Viver sozinho

Eram dias de descanso. A Denise e eu tínhamos nos presenteado com uma semana de descanso em uma singela vila de pescadores no sul do país. Como tenho por hábito acordar muito cedo, para não atrapalhar o sono dela, fui dar um passeio na praia. A pousada ainda adormecia. Eu voltaria na hora do café da manhã. Andar descalço pela areia macia da praia, com o céu em tom azul-rosado típico do amanhecer, tendo a música suave das ondas do mar como sonoplastia era uma oportunidade rara para mim que sempre morei em movimentados centros urbanos. Como companhia, apenas algumas gaivotas madrugadoras. As poucas traineiras, todas bem modestas, ancoradas ao largo, aguardavam o momento de voltarem ao serviço. Eu caminhava como se fizesse uma prece pela maravilhosa conexão com a natureza permitida naquele momento. Foi quando avistei um senhorzinho sentado na borda de uma canoa estacionada na areia da praia. Ele se entretinha consertando uma rede de pesca. Tinha as feições encantadas, comum àqueles que estão em paz consigo mesmo. Ao me ver, sorriu e fez um gesto acolhedor com a cabeça, um cumprimento típico de uma alma gentil. Aproximei-me. Sempre tive comigo que os maiores ganhos de uma viagem, qualquer que fosse o lugar, mais do que conhecer museus, sítios históricos e monumentos, estavam nas conversas com os moradores locais. Se por definição, cultura é o jeito de ser e viver de um povo durante um determinado lapso de tempo, nada melhor do que a interação com essas pessoas para eu descobrir olhares ainda desconhecidos. Na delicadeza de outro gesto, e o mesmo sorriso sereno, o pescador me convidou a sentar na borda oposta da canoa. Acomodei-me.

Quando ele me ofereceu uma caneca com o café que tinha em uma garrafa térmica, brinquei dizendo que aquele seria um grande encontro. O senhorzinho tornou a sorrir e me serviu. Sem demora, embarcamos em uma interessante conversa. Ele me contou que vivera toda a sua vida naquele lugarejo: “Por terra, nunca saí daqui. Por mar, fui onde poucos homens se aventuraram”, comentou. Lembrei a ele sobre o valor de conhecermos outros lugares e pessoas como maneira de aprendermos a observar através de diferentes prismas. O pescador concordou, mas fez uma ponderação: “Conhecer muitos lugares me permite muitas novidades para contar. Mas do que adianta ter muitos passeios para relatar sem realizar a maior de todas as aventuras, aquela que me permite conhecer a mim mesmo?”. Fiz sim com a cabeça. Ele prosseguiu: “Aqui na vila, além dos moradores, todos os dias chegam diferentes pessoas, turistas de todos os cantos do planeta. Assim, quando estou na praia, conheço o mundo. Depois, volto ao mar para digerir as conversas que tive. Guardo comigo as palavras que me parecerem úteis e possam me ajudar a ser um homem melhor. As ideias que não gosto, entrego às águas profundas do mar”.  

Pedro era o seu nome. Ele me contou que faria setenta anos no próximo inverno. Perguntei se a família prepararia uma festa para comemorar uma data tão simbólica. O pescador revelou: “Vivo sozinho”. Ao me perceber constrangido, não me deixou ficar com esse peso. Era um homem sensível: “Vivo sozinho, mas não vivo triste. Tenho todas as pessoas do mundo para conviver. Fora isso, ainda tenho o mar para conversar. Trago comigo a alegria de olhar para trás e perceber que a vida tem valido a pena. Sinto-me um homem melhor dia após dia. O que de mais valioso alguém pode desejar?”.

Tornei a concordar. Sem qualquer resquício de mágoa, contou que uma manhã, quando atracou na praia, a sua esposa partira: “Isso faz muitos anos, ainda éramos bem jovens. Ela queria conhecer o mundo. Tinha esse direito. Dizia que nascera para ser grande. Todos nascemos. Cada um se torna grande ao seu jeito e entendimento. Ela fez da maneira que sabia. Era uma mulher formosa, foi embora com um estrangeiro para morar em um país distante. As crianças eram pequenas, ficaram. Disse para uma vizinha que retornaria para pegá-las assim que tivesse condições. Nunca voltou. Criei os meninos da melhor maneira que pude. Depois que cresceram, também partiram para tentar a vida em cidades grandes. Nunca voltaram”. Perguntei se recebia notícias, Pedro esclareceu: “Dos garotos, um virou músico e roda o país com uma banda. O mais velho, se perdeu na ilusão dos crimes e não mais está entre a gente. Quanto a esposa, às vezes alguém diz que soube que ela virou madame em um lugar de língua estranha. Desconfio que falam por pirraça. Vivem me provocando, mas não dou importância. Acreditam que sofro por viver sozinho, mas ninguém é sozinho quando tem a si mesmo como boa companhia. Trago comigo a certeza que fiz o melhor ao meu alcance. Isto acalma o meu coração. Não importa onde se vive, vale o esforço de se tornar uma pessoa melhor. Assim me tenho em boa companhia”.

Com honestidade, falei que Pedro era um sábio. Ele deu um sorriso acanhado, fez não com a cabeça e narrou uma história: “Certa vez chegou um gringo aqui na vila. Ele queria apenas uns dias de descanso. Dizem que era um professor muito famoso na Europa. Então, vieram alguns repórteres e fotógrafos. Não queriam uma entrevista, era somente invasão de privacidade para revistas de fofoca”. Interrompi para saber quem era o professor. Pedro tentou esclarecer: “Nunca consegui falar o nome complicado dele, sempre o chamei de gringo. Sei que era um homem muito agradável. Ele queria fugir daquele assédio. Nos conhecemos na praia. Logo ficamos amigos. Ele me propôs um negócio. Eu o ensinaria a pescar, em troca ele me revelaria o segredo da vida. Achei estranho, mas aceitei. Creio que ele apenas queria ir para alto-mar como maneira de ficar fora do alcance dos jornalistas. Coincidiu com um período que eu vivia muito triste. Meus filhos tinham seguido o mesmo destino da minha mulher. Eu acreditava que a história se repetira por minha culpa. Os meus pensamentos variavam entre desistir de mim mesmo ou também vagar pelo mundo, seguindo os passos dos outros. Acossado por estes dilemas, passei vários dias no mar ao lado do gringo. Fomos até as Ilhas dos Esqueletos, como é chamado um arquipélago distante dois dias de travessia, um local de ventos emotivos e correntes imprevisíveis. O lugar tem esse nome por causa dos diversos cascos de barcos e navios naufragados expostos ao tempo como aviso de uma tragédia anunciada. Um local que causa arrepio até nos mais calejados marinheiros. Sou o único pescador da vila a me aventurar naquelas águas passionais. Por algum motivo que não sei explicar, parece que conheço cada movimento imponderável das suas correntes marítimas e da mudança repentina dos seus ventos enlouquecidos. Sinto-me tranquilo naquelas águas. Navego sem medo”. Fez uma pausa para acrescentar: “Não existe lugar mais rico em lagostas e camarões nesse mundo de Deus”. Desconfiei que talvez esse fosse o motivo dos moradores da vila, todos ligados à pesca, fustigarem tanto a Pedro. Nada falei.

O senhorzinho prosseguiu: “Foram dias de muita riqueza. Voltei com os porões da traineira repletos de camarões e lagostas. A cabeça chegou povoada com impensadas ideias depois de tantas conversas com o professor. Foram dias alegres e transformadores. Foi quando entendi que os dias foram alegres por terem sido transformadores. A transformação de si mesmo é a mais rica fonte de alegrias”. Perguntei se o professor revelara o segredo da vida conforme prometera. Pedro me deixou conhecer o mistério: “Somos o resultado de nossas próprias equações”. 

Riu com vontade, como só os homens livres conseguem se divertir quando diante das suas dificuldades e falou: “Claro que ele teve de me explicar o significado da palavra equação. Sou uma pessoa de poucos estudos, não havia escola na vila quando eu era pequeno. Ele era um professor bom em explicações, capaz de mostrar soluções simples para problemas complicados”.  Concordei com Pedro: “A simplicidade é uma característica comum aos verdadeiros sábios”.

Pedro esclareceu o segredo revelado pelo professor: “Serei a vida que eu tiver. A minha vida terá o valor medido pelas transformações ocorridas dentro de mim. Quem eu era e quem eu passei a ser. Para isto não importa onde se vive, mas o jeito como se vive. O resultado das minhas equações se revela pela maneira como irei reagir diante de cada dificuldade. Os problemas servem para nos tornar pessoas melhores, essas são as verdadeiras conquistas. Não falo de possuir as coisas e as glórias do mundo, mas de agregar conteúdo a alma. Então, descubro as maravilhas da vida. Naquela viagem entendi que ruim não viver sozinho; ruim é viver vazio”.

O pescador confessou: “Nunca mais quis desistir de mim ou desejei seguir os passos de ninguém. Cada um é único e possui um caminho próprio para trilhar. Por isto a liberdade é essencial. Liberdade é a manifestação da minha verdade a cada instante do dia. Sem me importar com críticas nem julgamentos. Assim é com toda gente. Compreendi que ao viver a verdade do jeito como a entendo, me torno dono de mim, encontro a minha força e passo a ter o poder da vida nas mãos. Nada me falta. A beleza dos dias está nas equações que eu me desafiar a resolver”.

Indaguei o que aconteceu quando retornaram daquela pescaria. O pescador me contou: “Foi a pescaria mais farta que um dia eu tive. Os porões da traineira estavam lotados. Eu precisava retribuir ao professor o tesouro que ele havia me oferecido. Decidi dar a ele todo camarão e lagosta que havia no barco. Ele era um homem digno, no exato equilíbrio entre ser generoso e ser justo. Propôs-me outro negócio. Venderíamos toda a carga e o dinheiro arrecado seria destinado a fundação de uma escola. Falei que seria difícil manter a escola em razão dela gerar custos mensais. Ele disse que se eu fosse um homem próspero conseguiria manter a escola com o fruto do meu trabalho”. Pedro arqueou os lábios em leve sorriso e detalhou: “Lembro que, embora fosse o único a navegar nas ricas águas das Ilhas dos Esqueletos, nem sempre as condições do mar permitiam uma pesca farta. Eu vivia em condições bem modestas. O professor me pediu para não ter medo. Nada nos atrapalha tanto quanto o medo. Depois, explicou que próspero é quem vive bem com aquilo que tem. Quem de verdade vive bem faz o bem também. A prosperidade é o resultado de muitas equações virtuosas. Trata-se de uma conquista da alma; nada falta àquele que alcançou tamanha virtude”. Fez uma pausa e esclareceu: “Compreendi que um pescador simples como eu poderia ser tão próspero quanto o mais abastado milionário do planeta”. Pedro tinha razão. A vida é sábia para quem entende o significado oculto de cada situação. A vida é amorosa para quem for capaz de ler o sagrado escondido nas entrelinhas das aparentes dificuldades do cotidiano.

“Foi a primeira escola que tivemos na vila”. Em seguida, concluiu com uma pergunta retórica: “Entende a alegria do verdadeiro poder?”. Fiz sim com a cabeça. Pedro finalizou: “A partir desse dia compreendi que ninguém vive sozinho quando tem a si mesmo como uma boa companhia”. 

Eu queria saber mais como se faz para se tornar uma boa companhia para si mesmo. Pedro explicou: “É simples. Olhe para quem você era, perceba quem você é. Se houve evolução, se alegre pelo resultado. Prossiga em avanços sem fim. Se não houve, assuma o compromisso sincero da transformação; então, se alegre por se propor essa equação. Assim você terá sempre a felicidade de se ter como companhia”. Eu ouvia a explicação de um sábio.

Indaguei sobre a escola. Pedro me convidou a conhecê-la. No trajeto, eu quis saber sobre a manutenção. O pescador esclareceu: “Não preciso de muito para viver, o essencial me basta. Durante todos esses anos o mar tem me entregado o necessário. Isto me permite ter sobras para custear as despesas da escola sem qualquer sobrecarga”. Era uma casa modesta, com apenas duas salas de aula. Não era o cenário ideal, porém perfeito por ser o melhor possível. Um detalhe me chamou a atenção. O nome da escola pintado em vermelho na fachada: Escola do Gringo. Com um sorriso bem-humorado, Pedro deu de ombros e comentou: “Eu nunca consegui falar o nome esquisito dele. Porém, a homenagem é merecida”. Falei que tinha muita curiosidade em saber mais sobre esse professor. Pedro contou que existia uma única foto, na qual o pescador pousara ao lado do Gringo. Estava emoldurada na secretaria da escola. Entramos. Ao ver a fotografia, os meus olhos marejaram de emoção. O pescador percebeu. Perguntou se eu conhecia o professor. “Já ouvi falar sobre ele”, respondi. Agradeci ao Pedro por aquele encontro maravilhoso e a sabedoria transmitida. Trocamos um forte abraço e me despedi. A vila despertava. 

Quando cheguei na pousada, com o seu sorriso inesquecível, Denise me aguardava para o café da manhã em um agradável refeitório com vista para o mar. Ao me perceber introspectivo, perguntou sobre os meus pensamentos. Falei que pensava no Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo mosteiro: “Sempre me questionei a razão dele nunca ter se casado de novo após ter ficado viúvo. Estranhava ele gostar de viver sozinho, embora todos se encantassem em conviver com ele”. Denise o conhecia muito bem, pois também era monja da Ordem. Ela ponderou que existem muitas maneiras de se ter companhia fora do modelo tradicional de família. Concordei com ela e falei sobre um novo entendimento: “Viver só é diferente estar sozinho. O Velho vivia só, mas não era sozinho. Nunca vive sozinho aquele que semeia flores por onde passa”. 

Denise concordou comigo, mas estranhou a conversa. Expliquei: “Assim que acabarmos o café, vou levá-la para conhecer a escola da vila. Você vai entender”.

Discussões — 4 Respostas

  • NARA MARIA RIBEIRO TESCH 21 de novembro de 2020 on 12:26

    Nao consegui definir quem era na foto.
    Gostaria muito de saber..

  • Terumi 12 de novembro de 2020 on 16:26

    Gratidão! 🙏

  • helio dauto proença 12 de novembro de 2020 on 16:13

    “A partir desse dia compreendi que ninguém vive sozinho quando tem a si mesmo como uma boa companhia”.

    E ninguém consegue ser boa companhia se não aprendeu a se bastar….

    E assim vamos caminhando e semeando flores!

    Grande abraço.

  • Fernando Cesar Machado 12 de novembro de 2020 on 11:20

    Gratidão profunda e sem fim…