Florescer

Um grande amigo tinha partido de viagem rumo ao Grande Mistério, termo usado por Canção Estrelada ao se referir a outras dimensões de existência. Mistériotambém era a palavra utilizada por Li Tzu para traduzir o Mundo Invisívelno Tao Te Ching, como dizia o Velho. Loureiro gostava de usar o termo Universo. Correntes religiosas se valem de diversas nomenclaturas, desde Céusaté Esfera Espiritual. Os nomes são muitos, assim como inúmeros são os caminhos que conduzem ao mesmo destino, para o qual múltiplas escalas se fazem necessárias. Fausto era um amigo muito querido. Alegre, carinhoso, sempre bem-humorado e com uma palavra de incentivo ou um elogio com quem conversava. O seu olhar apurado lhe permitia a clareza de enxergar as virtudes das pessoas e o lado bom de todas as situações. Chamava a todos pelo diminutivo como demonstração ao afeto sincero que sentia. Tinha enorme facilidade em fazer novas amizades, assim como se dedicava a cultivar as antigas. As pessoas gostavam de estar ao seu lado. Não é difícil imaginar a multidão presente ao seu funeral. Alguns choramingavam pela sua partida, outros lembravam histórias divertidas vividas ao lado dele. Eram muitos casos e aventuras. Troquei algumas palavras com a viúva, amparada por um grupo de amigas, dedicadas em ofertar o conforto emocional necessário em um momento tão delicado. Depois, fiz uma prece rogando por uma transição suave ao meu amigo. Na imensidão do silêncio, pedi que ele seguisse aproveitando a vida após a existência com a alegria de sempre. Foi quando tive atenção desviada para Tiago, o seu filho adolescente, sentado sozinho em um canto. Diante de tamanha emoção e com tanta gente que se conhecia reunida, todos com uma enorme necessidade de ressaltar a memória de Fausto, que Tiago acabara esquecido. Ele tinha um temperamento tímido, de poucas palavras e amigos, bem diferente do pai. O fato de nunca ter exigido ou chamado atenção para si, talvez tenha contribuído para que não lhe dessem atenção naquele momento. Os olhos tristes espelhavam o exato sentimento do seu coração. Aproximei-me e abri os braços. Ele se levantou e trocamos um forte abraço. Sou apaixonado por abraços pela maravilhosa sensação de aconchego que proporcionam. Com a cabeça encostada em meu peito, Tiago chorou de soluçar. O pranto estava contido, como um rio represado. As comportas se abriram e a energia mostrou a sua natureza. Embora eu quisesse cumprir o protocolo típico aos funerais, não me ocorreram palavras para arrefecer o seu sofrimento. Apesar de estar com vontade de conversar com alguns colegas ali presentes, e eu não os encontrava havia muito tempo, preferi me sentar ao lado do Tiago. Mesmo sem dizer palavra.

Em silêncio, eu tinha a intenção de ofertar toda a solidariedade possível com a minha proximidade física. Nunca gostei de discursos nos quais a solidariedade é praticada à distância do tipo meu coração está contigoou estou presente em espírito. Não que sejam mentirosos, creio em suas honestidades. Contudo, não bastam. Estamos na matéria, vivemos na terceira dimensão. Temos um corpo sólido. Isto faz da presença e do contato físico um diferencial indispensável. Nem sempre é possível estar presente, mas diante da menor possibilidade, jamais devemos nos abster. Aprendi isso quando em determinada ocasião, ainda muito jovem, me vi diante de uma enorme tristeza e, mais grave, completamente perdido, sem ter noção de qual rumo tomar. Algumas pessoas empenharam palavras de consolo e disseram que eu poderia procurá-las se sentisse vontade. Elas estavam sendo sinceras e havia valor nisto. Contudo, eu precisava de um novo caminho e isto ninguém poderia me oferecer. Todos os dias, no final da tarde, hora na qual a tristeza era avassaladora, eu ia andar na praia. Por algum motivo que não sou capaz de explicar, esse ritual me trazia algum conforto. Ao saber disso, o Augusto, um amigo de infância, sem nada combinar comigo, passou a me esperar em um determinado ponto do trajeto todos os dias. Ao me encontrar, sem nada dizer, seguia ao meu lado, ombro a ombro. Ao terminar, cada um rumava para a sua casa. Nunca trocamos uma única palavra nesses passeios diários que se estenderam por meses. Na sua sabedoria, Augusto entendia que não havia nada a acrescentar a tudo que me tinham dito. Ele sabia que eu precisava de tempo para metabolizar os fatos, entender o significado deles, transmutá-los em mim e encontrar o sentido que me faltava. Não era hora das palavras, mas do movimento para me mostrar que eu jamais estaria sozinho. A sua atitude foi inestimável pelo conforto emocional que me proporcionou. Quando o coração serena, a mente fluí com leveza. Por mais valiosa que fossem as palavras e as orações, e são, a presença física foi o diferencial. Ela me ofertou o apoio que não cabiam nas palavras. Foi o amor que eu precisava.

Fiquei sentado ao lado de Tiago por minutos que não sei precisar. Quando os funcionários do cemitério levaram o corpo do pai para a cremação, ele procurou pela minha mão e a apertou forte. Vi uma lágrima escapar dos seus olhos. Era um momento difícil e quase pude sentir a sua dor. Aos poucos, as pessoas se retiraram. Ao final, ficou a mãe amparada pelas amigas mais íntimas, além de nós dois. Ao perceber que ela se levantava para ir embora, Tiago perguntou se poderia conversar um pouco comigo. Falei que estava ali também para isso e, se ela permitisse, depois eu o deixaria em casa. Era uma conversa que eu nem sabia por onde começar.

Foi Tiago que a conduziu. Ele quis saber se conversaríamos ali mesmo. Dei de ombros e falei que seria onde ele se sentisse mais à vontade. O rapaz, ainda na faixa dos dezesseis anos de idade, me perguntou se me incomodava o fato de estar em um cemitério. Expliquei o meu ponto de vista: “Sem dúvida, é um lugar que remete muitas pessoas a emoções dolorosas, também em razão de a questão da morte não restar bem resolvida para muita gente. Creio que traz a equivocada sensação de se tratar de um terreno mal-assombrado, dominado por energias densas. Também pensava assim, mas reescrevi essa ideia. Os antigos sábios chamavam o local onde estamos de Campo Santoe o faziam com muita razão”. Como os seus olhos demonstravam interesse, prossegui: “Poucos lugares são tão protegidos no plano etéreo como os cemitérios. Poderosos guardiões que trabalham a serviço da Luz atuam incessantemente para proteger os espíritos que já não estão acoplados ao corpo, mas ainda não se desprenderam deste plano por algum motivo. Como estão desorientados da sua nova realidade, ficam vulneráveis a ataques de entidades sombrias e precisam de muita proteção até estarem prontos para o momento de serem encaminhados a outras esferas existenciais”. Em seguida, acrescentei: “Isso é apenas um resumo bastante sintético de um assunto muito complexo e que envolve vários outros aspectos importantes. Existe uma literatura muita séria sobre o tema que, se houver interesse, posso lhe emprestar alguns livros”. Fiz uma pausa e concluí: “Digo isso apenas na tentativa de desmistificar o medo e o preconceito que causam sensação de mal-estar em algumas pessoas ao entrar em um cemitério. Assim como as igrejas e templos de Luz, ou mesmo santuários naturais como mares, rios e montanhas ou catedrais como praias, cachoeiras e florestas, todo solo sagrado deve ser pisado com muito respeito pelo sagrado que ancora, guarda e representa”.

Tiago disse que, diante do exposto, gostaria de continuar a nossa conversa ali mesmo. Sugeri que fôssemos nos sentar em um dos vários bancos espalhados pelas vielas que cruzavam o enorme gramado. Devidamente acomodados, ele me perguntou a razão de pessoas boas morrerem, enquanto pessoas más continuavam vivas. Mostrei o meu olhar: “Todos morrem, os bons e os maus. A morte não é algo ruim. Sustentamos esse conceito em razão da nossa ótica predominantemente existencialista e, por consequência, de apego excessivo à matéria. Este planeta é uma escola formadora de grandes mestres, no entanto, o currículo é extenso e os alunos nem sempre dedicados. A morte é um ato de amor e sabedoria da vida para conosco”. 

Tiago pediu para eu explicar melhor. Tentei: “Diversos bons motivos podem ser listados. Desde a recomeçar em diferentes condições de existência como maneira de ajudar a alavancar novos ciclos evolutivos até a indispensável regeneração de forças para prosseguir a jornada planetária no expoente das suas capacidades. Entretanto, o motivo que aos meus olhos mais demonstram o amor e a sabedoria da morte como leal aliada da vida é a inevitável lição que teimamos em não aplicar no cotidiano: o valor real e infinito das virtudes agregadas ao espírito diante da mera aparência, finitude dos prazeres meramente físicos e da riqueza material. Neste assunto a morte é professora”.  

Neste ponto da narrativa se faz indispensável um parêntesis para explicar ao leitor uma aparente contradição, da qual não seria justo fugir ao debate. Nos parágrafos iniciais do texto eu falo sobre a importância do abraço e do contato físico no dia a dia da existência. Nos trechos seguintes, ressalto o valor do espírito sobre a matéria. Talvez fosse a hora de demitir o autor por absoluta incoerência. Antes que façam isso, e com aparente razão, deixem eu me explicar. Prometo que serei sucinto pela clareza das ideias que me habitam quanto ao assunto. Espero que eu tenha capacidade para transmiti-las de modo que pareçam sensatas e compreensíveis. 

O valor do espírito sobre o físico é inquestionável, seja por sua infinitude, seja pela riqueza imperecível que são as percepções ampliadas e as virtudes sedimentadas à alma na viagem rumo às Terras Altas. Nada mais é meu; salvo quem eu sou. Sou tão e somente a intensidade da Luz que já resplandece em mim. Tudo o que é sólido se desmancha pela ação do tempo. Assim, todas as coisas do mundo apenas nos servem como instrumento de aprendizado. No entanto, prestemos atenção a um detalhe que todos sabem, mas parecem esquecer: pessoas não são coisas. Cada ser é parte de um mesmo Todo do qual o leitor e eu também pertencemos. Esta parte a qual me refiro é o espírito que anima o corpo que usamos; embora o corpo apodreça, o espírito se manterá infinitamente vivo, aprisionado em suas próprias sombras ou impulsionado pelas virtudes agregadas. Como partes isoladas, viajamos ao encontro do Todo e nos integramos à medida da nossa própria evolução. Mas o que é evoluir se não for amar mais e melhor? O planeta não é um colégio de futuros mestres como você e eu? Dessa maneira, o contato físico tem a finalidade primordial de nos ensinar alguns dos muitos aspectos que ainda desconhecemos sobre o amor. Precisamos entender o amor através do corpo como pressuposto para o conhecimento do amor além do plano material. Não se aprende trigonometria antes de conhecer as operações básicas da matemática. Um degrau por vez. Aprendemos quando damos e também quando recebemos; o toque, o sorriso, o abraço, o olhar e o beijo nos emocionam e tornam o amor perceptível; fora disto, o amor ainda é irreal na infância da alma. Por desfaçatez, usamos a tese do amor incorpóreo como desculpa para justificar a preguiça, o comodismo e adiar a atuação do amor como movimento físico. Assim, desperdiçamos inúmeras oportunidades para aprender a amar mais e melhor.  Aqui fecho o parêntesis na esperança que o leitor siga me acompanhando na narrativa, daqui por diante não mais como espectador, mas como cúmplice do amor que tento entender.

Tiago quis saber qual o meu olhar em relação ao seu pai. Fui sincero: “Existe muita complexidade entre a aparência e a realidade de qualquer pessoa. Tanta, que a maior e a melhor parte de mim mesmo ainda desconheço. Quanto ao Fausto, uma característica marcante da sua personalidade era a arte da delicadeza, uma virtude típica daqueles que cuidam do mundo como um jardineiro demonstra a importância das flores pela atenção dedicada a cada uma delas. O seu pai fazia isso sem qualquer esforço, pois era um atributo verdadeiro sedimentado ao seu espírito. Todas as pessoas se sentiam valiosas ao lado dele. Vale ressaltar que não havia qualquer demagogia, eram gestos genuínos e autênticos. Os seus olhos atravessavam as paredes grosseiras da aparência para enxergar a fragilidade dos corações aflitos. Uma capacidade de ver típica de uma alma já florescida”. O rapaz me olhou com curiosidade e comentou que o seu pai sempre usava a palavra florescerquando o orientava em relação à vida: “Floresça, filho!Ele me aconselhava”. Esclareceu que nunca entendeu o exato alcance desse verbo, florescer. Tentei explicar: “Todo verbo significa uma ação. Portanto, exige um movimento intrínseco para que se complete em atitude”. 

Nesse instante me dei conta que amar também é um verbo e para que realize a migração do onírico até a realidade necessita de um gesto efetivo para movimentar esse sentimento de dentro para fora, sem o qual não se completará. 

Em seguida, questionei ao Tiago: “Quando dizemos que uma rosa floresceu, qual o significado da expressão?”. O rapaz respondeu que a rosa, até então em botão, permitiu que toda a sua beleza se revelasse ao mundo. Os olhos do rapaz mostravam o entendimento que se anunciava à medida que o traduzia em palavras. A mim, bastou acrescentar: “Florescer é desabrochar todo o potencial que guardo em semente. É descobrir o meu dom, aceitar os meus sonhos, entender a força das virtudes, revelar a minha essência, fazer de mim a minha melhor invenção”.

“É suavizar a aspereza de todas as minhas relações, é cegar o fio da navalha por entender que posso oferecer a outra face, a face da luz, nos momentos em que a escuridão se avizinhar. É desatar os nós das mágoas que tanto me amarram e me impedem de prosseguir com a leveza necessária, sem a qual não conseguirei encantar o mundo com a beleza da minha essência nem me deixar encantar pelas maravilhas da vida”.

“Florescer é a expressão maior da vida e o significado para a existência da semente. Acontece quando a essência germina em luz”. 

Com lágrimas nos olhos, o rapaz afirmou que o seu pai tinha florescido: “O mundo era um lugar melhor quando estávamos ao lado dele”. Balancei a cabeça, era impossível negar. Tiago continuou: “As ideias ficavam claras, os sonhos se mostravam possíveis e a vida se alegrava”. Fez uma pausa para concluir o conceito de florescimento de Fausto: “O coração do meu pai era um bom lugar para se viver”.

Não havia como discordar, mas cumpria lembrar de dois aspectos fundamentais: “O seu coração também precisa se tornar um bom lugar para você morar e acolher o mundo. Do contrário, não existirá qualquer florescimento. No mais, jamais esqueça que não há duas espécies iguais, cada flor é única e nisto reside o seu encanto e beleza. Inspire-se no seu pai, mas seja quem você veio ser. Desenhos, cores e perfumes, para florescer será preciso amar aquilo que nos faz diferentes, pois somente assim poderemos acrescentar a parte que nos cabe e ainda falta ao Todo. Não há maravilha maior. Fora disso, a vida se resume em plágio”. 

Entardecia. Estava na hora do Campo Santofechar as suas portas ao público para reabrir no dia seguinte. Não trocamos palavra até o momento que o deixei em casa. Tiago agradeceu a conversa e, antes de se despedir, comentou: “Meu pai me deixou de herança a orientação essencial para a vida: Floresça, filho!Em uma frase, ele me ensinou a como encontrar um rumo”. Com os olhos marejados, vi quando a mãe o recebeu com um abraço e eles entraram. A semente estava em solo fértil.  

Imagem: Andrea Simon – Dreamstime.com  

Discussões — 16 Respostas

  • Michelle 7 de outubro de 2020 on 14:04

    Obrigada!

  • Gleiza Jordânia 3 de setembro de 2020 on 22:55

    Perfeito 😊

  • Meibe Moisés Garcia 15 de agosto de 2020 on 22:42

    Que sabedoria ❣️
    “Florescer é desabrochar o seu potencial”
    Como sou grata de ter encontrado este texto aqui e agora.

  • Viviane Barbosa 13 de agosto de 2020 on 19:52

    Ahooo!!!! Mais um texto inspirador!!!

    Gratidão infinita por amor e dedicação.

  • Bruna 8 de agosto de 2020 on 09:55

    Quanto amor nas palavras! Lindo conto!
    Tenho sentido falta dos áudios, às vezes coloco para ouvir antes de dormir, me ajuda a relaxar bastante. Tem o seu valor, tanto quanto a escrita.

  • SCHWEITZER 4 de agosto de 2020 on 10:29

    Lindo texto querido. Simplismente lindo.

  • Caroline Martesi 4 de agosto de 2020 on 08:42

    Lindoo💙✨

  • Santana 3 de agosto de 2020 on 19:30

    🌵🙏🏽

  • Marcilene alves 2 de agosto de 2020 on 17:20

    Sem palavras pra esse texto que mi emosionou muito, vc como sempre com uma escrita que toca fundo em nossos corações.
    Gratidão sempre!!!

  • Adélia Maria Milani 1 de agosto de 2020 on 17:00

    Gratidão 🙏🙏⭐❤️

  • Roberto Junio 1 de agosto de 2020 on 10:07

    YOSKHAZ sempre mantendo a luz acesa! Em tempos de escuridão.

  • NetoTiller 31 de julho de 2020 on 00:30

    Sábias palavras.. um texto belíssimo! Devemos florescer e buscar a nossa melhor versão. Mas jamais esquecer das pessoas que fizeram parte da nossa história, essas tem um lugar especial no nosso coração.

  • Terumi 30 de julho de 2020 on 23:19

    Gratidão! 🙏

  • ADRIANO CAMARGO VIEIRA 30 de julho de 2020 on 16:45

    Belo texto e de uma profundidade ímpar. Gratidão!

  • Fernando Cesar Machado 30 de julho de 2020 on 14:50

    Meu saudoso Pai
    sempre me falava do caminho do meio,
    ensinado pelo Mestre Buda,
    dizia também sobre o valor das pequenas coisas…
    O coração mais puro que conheci até hoje…

    O presenteei com seus livros,
    Yoskhaz,
    e com toda certeza
    esse conhecimento o está ajudando
    na continuação da jornada…

    Gratidão meu amado irmão das estrelas,
    profunda e sem fim gratidão,
    sem fim…

  • Bruno Balthazar 30 de julho de 2020 on 13:01

    Obrigado por mais um texto reflexivo que nos faz pensar no Todo e na essência do ato de viver. Seus textos têm me ajudado muito. A jornada apenas começou.