O perdão, o expurgo e a semente

Tenho amigos maravilhosos. Diferentes personalidades, gostos diversos e olhares contrastantes quanto à realidade. Tanta diversidade me enriquece pelas possibilidades que se multiplicam em nossas convivências. Nem sempre é fácil, contudo, é encantador. Ocorre que um deles, o Eduardo, deu uma enorme vacilada com outro, o Paulo, a ponto deste se sentir traído na relação de confiança indispensável a qualquer amizade. Passou um tempo ressentido e, como sabia que a mágoa é uma prisão e um veneno, se esforçou para perdoar. Como não conseguia, veio trocar ideias comigo. Ponderei que se conheciam havia muitos anos e viveram juntos muitas coisas legais. Tentei fazê-lo ver que, entre prós e contras, o saldo era positivo. Conversamos sobre a importância de ele pacificar a questão dentro de si, não apenas por se tratar de um gesto libertador, mas também para que a convivência com os demais amigos não restasse prejudicada, caso em que todos perderiam. Sugeri que conversassem para que todas as arestas restassem aparadas. Paulo poderia expor as razões do seu ressentimento, oferecendo a Eduardo a oportunidade de explicar as suas motivações. Penso que um dos maiores motivos dos conflitos é a falha de comunicação. Enquanto teimarmos em adivinhar o universo intrínseco das outras pessoas seguiremos semeando problemas. É necessário se esforçar para entender e, se possível, ter paciência com a bagunça das gavetas internas de cada indivíduo. Todos temos as nossas histórias, dificuldades e, portanto, somos merecedores de compaixão. Assim foi feito. Paulo procurou o Eduardo para uma conversa franca e apaziguadora. Ao expor os motivos da sua mágoa, foi surpreendido pela reação de Eduardo, que jurou nem ter percebido o aborrecimento causado amigo; pediu desculpas, prometeu ter mais cuidado, se abraçaram e tudo terminou bem.

Mentira. Nada tinha sido resolvido.

Ambos mentiam, cada um para si mesmo. Nada estava bem. Todas as vezes que nos encontrávamos, aos mais atentos, era possível perceber uma atmosfera desconfortável. Não havia agressividade, nem mesmo através das odiáveis ironias ou do violento desprezo. Aos distraídos, as conversas pareciam transcorrer em bom tom. Embora o Eduardo tivesse pedido desculpas, algo em Paulo o impedia de perdoá-lo. Ele não conseguia se convencer que o Eduardo não tinha tido, à época, a sensibilidade de não perceber os equívocos que cometera. Cogitou a possibilidade de se afastar dele, porém, isto o distanciaria dos demais amigos, pois, era comum todos se reunirem com frequência.

Paulo dizia para si mesmo que era um bom homem, uma pessoa do bem e, indivíduos assim não carregam ressentimentos por saberem da importância do perdão como instrumento de liberdade e evolução. Ele sabia que a mágoa era um cárcere cruel e sem grades. Não, ele não se permitiria ter as suas próprias sombras como carcereiras e capatazes. Ele já tinha perdoado o Eduardo, repetia em silêncio todas as vezes que o encontrava. No entanto, se sentia incomodado não apenas com a sua presença, porém, mais grave, a mera lembrança do amigo era suficiente para trazer amargor à alma. Porém, negava as emoções que o dominava. “Eu sou um guerreiro da Luz”, proclamava em silêncio nos momentos de sofrimento agudo. Para não admitir que estava sendo incapaz de perdoar, sufocava a lembrança quando ela subia à memória. Apesar de já ter perdoado diversas pessoas e ter sido perdoado por várias outras em razão dos seus próprios equívocos, Paulo não conseguia, mas também não admitia a sua incapacidade para perdoar o Eduardo.

Em abril daquele ano, a conjunção dos feriados da Páscoa, Tiradentes e São Jorge, este último típico ao Rio de Janeiro, ficaram intercalados em curto espaço de tempo, o que nos permitiria quase dez dias de folga. Um dos amigos, proprietário de uma secular fazenda de café na divisa com São Paulo, onde havia um enorme casarão colonial de muitos quartos, convidou a todos para um período de descanso e confraternização. 

Na manhã do segundo dia, fomos jogar futebol. Paulo e Eduardo ficaram em times contrários e, na primeira oportunidade, Paulo fez uma falta violenta e, claro, desnecessária, no Eduardo quando ele tentou driblá-lo. Houve um breve silêncio causado pelo mal-estar provocado. Ninguém entendeu o motivo. Paulo murmurou que tinha sido sem querer e pediu desculpas. O jogo seguiu. Desconfiei ter percebido um rápido prazer mórbido nas feições do Paulo, típico de quando liberamos um pouco do ódio que nos sufoca. Como uma droga que nos vicia sem percebermos, me pareceu claro que ficou à espera de uma nova oportunidade para outro ato violento disfarçado por um esporte que exige contato físico. Não aconteceu, a partida acabou antes que ele pudesse repetir o gesto. Porém, ele ficou com um gosto de quero mais. O ódio tem esse nefasto poder.

À tarde, organizamos um campeonato de Buraco. Ao sortearmos as duplas, Paulo deu um jeito para fazer parceria com o Eduardo, que adorava o jogo de cartas. Como eu já estava atento à pendenga, me pareceu nítida a intenção de Paulo para que perdessem todas as rodadas. Era enorme o seu prazer ao ver a irritação do Eduardo a cada cada jogada propositalmente estúpida que fazia, somente para chatear o colega, que reclamou bastante da desatenção de Paulo ao serem eliminados. Achei ter visto os olhos de Paulo sorrirem de satisfação, embora ele nada tivesse falado.

Foi quando uma das crianças esbarrou no braço de Paulo, onde havia um curativo cobrindo uma ferida. Sangrou. Imediatamente me ofereci para ajudá-lo a cuidar do ferimento. Afastamo-nos. A sós, enquanto separávamos os medicamentos necessários, fui direto ao assunto: “Antes que você perca o controle sobre si mesmo por completo, e a mágoa costuma provocar esse tipo de reação, penso que você deveria resolver o seu problema com o Eduardo”. 

Paulo negou que restasse qualquer ressentimento. Alegou que já o havia perdoado. Fez um perfeito discurso sobre as maravilhas do perdão, além de expor, com segurança, as razões para respeitarmos os limites conscienciais de cada pessoa. Confessou que a conversa que tivera com o Eduardo se mostrara infrutífera. Apesar do amigo ter pedido desculpas pelo erro, percebeu que não tinha noção sincera do mal que causara e dos motivos pelos quais despertara nele, Paulo, tanta mágoa. Sustentou que não podia fazer mais nada, pois agora era uma questão de entendimento do próprio Eduardo. Enquanto retirava o curativo, falei: “Você o perdoou no seu intelecto. O entendimento é um importante passo inicial. Contudo, não basta. O seu coração precisa acolher o Paulo. Agora, será preciso você sentir o perdão. Ou, em verdade, o perdão nunca acontecerá”. 

Antes que ele teimasse que já tinha perdoado, prossegui: “Você é um homem culto e conhece a exata teoria sobre a importância do perdão para a liberdade. Afinal, o ódio será sempre uma prisão, fazendo de você o carcereiro de si mesmo. Os dias se tornam amargos e a vida fica estreita. Muitos sabem tudo sobre o perdão, pouquíssimos já conseguem perdoar”.

Os olhos de Paulo fugiram dos meus e, por um breve instante, me contaram sobre a verdade que ele sabia, mas negava para si mesmo. Neste momento, ao examinar o ferimento percebi que se tratava de um furúnculo, um tipo de infecção que acumula na região subcutânea uma massa bacteriana formada por pus e tecidos necrosados que, além de disseminar agentes nocivos na corrente sanguínea, impede a cicatrização enquanto não for retirada. “Temos de extrair o carnegão, do contrário, o ferimento irá se agravar”, expliquei. Ele concordou.

Depois de feita a devida assepsia no local, e com parcas lembranças da Escola de Medicina, espremi com força por entre os dedos até o núcleo purulento do furúnculo pular para fora do braço de Paulo. Sangrou bastante. Ele gritou de dor e fez uma feição de nojo ao ver a massa fétida e nociva. Depois, fechou os olhos e respirou aliviado na certeza de que tinha se libertado de algo que o envenenava. Antes de jogar o carnegão no lixo, mostrei a ele e perguntei: “Sabe qual o nome disto?”. Sem esperar pela resposta, falei: “Ódio, também conhecido com os nomes de mágoa ou ressentimento”.

Paulo questionou se o furúnculo era a somatização das suas emoções aviltadas. Fui sincero: “Não necessariamente. Embora os sofrimentos e as emoções densas gerem reflexos danosos no corpo físico e, até mesmo doenças bem graves, de outro lado, os sentimentos sutis proporcionam cura e bem-estar. Faz-se necessário entender a terapia de cura específica do perdão. Sem o expurgo do ódio, não se conhecerá o fim do sofrimento. A cicatrização será apenas superficial e, a qualquer momento, a ferida voltará a incomodar. Não tenha medo de fazê-la sangrar até que haja a necessária purificação”.

“Expurgar significa fazer uma limpeza profunda, sem deixar qualquer resquício de impureza. Não adianta ter o perfeito raciocínio em descompasso com a falta de espaço no coração. A alma se ressente, se apequena e encolhe. Enquanto houver ódio, não existirá cicatrização e cura.”

“O perdão é uma virtude, como tal, uma indispensável ferramenta evolutiva. A sabedoria nos mostra a sua importância. Contudo, não se consegue expurgar o ódio sem amor.”

Enquanto o Paulo concatenava aquela ideia e eu terminava o curativo, fomos surpreendidos com a entrada do Eduardo. Ele veio sob o pretexto de saber se estava tudo bem; contudo, havia uma intenção subliminar de reclamar da maneira como o amigo se comportara no carteado. 

Foi a gota que fez desabar a tempestade. Paulo olhou para a lata de lixo onde tínhamos dispensado o carnegão, tornou a olhar para o colega e iniciou o expurgo: “Fico espantado como você se sente tão chateado com a derrota em um mero jogo de cartas, enquanto nunca demonstrou qualquer incômodo ou arrependimento com os graves equívocos praticados contra mim”. Eduardo alegou que reconheceu o erro e já tinha pedido desculpas. “Não basta?”, indagou.

“Não!”, afirmou Paulo. “Não bastam as palavras, quando desacompanhadas do verdadeiro sentimento. Não basta entender que errou, é preciso um gesto para além das palavras, por menor que seja, para mostrar ao outro que entende e, ainda mais importante, que sente a dor causada”.

Eduardo questionou: “O que você quer? Que eu me corroa em culpa, é isso? Pois saiba que não irá acontecer”. Paulo explicou: “Não quero que você sinta culpa, não existe a necessidade de tamanho fardo. Eu falo de responsabilidade e amor; percepção e sensibilidade. Ao demonstrar que a palavra estava desacompanhada do verdadeiro sentimento que lhe concede significado e grandeza, você retirou o real conteúdo dela. Ela ficou vazia, foi como não tivesse sido pronunciada. Pior, mostrou insensibilidade, não apenas com a dor que provocou, mas a agravou pelo desprezo demonstrado ao valor do perdão e da amizade”.

A banalização do pedido de desculpas havia sido a causa de um mal posterior e, até mesmo mais agudo, do que aquele praticado inicialmente. Então, os fatos se somaram para dar causa a um sofrimento ainda maior. Eu não tinha pensado nisto. Era verdade.

Nunca se deve usar a palavra sem estar acompanhada do perfeito sentimento que a anima. Quando se banaliza o perdão, se menospreza o amor e revela desprezo pela outra pessoa. Embora na aparência possa parecer perfeito, na essência aumenta o grau do mal praticado pela dor aprofundada.

“Quando pedi desculpas pensei que o assunto restasse resolvido”, ponderou Eduardo. Paulo esclareceu: “Foi neste ponto que o problema se agravou. A palavra oca me fez perceber a pouca ou nenhuma importância que você dava ao meu sofrimento ou à gravidade dos fatos. Sei que isso não fala sobre mim, mas o quanto você consegue entender e sentir a si mesmo e ao mundo ao seu redor. Doeu muito, mas agora, ao expressar os meus sentimentos, expurguei aquilo que me impedia o perdão”, e olhou para o curativo sobre a ferida no braço em vias de cicatrização definitiva. Uma imagem que o auxiliou a construir um raciocínio.

Eduardo alegou que havia exagero e dramatização. Paulo se virou para o amigo e, por alguns instantes, eu pude ver o brilho claro que já começava a emanar da sua face. Uma valiosa transformação acontecia dentro dele naquele instante. Em seguida, explicou com clareza e sinceridade: “Quando verdadeiramente sentimos o mal que praticamos, nunca mais o cometeremos. Do contrário, os erros e os repetidos pedidos de desculpas se manterão no raso da existência e se tornarão um hábito corriqueiro, desprovido de qualquer valor”.

Em seguida, com impressionante tom sereno na voz, concluiu: “Não importa que você não entenda o que fez. Eu consegui retirar de mim aquilo que me fazia sofrer. O expurgo me permitiu perdoar; e o perdão me trouxe de volta à luz. Está tudo resolvido em mim. Daqui por diante, será você consigo mesmo; vá em paz”.

Eduardo saiu sacudindo a cabeça como quem diz que aquela conversa não fazia sentido. Ficamos em silêncio por um longo tempo. Depois, Paulo me agradeceu: “Obrigado por ter me ajudado a sair de onde eu estava. Eu me deixei arrastar para a escuridão. Vou prestar mais atenção para não tornar a acontecer”. Fiz um gesto com a mão para sinalizar que ele estava enganado e confessei: “Aprendi mais do que ensinei. Nunca tinha me dado conta de como a palavra, por mais bela e nobre que seja, quando desacompanhada da verdade, se torna geradora de um mal ainda maior, e não do bem que deveria traduzir o seu significado original”.

“Ainda mais, aprendi como é fundamental não apenas percebermos o erro que cometemos, mas também de sentir a dor que provocamos nos outros. Não por culpa, mas por lição. Somente assim ficaremos livres da repetição de obsoletas e desnecessárias maneiras de ser e de viver.”

“A sinceridade é o trato intrínseco com a verdade. Apenas depois disso as nossas desculpas se tornam honestas.”

Voltamos à sala. As pessoas conversavam e se divertiam. Eduardo estava sentado na mesa de carteado substituindo um amigo que foi para a cozinha preparar o jantar. Ninguém tinha percebido o que acontecera havia pouco no outro cômodo da casa. Tudo estava como antes. Contudo, muita coisa tinha mudado. Fora-me proporcionado um maravilhoso aprendizado e uma fantástica transformação acontecera com o Paulo; ele estava livre do ódio que o maltratava há meses. Quanto ao Eduardo, mesmo sem se dar conta, levara consigo uma ideia luminosa. Talvez demorasse muito tempo para florescer, mas um dia isso aconteceria. Inexoravelmente. Boas sementes nunca deixam de germinar. A vida não desiste de ninguém e, ao seu jeito, nem sempre suave, mas inegavelmente justo, cuidaria de arar aquele solo.   

Imagem: Tinamou – Dreamstime.com

Discussões — 14 Respostas

  • Michelle 3 de outubro de 2020 on 08:24

    Obrigada !

  • Gleiza Jordânia 3 de setembro de 2020 on 22:52

    A vida não desiste de ninguém 🍃🍃🍃

  • Viviane Barbosa 18 de agosto de 2020 on 08:25

    Texto lindooo e inspirador!!!

    São conteúdos muito interessantes e que trazem reflexão e mudanças.

    Gratidão infinita por tudo.

    Bênçãos a todos nós.

  • Marcia 14 de agosto de 2020 on 14:09

    Excelente !
    O perdoar é um processo não um raciocínio ou teoria , mas vivência e encontro com as nossas próprias sombras , para compreendermos a sombra que vemos no outro.
    Namaste 🙏🏻💐🙏🏻

  • CELIA E PAGLIARONE 10 de agosto de 2020 on 15:32

    Maravilhosa lição. Como sempre! Muito obrigada!

  • Santana 8 de agosto de 2020 on 10:51

    🌵🙏🏽

  • Edilamar 8 de agosto de 2020 on 10:09

    Obrigada, veio em melhor hora, coração em paz.

  • Adélia Maria Milani 25 de julho de 2020 on 13:31

    Gratidão! !***♡♡★☆

  • Gustavo 7 de julho de 2020 on 23:04

    Muito obrigado como sempre, amigo Yoskhaz

  • Terumi 6 de julho de 2020 on 22:51

    Gratidão! 🙏

  • ADRIANO CAMARGO VIEIRA 5 de julho de 2020 on 09:11

    Lindo texto com grande ensinamento. Gratidão!

  • Fernando Cesar Machado 4 de julho de 2020 on 11:58

    Gratidão profunda e sem fim Yoskhaz, sem fim…

  • Caroline 4 de julho de 2020 on 08:25

    A vida não desiste de ninguém! Me sinto acolhida por você existir em minha vida há anos , ensinando me com doçura nas palavras ..sinto que te amo como se fosse real. Você é real em mim. Namastê

  • Pablo 3 de julho de 2020 on 18:55

    Excelente!!!