O laboratório intrínseco (texto completo)

Faz muitos anos, eu estava na vila chinesa, próximo ao Himalaia, durante uma das várias viagens que fiz para estudar o Tao Te Ching, o Livro da Caminho e da Virtude, com Li Tzu. Como sempre tive o hábito de acordar muito cedo, quando saí da estalagem o céu ainda estava estrelado. Na casa do mestre taoísta, onde as aulas eram realizadas e vinham aprendizes de todos os cantos do mundo em busca desse conhecimento milenar, o portão estava sempre aberto. Enquanto atravessava o jardim de bonsais, senti o aroma do incenso que perfumava a casa. Na cozinha, Li Tzu colocava ervas em infusão para o chá e me recebeu com um sorriso sincero. Sem dizer palavra, apontou uma cadeira para eu me sentar à mesa. Meia-noite, o gato negro que também morava lá, me olhou sonolento de cima da geladeira e voltou a dormir. Após encher as nossas xícaras, ele se sentou e bebemos em silêncio até que comentei sobre o fato de a dona da estalagem aumentar, ano após ano, o valor das diárias cobradas pelos quartos. Cada vez mais aumentava o grupo de alpinistas dispostos a escalar o Himalaia, fato que reduzia a oferta de acomodação para os alunos do Tao. Como não havia outro local para se hospedar, ficávamos sem condições de negociar. Naquele ano achei os preços abusivos. Falei que entendia a lei da oferta e da procura mercantil, mas pensava que o padrão deveria ser o do valor justo de cada serviço ou produto, independente da necessidade das pessoas. No mais, acrescentei, o prédio estava velho e havia muitos anos que não passava por qualquer reforma. Li Tzu ouviu as minhas queixas sem me interromper, ao final, disse de modo enigmático: “A utilidade não está nas paredes da antiga estalagem, mas no espaço existente dentro dos seus cômodos”. Antes que eu demonstrasse incompreensão, ele me mostrou a xícara em que eu bebia o chá e disse: “De nada vale o requinte da porcelana se não houver um espaço disponível para caber a bebida”. 

Bebeu o chá, tornou a me mostrar a xícara e disse: “Se ficar sempre cheia, a utilidade se perderá; sempre vazia, também”. Em seguida me lembrou da lição primordial do Tao: “Expansão seguida de contração, em movimentos infinitos de dentro para fora e de retorno ao interior para mais adiante tornar a sair. Assim o Yin e o Yang alimentam a vida mostrando a utilidade do ser no viver e do viver para o ser”. Deu mais um gole antes de concluir: “Quando não compreendemos uma paisagem no mundo significa que existe algo em nós ainda imperfeito à espera de entendimento”.

Antes que eu iniciasse uma sessão de perguntas, Li Tzu falou que estava na hora de começar os seus exercícios diários de ioga e me convidou a acompanhá-lo. Levei as minhas dúvidas e contrariedades para aquelas práticas físicas que ao mesmo tempo eram de leveza e força. Entre um movimento e outro, como se adivinhasse os meus pensamentos, ele comentou: “Os sentimentos precisam de pureza para que as ideias adquiram clareza. Esta é a ioga para formar um espírito leve e forte ao mesmo tempo. Não alheio ao mal ou às sombras, mas sem fazer uso destes elementos mesmo tendo-os à disposição. Isto é o que distingue a pureza da ingenuidade e concede leveza e força ao andarilho. Esse é poder da luz despertado na consciência”. Em seguida me lembrou: “Tao significa caminho, Te quer dizer virtude. Não há virtudes em uma consciência separada do coração. Sem virtudes não existe caminho”. Fez uma breve pausa e finalizou: “O Tao Te Ching é trilhado na companhia da consciência e do coração para dentro do desconhecido de si mesmo. As incompreensões da vida exterior demonstram as fraquezas ainda existentes no interior do andarilho”.

Eu não tive tempo de apresentar os meus vários questionamentos ao mestre taoísta. Ao término da ioga, outros aprendizes começaram a chegar para as aulas daquele dia. Iríamos estudar o Poema Onze. Li Tzu nos apresentou o texto:

“Tinta raios são necessários para formar a roda,

Mas sem o espaço central para o eixo o carro não se movimenta.

O barro modela o vaso,

Mas a utilidade está no espaço disponível em seu interior.

Uma casa pode ter janelas floridas e portas robustas,

Mas é no espaço existente entre as suas paredes que a vida acontece.

No concreto, as coisas.

No abstrato, a vida.

A aparência e a essência.

A existência e a transcendência.

A ilusão e a realidade”.

Como de costume, mantínhamos os olhos fechados enquanto o mestre taoísta lia o poema, pausadamente, por três vezes para que fixássemos as palavras na memória. Após, iniciávamos a meditação para que pudéssemos metabolizar os ensinamentos milenares deixados por Lao Tsé. Li Tzu sempre nos lembrava: “Façam que a consciência encontre novos sentidos para as palavras, mas permitam que o coração as impulsione. Somente assim servirão de farol no Caminho”. 

Ao término da meditação, iniciávamos os debates. Conversávamos sobre as nossas interpretações na construção de um entendimento comum. Li Tzu aguardava com a sua enorme paciência e uma cativante serenidade no olhar. Somente quando esgotávamos as nossas ideias ou acreditávamos ter chegado ao limite da compreensão de um poema, ele iniciava a sua explicação. Sempre de modo claro, como fazem os autênticos mestres, ao mostrar que as mais difíceis equações da vida possuem soluções simples. 

“Simplicidade não significa facilidade”. Foi assim que Li Tzu começou a explicar o poema: “Até porque os únicos obstáculos para a conquista de uma vida plena estão dentro e não fora da gente. Cada indivíduo traz em si dificuldades próprias em busca de superação. A maior parte do que somos, nada sabemos. A estrada desse conhecimento tem trechos belos e encantadores, entremeados por outros bem difíceis, escuros e até mesmo traiçoeiros. A iluminação chega aos poucos e, por isto, os passos precisam ser lentos para que possam ser seguros”. 

“A vida como a entendemos no mundo é somente reflexos da compreensão que cada um tem sobre si mesmo. Todas as vezes que encontramos uma dificuldade não significa que a vida nos seja antagônica, porém, que estamos diante de um aspecto pessoal e interior que precisa de aprimoramento”. 

“Se existem muitos conflitos dentro de você, haverá muita confusão nos seus relacionamentos. O problema já estava semeado, a insatisfação era a colheita anunciada”.

Arqueou os lábios em lindo sorriso e brincou: “A vida está chata? Comece a buscar por aquilo que nem você suporta dentro de si mesmo”. Rimos. Ele prosseguiu: “Mas fazemos justamente ao contrário. Acreditamos que são as imperfeições do mundo que atrapalham a nossa vida”.

Li Tzu franziu a sobrancelha e mudou o tom: “Exatamente nesse ponto começam todos os problemas. Fomos condicionados a buscar no mundo o movimento e o entendimento que não existem lá. Insistimos em procurar as maravilhas da vida em um lugar que apenas reflete a beleza que existe dentro da gente. Por isto tantas insatisfações. Sem encontrar as maravilhas do ser não haverá encanto no viver”.

Apontou para o próprio peito e disse: “A vida real acontece aqui dentro. Lá fora será sempre um espelho daquilo que você já consegue viver em si mesmo”.

“Sei que é estranho se acostumar com a ideia, mas a única e verdadeira realidade é abstrata; são as experiências que agregam amor e sabedoria ao ser. Tudo que é concreto não passa de mera ferramenta evolutiva para que cada indivíduo consiga realizar o projeto de si mesmo, desenhar a realidade e colorir a vida”. 

“O requinte da porcelana estabelece o preço do vaso; a utilidade do seu conteúdo traduz o seu valor. Tudo que tem preço é ferramenta; aquilo que possui valor é obra”. Piscou um olho como quem conta um segredo e disse: “Existência e transcendência”.

“Por isto não podemos olhar para uma pessoa e entendê-la nos limites do seu corpo ou apenas avaliar a sua capacidade de trabalho, pois, se assim fizermos, ela também seria tratada como uma ferramenta e isto será prejudicial a todos. Esforce-se para percebê-la como um espírito e respeite o universo que ela traz consigo, as suas dificuldades e conquistas, dores e alegrias. Assim, você ensinará e aprenderá com ela. Isto transformará a ambos. Como consequência, a realidade restará alterada”.

“O mundo mudou? Não. Mas a maneira como você o atravessa e se encanta com as suas paisagens foi modificada”. 

“Contudo, isto apenas será possível se houver espaço disponível para que o movimento essencial da vida aconteça dentro de você. Do contrário, será apenas um corpo que se move, mas não caminha; que tudo vê e nada entende; faz, mas não transforma; confunde conquistar com possuir; existe sem transcender”.

Perguntei se ele queria dizer se eu sou a causa de todos os conflitos que me acontecem. Li Tzu anuiu com a cabeça e complementou: “Sem dúvida. Quando os níveis de dependência sobre os acontecimentos externos diminuem, as insatisfações também arrefecem. Fico maravilhosamente bem quando me sinto amado por alguém. Gosto e preciso disto. Contudo, quando sofro qualquer reação indesejável, cabe a mim entender a dificuldade da outra pessoa em oferecer um melhor sentimento; naquele momento ela não conseguiu ou não sabia fazer diferente. Quando entendo esse movimento, permaneço bem se consigo sentir compaixão pela dificuldade alheia. Se possível, tento ajudar; do contrário, sigo o meu caminho. Então, não haverá conflito”.

“De outro lado, não raro, existe a possibilidade de a minha ação ter sido equivocada, o que fez com que as suas consequências fossem desagradáveis; ou seja, eu fui a causa dos efeitos que sofri. Neste caso, não me deixo paralisar pela culpa; peço desculpas, reparo o erro e assumo a responsabilidade em aperfeiçoar o conteúdo que trago em mim. Ninguém caminha sem este compromisso. Então, aquilo que era conflito se revela um aprendizado”.

Tornou a sorrir e concluiu: “As possibilidades são infinitas. Nada que está no mundo me atinge, salvo quando ignoro quem ainda não sou. Este é o poder da humildade, pois é esta virtude que concede a lucidez e desbrava o espaço interior para que as transmutações luminosas aconteçam. Por isto a humildade é sinônimo de poder e força”.

“No viver está os ingredientes para todas as transformações; contudo, restarão desperdiçadas se não houver espaço no interior do ser que, como um laboratório intrínseco, seja capaz de fazer bom uso dessa matéria-prima, alterando a realidade na medida que consegue aprimorar os instintos e as intuições, aperfeiçoar o pensar e o sentir”. 

“Por definição, intrínseco significa tudo aquilo ligado à essência”.

“O mundo não muda, você muda. Então, o mundo muda”. Todos rimos com a construção de uma ideia aparentemente incoerente. Até Li Tzu se divertiu com a frase. Mas ele tinha chegado onde queria. Fez uma pausa, nos olhou com delicadeza e indagou: “Conseguem entender o que é ilusão e onde está a realidade?”. 

A sala foi tomada por absoluto silêncio. Mais do que uma ideia, havia uma proposta inovadora de vida naquele poema do Tao Te Ching. Aula encerrada, nos despedimos e fomos embora.

Era hora do almoço. Como eu tinha esquecido a carteira no quarto, voltei à estalagem. Ao entrar, a dona me chamou para avisar que a partir do ano seguinte as diárias teriam mais um aumento. Um grupo crescente de alpinistas chegaria e não havia lugar para todos. Controlei um rompante de irritação que tentou me dominar e nada respondi. Assim como eu, muitos alunos do Li Tzu gostariam de voltar para dar prosseguimento ao aprendizado. O meu orçamento precisaria ser revisto. Decidi andar um pouco pelos belos recantos que havia no entorno da vila. Eu precisava pensar. A vida me fazia dois convites: um de reclamação e conflito, outro de entendimento e evolução. Cabia a mim escolher qual convite aceitar.

Segui por uma trilha que levava a um platô nas montanhas, onde era possível avistar bosques repletos de flores com a cordilheira ao fundo. Recostei-me em uma pedra. Ao mesmo tempo que me encantava com a linda paisagem, me deixei envolver com as boas vibrações daquela catedral da natureza. Sem me dar conta, fechei os olhos. Percebi o momento oportuno para um mergulho amplo e profundo. 

Deixei que pensamentos e sentimentos fluíssem com liberdade sem tentar exercer qualquer controle ou censura sobre eles. Em um diálogo intenso, uns permaneciam por serem consistentes, outros se desmanchavam pela incoerência que apresentavam. Ao final, alguns conceitos me pareceram fundamentais: a estalagem era um negócio como outro qualquer, cabendo à dona tomar as decisões que entendia adequadas à sua administração, entre elas, o de estabelecer o preço da diária. Cabia aos clientes, eu entre eles, aceitarem ou não. Ninguém estava obrigado. O fato de não ter outro local para se hospedar na vila, embora não devesse permitir uma cobrança abusiva, não poderia restringir os direitos da proprietária em cuidar do próprio negócio como melhor entendesse. De outro lado, ponderei que em outras estações do ano, quando o frio era muito rigoroso na região, como no outono e no inverno, talvez ela passasse semanas, ou mesmo meses, com todos os quartos vazios, amargando enormes prejuízos. Então, era necessário compensar as temporadas. Eu desconhecia as dificuldades administrativas que ela enfrentava, custos de manutenção, impostos, entre outros mais. A ignorância torna os julgamentos levianos e cruéis. Se mantivesse o raciocínio que tinha até aquela manhã, de observar a questão pela ótica exclusiva dos meus interesses, eu não passaria de um atirador de pedras.

Mesmo exercendo um direito legítimo de fixar o preço das diárias da sua estalagem, talvez as motivações da dona da pousada fossem justas, talvez somente gananciosas. Não importava; não me cabia julgar. De verdadeiro e valioso era que eu não podia depositar o poder da minha felicidade nas mãos de outra pessoa, seja quem fosse, independente das suas intenções e consciência. Isto seria equivalente a abdicar de mim mesmo. Algo inconcebível, porém, mais comum do que percebemos. Eu apenas precisava entender por onde prosseguir. Sempre temos a solução, basta acalmar a mente e deixar o coração pulsar sem irritação. Para tanto, era preciso esvaziar o espaço interior para que pudesse preenchê-lo com um novo e fino conteúdo.

Questionei-me de quanto valia aqueles dias passados na vila aprendendo o Tao Te Ching com Li Tzu. O valor era incomensurável, tanto pela oportunidade das lições disponibilizadas quanto pelo fato de elas, se bem aproveitadas, me ajudarem a construir um jeito de ser e viver diferente e melhor, uma riqueza que nada nem ninguém poderia algum dia me tomar. Entregar dinheiro para receber conhecimento não é uma mera troca. É um investimento real e verdadeiro; é um dos bons usos que podemos fazer do tempo. A questão fundamental não era o preço das diárias da estalagem, mas o valor das aulas do Li Tzu. Ter onde me hospedar enquanto aproveitava essa bela oportunidade era maravilhoso. Senti enorme gratidão pela dona da hospedagem por oferecer um quarto aquecido para eu passar as noites e, assim, acordar bem-disposto para aproveitar as lições do Tao no dia seguinte. A prosperidade não se mede pelo preço das coisas adquiridas, mas pelo valor das experiências vividas.

Uma ideia verdadeira que diminuiu o tamanho do conflito dentro de mim.

No mais, conflitos alimentam a escuridão. Como nem todas as aventuras no mundo físico são possíveis, se o preço da estalagem se tornasse impraticável ao meu orçamento, eu encontraria outros meios de prosseguir os meus estudos do Tao Te Ching, mesmo sem retornar à vila. Buscaria pelos livros, entre múltiplas possibilidades. Isto, nada nem ninguém poderia me impedir. Talvez não fosse como assistir às aulas de Li Tzu, mas o mundo perfeito não é o ideal, porém, o possível. Dependências e medos constroem prisões. O universo jamais nega a qualquer pessoa o mergulho nos mistérios de si mesmo e o acesso aos códigos da vida. Eu não poderia abandonar os meus princípios de firme determinação, livre-pensar e amor às virtudes. Assim, nada me será negado para evoluir. Cada indivíduo é responsável por se manter no Caminho; por manter acesa a própria luz.  

Fui envolvido por uma maravilhosa sensação de leveza e paz. O conflito tinha se desmanchado dentro de mim.

Enquanto retornava à vila, agradecia ao Lao Tsé e ao Li Tzu por me ensinarem a usar o espaço interior como laboratório onde se cria e recria a realidade. A tarde estava avançada e, como já tinha passado a hora do almoço, decidi jantar em um pequeno restaurante que funcionava na sala da casa onde os proprietários moravam. No trajeto, tive de passar em frente à estalagem e vi a dona envolta com os protestos de alguns alunos quanto ao aumento para o próximo ano. Quando o meu olhar cruzou com o dela, ofereci um sorriso sincero de gratidão e inclinei a cabeça em um gesto tradicional de demonstração de respeito. Mesmo sem compreender o motivo pelo qual eu fizera aquilo, ela também inclinou a cabeça em minha direção e me sorriu de volta. 

Os alunos me olharam surpresos. Talvez tenham me visto como uma espécie de traidor ou algo parecido. Não importava, eu sabia das minhas razões e sentimentos. Isto me bastava. Não posso ter a expectativa que todos me entendam ou concordem comigo. Eu me sentia sereno e forte pelo fato de a minha atitude estar em coerência com a minha consciência.

Tudo no mundo estava exatamente igual, mas o mundo tinha mudado. Quando o conflito se desmancha o sofrimento desaparece. A experiência pela conquista da paz é exclusiva do laboratório intrínseco. Não há outro modo. Não se trata de se tornar um sujeito conformista ou apático. Ao contrário, entender onde reside o poder de transformação da realidade é revolucionário e necessita de uma atividade intensa, ampla e profunda. O monge é a evolução do guerreiro.

Fui recebido com alegria pelo casal que administrava o restaurante. Eu já era conhecido deles, pois costumava comer ali. Os dois faziam todo o serviço. Cozinhavam, limpavam e atendiam aos clientes. Fui acomodado em uma das quatro mesas que cabiam na pequena sala da casa. Ao final da refeição, vieram conversar comigo. Indagaram sobre os problemas surgidos com a crescente procura por acomodação na estalagem da vila. Expliquei o que acontecia e ofereci o meu ponto de vista. Eles perguntaram se eu voltaria para as aulas no ano seguinte. Respondi que, embora tivesse vontade, ainda não sabia se teria condições de retornar. Porém, tinha convicção que prosseguiria os meus estudos do Tao Te Ching, fosse de um jeito, fosse de outro. Então, o marido ofereceu para que eu, da próxima vez que viesse à vila, me hospedasse no quarto do seu filho que estava vazio, pois o rapaz cursava uma universidade em Pequim. Ele me cobraria a metade do preço que eu pagaria na estalagem. Sorri e, antes de dizer que aceitava, foi impossível não pensar que a oportunidade surgira justamente quando toda a situação já estava solucionada dentro de mim. Seria brincadeira do destino ou sincronicidade? Falei que estava combinado, eu ficaria hospedado na casa deles, mas quis saber o motivo de eles terem me convidado ao invés de outro dos muitos alunos que também faziam as refeições ali. Foi a esposa quem explicou: “Percebemos que você é um homem pacífico. Não desejamos as vibrações de pessoas agitadas em nossa casa”.

No dia seguinte, Li Tzu já estava sentado com uma xícara de chá à frente quando cheguei à sua casa. Outra xícara estava posta na mesa do lado oposto ao seu. Ele sorriu como se estivesse à minha espera. E estava. Fez um gesto para eu me acomodar. Sentei-me, bebi um gole do delicioso chá e agradeci por ele ter me ensinado sobre o laboratório intrínseco. O mestre me corrigiu: “Não fui eu, foi Lao Tsé”. Contei sobre os fatos ocorridos no dia anterior. Narrei a incrível sintonia entre o meu momento e o convite que tinha recebido para me hospedar na casa do simpático casal. Comentei que o fato ocorrera após eu entender a diferença entre o preço do vaso e o valor da sua utilidade. 

Li Tzu sorriu e me ensinou uma lição inesquecível: “O acaso não existe. Sincronicidade é uma das manifestações da Lei Cósmica de Causa e Efeito em infinitos movimentos de aprendizado, justiça, sabedoria e amor”. Deu de ombros como quem diz o óbvio e me ofereceu uma explicação definitiva: “São os passos iluminados que mantêm o caminho protegido”. 

Imagem: Konstatin Popov – Dreamstime.com

Discussões — 13 Respostas

  • Carlos Roberto 15 de junho de 2020 on 15:03

    cabra bom!

  • Michelle 28 de maio de 2020 on 10:33

    Seus textos me ajudam muito …

  • Márcia Campos 21 de maio de 2020 on 18:34

    Muito muito agradecida Yoskhaz 🙏🙌🌹
    SEMPRE ampliando nossas consciências

  • Haian 19 de maio de 2020 on 00:46

    Gratidão mano!!

  • Adélia Maria Milani 15 de maio de 2020 on 15:34

    Gratidão…mil vezes.!!!!!!

  • Rejane Cipriano 13 de maio de 2020 on 05:12

    Gratidao infinita pela mensagem de luz.

  • SCHWEITZER 13 de maio de 2020 on 00:25

    Espetacular, amei especialmente quando vc diz que o mundo e um reflexo nosso, que quando mudamos, o mundo muda conosco. Uma brilhante abertura com uma ainda mais iluminada conclusão.

  • Yoskhaz Fernando Cesar Machado 12 de maio de 2020 on 11:09

    Trinta raios, um numeral. Perdoe o meu erro gramatical…

  • Fernando Cesar Machado 12 de maio de 2020 on 06:02

    Tenho só uma duvida irmão, no trecho do Tao, é mesmo tinta raio ou seria trinta raios? no mais, gratidão profunda e sem fim,
    sem fim…

  • Juliana Gaião 11 de maio de 2020 on 22:18

    Grata!

  • Sandro de Abreu 11 de maio de 2020 on 15:16

    Acompanho seu trabalho ha três anos e toda vez que venho em busca dos seus textos sinto que eles falam comigo pessoalmente, conhecendo minhas virtudes e as minhas dificuldades.
    O meu mais sincero OBRIGADO!
    Esteja aonde estiver e sendo quem for, te desejo muito sucesso e por favor, continue o belo trabalho…
    Um imenso abraço com todo carinho e respeito que você merece…

  • Hélio Proença 11 de maio de 2020 on 14:52

    “Quando não compreendemos uma paisagem no mundo significa que existe algo em nós ainda imperfeito à espera de entendimento”.

    Quando caminhamos com esta consciência estamos abertos para encontar mos conosco, trazendo luz pra nossas sombras e fazendo os aprendizados que nos levará á próxima estação…

  • Yoskhaz 11 de maio de 2020 on 07:22

    Peço desculpas por ontem ter publicado, por engano, o rascunho com o texto ainda incompleto. Espero que gostem do resultado final!!!