O mel da vida

Era uma manhã de sábado. Em Sedona, nas montanhas do Arizona, Canção Estrelada, o xamã que tinha dom de polinizar a sabedoria do seu povo, estava sentado debaixo do grande carvalho que havia no quintal da sua casa. As pessoas chegavam de diversos lugares para ouvir as suas histórias. Havia tempo que esse alegre cerimonial se estabelecera, desde que fora impedido de fazer o mesmo nas escolas por causa de uma lei que exigia um diploma universitário que ele não possuía. Passara, então, a contar as histórias no espaçoso gramado que existia na frente da varanda da sua casa. Famílias se sentavam sobre mantas e abriam as cestas com lanches que traziam. Compartilhavam a merenda enquanto as crianças corriam soltas e divertidas, até que às nove horas o xamã iniciava uma linda história. Ele nunca as repetia. Daquela vez, foi diferente. Diante do absoluto silêncio que se instaurava quando o xamã começava a falar, Canção Estrelada surpreendeu a todos: “Não haverá mais histórias. Creio que não me recordo de mais nenhuma. Acredito que toda a filosofia ancestral do meu povo já foi transmitida a vocês nos últimos anos. Agora é a hora seguinte, aquela na qual colocamos o conhecimento que adquirimos em ação e, assim, o transformamos em sabedoria. Conhecimento inerte é somente erudição; é como um artista sem obra. É como abelha que nega a própria essência ao se recusar a fabricar o mel”.

No mesmo instante se instalou um burburinho que foi escalando tons até me parecer que uma enorme confusão aconteceria. Algumas pessoas entenderam a postura do xamã e foram agradecê-lo por todo ensinamento transmitido durante tanto tempo. Admitiram que ele fornecera valiosas ferramentas para que todos conseguissem moldar as próprias vidas com a mestria que já eram capazes. Expressaram gratidão. Estavam sendo sinceros, mas foram poucos a se comportar assim. A maioria estava revoltada e reclamava muito. Algumas crianças, assustadas, começaram a chorar. Uma moça, com cerca de trinta anos de idade, muito inteligente e com um bebê no colo, era a mais articulada. Declarava-se traída. Alegava que o xamã não tinha o direito de interromper o tradicional ritual sem, ao menos, preparar um substituto ou avisar a todos com antecedência. Afinal, aquelas histórias já faziam parte das suas rotinas e as ajudavam muito pelo bem-estar que proporcionavam. Reconhecia que Canção Estrelada nunca cobrara nenhum centavo pelo trabalho que realizava, mas isto, não o isentava da responsabilidade com aquelas pessoas. Comparou-o ao pai que sempre alimentou o filho e, de repente, o deixa morrer de fome. Com o dedo em riste, citou uma frase célebre de um talentoso escritor dizendo que o xamã era responsável por tudo aquilo que ele cativou. Foi muito aplaudida. As reclamações subiram muitos degraus.

De onde eu estava, na varanda, olhei assustado para Canção Estrelada. Para a minha surpresa, ele estava impassível. Não sorria nem demonstrava aborrecimento. Apenas olhava com a curiosidade e encantamento de um garoto em visita ao museu ou no circo. Vitrines expondo o desconhecido, ribaltas apresentando o inusitado. Ao contrário do que se pode imaginar, não era descaso; havia um profundo respeito em seu olhar, como de um aprendiz diante de um mestre com um improvável jeito de ensinar.

Depois que todos foram embora, Canção Estrelada começou a varrer o quintal como sempre fazia todos os sábados. Tinha no rosto as mesmas feições serenas, como se nada de extraordinário houvesse acontecido. Ajudei-o na tarefa sem trocarmos palavra. Mais tarde, à sós na varanda, sentado em sua cadeira de balança, enquanto acendia o seu indefectível cachimbo com fornilho de pedra vermelha, comentei sobre a confusão daquela manhã. Eu quis saber o motivo pelo qual ele tinha resolvido não mais contar histórias. Afinal, ele estava abandonando o seu dom e, para usar uma expressão utilizada por ele mesmo, era como se a abelha se recusasse a fazer mel. O olhar do xamã vagava ao infinito, como se visse algo que ninguém mais via. Baforou o cachimbo algumas vezes, sem pressa, e disse: “A abelha nos ensina o valor de trabalharmos para um bem comum. No entanto, uma não interfere na atividade da outra, tampouco se prejudicam. A medicina xamânica da abelha nos fala sobre liberdade e responsabilidade; individualidade e coletividade; comprometimento e alegria. Tudo e todos em harmonia”.

“A liberdade está atrelada a responsabilidade, principalmente quanto à dignidade das relações. Podemos muito, temos um universo amplo de possibilidades, mas ninguém pode tudo. Não posso pegar o que não me pertence, interferir abusivamente nas escolhas alheias, tratar as pessoas como se fossem objetos, impor a minha verdade como se eu a detivesse em monopólio. Quando insisto nestas práticas, crio problemas. De outro lado, a minha responsabilidade com a coletividade não poder se tornar maior do que a minha liberdade de fazer diferente, de caminhar onde ninguém nunca ousou ir; de entender que, quando os planos que os outros fizeram para mim são diversos daqueles que eu mesmo tracei para o meu destino, tenho o direito de decidir em ser quem sou, sem que isso me caracterize necessariamente como um sujeito egoísta. Se faz necessário manter o sabor da individualidade para não se perder o gosto pela coletividade”. 

“Se aprendo com os meus erros, não há razão para ter medo deles. A liberdade me diz que tenho o direito de errar e a responsabilidade me lembra que terei de arcar com os seus inevitáveis efeitos. Impossível escapar desta equação de aprendizado, justiça, sabedoria e amor. Eis a necessidade de viver a realidade sempre de modo coerente com a verdade já alcançada. Isto me justifica diante dos meus próprios equívocos e me ensina a fazer de uma maneira nunca antes imaginada diante de uma nova oportunidade. E a vida nunca nega mais uma chance quando estamos em sintonia com ela”.

“A construção de um indivíduo virtuoso é o pilar indispensável para se erguer uma sociedade justa. Não existe um código jurídico capaz de harmonizar uma cidade onde a população seja composta por pessoas infelizes ou desequilibradas. No máximo conseguirá acuá-las através do medo e do terror. Impossível pacificar um povo cujas pessoas são viciadas em ódio e se regozijam com notícias e cenas violentas. Ninguém terá um corpo saudável se as suas células estiverem doentes. De outro lado, nenhuma atividade que, de algum modo, não vise o bem-estar social será benéfica ao próprio indivíduo a longo prazo. A parte precisa estimular a melhora do todo, ainda que não seja compreendida pelos seus pares nos movimentos iniciais. O novo costuma assustar na sua chegada, mas depois do impacto provocado pelas mudanças que surgem, se mostra fundamental à regeneração da vida”. 

“Pode haver uma existência sem comprometimento, jamais uma vida. Uma existência eufórica é muito diferente de uma vida alegre. A euforia trata do divertimento mundo afora, a alegria se refere a um encantamento universo adentro. A alegria surge na percepção de cada etapa evolutiva alcançada, ainda que mínima. Está presente, também, na sensibilidade refinada pelas relações que se apresentam em nossas vidas. Tanto aquelas que nos deliciam com a beleza do amor presente, como também nos relacionamentos que ensinam sobre o amor ausente, aquele que ainda não temos. Então, nos impulsionam a ir aonde nunca estivemos. Isto é motivo de alegria. A vida se expande no compasso de cada indivíduo. Somente assim as sociedades avançam. Qualquer outro jeito é mera maquiagem”. 

“Todos, de um jeito ou outro, são fundamentais. E precisam se tornar fontes de alegrias. Diferente disso, ouviremos música sem melodia; assistiremos correria sem movimento. Você não conhecerá o fruto doce da alegria enquanto não entender que a raiz dessa árvore é o compromisso com a evolução. Sem amor não existe comprometimento, apenas obrigação. Então, haverá apenas cansaço. Os dias continuarão pesados e com o gosto amargo deixado por uma vida sem transformação. Você buscará por momentos de euforia na tentativa de esquecer uma realidade vazia pela ausência de sentido”.

Como se adivinhasse a minha próxima pergunta, disse: “A responsabilidade que tenho com quem amo não pode estar em descompasso com o comprometimento que tenho comigo, pois, do contrário, serei incoerente com a verdade que me serve de farol. A responsabilidade que tenho contigo é limitada ao compromisso que você deve ter consigo mesmo de avançar por vontade própria. O amor que cria dependências desnecessárias não é amor, mas abuso e dominação; capataz e servidão; fardo e medo”.

“O amor não floresce longe da liberdade e da dignidade; sem ele não se vive a paz nem se conhecerá a felicidade. O amor são as velas que impulsionam o barco rumo à evolução, a vontade são é ventos. A sabedoria é o leme que o impede de navegar à deriva”. 

Eu quis saber a razão de ele não mais contar as histórias que mantinham viva a filosofia do seu povo. Canção Estrelada me surpreendeu: “Você já viu uma abelha parar de fazer mel? Eu não parei, é o meu dom. Penso em seguir contando histórias até o dia da minha viagem rumo ao Grande Mistério”. Atônito, lembrei sobre o fato ocorrido naquela manhã. O xamã me causou espanto: “Algumas das melhores histórias são aquelas nas quais os espectadores participam como personagens”.

Curioso, indaguei sobre os próximos acontecimentos. Ele deu de ombros e disse: “Essa é uma daquelas histórias que nem mesmo o narrador conhece o final, pois ele também aceitou participar como um dos personagens”. O xamã colocou o dedo diante dos lábios como quem pede segredo.

Os dias se passaram. Em todos os lugares que eu ia, as pessoas comentavam sobre a decisão de Canção Estrelada não mais contar as suas famosas histórias. Como naquele sábado no quintal da sua casa, algumas se mostravam gratas pelo bem semeado durante tanto tempo; outras estavam amarguradas e o consideravam egoísta ou preguiçoso. Houve quem classificasse o xamã como vaidoso, por acreditar que o seu objetivo seria que as pessoas implorassem pelo retorno das cerimônias. Achei por bem comentar o que tinha ouvido para que ele estivesse preparado para todo tipo de reação. Canção Estrelada arqueou os lábios em sorriso e falou: “A indignação retrata os interesses e certezas de alguém. Revela o conteúdo do seu coração. Apesar de merecer o meu respeito e ponderações, não tem poder de coagir a minha verdade”.

Ele olhava para o céu repleto de estrelas ao se virar para mim e me lembrar: “O ódio de ninguém terá força para esmorecer o amor que trago em mim”. Esperou que eu alocasse a frase e avisou: “Nunca esqueça disso. Sempre será necessário”. Antes que eu esboçasse qualquer comentário, pediu licença e foi dormir.

No final de semana seguinte aconteceria uma das mais tradicionais festas de Sedona. No topo de uma colina, onde funcionava o aeródromo da cidade, foi montado um palco para shows e, ao redor, diversas barracas com guloseimas, bebidas e comidas típicas. Na tarde de sábado, começaram os festejos. Fui para o local junto com Canção Estrelada, mas logo o perdi de vista. Não dei muita importância. Bandas locais tocavam músicas regionais, intercaladas com espetáculos de dança. Todos estavam animados e eu me divertia muito ao lado de um grupo de amigos. No meio da noite, o simpático prefeito da cidade assumiu o microfone para os agradecimentos habituais. Em seguida, para surpresa geral, inclusive a minha, anunciou um conhecido artista nativo. Sim, era ele, Canção Estrelada. Fiquei preocupado quando ouvi uma enorme vaia. Muita gente ainda estava chateada com o xamã. Vi quando a mesma moça articulada que estava na casa dele gritar: “Suma daqui! Você nos abandonou. Não o queremos mais! Vá embora!”. Isto levou outras pessoas a engordarem os protestos. Embora nem sempre percebamos, o ódio é uma droga que possui um enorme número de viciados; é de rápida propagação e possui uma grande aceitação quando oferecida. O mais grave é o fato de os seus adeptos não reconhecerem o uso que fazem, pois é uma substância ingerida sem matéria, que não precisa ser comprada nem preparada para consumo. Ela está pronta há séculos e paira à disposição em determinadas faixas astrais; basta o indivíduo se conectar. A maioria nem nota o próprio vício. 

Preocupado, corri para frente do palco. A serenidade de Canção Estrelada se mantinha inabalável. Naquele instante entendi a força que nasce quando nos mantemos no eixo da verdade intrínseca, aquela que não se mistura com o medo alheio, a escuridão do mundo ou interesses menores. Um poder que não se assusta com a reação impulsiva da manada nem com os gritos de quem usa palavras como se fossem pedras. Almas como as do xamã escolheram a liberdade como via evolutiva. Não existe liberdade sem amor. Naquele instante, compreendi a dimensão pessoal da verdade como o fator determinante para quem usa algemas ou asas. O grau de verdade (ao nível que cada um a conhece) aplicada à vida estabelece a coerência que temos conosco e a sintonia que mantemos com a Luz.

Sem se abalar, sentado em um banquinho, o xamã rufou o seu tambor de duas faces com suavidade. Devido ao burburinho, nada se ouvia. Ele não pareceu se importar e continuou tocando baixinho. Aos poucos, os protestos arrefeceram e pudemos perceber se tratar de uma cantiga ancestral de melodia bem compassada. Como muitos a conheciam, acompanharam o xamã quando ele recitou, em dialeto nativo, o poema que fazia parte da música. Eu não conhecia o significado das palavras, mas sabia que falava sobre o mel produzido por uma abelha, utilizado para alimentar toda a colmeia. Encerrava dizendo que o mel explicava à abelha o sentido da sua vida. Exercer o dom concede esse poder; ninguém pratica o dom sem amor. Percebi um agradável e crescente sentimento. Algumas pessoas cantavam emocionadas para si mesmas, como se conseguissem abraçar as estrelas por intermédio da canção.

Ao terminar, quando todos esperavam por outras cantigas, uma maravilhosa surpresa. O xamã começou a narrar: “Quando os bisões ainda eram incontáveis nas planícies desta terra, existia uma aldeia…”, e foi interrompido por um estrondoso aplauso. Um jovem casal ao meu lado, de mãos dadas e lágrimas nos olhos, comemorava: ele voltou, ele voltou. Quem nunca esteve nas montanhas do Arizona, talvez ache um despautério a grandeza das emoções e sentimentos a envolver tanta gente naquele dia. Ocorre que a maioria daquelas pessoas tinha a base filosófica das suas vidas alicerçadas nas histórias contadas, havia décadas, por Canção Estrelada. Embora pouca gente desse conta, aquela atividade simples, de rotina corriqueira, erguera os pilares existenciais de várias gerações. No entanto, enquanto uns foram gratos, outros se sentiram abandonados quando ele avisou que fizera uma escolha diferente. Percepção e sensibilidade. A diferença se explicava pelas lentes e filtros que cada já era capaz de usar para viver. 

Canção Estrelada aguardou o silêncio retornar e prosseguiu: “Era uma aldeia muito próspera e tranquila. Todos os habitantes se dedicavam ao cultivo do trigo, devidamente organizados em suas funções. Preparação do solo, adubagem, semeadura, cuidados com a germinação, proteção contra pragas, irrigação e colheita. Depois, enfardamento, transporte e venda de parte do trigo para outras aldeias. Também debulhavam a espiga para a preparação de pães, que seriam consumidos ou mercadejados. O dinheiro arrecadado servia para comprar outros alimentos e diversos utensílios para a aldeia. Tudo funcionava bem e todos estavam satisfeitos”.

“Certo dia, em uma das reuniões da tribo, um dos habitantes falou sobre a importância de diversificarem o cultivo, não apenas como forma de investimento, mas também de proteção. Cada produto traz em si características próprias de força e fragilidade. Alegou como isso era importante diante, não apenas diante às intempéries do clima, mas também quanto a impermanência da vida, que se modifica para que possamos avançar. As suas ideias foram rechaçadas de imediato. O argumento que mais se ouvia era por que mudar algo que sempre deu certo?”.

“Falaram, ainda, que o pão era o alimento básico de todos os povos e nunca deixaria de ser consumido. Não havia com que se preocupar nem motivos para mudar. Manitú, como se chamava esse homem, lembrou que entender as mudanças e ser afeito a elas é razão indispensável ao aperfeiçoamento que ninguém consegue fugir por muito tempo. Respeitar as mudanças ensina sobre a liberdade; é, também, o seu melhor exercício. No mais, diversificar era ampliar possibilidades, não significava virar as costas para a tradição nem renega os objetivos alcançados. Negar a convivência com as diferenças é apequenar o mundo; se fechar ao novo é restringir a vida”.

“Não teve jeito, ninguém entendia a necessidade do movimento e da mudança. Afinal, a vida estava confortável. Enfim, a proposta foi rejeitada. Esse habitante decidiu que, apesar do entendimento da tribo, ele cultivaria milho, ainda que sozinho. Houve muitos protestos e alegações de desvio de conduta; um comportamento que quebrava a unidade da aldeia. Ele argumentou que não alterava a harmonia da tribo, uma vez que o cultivo do milho em nada prejudicaria a rotina da plantação de trigo. Ele usaria terras que não eram utilizadas pela aldeia. Portanto, entendia que possuía direito a fazer tal escolha. Depois de muita discussão, se decidiu que ele poderia se dedicar à nova atividade, desde que não atrapalhasse a rotina da aldeia. Não sem antes lembrarem de como estavam sendo benevolentes. Decidiram, também, que ele não poderia mais participar das benesses proporcionadas pelo trigo nem compartilhar dos pães produzidos”.

“Embora ele tivesse sido expulso da tribo, havia um banimento silencioso, também conhecido como marginalização, ou seja, aqueles que não se adequam ou parecem não caber no curso dominante de uma sociedade são colocados à margem da vida comum. Não raro, se tornam alvo de críticas rasteiras, atiradores de pedras e afins. Lembram do incômodo que causam sem se importarem em entender as suas razões. Temos incrível facilidade de restringir as escolhas alheias para que não sejamos esbulhados em nossa comodidade”. Fez uma breve pausa, olhou para a plateia e comentou: “Falo por pura ilação, pois nenhum de nós seria capaz de semelhante prática”. Silêncio absoluto.

O xamã prosseguiu com a história: “Manitú passou por enormes dificuldades no primeiro ano. Sentiu-se isolado pela discriminação sofrida. As pessoas até mesmo se recusavam a conversar com ele. Mesmo tendo algumas economias, muitas vezes teve de comprar alimentos em tribos vizinhas ou com mercadores que visitavam a aldeia, pois os integrantes da sua própria tribo se negavam a fazer qualquer negócio com ele. Conheceu a fome e o abandono, mas não desistiu”.

“Então, veio o inverno mais rigoroso que se teve notícia. Nem mesmo os anciães lembravam de uma estação tão fria e inóspita. A maior parte do cultivo do trigo se perdeu. Na primavera, junto com a polinização, naquele ano veio também uma praga que deu fim ao que restava do trigo. O imponderável aconteceu. Todos ficaram assustados e desesperados. A aldeia funcionava em torno do cultivo trigo. Naquele ano não houve uma única espiga de trigo para debulhar”.

“Convocada uma reunião para debater soluções, nenhuma proposta se mostrava animadora por ter mais aspectos negativos do que vieses positivos. Porém, era preciso tomar uma decisão, nem que fosse a menos ruim”.

“Foi quando Manitú pediu palavra. Apesar de estranharem a sua presença, como integrante da tribo ele tinha o direito de estar ali e, mais importante, de se manifestar, mesmo que a contragosto de todos. Em verdade, as pessoas estavam tão desanimadas que nem mesmo se importaram muito. Em tom sereno e com grande clareza, Manitú disse que, por ser mais resistente ao frio e imune aquela espécie de praga que assolou o trigo, o cultivo do milho passara incólume àquele complicado período. Explicou que o solo da região era muito propício ao seu cultivo. A plantação crescera vertiginosamente e como possuía um ciclo agrícola mais curto, permitia mais de uma colheita a cada ano. Para surpresa geral, disse que precisaria de ajuda, não apenas para a colheita, mas também para a semeadura, cujo período logo se iniciaria. Propôs que as parte do cultivo de trigo da aldeia se transformasse em milho e se ofereceu para ensinar as técnicas de manejo que aprendera na prática, por se mostrarem úteis ao aumento da produtividade”.

“Sem dúvida, era a melhor proposta apresentada naquela reunião. Constrangidos, perguntaram ao Manitú como ele imporia as relações empregatícias. O bom homem propôs o inesperado: Eu compartilho a minha plantação com vocês e nos anos seguintes passo a fazer parte da colheita de trigo da aldeia. Era irrecusável, pois não geraria dívidas nem relações de dependências, vassalagem ou, pior, de submissão com as tribos vizinhas”. 

“Graças a Manitú, naquele ano a tribo não conheceu a fome e a miséria. Muito tempo depois, quando a aldeia tornara à prosperidade, foi preciso escolher um novo líder para tribo. O nome dele foi lembrado e aclamado. Contudo, mais uma surpresa. Manitú recusou. Propôs que, ao invés do poder ficar centralizado nas mãos de uma única pessoa, seria mais sábio formar um grupo de homens e mulheres que, por suas experiências e legados, estariam aptos para orientar os futuros rumos da tribo. Todos se encantaram com a ideia. Assim se originou o Conselho dos Anciões na tradição nativa, que tem como pilar dorsal o compromisso com a liberdade individual como fonte do bem-estar social”. 

Fez uma breve pausa para concluir: “O respeito ao jeito e às escolhas individuais é a base da liberdade coletiva. Sem aquele jamais haverá esta”. 

Emocionadas, as pessoas sorriam e aplaudiam ao mesmo tempo. Aqueles que estiveram na casa do xamã no dia que ele disse que encerraria a sua carreira de contador de histórias, tiveram a sensibilidade de se perceberem como personagens da história que ele acabara de narrar, feita com tamanha sutileza que, mesmo entendendo o papel que desempenharam, não se sentiram ofendidos. Ao contrário, estavam encantados pela delicadeza do aprendizado. Em agradecimento, Canção Estrelada apenas sorriu de alegria. Quando estava saindo do palco, se virou para a plateia e lembrou que os aguardava no sábado seguinte: “Estarei sentado aos pés do carvalho”.   

Mais tarde, na varanda de casa, o xamã acendia o seu indefectível cachimbo com fornilho de pedra vermelha, quando comentei que tinha sido uma das mais interessantes histórias contadas por ele, na qual ficção e realidade se misturam para ensinar uma valiosa lição. Canção Estrelada balançou a cabeça e revelou: “Não haverá mel sem abelha, assim como não existirá alegria sem liberdade. Esse é o fundamento da Medicina da Abelha na filosofia xamânica”. 

“Diferente da crença comum e, apesar da denominação concedida, uma colmeia não é dominada pela abelha-rainha. Esta, tem a importante função de mantenedora da espécie. Tão e somente. Cada abelha tem a exata compreensão do amplo exercício da sua liberdade, mas sabe, também, que não deve negar a prosperidade da colmeia. Aspectos que convivem em harmonia, pois, em contrapartida, nenhuma abelha será esquecida ou abandonada pela colmeia.” 

“Fazer a coisa certa é agir em coerência com a sua verdade, da maneira como já consegue entendê-la, ainda que mais ninguém o compreenda. Acredite, não é pouco. Contudo, não esqueça que o mel da vida, aquele ingrediente que anima os seus dias e fortalece as suas asas, não poderá ser negado a ninguém.” 

Eu quis saber o que seria esse tal mel da vida a que ele se referia. Canção Estrelada disse: “Existem muitas coisas maravilhosas na vida. Porém, para que os dias sejam alegres, se faz necessário entender o significado de cada uma delas”. Baforou mais uma vez, olhou para céu, deu de ombros e finalizou: “Sem amor ninguém encontrará o sentido de coisa nenhuma”.

Imagem: voxxphotografy – Dreamstime.com

Discussões — 9 Respostas

  • Adélia Maria Milani 2 de agosto de 2020 on 20:49

    Gratidão!!!!

  • Larissa Moraes 29 de junho de 2020 on 09:48

    Passei os últimos dias sendo rodeada por abelhas em circunstâncias curiosas. Me pareceu que existia ali uma mensagem. Hoje, quando depois de muito tempo sem abrir visitei o site, me surge à frente essa crônica maravilhosa. Ensinamento compreendido. Muita gratidão 🙏🌟

  • Margareth 27 de junho de 2020 on 16:58

    Gratidão , pela luz das suas palavras, Yoskhaz!

  • Izabel Paim 22 de junho de 2020 on 18:59

    Texto riquíssimo
    Fui lendo e anotando várias coisas .
    Gratidão !

  • Terumi 20 de junho de 2020 on 23:34

    Gratidão! 🙏

  • SCHWEITZER 20 de junho de 2020 on 02:43

    Espetacular.

  • Fernando Cesar Machado 19 de junho de 2020 on 06:26

    Gratidão irmão das estrelas,
    por nos emprestar,
    não só seus mestres e guias,
    não só suas experiencias e sabedoria,
    mas todo esse amor e magia que possui.

    Sonho com o dia em que
    essas histórias
    se tornem curtas ou até longas metragens,
    a difundir essa riqueza a toda gente,
    que tanto sente falta e é necessitada,
    assim como eu,
    assim como todos nós.

    Como sempre e por todo o sempre,
    gratidão profunda e sem fim Yoskhaz,
    sem fim…

  • Maurício Ionak Ferreira 18 de junho de 2020 on 23:07

    Incrível…é possível viajar no texto e refletir o quanto somos egoístas as vezes e não aceitamos as coisas ou queremos impor nosso modo de pensar ..muito gratificante 😍

  • Caroline 18 de junho de 2020 on 19:58

    A impressão de ser parte da história é tão real como yoskhaz ser real na minha vida ! Gratidão!