Para recomeçar é preciso reconstruir

Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom de perpetuar a sabedoria do seu povo através das histórias que contava, acendeu o fumo no seu indefectível cachimbo com fornilho de pedra vermelha, baforou algumas vezes e deixou o olhar vagar pela infinitude da noite. Estávamos sentados na varanda da sua casa quando fui surpreendido com a chegada de um dos seus sobrinhos-netos. Percebi que Canção Estrelada o aguardava, não apenas pelo sorriso alegre, mas por já o orientar a deixar a sua mala no pequeno e arrumado quarto que havia no sótão da casa. Zaltana tinha cerca de trinta anos, era alto, atlético e com os cabelos longos, ao estilo dos Navajos. Simpático e gentil, nos cumprimentou e, após guardar as suas coisas, se sentou ao meu lado. Pareceu-me bem-disposto apesar da longa viagem que fizera de carro desde Tampa, na Flórida, até Sedona, nas montanhas do Arizona. Ele olhou sério para o tio-avô e sibilou por entre os dentes: “Homem maldito”. Fiquei tenso por uma fração de segundo, até que no instante seguinte Canção Estrelada deu uma gargalhada divertida, logo acompanhada por Zaltana. Era uma maneira carinhosa de brincarem. O motivo eu fui saber logo depois. 

A mãe de Zaltana era a irmã caçula de Canção Estrelada. A diferença de idade entre os irmãos era grande, havia mais de vinte anos entre eles. Ela engravidara muito jovem, assim que ingressara na universidade. Embora o pai não se recusasse a cumprir com as obrigações em relação ao filho, se recusara a casar. A mãe ficou muito magoada e, como punição por um gesto que entendia se tratar de uma traição, passou a dificultar a convivência de Zaltana com o pai. Alguns poucos anos depois, ela se casou com outro homem, abandonou a faculdade, foi morar longe e teve outros filhos. A família sempre se apiedara da jovem que teve os sonhos interrompidos por causa da gravidez precoce e, mais, pelo fato de ter sido abandonada pelo pai do seu filho. O pai falecera alguns anos depois em um acidente de trabalho, sem que conseguisse restabelecer os laços afetivos com o filho. Como Canção Estrelada nunca compartilhou dessa ideia, pois considerava injusto o banimento paterno, manteve a amizade com o pai do seu sobrinho-neto até o último dia do dia sem fim. Por esta atitude, o xamã passou por um longo período de rejeição por parte da sua própria família. Daí a alcunha de maldito, como a irmã se referiu ao xamã por muito tempo. Zaltana cresceu com dificuldades no relacionamento com a mãe, que sempre projetava nele a decepção que tivera na gravidez e, sem se dar conta, o preteria em relação aos outros filhos. Ao contrário dos irmãos mais novos, Zaltana não conseguiu cursar a universidade. Sob o pretexto de que não era afeito aos estudos, foi incentivado a trabalhar desde cedo. Como na adolescência aprendera a fazer tatuagens, resolvera se dedicar a este ofício. Tudo seguia aparentemente bem, até que teve um grave problema. Após uma queda de motocicleta, perdeu grande parte dos movimentos da mão direita ao romper vários nervos e tendões, ficando impedido de tatuar, pois não tinha com a esquerda, nem de longe, a mesma habilidade. Chegou tentar a aplicar alguns desenhos na própria pele com a mão esquerda, mas os resultados foram desanimadores. Como a lesão era definitiva, ficou sem trabalho e, pior, sem profissão. As dificuldades se avizinhavam. Embora a família demonstrasse entender o seu problema, o apoio se limitou às palavras de incentivo. Lamentaram por ele, mas nada podiam fazer para ajudar. Na ausência de um apoio mais consistente, Zaltana se sentiu em queda no abismo existencial. Quando foi surpreendido por uma mensagem do tio malditoo convidando para passar um período sabático nas montanhas do Arizona.

Zaltana precisava se reinventar. Para tanto, era necessário se entender. Períodos sabáticos servem para isso.

Ouvi essa história ainda na varanda, contada pelo próprio Zaltana, que fez questão de acrescentar não ter qualquer rancor pelo fato de a sua família, ao menos aqueles com quem teve maior intimidade por toda a existência, não estarem disponíveis para ajudá-lo. Ele foi generoso ao manifestar o seu sentimento em relação a eles: “As suas vidas talvez sejam difíceis demais, impedindo que haja espaço interior onde eu possa me aconchegar até me restabelecer e entender por onde seguir”. Ofereceu um rápido, porém significativo, olhar demonstrando reconhecimento e gratidão ao tio-avô por aquele momento de acolhimento. Canção Estrelada que ouviu sem dizer palavra, ao final, estendeu o cachimbo com fornilho de pedra vermelha para Zaltana baforar. Estava selado um pacto de confiança e lealdade ao estilo Navajo. Vencido pelo cansaço após um dia cansativo, o rapaz pediu licença e foi se deitar.

A sós com o xamã, ponderei que talvez algumas sessões de fisioterapia ajudassem a recuperar, ao menos em parte, os movimentos perdidos, a ponto de Zaltana conseguir voltar a tatuar. Comentei que também poderíamos treinar a sua outra mão, a esquerda, para se tornar tão habilidosa como tinha sido a direita. Contei de alguns casos de superação que eu conhecia, fora os lindos exemplos de vidas que foram moldadas por artistas da própria existência, capazes de enxergar a realidade que havia por detrás das cortinas das dificuldades. Canção Estrelada concordou: “É verdade, as mais bonitas histórias são as de superação”, fez uma pausa breve e prosseguiu: “Principalmente, aquelas que, mais do que expandir os limites do corpo, ampliam as fronteiras da alma”. 

Baforou o cachimbo e concluiu: “Não existem duas histórias iguais. Há casos em que se deve ter firme determinação para prosseguir, outros nos quais é necessário recomeçar”. E concluiu: “Para recomeçar é preciso reconstruir”. 

Antes que eu pedisse para ele explicar aquelas palavras, o xamã disse que iria dormir. Nos dias seguintes, ao contrário do que eu imaginara, Zaltana não foi levado para fazer exercícios de fisioterapia. Fomos pescar em um belo lago, cavalgamos em lindas trilhas, ouvimos Canção Estrelada, sentado debaixo do carvalho que havia no quintal, contar as histórias ancestrais sobre a filosofia do seu povo aos moradores de Sedona, como fazia todos os sábados pela manhã. Também encontramos os amigos do xamã, cozinhamos, lemos alguns livros, conversamos sobre os mais variados assuntos. Nenhuma palavra foi dita sobre o problema de Zaltana. Sem nos darmos conta, o xamã já começara a atuar, purificando a aura do rapaz ao afastar as vibrações densas de dor e medo que o acompanhavam nos últimos tempos. A alegria e a leveza têm esse poder. Porém, não basta; é somente uma necessária preparação para as possíveis transformações. Após duas semanas divertidas, Canção Estrelada disse para pegarmos os cobertores, pois passaríamos a noite no alto da montanha, no seu lugar de poder

Na tradição nativa, lugar de poderé o local onde uma pessoa estabelece uma forte conexão com o lado invisível da vida, face a intensa ancoragem energética instaurada, passa a funcionar como um portal. Pode ser em uma igreja, templo, praia, cachoeira, floresta ou um cantinho sossegado da nossa casa. Cada indivíduo tem o poder de determinar o seu ou fazer bom uso daqueles já existentes. O de Canção Estrelada era em um platô no alto da montanha, onde uma árvore dependurada na beira do precipício mostrava um equilíbrio improvável. 

Foram quase duas horas de caminhada. Devidamente sentados em círculo, o xamã acendeu uma pequena fogueira ao centro e começou a rufar no seu tambor de duas faces uma canção ancestral. Ele pedia luz e proteção para aquele singelo, porém significativo, ritual mágico e sagrado. Magia é transformação; sagrado é tudo que nos torna pessoas melhores. A melodia nos embalava e parecia convidar as nossas almas a bailarem na grande sinfonia cósmica. Algumas músicas facilitam a condução à um estado alterado de consciência, no qual o fluxo de ideias e sentimentos trafegam com maior suavidade. Somente parou quando o céu trouxe as estrelas para participarem do cerimonial. Além da fogueira e das estrelas, tive a nítida sensação de haver luzes por todos os lados.

Então, Canção Estrelada pediu que Zaltana fechasse os olhos e se concentrasse nas suas palavras. Começou homenageando todos os antepassados e, em especial, o pai e a mãe do rapaz, assim como aos seus irmãos que mereciam respeito e gratidão por tudo que acrescentaram à vida dele. Tudo era alegria ou aprendizado. Mesmo as dificuldades, quando devidamente entendidas, também se tornavam alegrias. O Xamã recordou a existência de Zaltana desde o seu nascimento. Nenhum fato foi poupado; não houve censura nem melindre. Pude perceber as feições do rapaz, que ora se contraiam, ora relaxavam, conforme as palavras chegavam ao seu coração. Dores e delícias. Alguns acontecimentos ele acreditava não mais lembrar; outros, preferia ter esquecido. Franziu as sobrancelhas várias vezes como se espantado por Canção Estrelada saber tanto sobre ele. Quando todas as defesas montadas pelo inconsciente para enganar as dores restaram desmontadas, o xamã abordou uma questão angular para aquele momento na existência de Zaltana: “Lembra de quando, no ensino médio, as suas notas estavam ruins?”. O rapaz anuiu com um movimento de cabeça. Canção prosseguiu: “Foi dito que você seria reprovado se tentasse o acesso à universidade. Disseram, ainda, que nem todos nasceram para estudar. Muitos teriam vindo ao mundo para somente trabalhar. Ao contrário dos seus irmãos, todos aplicados aos estudo e que, posteriormente, alcançaram os seus diplomas universitários, o seu destino e capacidade eram outros”. 

Uma lágrima escapou pela face do jovem e ele explicou que abandonar os estudos, após completar o ensino médio, para começar a trabalhar tinha sido uma escolha dele, Zaltana. O xamã esperou que o ímpeto arrefecesse para continuar: “O Zaltana sempre se sentiu esquecido, deixado de lado. Tudo que ele quis o tempo todo era a aprovação da mãe, era vê-la feliz, porque de algum modo se sentia responsável pela suposta destruição dos sonhos de moça que ela um dia nutriu. Acreditava que ela abandonara a faculdade por causa do nascimento dele. Era como se, inconscientemente, a sua chegada tivesse furtado o mel da vida dela. Os porões escuros do inconsciente falavam para o Zaltana que não seria justo ele conseguir algo que impedira a mãe de alcançar. Havia muita culpa dentro dele e isto o paralisava. Por todo tempo, ele apenas queria ser considerado um bom menino, não dar trabalho nem trazer preocupações. Se tivesse de abdicar da própria vida para levar um pouco de alento para a mãe, faria sem hesitar. E fez”.

“De outro lado, a vitória do Zaltana, por menor que fosse, a incomodava como se a sua presença trouxesse a imagem e a força do pai do seu filho; como se ele a perseguisse e reavivasse as suas frustrações. Mostrasse tudo que ela poderia ser, mas não foi. Contudo, o destino dela se estabeleceu conforme as escolhas que ela própria fez. Responsabilizar o filho ou mesmo o pai, ainda que indiretamente, não era justo. Não, ela não fazia por mal ou porque não amasse o Zaltana, mas por não entender como essas emoções se embaralhavam dentro dela e ofuscavam o melhor entendimento. Por mais paradoxal que possa parecer, ela também sofria pelas dificuldades e dores do seu filho, porém, não sabia fazer diferente porque não entendia como as como o coração interfere na mente. Emoções e sentimentos aprisionam ou libertam os pensamentos”.

“A verdade é que Zaltana não é responsável pelas dores e nós existenciais da sua mãe. Nunca foi. Por mais que ele fizesse, nada teria força de cura”. O jovem interrompeu e quis saber por qual razão ele não conseguiria cessar os sofrimentos da sua mãe. O xamã explicou: “Dores e nós existem em razão de equivocadas percepções que temos quanto à realidade. Portanto, apenas a sua mãe pode fazer isso por si mesma. Contudo, esteja disposto a ajudá-la quando precisar”. 

As faces do rapaz estavam banhadas por lágrimas. Canção Estrelada alertou: “Assim como ela, você também precisa se livrar da culpa que o atormenta desde sempre. Se sentir raiva, escapará de uma sombra para se aprisionar em outra. Há que se ter amor para acessar a mais pura sabedoria. Ninguém consegue ser livre e feliz longe do perdão. É necessário perdoar a si e a ela. Perdoe também o seu pai; acredite, ele foi o melhor pai que o deixaram ser. Por diversas vezes, o impediram de conviver contigo”. 

“É preciso que você prossiga oferecendo o seu amor à sua mãe. Contudo, chegou a hora de resgatar a vida que você ofereceu em sacrifício a um altar sem luz. Não é necessário nem eficiente trocar uma vida pela vida de outra pessoa. Nunca funciona. Para manter acesa a luz de alguém, ninguém precisa se entregar à escuridão”.

“É justamente o contrário. Quanto mais intensa for a sua luz, maior iluminação haverá ao seu redor”. Zaltana indagou como poderia ter certeza da escuridão que o envolvia. O xamã explicou: “Longe da essência, distante de quem viemos ser”. Olhou para o céu por breves instantes e concluiu: “Todo sofrimento mostra uma parte desencaixada à espera de elaboração para se integrar ao todo”.

Ficamos sem dizer palavra por um tempo que não sei precisar. Zaltana precisava alocar as novas ideias. Foi o próprio rapaz quem rompeu o silêncio ao comentar que estava na hora de recomeçar. Iniciaria a fisioterapia no dia seguinte e também aperfeiçoaria as habilidades com a mão esquerda. Ele me pareceu satisfeito com as próprias resoluções. Alegrei-me também ao ver tamanho entusiasmo. Canção Estrelada nos corrigiu: “Isso não seria recomeçar, mas prosseguir. Existe a hora de prosseguir e há o momento de recomeçar. Ambas são atitudes valiosíssimas, mas há que se entender quando se aplicam”. 

Eu perguntei como decidir por qual dos movimentos. O xamã foi claro: “O sonho, o plano de voo de uma existência, é determinante para esse entendimento”. Olhou-nos com doçura e disse: “Quando alguém vive o seu sonho e encontra uma das muitas dificuldades que precisam estar presentes para o fortalecimento das asas, irá ajustar a rota, realizar modificações intrínsecas e seguirá em frente. No entanto, quando estamos fora do nosso sonho, a vida virá demolir tudo que acreditamos nos sustentar. Agradeça a dádiva. Não é hora de adequações, mas de transformações. Não é momento de prosseguir, porém, de recomeçar. Para recomeçar é preciso reconstruir”.

“Para tanto, indispensável reinventar um caminho diferente. Ninguém consegue isto sem estar em sintonia com a face mais sagrada do ser, aquela que dirá a você mesmo quem você é. Lá estará também toda a sua luz”.

“Tudo que você é e fez o ajudou a chegar até aqui. A partir deste ponto será necessário ser e viver de um jeito que até pouco tempo era inimaginável, mas se tornará essencial para uma nova realidade”.

Diante do olhar atônito de Zaltana, ele foi ao cerne da questão: “Feche os olhos e retorne ao dia em que decidiu abdicar da faculdade para se dedicar somente ao trabalho como tatuador. Não há nada de errado com esta belíssima atividade, no entanto, examine se esse era o sonho de Zaltana. Seja sincero consigo para que possa ser honesto com a vida”. O jovem demorou para voltar no tempo e se ambientar àqueles dias tão distantes. Canção Estrelada o orientou a observar aquele momento tão difícil, não como protagonista, mas como um espectador privilegiado. O distanciamento facilitaria a lucidez necessária a uma leitura isenta de todos os fatores que o influenciaram a fazer a escolha que não fez, mas achava que tinha feito.

Em seguida, explicou: “As escolhas não eram livres em razão de múltiplas circunstâncias que o aprisionavam em si mesmo”. Franziu as sobrancelhas e, em tom sério, avisou: “Não lamente nem se faça de vítima, apenas os tolos fazem isto. Agradeça de todo o coração o caminho vivido e aprenda com ele. Somente assim poderá alcançar inacreditáveis altitudes”.

Canção Estrelada tornou a rufar no tambor de duas faces uma melodia compassada para facilitar a Zaltana a mergulhar em suas verdades mais profundas e revelar a peça intrínseca que faltava para as mudanças angulares que a vida oferecia. O jovem voltou a chorar. Bem mais forte desta vez. Ele soluçava a ponto de se engasgar com as próprias lágrimas. O tambor continuou tocando como se a música não tivesse fim. Aos poucos, Zaltana se acalmou e fez um gesto com a mão. O tambor cessou e Zaltana confessou, em voz baixa, como se tivesse descoberto um segredo guardado dele mesmo: “Eu sempre quis ser advogado”. Antes que alguém manifestasse surpresa, ele continuou a falar: “Desde pequeno, eu adorava assistir os filmes sobre julgamentos nos quais uma covardia parecia imperar, mas o trabalho brilhante do advogado conduzia o processo um veredito justo. Todos os dias, antes de dormir, eu imaginava solucionar os casos mais complicados e desejava dedicar a minha vida na proteção e defesa de pessoas desamparadas ou inocentes. Mas eu nunca acreditei no meu sonho”.

Tive uma rápida, porém significativa, troca de olhares com Canção Estrelada. Ali estava a pedra angular da reconstrução. O xamã arqueou os lábios em leve sorriso e disse: “Não podemos abandonar quem viemos ser”. Assustado com a ideia que tomava forma, Zaltana disse que considerava tarde demais para ingressar na faculdade. Canção Estrelada o corrigiu: “Os sonhos não envelhecem. Eles não pertencem ao corpo, são propriedades da alma imortal”. 

Em seguida, comentou que a Universidade do Arizona tinha planos de acesso para alunos com mais idade. Propôs ajudá-lo no que fosse preciso. Contudo, o essencial dependia tão e somente de Zaltana: “Uma vontade firme e inabalável para se reconstruir”.

No dia seguinte, o projeto de reconstrução de Zaltana foi iniciado. O acidente demolira o passado; o presente começava a erguer um futuro diferente. A vida estava no seu recomeço. Quando retornei ao Rio de Janeiro, a documentação para que ele cursasse a Faculdade de Direito tinha sido protocolada. Eu levava a certeza que o tombo da motocicleta que lesionara a mão do rapaz não fora uma desgraça, mas um convite. Ainda que entregue de maneira estranha, sem dúvida, era um lindo e interessante convite.

Nos anos seguintes, nas vezes que estive em Sedona para aprender sobre o Xamanismo com Canção Estrelada, não encontrei com Zaltana, que estudava em Phoenix, a metrópole mais próxima das montanhas. Soube que ele era um aluno não apenas dedicado, mas também entusiasmado. “São coisas distintas”, explicou o xamã: “A dedicação está ligada ao tempo oferecido para a execução da tarefa, algo bem valioso. O entusiasmo se refere ao empenho da alma para viver o próprio sonho, isto é imprescindível”. 

Até que recebi um e-mail de Zaltana me convidando para a sua formatura. Sentado ao lado de Canção Estrelada, me emocionei na cerimônia ao vê-lo de beca e, ao final, fazendo, junto com os demais formandos, a tradicional chuvade capelos, como se chama o chapéu usado na formatura de graduação. Soube que ele tinha sido contratado para advogar em uma organização garantidora dos Direitos Civis. Depois, abraçou longamente o homem malditoe disse: “Gratidão infinita”. Em seguida, Zaltana explicou: “Gratidão não é um mero agradecimento, mas um reconhecimento pela mudança de olhar. Isto aprimora o ser e aperfeiçoa o viver”. Com os olhos marejados, tornou a repetir: “Gratidão pela transformação oferecida”. Canção Estrelada o corrigiu com sinceridade: “A transformação já estava pronta dentro de você e apenas aguardava que acreditasse na sua própria capacidade de recomeçar. Isto se chama fé. Ter é fé em si mesmo equivale a fé no Grande Espírito; Ele o habita, você é parte Dele. A minha participação foi muito pequena; em síntese, eu somente disse que sempre vale a pena tentar”.

“A fé na sua própria força o permitiu percorrer o caminho; seria impossível de outro modo. A festa é sua, moço. Comemore cada uma das suas conquistas!”. 

Voltaram a se abraçar. Foi quando o xamã disse que trouxera um presente para ele. Com o queixo apontou para onde a sua mãe o aguardava aos prantos. A vida vale por cada dia, mas dias assim valem uma existência. Enquanto Zaltana confraternizava com a mãe e os colegas, a sós, sentamo-nos em um dos muitos bancos espalhados pelos belos jardins da Universidade, distante o suficiente do burburinho da formatura. Comentei sobre a importante lição de saber diferenciar a hora de prosseguir e o momento de recomeçar.

Canção Estrelada sorriu e disse: “Muitos falam sobre a capacidade das águas de um rio em chegar ao mar por contornar os obstáculos que se opõem em sua trajetória. É verdade. Adaptabilidade e resiliência revelam sabedoria e permitem a evolução. Contudo, a sabedoria não é estática, tal e qual a evolução, exige movimentos incessantes em infinitas direções. Muitas são as estradas que levam à Luz. Existe o momento em que ao encontrar com as pedras, as águas entendem que o curso daquele rio não mais as entusiasma em prosseguir. Muitas desistem e, ao permanecerem paradas, irão apodrecer. Entretanto, há aquelas que, ao invés de contornar os obstáculos, como algumas, ou ficarem estagnadas nas margens, como outras, decidem por mudar a própria trajetória de modo angular. Nem todas as águas de um rio podem seguir um mesmo curso. Assim surge a bifurcação que origina um novo rio que também chegará ao mar, porém, por outro caminho. Aquele que ele escolheu para si”.

Imagem: Lukasz Janyst – Dreamstime.com

Discussões — 15 Respostas

  • ADELIA MARIA MILANI 2 de agosto de 2020 on 21:57

    “Gratidão não é um mero agradecimento, mas um reconhecimento pela mudança de olhar. Isto aprimora o ser e aperfeiçoa o viver”. GRATIDÃO !!!!

  • Rodrigo Carvalho 22 de julho de 2020 on 16:19

    Lindo texto, bela mensagem…. Gratidão!!!!!

  • Santana 18 de julho de 2020 on 13:33

    🙏🏽🌵

  • Hélio Proença 26 de junho de 2020 on 13:55

    “Não podemos abandonar quem viemos ser”. Como é importante o conhece te a ti mesmo…olhar no mais profundo da nossa alma para o encontro conosco, e assim poder fazer da nossa jornada uma alegre e sonora canção.

  • Viviane Barbosa 22 de junho de 2020 on 10:51

    Eu ameiii esse texto, fez um sentido incrível para mim.

    Gratidão infinita por sua disposição em escrever.

    Proteção e Luz!!!

  • Leandro Moller 17 de junho de 2020 on 14:31

    Lindo texto,lindas metáforas. Como sempre…

  • Vanessa Lima 15 de junho de 2020 on 00:38

    Que texto maravilhoso! Incrível!! 😍

  • Aléxia 14 de junho de 2020 on 14:25

    Não teria outra palavra a deixar aqui a não ser gratidão. GRATIDÃO Yoskhaz.

  • André Moraes 14 de junho de 2020 on 12:12

    Linda mensagem sobre os caminhos da vida.
    A algum tempo venho aprendendo atravéz da filosofi,a e também dos seus escritos, que os problemas são professores brilhantes se prestarmos mais atenção as mensagens que podem estar contidas neles…

  • Ijuciara 13 de junho de 2020 on 22:28

    Caríssimo Yoskhaz suas palavras ganham vida nas experiências vividas por essa leitora. Gratidão por compartilhar o conhecimento do “Torna-a ti mesmo” de forma doce, suave e tocante no mais profundo do meu ser!
    Gratidão

  • Alexandra 13 de junho de 2020 on 12:32

    Sinto minha alma se mover quando leio esses textos! Gratidão!

  • Caroline 13 de junho de 2020 on 07:23

    Iniciar o dia com suas palavras em meu coração que maravilhoso é! Infinita gratidão!!!

  • Fernando Cesar Machado 12 de junho de 2020 on 05:21

    Gratidão profunda e sem fim irmão das estrelas,
    por nos ajudar enxergar novos percursos a seguir,
    e um novo modo de olhar.

    Gratidão infinita…

  • Cintia Faro 11 de junho de 2020 on 22:08

    Perfeito em tocar a alma! Gratidão, Yoskhaz, por tanta transformação!!!

  • Terumi 11 de junho de 2020 on 14:56

    Gratidão! 🙏