A medicina do morcego

Eu estava em Sedona, nas montanhas do Arizona, na casa de Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom de transmitir a filosofia ancestral do seu povo através das palavras e das músicas. Na manhã daquele sábado, como de costume, sentado debaixo do frondoso carvalho que havia no quintal, muitas famílias se espalharam pelo gramado para ouvir o xamã contar histórias e cantar cantigas, sempre com o objetivo de enriquecer a todos com a antiga sabedoria nativa. Naquele dia, ele tinha abordado mais um pouco sobre os Animais de Poder, como era conhecido esse tipo de energia cósmica ordenadora na psicoesfera planetária, segundo aquela sagrada tradição. Nada é por acaso.

Após o singelo, porém, significativo cerimonial mágico, quando ficamos a sós, o xamã sugeriu que fôssemos almoçar em Flagstaff, uma cidade próxima a Sedona, a cerca de meia-hora de carro. Ele aproveitaria para comprar alguns utensílios e ferramentas que necessitava para a cabana que tinha nas montanhas. Após o almoço e as compras, fomos a uma cafeteria que, além de café, oferecia cervejas artesanais. Assim que nos acomodamos em confortáveis poltronas em um canto mais tranquilo, estacionou junto à calçada um grupo de motociclistas. Todos com jaquetas de couro e lenços coloridos na cabeça. Pelas bagagens que traziam junto às motocicletas, notava-se que estavam de passagem, algo comum em Flagstaff pelo fato de a cidade fazer parte da lendária Rota 66, hoje desativada, mas ainda muito visitada por pessoas que desejam reviver um badalado estilo de vida, famoso no movimentado período de ideias libertárias dos anos 1960. Estavam alegres e bem-humorados. Embora nunca tenha feito, eu achava interessante aquele estilo de viajar. Atento, acompanhei quando entraram e, de pé no balcão, pediram cerveja. Chamou-me atenção ao ouvir o idioma e o sotaque. Além de brasileiros, eram cariocas. Sem demora, reconheci o Rodrigo entre eles. Era um querido amigo de longa data. Não nos víamos havia cerca de vinte anos. As amizades puras não se deterioram com o tempo. Foi uma festa. Trocamos um sincero e forte abraço. Estávamos felizes com aquele encontro. Ficamos com vontade de conversar. Muitas coisas aconteceram em duas décadas. 

Como a mesa onde eu estava com Canção Estrelada ficava em um local mais afastado do agitado balcão, ele se sentou conosco. Contou que estava de férias com os amigos. Viajavam na Rota 66 desde Chicago. O destino era o Grand Canyon. Falei que ele adoraria conhecer os cânions, um dos lugares que mais me impressionara, não apenas pela beleza natural, mas também pela fantástica energia ancorada. O xamã, que apenas ouvia a conversa, sorriu e fez sim com a cabeça sem dizer palavra. Após atualizarmos as mudanças dos últimos vinte anos de nossas existências, não pude deixar de comentar que, apesar da sincera alegria demostrada pelo Rodrigo, era evidente, em segundo plano, a tristeza dos seus olhos. Perguntei se era algo que quisesse falar, caso tivesse vontade e necessidade. Como quem espera há muito tempo por esse momento, sem hesitar, ele começou a narrar os motivos da sua angústia. Próximo a época que tínhamos nos encontrado a última vez, a sua mãe viajara para estrelas após um período no qual enfrentou uma dolorosa enfermidade. No dia da partida, algumas horas antes, pegara na mão do filho e pedira para que jurasse que nunca deixaria faltar nada para sua filha, irmã do Rodrigo. Ela sempre mostrara dificuldade para se encaixar no mercado de trabalho. Como a sua ausência se aproximava, receava que a filha tivesse dificuldades de sobrevivência. Naquele momento, emocionado, ele jurou à mãe que não deixaria faltar nada à irmã. No ano seguinte, a irmã teve uma filha e, havia poucos meses, se tornara avó de um lindo menino. Apesar de inexistir qualquer impedimento físico ou intelectual, assim como a irmã, a sobrinha também não trabalhava. Agora eram três pessoas sustentadas por ele. Rodrigo, que era casado e pai de dois adolescentes, teve de aumentar a sua carga de trabalho para dar conta de tantos compromissos. Embora a situação parecesse injusta, pois tanto a irmã quanto a sobrinha nem ao menos mostravam interesse em conseguir um emprego, Rodrigo se sentia atado ao juramento prestado à mãe no leito derradeiro. Confessou que pensou várias vezes em encerrar a obrigação, mas não conseguiria viver com tamanha culpa. Em resumo, esse era o dilema e a agonia do meu amigo. Também a razão dos seus olhos tristonhos.

Conversamos um pouco sobre o assunto. Algumas ideias me ocorreram, mas nada que nos fizesse avançar sobre a questão. Envolvido em tirar o Rodrigo da malha existencial que o aprisionava, tinha me esquecido de Canção Estrelada que, sentado à mesa conosco, ouvia tudo com atenção e em silêncio como era a tradição do seu povo. “Quem não sabe ouvir tem dificuldade de aprender” ou “a maior causa dos conflitos é a pouca disponibilidade para ouvir”, me ensinou algumas vezes.

Canção Estrelada foi um dos sábios que tive a permissão de encontrar no Caminho. Ele estava ali, esquecido no canto da mesa, enquanto o Rodrigo e eu tentávamos encontrar uma solução capaz de encerrar a dificuldade interna do meu amigo diante de um juramento que, com o passar do tempo, se tornara um fardo muito pesado. Por isto, sofria. Quando me dei conta, quis saber a opinião do xamã. Antes, sempre respeitoso, indagou ao Rodrigo se poderia expor as suas ideias sobre um assunto tão íntimo. Como o meu amigo balançou a cabeça em anuência, ele disse com a sua habitual voz serena, um pouco rouca: “Penso que a Medicina do Morcego poderá ajudá-lo”. Fizemos vários questionamentos ao mesmo tempo. Eu queria saber de qual maneira; surpreso, Rodrigo, que era médico, nunca havia escutado nada sobre o assunto. Contudo, como era uma pessoa afeita a novos e diferentes conhecimentos, comentou: “Quando o problema é físico, devemos tomar remédio. Por se tratar de dores da alma, se faz necessário outras terapias”. O xamã sorriu em aprovação. Percebi que naquele momento nascia uma grande amizade. Canção Estrelada se propôs a ajudar, caso Rodrigo quisesse. Como o aceite foi imediato, o xamã orientou: “O moço deve seguir o seu rumo. Nos encontramos no Grand Canyon amanhã bem cedo”.

No dia seguinte, saímos de Sedona com o céu salpicado de estrelas. Três horas depois, o dia clareava, encontramos com o Rodrigo no hotel onde estava hospedado, dentro do Parque Nacional. Na surrada pick-up de Canção Estrelada, seguimos para um local onde a estrada terminava. Dali, descemos a pé em uma longa e cansativa trilha até às margens do Rio Colorado. Chegamos exaustos. Era um recanto absolutamente deserto, cercado pelos enormes paredões do cânion. Um lugar fantástico com uma energia fortíssima. Parecia-me possível sentir a pulsação da Terra. Sentamo-nos em círculo, com uma pequena fogueira ao centro. O xamã rufou o seu célebre tambor de duas faces no compasso da vibração do planeta. Os nossos corações pulsavam em sincronia com o coração do mundo. Depois de ouvirmos várias canções nativas, o final da tarde se avizinhara e veio o frio. Canção Estrelada nos aconselhou a pegar os cobertores e a alimentar o fogo. Com a chegada da noite e das estrelas, vieram os morcegos. Assustados, Rodrigo e eu, ficamos nos perguntando de onde surgiram. O xamã pediu que os observássemos. Tão e somente.

Deixamo-nos encantar com o momento e com as boas energias que nos envolviam. Sem nos darmos conta estávamos em um significativo cerimonial mágico. Depois de algum tempo, o xamã nos perguntou quais características dos morcegos nos chamavam a atenção. Por emitirem um som que, ao reverberar em eco, usavam para se desviar dos obstáculos, falei que esses animais pareciam se orientar por intermédio de uma voz interna. Rodrigo abordou o fato de eles pousarem de cabeça para baixo; riu e comentou que os morcegos viam tudo ao contrário. Canção Estrelada se mostrou satisfeito com as nossas observações.

Em seguida, perguntou ao Rodrigo: “Por qual razão a sua mãe fez a você o pedido que hoje o incomoda?”. O meu amigo respondeu que era pelo fato de a sua irmã precisar de ajuda, pois tinha dificuldades em se manter nos empregos que conseguia por causa do seu temperamento difícil. O diálogo prosseguiu: “Depois que uma criança aprende a andar, devemos continuar segurando na sua mão para impedir que tropece?”. Rodrigo falou que não. Devemos deixar que ande sozinha para que ganhe confiança e se desenvolva, apesar de sempre estamos dispostos a levantá-la nas vezes que tropeçar. Acrescentou que as quedas eram importantes, pois auxiliavam a aprimorar o equilíbrio, os passos e a entender a melhor maneira de caminhar. Eram aspectos inerentes ao crescimento. O xamã prosseguiu: “O que acontece se sempre carregarmos uma criança no colo, sem nunca a incentivar a andar?”. Rodrigo não hesitou em dizer que a criança perderia a função motora das pernas. Embora soubesse, o xamã quis realçar a valiosa questão do tempo: “Há quantos anos você cumpre o juramento de ajudar a sua irmã?”. Duas décadas foi a resposta do meu amigo. 

“Entendeu?”, quis saber Canção Estrelada. Rodrigo admitiu que começava a compreender, mas ainda faltavam algumas peças para montar aquele quebra-cabeça.

O xamã esclareceu: “Nunca deixar faltar nada, foi o pedido da sua mãe. Isto não significa ter de carregar alguém no colo para sempre. Todos precisam aprender a andar; todos precisam crescer, ainda que a contragosto. Ao contrário do que imagina, embora continue a amparar a sua irmã, será que você está prestando a melhor ajuda? A dificuldade para conviver, se relacionar e aprender a lidar com as dificuldades são as lições que cabem a ela. Ao impedir o aprendizado, embora acredite estar ajudando, você está dificultando o crescimento da sua irmã. A generosidade é uma valiosa virtude e, como tal, é também uma arte, pelas suas diversas nuances. Em todo auxílio existe o denominado ponto de virada, que ocorre quando precisamos modificar o formato da ajuda. Todos precisam crescer, lembra? Do contrário, haverá atrofia cognitiva, emocional e espiritual”.

“Ainda mais, o comportamento dela se tornou padrão para a filha e poderá se transmitir ao neto. Uma casa onde ninguém é capaz de caminhar está fadada às sombras”. A luz do fogo permitia ver as lágrimas do Rodrigo. Ele disse que entendia os argumentos do xamã e os considerava verdadeiros. Contudo, não sabia, ou não conseguia, reverter uma promessa feita a mãe nos seus momentos finais. Apesar do sofrimento que esse juramento causava.

Foi quando Canção Estrelada começou a usar a Medicina dos Animais. “Você consegue ficar de ponta cabeça?”, sugeriu. Como Rodrigo praticava yoga, não teve dificuldade em fazer uma posição conhecida como Sirsasanaou Invertida. Em outras palavras, era para ficar de cabeça para baixo, tal como os morcegos pousavam nos galhos. Sem demora, o meu amigo levantou os pés sobre a cabeça. Em seguida, o xamã perguntou como estava a paisagem. Rodrigo riu e disse que tudo parecia fora do lugar. Canção Estrelada o corrigiu: “Não há nada fora do lugar, as coisas continuam do mesmo jeito de antes”. Rodrigo comentou que naquela posição conseguia observar melhor as estrelas. Em seguida, disse avistar a caverna, no alto do cânion, onde habitavam os morcegos, encerrando uma dúvida que tínhamos. Dali a pouco, com os olhos mais acostumados à escuridão, disse conseguir ver uma trilha, mais leve do que a utilizada para chegarmos ali. Poderíamos usá-la na volta. Eram coisas que não tínhamos reparado, apesar de estarmos naquele recanto havia horas”. O xamã explicou: “Você está se permitindo observar a realidade sob um ângulo diferente, um novo prisma. Não foi o mundo que mudou, mas o seu olhar”. Fez uma pausa para esclarecer: “Essa prática serve tanto para olhar tudo ao seu redor quanto para si mesmo”. 

“Para todo problema existe uma solução. Se você ainda não encontrou a solução para o seu problema, significa que precisa se permitir um diferente olhar.”

O xamã aguardou que Rodrigo tornasse a se sentar para continuarmos a conversa. Depois, explicou: “O amor não pode se tornar causa de nenhum sofrimento, sob o risco de desaparecer para dar lugar a emoções densas, todas ligadas à dor. Ninguém sofre por amor. Sofremos justamente por não entender o amor”. Em seguida arguiu: “Você acredita que uma mãe compactuaria com o sofrimento de um filho querido, principalmente ao saber que origem da dor surgiu de um pedido seu?”. O meu amigo respondeu que nenhuma mãe gostaria de dar causa ao sofrimento de um filho amado. Rodrigo não tinha dúvida do amor da sua mãe por ele e pela irmã. O xamã voltou a perguntar: “A sua mãe ficaria feliz em saber que o sofrimento do filho chegou ao fim?”. O meu amigo fez sim com a cabeça, mas ponderou que ela ficaria triste por se iniciar um período doloroso para a filha.

Canção Estrelada não cessou: “Você acha que a sua mãe está satisfeita em perceber que a filha atravessa a existência como uma criança que se recusa a aprender a andar? Qual o valor de uma vida na qual não se caminha?”. Engasgado nas palavras, Rodrigo perguntou se o xamã dizia que o desenvolvimento da irmã estava sendo prejudicado por sua ajuda sem limites. O xamã usou a outra parte da Medicina: “Os morcegos usam o próprio som para se desviarem dos obstáculos. Para ultrapassar a mais complexa dificuldade se faz indispensável aprender a ouvir a própria voz, aquela que vem do núcleo do ser. Nela está a verdade libertadora”.

Em seguida, reuniu os dois atributos da Medicina do Morcego em um mesmo eixo: “O sofrimento é a manifestação da alma pedindo para trilhar outro caminho. Escute a sua voz, se permita observar a si mesmo e ao mundo ao redor por um inusitado viés inovador. Os problemas se agigantam ou desparecem na medida do nosso olhar”.

Rodrigo questionou se seria correto abandonar o juramento feito à mãe. O xamã esclareceu: “Ainda que pese o delicado momento da promessa, no qual era muito difícil avaliar as reais consequências, você honrou o compromisso. Carregou a sua irmã enquanto ela precisou de ajuda por não conseguir andar sozinha”. Fez uma pausa e argumentou: “Porém, essa era a primeira parte da promessa. A próxima etapa será a de estimular a sua irmã a andar com as próprias pernas. Do contrário, irá eternizar a vida de ambos na fraqueza. Ela, por se tornar uma eterna dependente; você, por não conseguir viver a própria verdade. Longe da verdade, distante da Luz. Restará o sofrimento”. 

Tornou a pausar e explicou: “Para sempre é um tempo que não existe. Explico. Todas as promessas são eternas, mas tudo se transforma. Para não se quebrarem, as promessas precisam de sabedoria para conseguirem acompanhar as mudanças. Tudo muda. Então, é preciso mudar a forma das promessas para que suas essências sejam mantidas”. Rodrigo indagou como saber o momento da virada. Canção Estrelada esclareceu: “O sofrimento estabelece que algo está errado, tornando necessário novos ajustes e mudanças. Ao negar as inevitáveis transformações somos arrastados para a escuridão”. Fez uma pausa, quando falou a sua voz tinha a delicadeza típica de quem trata de algo precioso: “O amor é a essência da vida. Para entender o amor é preciso compreender as suas múltiplas vertentes, constantes transições e infinitas transformações. Então, restará a alegria da evolução”. 

Em seguida, concluiu: “Quando não percebemos o fim de um ciclo perdemos a passagem para iniciar uma nova fase aprendizados. É como ficar a espera por um trem que já passou. Isto nos faz sofrer pela inércia e desorientação sentidas, porém, incompreendidas”. Olhou para as estrelas e disse: “Até o momento você viveu como um guerreiro e lutou para protegê-la. Agora, chegou o momento de viver como um monge e incentivá-la a caminhar”. 

“Tudo muda. A maneira de amar também evolui”. 

Dois anos se passaram. Não tive mais notícias do Rodrigo. Eu estava no aeroporto esperando o embarque quando soube que o voo atrasara em mais de duas horas. Decidi me entreter com uma xícara de café, quando alguém me tocou no ombro. Era o meu amigo. Ele estava sorridente e com as feições rejuvenescidas. Não havia mais tristeza em seus olhos. Claro, tínhamos que conversar. Havia um assunto em pauta há muito esperado. Rodrigo me contou que ao retornar daquela viagem, chamou a irmã e a sobrinha para uma conversa. Explicou o entendimento que passara a ter sobre a ajuda prestada. Com o prolongamento indefinido, o auxílio se tornava prejudicial a todos os envolvidos na situação. Elas teriam seis meses para decidirem montar um negócio, financiado pelo Rodrigo dentro das suas possibilidades financeiras. A partir daí, teriam outros seis meses para montar a empresa e um suporte econômico por mais um ano. Então, passariam a andar com as próprias pernas. Salientou que estava aberto a ouvir outras ideias e soluções.

Perguntei como foi a reação delas. “A pior possível”, explicou. “É mais fácil ensinar a uma criança do que a um adulto, já repleto de condicionamentos sociais, vícios comportamentais e molduras existenciais. Alegaram que eu traía a elas e a minha mãe. Expliquei que aquele vitimismo era prejudicial por negar o movimento primordial à vida. Disse, ainda, que não ficaria aprisionado à estagnação delas. Eu estava disposto a seguir em frente. Elas poderiam fazer o mesmo ou esgotarem os dias em lamentos. Aquela era a proposta, aquele era o prazo”. 

“No final do mês, não fui levar o dinheiro na casa delas, como de costume. Deixei que me procurassem, não para constrangê-las, mas para se darem conta que a realidade começava a mudar. Seria um período difícil, de muitos ajustes, mas a adaptabilidade é uma valiosa virtude que leva a um ponto de equilíbrio mais alto, despertando poderes adormecidos e revelando forças desconhecidas. Claro, quando se tem disposição para ir além das fronteiras de si mesmo”. 

Contou, ainda, que por não terem nenhuma experiência empresarial, após muita pesquisa, acabaram decidindo por se associar a uma franquia. Montaram uma loja de uma prestigiada marca de sorvete, bem adequada ao verão quase constante do Rio de Janeiro. Os negócios iam bem e já planejavam abrir mais uma loja. “Muito a contragosto de início, por fim, elas possuem o mérito de terem caminhado. Embora nunca tenham dito, trago comigo a convicção que as suas almas são agradecidas pelas mudanças ocorridas. Isto me basta”, sorriu satisfeito e concluiu: “Fiz um bem a elas e a mim. Tenho certeza da alegria da minha mãe e o fim das suas preocupações”. 

Rodrigo se expressava através de um raciocínio claro e coerente. Em nada se parecia com aquele homem corroído em dúvidas, agonias e culpas eternas. Tinha resgatado a própria verdade. Confessou que, após muitos anos, pela primeira vez, sentia-se inteiro: “Ao me permitir olhar o mundo de cabeça para baixo, encontrei soluções que sempre estiveram disponíveis, mas eu nunca as tinha visto. Uma conquista possível quando enfrentei o problema orientado e impulsionado pela minha própria voz”, fez um agradecimento à Medicina dos Morcegos.

Estava na hora do voo do Rodrigo. Despedimo-nos com alegria e ele se foi. Sozinho, fechei os olhos e pude ver Canção Estrelada sentado na varanda da sua casa, baforando o seu indefectível cachimbo com fornilho de pedra vermelha. Na simplicidade dos verdadeiros sábios, ele tinha iluminado os passos de três pessoas que, perdidas em si mesmo, puderam reencontrar o Caminho. Duas, nunca ouviram falar nele.

Discussões — 6 Respostas

  • Caroline Martesi 18 de outubro de 2020 on 08:21

    Bom diaa me chegou no momento perfeito.. virar de cabeça para baixo e dissolver o problema através de um novo olhar ,Gratidão!

  • SCHWEITZER 17 de outubro de 2020 on 13:59

    Espetacular, um conto que realmente nos ilumina a alma. Genial querido.

  • Terumi 15 de outubro de 2020 on 22:02

    Gratidão!! 🙏

  • Gleiza Jordânia 15 de outubro de 2020 on 21:55

    Precisamos sempre enxergar o mundo além do nosso próprio mundo. Gratidão por cada leitura. 😊🌟🌟🌟

  • Cris Matsuoka 15 de outubro de 2020 on 17:17

    A voz de canção estrelada ecoa através de suas histórias e continua a modificar muita gente que se conecta com esses aprendizados ancestrais. Aho! Vida longa ao canção estrelada!

  • Fernando Cesar Machado 15 de outubro de 2020 on 09:37

    Gratidão profunda e sem fim Yoskhaz,
    sem fim…