O poder das escolhas.

 

“Ser forte é uma escolha. Ninguém nasce corajoso ou covarde, no entanto, todos os dias, a toda hora, fazemos a escolha por fugir ou enfrentar a batalha que se apresenta dentro e fora de nós”, falou Canção Estrelada, o xamã que através da palavra, cantada ou não, narrava a sabedoria ancestral do seu povo. Estávamos apenas os dois, sentados em torno de uma pequena fogueira sob o manto de estrelas a inspirar a conversa. Naquele dia tinha ocorrido um cerimonial destinado aos jovens da tribo que selava a passagem da adolescência para a vida adulta. Lembrei das palavras ditas pelo xamã ao encerrar o ritual: “O entendimento de que você é capaz de resolver os problemas que surgem, a aceitação da responsabilidade que lhe cabe e a coragem para a luta, desenham a maturidade formada no guerreiro, que somente após ser lapidado em muitas batalhas estará pronto para se sentar entre os sábios”.

O escudo contra o mal.

“Solicitar ajuda das forças luminosas do Universo em prol de uma dificuldade da qual não se tem nenhum controle é louvável, pois demonstra humildade”, disse o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, a um homem que veio ao mosteiro suscitar auxílio em uma situação que lhe afligia. Em seguida alertou: “No entanto, pedir auxílio para que façam o trabalho que lhe cabe, apenas revela a falta de entendimento das Leis, pois não acontecerá. A vida não endurece para maltratar, mas para ensinar. Não há privilégios, apenas lições”

Como uma tempestade que chega sem anunciar, a vida desse homem parecia, de uma hora para outra, virada ao avesso. Brigas familiares insensatas e complicações profissionais que levaram à dificuldade financeira inesperada, eram as consequências imediatas e visíveis do inferno que ele vivia em solo terreno. Com os olhos mareados, se confessou desorientado para continuar na luta. Estávamos no refeitório, os três, e eu lhes servia café com bolo de milho. O homem, de ótima aparência e muito culto, narrou que até há poucas semanas navegava em águas tranquilas pelos mares da vida. Uma família aparentemente bem estruturada; sócio de uma empresa que gerava lucros suficientes para sustentar condição material bem acima da média. Até que, em algum momento, tudo desandou.

“A vida exige movimento. Assim, te fará caminhar por gosto ou imposição. A inércia e o comodismo são ferramentas das sombras a atolar o viajante. Aos que buscam incessantemente o aperfeiçoamento do próprio ser, a vida há de ser generosa, a fornecer todas as condições necessárias para o prosseguimento de uma viagem serena”, explicou o Velho. Deu uma pequena pausa, sorveu um gole de café e prosseguiu: “Aos que se iludem eleitos dos deuses, alheios a tudo e a todos, aos que se imaginam ‘escolhidos’, não tardará o desequilíbrio sobre as situações que o sustentam. A Lei do Serviço é parte do Código Não Escrito e obriga ao trabalho e ao progresso espiritual. Crises emocionais, brigas afetivas, desavenças familiares, dificuldades econômicas ou doenças, são alguns dos instrumentos de instabilidade utilizados pelo Universo para impor novo momento de adaptabilidade diante da realidade alterada.  Agora a criatura caminhará por necessidade”.

“O Caminho é muito generoso em te permitir escolher as rotas da viagem, entretanto, muito justo em elaborar as dificuldades inerentes ao trajeto. O Mestre ensinou há milênios que devemos atravessar a porta estreita das virtudes. No entanto, muitos ainda escolhem seguir pela estrada larga das vantagens indevidas. Afagam o ego em prejuízo a alma. O resultado? Após os prazeres imediatos e transitórios, anda-se em círculos por trilhas cada vez mais escuras e esburacadas. Agonia e tristeza se apresentam como companheiras de viagem”. O homem, muito sensibilizado, confessou que, de fato, não vinha oferecendo o melhor de si. Aflito, perguntou ao Velho como poderia mudar a própria vida, pois não sabia para onde seguir. O monge arqueou os lábios em um sorriso repleto de compaixão e disse: “Quer um novo Caminho? Basta mudar o seu jeito de caminhar”.

“Problemas sinalizam a necessidade de mudanças. Entenda o que você precisa transformar em si e se dedique a isto com sinceridade. Só então chegará a ajuda da esfera invisível”.

O homem argumentou que sofria muito, não imaginava como fazer e, mais, a atual situação se mostrava tão nebulosa que não acreditava ser capaz de solucionar todos os problemas sem a ajuda das forças superiores. O Velho respondeu com a voz bondosa: “O Universo não quer que você sofra, porém exige que você evolua para chegar a próxima estação. Aprender, se transformar, compartilhar e seguir são momentos distintos de cada etapa nas inúmeras existências permitidas, como escolas de sabedoria e amor”.

O homem disse que precisava também de muita proteção, pois tudo de ruim parecia acontecer a ele naquele momento. O monge mordiscou um pedaço do bolo e falou: “Estamos sujeitos à inexorável Lei da Ação e Reação, uma das que compõe o Código Não Escrito. Ela atrai para a sua vida pessoas e situações que lhe são adequadas, não por punição, mas de acordo com o rigor necessário para o aprendizado do aluno, no mesmo diapasão de suas atitudes. O perfume da flor atrai pássaros e borboletas; o odor do esgoto chama para si os ratos e as baratas. Assim, escolhemos os que nos acompanham e definimos o destino próximo”.

“Ninguém está fora do alcance das Leis. Os guardiões ou anjos do Universo ficam impedidos de interferir em razão da situação conflitante ser parte da lição que cabe a você. Assim, você precisa se ajudar para ser ajudado. É uma grande ilusão achar que a casa do mal é o mundo. A sua raiz está em cada um de nós, em maior ou menor intensidade, a depender da expansão de consciência individual. Acredite, ninguém lhe prejudica mais do que você mesmo. Equalizar emoções e pensamentos nas ondas de Luz, envolvendo-os com amor, para que possam se materializar em boas atitudes é a defesa mais eficaz contra o mal. Pois, cria uma abóbada de proteção energética a sua volta, a permitir a aproximação de seus exércitos com maior rapidez, permissão e poder. Como pode ver, o melhor escudo contra o mal é um coração puro”.

“Nunca lhe faltará o auxílio. Entretanto, cada qual terá a ajuda na exata medida das suas necessidades de desenvolvimento, da vontade sincera de se transformar, de semear flores para quem vem atrás. Não podemos esquecer que as dificuldades nos trazem as lições indispensáveis para o aprimoramento da alma, muitas vezes ainda bem embrutecida, necessitando de métodos rigorosos de aprendizado”.

“Reflexões e meditações no encontro consigo próprio são ferramentas poderosas para a ampliação de consciência. Leituras auxiliam na criação de ideias e sustentação filosófica. As preces germinadas no coração são de extremo valor, pois auxiliam no equilíbrio emocional e o auxílio rogado, de algum jeito, nunca faltará, no entanto, não esqueça que santo nenhum dará os passos que cabem a você. A ajuda jamais chegará em forma de carroças repletas de ouro ou que a pessoa amada se dobre aos seus desejos. O auxílio vem através de sinais que indicam um novo sentido e aos ‘acasos’ que criam situações inimagináveis a fim de nos proteger. Ou por intermédio de intuições luminosas que indicam as indispensáveis metamorfoses da alma, as mudanças em seu sentir, pensar e agir”.

“Esta é a alquimia da vida: a transformação de sombras em luz, de dor em amor. Este é o mais precioso dos milagres e muitos nem se dão conta de que os têm na mão”.

Como um vício moderno, o homem reclamou da situação do planeta, que está tudo errado em todo lugar e do mal que parece campear sem rédeas. O monge mirou em seus olhos com doçura e falou: “Quando lamentamos o mundo, criticamos a nossa própria situação interna. O mal é fruto das sombras que habitam cada um de nós, nossas imperfeições e dificuldades, a formar um coletivo de iniquidades. Do contrário é também verdadeiro afirmar que somos a Luz na construção do bem e na manutenção da Obra. Através dos séculos o mundo sempre foi a exata fotografia de nossos corações. Do meu e do seu. Quer mudar o mundo? Transforme a si próprio. Como? Aperfeiçoe as suas escolhas”. O homem acenou com a cabeça em concordância, mais por desconcerto do que por satisfação.

Em seguida, tornou a lamentar a própria situação e insistiu que lhe fosse dito como, de forma objetiva, poderia reverter as atuais dificuldades. “Não faço a menor ideia”, disse o Velho. Diante do olhar atônito do homem, pediu para que eu lhe servisse mais um pouco de café e explicou: “Administrar a vida alheia é muito fácil e tentador, entretanto também demonstra leviandade e arrogância. O exercício da vida, com suas dores e delícias, é a ferramenta pessoal e intransferível de que dispomos para desenvolver as asas da alma, alavancar a nossa evolução. Entenda, aceite e use adequadamente a liberdade de buscar e decidir”.

“Apesar de nunca lhe faltar ajuda – e que sejamos claros, não para um desfecho mágico dos seus problemas, pois o auxílio não será na medida dos desejos do seu ego, mas das necessidades de sua alma, ou seja, por intermédio de condições para alterar, por si e através de si, a realidade – a parte mais importante do processo terá que ser feita por você, na ampliação de sua consciência, no burilar do coração, no desapego dos velhos conceitos. Medidas que refletirão no aprimoramento das suas escolhas”.

Observou o homem por alguns instantes e aconselhou: “Procure o silêncio e a quietude para ficar a sós consigo. Mergulhe fundo, conhecer a si próprio é a estrada para a plenitude. Estabeleça para si mesmo cláusulas invioláveis de amor e dignidade. Perceba o que precisa ser modificado em sua vida. Absolutamente tudo pode ser diferente e melhor. Todos os sábios já fizeram isso para romper a dureza do casulo e sentir as asas da liberdade”.

O Velho pediu para unirmos as mãos e fez uma prece sentida por amor e Luz. O homem agradeceu educadamente a conversa, a oração e partiu. A sós com o Velho, falei que tinha a impressão de que o visitante tinha ficado um tanto decepcionado. “Poucos aceitam os encargos e o trabalho que lhes cabem. Todavia, se as minhas palavras forem uma boa semente, cedo ou tarde germinará”, disse o monge. Deu uma pequena pausa e finalizou: “Na verdade, as transformações exigem grandes esforços que nem todos parecem dispostos a operar. Pensam ser mais fácil rogar por um milagre, que nunca virá, pois o bom educador não faz o dever do aluno. Roga-se por socorro para que se materialize um castelo de muros altos a garantir privilégios e mordomia, quando, na realidade, a ajuda sempre chegará em forma de ponte, toda vez que existir a vontade sincera do andarilho em caminhar e atravessar o abismo”.

 

 

Meu personagem favorito.

Estava com Loureiro em uma taberna na pequena e secular cidade próxima da montanha que acolhe o mosteiro. Tínhamos acabado de trocar ideias sobre sofrimentos e decepções. O bom sapateiro fundamentara, com mestria, que o amor não é causa de nenhuma dor e vem sendo injustiçado, desde sempre, por darmos ouvidos às sombras, emoções sem nobreza, ao invés de compreendermos toda a grandeza de um sentimento capaz de mudar o mundo pela capacidade de fazer florescer o melhor que existe em nós. Já tínhamos solicitado a conta, quando, de repente, ele diz: “Mas penso que não é só. Sempre que falamos das sombras nos referimos àquelas mais conhecidas como inveja, medo, ciúme, vaidade e ignorância. Muitas vezes esquecemos a mentira, talvez por nos ser tão íntima”. Confesso que fiquei atônito. Ele percebeu, riu e explicou: “De todas as sombras, talvez a mentira seja o cárcere de libertação mais difícil, por ser a mais sorrateira. Falo da mentira que contamos para nós mesmos. Ela nos leva à fuga da realidade na ilusão do conforto de quem teme as atribulações do bom combate. Essa sombra no leva a criar e a interpretar papéis distantes da verdade”. Deu uma pequena pausa e foi adiante: “Existe mais da nossa essência na parte que escondemos do que no pedaço que mostramos; há mais oculto no fundo da gaveta do que aquilo exposto na vitrine. Isto é o que vendemos de nós, aquilo é o que somos. Esta é a razão de muitas frustrações”.

Pedi para que fosse mais claro no seu raciocínio. O bom sapateiro teve boa vontade: “Criamos personagens, repletos de virtudes que ainda não temos, a nos representar nos círculos sociais. Todos desejam ser amados, admirados e idolatrados. Na superfície todos conseguem se mostrar bons e circulam na ilusão de ser o que ainda não são. No entanto, os relacionamentos impõem a hora do mergulho profundo”. Deu uma pausa e concluiu: “Então, a intimidade irá revelar o melhor e, também, o pior que há em nós. É inevitável”.

Ninguém sofre por amor.

Era aquela hora indefinida em que não sabemos se é dia ou noite. Algumas lojas já começavam a se preparar para fechar. Apressei o passo pelas estreitas e sinuosas ruas da secular cidade próxima à montanha que acolhe o mosteiro da Ordem. Queria encontrar a oficina de Loureiro ainda aberta para convidá-lo a beber uma taça e conversar. O elegante sapateiro era amante dos livros e dos vinhos. Filosofia e os tintos eram a sua preferência. A sua antiga bicicleta encostada no poste em frente era sinal de que eu estava com sorte. Quando entrei na loja quase esbarrei com uma bela jovem que saía. Percebi suas feições tristes e os olhos avermelhados de chorar. Fui recebido com a alegria de sempre. Loureiro era um príncipe, seu reino era a nobreza no trato pessoal com toda a gente, a elegância dos gestos e do pensamento. Ele costumava dizer que “É preciso iluminar os passos e não empurrar para o abismo. A hora e a maneira de usar as palavras é uma mestria”. Sem que eu precisasse perguntar, me disse que a moça era sua sobrinha e tinha vindo conversar sobre a recente separação. A moça estava inconsolável.

Seguimos para taberna e depois do primeiro gole, comentei o fato das pessoas se abrirem tanto com ele. “Talvez por eu nada perguntar. Acho que isto as deixa à vontade para falar”. Conversamos um pouco sobre o motivo de os relacionamentos afetivos causarem tanto sofrimento. Aproveitei para falar sobre algo que me intrigava: se o amor é algo tão bom, por que este precioso sentimento causa tanta tristeza?

O sapateiro se mostrou logo disposto a enfrentar a questão: “Antes de tudo, se faz necessário entender o amor. Sem nenhuma dúvida o amor é a força mais poderosa do universo, a energia que move e transforma o viajante para as próximas estações do Caminho. O amor é a matéria prima dos milagres desde o início dos tempos, a argamassa que une as pessoas, envolve os mais puros encontros, alimenta a humanidade em suas ceias espirituais. É o sentido da vida. Logo, que fique bem claro: ninguém sofre ou mata por amor”.

Alegria, alegria.

O Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, tinha sido convidado pelo vigário da igreja localizada na pequena e charmosa cidade próxima à montanha que abriga o mosteiro, um amigo de longa data, para proferir algumas palavras durante a missa de domingo. Ele me chamou para acompanhá-lo e nos fez chegar cedo para aguardar no banco da praça em frente à igreja. O Velho gostava de sentir o sol que aquecia o corpo diante da manhã fria de outono. O sol, o frio, os esquilos, pais que passeavam com seus filhos pequenos, filhos que passeavam com seus pais anciões, a algazarra das crianças, os jardins e os pássaros, enfim, a vida pulsando em todas as suas manifestações encantava o monge. “Tudo isso alimenta o meu silêncio”, comentou.

A missa transcorreu tranquilamente em seu cerimonial até que o Velho, foi chamado a subir no púlpito. O vigário alertou aos presentes que não estranhassem a linha de discurso do monge, embora profundamente cristão, pertencia a uma ordem esotérica secular, dedicada ao estudo da filosofia e da metafísica. O Velho agradeceu e iniciou: “Eu vou tecer algumas palavras sobre a grandeza da gratidão, essa virtude tão mal interpretada”.

“Alguns estão aqui aflitos a solicitar auxílio por problemas que se sentem incapazes de resolver; outros para agradecer pelas dádivas concedidas; muitos, apenas para se banharem nas energias de amor e luz que inundam esta casa. Cada qual com os seus motivos, razões, sentimentos e fé. Todos merecem acolhida, respeito e carinho. Mas desde sempre me fiz duas perguntas: qual o critério da esfera espiritual para atender as súplicas, vez que algumas são atendidas, outra não? A outra, qual a melhor maneira de agradecer por tudo de bom que foi ofertado? Foram questões que tomaram bastante tempo em minhas meditações”, fez uma pequena pausa para que todos refletissem por instantes e prosseguiu: “Conheço os que realizam doações preventivamente, como forma de ‘ficar bem’ com os amigos divinos a garantir proteção e privilégios. Há os que preenchem generosos cheques em prol de instituições religiosas e filantrópicas para ‘quitar a dívida’ do pedido atendido. Para estes e aqueles posso afiançar o total equívoco de suas intenções. O Céu ou o plano espiritual, independente do nome que lhe atribua, não é um balcão de negócios”. A voz do Velho tinha a habitual serenidade e, embora baixa, se podia ouvir claramente até a última fileira; o silêncio era absoluto.

O enigma da paciência.

O Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo do mosteiro, parecia encantado com as roseiras do pátio e as podava como bom jardineiro. Pedi para lhe fazer companhia. Ele anuiu com a cabeça e os seus olhos me indicaram um banco próximo para sentar. Ficamos em silêncio por um bom tempo a alimentar a alma com a quietude das horas. Até que perguntei se podíamos conversar. O monge arqueou os lábios em breve sorriso que interpretei como uma permissão. Discorri as minhas reflexões e dúvidas sobre a virtude da paciência e a sua importância para a felicidade. Ele ouviu sem dizer palavra, depois recolheu o alicate no bolso, acomodou-se à sombra em outro banco na minha frente e falou enquanto se distraia com uma pequena lagarta na palma da mão que acabara de arrancar da roseira: “A paciência é alimento indispensável da alma na estrada para a plenitude do ser, onde reside a paz”, pausou por alguns instantes como se buscasse as melhores palavras e seguiu: “No entanto, a paciência é uma virtude valiosa que possui um precioso enigma. A chave para decifrá-lo é a sensibilidade”.

De pronto, eu quis saber mais. O Velho me mirou nos olhos e disse: “Antes de qualquer coisa, há que se ter boa vontade com tudo e com todos. Entender que as pessoas se comportam de acordo com o seu nível de consciência e carga emocional momentânea e pretérita, ajuda a paciência a encontrar o seu lugar em nós. Não adianta ensinar uma criança a calcular uma raiz quadrada se ela ainda não domina as quatro operações básicas da matemática ou explicar algo enquanto está adormecida. Em nossas relações pessoais não é diferente. Ter esse compasso é perceber o passo do mundo, a entender que as relações se desenvolvem de acordo com a evolução e possibilidades dos interlocutores. A natureza não dá saltos. Aos poucos, tudo e todos se aperfeiçoam”.

Dever de casa.

 

Eu tinha terminado um longo e proveitoso período de estudos. Leituras, meditações, reflexões, conversas profundas, foram partes importantes da busca por conhecimento no ciclo encerrado. O Velho, como carinhosamente chamávamos o decano do mosteiro, me lembrou que teoria sem prática é remédio esquecido na gaveta, que perde a razão de existir por não curar. “Conhecimento só vira sabedoria quando vivenciado em todas as nossas relações”, alertava o monge para os discípulos. Eu me olhava de maneira diferente, como se possuidor de uma importante ferramenta em busca da melhor maneira de usá-la. Questionei ao velho monge qual seria, para mim, a melhor aplicação dos meus dons e talentos. Ele estava entretido na poda de uma roseira, mas sempre paciente com todos, me olhou por cima dos óculos e disse: “Não tenho tal correio. Toda escolha é importante, não sendo aconselhável transferi-la a ninguém, por mais querido e bem-intencionado que seja o interlocutor. O poder de decidir sobre o destino é, ou deveria ser, personalíssimo. Não abdique da liberdade que a vida lhe concede em suas escolhas, pois de qualquer forma, seja seguindo o seu coração ou a lógica alheia, você não escapará das responsabilidades e consequências. Portanto, erre ou acerte pelas suas verdades. A Vida lhe impõe o caminhar como única maneira de entender o Caminho”.

A grande aventura.

Eu caminhava pelas ruas medievais da pequenina cidade que fica no sopé da montanha que acolhe o mosteiro. Era acossado pelos ventos frios de outono que obrigavam a me proteger entre os vãos e muradas das antigas construções. Alegrei-me ao ver a clássica e bem conservada bicicleta de Loureiro encostada no poste em frente a sua oficina. Encontrei o bom sapateiro elegantemente vestido, como de costume, a trabalhar em uma cara bolsa de uma belíssima mulher, que aguardava o conserto. Fomos apresentados e o hábil artesão explicou que a jovem tinha sido amiga de escola da sua filha, portanto, a conhecia desde criança. Contente em me ver, ele pediu para que eu esperasse um pouco, pois queria me falar sobre um novo livro de filosofia enquanto tomávamos um café. Trabalhar sobre o couro era o ofício de Loureiro; prosear sobre filosofia, a sua arte. Nem tinha me aquietado em um canto, a bela mulher continuou a falar das viagens por lugares exóticos que já tinha feito. Passeios de balão sobre vulcões, saltos de paraquedas em queda livre, perigosas corredeiras em frágil caiaque, entre outras façanhas. Arrematou afirmando seu enorme gosto pela aventura. O sábio artesão, imerso no trabalho, não disse palavra. Logo em seguida, como se sentisse dificuldade na quietude e no silêncio, a jovem falou que não via a hora de iniciar a escalada ao Everest que programara para o próximo verão e começou a discorrer sobre os preparativos e riscos da nova empreitada. Até que em determinado momento da narrativa, disse que esse gosto pela aventura adquiriu do ex-marido. Nesse momento, o sapateiro sem levantar a cabeça, apenas me olhou por sobre os óculos que lhe corrigiam a vista cansada, permaneceu calado e voltou ao trabalho. Como em uma ópera previsível, logo em seguida, ela contou de como tinha sido feliz naqueles anos, mas fez questão de ressaltar, sem parecer muito sincera, que não gostaria de encontrá-lo em uma dessas viagens. Logo em seguida, deixou transparecer certa mágoa pelo fim do casamento, que evidentemente ocorrera contra a sua vontade. Loureiro levantou a cabeça, mirou a bela moça nos olhos e disse com bondade: “O mais interessante nas pessoas não é o que elas mostram, mas o que escondem”.

“Já parou para pensar que todo esse seu interesse por viagens pode estar apenas adiando a grande aventura da sua vida?”, perguntou para a moça, que de início pareceu curiosa, querendo saber ao que se referia o sapateiro. Ele explicou: “O que você tem que questionar é se viaja em busca de simples divertimento ou por fuga, na ilusão de retornar a um momento de sua vida que não existe mais. Pense bem”, pediu o sábio sapateiro.

Levemente irritada e com uma voz em um tom acima, disse acreditar que a história do seu casamento ainda estava longe de acabar, pois família do seu antigo marido a adorava e todos lhe afirmavam que ele jamais encontraria uma esposa melhor. O velho artesão, mantendo a voz baixa e doce, falou: “Você entende que todos esses passeios perigosos apenas ocultam a mais fantástica de todas as viagens que você algum dia ousou a realizar?”. A moça quis saber de qual viagem ele falava. “A da libertação”, concluiu o sapateiro.

Pelo prisma da Luz.

“O que nos faz bom ou mau não é o que nos acontece, mas como reagimos ao fato”, disse o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo do mosteiro, provocando uma grande discussão na universidade de uma grande metrópole, onde fora convidado para uma mesa de debates com filósofos, professores, cientistas e artistas. Um dos participantes, homem culto e gentil, discordou frontalmente, argumentando que as pessoas são frutos do meio em que vivem. Articulado com as palavras e ótima retórica, sustentou que as experiências do convívio social obrigam e aprisionam as escolhas, através de seus sucessos e traumas. O Velho tornou a discordar: “Atribuir ao mundo a responsabilidade por nossos erros é vestir a fantasia da pobre vítima. Isto não ajuda ninguém em nada. É fundamental que se dispa do personagem para entender que se pode fazer diferente. Seguir sem a culpa que limita, mas com a responsabilidade de que agora em diante fará melhor, pois terá compromisso com a Luz”.

A luz da verdade.

Eu andava amuado pelos cantos do mosteiro. Evitava tarefas que precisasse conversar com os outros discípulos ou monges. Tudo me irritava. Ao perceber o meu estranhamento, o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, me convidou para um passeio no jardim. Enquanto ele puxava conversa, eu insistia em respostas monossilábicas, a demostrar todo o meu mau humor. Em certo momento, o Velho falou: “Quanto mais iluminado é um espírito, mais bem-humorado é o seu comportamento. As Esferas Superiores, independente da forma como você as conceba, são revestidas em ambiente alegre. Ao contrário do que muitos intelectuais imaginam, não existe sabedoria na irritação e na impaciência. A verdade é libertadora, assim se torna fonte de infinita alegria e paz”. Neste instante eu parei de andar, olhei para o monge e lhe disse que essa era a questão do meu desânimo em relação à humanidade, pois a verdade de uma pessoa não era necessariamente a verdade da outra. Logo, eu não previa um final feliz para o mundo. O Velho sentou em um banco de madeira, como quem não tem pressa, antes de falar com sua voz suave: “A verdade é aparentemente instável, pois a consciência das pessoas está em constante evolução e diferentes níveis”. Interrompi sob a alegação de que ali estava o motivo de eternos conflitos. “Não”, rebateu o monge. “Exatamente neste ponto reside a Inteligência Cósmica. Ao impor a convivência entre aqueles que se encontram em distintos momentos evolutivos, permite que uns ensinem a outros. Ela nos torna alunos e professores em incessantes lições. Temos a oportunidade de vivenciar a beleza de compartilharmos amor e sabedoria através da convivência. Na medida que o entendimento se amplia, as pessoas, cada qual em seu momento, começam a perceber a importância de bens imateriais em detrimento às riquezas aparentes; a valorização de sentimentos mais sublimes ao invés das emoções mais sensoriais. Aos poucos o amor mostra a sua grandeza diante do ódio; o perdão liberta da mágoa. Somente na beleza da transformação individual será possível modificar e alinhar o planeta”.

A voz do coração.

Encontrei Canção Estrelada – o xamã recebera este nome por causa do seu dom de preservar e semear a tradição do seu povo através da palavra, cantada ou não – trocando o couro do seu tambor de duas faces em frente à sua tenda. Eu tinha resolvido sair da cidade por um tempo, andava chateado com as duras críticas que os originais do meu último romance tinham recebido, a ponto de me levar a duvidar do meu próprio talento como escritor. Até tinha recebido alguns elogios, no entanto as críticas foram ferozes e a tristeza me corroía as entranhas. Assim que o vi, derramei todas as minhas queixas. Do jeito que ele estava trabalhando, continuou e sem levantar os olhos, falou: “Você não está sabendo dar a exata medida às opiniões alheias. Nem todo elogio é sincero nem toda crítica é justa”. Ele parou de encordoar o tambor por alguns instantes, me mirou nos olhos e falou com sua voz mansa e rouca: “Já lhe ensinei sobre o Portal Sul, penso que chegou a hora de falar sobre o Portal Oeste, onde mora o urso na Roda de Cura”. Mandou-me descansar e que fosse ao seu encontro quando “o Grande Mistério agasalhasse a Terra com seu manto de estrelas”.

À noite encontrei o xamã sentado, sozinho, em frente a uma pequena fogueira. Convidou-me para fumarmos juntos o seu inseparável cachimbo de fornilho de pedra. Após algumas baforadas em silêncio, falou: “A Roda de Cura é o símbolo sagrado que representa a vida de cada um nesta existência. A vida é o tratamento de cura do espírito. A cada lição aprendida ou ferida cicatrizada avançamos um aro na Roda”. Deu uma pausa e prosseguiu: “No lado Oeste da Roda, onde o sol se põe, fica o espaço sagrado do Urso, a sua caverna, onde ele se retira para o sono invernal depois de experimentar todos os alimentos das demais estações”. Aguardei sem dizer palavra, pois não estava entendendo onde Canção Estrelada queria chegar. “O urso procura o silêncio da caverna para se aquietar e ficar um longo período a digerir tudo que comeu. Com a chegada da primavera, ele acorda mais forte para enfrentar e viver a vida. Esta é a lição e o poder do urso. Conosco não é diferente”. Insisti que continuava sem entender. Ele me olhou com sua enorme paciência e disse: “Cada vez mais as pessoas ouvem todas as vozes em detrimento às palavras do próprio coração. Escutam muito, mas entendem pouco. Percebo uma enorme busca por distração e divertimento, não que isto seja ruim, mas estão desaprendendo a ouvir a sua própria verdade, pois têm cada vez mais dificuldades em ficar apenas consigo, como se não entendessem que a solidão é um exercício necessário para escutar a voz do coração. Ou será que estão fugindo de encontrar consigo próprias? Por que temem tanto esse encontro?”.

Sabemos mais do que fazemos.

Mais um dia de trabalho se encerrava na pequena e secular cidade próxima à montanha que acolhe o mosteiro da Ordem. Apressei o passo na esperança de conseguir encontrar a oficina de Loureiro ainda aberta. Não que eu tivesse qualquer conserto a fazer, mas queria conversar um pouco com aquele amigo querido. Ao longe pude perceber a sua bicicleta ainda encostada ao poste de iluminação, sinal de que eu estava com sorte. O sapateiro, elegante como sempre no vestir e no agir, me recebeu com alegria e, para minha surpresa, estava com Sara, a Moreneta, como carinhosamente chamava a filha, uma belíssima e jovem mulher com longos cabelos negros, razão do apelido. Ela, que agora morava na capital, onde trabalhava e cursava o doutorado em prestigiosa universidade, tinha vindo passar uns dias com o pai. Muito meiga e educada disse que nos deixaria a sós para conversarmos e que o aguardaria mais tarde em casa. Loureiro me mostrou os novos livros de filosofia que a filha lhe trouxera de presente. A filosofia era a outra paixão do bom sapateiro. Ele me convidou para uma taça de vinho em uma silenciosa taverna próxima dali. Fomos a pé e antes mesmo de chegarmos, lhe indaguei de como foi a experiência de educar sozinho uma filha. “Sabemos mais do que somos. Todos temos conhecimentos que não conseguimos exercer. Então, a vida, em sua infinita inteligência, nos impõe conflitos e dificuldades para que entendamos a sua beleza e nos obrigue a vivenciá-los. Cabe a nós aproveitar as preciosas lições com alegre resignação”, falou de maneira a mostrar os alicerces do raciocínio que construiria.

A outra face.

 

Profundamente irritado, fui me sentar no final da enorme mesa onde todos juntos, discípulos e monges, fazem as suas refeições no mosteiro. No pátio, há pouco, eu tinha tido uma séria discussão com outro jovem discípulo. O Velho, como chamávamos carinhosamente o decano da Ordem, me observou por alguns momentos, mas me deixou quieto durante o almoço. Após todos se retirarem em silêncio, o velho monge se aproximou e me convidou para um passeio no jardim. Antes que ele perguntasse qualquer coisa, desfiei toda a minha indignação em relação ao colega que tinha sido bastante severo em suas críticas para comigo. Uma mãe tinha nos procurado em busca de apoio emocional e espiritual pela razão da imensurável dor de ter perdido um filho. Orientei-a para que se dirigisse ao orfanato mantido por nossa irmandade na pequena cidade, ao sopé da montanha que abriga o mosteiro, para que lá servisse voluntariamente por duas semanas e, somente então, nos procurasse para conversar. A minha intenção, expliquei de pronto ao monge, é que essa mãe entendesse que sempre existem dificuldades maiores que as nossas, mas que também, ali poderia ser um bom depositário para o amor que ela tinha no coração. Transferir o eixo do sentimento que nutria pelo filho que partiu para as crianças que não tinham pai e mãe, iria arrefecer a sua dor, dar sentido à vida e iluminar seus passos. Quando retornasse para conversar conosco estaria mais receptiva a ouvir as palavras que lhe acalentariam e explicariam as Leis Não Escritas do Caminho. No entanto, o outro discípulo me recriminou. Na sua opinião eu tinha sido insensível em não disponibilizar mais tempo para consolar a mãe no momento em que ela mais precisava, pois, uma boa palavra tem o poder de estancar a dor que sangra. Este era o conflito e o motivo da discussão.

Indaguei se eu estava errado. “Não”, respondeu o Velho. De imediato perguntei se ele chamaria o outro discípulo para uma conversa séria, seguida da devida repreensão e pedidos de desculpas. “Não”, tornou a falar o monge. Como assim? Um erro não tinha que ser reparado? Não somos responsáveis por nossos atos? Saraivei o Velho com perguntas repletas de indignação.

O monge me mirou com seus belos olhos, brilhantes de compaixão, emoldurados em pele vincada pelo tempo e pela luta, antes de dizer: “Quando duas pessoas discutem, ambas podem ter razão. Nesse caso, não havia solução errada e qualquer das duas medidas seria acertada”. Aleguei que a verdade era única. Ele discordou: “A verdade se aproxima de acordo com o nível de consciência das pessoas, a alterar, por causa e consequência, a sua sensibilidade em relação ao sentimento do mundo. Muito do que foi absoluto para você há anos, hoje não é mais revestido de convicção. A Verdade é una, entretanto, o seu real entendimento ocorre de mansinho, aos poucos, na medida de cada passo no Caminho”.

O mercador de sonhos.

Era noite alta e eu não conseguia dormir. Resolvi sair da tenda e encontrei Canção Estrelada – o xamã que recebera esse nome pelo seu dom de compartilhar a sabedoria nativa através de suas histórias, cantadas ou não – fumando seu inconfundível cachimbo de fornilho de pedra. Pedi permissão para sentar ao seu lado e lamentei que vinha com dificuldades para pegar no sono. Ele me olhou com seu jeito sereno, deu uma longa baforada e disse: “Você precisa ter uma conversa séria com o Mercador de Sonhos”. Claro que não entendi do que ele falava e pedi para que fosse mais claro. “Você sabe por que os índios pintam o rosto quando vão a um cerimonial ou quando antigamente iam à guerra?”, a sua pergunta tornava tudo ainda mais confuso em minha mente. Diante da minha negativa, ele falou: “As pinturas não são aleatórias ou estéticas, mas revelam, de acordo com as cores e os traços, a magia de cada um”. Magia? Quis saber a que se referia com este termo. “Todos, sem exceção, temos nossos dons e talentos que devemos usar com criatividade. A sua magia é o que lhe torna especial. Ela pode se expressar de diversas maneiras seja pelo dom da sabedoria através do talento de ensinar, da compaixão para acolher os necessitados, da verdade para semear a justiça, da coragem para oferecer segurança, da sensibilidade para ajudar aflorar os sentimentos. Enfim, são inúmeros dons e talentos a se manifestar na essência de cada pessoa, a refletir na maneira como ela Caminhará em Beleza semeando os bons frutos por onde passar. É a espada do guerreiro, como os ancestrais metaforicamente falavam. Isso tem que ser aplicado em seu trabalho ou profissão, pois quando o guerreiro não usa a sua espada, ela enferruja e ele se torna amargo”.

Eu preciso disso?

Era um jovem e promissor advogado. Tinha aproveitado uns poucos dias de folga para se aconselhar com o Velho, de quem ouvira falar. Enquanto eu o encaminhava para a sala onde haveria o encontro, tentei lhe mostrar a beleza de nosso mosteiro, suas colunas trabalhadas e paredes seculares, onde há muito se ancorava a paz do silêncio, das orações, dos estudos e do serviço de benemerência. Porém, ele tinha pressa. Interrompeu a história que eu narrava sobre a abadia, para comentar sobre a importância dos processos em que atuava e sobre seus feitos nos tribunais, onde dobrava o convencimento dos juízes pelo peso de sua inteligência.  Tinha urgência em encontrar logo o Velho, vez que trabalhos de sumo valor o aguardavam. No entanto, antes que chegássemos ao local onde o velho monge gostava de receber as pessoas para conversar, o encontramos no jardim interno do mosteiro a se distrair com algumas plantas. O rapaz foi recebido com sincera alegria pelo ancião, como de costume, embora não o conhecesse. Imediatamente o advogado começou a falar sobre uma ação que movia contra uma poderosa multinacional que lhe renderia milhões em honorários. Explicou que teria de peticionar neste processo até o dia seguinte e pediu para que fossem direto ao motivo de sua visita. “Dinheiro é uma ferramenta importante, pode-se fazer muita coisa boa com ele. Assim como a sua profissão, na luta por um equilíbrio e entendimento entre as pessoas. Use-as com sabedoria”, limitou-se a comentar o monge. Em seguida perguntou ao rapaz: “Posso lhe ajudar em algo?”.

A resposta foi a ansiedade e o estresse. Contou que em razão disso já tinha sido internado por problemas cardíacos, tinha dificuldade em seus relacionamentos afetivos e não conseguia dormir sem a ajuda de ansiolíticos. No entanto, acreditava ser o preço do sucesso. “Quem lhe recomendou a visita ao mosteiro? ”, perguntou o monge. O advogado respondeu que foi um tio chamado Jonas, um humilde marceneiro que lhe visitou quando esteve convalescendo no hospital. Deixou escapar, com uma ponta de vergonha, que foi a única visita movida apenas por carinho, despida de qualquer outro interesse. “Você é sobrinho do Jonas?”, alegrou-se o Velho. “Tenho muito respeito e admiração pelo seu tio. Toda vez que uma criança entra no orfanato da cidade, ele constrói e doa um berço para o pequenino. Usa seus dons e talentos com o coração. Gosto muito de estar e conversar com ele”.

O jovem retrucou, pois entendia que o tio deveria concentrar seus esforços para sair da vida simples que levava. Comprar uma casa maior, montar uma oficina mais moderna. Não tinha que se preocupar com problemas que não eram seus. O Velho arqueou os lábios em breve sorriso e disse: “Deve ser triste não ter com quem se preocupar. Jonas é um homem feliz”. O advogado riu e disse que o tio era um irresponsável.

O Velho o mirou com seus olhos repletos de compaixão e perguntou: “Ele precisa disso? ”. A pergunta era apenas retórica e se referia ao estilo de vida e bens que o sobrinho acreditava que Jonas deveria perseguir. Antes que o rapaz pensasse em responder, o convidou para sentar ao seu lado em um banco de pedra, à sombra de uma enorme roseira. Em seguida comentou: “Ganhar o pão de cada dia com dignidade é sagrado, assim como é legítimo e louvável o esforço para uma vida confortável. Todos temos necessidades básicas de alimentação, moradia, educação e saúde”. A brisa leve da tarde tornava o jardim ainda mais agradável. O Velho continuou: “O problema é que desde sempre a humanidade parece não estar satisfeita e saciada com o que tem e, então, continua sua busca desesperada para ter mais. Não sabe impor limites a si mesma. Isto traz, de imediato dois problemas. O primeiro é que as pessoas se tornam eternamente insatisfeitas, a alimentar um ego já gordo e cada vez mais voraz a se agigantar nas sombras da vaidade e da ganância. A outra, é que acaba sobrando pouco tempo para pensar e exercitar as questões primordiais do ser, onde se adquire as verdadeiras riquezas”.

O jovem, brilhante por ofício nas técnicas da argumentação e contestação, rebateu que conhecia aquele velho discurso, mas que na verdade o mundo só respeitava e reverenciava as pessoas poderosas e, para tanto, quanto maior a fortuna, mais consideração lhe renderiam e, no uso deste poder, poderia melhor contribuir para a caridade no futuro. O monge sorriu com os olhos e disse: “Penso que talvez você esteja equivocado na escolha das pessoas que dá valor e considera importantes. Sem dúvida que o dinheiro pode ser um instrumento poderoso para a realização do bem, mas se torna desastroso quando tem por finalidade alimentar o orgulho. Assim, como um martelo, a sua escolha é que definirá se será usado para a construção ou demolição” e prosseguiu: “Ao contrário do que muitos pensam, a melhor compaixão não carece de dinheiro, mas de sabermos priorizar nosso tempo, sentimento e interesse. Você pode cuidar da sua arte ou ofício com mestria enquanto interage com o mundo oferecendo o seu coração. Assim como o Jonas”.

O jovem argumentou com argúcia que as pessoas são diferentes. Assim, distintos são os conceitos, os objetivos e as necessidades de conforto. Questionou até onde era legítimo se concentrar somente em seus objetivos antes de pensar em ajudar aos outros. O monge disse com sua voz mansa: “Sim, cada qual é único e nisto reside a fortuna da vida. Existe um mantra valioso que qualquer um pode recitar nessas horas: ‘Eu preciso disso?’. Temos que nos questionar sobre os verdadeiros limites da própria necessidade. Quanto mais estreito for o limite do ego mais ampla será as fronteiras da alma. Acredite, as prioridades mudam na medida que o nível de consciência se transforma. Questiono a luta insana por carros mais potentes em centros urbanos engarrafados e, que, ao final, levarão apenas o corpo, pois a alma, muitas vezes, não foi a lugar nenhum. Ou casas cada vez mais luxuosas em bairros exclusivos, ao custo de montanhas de dinheiro, ou mesmo dívidas, como símbolos de ostentação, status e, ironicamente, isolamento. Não raro encontro com pessoas na busca frenética por mais roupas, sapatos e relógios. Será que nunca se perguntam ‘Eu preciso disso?”.

O advogado balançava a cabeça em negação e seus olhos transbordavam ironia. O monge nem de longe pareceu ofendido e continuou com sua fala mansa: “Quantas vezes você adiou uma reunião de negócios pela atenção a um filho que precisa de tempo ao seu lado e de seus conselhos a lhe indicar os bons trilhos da vida, serenando seu coraçãozinho ao sentir uma mão forte a lhe apoiar? A última vez que foi levar um pouco de carinho aos seus pais ou desmarcou um compromisso profissional para ouvir um amigo em dificuldade?”. Com a expressão simples que lhe era peculiar, o Velho tornou a perguntar: “Do que você realmente precisa, filho? Esta resposta vai revelar seu atual nível de consciência e definir as alegrias e sofrimentos que lhe acompanharão no Caminho”.

O jovem tornou a explicar, como se falasse para um ancião ingênuo, que trabalhava muito e, em troca, precisava presentear a si próprio atendendo a alguns desejos. O Velho respondeu de imediato: “As sociedades se movimentam inconscientemente a distrair a nossa atenção para as questões primordiais do ser. Vejo pessoas que até para relaxar criam um monte de lugares que supostamente não podem deixar de ir, como rota de fuga a lhes furtar o precioso encontro consigo mesmo. Já parou para pensar o que nos leva a fugir de nós mesmos?”, deu uma pequena pausa e concluiu: “Entendo a vontade de nos acarinhar após uma dura batalha. No entanto, podemos presentear o ego ou a alma. E as consequências são um brilho forte de curta duração, logo acompanhada de um grande vazio ou uma estranha e infinita luz a lhe dar a sensação do todo”.

O jovem advogado sorriu, balançou levemente a cabeça como se ouvisse um louco e se levantou. Educadamente agradeceu ao monge pelo seu tempo, mas lamentou que a visita não o ajudaria. Confessou, com uma ponta de sarcasmo, que esperava ouvir uma revelação secreta sobre os mistérios da vida. O monge se levantou e abraçou o rapaz. Depois lhe falou com mansidão: “O que muitos chamam de mistério, nada mais é do que as lições que negamos. Então, nos aprisionamos em um ciclo até que cada um o decodifique para si. Isto pode trazer sofrimento. Porém, a vida floresce pela alegria das almas e disponibiliza a mais fina sabedoria para todos, sem privilégio ou distinção. Está no ar, no silêncio, nos sorriso e abraços. Basta que se preste atenção e tenha a ousadia de pensar diferente. Nada será mais revolucionário do que colocar o mais puro amor na ponta de cada escolha ao se perguntar ‘Eu preciso disso?’ ”.

Eu quis acompanhar o rapaz até os portões do mosteiro, mas ele me dispensou e partiu.

A sós, o Velho comentou com doçura: “Um dia ele volta”. Eu quis saber se o advogado retornaria ao mosteiro. “Volta para o seu próprio coração. Não poderá fugir dele por toda a eternidade. Em algum momento terá que refazer as suas prioridades. Suas necessidades mudarão quando se cansar do vazio e do deserto e do abandono”. Olhou para as primeiras estrelas que começam a enfeitar a noite e finalizou: “Quem você pensa ter encontrado a paz, o jovem, rico e talentoso advogado ou o tio carpinteiro, humilde e misericordioso?”.

Apenas abaixei os olhos como resposta. Em seguida lhe ofereci um chá. Ele me olhou sério e mantrou: “Eu preciso disso?”, para em seguida piscar o olho e falar com seu jeito gaiato: “Muito!”. Rimos e seguimos para o refeitório.

 

Os pilares da paz.

A pequena cidade, no sopé da montanha que abriga o mosteiro, despertava. Suas ruas seculares, estreitas e tortas, ainda estavam molhadas do orvalho da noite. Como eu tinha chegado cedo para os meus afazeres, segui até a pequena loja de Loureiro a fim de convidá-lo para um café. De longe pude avistar sua antiga bicicleta encostada junto ao poste, em frente à porta já descerrada. Fui recebido com a alegria costumeira pelo amigo, sempre elegante nas vestes e nas atitudes. Alto e magro, sua vasta cabeleira branca não escondia a idade avançada. Calça bem cintada de cor preta a contrastar com a camisa de branco imaculado, ambas de fina alfaiataria. O sapateiro repousou as ferramentas sobre a bancada de trabalho e saímos os dois, como bons meninos, a rir pelas ruas em direção à padaria. Sentados, com as canecas quentes à frente, a espera do pão fresco, não pude deixar de notar algo que sempre me chamava a atenção: a paz permanente que irradiava do olhar e das palavras daquele sapateiro. Sempre me indagava sobre tal poder. Porém, nossa conversa versou, como sempre, para a filosofia, a paixão de Loureiro, a devorar todos os livros que lhe chegavam às mãos. “Apesar de todos os avanços, e estes são incontestáveis, os meus preferidos ainda são os gregos. Tudo que precisamos aprender já sabíamos há três mil anos”, comentou. Perguntei se essa era a fonte de que ele bebia para exalar a serenidade tão admirada por mim. “Toda a paz de que você precisa nasce do entendimento de que nenhum acontecimento no mundo, por mais trágico que possa parecer, poderá abalar os alicerces da sua alma sem a sua permissão”.

Os labirintos da vida.

Todo sábado, pela manhã, tem uma deliciosa feira na praça principal da pequenina cidade próxima a montanha que acolhe o mosteiro. As ruas são sinuosas e estreitas, ainda estão calçadas por pedras para não lhe negar a origem medieval. Guloseimas, artesanatos, embutidos, queijos, frutas e hortaliças frescas são vendidas pelos moradores e agricultores das proximidades. A música alegre tocada por jovens e anciões no centro da praça colore o estado de espírito que predomina no rosto de todos. Naquele dia, o sol agradável da primavera aquecia o frio das primeiras horas da manhã e oferecia as cores típicas da estação. O Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, tinha me convidado para acompanhá-lo à feira com a desculpa de que precisava comprar mel para a receita de um bolo apreciado por todos os monges. Na verdade, ele admirava muito a troca espiritual entre toda a gente, seja dentro ou fora do mosteiro. Com seu sorriso franco, olhos brilhantes e fala mansa, conversava com todos que lhe cruzavam os passos lentos, porém firmes. Impressionante perceber como ele era querido, apesar de não possuir um níquel para oferecer. Em determinado momento, encontrou uma jovem mulher, muito bonita e bem vestida, cuja família, proprietária de vasta extensão de terras nos arredores, remontava a uma aristocracia que tende a desaparecer. Suas feições eram tristes, seus olhos pareciam sem vida. Ela pareceu contente por encontrar o Velho e nos convidou para sentar em uma cafeteria próxima.

Com xícaras fumegantes à frente, a mulher começou a desfilar sua enorme tristeza em relação aos infortúnios do destino. Apesar da enorme herança que lhe tinha sido destinada e ter acesso ao que o mundo tinha de mais caro, não conseguia ser feliz nem ver encanto nas coisas. Nada lhe dava contentamento. O velho monge lhe ouviu com sincero interesse por longos minutos, sem dizer palavra. Ao final, com os olhos mareados, uma lágrima escorreu no belo rosto da jovem. Ele lhe ofereceu um sorriso confortador e perguntou: “Você sabe o que é um labirinto?”. A moça fez que sim com a cabeça e respondeu que era um emaranhado de corredores que parece não levar a lugar nenhum, cuja saída é difícil de encontrar. “A vida, por vezes, apresenta-se como um labirinto”, o Velho falou ainda enigmático a construir o seu raciocínio. A mulher quis saber mais. Ele a mirou nos olhos com doçura antes de completar: “Quem não sabe aonde precisa ir estará sempre perdido”.

O caçador de estrelas.

Eu passei vários períodos de minha vida ao lado de Canção Estrelada, xamã do povo nativo da Estrada Vermelha, com quem aprendi muito. Certa vez, quem me mandou para lá foi o próprio Velho, como chamávamos o mais antigo monge da Ordem. O motivo foi que eu estava me indispondo frequentemente com outros monges do mosteiro, com os comerciantes da pequena cidade próxima e, até mesmo, com amigos e familiares. “Quando pensamos que o mundo atrapalha os nossos sonhos é porque existe algo de muito errado dentro de nós”, assim ele justificou a minha mudança temporária de ares.

Fui recebido com a alegria de sempre pelo xamã, mas não tardou e, após os primeiros dias de férias compulsórias, comecei a me indispor com alguns membros da tribo. Claro que eu estava insatisfeito comigo, tinha um olhar enevoado em relação a algumas situações e, principalmente, sempre atribuía a alguém a responsabilidade pela minha infelicidade. Por um lado, não percebia; por outro, faltava coragem de admitir para mim mesmo as minhas próprias dificuldades que tanto me incomodavam, causadora daqueles pequenos conflitos pontuais. Canção Estrelada me observou por um tempo sem dizer palavra, até que certa noite me convidou para sentar ao seu lado em frente a uma fogueira. Estávamos só os dois. Eu observava seus movimentos, enquanto ele, sem pressa, completava com tabaco o fornilho de pedra do seu cachimbo e tínhamos a Via Láctea como obra de arte na parede do Infinito. A noite mal começava. Eu quis saber qual o motivo de ele sempre me chamar para conversar diante das labaredas. “O Grande Mistério utiliza o poder dos quatro elementais – água, ar, terra e fogo – para purificar e alimentar o planeta. Sinto-me à vontade diante do poder do fogo que ilumina, aquece e queima as velhas formas”, falou enquanto dava a primeira baforada. Interrompi para perguntar ao que se referia com o termo “velhas formas”. “São sentimentos e ideias que já não nos servem mais e, por ultrapassados, devem ser transmutados. A vida precisa que sempre haja lugar para o novo, seja no planeta ou dentro de nós”, explicou. Em seguida me passou o cachimbo, seus olhos miravam os meus, como reza o costume, em sinal de amizade e respeito. Vi o fogo refletindo em suas pupilas enquanto ele falava: “Está na hora de falarmos sobre o Caçador de Estrelas”. Antes que eu perguntasse do que se tratava, o ancião explicou: “É todo aquele que trilha a Estrada Dourada da Iluminação”.

O espelho da minha alma é você.

“O perfeito olhar é aquele capaz de encontrar beleza onde todos apenas enxergam desastre”, disse o Velho, como carinhosamente chamávamos o mais antigo monge da Ordem, quando, de tão irritado que eu estava, passei por ele e não o notei. Seu olhar maduro percebeu que o meu coração estava em tempestade. Virei-me e desabafei toda a insatisfação com acontecimentos recentes. Em discurso longo, narrei ao Velho toda a minha indignação em relação à ignorância que ainda campeia solta no mundo. Ele me ouviu pacientemente até que eu desanuviasse o último resquício de intolerância, depois comentou com seu jeito manso: “O que mais nos incomoda nos outros é reflexo dos nossos mais graves defeitos”.

Discordei veementemente, pois certos comportamentos eram, por absolutos, incompatíveis com os meus. “A maioria, com certeza, sim. Alguns, não. E são justamente estes que sua alma, manifestada através do inconsciente, reconhece as próprias dificuldades e o seu ego, na ilusão de lhe proteger, repudia a sombra alheia, pois teme que o mundo veja outra igual em você”. Deu uma pequena pausa, me observou por alguns instantes e concluiu: “Percebe que o que tira o prumo e rasga a serenidade é ter que conviver com o erro que existe no outro, justo aquele que lhe faz lembrar a existência de dificuldade bem parecida e familiar? Exatamente aquela que você quer esquecer ou se enganar que não é parte da sua personalidade. Esta afinidade funciona como um espelho e o narciso não quer se ver feio. Mas o que o ego esconde, a alma sinaliza para que possa ser transformado”. Abaixei os olhos e não disse palavra.

A arte da renúncia.

Eu tinha descido a montanha onde se localiza o mosteiro da Ordem e caminhava através das ruas estreitas e antigas da secular cidadezinha mais próxima. Chovia muito e estava mais escuro do que a hora determinava. Era muito cedo e o comércio começava a abrir as suas portas. De longe vi a bicicleta do Loureiro estacionada em frente à sua pequena loja. Por décadas tinha sido o único meio de transporte que aquele ancião se permitiu usar. Sorri comigo pela alegria de passar alguns instantes com pessoa tão ilustre. Assim que entrei, Loureiro me olhou por cima dos óculos, largou o alicate, arqueou os lábios e se levantou de braços abertos para me receber. Como sempre, o homem alto e magro estava impecavelmente vestido. A calça preta de pregas bem cintada, sustentada por suspensórios, fazia uma boa combinação com sua elegante camisa branca abotoada até o pescoço, com as mangas arregaças na altura do cotovelo para não atrapalhar o ofício. Seus cabelos, da mesma cor da blusa, embora ainda fartos e bem penteados, sinalizavam a idade avançada. Loureiro era sapateiro desde sempre. Nas horas vagas gostava de um bom vinho e amava os livros. Os seus prediletos eram os tintos e os de filosofia.

Tinha ido por causa das minhas sandálias, cujas tiras de couro, cansadas do uso, tinham arrebentado. Apesar de velhas, eu gostava do conforto que me proporcionavam, como se elas e meus pés já tivessem selado a paz há tempos. Depois dos cumprimentos e uma caneca de café bem quente para afastar o frio, perguntei se as sandálias teriam reparo ou me restaria procurar por novas. “Penso que as pessoas estão perdendo o bom hábito de consertar as coisas, o que pode acabar por refletir em suas relações. É necessário a sensibilidade para perceber o que não serve mais e o que merece remendo. Se a vida, e tudo nela se tornarem descartáveis, em breve minha profissão, assim como a razão do meu existir, perderão o sentido”, disse, entre graça e razão, enquanto levava as sandálias para a sua bancada de trabalho. “Sente-se. Trocaremos uma prosa enquanto faço o reparo”.

A beleza do perdão.

“É impossível ser feliz sem perdoar”, disse o Velho para uma jovem senhora que foi ao mosteiro em busca de consolo. Estávamos sentados no refeitório e eu lhes servia uma xícara quente de café. Ela acabara de narrar o seu drama pessoal e estava inconsolável, pois não se julgava merecedora daquele destino. Aflita, a mulher confessou que o que a mantinha em pé era assistir ao sofrimento de quem tinha lhe atingido e por isto não o perdoaria jamais. O Velho fechou o cenho diante de tamanha intolerância, no entanto, os olhos brilhantes em seu rosto enrugado transbordavam misericórdia. “Penas eternas é uma adequação às sombras e não faz nenhum sentido com as ideias trabalhadas pela Luz, sempre disposta a conceder novas chances. O erro faz parte do aprendizado e, para tanto, requer inúmeras oportunidades.  Só um anjo poderá enumerar todos os erros da própria vida”.

A mulher rebateu dizendo que já tinha cometido alguns erros, porém nunca por maldade. O monge manteve o tom sereno em sua voz. “O desencontro entre as pessoas reside em julgarmos os outros através do rigor dos fatos, das feridas que nos deixaram e desejar que sejamos julgados por nossas intenções. Sempre temos motivos que justificam nossos atos, né?”, deu uma pequena pausa para que a mulher refletisse sobre as suas palavras e seguiu: “Esta é a questão. Tamanho descompasso é a raiz do conflito nas relações. Por isto a necessidade do mergulho nas profundezas de si mesmo. Esqueça as máscaras e os personagens sociais que criamos com o ego, no afã de nos proteger, no desejo de ser aplaudido em público. Falo das sombras que escondemos, que anseia por luz nos porões ainda escuros da alma, que apenas quer ressaltar os defeitos alheios na vã esperança de esconder os nossos. Perdemos tempo demais na ilusão de corrigir os erros dos outros ao invés de aperfeiçoar o nosso próprio coração para que possa refletir a beleza das atitudes que ainda não temos. Pode apostar, ao nos conhecer de verdade passamos a ser mais tolerantes com os demais”.

A magia de encontrar consigo.

Canção Estrelada estava sentado à porta de sua tenda. Baforava seu indefectível cachimbo com fornilho de pedra. Era aquela hora em que o dia vira noite. O sol já tinha ido e a lua ainda não havia chegado. Eu me sentia cansado, tinha acabado de chegar da cidade e estava bastante aborrecido com uma série de problemas pessoais. Há dias andava mal-humorado. “Tem horas que dá vontade de desparecer”, lamentei a sorte quando passei pelo xamã. “Fugir do mundo não te fará escapar da vida”, ele respondeu com um sorriso irônico. Calei-me e tentei seguir. Eu apenas queria me banhar e dormir, mas ele me mandou sentar. “Hoje vou te ensinar sobre o Porta do Sul”, falou e em seguida me passou o cachimbo para que eu fumasse junto com ele, sinal de confiança e respeito. Pegou seu tambor de duas faces para ritmar uma sentida canção nativa. Fechei os olhos e me deixei envolver naquela ambiência de paz. “Na Tradição do Caminho Vermelho, a Roda da Vida – ou Roda de Cura, vez que a vida nada mais é do que um infinito processo de cura do espírito na exata medida da sua evolução – possui quatro portais, representados pelas direções magnéticas do planeta. Em geral gosto de começar pelo Leste, onde moram os antepassados que aprenderam a cavalgar com o vento. Porém, contigo vou começar pelo Sul”, explicou. Antes que desse tempo de eu perguntar o motivo, ele disse. “Existe uma necessidade urgente de você se despir do personagem que criou na vã ilusão de se proteger de tudo e de todos. Onde tenta enganar que é forte, habita a sua fraqueza. Isto fez com que tenha abandonado a sua verdadeira força. Tudo que não faz parte de nós, atrapalha por inadequação”.

Amor não é troca.

Não raro escuto as pessoas falando que “damos amor e queremos receber amor. Amor é troca”, como sentença definitiva. Não, amor não é troca. A troca é a base do comércio que, sim, ajuda a movimentar o planeta e a dirimir as diferenças entre os povos, porém, amor não é mercadoria para ser negociado. O amor tem que ser incondicional, sem exigir absolutamente nada de volta ou não é amor. Amor não é moeda de convivência, mas o verdadeiro sentido dos relacionamentos. Na verdade, quando se reclama que o outro não nos devolveu o amor que lhe oferecemos, estamos transferindo para terceiros a responsabilidade pelo nosso vazio existencial. Um ser integral a caminho da harmonia interior sabe que toda a paz e felicidade de que necessita para se sentir pleno é construída dentro de si por si. A partir de então passa a compartilhar com todos o belo sentimento que lhe encanta o coração. Como um casaco tricotado com a agulha da sabedoria e pelas linhas do amor, que pronto, tem-se o desprendimento de entregar a quem está com frio, sem esperar absolutamente nada de volta, salvo a própria alegria de ter levado um pouco de conforto a alguém. É imprescindível entender que somente você é responsável por sua felicidade. Transferir ao outro a responsabilidade de lhe fazer feliz é inadequado, tolo e, cedo ou tarde, surgirão os conflitos naturais oriundos de quem carrega um fardo que não pode suportar. Não se pode exigir do outro o preenchimento do vácuo de sua alma, pois tal desafio é pessoal e inerente à evolução de cada um. Ninguém tem a obrigação de fazer ninguém feliz. O que é diferente de sempre oferecer o seu melhor para o sorriso e o conforto de alguém. Ser amado é maravilhoso e uma das dádivas divinas da vida, mas é necessário aceitar que o amor do outro não é nem será a base da sua felicidade. Esta tem que ser construída aos poucos dentro de você. Cada um de nós, sem exceção, possui as ferramentas necessárias para fortalecer a alma a alcançar a plenitude em completa liberdade, ao largo de qualquer dependência emocional. Dependências, afetiva ou sentimental, nada mais são do que prisões sem grades – embora algumas estejam bem disfarçadas em gaiolas doces e douradas – onde não podemos nos permitir apodrecer.

Milagres são transformações ocultas em nós.

“O que chamamos de magia em outras Tradições recebe o nome de milagre. Muda-se o nome, mas é a mesma força e poder”, falou Canção Estrelada, ancião nativo do Povo do Caminho Vermelho, enquanto preparava o cachimbo de fornilho de pedra. Estávamos sentados em volta de uma pequena fogueira sob o manto fantástico da Via Láctea a nos provocar indagações sobre os mistérios do universo. Esperei que ele desse uma pequena baforada e, assim, convidasse seus ancestrais que já cavalgam com o vento para participar da nossa conversa. Depois me fitou com as labaredas refletidas em seus olhos e explicou: “Magias ou milagres são como chamamos transformações que ainda não conseguimos explicar. O importante é entender que você é parte do milagre, assim como a semente só germina se encontrar solo fértil. Cada qual é o seu do próprio jardineiro, que sem o devido trabalho nenhuma rosa fará florescer. O sol e a chuva são para todos, porém a semeadura é pessoal e intransferível. O essencial é entender que cada qual tem que fazer a sua parte para se encantar com a magia da vida”.

Explicou, ainda, que existe um intercâmbio incessante entre esferas, porém os aliados do plano invisível somente podem intensificar o trabalho conosco se estivermos preparados: “Somos os pilares da ponte em que atravessam; portanto, quanto mais firmes forem os alicerces, maior o trânsito deles. Sem o aperfeiçoamento de um código moral próprio, onde não se pratique nenhum mal a qualquer coisa ou pessoa, não se chega a lugar nenhum. Tais conceitos são os sólidos fundamentos da alma”, acrescentou.

A maturidade traz em si a verdadeira liberdade.

“A maturidade nada mais é do que o entendimento de si e a disposição de se transformar. Isto é libertador”, disse o Velho enquanto procurávamos cogumelos em uma floresta próxima ao mosteiro depois de uma noite de chuva. O sol brilhava por entre as folhas, lambia nossos rostos e aquecia na manhã ainda fria. “Entender quem somos, nossas dificuldades e belezas, permite que deixemos para trás o que em nós não serve mais e abre a perspectiva de inventar o que queremos ser. Este é o poder do Caminho”, complementou. Um belo rouxinol pousou em um galho de uma árvore próxima e nos presenteou com uma pequena sinfonia, só encontrada nas matas. Depois alçou voo. Comentei que todos gostariam de ter asas como os pássaros para alcançar as alturas. Ele retrucou de plano: “Pássaros voam por determinismo biológico. As asas da liberdade são metafóricas, fruto da sabedoria e do amor, flor das escolhas que se faz a cada passo do Caminho”.

Falei que Mahatma Gandhi certa vez, quando preso, comentou que há homens mais livres nas celas no que vagando pelas ruas. O velho retrucou: “Gandhi era um iniciado, uma alma antiga e iluminada. Claro que não falava das mentes sombrias que enveredaram pelas raias da criminalidade e da ignorância. Ele se referia à liberdade do pensar desperto dos preconceitos e condicionamentos culturais e sociais. A liberdade de pensar além; de perceber que as mais cruéis prisões são aquelas que não têm grades”. Parou um pouco e concluiu: “Liberdade é muito mais do que o direito de vagar a esmo pelas ruas ou levar uma vida completamente descompromissada. Isto, em geral, caracteriza os foragidos da vida. Estes costumam estar aprisionados no pior dos cárceres, a própria consciência. A verdadeira liberdade traz em si a responsabilidade. A responsabilidade por suas escolhas e compromissos. Temos compromisso com tudo que amamos e na medida que ampliamos a nossa esfera amorosa crescem as nossas asas, nos permitindo voos cada vez mais altos. Nossas asas têm o tamanho de nossos corações. As nossas escolhas, por sua vez, geram consequências e temos que nos responsabilizar por elas. A serenidade deste entendimento, ainda que isto signifique mais esforço e trabalho, pois cada qual terá os desafios próprios ao seu aprendizado, chama-se maturidade”.

Isto não têm importância.

A magia da vida acontece enquanto vivemos as coisas banais do dia a dia, dizia o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo do mosteiro. Lembro disto ao perceber como desperdiçamos tempo e energia em situações que não têm nenhuma importância para as nossas vidas e, desta maneira, terminamos por atrasar a fantástica viagem ao permitir que naveguemos em círculos. “Isto não tem importância” é um mantra de uma única frase que ele repetia e ensinava o tempo todo. Todos os dias há pelo menos um momento mágico que pode transformar a vida. O segredo para ver e atravessar esse portal reside em suas escolhas e, para exercê-las com plenitude, não se pode estar distraído ou enfraquecido com o que não tem importância. As urgentes desnecessidades são armadilhas do Caminho.

O sagrado mora no seu coração.

Certa vez assisti a um filme, desses hollywoodianos, com muita ação, onde o protagonista era um frio assassino profissional que passa a ser perseguido tanto pela polícia quanto pela máfia. Sua aparente indiferença em relação a qualquer tipo de sentimento era a tônica da sua personalidade e a principal razão de sua nefasta eficiência. No entanto, durante a sua fuga carregou por todo o tempo um vaso de plantas, salvo engano, pois faz muito tempo, com uma orquídea. Aquela singela flor era o depositário de todo e único amor que esse homem conhecia. Ele se preocupava com ela, pois era preciso que a colocasse no sol, regasse, vigiasse de eventuais pragas para que não morresse. A planta era motivo de preocupação, pois dependia completamente dele para continuar viva; a orquídea tinha a capacidade de fazer florescer o melhor de um homem embrutecido em sua consciência. Aquela flor era sagrada.

Sagrado é tudo aquilo que nos religa à divindade, que permite que possamos exercitar nossos sentimentos mais nobres, nos ensina a ser pessoas melhores e alavanca a nossa evolução. Em um pequeno altar que tenho em casa há vários objetos aparentemente mundanos, mas que trazem tamanha significação pessoal que os tornam sagrados para mim. Algumas pessoas mais distraídas nem percebem que ali reside importante parte do meu templo. Por exemplo, tenho três malabares de circo. Quando me recolho para as minhas reflexões, meditações e orações eles me lembram que distribuir alegria por onde passar é a melhor forma de agradecer a Vida pelas bênçãos e lições disponibilizadas a mim durante a jornada. Eles são sagrados para mim.

O sagrado está oculto no profano.

As mais belas histórias são as de superação.

Não raro escuto pessoas dizendo que fariam tudo “exatamente igual” se iniciassem novamente a sua trajetória de vida. Se é apenas uma alusão a como aprenderam com os próprios erros e como eles ajudaram a chegar onde estão, entendo. Sim, por vezes, os erros são preciosos mestres que nos oferecem valiosas lições, embora a vida disponibilize outros, como a percepção e o amor, que permitem encurtar tempo e pavimentar a estrada. São as mesmas lições oferecidas pelo erro, porém ministradas de maneira suave, afinal aprende-se por imposição ou gosto. A escolha é sempre nossa. No entanto, na maioria dos casos vejo alguns amigos sustentando verbalmente a repetição da trajetória de vida por vergonha, negação ou orgulho. Pena, pois a não aceitação do próprio caminho trilhado impede de entendermos quem realmente somos, por consequência, não permite ver as transformações que devemos operar em nós, atrasando a viagem evolutiva e, assim, a paz da plenitude que tanto ansiamos.

Revejo a minha história e, grato às duras lições que o erro me ofereceu, percebo que poderia fazer diferente. Pessoas que magoei, voltas em círculos que dei por teimosia, tempo e energia desperdiçados com situações que não tinham nenhuma importância e por aí vai. A lista é enorme. É verdade que aquele era o meu nível de consciência naquele momento e ali eu não conseguia perceber que poderia fazer de outra maneira. Sim, sempre é possível fazer diferente e melhor.

Embora ainda muito longe de onde tenho que chegar, já não sou o mesmo da partida. Mudou o olhar e o viver. Não é assim com todos nós?

Só há coragem onde antes existia o medo.

As histórias de ficção encantam a humanidade desde o início dos tempos porque revelam segredos escondidos no inconsciente. Embora interfiram em nosso jeito de ser, não raro, demoram a ser decodificados. Justamente lá, no inconsciente, por ser território selvagem, as sombras atuam e terminam por alterar nossas vidas. Através das aventuras imaginárias narradas nos livros ou nas telas, o herói enfrenta vilões perigosos, encontra dificuldades inesperadas, precisa superar limites, aprende com perdas e frustrações para no final encontrar o maior tesouro: ele próprio.

A ficção, no fundo, conta a história de cada um de nós disfarçada com outra roupa, cenário e maquiagem. A necessidade que temos do herói nasce ao identificarmos a coragem indispensável para enfrentar nossos dragões e permitir que o melhor em nós floresça. O guardião dessa ponte que todos precisam atravessar é o medo.

Jardineiro da alma.

“Somos herdeiros de nós mesmos”, disse o Velho, como carinhosamente chamávamos o mais antigo monge da Ordem. Subíamos uma pequena montanha próxima ao mosteiro por uma estreita trilha em uma manhã ainda fria da primavera. Éramos recepcionados por pequenas e coloridas flores silvestres que já mostravam todo o esplendor da estação e, subliminarmente, nos ensinavam a lição das fases da vida: após o rigor do inverno, que é indispensável para fortalecer a determinação do espírito, chegará a doçura da primavera a acalentar o coração. Todos os ciclos pessoais – o Caminho é um grande ciclo formado por inúmeros ciclos menores – têm a sua razão de ser e encerram valiosos ensinamentos ocultos e indispensáveis à evolução. Situações conflitantes e recorrentes a ponto de nos perguntarmos a razão da aparente repetição, revela nada mais do que a recusa em mudar a nossa maneira de olhar e agir, de entender e fazer diferente, enfim, de evoluir. Aprendida a lição, encerra-se aquele ciclo e, inexoravelmente, um novo se apresentará com outros momentos, livre dos velhos problemas. “Quem reclama do Caminho é porque não quer mudar o seu jeito de caminhar”, comentou com seu jeito peculiar de falar.

O ego deseja brilho, a alma anseia por luz.

 

Somente a clareza de entender realmente quem se é poderá te transformar na pessoa que buscas em ti. O ego, a parcela da consciência mais ligada às sensações primárias e imediatas, repleto de condicionamentos sociais e ancestrais, pensa te proteger ao criar um personagem moldado em modelo de suposta aceitação e admiração que ilude sobre o sentido da existência. O ego impulsiona o indivíduo a ser o mais belo, rico e importante, alimentando o vício do aplauso fácil na esteira do brilho efêmero no show das ilusões terrestres de prazeres baratos, resultados vazios e soluções improdutivas. As consequências, imediatas ou não, mas que um dia virão, são o sofrimento e as dificuldades nas relações pessoais. Além do desgosto consigo próprio. O ego, repleto de boas intenções, inventa virtudes que ainda não exercemos, direitos que não possuímos e, comumente nos vitimiza em relação aos movimentos do mundo, criando falsos motivos de revolta. Ou, ainda, nos força a fugir da realidade quando desagradável. Em qualquer dos casos leva à estagnação ao impedir de enfrentar a situação com a maturidade necessária para entender, se transformar, compartilhar e seguir adiante.

Ser gente nunca sai de moda.

A necessidade de andar na moda, a aflição inconsciente de estar em sintonia com o que se imagina ser moderno, revela uma busca por identificação e aceitação, uma vontade, em geral não percebida, de encontrar um lugar para se viver em paz. A moda nasce da necessidade cultural das pessoas de entender quem são e aonde caminham. Roupas, acessórios, carros, ideias enlatadas, maneiras de agir e falar tentam desesperadamente rotular o ser na tentativa de fazê-lo acreditar que pela casca se reconhece o valor da fruta. Em vão.

Perde-se a beleza de inventar a si próprio e a força de ser único. A moda traz consigo o perigo de projetar um suposto ideal que com certeza não somos.

O limite da forma estabelece fronteiras. Qualquer modelo pronto a ser usado rouba a originalidade do indivíduo, a beleza dos voos solos em altitudes inimagináveis, onde, só então, se defrontará com mundos e possibilidades apenas acessíveis a quem ousa ir além da normalidade e das permissões mundanas. O exercício da criatividade desenvolve as asas da liberdade.

A vida exige leveza.

“De quanto menos eu preciso mais livre sou. A liberdade traz consigo a leveza do espírito”, me disse um velho e sábio xamã do Povo Nativo do Caminho Vermelho sentado ao redor de uma fogueira em uma noite às vésperas do Pothlach. Canção Estrelada, como passou a ser conhecido depois que descobriu seu dom de iluminar o caminho das pessoas do seu clã através da palavra, cantada ou não, como uma lanterna de proa que mostra as ondas que estão por vir, explicava com paciência, para mim, a cerimônia do dia seguinte, onde cada um doaria objeto que lhe fosse precioso.

O despego a bens materiais é um bom  exercício para ajudar na renovação de ideias e conceitos que, às vezes, por estarem obsoletos, nos atrapalham na jornada. O simbolismo do ritual consiste em que cada um veja e entenda a necessidade de se renovar emocional, intelectual e espiritualmente. Ao abrir mão de algo de que somos apegados, aprendemos a transformar sentimentos e pensamentos que, por guardarmos inutilmente, se tornam pesados e atrapalham a caminhada. Entendemos que tudo pode ser diferente. A vida exige leveza.

O caos é do bem.

Usualmente usamos a palavra caos para nos referir a uma situação de desordem e confusão no mundo ou em nossas vidas. Em diversas tradições mitológicas o caos significa um vazio sem forma e ilimitado que propiciou o surgimento do universo. Na tradição platônica é um estado de desarmonia que precede uma nova ordem. O I Ching ensina que o caos traz a tempestade que permite a vida de novo florir. Na Física o termo é utilizado para explicar um sistema dinâmico que evolui de acordo com lei determinista, sensível a pequenas alterações iniciais. De certa maneira todas as definições se encaixam.

O caos é uma alavanca para a evolução. Pessoal e de toda a humanidade.

A lei da evolução é inexorável. Avançamos por gosto ou imposição, o que vai determinar o grau de dificuldade e o tempo do processo. O entendimento e as escolhas determinam a cada um as dores e as delícias da travessia.

Suas asas têm o tamanho do seu coração.

 

Não raro nos vemos na beira do abismo. Conflitos afetivos, problemas profissionais, rusgas familiares se assemelham em figura ao despenhadeiro que nos ameaça em queda e furta a paz. A vontade sincera de mudar o rumo de nossas vidas, iniciando novo trabalho mais adequado aos nossos verdadeiros dons e talentos, um relacionamento amoroso despido de mentiras e preconceitos, uma nova linha a costurar o esgarçado tecido familiar cujo desgaste, de tão antigo, se perdeu nos becos da memória são questões atuais que assolam a todos em gritos silenciosos no âmago de consciências e corações.

Qual a maneira mais sábia de atravessar um escaldante deserto, com seus inerentes perigos, ausências de água e vida, serpentes e escorpiões que lhe habitam? Qual o jeito mais inteligente de alcançar o cume da montanha enfrentando a aspereza da rocha vertical e do vento forte a assobiar em seus ouvidos sobre o perigo de iminente queda?

Ser é muito além de estar.

 

Todo texto ou palavra é sagrada se tem a força de iluminar o caminho. Dos muitos livros que nos servem de lanterna em auxílio nessa infinita e fantástica viagem, a Bíblia se mantêm como fonte inesgotável de sabedoria e amor, elementos indispensáveis para a nossa transmutação pessoal. Assim, aos poucos, transformamos o mundo.

Narram os evangelistas, em várias passagens dos quatro livros, que Jesus ao entrar em qualquer casa ou repartição saudava a todos com seu jeito sereno, “que a paz seja convosco”!

Por algum tempo acreditei se tratar de erro de tradução, vez que a Escritura foi escrita em aramaico para posteriormente ser traduzida para o grego e somente depois levada aos demais idiomas. Todos sabemos da dificuldade de trasladar uma língua em outra. Achava que o verbo correto seria esteja no lugar de seja. “Que a paz esteja convosco” me parecia a construção correta e, pelo visto, para muitos outros, pois já vi textos e sacerdotes assim se referindo a palavra do mestre. Eu estava errado.

Escravos contemporâneos.

 

Um dia você cansa de si mesmo. Da paisagem desbotada do seu quarto escuro, de ser o seu próprio carcereiro. Sim, as prisões mais cruéis tecem suas grades na engenharia de ideias enlatadas, preconceitos ou covardias impostas por medos alheios e ancestrais. Ou por alguém. Chegada a hora de experimentar as asas que sempre foram suas e nunca usadas. Então, você se lança em um voo absurdo nas profundezas coloridas e alturas iluminadas de um universo desconhecido e fantástico que se descortina na medida da sua leveza, coragem e ousadia. É assim que acontece quando se assume o protagonismo da própria vida. O poder, a magia e o encantamento são seus, pegue-os de volta!

Por vezes estamos aprisionados por conceitos que nos foram impostos e simplesmente aceitamos por medo ou comodidade, noutras subjugados por pessoas que, por algum motivo, não conseguimos nos insurgir contra a dominação permitida. As pessoas só têm sobre você o poder que você concede a elas. Entender este simples conceito é se olhar forte diante do espelho da vida.

A cura pela verdade.

 

Os povos nativos americanos, adeptos do xamanismo, têm um símbolo sagrado chamado Roda de Cura ou Roda da Vida. Não à toa, entendem que viver é um processo infinito de cura, caminhar em beleza pela infinita estrada da vida, nas palavras de um ancião Navajo. O símbolo tem a sagrada missão de nos lembrar que através de nossas relações vamos encontrar o remédio ou o veneno para as nossas dores. Na medida que aprendemos quem somos e pacificamos o nosso convívio com tudo e com todos saltamos um aro na Roda da Vida. Ficamos mais forte para seguir adiante.

Alquimistas modernos

 

Um dos grandes sonhos da humanidade através dos tempos é transformar ferro em ouro. O outro é a imortalidade. Assim, a humanidade atravessou os séculos a alimentar a ambição de viver para sempre, de maneira nababesca e sem o esforço do trabalho cotidiano. Bastaria um pedaço de metal barato no caldeirão em ebulição para que transformasse a mais antiga e preciosa mercadoria que o mercado tem notícia. Castelos luxuosos, mesa farta, prazeres todos para todo o sempre.

Existe uma boa literatura medieval desses cientistas que sobreviveu às explosões e ao tempo. Todas com criptografias próprias, como em códigos para que apenas os iniciados em assuntos esotéricos, fossem capazes de ler. Para alguns o motivo do segredo seria resguardar a fórmula que garantiria a transformação e a fortuna, pois se o valioso metal estivesse disponível a todos perderia o seu nobre valor. Outros têm certeza que tudo isso é uma grande bobagem.

O homem vive através dos séculos conforme seu nível de consciência a trazer para si as exatas experiências essenciais ao seu aprendizado. Culturas distintas se misturam propositalmente para que uns aprendam com outros e ensinem a alguns. Numa corrente invisível a humanidade cria elos de liberdade e unidade.

O livre pensar não é só pensar.

 

As piores prisões são as que não têm grades. A ilusão da liberdade é o mais cruel dos cárceres por não te permitir a consciência dos limites da suas escolhas, de não perceber que suas fronteiras estão cada vez mais estreitas e, ao contrário do que parece, apenas limita o tamanho e empalidece as cores do seu mundo. O livre pensar, a autonomia das ideias, o espaço para aceitar o diferente exige esforço, ousadia e coragem, mercadorias raras nas prateleiras dos corações e mentes.

O desequilíbrio é fundamental.

 

A vida é uma infinita e fantástica viagem a caminho da luz. Esta vida é apenas um trecho da estrada. Viajar significa evoluir; evoluir exige transformação. Ninguém nasce pronto. Entender que o que trouxemos na mochila até aqui nos foi útil, mas pode não nos servir mais, é sinal de sabedoria. Se faz necessário deixar algumas coisas para trás para dar lugar a outras. Reinventar-se todos os dias. Nada nos atrasa tanto quanto o trem perdido do preconceito, o voo cancelado das ideias obsoletas e o beco sem saída da atitudes ultrapassadas. Orgulho, vaidade e teimosia são pedras pesadas que, não raro, guardamos escondidas no fundo da mala, debaixo da blusa do ciúme e da calça do egoísmo. Precisamos de leveza para andar. É fundamental abrirmos espaço para o novo, trocarmos a bagagem.

Analise a sua mochila com carinho. O amor é o melhor manual para te indicar o conteúdo essencial.

O problema não é o problema.

 

O problema não é o problema, mas a incapacidade de prosseguir diante da adversidade. É a perda da possibilidade de transformação, uma decisão puramente interna, que depende apenas de si próprio. Você terá dois interlocutores durante esse processo: o ego que o fará sentir injustiçado, pois tem a certeza que não era merecedor dos difíceis acontecimentos e lhe aplicará a mais insalubre prisão, a vitimização. Do outro lado temos a alma, o espírito eterno que somos, que anseia por evolução e sabe que a covardia não muda a realidade.
A dificuldade é grave? Morte, doenças com sequelas irreversíveis, amores que se vão, falências dolorosas… E daí?… Impossível reverter externamente? Pode ser a Vida sinalizando que as mudanças devem ser dentro de nós.
Não, não é fácil e ninguém falou ao contrário.
Você fala assim porque não foi contigo, gritarão muitos. Não foi, não desta vez. Todos, sem exceção, enfrentam suas batalhas.
Cada um tem os problemas na exata razão da necessidade da sua evolução. O ego do sofredor tem uma dificuldade enorme de entender isto. Afinal somos todos do bem e quase perfeitos, não é assim? Sim e não. Todos caminhamos para a plenitude, porém a estrada é longa e se torna esburacada na medida que o andarilho teima em pisar torto. A falta de entendimento da maneira correta de andar torna a viagem mais difícil e demorada. Quer mudar o Caminho? Basta mudar o seu jeito de caminhar. Entenda que você pode se arrastar ou voar durante a travessia e esta escolha é toda sua. Patas ou asas? Basta que entenda, evolua e transforme a si próprio. As tradições xamânicas, que buscam a sabedoria na natureza, ensinam que essa é a lição da borboleta. O poder é seu.
Simples assim? Sim e não.

A magia das palavras

 

Todos somos feiticeiros e a palavra é o principal ingrediente do caldeirão. Através do que é dito ou escrito podemos convidar os povos a dançar, semeando alegria e esperança ou construir muros, espalhando ódio e medo. Este é o poder e ele é seu. Assim, cada manifestação se torna um ato de magia e define qual tipo de feiticeiro escolhemos ser.