefasta ideia de que o mundo é mal e as pessoas ruins. Assim, germinam o afastamento, a indiferença e a desesperança. Valentina anuiu com um movimento de cabeça. A monja filosofou: “Existe a necessidade urgente de fortalecer uma cultura que já habita o mundo há milênios, um jeito de ser e viver baseado nos pilares do amor e da luz, sem a qual não se conquistará qualquer avanço nem se alcançará nenhuma cura”.

“A vida sempre terá o alcance do olhar do observador. Olhos deformados entendem a realidade por aspectos retorcidos e limitados. Reinará uma visão distorcida. Uma das Leis da Física ensina que para enxergar algo é preciso que haja luz; nada se vê na escuridão. Quando há pouca luz percebo apenas as sombras que se formam nas paredes das celas existenciais e acredito que representam a realidade. A sombra se forma porque me oponho, como uma barreira, à irradiação da luz. Quando eu sou a fonte luminosa, as sombras surgem quando os meus pensamentos e sentimentos criam estes obstáculos. Quando são enormes, nem mesmo as sombras consigo ver. Enxergar as sombras sinalizam o início da vitória da luz”. 

“A Ciência também nos mostra que, ao mudar o ângulo pelo qual compreendemos algo ou alguém, permitimos uma maior ou menor passagem à luz; o objeto observado se modifica. Assim ocorre com a realidade. O observador estabelece na amplitude e na profundidade do seu olhar a expansão ou a contração da verdade”. 

Naquele instante percebi que, apesar dos intensos estudos, estava perdendo um poder vital e inerente a todos os indivíduos: o de observador. Um aspecto muito importante do ser pela razão de alterar todo o meu viver. Quando abdico do poder de observador e o entrego aos noticiários, quase sempre segmentados, ou mesmo aos livros, quando os aceito como dogmas, guardo o meu olhar em uma gaveta e passo a utilizar olhos de aluguel. Passo a ter uma visão que não nasceu da minha consciência nem é fruto do desenvolvimento do conhecimento que possuo. Então, também entro em universo virtual. Literalmente. Como nos games, acredito que sou, acredito que supero fases, acredito que venço, acredito que vivo. Tudo começa ou termina em aceitar ou negar o poder do observador que há em mim.

A ilusão de um mundo para que as pessoas transitem por ele e sintam as sensações a que são conduzidas não é uma novidade dos softwares. Desde tempos imemoriais a manipulação do olhar através da filtragem da informação e da segmentação do conhecimento geram consciências distorcidas. Uma prática que arrastou multidões; as pessoas acreditavam que faziam as melhores escolhas. Eram como massas de modelar a mercê de mentes impulsionadas pelo medo e pelo sofrimento. A História está repleta de histórias de sociedades inteiras que praticaram males terríveis acreditando praticar o bem. O Coliseu, a Inquisição, o Reich, o Apartheid, entre mil outros exemplos, são práticas nefastas movimentadas pela cultura do ódio. Só sente ódio quem tem medo. 

Porém, apenas sou manipulado quando passo a ver a vida com olhos emprestados. O problema é que quase nunca percebemos a teia maquiavélica tecida por esse artesão sorrateiro, o medo. Ele nos furta a realidade para nos roubar as escolhas. Com isto, desperdiçamos a vida. É preciso resgatar os próprios olhos e, em seguida dissipar a névoa formada pela falta de uso desse fantástico poder. Trata-se de um exercício necessário. A clareza do olhar do observador é a semente da expansão da sua consciência. As virtudes habilitam o jardineiro.

Não existe dificuldade em perceber que o universo dos games é somente entretenimento. Contudo, todas as vezes que tomamos uma decisão baseada na construção de um conhecimento segmentado por informações selecionadas por algum propósito, mergulhamos em um universo virtual. A mentira, o engano e a ilusão também são poderosos mundos irreais. Ao perder o poder de observador, entrego o comando da minha vida a pessoas que nem conheço. Distancio-me da realidade e faço escolhas que imagino minhas, mas não são. A autonomia do olhar traz a independência do pensar; sem isto não existirá a verdadeira liberdade. Sem o livre-pensar não há como equilibrar as emoções e acabamos por entorpecê-las. Anestesiar os sentimentos é a rota de fuga para não lidar com os sofrimentos e com a falta de entendimento. Os que fogem não chegam à verdade. Deixo de ser quem sou e tudo aquilo que poderia ser e viver. 

Do contrário, ao intensificar as relações pessoais, tenho condições de gerar um conteúdo sem qualquer interferência ou manipulação. Observo e reflito. Depois, entendo quais das informações servirão para construir o meu conhecimento. Ao entender a riqueza que existe em cada pessoa, desperto o melhor que há em mim e amplio a realidade. Torno-me meu discípulo e mestre. A vida é um livro sem fim; no entanto, apenas os meus próprios olhos são capazes de decifrar as suas letras.

Quando penhoro os meus olhos a consciência me escapa e o amor se apaga. 

Foram minutos em silêncio, um tempo necessário para alocar aquelas ideias. A Beth nos serviu os sanduiches. Estavam deliciosos e expressamos a nossa satisfação à jovem garçonete. Foi quando ela nos contou que iria fazer um teste para um musical naquela noite, após encerrar no restaurante, e nos convidou para assistir. Falei que não poderia, pois iria buscar a Denise no aeroporto. “Estou com saudade da minha namorada”, confessei. Valentina falou que acompanharia a Beth. A moça se mostrou entusiasmada e disse olhando para a monja: “Que bom! Estou muito nervosa e a sua presença me acalma”. Sorriu e acrescentou: “O meu turno se encerra em quinze minutos. Terminem com calma. Vou trocar de roupa e encontro com vocês lá fora”. Enquanto comíamos, Valentina retirou uma caderneta que sempre levava na bolsa para anotar a inspiração que nunca marca hora para chegar. Ela escrevia, rabiscava e tornava a escrever, repetidamente, como se as palavras ditadas pela intuição e criatividade se atropelassem pela rapidez que surgiam. Vi uma folha em branco sendo riscada em grafite e se transformando em arte.  Ao final, ela me mostrou a poesia:

“I

Do nada se faz o Todo; 

As cores não estão no mundo;

 apenas refletem as tintas do olhar.

A escuridão persiste em todo canto

até que se acenda a luz que existe no olhar.

II

A aspereza do tato se desfaz

na delicadeza de um olhar.

O nó da vida se desmancha

na paciência de um olhar.

O aço da espada perde o corte

diante do amor de um olhar.

Qualquer lugar se ilumina

na alegria de um olhar.

Não há fantasia capaz de enganar

a simplicidade de um olhar

A censura mais rigorosa não suporta

a sinceridade de um olhar.

A arrogância se envergonha ao esbarrar

na humildade de um olhar.

A fogueira da intolerância não queima 

a pureza de um olhar.

Nenhuma dúvida sobrevive

à firmeza de um olhar.

Todos os conflitos cessam

na calma de um olhar.

III

Sou o meu olhar;

sem ele, restam espectro e poeira.”

Encantado, era a palavra que me definia e impedia que eu dissesse qualquer palavra. Tinha sido um dia de muitos aprendizados. Olhei no relógio, estava na minha hora; eu não queria me atrasar. Despedi-me. Antes de sair, perguntei se o poema tinha título. Valentina respondeu de pronto: “O observador”.

Imagem: David Tadevosian – Dreamstime.com

Discussões — 9 Respostas

  • Márcia Campos 28 de junho de 2020 on 07:37

    Que lição tão profunda e nobre 🙏💖

  • Maria do Carmo Duarte de Oliveira. 21 de abril de 2020 on 15:04

    Amei o texto. Lindo. Que nas nossas vidas sempre encontraremos Valentinas.

  • Michelle 8 de abril de 2020 on 08:57

    ❤️🌹

  • Vanessa Leticia 5 de abril de 2020 on 15:02

    Encantada uma vez mais Yoskhaz!! Identifiquei-me com o texto e com Valentina. Há alguns anos me defini, descobri como ‘observadora’ da vida. Muito pensantes por vezes deixamos de ser participativos presentes, mas uma vez conscientes vamos corrigindo. O poema final fez-me lembrar de uma pequena inspiração que escrevi ainda em 2012 ao ter meu primeiro smartphone. Dizia: ‘Quando me conectei dos teus olhos me afastei. Prefiro conectar teu olhar do que a tela do celular’ 🙂 Um abraço com gratidão da sua fã. Sou admiradora da sua obra, fonte de aprendizado e inspiração.

  • Terumi 26 de março de 2020 on 23:14

    Gratidão! 🙏

  • Joane Faustino Araújo 22 de março de 2020 on 06:45

    Sempre choro emocionada com os textos do nosso “amigo e irmão das estrelas” adorei essa expressão Fernando rsrs… Contudo sempre sinto que no instante que leio posso ser uma pessoa melhor e como me sinto lisonjeada por ler coisas tão belas está próxima de algo realmente verdadeiro… gratidão sem fim Yoskhaz✨❤️

  • Alcídia Batista 19 de março de 2020 on 20:13

    Que lindo: Você já se deu conta do universo que existe dentro de cada pessoa?”.

  • Viviane Barbosa 18 de março de 2020 on 23:24

    Lindo e muito atual.
    Gratidão infinita.

  • Fernando Cesar Machado 18 de março de 2020 on 05:07

    Gratidão imensa,
    profunda e sem fim Yoskhaz,
    sem fim…

    Que Valentinas se multipliquem em nosso planeta…
    Que assim seja…
    Assim será…

    Vida longa irmão das estrelas,
    e da luz.