Um voo sobre o medo

Vários amigos já tinham me falado da Cléo, a bruxa. Comentavam dos seus dons, conhecimentos esotéricos, métodos pouco ortodoxos de magia e o incrível diálogo que teria com o mundo invisível. Ouvi muitas histórias sobre ela, algumas bem interessantes, outras difíceis de acreditar. Os seus supostos poderes e sabedoria haviam virado lenda e, também, serviam de brincadeira. Quando alguém se achava diante de um grande problema ou dilema, dizíamos: “Pergunte a Cléo” ou “Só a Cléo é capaz de resolver”. Elegante, esguia, de pele morena, cabelos negros, olhos cor de mel, com uma idade difícil de precisar, talvez entre quarenta e cinquenta anos, gestos mansos, fala pausada, sorriso fácil e sempre usando vestidos coloridos, era o padrão de uma descrição que se repetia. Todas as pessoas a definiam de uma mesmíssima maneira. No entanto, um detalhe curioso: ninguém a conhecia pessoalmente. Era sempre a surrada versão do amigo do amigo que tinha encontrado com a bruxa em um lugar improvável. Eu me divertia com a personagem inventada e estava convencido que a Cléo não passava de mais uma lenda urbana, como várias outras.

Quando estou em casa, um dos lugares que gosto de ir quando sinto vontade de meditar junto à natureza é na Pedra Bonita, localizada dentro da floresta no Parque Nacional da Tijuca, no coração do Rio de Janeiro. Próxima a uma antiga rampa de voo livre, ainda em atividade, o local é um enorme terraço maciço a centenas de metros acima do nível do mar, de onde vejo a Pedra da Gávea à frente, o Oceano Atlântico ao fundo e vários bairros cariocas sob os meus pés. É comum a paisagem se colorir com os voos de muitas asas-deltas quando o tempo está propício ao esporte. Durante a semana costuma haver pouquíssimas pessoas ou mesmo ninguém no local. Neste dia, deixei o carro próximo a rampa e percorri uma leve trilha de poucos minutos por dentro da mata. Sem dúvida, um santuário alheio à correria da cidade. Tirei as botas, me recostei em uma pedra de frente para o mar e deixei que a quietude me envolvesse junto com as boas energias do local. Passou um tempo que não sei precisar. Ao longe comecei a ouvir vozes que me despertaram da meditação. O vento trazia as palavras de duas mulheres que embora estivessem distantes, pareciam estar sentadas ao meu lado. Como já entardecia, decidi ir embora. Ao passar por elas, tive o cuidado de alertá-las do perigo de se perderem na trilha, caso não a conhecessem bem. A escuridão tem este poder. Uma das mulheres, a mais velha, agradeceu e disse: “É sempre uma boa ideia deixar acontecer aquilo que mais tememos. É a melhor maneira de acabar com o medo. Antes disto, nada se cria”.

Parei. Algo no raciocínio me encantou. Talvez a filosofia inusitada, talvez o rumo estranho de lidar consigo mesmo. Quando eu percebi que a outra mulher, bem mais jovem, tinha lágrimas nos olhos, a mais velha explicou: “A minha filha veio fazer um voo duplo de asa-delta. Na hora de saltar o medo a impediu”. A mãe prosseguiu com a voz calma, como se ensinasse o alfabeto a uma criança: “Já disse para ela que a melhor maneira de perder o medo é ir ao encontro dele. Face a face, fica mais simples para qualquer pessoa se tornar maior do que o medo que a assusta”.

Franzi as sobrancelhas. As minhas feições devem ter denunciado o meu espanto, pois a jovem exclamou em um tom engraçado: “Não repare, moço. A minha mãe é louca”. A resposta da mãe foi um riso típico de quem está se divertindo. Acabei me contagiando com a alegria e não consegui conter o sorriso. Comentei: “É um raciocínio interessante, a depender de como se desenvolve, pode fazer sentido”. A jovem reagiu: “Ah, não! Vivo desde sempre ao lado do fogo” se referiu ao modo da mãe de pensar. E acrescentou: “Não preciso de mais ninguém para jogar lenha na fogueira. Por favor, não me leve a mal, mas siga o seu caminho”.  Dei de ombros e antes de ir embora tornei a alertá-las do perigo de descer a trilha no escuro. A mulher quis saber se eu tinha medo. Respondi que conhecia bem a trilha, pois costumava frequentar o local. Ela ponderou: “Entendeu agora?”. Fiquei em dúvida se tinha entendido e me calei. A mulher disse: “Sente e converse um pouco conosco. Assim você nos ajuda a descer mais tarde”. Decidi aceitar o convite enquanto a filha, desolada, sacudia a cabeça.  

A mãe ponderou: “O problema é que se busca o oposto do medo para se superar o medo. Seria como acrescentar açúcar na tentativa de acertar o tempero da comida com excesso de sal”. 

“Nunca irá conseguir o objetivo, os opostos convivem entre si, mas não se anulam”. 

Fui sincero: “Confesso que não entendi”. A filha bateu palmas por encontrar um suposto aliado para resistir àsloucas teorias da mãe, segundo os seus próprios termos. A mulher tornou a sorrir com doçura, como quem não se incomoda por não ter a compreensão dos outros. Tive a nítida sensação que o entendimento que ela tinha sobre si mesma a fazia plena. Por isto, o sorriso leve, meigo e abundante, sem qualquer traço de afetação ou mágoa.

A mãe explicou: “Trouxe a minha filha para saltar de asa-delta, pois sei que ela tem medo de altura. A empresa que ela trabalha atravessa uma grave crise e existe o risco de demissão em massa. A minha filha está com muito perder de perder o emprego”. Falei que entendia ainda menos a correlação entre os fatos. A mulher arqueou os lábios em leve sorriso e disse: “Quando se entende os fundamentos de um medo fica mais fácil compreender todos os demais”. 

Dei de ombros como quem está diante do inusitado. Ela começou a desenvolver o seu raciocínio: “Por exemplo, existe alguém que busque a riqueza por temer a pobreza?”. Respondi que muitas pessoas fazem isto. Ela questionou: “Entende o equívoco da rota?”. Falei que não. Ela prosseguiu: “Tornar-se milionário não afasta o risco da pobreza, pois sempre haverá a possibilidade de perder a fortuna ganha. Então, medo permanece atuante. Quando não se trata a causa da doença, o remédio que trata apenas os sintomas pode disfarçar o mal, mas não proporcionará a cura”. 

“A fortuna associada ao medo não permitirá a felicidade nem a paz desejada, apesar das excelentes condições materiais disponíveis. O temor da miséria será como um fantasma a devorar o melhor dos seus dias”.

“Pior, com o risco de também o afastar da dignidade. O medo da pobreza poderá fazer com que o indivíduo realize escolhas que contrariam a própria ética que, olhadas pelas lentes do tempo, se mostrarão mesquinhas e insensíveis. O medo tem este poder. Ninguém alcança a felicidade enquanto se afasta da dignidade. Quem sente medo não tem paz”. 

Tocada por aquelas palavras, a filha indagou como poderia perder o medo da morte. A mãe a olhou com encantadora compaixão, ofereceu um sorriso doce e detalhou com serenidade: “Uma vida ampla e profunda, por se justificar e se iluminar em si mesma, faz da morte somente o inevitável capítulo final de uma história. Quando se vive uma existência intensa pelas muitas transformações internas escritas ao longo dos anos, haverá tamanha luminosidade que será impossível à morte apagar”. 

Fez uma pausa para saber se tínhamos entendido. Dissemos que sim e ela prosseguiu: “O medo pela morte se desmancha pelo sentido maior oferecido por uma existência bem vivida. E o que faz uma vida ter sentido? Evolução é a única resposta. Como se evolui? Compreendendo mais a si mesmo e amando melhor a todos. Ao contrário do que muitos acreditam, o amor pela vida não se sustenta na vã tentativa de se fugir da morte. Não há amor na fuga porque não existe amor com medo. O amor tem a mesma raiz que a liberdade. Ambos florescem na desconstrução do medo. Acredite, filha, ninguém com medo é livre”.

“Oposto da liberdade não é a opressão, mas o medo”.

“Tudo aquilo que você tiver medo de perder não valerá a pena ganhar. Nenhum objeto de desejo, seja material, seja imaterial, vale uma vida com medo. O medo é o ladrão da felicidade. Se deseja muito algo, perca antes o medo de perder tal coisa; depois, talvez você nem faça questão de ganhar mais nada, pois já conquistou algo bem maior: o domínio sob si mesmo”. 

A filha abriu os braços e fez a lendária, lacônica e indispensável pergunta: “Como?”. 

A mãe fez um breve silêncio como se escolhesse as melhores palavras e disse: “Fortaleça o espírito para as tempestades, qualquer que seja. Com diferentes níveis de rigor, elas sempre chegam. Esteja pronta para sobreviver e superar as dificuldades. Acredite, você é capaz. Embora não sejam desejadas pelos inconvenientes que causam, quando vierem, que sejam bem-vindas pela evolução que proporcionam”. Fez uma pausa e concluiu: “Superar um problema é uma escolha; aprender com ele também. A escolha é sua”.

“De modo objetivo, o medo da miséria não tem a sua raiz na falta de dinheiro, como muitos acreditam de modo simplista, mas na falta de confiança em sua própria capacidade produtiva, de enfrentar desafios e de se recriar a todo instante. Esta insegurança nasce da sensação de dependência que se instala por acreditar que estará sempre amarrado às situações alheias à sua vontade, como auxílio de terceiros, políticas governamentais e regras jurídicas. Sem dúvida que quando medidas macroeconômicas são adequadas, impulsionam bastante o mercado e geram oportunidades de ganhos financeiros. Não há como negar. Contudo, qualquer dependência gera medo pela instabilidade que proporciona, pois é a negação do controle sobre a própria vida”.

“Aprenda ver as crises e as dificuldades através de outro viés. Procure observa-las pelas inúmeras chances de reinventar um trabalho. Ao invés de depender dos outros, passe a confiar na sua vontade, criatividade e na movimentação do seu dom. Acredite na sua força; ser livre é uma escolha. Viver sem medo também”.

“Ao desmanchar a dependência, o medo diminui; ao acreditar em você mesmo, ele desaparece. Quando a vida nos convida para caminhar pelo avesso da existência, ela quer nos mostrar maneiras diferentes de viver, ela quer nos tornar melhores. Embora muitas vezes tenhamos dificuldade em reconhecer, a vida sempre é generosa: quando ela nos leva para conhecer o lado escuro do Caminho é para nos ensinar a usar uma força incomensurável que temos, mas desconhecemos”. 

“A superação do medo é o marco inicial da jornada às plenitudes da vida, pois significa a descoberta do poder de afastar toda e qualquer escuridão por intermédio da sua própria luz. Então, não haverá mais escuridão que a amedronte”.  

“Em suma, o medo existe para nos ensinar a conquistar o poder da Luz”.

“Quando sabemos lidar com as situações limítrofes da existência, as fronteiras da vida se alargam. Somente, então, estaremos aptos a nos encantar com os mistérios e as maravilhas que ainda não fomos apresentados”.

A filha olhava para mãe como se pela primeira vez as suas palavras fizessem algum sentido. Em um gesto de carinho e reconhecimento, deitou a cabeça nas pernas da matriarca e ficou observando as estrelas que, pela hora avançada já eram as donas do céu. Acariciando o cabelo da jovem, a mãe concluiu: “Cada vez que um medo se avizinhar, não fuja dele. Aproveite para olhar nos seus olhos e entender o que é preciso para iluminá-lo. Acredite, a partir deste momento, ele nunca mais a assustará. Então, você se sentirá livre, digna, feliz e em paz. Será a vitória do amor sobre o medo; da luz sobre a escuridão”.

A jovem passou a mão com delicadeza no rosto da mãe e questionou: “Por que o medo existe?”.

A mãe sorriu como se esperasse aquela pergunta e disse: “Todo o medo é um mestre pelo avesso. Não devemos seguir os seus conselhos, mas decifrar o seu enigma. Assustados, nos afastamos dele e desperdiçamos as oportunidades. Qualquer que seja o medo, ele vem nos mostrar uma face desconhecida que possuímos, algo perdido dentro de nós e que nos faz muita falta, pois precisaremos dessa parte para nos tornar inteiros”. 

“O medo vem revelar o melhor que há em mim, o poder que tenho, mas não sei. Desde, é claro, que eu o decifre. O código da desconstrução de cada medo está no âmago do meu ser. Enquanto não souber quem sou, ficará impossível saber o que quero, para onde eu vou e descobrir sobre as minhas infinitas capacidades”.

“Enfim, o medo que aprisiona é o mesmo que liberta, depende apenas da escolha feita de como lidar com ele”.

Mãe e filha trocaram sorrisos de ternura. A moça se acomodou no colo da mãe e adormeceu. Comentei: “Uma bela lição”. A mulher tornou a sorrir. Acrescentei: “Esse desconhecimento sobre o medo e, por consequência, sobre quem somos, faz gerar muita tristeza e paralisia, de outro lado, leva à agressividade, histeria e o efeito manada, onde todos seguem todos, mais pela influência grupal do que pela razão profunda. Como poucos sabem quem são, o que querem e para onde vão, ficam perdidos, ignoram a sua verdadeira força, se tornam facilmente manipulados, restam encarcerados e, pior, não se dão conta disto”. 

“Há milênios o planeta vive sob o império do medo. Isto faz com que as pessoas acreditem que os seus centros pessoais de força têm como fonte valores mundanos, alheios a capacidade intrínseca do indivíduo e completamente fora do seu controle. Isto retroalimenta os medos. Como o único domínio legítimo que uma pessoa possui é sobre si mesma, enquanto insistir em buscar o seu poder em centros de força extrínsecos a ela, se sentirá frágil, perdida e dependente. Entende a razão de tanto medo?”. 

“As pessoas temem e sofrem nessa busca inglória por desconhecerem a própria força e os seus dons. Continuarão dominados pelos medos enquanto não descobrirem quem são. Em verdade, é um processo simultâneo no qual a construção do ser acarreta a demolição dos medos. Como um mestre que atua nas áreas sombrias, quando bem entendido, o medo servirá de guia até o âmago de uma das muitas zonas luminosas que possuímos”. 

“Para tanto, isso será impossível enquanto não mergulhamos no fundo da alma para encontrar o código que irá desconstruir cada medo: quem ainda não sou, mas posso ser?”.

A mulher sorriu em anuência. Ficamos um longo tempo com os pensamentos vagando por entre as estrelas. Descemos a trilha quando o dia amanhecia. A turma da asa-delta chegava para aproveitar o vento terral das primeiras horas da manhã. Foi quando a jovem se declarou decidida a fazer um voo duplo. A mãe ponderou: “Não precisa, filha. Apenas usei o medo de voar como metáfora aos ensinamentos que eu queria que você conhecesse. Voar de asa-delta não faz diferença, o importante era entender os fundamentos necessários para que a liberdade nunca fique estanque diante do medo”. 

Sim, a liberdade não está na lei; ela pertence ao espírito, concordei em silêncio. 

A moça deu um sorriso parecido com o da mãe, piscou um olho e contou uma novidade: “Por que não voar se sinto vontade e não tenho mais medo?”. Despedimo-nos com a promessa de nos encontrarmos em outra tarde de um dia qualquer. Foi quando percebemos que não tínhamos dito os nossos nomes. Achei interessante quando a mãe disse se chamar Cléo. Então, me dei conta quanto aos cabelos negros e à pele morena, o vestido colorido e esvoaçante, os olhos cor de mel e o sorriso fácil, a fala mansa, a sabedoria fina e os métodos pouco ortodoxos de magia. Aspectos que se encaixavam na descrição da bruxa tão comentada por todos.

Observei mãe e filha, abraçadas e felizes, subindo em sentido à rampa de saltos. Sem dúvida era a Cléo, a tão comentada bruxa. Uma feiticeira cuja magia era usar a própria luz para acender a luz do mundo.

Foto: Reto Meier – Dreamstime.com

Discussões — 18 Respostas

  • Alexandra 21 de junho de 2020 on 18:05

    Antes de começar a ler, agradeço ao Universo porque sei que vou ser inundada pela luz que o virá das palavras vivas do texto! Gratidão!

  • Michele 7 de junho de 2020 on 12:02

    Um material de valor gigante. Gratidão por compartilhar e iluminar nossos entendimentos. 🙏

  • Igor Matheus 24 de maio de 2020 on 13:14

    A cada nova leitura que faço desses textos mais me sinto revigorado. Quero expressar minha singela gratidão por esta obra tão iluminada.

  • Michelle 22 de maio de 2020 on 08:37

    ❤️🌹!

  • Lia 17 de maio de 2020 on 18:17

    Como sempre fantástico! Gratidão! Paz e bem!

  • Adélia Maria Milani 13 de maio de 2020 on 18:34

    Gratidão, sempre!!!!

  • Jeane 12 de maio de 2020 on 08:29

    Gratidão!!!

  • Nazaré Dimaria 11 de maio de 2020 on 20:48

    Trouxe luz ao meus medos..Obrigada!

  • Cintia Faro 7 de maio de 2020 on 22:20

    As bruxas agradecem mais um lindo e transformador texto…rs
    Imensa gratidão Yoskhaz!

  • SCHWEITZER 7 de maio de 2020 on 00:49

    A melhor desconstrução do medo que eu já li na minha vida. Espetacular e liberador. Obrigado meu querido.

  • Juliana 4 de maio de 2020 on 11:42

    Todo texto me estende a mão e me puxa da escuridão. E todos numa sincronicidade mágica. Outro feiticeiro cuja magia é usar a própria luz para acender a luz do outro. Gratidão infinita! Peço à Deus todos os dias que te ilumine e proteja!

  • Aninha Witczak 4 de maio de 2020 on 05:37

    Gostei muito…obrigada

  • Andrea Massei 3 de maio de 2020 on 17:17

    #gratidão 🌻

  • Terumi 2 de maio de 2020 on 23:20

    Gratidão! 🙏

  • Santana 2 de maio de 2020 on 10:07

    🙏🏽🌵

  • Fernando Cesar Machado 1 de maio de 2020 on 06:19

    Gratidão profunda e sem fim Yoskhaz,
    sem fim…

  • Gabriel reynaud 30 de abril de 2020 on 08:02

    Gratidão

  • Fernando Cesar Machado 29 de abril de 2020 on 14:16

    Gratidão profunda e sem fim irmão das estrelas,
    sem fim…