Rótulos

Era festa de aniversário do meu primo, o Osvaldo. Ele comemoraria os seus sessenta anos de idade. O convite chegara com dois meses de antecedência para que não houvesse justificativas para ausências. Havia muito tempo que a família não se reunia. Costumo classificar as famílias em duas categorias, as cármicas e as cósmicas. Ambas se fazem necessárias em nossas existências para alavancar os processos evolutivos de todos os integrantes. Contudo, por vieses distintos. As cósmicas são compostas por pessoas que desde o berço demonstram profundo amor umas pelas outras, são muito unidas e se auxiliam em quaisquer situações. São famílias que se encontram amiúde para comemorar pelos os menores pretextos. Diferente são as cármicas, pois desde a mais terna infância parecem não se suportar, vivem em uma relação de amor e ódio que oscila de acordo com as horas. Quando se reúnem, não raro, renascem atritos, antigas mágoas vêm à tona e surgem motivos para novos ressentimentos. No entanto, esses conflitos, quando bem aproveitados, são as molas impulsionadoras para importantes transformações por evidenciar a necessidade de ampliar entendimentos e aperfeiçoar a arte de amar. Então, se mostram valiosas à evolução daqueles dispostos a utilizar as dificuldades como ferramentas transmutadoras do ser e no viver. Vivo em uma família cármica. Ao extremo.

Irmãos e primos, fomos criados juntos. Passávamos os finais de semana na casa de nosso avô, em São Cristóvão, um bairro operário do Rio de Janeiro. Era uma casa enorme, com um campinho de futebol e muitas árvores frutíferas espalhadas pelo quintal. Era uma alegria quando chegávamos no sábado de manhã. No domingo à tarde, quando íamos embora, muitos tinham sido os motivos para as desavenças. As brigas já faziam parte da rotina. Entre brincadeiras e sopapos, convivemos intensamente até o fim da adolescência. Por razões diversas, nos afastamos uns dos outros. Eu atribuía o distanciamento às circunstâncias da vida. Acreditava que as faculdades, estágios, empregos, casamentos, filhos, entre outras causas, justificavam os encontros cada vez mais raros. A convivência por anos em São Cristóvão não fornecera o amálgama necessário para nos manter unidos. É assim mesmo, eu mentia para mim.

Depois de tanto tempo, a festa do Osvaldo seria uma ótima oportunidade para nos vermos, reencontrarmos os sobrinhos, atualizarmos os acontecimentos e, passado alguns anos, mais maduros e experientes, poderíamos finalmente superar as diferenças que nos afastaram por boa parte da existência. Osvaldo era o primo mais velho. Desde garoto tinha uma personalidade dominadora e, face sua forte complexão física, sempre tentou impor as suas vontades sob os demais. Os outros, eu entre eles, eram teimosos. Estava pronta a receita perfeita para muita confusão. Entretanto, já não éramos mais meninos. Ao contrário, seguíamos em direção à reta final de uma existência. Comentei com a Denise ao desembarcar na ponte-aérea: “Acho que será divertido rever todos eles. Não acredito que haja qualquer rusga. Já ultrapassamos essa fase. Será uma excelente oportunidade para iniciarmos um novo ciclo em nosso relacionamento familiar”, afiancei com segurança. Ledo engano. 

A minha paixão por São Paulo nunca foi segredo. Passei a ir em finais de semana alternados depois que começamos a namorar. A cidade se tornou ainda mais interessante pelo fato de a Denise conhecer lugares bem legais. Depois de deixar as malas no apartamento dela, fomos a uma exposição no MASP. Em seguida, ela me conduziu por um emaranhado de ruas na parte mais antiga de São Paulo, até chegarmos a uma agradável cafeteria que ao final da tarde passava a servir deliciosas taças de vinho. Por força do hábito, iniciei com uma xícara grande de café antes de provar os tintos. Conversávamos descontraidamente, quando para a nossa surpresa vimos o Osvaldo e a esposa entrando. Acenamos para eles. Depois dos abraços e cumprimentos, os acomodamos em nossa mesa. A conversa transcorreu de modo bem agradável. Soube que o meu primo galgara diversos degraus dentro da empresa que trabalhara desde que saíra da faculdade e conquistara o cobiçado cargo de vice-presidente, motivo que o animou a realizar a festa de aniversário, pois serviria para uma dupla comemoração. Felicitei-o com entusiasmo sincero. Alegrava-me vê-lo alcançando um objetivo almejado desde jovem. Ele me corrigiu quando mencionei isto: “Estou quase lá. Na verdade, o meu intento é a presidência”. Antes que eu pudesse falar palavra, ele acrescentou: “Recordo-me que tínhamos os mesmos sonhos quando garotos, mas ao contrário de você, não sonho mais. Eu tenho metas; o mundo não é para nefelibatas como você, mas para que tem sangue nos olhos, é para os fortes”. Um enorme mal-estar se instalou imediatamente, como se uma nuvem densa se formasse sobre as nossas cabeças. Um gosto amargo me subiu à boca vindo do coração. Mil ideias me vieram à mente em fração de segundo. 

Sangue nos olhos? Uma expressão que pode variar de interpretação de acordo com quem a usa ou a escuta. A mim, passa a ideia que a vida é uma guerra onde o ódio e a vingança são importantes armas para a vitória. Sinceramente, não acredito que emoções com essa densidade possam conduzir a quaisquer conquistas luminosas, como conteúdo na bagagem às Terras Altas. Portanto, a expressão não me agrada por não a considerar verdadeira.

Nefelibata? Havia décadas que não eu ouvia aquele termo, quase em desuso e bastante usado pelo nosso avô quando se referia a alguém que vive distante da realidade. No entanto, a questão não é o que ele pensava de mim ou como me compreendia. Nunca será. O ato de rotular é um gesto de coação disfarçada. Ao rotular uma pessoa, algo bem mais comum no nosso cotidiano do que nos damos conta, em verdade, é uma prática na qual o observador demonstra a sua incapacidade de entender com maior amplitude e profundidade o objeto. 

Rotulamos para diminuir. Desta forma, conseguimos encaixar os outros dentro das fronteiras ainda estreitas da nossa consciência. É um jeito de disfarçar as próprias limitações. A mera ideia de limitar alguém na compreensão que temos de realidade é uma tentativa de aprisioná-lo em nossa gaiola mental. Uma estratégia ligada ao orgulho e a vaidade. O desconforto de lidar com alguém que pensa e vive fora dos padrões socioculturais sempre encantará almas livres e assustará egos imaturos.

Embora a intenção seja diminuir o outro, quem se apequena é o observador por demonstrar a sua incapacidade de entender o observado. Quando o rótulo traz farpas de ironia, sarcasmo ou ofensa mais evidente, mostra o desequilíbrio diante do novo, diferente e inimaginável. Ou, pior, da revolta frente ao desejável, como manifestação sombria de despeito, ciúme, inveja ou sombras afins. Também se revela um ato de crítica precipitada e inconsequente. Casos em que o observador não entende a razão da beleza e da liberdade alheia, revelam conflitos internos mal resolvidos ou não admitidos. É a manifestação de um sofrimento que ele desconhece; negar aos outros e a si mesmo as infinitas possibilidades que a vida apresenta através das singularidades pessoais estreitam a realidade e, por consequência, furtam as cores do mundo.

Rotular é desrespeitar. Quando desrespeitamos alguém, em essência, estamos faltando com respeito a nós mesmos por nos afastarmos de princípios virtuosos. Afastamo-nos da luz.

Fomos condicionados a colocar o oceano dentro da garrafapara que possamos lidar com aquilo que escapa à nossa esfera de compreensão. Contudo, não se define o oceano pela pequena quantidade de água aprisionada dentro de um vasilhame.

O perigo maior é quando o observado acredita no rótulo imposto pelo observador. Então, ele permite que a sua realidade seja encolhida. É como se entregasse as asas para serem cortadas por alguém que não tem direito nem competência para isto. 

E o que dizer sobre metas e sonhos? O ego estabelece metas; a alma se movimenta através dos sonhos. As metas envelhecem, os sonhos jamais. As metas são de concreto e, por isto, se desmancham. Os sonhos não têm matéria; portanto, imortais. Ao contrário do que se acredita, as metas são oníricas face sua transitoriedade; os sonhos são reais pelo fato de serem eternos.

Amo as palavras, pois são cápsulas de ideias e, por isto, poderosas ferramentas evolutivas. Porém, naquele momento poderiam parecer apenas exercícios de interpretação e semântica. Para mim sempre se apresentam como importantes decodificadoras e ordenadoras do meu universo pessoal.

Eu poderia ter dito que os meus sonhos continuavam enormes e, sim, eram bem diferentes das metas almejadas por ele. Pensei em explicar que os meus objetivos de vida se modificaram à medida que eu me transformei como pessoa. No entanto, tive a sincera sensação de que ele não compreenderia se eu falasse que não era mais aquele menino, mas mesmo assim aquele menino estava vivo em mim. Muita coisa mudara para que eu pudesse prosseguir. A Lei das Infinitas Transmutações, sem a qual não se alcança outras realidades é a guardiã que dita o compasso de todos os passos no Caminho. Por intermédio das transmutações se mede o tempo no infinito.

O sonho de garoto de conquistar o mundo desaparecera em função do sonho de conquistar a mim mesmo. Agora, era um sonho ainda maior: dia após dia, avançar universo adentro para cada vez mais me encantar com as maravilhas mundo afora. O sonho mudara à medida que a realidade da lagarta se alterou; ela precisou sair do casulo para não perecer. Novos voos, diferentes sonhos. O tesouro está onde não existe ouro nenhum. Somente isto é real.

Impossível não lembrar de Li Tzu, o mestre taoísta, citando a parte final do Poema Um do Tao Te Ching:

“…

Eis o mistério oculto dentro do mistério.

O portal para encontrar todas as maravilhas.”

Lembrei das brigas de menino. Ele autoritário e agressivo; eu, confesso, também não era fácil, pois tinha um comportamento atrevido e desafiador. Mas custei acreditar que desavenças tão antigas ainda tivessem raízes. Quase quarenta anos não tinham sido suficientes para desmanchar velhos ressentimentos. As gavetas seladas do inconsciente sempre surpreendem com tamanha força e poder. Não tive o ímpeto de reagir no mesmo diapasão como teria feito, e fiz, muitas vezes, explodindo em descontrole emocional e fúria verbal. Não senti nenhuma vontade de escalar qualquer tom de agressividade. Se de um lado fiquei satisfeito comigo por não ter entrado no jogo violento das acusações, apontando defeitos e vícios, com a nefasta arenga do tipo você é pior do que eu, mostrando um ciclo superado e encerrado na minha existência; de outro, por perceber a inutilidade, não senti vontade de expor a minha verdade.

Por todos os motivos, preferi o silêncio como resposta. 

A Denise apertou a minha mão por debaixo da mesa e na intimidade do olhar aprovou a minha reação. Por melhor que fosse qualquer outra resposta, nenhum argumento seria suficiente para explicar as minhas razões para o meu primo; ao menos naquele momento. Pior, acirraria os ânimos. Não por sensatez, mas por orgulho, ele preferiu interpretar o meu silêncio como se tivesse me levado à nocaute em um combate que existia apenas na sua imaginação; ressonâncias de brigas infantis ainda ecoavam, embora tivessem se passado várias décadas. Com uma postura típica de quem se consagra vencedor em uma guerra inexistente, com evidente tom de desprezo na voz, Osvaldo disse: “Tenho muitos compromissos, não posso ficar mais”, fez uma breve pausa antes de concluir: “Aguardo vocês na festa”. Após saírem, Denise comentou: “Somente os tolos se consideram vencedores quando nada que seja verdadeiramente luminoso conquistaram”. 

Contudo, uma enorme escuridão em forma de tristeza me invadiu.

Diante do mal-estar, sugeri que pedíssemos mais duas taças de vinho. Denise me alertou: “O álcool não irá ajudar, apenas anestesiará a consciência, encolhendo as percepções. Quando o efeito passar a escuridão estará maior”. Pediu ao garçom mais duas xícaras grande de café e disse: “Vamos conversar. Você não pode deixar que a escuridão do mundo apague a sua luz. Boas ideias e bons sentimentos são fundamentais neste instante para intensificar a sua chama”. Sim, ela estava certa. Sorri e murmurei como se falasse comigo: “Eu me consagrei na luz. Eu sou a luz do mundo”. Foi a vez dela me oferecer um sorriso que nunca irei esquecer.

Expliquei como eu entendia a situação e explicava a atitude do Osvaldo. Na minha mente tudo estava equacionado e eu desmontara a armadilha do rótulo com facilidade, como já havia feito em outras ocasiões, sem me deixar atingir. No entanto, naquele momento eu me sentia mal e não entendia o motivo. Denise me instigou a ir além de mim: “Se você tem o conhecimento e a compreensão, não deveria se sentir assim. Algo está errado”.

Eu não sabia responder. Esperei o garçom servir o café e bebericamos em silêncio. Com uma paciência exemplar, Denise aguardou sem dizer palavra. A minha mente raciocinava simultaneamente com os seus vários compartimentos ativados, analisando fatos e ideias em incrível velocidade. Assim somos todos. Eu os alocava, um a um, como peças de um enorme mosaico que desenhavam a minha relação com o Osvaldo desde a infância e como eu a interpretava. Até que afirmei: “A imagem está pronta, o raciocínio me parece claro e a construção da lógica se mostra nítida para mim”. Fiz um gesto com as mãos e disse: “Entretanto, confesso, não sei o que falta para deixar de me sentir triste”. Denise não retrucou.  

No dia seguinte, durante o café da manhã, fui novamente provocado por ela: “E aí, conseguiu avançar?”. Sacudi a cabeça em negativa. Denise brincou e me ofereceu a pista derradeira: “O seu enigma é o mesmo do meu e também do restante da humanidade. Embora saibamos a resposta de cor, raras são as vezes que conseguimos a sua aplicação. Por isto, a dificuldade de avançarmos”. Eu franzi as sobrancelhas, sem acreditar na ideia que me ocorrera, e questionei: “Você se refere ao amor?”. Ela sorriu.

Esvaziei a xícara de café sem pressa e em silêncio enquanto concatenava a ideia da ausência de amor à tristeza que eu sentia, mesmo com a clara percepção e a firme disposição quanto ao meu jeito de ser e viver. Ponderei com a Denise: “Acredito que o meu raciocínio está correto, no entanto, ele não é suficiente para me restabelecer a alegria. Se você estiver certa e o amor for a peça que falta para a engrenagem funcionar, me conduzindo ao estado fundamental de harmonia, devo concluir que, apesar da razão clara, sou pobre em amor. Pior, enquanto esta miséria existencial perdurar o meu sofrimento não terá fim”.

Foi a vez de ela argumentar: “Sim e não. Explico. Você está certo ao afirmar que os atos de degradação da humanidade passam pela escassez de amor, assim como os níveis de sofrimento se alteram na proporção direta do amor aplicado. O amor é indispensável à fórmula de qualquer elixir de cura”. Mordiscou um pedaço de queijo e prosseguiu: “Quanto a se sentir pobre em amor, você está certo e errado ao mesmo tempo. Somos miseráveis em amor quando nos negamos a usá-lo como peça angular para todas as situações da vida. Contudo, somos ricos em amor por termos todo o amor do mundo dentro da gente, ainda que em semente”.

Piscou um dos olhos e brincou: “Temos uma enorme riqueza dentro do armário de casa, mas insistimos em ignorar e viver como miseráveis”.

Em seguida, prosseguiu: “Até o mais bruto dos indivíduos gostaria de amar ampla e profundamente, mas ele não acredita que consiga. Assim como adoraria ser amado por alguém que o admirasse, que conseguisse ver o diamante que está escondido dentro dele. Mas não acredita que essa pessoa exista”. 

“A agressividade de uma pessoa nasce na incompreensão e consequente negação de si mesmo. Todos que sentem medo se sentem menosprezados. Culpam o mundo, mas esquecem que abriram mão da sabedoria e, principalmente, do amor como método na resolução dos problemas. Ainda que o ego se esforce para ignorar, a alma sabe disso. Em conflito, ego e alma geram sofrimentos incessantes que explodem em violência de diferentes níveis”.

Ela bebeu um gole de suco de laranja e disse: “As pessoas precisam entender que nelas habita todo o amor do mundo. Caso contrário, o amor não germinará por falta de impulso e movimento. A existência será árida e sem sabor. Muita euforia, pouca alegria”.

“Indivíduos agressivos têm enorme dificuldade em acreditar no melhor que há dentro deles. Desacreditam na capacidade geradora de amor que possuem. Sentem-se frágeis por lhes faltarem a essência e o essencial. Para esconder a fraqueza que os incomoda, se esconderem por trás das máscaras do orgulho e da vaidade para fantasiar a realidade de quem são. A arrogância se torna um escudo para afastar os indesejáveis que, de alguma maneira, possam acender a luz e mostrar ao mundo que o rei está nu.  Ficam irritados diante da possibilidade de alguém revelar, até para eles mesmos, a felicidade que não sentem”.

Franziu as sobrancelhas, respirou fundo, buscou pelo meu olhar e disparou em minha direção: “Ou implodem em melancolia diante do intricado enigma: como me deixo atingir pelas palavras do mundo mesmo sabendo que elas refletem a incompreensão que os ofensores têm de si próprios e os seus consequentes desequilíbrios?”. Bebericou mais um gole do suco antes de concluir: “Desvendar esse enigma é fundamental quando não se consegue alcançar a paz”.

Abri os braços como quem acredita falar o óbvio e disse: “Exatamente por ser o alvo das provocações, ora. Será que não há motivo suficiente para eu me sentir triste?”.  Ela respondeu com outra pergunta: “Você acredita mesmo no que acabou de argumentar?”.

Claro que eu não acreditava. Não raro, perguntas são as respostas perfeitas quando têm o condão de devolver o raciocínio fugitivo ou inacabado a um pensador sincero em busca da verdade. Se os mestres se ocultam por trás dos problemas é por causa das infinitas perguntas que as dificuldades provocam. Ao me devolver a questão, a Denise me entregou aquilo que me cabia entender para desmanchar a minha dor.

Como ela tinha de levar a mãe para realizar alguns exames clínicos, me restava uma manhã e uma tarde para pensar. Parti para uma cafeteria, não muito distante, que eu adorava ir em São Paulo. Devidamente acomodado em uma poltrona no fundo da loja, que se abria para um agradável terraço interno adornado com muitas plantas, pedi duas xícaras grandes de café, deixando acertado que a segunda viria logo após o término da primeira. O barista me sugeriu provar um café cujos grãos eram originários de Pernambuco. Declinei da sugestão, pois eu sempre ouvira elogios aos cafés do Sudeste do país. O barista me propôs uma prova às cegas. Eu provaria o café de ambas as regiões sem saber qual era qual; depois diria o meu predileto. Aceitei o desafio e, para minha surpresa, acabei por preferir o de Pernambuco. Rimos e conversamos um pouco, ao final, ele me disse: “Os rótulos aprisionam as melhores escolhas e impedem novos caminhos”.

Não, o acaso não existe. Possuo a convicção que os anjos se utilizam de estranhos lábios como remetentes dos seus recados. Tive a nítida sensação que, embora ele falasse de café, era sobre mim e minhas questões pessoais que ele se referia. Era mais uma pista para que eu pudesse decifrar o enigma que me atrelava a conversa do dia anterior e impedia a minha alegria. Eu tinha uma leitura clara de todo o processo mental; conseguia perceber a armadilha do rótulo imposto pelo meu primo para me acuar e me estreitar na tentativa de ele se sentir melhor e maior. Eu a desarmara com facilidade. Contudo, o que me levava à melancolia naquele ato? Eu desconstruíra o problema, mas os entulhos da demolição ainda estavam espalhados dentro de mim. 

Pensei, pensei e pensei sem chegar a lugar nenhum. Até que comecei a me distrair com diversos quadros com frases bem-humoradas espalhados pelas paredes da cafeteria. Fui passando os olhos por todas elas até que uma me chamou a atenção: Três são as feridas narcísicas da humanidade. Quando Copérnico declarou que não éramos o centro do universo; Darwin disse que mais à frente sempre encontraremos pessoas melhores que nós; e, finalmente, Freud revelou que ninguém é quem pensa ser.

Uma porta se abriu.

Sim, o problema não eram os rótulos que os outros tentavam me impor, pois eu conhecia esta surrada artimanha e a desfazia com facilidade. Isto já tinha acontecido outras vezes sem que me trouxesse qualquer tristeza. Qual era a diferença desta para outras ocasiões? A resposta era bem simples, portanto, bastante profunda. Sem perceber o Osvaldo havia me colocado de frente com um rótulo esquecido. Uma definição tinha sido colada em mim havia muito tempo. Claro, com a minha permissão. Todas as pessoas trazem alguns rótulos dentro delas, alguns iludem e atrasam a caminhada. Outros nos fazem sofrer. De tão antigos, se tornam traiçoeiros por nos acostumar ao desconforto que provocam. Disfarçamos, mentimos, negamos, reprimimos até o dia que percebemos que ele nos impede de avançar rumo às plenitudes. Toda dor é uma prisão.

No dia anterior, quando o Osvaldo me rotulou como nefelibata, falou de metas e sangue nos olhos, disse também que o mundo era para os fortes. Este era ponto onde estava enterrado o tesouro. Embora tivesse um temperamento abusado e desafiador, eu havia sido um menino franzino, doentio e com graves crises de asma, ingredientes que misturados no caldeirão da infância me fizeram tomar muitas surras dos garotos maiores. Na adolescência, conflitos dentro de casa me fizeram sentir desamparado e sem rumo. Desorientado e frágil, cheguei à idade adulta me sentindo incapaz de realizar muitas coisas. Fiz muitas escolhas equivocadas por não acreditar que eu teria força para suportar o esforço das decisões corretas. Contudo, o meu espírito desafiador, o mesmo que me fez arrumar muita confusão, foi quem me levou a enfrentar as dificuldades que surgiram. Até que em determinado momento, por não suportar mais escuridão, tive o firme propósito de buscar a luz. Apesar de muitas dores, fracassos e lágrimas, algum tempo depois, aprendi a usá-los como ferramentas evolutivas. Não, nada do que se vive se perde por completo. Quanto ao rótulo de fraco, eu não me preocupara em cuidar e modificar. Esqueci dele, mas ele não esqueceu de mim. A dor se apresentou quando ouviu o seu nome.

Sou um, mas sou muitos. Todos somos assim. Se você consegue ponderar consigo os vários argumentos que surgem em sua mente antes realizar uma escolha, entenderá o que digo. Grosso modo, sou as minhas memórias, conhecimentos, princípios, valores, percepções, intuições, instintos, sentimentos, condicionamentos socioculturais, influências ancestrais, traumas, medos, desejos, ética e virtudes que apresentam as suas razões e vontades a todo instante. Um diálogo incessante. Todos habitam em mim. Alguns me são íntimos, outros ainda desconheço, mas nem por isto não se manifestam. Apenas não percebo a influência. Essa aldeia se chama consciência. O desentendimento entre os seus habitantes gera conflitos. Harmonizar todos eles sob o eixo da Luz me torna inteiro e pleno.

Deixa de bobagem, não vamos conseguir, gritou uma voz me aconselhando a desistir. Por que não vamos conseguir?Retrucou outra. Antes que virasse discussão, alguém as acalmou para ouvir as palavras serenas e firmes da alma, o ancião da mente: A mente avançou, mas o coração não acompanhou o ritmo. Este descompasso era a causa da melancolia. Não bastava entender, era preciso amar.

Os valores impostos pelo mundo somados as experiências desastrosas formam uma casca espessa que teima em não deixar a semente germinar. Sem amor por mim eu não iria a lugar nenhum; eu nada seria. Ainda que ocorrida na mente, a transformação somente se completa quando se instala no coração.

Tornei a lembrar de Li Tzu e das memoráveis aulas sobre o Tao Te Ching na pequena vila chinesa. Pude perceber que o Poema Trinta e Três, até aquele momento, tinha sido alicerçado apenas na mente:

“É inteligência conhecer os outros,

É iluminação conhecer-se a si mesmo.

Vencer os outros é força,

Vencer-se a si próprio é poder.

…”

Naquele instante o entendimento da milenar sabedoria oriental firmara os seus pilares no meu coração. Os dois primeiros versos falavam da sabedoria; o par seguinte se referia ao amor. Isolada, nenhuma sabedoria teria força para arrancar o antigo rótulo que na esquina de um dia qualquer eu acreditei me definir. Somente aliada ao amor a sabedoria teria tamanho poder.

Sem me entender não consigo compreender ninguém; sem me abraçar jamais conseguirei aconchegar o mundo em mim. Não haverá paz.

Tudo que nos incomoda representa algo que esquecemos de cuidar.

Para mim, havia alguns anos, a força nascia no exercício das virtudes como a humildade, a simplicidade, a delicadeza, a sinceridade, a pureza, a fé, entre muitas outras. Sei daqueles que dizem que o orgulho, a vaidade, o ciúme e até mesmo o ódio são importantes temperos da existência e instrumentos úteis às conquistas. Os meus conceitos de força e poder eram bem diferentes daqueles cultuados pelo meu primo. Ambos temos o direito de pensar a vida como a entendemos. Se eu compreendia tudo isso, por que a melancolia?

Porque faltava amor em um dos seus formatos mais bonitos e sagrados, a compaixão. A virtude essencial que permite aconchegar outra pessoa em nosso coração para compreendermos o nó da sua existência. Contudo, chegara a hora de ter essa mesma compaixão com o menino que escreveu uma parte importante da minha história.

Eu nunca abraçara o menino que fui, e que sempre estará dentro de mim, para lhe dizer que apesar das decepções, dificuldades, sofrimentos e lágrimas, ao contrário do rótulo imposto, ele foi um garoto muito forte, pois, dentro das suas possibilidades conseguiu me conduzir até aqui. Sim, ao nosso jeito, tínhamos caminhado e, mais importante, tínhamos firmado compromisso com a Luz. Isto era um marco existencial. A viagem estava somente no início, mas ele era um passageiro inevitável em mim mesmo. Juntos, em um dia distante, brindaríamos nas Terras Altas. Em essência, éramos um, como a flor que antecede ao fruto de uma mesma árvore.  

Amar é uma escolha; basta vontade para abrir a porta do próprio coração. O amor é movimento que se inicia de dentro para fora. Tudo mais é consequência.

Só me dei conta quando o barista veio à minha mesa, preocupado e gentil, trazendo uma xícara de chocolate quente. Eu chorava. Mais um habitante tinha sido resgatado em uma viela escura da aldeia para viver alinhado à Luz. Falei para o barista não se preocupar: “Pode não parecer, mas estou ótimo” e sorri com honestidade.

Uma estranha e agradável sensação de leveza me envolveu. Eu estava muito longe de ter todo o amor do mundo. Nem mesmo uma pequena parte. Era somente o início de um ciclo no qual a percepção da evolução do amor em mim seria determinante para as diferentes transformações que estavam por vir. Eu tinha muito que aprender sobre essa poderosa energia cósmica. Afinal, todos somos antenas receptoras e fontes transmissoras.

A consciência percebe e decodifica o mal, mas apenas as virtudes conseguem nos afastar das faixas vibratórias nebulosas.

Entender que eu tinha esquecido de me amar como deveria me permitiu refazer uma rota para descolar um rótulo que, além de atrapalhar, não me era justo. Pode não parecer muito, e talvez não seja, mas era o passo primordial para uma nova e desconhecida jornada.

Voltei a pé para o apartamento da Denise, um trajeto por onde eu já passara inúmeras vezes. Contudo, naquela tarde, a paisagem me pareceu mais bonita nos seus múltiplos detalhes. Teria mudado a cidade? Eu sabia que não. 

Mas o dia ainda não havia terminado. Tinha a festa do meu primo à noite.

Imagem: Louise Roach – Dreamstime.com

Discussões — 13 Respostas

  • renata 25 de maio de 2020 on 09:27

    queria um dia tomar esse cafe que aparece em todos os contos, escutar pessoalmente os ensinamentos, e agradecer de coracao. vc eh luz. obrigada

  • Thalita Analyane 24 de maio de 2020 on 20:36

    Sábias palavras. Admiro seus contos!

  • Santana 23 de maio de 2020 on 23:48

    🙏🏽🌵

  • Michele 23 de maio de 2020 on 17:36

    Sábias palavras, meu irmão. Gratidão 🙏

  • Leandro Moller 19 de abril de 2020 on 13:41

    😁😁

  • Terumi 16 de abril de 2020 on 23:31

    Gratidão! 🙏

  • Jeane 16 de abril de 2020 on 08:46

    Gratidão!!!

  • Alcídia Batista 15 de abril de 2020 on 17:32

    “Rotulamos para diminuir. Desta forma, conseguimos encaixar os outros dentro das fronteiras ainda estreitas da nossa consciência. É um jeito de disfarçar as próprias limitações.”
    Nossa amei… e não resisti… tive que copiar esse trecho acima!!!

  • SCHWEITZER 15 de abril de 2020 on 01:59

    Não, como que vc termina nessa parte, eu quero ver a festa. Nossa amei o conto, estou contando os segundos para a segunda parte. genial.

  • Moara 14 de abril de 2020 on 23:43

    Gratidão eterna

  • Magnum 14 de abril de 2020 on 21:03

    Incrivel como esse texto parece ter sido escrito para mim. Obrigado pelas palavras libertadoras. Gratidão sempre.

  • Fernando Cesar Machado 14 de abril de 2020 on 14:46

    Gratidão profunda e sem fim Yoskhaz, sem fim…

  • Adélia Maria Milani 13 de abril de 2020 on 23:33

    Gratidão!! !How!