A pergunta

O táxi nos deixou, a Denise e eu, na porta da casa do meu primo, o Osvaldo, em um bairro nobre de São Paulo. Fomos recebidos pela sua esposa de maneira gentil e educada. Parecia uma festa de cinema, organizada em seus mínimos detalhes. As pessoas circulavam pela ampla sala de estar, varandas, jardins e em torno da piscina. Em meio a muitos convidados, aos poucos fui encontrando vários parentes, alguns eu não via havia anos. Aproveitei para apresentar a Denise, que eles não conheciam. Eu estava me sentindo leve e sereno pelas descobertas que fizera naquela tarde, conforme relatei em Rótulos. Melhor ainda me senti pelos sorrisos e abraços que ganhei de primos que tinham dividido a infância e parte da adolescência comigo. Sem demora, estávamos em uma pequena roda relembrando fatos vividos na casa dos nossos avós. Até as frequentes confusões eram motivos para boas risadas. Uma prova que havíamos superado as diferenças e avançado. O império do perdão é um ótimo lugar para se viver.

Enquanto os garçons passavam em um vai e vem de iguarias e bebidas, atualizávamos a vida. Eu ouvia a todos com interesse. Ao mesmo tempo, pensava em como o destino de cada um, o meu inclusive, tomara rotas impensáveis. Tudo seguira por direções bem diferentes das planejadas por cada um naquela época. No entanto, os destinos me pareciam perfeitos, não se você olhasse por um viés mundano de conquistas materiais, mas se ousasse a olhar por uma ótica de aprendizado e evolução. Dificuldades de diversos matizes, como decepções profissionais, enfermidades sérias, desilusões amorosas, a delicada questão do falecimento de filhos, a incompreensão quanto ao sentido da vida, entre outras sérias questões, nem sempre costumam ser vistas sob o prisma do aprendizado. Quando trazem amargura e, mais grave, desânimo pelos dias vindouros, se desperdiça as infinitas possibilidades existentes em cada manhã. Desânimo equivale a triste e lenta desistência. 

Poucos entendiam a sabedoria e o amor da vida ao entregar, não o que desejavam, mas o que precisavam para se tornarem pessoas diferentes e melhores. Por vezes, as lições são severas, nunca pelo descuido dos mestres, mas sempre pela indolência dos aprendizes. A maioria teima em se deixar conduzir pelo encantador de serpentes: os valores do mundo. Sucesso ainda tem fortes ligações com fama e dinheiro. Apesar de isto não impedir de se conquistar as riquezas da vida, como dignidade, amor, liberdade, paz e felicidade, também em nada a asseguram. No entanto, muitos ainda se perdem ao insistirem em apostar os seus dias nos valores do mundo como ponte para alcançar as riquezas da vida. 

Os valores do mundo confeccionam as cortinas ilusórias que, além de ocultar a verdade, atrasam a busca pelo essencial, pois centralizam os esforços nos encantos de superfície, todos efêmeros, frágeis e inconsistentes. As maravilhas da vida estão nas profundidades do ser, não podem ser tocadas com as mãos, nem sempre trazem conforto ao corpo, mas são bálsamos seguros para uma alma que já consegue atuar no mundo em conformidade com o ego que a acompanha. Longe da verdade não haverá a libertação do sofrimento. 

Mas o que é a verdade, afinal? É o limite da sua consciência. E o que é a consciência? É a percepção de si mesmo e de tudo ao seu redor. Portanto, se há sofrimento é porque as fronteiras da verdade ainda estão estreitas na consciência.

Aos poucos, os minutos iniciais de alegria pelo reencontro se tornaram uma fileira de lamentos pelos infortúnios da existência, como se o infinito poder pessoal das escolhas e o carma, a Lei do Aprendizado e da Evolução, não fossem orientadas pelas diretrizes do amor, da sabedoria e da justiça. No compasso das conversas, quando a camada de polidez que disfarça a verdadeira realidade foi ultrapassada, alguns começaram a reclamar sobre a falta de graça e de gosto da vida. Para eles, a existência não fazia sentido e pouco tinham daquilo que consideravam importante para a felicidade. Embora contida e nem sempre admitida, aos poucos, as amarguras eram reveladas.

“A exigência pelo imediatismo da resposta furta a grandeza e a beleza das dificuldades. Os dedos dos mestres são longos”, ensinava o Velho, o monge mais antigo da Ordem, da qual a Denise e eu fazíamos parte. 

Ao contrário do que muitos acreditam, resolver o problema não reside em encontrar a resposta. Todo problema traz consigo uma pergunta. O enigma das dificuldades da vida não se resolve com a resposta, mas com a pergunta. Porém, não qualquer uma. Encontrar a pergunta certa para cada problema é a chave que abre a porta para a sua solução. Sem a pergunta certa não haverá resposta nenhuma.

Quando sentimos a conversa ficar inadequada, resumida a um festival de lamentações, nos afastamos. Ainda não tínhamos visto o Osvaldo. Sentamo-nos em cadeiras próximas à piscina e ficamos conversando amenidades quando o meu primo se aproximou para nos cumprimentar. Depois de perguntar se estávamos sendo bem atendidos pelos garçons, quis saber se tínhamos projetos para um futuro próximo. De modo delicado, como é o seu feitio, Denise respondeu que planejávamos passar as férias de verão no mosteiro da OEMM estudando filosofia e metafísica. Depois, passear um pouco pela bela região. Osvaldo me olhou, deu um sorriso irônico e sibilou: “Uma vida simples e fácil para quem preferiu não ter uma família”. E complementou com evidente sarcasmo: “Eu te invejo, primo”. 

Ao contrário do que muitos acreditam, a violência velada e disfarçada tem um poder destruidor maior do que aquelas feitas de maneira aberta e franca. Nesta, o abismo existente no âmago do agressor deixa evidente o seu desequilíbrio emocional; naquela, como dificilmente há uma censura social ao comportamento, muitas vezes passa despercebida; se o ofendido não ficar atento e se cuidar, será inoculado por um veneno cujo efeito é lento, mas duradouro. É preciso conhecer o mal para evitá-lo.

Evidentemente, a provocação do Osvaldo se referia ao meu estilo de vida fora dos padrões tradicionais. Eu não era casado com a Denise, vivíamos em cidades diferentes e convivíamos somente nos finais de semana e nas férias, quando viajávamos. As minhas filhas, de diferentes casamentos, estudavam fora do país e nos víamos nos períodos de recesso acadêmico. Esta era a minha família, embora não dividíssemos o mesmo teto. Uma família não se constrói pela mera reunião de pessoas para dormirem em um mesmo endereço, mas, em verdade e sempre, pelo grau de comprometimento que se tem entre os seus integrantes. Todos conhecemos tristes situações de pessoas com o mesmo sobrenome, que repartem uma mesma casa, mas mal conversam ou se importam umas com as outras. Embora haja uma aparência familiar e até se vejam todos os dias, em essência, são pessoas que se abandonaram. Ao nosso jeito, as minhas filhas e eu, éramos uma linda família, com todas as preocupações e encantos típicos do convívio de pessoas que se amam, mesmo à distância. Na construção e manutenção de uma família não se pode fugir de nenhum compromisso, desde os materiais aos afetivos. De todas as maneiras possíveis, não se deve medir esforços para mostrar ao outro a importância dele para você. O amálgama que une as pessoas e, por consequência, forma uma família é o amor. Só há amor onde existe comprometimento.

Eu sabia disso e não me deixei atingir com a provocação. O Osvaldo também sabia, a diferença é que ele nunca tinha enfrentado em si mesmo a pergunta: Quais os pilares que sustentam verdadeiramente uma família?

Perplexa, a Denise apertou a minha mão por temer uma reação destemperada, face a facilidade com que as provocações despertaram a minha fúria no passado. Quando eu era jovem, me orgulhava da coragem de não levar desaforo para casa, um jeito de viver aprendido nas ruas onde cresci e que eu acreditava necessário diante de tudo que tive de enfrentar. As sombras são hábeis nos truques de nos iludir com um poder que não possuímos. Levei o hábito para vida adulta, um vício comportamental que me acompanhou por muito tempo. Com o passar dos anos, e as transformações que lentamente se operavam em mim, comecei a me sentir mal cada vez que reagia de modo agressivo. Quis modificar, mas não consegui; os condicionamentos falam mais rápido do que o raciocínio e, com isto, impedem as mudanças. As dificuldades se tornam maiores quando acreditamos que as características da personalidade são imutáveis. Isto é mentira, pois a personalidade se molda à nova realidade interna para que as transformações sejam efetivas e a evolução ocorra. Não foi fácil; eu tentava, mas logo tropeçava. Quando me dava conta, já tinha me desequilibrado e reagido mal a uma provocação. Cansado daquela situação, certa vez, após mais uma reação descontrolada, me fiz a pergunta: Por que isso acontece?Tive de ir fundo para me encontrar com o orgulho e a vaidade que me ditavam as escolhas. Demorou muito tempo para que eu conseguisse iluminar essas sombras. Só foi possível quando me fiz a seguinte pergunta: Você tem medo de mudar?

Pode parecer uma pergunta tola. Afinal, ninguém pode ter medo de se tornar uma pessoa melhor. No entanto, é mais comum do que parece e muitas transformações ainda nos aguardam pelo mesmo motivo. Explico. Não é fácil trocar a fantasia das sombras pela nudez das virtudes. Justamente neste ponto é onde muitos temem se sentir vulneráveis e frágeis; no entanto, é onde reside o centro da força. 

Orgulho e vaidade se iluminam com humildade e simplicidade. Para que aconteça é necessário entender que simplicidade não se confunde com pobreza existencial, nem humildade é uma característica dos humilhados ou subservientes, daqueles que não têm vontade própria. Aliás, a simplicidade se traduz em profunda riqueza existencial pela experiência incrível de se viver sem máscaras, aproximando o indivíduo dele mesmo pela clareza do convívio e, assim, possibilitando o aperfeiçoamento do ser. A humildade é a virtude essencial por abrir o espaço para a criação de uma pessoa diferente e melhor. Ela entrega ao indivíduo uma folha em branco para que ele redefina um novo jeito de viver. É a virtude primordial por entender os equívocos praticados, as dificuldades existentes, o quanto ainda falta aprender, aceitar tudo aquilo que não quer mais para si e ter o firme propósito de evoluir. A humildade traz o poder de aceitar as críticas justas com gratidão e afastar as imerecidas com compaixão. Não se deixa corromper pelos elogios de nenhum naipe para que eles não ocupem o espaço interno destinado as lições sem fim. 

A ideia de se sentir grande, dominador, admirado e poderoso ainda é bem vendida pelas sombras e termina por se mostrar retrógrada por fechar todos os Portais do Caminho pela falta de espaço interno para se realizar as inevitáveis transformações. Para ser humilde é preciso se perceber pequeno. Para muitos, uma ideia menor e conformista, porém, em verdade, é grandiosa e revolucionária pelas infinitas possibilidades evolutivas que proporciona. 

A contrapartida predominante são as máscaras fornecidas pelas sombras e as suas tentadoras ofertas de poder e proteção. Para que ninguém descubra como somos frágeis e infelizes, nos defendemos com o escudo da prepotência e atacamos com a lança da arrogância. Assim tentamos manter todos afastados de quem verdadeiramente somos, inclusive o nosso ego, que vive um personagem inventado. Ocorre que, algumas vezes, por intermédio de uma situação inusitada, um gesto ou uma palavra, o orgulho ou a vaidade são vazados e nos sentimos ofendidos. São características marcantes em egos imaturos e almas embrionárias. 

A conclusão é óbvia. Enquanto orgulhosos e vaidosos se ofendem com facilidade, pessoas humildes, simples e repletas de compaixão jamais se sentem atingidas, pois sabem que a ofensa somente revela o desequilíbrio emocional do agressor.

Para sair de todo labirinto existencial é preciso encontrar o questionamento correto. Comigo não foi diferente. Eu não obtive a resposta enquanto não encontrei a pergunta certa. Quando me fiz a pergunta, demorei a aceitar a resposta. Na prática, é como se virar pelo avesso e não se assustar se sobrar muito pouco ou mesmo nada do que se imagina ser. Isto não é ruim, ao contrário, é o momento de trocar de pele para crescer. Então, ao me dar conta que eu era a razão dos meus sofrimentos, tive de decidir se iria ou não enfrentar esse medo para desconstruir o seu poder em mim. Embora seja uma escolha necessária à evolução, não é fácil admitir que grande parte da sua personalidade não serve mais e precisa de descarte para a criação de um novo ser.

Não é um processo instantâneo. São pequenos ciclos nos quais se percebe avanços mínimos; cada passo é importante e proporciona a mais pura felicidade ao andarilho. A humildade e a simplicidade trazem consigo o incrível poder da lucidez; ficamos encantados com o olhar apurado quando começamos a enxergar a vida de modo mais amplo e profundo. Temos a sensação que o mundo cresceu, mas não, ele continua do mesmo tamanho; foi a sua consciência que se expandiu. Todavia, são virtudes cujas escaladas, por suas extensões e conexões, são graduais para que sejam seguras.

Enfim, naquele momento, eu estava diante de uma prova para saber se havia condições de concluir mais um pequeno ciclo. Pude imaginar o Guardião do Portal me observando para autorizar ou não a passagem. Agradeci a oportunidade e tratei de prestar atenção a cada ação ou reação minha; apenas elas servem de passaporte para avançar no Caminho.

Sempre causa desconforto estar diante de um ato agressivo. Como no dia anterior, mais uma vez o Osvaldo tinha mostrado uma violência disfarçada em comentários aparentemente despretensiosos. Um surrado truque das sombras de depreciar os outros para se sentir melhor. Uma armadilha fácil de desarmar quando estamos atentos. Todavia, vibrações densas se apresentam com rapidez e há a necessidade urgente de não deixar que a escuridão expanda o seu poder. Nem sempre é possível controlar a situação e o ambiente externo, mas nunca posso esquecer que o domínio sobre mim mesmo, além de um direito, é a minha verdadeira força. Eu sou a luz do mundo, mentalizei para não me esquecer do meu compromisso e essência. Ao contrário do dia anterior, nenhuma tristeza me abateu, pois fiz valer a compaixão que antes me faltara: me permiti compreender nele o que ele mesmo não compreendia. 

No entanto, desta vez não quis deixar o silêncio como resposta. Quando os meus olhos encontraram com os dele, me esforcei para retirar qualquer aspereza no tom das palavras e perguntei: “Por que você faz isso?”.

O meu primo não estava programado para aquela reação. Ele saberia como agir se eu fosse igualmente rude ou se me deixasse acuar por sua agressividade. Mas não sabia lidar com a presença de um espelho colocado de maneira educada à sua frente. Quando o espelho nos é exposto de modo indelicado, costumamos quebrá-lo em pedaços com uma reação desequilibrada. Acreditamos que a reação se justificou, pois foi a violência respondendo no mesmo diapasão. O sutil e inusitado espelho, no formato de uma simples pergunta, ao mesmo tempo surpreendente e calma, o desmontou. 

O meu primo não estava preparado para aquela pergunta. Embora singela, transpassou o ego imaturo para incomodar o sono de uma alma adormecida. De imediato, fugiu com os seus olhos desviando-os dos meus. Pude perceber em suas feições uma confusão interna por não entender o motivo pelo qual ele não conseguira o mesmo efeito do dia anterior, quando me viu envolvido em tristeza. Ainda que por uma fração de segundo, aquela suave pergunta fez com que ele percebesse contornos desconhecidos de si mesmo.  Isto o assustou e o fez se sentir vulnerável. A razão mansa, despida de qualquer maldade, tem o poder de provocar reflexões indispensáveis à luz. Osvaldo tentou me olhar, mas ao perceber os meus olhos firmes a procura dos seus, voltou o rosto para a piscina e sibilou na insistência de me atingir: “Você é um caso perdido. Poderia ter tido tudo, mas não tem nada”. Buscou pelas minhas reações e ao perceber que as flechas tornaram a cair distantes do alvo, disparou: “É mesmo um idiota!”. E se afastou.

A sós, a Denise sugeriu que fôssemos embora. O comportamento hostil do Osvaldo, com reminiscências dolorosas e não superadas de um passado distante, somado ao seu desequilíbrio existencial, fazia daquela festa um terreno minado preste a explodir a qualquer momento. Ela tinha razão. A questão entre limites e respeito é delicada. Eu não posso obrigar outra pessoa a me respeitar ou mudar a sua opinião. Ninguém pode. Mas posso impor limites a todas as minhas relações estabelecendo fronteiras agradáveis ao meu bem viver. Tempo e espaço são as ferramentas disponíveis. Um comportamento sereno e firme também é necessário. Compaixão não é sinônimo de permissividade. O único respeito à minha disposição é o que tenho quanto a mim mesmo. Quando bem exercido, basta. No convívio com toda a gente, principalmente perante a si mesmo, é preciso perceber a expansão e contração dos limites. Sem limites as relações tendem ao abuso e a escuridão instala um reino. O limite é o parâmetro do respeito. Como em uma via de mão dupla, respeita-se o espaço sagrado da própria individualidade e, como consequência, torna saudável todos os relacionamentos.

Após falarmos com todos, salvo com o Osvaldo que se afastou ao ver que estávamos de saída, fomos para um delicioso bistrô no mesmo bairro. Era inevitável que conversássemos sobre o que acabara de ocorrer para verificar se todas as peças estavam devidamente encaixadas e compreendidas. A Denise comentou: “Vai demorar muito para que o Osvaldo entenda a necessidade de qualquer transformação no seu comportamento”. Eu quis saber o porquê. Ela explicou: “A identificação dele com as próprias sombras é enorme. Ele se sente poderoso e acredita que uma personalidade agressiva e dominadora o fará usufruir do mel da vida, o qual confunde com riquezas e honrarias mundanas. Na sua concepção o ódio, o orgulho, a vaidade são armas necessárias para uma vitória que só existe na imaginação de quem atravessa a existência acreditando estar em guerra com o mundo. Para pessoas nesta sintonia o amor é uma característica dos românticos, sonhadores e fracos. Daí nasceu o comentário de ontem na cafeteria, entendeu?”. 

Comentei que tive a sensação que a pergunta que fiz tinha tocado em sua alma. Denise concordou, em parte: “Tocou, mas não despertou. Ainda irá dormir por um bom tempo. O ego imaturo do Osvaldo está gigantesco e continua inchando. Enquanto acontecer, a alma não terá nenhuma chance. Ele nem mesmo compreende a importância da alma, pois vive uma fase que acredita que o ego é poderoso e possui todas as respostas. Contudo, ele não sabe que não possui nenhuma resposta, uma vez que cabe a alma realizar as perguntas adequadas para que o ego sinta vontade de evoluir. Por ora, inexiste diálogo interno. O Osvaldo está desconectado dos aspectos mais profundos, amplos e belos da personalidade. Qualquer modificação somente se inicia com o firme compromisso do ego com as mudanças propostas pela alma. Ele está muito distante de entender isto. Por enquanto ele não quer mudar porque não entende nem sente necessidade”. 

“No estágio em que se encontra, ele acredita que abandonar as suas características mais marcantes seria como se autodestruir. É abdicar de tudo que ele mais admira em si mesmo. Claro que é uma consciência rasa, mas é assim que ele gosta de ser ver, como um sujeito dominador, que acredita que a vitória está em se sobrepor aos outros ao invés de superar a si mesmo. Pela ótica de um ego imaturo, orientado pelos valores dos mundos e impulsionados pelas fantasias das sombras, sim, ele está certo”. 

Interrompi para comentar que era impossível o Osvaldo não sofrer sendo daquele jeito. Denise concordou: “Ele sofre muito, mas pessoas que pensam como ele desenvolvem mecanismos para entorpecer os seus sofrimentos. Para tanto, precisam de novas conquistas e se irritam com facilidade quando elas demoram a chegar. Subjugam e tratam outras pessoas como se fossem meras ferramentas ou uma plateia obrigada aos aplausos. Eles sentem prazer assim e pensam não sentir dor. Mas é um prazer de curta duração, como uma droga vulgar. Logo precisam de mais e mais. Então surge a cobiça em seus múltiplos aspectos”.

“Para ele começar a se perceber e, então, entender a necessidade de mudanças, precisa haver um diálogo íntimo e luminoso. Como fazer isto se alma não despertou? Sozinho, o ego delira nas ilusões de poder e se acredita rei”. Fez uma pausa e concluiu: “No momento não há nada a se fazer. Apenas esperar. Cada um baila no ritmo da música que escolheu. Se algum dia ele precisar, esteja com os braços e o coração abertos”. Concordei com ela.

Pedimos os pratos e a Denise sugeriu que bebêssemos um bom tinto. Eu brinquei por causa do dia anterior: “O vinho não vai entorpecer a minha consciência?”. Ela riu e explicou: “Ontem você estava triste sem entender o motivo. Precisava pensar e o álcool atrapalharia. Hoje o vejo bem e equilibrado, compreendendo todas as etapas do processo e, principalmente, a importância do uso da compaixão. Percebi quando as vibrações densas se aproximaram logo após a provocação do Osvaldo. Notei, também como você conseguiu manter a sua luz acesa para não ser envolvido pela escuridão que apresentou, reagiu de maneira luminosa e não se sentiu mal com a atitude do seu primo. Você conseguiu superar de maneira eficaz as suas antigas dificuldades; um passo foi dado no Caminho”.

Discordei: “O compromisso com a luz não tem fim. Apesar da longa luta para vencer essa dificuldade específica, ela era de clara percepção. Havia muito tempo que eu a conhecia e me incomodava com a sua influência em minhas reações. As sombras aparentes são nítidas e não exigem dificuldade para serem identificadas. Esta é a parte fácil do bom combate”. A Denise quis saber qual era parte difícil. Eu confessei: “É enfrentar a indispensável pergunta: Quais sombras ainda me dominam, quais cantos escuros ainda precisam de iluminação em mim e eu sequer sei das suas existências nem percebo as suas manifestações?”. 

Fiz uma pausa e comentei resignado: “Os Guardiões do Caminho não me deixarão atravessar o próximo Portal antes de eu responder a essa pergunta”.

Denise anuiu com um movimento de cabeça, deu um lindo sorriso e me beijou.

Discussões — 13 Respostas

  • MARCELO AUGUSTO G. DE SOUZA 9 de julho de 2020 on 22:05

    Luz e leveza nessa lição de vida!!

    Parabéns!!

    Ser é muito além de estar!

  • Maurício Ionak Ferreira 23 de junho de 2020 on 22:17

    Maravilhoso 👏👏👏

  • Paula 3 de junho de 2020 on 08:53

    Gratidão

  • Santana 30 de maio de 2020 on 16:31

    Obrigado. Axé.

  • Lucas 23 de maio de 2020 on 16:37

    E quando parece que nossas sombras são a nossa essência, como que fica?

  • SCHWEITZER 25 de abril de 2020 on 13:53

    Final espetacular.

  • Cicero Pereira de Sousa 24 de abril de 2020 on 16:59

    Um archote da espiritualidade, capaz de orientar quem deseja encontrar-se consigo mesmo.

  • Ana Lúcia Tavares 21 de abril de 2020 on 07:43

    Luz em minha vida. Gratidão.

  • Adélia Maria Milani 20 de abril de 2020 on 20:30

    Gratidão! que seria de mm sem as suas lições?

  • Leandro Moller 20 de abril de 2020 on 08:43

    Muito bom Yoskhaz…

  • Alcídia Batista 19 de abril de 2020 on 12:23

    Você amado Yoskhaz ilumina sempre nossos caminhos!!!!

  • Fernando Cesar Machado 19 de abril de 2020 on 08:10

    Gratidão profunda e sem fim,
    Denise e Yoskhaz,
    sem fim…

  • Terumi 18 de abril de 2020 on 23:59

    Gratidão! 🙏