O tombo (A arte de amarrar os sapatos)

Adoro conversar sobre muitas coisas. Sempre achei política um assunto desagradável. Respeito aqueles que gostam. Assim como Platão escreveu que as pessoas que não gostam de política seriam governadas por aquelas que gostam, encontro em Epiteto o ensinamento de que nada fora de mim pode determinar a alegria de ser quem sou. Vivemos no mundo e não podemos virar as costas para ele. Contudo, penso, existem mil maneiras de torná-lo um lugar mais agradável, todas válidas. Ao meu jeito, à medida que me transformo em um indivíduo melhor, crio uma ambiência florida e perfumada ao meu entorno. Para isto, não dependo de nada nem de ninguém. Não preciso de medidas governamentais para florescer o jardim do coração. Sejam as lentes pelas quais aprecio a vida, sejam os filtros que me impedem a contaminação por quaisquer insalubridades, ambos se aprimoram na exata régua da minha percepção e sensibilidade. Tão e somente.

O mesmo acontece quando as questões se referem à Filosofia e Metafísica, assuntos bastante estudados na Ordem. Religião se torna uma matéria fundamental, sempre na pauta das conversas, por se tratar, em sua forma mais simples e profunda, de uma poderosa via evolutiva, quando sem os subterfúgios e interferências indevidas promovidas por interesses menores e exacerbações desnecessárias. No mosteiro, todas as correntes religiosas são bem-vindas, sem qualquer discriminação. Claro, nos interessa os aspectos filosóficos originários, não as deturpações promovidas por suas aplicações desleais, geradoras de medo, culpa e manipulação. Fora do contexto libertário que tenha o amor como fio condutor, acho desagradáveis as conversas sobre o assunto. Qualquer religião existe para libertar; se causar aprisionamento assinala a presença de desvios inadequados. O mesmo acontece com o estudo da Filosofia e da Metafísica que tanto me encantam; se não servir de ferramenta para me auxiliar a alcançar as plenitudes, não contêm nenhum interesse.

Quando o seu olhar é puro, todo o universo é luz, ensina o mestre no Sermão da Montanha. Toda escuridão germina no equívoco do observador.

Naqueles dias no mosteiro, o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, tinha viajado e me deixara na responsabilidade de cuidar das suas funções. Tudo fluía maravilhosamente bem nos estudos e debates. Havia uma ambiência de alegria e camaradagem entre os monges. Eu tinha certeza de que o Velho ficaria satisfeito ao retornar, fato que deveria acontecer a qualquer momento. Foi quando recebi a visita de um homem de meia-idade, cabelos grisalhos, vestido de maneira elegante e formal, com a fala culta e articulada. Disse que era candidato às eleições municipais. Falou que tinha projetos interessantes para desenvolver na pequena e charmosa cidade que fica no sopé da montanha que abriga o mosteiro. Agradeci, mas recusei a oferta por achar inapropriada. Ele, muito educado, insistiu sob a alegação que suas ideias, se postas em prática, iriam atingir não apenas a cidade, mas também a rotina no mosteiro. Como não desejava nos atrapalhar, queria debater conosco assuntos que seriam do nosso interesse. Achei por bem, ao menos, ouvir. Contudo, pedi para que falasse a todos os monges e os reuni após o jantar no salão de palestras. 

Após os primeiros minutos, o homem começou a mostrar um viés de bastante inflexibilidade em suas ideias. Alguns monges, por acreditarem que haveria um debate franco e cordial, tentaram mostrar outros ângulos pelos quais observavam as questões abordadas pelo candidato. Todos foram rechaçados de forma agressiva. Acuados, preferiram se calar. Profundamente irritado com postura intolerante do homem, comecei a fazer intervenções sarcásticas enquanto ele expunha as suas ideias. Eu acreditava que, dessa maneira, protegeria os monges que tinham sido coagidos, além de aplicar uma lição ao político. Pareceu dar certo. A ironia fez com que todos no salão começassem a rir do orador. O sarcasmo inverteu o polo da situação, fez o homem se sentir ridicularizado e encerrar a sua exposição antes da hora. Alguns ainda riam quando ele se foi. Senti-me um herói. Pensei que todos no salão tinham ficado satisfeitos com a minha intervenção em defesa dos monges e do livre-pensamento. Eu estava enganado.

Duas pessoas, em pé no fundo do salão, tinham um olhar sério em minha direção. O Velho, que acabara de chegar, e Loureiro, o sapateiro amante dos vinhos e dos livros, um amigo comum de longa data, que viera junto para passar uns dias conosco e fazer algumas palestras no mosteiro. Eles nada disseram, mas compreendi que não tinham gostado do que assistiram. Fui ao encontro deles. Após os cumprimentos, o Velho disse que estávamos todos cansados e pediu para que eu o encontrasse em seu gabinete logo ao amanhecer.

Dormi mal. Tive um sono intermitente transpassado por pesadelos. Isto sempre acontece quando uma parte de mim não gostou do que a outra fez. Ao entrar na cantina, o mosteiro ainda adormecia. Quase todo. Loureiro e o Velho entabulavam uma animada conversa em torno de um bule de café fresco. Ao me verem, fizeram sinal para eu me sentar com eles. O monge iniciou a conversa: “O que achou da palestra de ontem?”. Falei que tinha sido bastante desagradável, pois o político tinha mostrado uma face bastante intransigente da sua personalidade, não permitindo espaço para divergências e diferenças. Isto, a meu ver, era nocivo pelos limites ilegitimamente impostos. O pensamento único é uma cela estreita. Acrescentei que o livre-pensar precisa de um palco onde as ideias, originárias de todas as vertentes, sejam expostas para análises serenas e claras. Loureiro interveio: “Serenidade e claridade requerem luz para que possam se estabelecer, não?”. Concordei. Ressaltei a postura inflexível do político, na qual não admitia divergências quanto ao seu discurso e verdades. Foi a vez do Velho: “Você iluminou o debate?”. Falei que mostrei as incoerências das ideias expostas. O monge prosseguiu: “Você apresentou as suas verdades ou, diferente disto, menosprezou a maneira do político de pensar e agir?”. Antes que eu respondesse, ele complementou: “Mostrou um diferente viés de pensamento, com serenidade e clareza, ou primou por depreciar aquele que o incomodava?”. 

No fundo, eu sabia onde havia errado, mas naquele momento me esforçava para não admitir. Argumentei que a postura do político era coercitiva, pois, de antemão, condenava todos aqueles que não conjugavam com a suas ideias. E os acuava. Monge questionou: “Então, usar do achincalhe, de sombras para combater sombras, espraiando os domínios da escuridão, seria fazer diferente e melhor? Seria oferecer a outra face, a face da luz?”. 

Lembrei que ele havia sido agressivo com os monges que discordaram dele. Foi Loureiro quem me recordou: “A agressividade de um indivíduo, embora cause desconforto momentâneo, atingirá de modo mais maléfico aquele que a exerce. Ele levará a sua própria violência consigo, em formato de intolerância, incompreensão, insatisfação e sofrimento. Há que se ter compaixão por ele ao invés de raiva. Sim, todo indivíduo impaciente e violento traz uma dor imensa na alma, tão grande, que ele não consegue compreender a verdadeira razão de agir assim. No simplismo do entendimento, na pressa em fugir do espelho para não se confrontar com a própria imagem, ele apequena a verdade. Um sujeito se torna intolerante ao reduzir a realidade até que caiba de maneira confortável em sua consciência, em um tamanho que consiga entender e usar. Depois, a direciona ao mundo em busca de aprovação. Quando não a consegue, se fecha em incompreensão agressiva”. Fez uma pequena pausa para prosseguir: “O mesmo ele fará nos seus relacionamentos pessoais. Irá reduzir as pessoas na vã tentativa de entendê-las; irá decotar a verdade para que caiba no modelo que considera adequado. Por negar as diferenças que ampliam e aprofundam a realidade, o mundo terá poucas cores, o pensamento ficará limitado, ainda que pese um linguajar culto e articulado”. 

Olhou-me nos olhos e voltou a perguntar: “Como foi a palestra ontem?”. Não foi preciso dizer nenhuma palavra. Assim como eles, eu sabia a resposta. Diante de tamanha escuridão, ao invés de haver paciência e compaixão, houve a escolha por ridiculizar o outro para que fosse motivo de pilhéria e escárnio. Eu poderia contrapor as ideias do político com a minhas, em exposição serena e clara. Ao me irritar, me excedi através do sarcasmo. Todo excesso é típico das sombras, usei de uma agressividade desnecessária. Excessos demonstram falta de equilíbrio e confiança. Baixei a cabeça. Eu sabia que eles tinham razão. Não apenas desperdicei a oportunidade de iluminar a escuridão, ainda pior, deixei que a minha luz se apagasse.

A ironia é uma forma cruel de agressividade pela maneira vexatória que se expõe uma pessoa. Uma violência socialmente aceita que, ainda mais grave, costuma trazer aplausos à inteligência do zombador. No entanto, inteligência e virtudes nem sempre caminham juntas rumo à luz. O sarcasmo será sempre um bom exemplo deste mau uso, por todo orgulho e vaidade nele envolvido. Eu sabia disto também.

Fora a psicoesfera do mosteiro que foi rasgada com minha participação na agressividade com que combati a agressividade. A minha vibração também restara densa e escura. A noite mal dormida não tinha sido à toa. Ao me irritar, eu abrira a porta para o mal entrar e, pior, assumir o comando das minhas atitudes. Quando perco o domínio sobre o meu comportamento, me afasto da luz. Quem assume o comando? As sombras do mundo me invadem e ressuscitam as minhas sombras pessoais. Tudo aquilo que eu havia alcançado, entrego a quem não devo. Ao perder o poder sobre mim mesmo, nada mais de bom poderá me valer. Nada disto me era desconhecido. Mesmo assim, eu tombara. Ninguém vence ninguém. Cada um será sempre o seu maior e único oponente. 

O sapateiro bebeu um gole de café e disse: “A vida não é um jogo”.

Fez uma pausa para eu assimilar o conceito e esclareceu: “Em um jogo há o pressuposto da disputa, na qual um indivíduo, ou grupo, sairá vencedor, enquanto do outro lado ficará o perdedor. Uma ideia com muitos resquícios do primitivismo ancestral que ainda nos permeia. Por isto ainda gostamos tanto das competições esportivas. Por trás do ideal de saúde, vigor e entretenimento, existe a motivação inconsciente e selvagem em subjugar o outro, que naquele momento ocupa a posição de adversário. Quando, em verdade, possui a representatividade do inimigo das batalhas de outrora. Todas as competições são jogos de guerra simulados, uma tentativa de suprir um vício ainda não compreendido e, por isto, não superado”. 

Esvaziou a caneca e se serviu com mais café. Depois, acrescentou: “Ocorre que quando me empenho em derrotar outra pessoa, me perco de mim mesmo, pois me afasto do meu núcleo de luz, fonte de força e equilíbrio. Não há vitória em vencer o outro, existirá apenas um duelo imaturo por um ganho ilusório e distante do verdadeiro poder”.

Bebericou o café e esclareceu: “A vida é uma escola”. 

Depois, prosseguiu: “A vitória está em aprender com cada situação vivenciada e evoluir. Isto significa maior afinidade com as virtudes e consequente iluminação das sombras. Tudo se resume na luta interna consigo mesmo. Só existe vitória quando supero as minhas dificuldades e medos. Isto não é um jogo; é o sentido da vida. Evoluir é acender a luz para afastar a escuridão que ainda me assombra o coração”. 

Fez uma pausa e complementou: “Quando nos dedicamos a duelar com alguém, significa que perdemos a batalha contra as sombras, pois fomos enganados sobre o verdadeiro campo de batalha. Lutamos a luta errada. Todas as vezes que nos empenhamos em derrotar outra pessoa, significa que o orgulho e a vaidade assumiram o leme da minha embarcação, alterando a rota para portos sombrios e assombrados. Isto pode acontecer mesmo quando já navego há tempos rumo à luz”.

O Velho concluiu: “Muitos erram por desconhecimento. Por não terem acesso a conceitos mais luminosos, se deixam enganar pelas promessas da escuridão. Contudo, outros tantos, já detentores do conhecimento, por vezes, erram por falta de vigilância; aquele olhar atento que cada um deve manter sobre si mesmo. Conhecem ideias e conceitos avançados, estão alinhados a princípios e valores virtuosos, mas se deixam irritar pelo comportamento alheio. Basta este pequeno descuido para que a porta do seu espaço sagrado se torne vulnerável à invasão das sombras. Então, virá o erro. O templo será vilipendiado. Em um segundo, tudo aquilo conquistado restará destruído”. 

Loureiro se agachou, desamarrou os meus sapatos. Em seguida, amarrou os cadarços de um sapato aos do outro pé. Pediu para eu andar. Falei que não conseguiria, pois iria cair. O sapateiro explicou: “Assim acontece quando entramos em qualquer disputa para derrotar alguém. Amarramos a nossa vida na de outra pessoa. A liberdade se encerra; ninguém caminha”. Tornou a se agachar, amarrou cada cadarço ao próprio sapato e esclareceu: “Os sapatos são as pessoas; os cadarços correspondem às suas escolhas. Os sapatos andam lado a lado, porém, cada um se adequa e se limita ao próprio laço e passo. Não se usa o cadarço enlaçado em um sapato para amarrar outro sapato. Ninguém sairá do lugar. Se tentar, tombarão”.

Eu estava triste. Tinha sido um erro perfeitamente evitável. A mesma intolerância que repudiei no político permiti que se manifestasse em mim. Eu também tinha sido intolerante com ele. Esta compreensão seria a pedra inicial da minha reconstrução. Era um compromisso que naquele instante assumia perante a mim mesmo. Falei isto para eles. Eu estava sendo sincero. Disse, também, que procuraria o político para me desculpar pelo meu comportamento, assim como me redimiria perante os monges para que a noite passada ganhasse melhor serventia.

O Velho arqueou os lábios em leve sorriso e encerrou a conversa: “Jogue fora a tristeza. Há muitas razões para você se alegrar, seja pelo aprendizado, seja pela oportunidade de recomeçar”. Em seguida, finalizou com uma das lições deixadas pelo mestre: “Agora que entendeu como amarrar os sapatos da maneira certa, se levante e caminhe!”. 

Discussões — 14 Respostas

  • Mônica Fontes Simião 31 de março de 2021 on 19:13

    Um aprendizado para eternidade!
    Lembrei muito dos exemplos no livro “Comunicação não Violenta”, o qual tem como origem a história de Ghandi…
    Sinto que sempre tive essa verdade dentro de mim…nunca percebo um sentido em revidar pois sentia que estaria me igualando…
    Enfim, no decorrer das experiências da vida percebo que podemos modificar a sintonia do outro através do nosso exemplo em busca da paz.
    Muita gratidão por esse texto magnífico!

  • Guilherme Azevedo do Valle 31 de janeiro de 2021 on 19:58

    Belo texto, importante lição!
    Mas quero manifestar uma dúvida que quem sabe poderá ser mais trabalhada em outro texto. É uma manifestação sincera de algo que ainda não tenho claro!
    Se algo marca a minha personalidade desde pequeno é o anseio de ser útil e buscar formas de contribuir para um mundo melhor! inúmeros tentativas, algumas deram algum fruto e outros foram um fracasso, ou como diz o texto, foram amargas lições, novos aprendizados!
    No inicio do texto fala do conceito de acreditar mais que cada um deve iluminar a sua consciência e assim transformar o mundo, de não se crer na politica! Entendo, por mais que os anos de vida e as diferentes experiências, me fazerem recuar cada vez mais em querer salvar o Mundo, continuo ainda com uma dúvida: será que se afastar da politica, de ações sociais para o bem comum, não é deixar o campo aberto para os inconscientes da realidade espiritual, um espaço livre para as ações egoístas?
    Sim, creio que uma a consciência iluminada liberte o Ser, mas não consigo deixar de ver e me preocupar como a dimensão social, coletiva, grupa, pois esta pode disseminar e fortalecer a ignorância de grande parte da população!
    Não estou a censurar a nenhuma opção, creio que existe muitos caminhos e cada um terá suas afinidades. Coloco como uma questão de reflexão na qual ainda me debato! Quando cito a política, não necessariamente falo da politica partidária, mas das ações em busca de consensos que viabilize um mundo melhor para todos!

    Um grande abraço a todos, gratidão!

  • Leandro Moller 15 de janeiro de 2021 on 14:13

    Gratidão Yoshaz …ainda estou na espera dos manuscritos escritos em forma de livro :)…abraço

  • Jeane 15 de janeiro de 2021 on 08:52

    Que lição!!!Eu precisava ler e aprender!!! Gratidão!!!

  • Gleiza Jordânia 4 de janeiro de 2021 on 06:22

    Gratidão sem fim… 😊

  • Adriano Camargo 3 de janeiro de 2021 on 11:48

    Gratidão pelo texto de muita sabedoria. Vou tentar não amarrar meu cadarço em outro sapato. Feliz 2021.

  • Viviane Barbosa 1 de janeiro de 2021 on 11:38

    Gratidão, eu gostei e achei bem propício para aplicação em nosso dia à dia. Que esse ano seja para você e todos nós de pura luz.

    Ahooo!!!

  • helio dauto proença 28 de dezembro de 2020 on 09:50

    A vida é uma escola, e não raro mesmo nós os caminhantes da luz nos descuidamos e tropeçamos, ai nos resta reconhecer o erro procurar sana lo e continuarmos a nossa jornada…um exelente 2021 a todos!

  • Iara da Veiga 26 de dezembro de 2020 on 07:41

    Gratidão meu amigo-irmão. Bênçãos natalinas.

  • Jotaerre.7 26 de dezembro de 2020 on 03:11

    Gratidão pelos ensinamentos! 🙏

  • Caroline Martesi 24 de dezembro de 2020 on 07:14

    Gratidão!

  • Fernando Cesar Machado 24 de dezembro de 2020 on 05:48

    Gratidão profunda e sem fim, sem fim…feliz natal meu irmão das estrelas

  • Terumi 23 de dezembro de 2020 on 19:43

    Gratidão! 🙏

  • SCHWEITZER 22 de dezembro de 2020 on 16:37

    A vida é uma escola, sem duvida fui reprovado por muitos anos por não entender esta simples verdade.