Perdidos

Esta história aconteceu havia muito tempo, na época em que eu dividia a responsabilidade de uma agência de publicidade com mais três sócios. Eu estava aporrinhado. Muito chateado mesmo. O mundo muda; a vida também. São reverberações inevitáveis das correlações necessárias entre percepção e sensibilidade. Não basta ver, é preciso sentir para que os dias não sejam como engrenagens que ajustamos para o correto funcionamento de uma máquina qualquer. De outro lado, sentir sem ver, é prosseguir por um desfiladeiro chamado sofrimento. Sabedoria e amor são pilares do bem viver; necessitam estar lado a lado. Naqueles dias, mês após mês, cresciam as divergências entre os sócios da agência. Não se tratava de questões financeiras, mas de rumos. A internet ganhava mais corpo a cada dia, mostrando uma força irrefreável. As mídias tradicionais, como TV, jornais e revistas, embora ainda fossem bem mais lucrativas, possuíam um futuro nebuloso e incerto. Especialistas faziam as suas previsões com pequenas variações. O motivo das desavenças eram justamente essas previsões. O destino da publicidade e, por consequência, de como deveríamos conduzir a agência, me parecia tão claro que as opiniões contrárias me irritavam profundamente. Chegado o período de férias, pensei em adiá-lo, preocupado em resolver essas questões com os meus sócios. Receava, também, que na minha ausência fossem tomadas decisões das quais eu discordava frontalmente. Havia algum tempo, eu tinha programado em percorrer o Caminho de Santiago em companhia de um amigo da Ordem, o Mário, um madrileno. Ele se dizia perdido e alegava precisar encontrar um rumo para a sua vida. Tinha sido aconselhado a fazer a famosa peregrinação. Pediu-me para acompanhá-lo, convite que aceitei de bom grado. Como não queria deixar de cumprir o compromisso que tinha com o Mário, viajei até Saint-Jean-Pied-de-Port, nosso ponto de partida, onde marcáramos de nos encontrar.

Ao chegar na pequena cidade francesa, recebi uma mensagem do Mário. Ele pedia desculpas, mas tinha desistido de percorrer o Caminho de Santiago. Explicou que encontrara as respostas que procurava e usaria aquele tempo para iniciar a nova rota da sua existência. Disse que estava muito alegre, me desejava uma boa caminhada e que eu encontrasse as respostas que eu procurava enquanto fizesse aquele trajeto. Por longos minutos, eu o odiei com todas as minhas forças, a ponto de sentir enjoo. Saíra do Rio de Janeiro, onde gostaria de ter ficado para resolver importantes questões profissionais, apenas para honrar o compromisso e a amizade que tínhamos para, depois de atravessar o Atlântico, ele me avisar que eu estaria sozinho. Irritadíssimo, eu rogava por uma compaixão que ainda estava longe de possuir. Eu não estava em busca de nenhuma resposta, não era eu quem estava perdido, repetia para mim mesmo. Decidi que também não iria. No dia seguinte providenciaria o meu retorno para casa. Jantei na estalagem onde estava hospedado, um estabelecimento dedicado a acomodar peregrinos. Uma comida simples, mas muito saborosa. A sala de refeições possuía uma única mesa coletiva. Um grupo de jovens conversava animadamente sobre o percurso que iniciariam no dia seguinte. Falavam das suas expectativas, das dificuldades que esperavam encontrar, das que não podiam prever e da capacidade de superação que teriam de descobrir em si mesmos para não sucumbirem ao Caminho. O Caminho de Santiago é utilizado como uma breve metáfora do Caminho da Luz. No entanto, aquele não substitui este.Como tem gente perdida no mundo, pensei. 

Ao me levantar da mesa, um dos rapazes perguntou se eu também caminharia até Santiago de Compostela. Respondi que não. Pedi licença, desejei uma boa viagem para eles e me retirei. Não tive um sono tranquilo naquela noite, pensamentos conflitantes me furtavam a tranquilidade. Na manhã seguinte, após tomar uma xícara de café, fui à recepção da estalagem para fechar a minha conta. Por me ver de mochila nas costas e por se tratar de um local que hospeda peregrinos, a simpática gerente me deu uma caderneta de apenas duas páginas, também conhecida como Passaporte do Peregrino, na qual eu deveria carimbar ao passar por determinados lugares durante o percurso. Em seguida, orientou que, ao sair da estalagem, bastava virar à esquerda e seguir em frente até Santiago. Agradeci, mas perguntei onde era o ponto de táxi. Decepcionada, a moça disse para, na saída, virar à direita.

            Na porta da estalagem, olhei para a direita. Uma fileira de táxi me aguardava. Por algum motivo, olhei para a esquerda. Uma estrada sem fim me chamava. Não consegui sair do lugar. Naquela época eu odiava ter dúvidas. Talvez pelo medo de escolher. Uma escolha feita significa outra escolha que deixamos de fazer. O medo de escolher é o medo de errar. O medo de errar é a inadequação aos riscos inerentes à liberdade e, mais grave, à evolução. Aprendemos com os erros, valiosos mestres quando encontrados nas entranhas das decisões equivocadas. Sabia disto, mas ainda não aceitava essa realidade em mim. 

Eu conhecia as quatro fases de cada ciclo evolutivo: entender, transmutar, compartilhar e seguir. O que eu não sabia era que entre as duas primeiras etapas, o entender e o transmutar, existem dois importantes níveis intermediários, o ver e o aceitar. Não basta conhecer a teoria da luz para que eu consiga me transmutar em uma pessoa diferente e melhor. Antes, necessito enxergar e aceitar a escuridão que me habita, momento sem o qual de nada me vale o mais fino conhecimento, pois, não saberei onde nem de qual maneira irei aplicá-lo. Eu desconhecia esse detalhe.

Aquela fração de segundo na porta da estalagem foi determinante para eu entender que escolhas são verdadeiros portais que, como tais, nos conduzem a diversas esferas de existência. Mudam a história e o destino próximo. Para modificar uma vida basta alterar o padrão de escolhas. Isto explica a desnecessidade dos lamentos. Tá ruim? Comece a escolher diferente. Tudo muda.

Naquele instante, eu estava prestes a retornar para uma realidade desagradável, mas que eu entendia como a melhor possível. Para melhorar, a solução era simples. Bastava que os meus sócios reconhecessem os seus equívocos e passassem a concordar comigo. Então, ficaria perfeita. A minha lógica não era simples, mas simplória. Um raciocínio que conduz ao sofrimento. O mundo não vai mudar para se adequar aos meus desejos e olhares. De outro lado, também seria errado eu me modificar somente para agradar as pessoas. A arte está em eu me transformar para viver a minha verdade no mesmo passo que aceito o mundo do jeitinho que ele é. A única maneira de melhorar o mundo é me tornando um indivíduo melhor. Todas as reclamações devem ser colocadas em uma garrafa e lançadas ao mar. Com um pouco de sorte, quem a lançou irá encontrá-la em um dia distante nas areias de uma praia qualquer. Então, entenderá que era o destinatário certo capaz de salvar o remetente das suas frustações.

Esse é o único poder que temos. Porém, esse é o maior poder do universo, o da criação através da transformação. Sentir as mudanças em movimento dentro de si é a origem da felicidade. 

Eu conhecia muito bem essa teoria. Mas entre o saber e o ser existe uma ponte ainda não atravessada: viver o saber no ser. Naqueles dias, eu tinha ido à Saint-Jean-Pied-de-Port para auxiliar um amigo que não mais precisava de ajuda. Ora, eu deveria voltar de onde tinha vindo. A vida é simples, pensei. O que eu não sabia era que simplicidade não se coaduna com simplismo. A profundidade distancia os conceitos. O simplismo se resume em uma vida sem compromissos com o esforço indispensável à evolução. Evoluir quase nunca possui um processo confortável, causa de diversas rotas de fugas. A sensação de força e acolhimento apenas se instala ao final de cada ciclo evolutivo, quando se entende o poder conquistado sobre si mesmo. De outro lado, a simplicidade é a virtude de se desnudar diante de cada gesto e escolha, como método eficaz para permitir à sua essência o indispensável aperfeiçoamento, somente possível perante as dificuldades da vida. As máscaras que usamos e os personagens que interpretamos impedem o desenvolvimento do ser, justamente por evitar que a essência se envolva com a verdade imprescindível ao aprimoramento. Uma vida simples é impossível para aqueles ainda não reconhecem o valor da humildade, a virtude de quem está sinceramente compromissado com a própria evolução e já aceitou a verdade de quem ainda não é. Eu nem desconfiava que as virtudes eram as artes do bem viver.

Foi quando, debaixo do pórtico da estalagem, com um pé na calçada, que alguém tocou no meu ombro. Era um dos rapazes do animado grupo que se sentara à mesa comigo no jantar. Ele fez um gesto com a mão me convidando para acompanhá-los na peregrinação. Ao perceber a minha hesitação, disse: “Não existe caminho para quem não sabe para onde vai”. Ofendido por ter sido comparado a um tolo, ao menos na interpretação permitida pelo orgulho que me orientava, respondi que eu sabia para onde eu iria. Eu não sou um desorientado. Ele rebateu: “Você não parece alegre com a escolha que fez, por quê? Algo está errado quando nossas escolhas não têm o poder de nos alegrar”. Em seguida, emendou outra pergunta: “O que significa essa mochila nas suas costas justamente no limiar do Caminho que você não quer percorrer?”. Ele se referia à típica mochila de peregrino que eu preparara para a viagem que não mais faria com o Mário. Eu estava prestes a dar uma resposta malcriada, no momento em que ele me ofereceu um sorriso amistoso e convidou: “Venha com a gente”. Perguntei o que eu descobriria que já não soubesse se me tornasse um andarilho. O rapaz deu de ombros e murmurou: “Não faço a menor ideia. Não existem especialistas do amanhã”.

Lembrei dos especialistas que cobravam o próprio peso em ouro por suas previsões sobre o futuro da internet na propaganda e o fato delas terem se tornado o motivo das desavenças na agência. Se for verdade que a vida conversa conosco através de sinais, este é um deles, raciocinei. Sorri e ao fazer menção em acompanhá-lo, ele me alertou: “Não olhe para trás nem tente adivinhar onde outras decisões o levariam, do contrário não conseguirá usufruir toda a amplitude da escolha que fez. Você ficará sem nenhuma delas”.

Andei durante horas ao lado daqueles jovens alegres e divertidos. Dei boas risadas das brincadeiras que faziam entre eles. Já no meio da tarde, começaram a acelerar o passo, pois queriam chegar cedo à estalagem que passariam a noite. Talvez por ser mais velho, talvez por faltar um melhor preparo físico, fui ficando para trás. Eu sentia uma mistura de irritação e decepção pelo abandono que me impunham. Outro convite aceito em vão, pensei. Ao perceber as emoções que dominavam as minhas feições, um dos rapazes retardou os passos. Quando me aproximei, ele disse: “Cada um deve andar no seu próprio ritmo e ninguém tem a obrigação de esperar por ninguém. Não lamente por ficar sozinho para não tornar a viagem cansativa. Ninguém está abandonado quando tem a si mesmo como companhia. Aprecie a oportunidade para se conhecer melhor e descobrir o quanto da sua beleza ainda é desconhecida. Isto nos leva a aceitar os outros do jeito que são e traz leveza à nossa vida”. Em seguida, adiantou o passo. Em meia-hora, não era mais possível avistá-los.

Claro que considerei a possibilidade de desistir por vários motivos. Um deles era o peso excessivo da mochila. Eu carregava muitas coisas, uma grande parte continha boas doses de desnecessidades. Roupas e objetos que dificilmente seriam usados, alguns até bem caros, mas que adicionavam peso às costas e dificultavam o avanço. Como consequência, o cansaço adiciona quilos de desânimo à bagagem. Um pouco mais à frente, cansado, coloquei a pesada mochila no chão e me sentei debaixo de uma árvore. Embora soubesse que eu não poderia me demorar, pois se não chegasse à próxima estalagem até o anoitecer, teria de dormir ao relento, uma situação que envolvia desconforto e perigos. 

Quando pensava em me levantar, lembrava do peso da mochila e resolvia esperar mais um pouco para retornar à estrada. Até que fui surpreendido pelo barulho de uma pequena carroça conduzida por uma moça jovem, muito bonita, de pele morena e cabelos negros, argolas de ouro e vestido colorido. Ela parou na minha frente e perguntou se podia me ajudar. Expliquei que a dificuldade estava na mochila pesada. A moça balançou a cabeça como quem diz que entendia e disse: “Esse é o problema de quase todos. Querem carregar aquilo não devem nem podem. O essencial basta para viver, tudo mais só tem valor enquanto elemento adicionado ao ser. Uma bagagem verdadeira e inestimável. Ela transforma as garras em asas. Então, conseguem ultrapassar portas inacessíveis àqueles que não conseguem abri-las por terem as mãos ocupadas em recolher o que não sabem ou não conseguem usar”. Olhou-me com firmeza e perguntou: “O que você carrega nas costas que torna pesada a caminhada?”. Sem esperar por uma resposta, alertou: “Esse é o enigma da liberdade”.

Diante do meu espanto, ela prosseguiu: “Esse é o entendimento e a prática que oferecem leveza à vida. Não me refiro somente ao desapego às coisas, mas também às situações e pessoas. Serve para as desavenças que não conseguimos desgrudar da memória. Se prestar atenção, será possível perceber que todo fato ou dificuldade o coloca diante de, no mínimo, dois portais. Cada um deles o conduzirá a uma diferente viagem. A decisão por qual atravessar será sempre sua. Todos os dias nos deparamos com inúmeros portais de múltiplas nuances, inexistentes aos olhares afoitos ou para quem se fecha às infinitas oportunidades inerentes à vida. A transformação começa com uma simples escolha e se desdobra através delas”. 

“Assim são com as pessoas. Precisamos de todos, o amor é essencial à vida. Mas nunca os teremos por todo o tempo ao nosso lado. Os motivos são inúmeros. Olhares, quereres e valores, ora aproximam, ora afastam. Respeitar a liberdade do outro significa viver a própria liberdade”. 

Calei-me diante daquelas ideias. A moça olhava a espera da minha reação. Falei que não havia nenhum portal, mas somente uma estrada que eu tinha de enfrentar sem demora se quisesse jantar e ter uma cama para dormir naquela noite. Ela riu e disse: “Você está perdido”. Falei que sabia exatamente o ponto do mapa que eu estava. A mulher sacudiu a cabeça e afirmou: “Você está perdido em si mesmo. Quem mais está distante da verdade são aqueles que acreditam conhecer a verdade”. 

Falei que, se ela quisesse me ajudar, poderia me levar de carroça até o local do meu pernoite. Mostrei-me disposto a pagar pela carona. Ela se negou: “Ao contrário do que acredita, isso não o ajudaria”. Perguntei o que ela poderia fazer por mim. A moça foi direta: “Posso livrá-lo de todo o excesso que carrega na mochila”. Indaguei se ela me entregaria os meus pertences em Santiago de Compostela. Ela foi honesta: “De jeito nenhum. Estou lhe fazendo um favor, não exija nada por isto”.

Argumentei que, para isso, eu não precisava dela. Poderia deixar os objetos debaixo da árvore e seguir. Ela ponderou: “Sem dúvida. Contudo, poderia atrapalhar outros viajantes, que tentados pela cobiça, sucumbiriam ao peso que colocariam nas costas”. Falei que eu não era responsável pela decisão dos outros. A jovem mulher me explicou: “Isso é verdade, mas também não é. Não temos responsabilidade pelas escolhas de ninguém, porém, quando fazemos um movimento no qual temos consciência de que poderá interromper o curso da vida de alguém, caso aconteça, o nosso fluxo também entrará em pane. Os caminhos são individuais, mas todos eles se interligam nas encruzilhadas da existência”.

Fazia sentido e eu sabia disso. Apenas nunca tinha colocado o conhecimento em prática. Um pouco a contragosto, comum nas transições de comportamento, deixei quase todo o conteúdo da mochila na carroça da jovem mulher. Eu sabia que nunca mais os veria. Tinham alguns itens caros, outros com valor afetivo. Havia um conjunto colorido de giz de cera, confeccionado com extratos naturais, em uma bela caixa de madeira. Tinha pertencido a minha avó e eu guardara para usar em um momento especial. Trouxera na crença que teria tempo para desenhar durante o trajeto, algo que eu descobrira complicado de realizar. A ideia era usar como ilustrações de um livro de contos que nunca publiquei. Foi a última coisa que coloquei dentro da carroça. Em silêncio, desejei que chegasse às mãos de quem fizesse um bom uso dela. Como se adivinhasse os meus pensamentos, a moça me ensinou: “Deixe ir tudo que precisa partir. Aquilo que for verdadeiramente seu, retornará”.

Sem dizer palavra, a vi desaparecer na estrada. Em seguida, animado com a leveza da mochila, comecei a andar. Ao contrário do que imaginava, não restou sensação ruim.  Em silêncio agradeci aos rapazes por terem se adiantado e me deixado sozinho. Sorri encantado com a magia da vida. À medida que os passos se sucediam, crescia a compreensão de que nada daquilo me faria falta. Pensei na quantidade de preocupações e sofrimentos que todos os dias eu poderia colocar na carroça para a cigana levar. No compasso em que algumas ideias se construíam, outras se desmanchavam. A partir dali entendi que tudo dependeria de como eu iria elaborar cada experiência em mim. Isto me ajudaria a identificar os portais. Se eu prestasse atenção, não passaria pelo dissabor dos portais sombrios. O fim do sofrimento surge quando se entende as suas causas, pois, saberemos como desmontar as suas estruturas. Compreender as causas da alegria também me permitiria a reforçar os seus pilares. Aceitar que o poder do voo depende tão e somente de você, traz a força da paz. Nada se perde, tudo se cria ao se transformar, eu ousaria remontar a famosa frase do alquimista francês. Anotei-a na alma para nunca esquecer. O mais importante foi que aqueles fatos me permitiriam iniciar a compreensão sobre o poder que eu tinha nas mãos e desconhecia.  

Os dias se passaram. Era o mesmo caminho, mas aos poucos, eu já não era o mesmo do dia da partida. Como é comum nas fases de transição, havia recaídas e retomadas. O amadurecimento demora algumas estações. Eu percebia que a minha maneira de andar modificava o trajeto, adicionando dificuldade ou leveza a cada curva. A paisagem também se tornava mais bonita. Ou seriam reflexos do meu olhar? Quando o seu olho é bom todo o universo é luz, lembrei desta incomensurável lição contida no Sermão da Montanha. Sim, viver esse ensinamento é um portal disponível a qualquer andarilho todos os dias. Em rito de passagem o ser entende as maravilhas contidas em si para além de si mesmo. Até então, o andarilho está perdido, mas nem sempre sabe disso.

Quase um mês depois da partida, cheguei em Santiago de Compostela. Era uma daquelas manhãs frias de céu azul. Entrei pelas ruelas sinuosas que formavam a parte histórica da cidade e fui até a Catedral esperar pela missa do meio-dia, cerimonial que tradicionalmente encerra a jornada. Ainda faltavam muitas horas. À medida que chegavam, exaustos pelo cansaço físico e exultantes de ânimo espiritual, os peregrinos se deitavam no enorme pátio que havia em frente. Deite-me também, me deliciando com o sol que aquecia o meu corpo e comemorava com a minha alma. Ela estava mais próxima do meu ego e esta era a grande conquista daqueles dias.

Ao meio-dia, uma celebração inesquecível. Durante a missa, uma dúzia de monges, por intermédio de uma corda muito grossa, tradicionalmente suspendem um enorme fumeiro de prata quase até a abóboda e, com movimentos ritmados, faz com que se mova em cruz, incensando a igreja e a todos ali presentes. Emocionado, lágrimas me permitiam um choro bom. Já próximo do final da missa, sinto alguém tocar no meu ombro. Era o Mário, meu amigo madrileno. Trocamos um forte abraço. Quando encerrou, ele me entregou um desenho muito bem feito do meu rosto. Elogiei o belo trabalho e perguntei qual foto ele tinha usado para servir de modelo. Mário franziu as sobrancelhas e revelou: “Eis o mistério. Passei ainda há pouco, no pátio em frente à Catedral, quando vi uma artista local trabalhando em seu cavalete. Ela desenha prédios, paisagens e pessoas. Vive da venda dessas obras. O incrível é que esse desenho já estava pronto e nele reconheci você”. Perguntei quanto tinha custado. Mário prosseguiu em seu espanto: “O mais incrível é que ela não quis me cobrar quando eu disse que conhecia o homem ali desenhado, embora esse seja o seu trabalho, fundamental para o sustento da sua família. Apenas me pediu para lhe entregar como maneira de agradecimento”. 

Pedi para ele me levar até a artista. Era uma moça recém-saída da adolescência. Abriu um enorme sorriso quando me viu. Tornei a chorar quando vi a caixa com o conjunto colorido de giz de cera que eu herdara da minha avó ao lado do cavalete. A jovem desenhista contou: “Na semana passada uma cigana esteve na missa e me entregou a caixa. Disse que era presente de um andarilho que ela encontrara na estrada. Pediu para eu fazer um bom uso do material. Perguntei como era o rosto desse homem e ela o descreveu”. Ao ver as minhas lágrimas, a jovem perguntou se eu queria a caixa de volta. Falei que de jeito nenhum. O desenho que ela havia me presenteado era a expressão maior dos gizes de cera para mim. Ficaria pendurado na parede do escritório que eu trabalhava em casa. Ela me deu um abraço e nos despedimos.

Fui almoçar com o Mário. Ele tinha ido me recepcionar na Catedral como modo de se desculpar por não ter feito a caminhada comigo. Expliquei a ele que não era preciso. Há momento em que precisamos caminhar ao lado dos amigos, em outros, necessitamos ficar sozinhos para entender um pouco mais a nossa força e poder. Ele tinha me feito um enorme bem por me deixar fazer aquela jornada somente comigo mesmo. Eu estava perdido e não sabia. Quem está perdido não está em nenhum caminho. Ninguém se torna livre antes de entender que está perdido. Tinha consciência que me perderia outras vezes e que isso é normal por fazer parte do processo de autoconhecimento e evolução. Mas sabia também que sempre é possível encontrar um novo caminho.

Ele me perguntou como me sentia em relação aos sócios da agência, pois, havia um mês, eu havia comentado sobre as minhas preocupações. Expliquei: “Desconheço os rumos que a empresa irá tomar, mas participarei das decisões com base na percepção e sensibilidade que, ao menos por ora, alcancei. Sei apenas que o meu destino não será mais decidido pelos especialistas do amanhã. São os atuais profissionais que se autoproclamam conhecedores do desconhecido, não muito diferente dos adivinhos de feira tão influentes no passado. Não faz sentido. A minha verdade, no limite que a conheço, é o meu mapa e minha bússola. Assim, todas as vezes que me perder, aprenderei mais quando me achar”.

Durante o almoço, o Mário abordou a incrível sincronicidade sobre a caixa de madeira herdada da minha avó. Eu sorri e comentei: “O que você chama de sincronicidade, conheço uma cigana que diria se tratar das encruzilhadas onde as almas se encontram. Os gizes de cera nunca foram meus e estiveram perdidos da sua verdadeira dona, aquela que faria o melhor uso deles. Eles sempre foram da jovem artista, eu apenas os guardei até o dia que o universo deu um jeito para que chegassem às suas mãos”.

Imagem: Craitza – Dreamstime.com

Discussões — 18 Respostas

  • Rita 16 de outubro de 2020 on 15:59

    Sempre oportuno e sábio … gratidão eterna, grande Yoskhaz…🙏👏👏👏🌺

  • Adélia Maria Milani 15 de outubro de 2020 on 21:34

    GRATIÃO!!!!!!!!!!

  • Arlinda 13 de outubro de 2020 on 10:44

    Gratidão infinita, logo hoje que pensei em desistir!
    O caminho é meu e há momentos que teremos que terei que seguir sozinho, para entrender minha força e poder!!!!

  • Elvis 10 de outubro de 2020 on 18:15

    Obrigado Mestre por mais esta oportunidade, sempre que me perco encontro meu norte ao ler os textos, muito obrigado por nos auxiliar nos caminhos da vida.

  • Santana 10 de outubro de 2020 on 12:54

    🌵🙏🏽

  • Michelle 1 de outubro de 2020 on 10:22

    Obrigada !

  • SCHWEITZER 11 de setembro de 2020 on 13:41

    Linda estoria meu querido mestre. Amei do fundo do coração.

  • Charles Lino da Silva 7 de setembro de 2020 on 20:47

    Obrigado pelo texto , simplesmente maravilhoso !

  • Terumi 5 de setembro de 2020 on 11:49

    Gratidão! 🙏

  • Caroline Martesi 5 de setembro de 2020 on 00:12

    💙⭐✨✨✨✨✨

  • Margareth 4 de setembro de 2020 on 22:36

    Que experiência linda! Gratidão

  • Girlainy Araujo 4 de setembro de 2020 on 10:57

    Há anos eu acompanho seus textos, às vezes, eu aguardo ansiosa as publicações, outras vezes, me desapego e passo tempos sem ler…incrível, é que algo me chama e quando me deparo com uma leitura que escolho, parece que foi feita para aquele momento da minha vida. E eu não chamarei a isso sincronicidade, acho que é um encontro de almas mesmo. Gratidão!

  • Viviane Barbosa 4 de setembro de 2020 on 06:40

    Meu Deus que lindooo isso!!!!

    Muito encantada e grataaa.
    Forte abraço

  • Fernando Cesar Machado 3 de setembro de 2020 on 19:52

    Gratidão profunda e sem fim Yoskhaz,
    sem fim…

  • Erikson 3 de setembro de 2020 on 16:56

    Ótimo texto! Gratidão por compartilhar.

  • Gleiza Jordânia 3 de setembro de 2020 on 16:02

    “Deixe ir tudo que precisa partir. Aquilo que for verdadeiramente seu, retornará”💜🙏 Gratidão sempre. Belíssimo texto 👏👏👏👏

  • Gleiza Jordânia 3 de setembro de 2020 on 15:59

    “Deixe ir tudo que precisa partir. Aquilo que for verdadeiramente seu, retornará”. Gratidão sempre 💜🙏 . Que belo texto 👏👏👏👏

  • Juliana 3 de setembro de 2020 on 14:23

    Que história mais linda e emocionante! Gratidão infinita por compartilhar sua luz com o mundo e nos ajudar a enxergar a vida por um novo prisma.