Por onde tens andado ultimamente?

O céu e o inferno estão ao meu dispor. Eles se manifestam de acordo com a minhas escolhas. Antes de escolher como agir ou quais palavras irei usar, preciso lembrar que todas as ideias e emoções são elaboradas dentro de mim; elas influenciam as minhas decisões que, por sua vez, definem quem sou. Mesmo que eu decida por nada fazer ou falar diante de uma situação, escolho por quais pensamentos irei construir a minha realidade. A consciência estabelece não apenas as fronteiras da realidade, se amplas ou estreitas, superficiais ou profundas, mas também os aspectos existentes nesta realidade. Assim, não posso culpar ninguém se tenho passado grande parte dos meus dias na agitação ruidosa do inferno. Será sempre uma escolha pessoal definir onde irei passear nas próximas horas. Enquanto eu acreditar que meus dias são ruins por causa do que os outros fazem, significa que não sei absolutamente nada sobre a liberdade. 

Demorei muito tempo para aprender essa lição simples. Tão elementar que costumo esquecer dela. Só lembro quando me percebo passando as tardes no inferno. Por que insisto em passear por lugares que me fazem tão mal?

Tudo começou muitos anos atrás, quando o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, veio ao Brasil para algumas palestras. Elas ocorreriam na Bahia. Admirador das histórias de Jorge Amado, era encantado pela magia contida nos personagens e cenários narrados pelo escritor. Queria andar pelas ladeiras do Pelourinho, conhecer o Mercado Modelo, se deixar envolver pelas energias do Candomblé, visitar as igrejas coloniais, assistir uma roda de capoeira, ouvir a música, saborear a culinária e apreciar a malemolência do povo. Fui encontrar com ele em Salvador. Outros monges, como denominamos os membros da Ordem Esotérica dos Monges da Montanha, também brasileiros, foram ao seu encontro. Além da inegável sabedoria, a doce personalidade do Velho era um dos motivos pelos quais as pessoas gostavam de estar ao lado dele. O bom monge parecia passear nos jardins do céu todos os dias. Ele tinha o dom de nos levar para lá logo que pronunciava as primeiras palavras. Ainda mais, a sua simples presença tornava o ambiente agradável. O problema era que a maioria de nós não conseguia se manter no céu por muito tempo.

Ele pediu para que eu cuidasse do roteiro e providenciasse o necessário. Fiz com todo afinco. Os problemas começaram logo no aeroporto. Jonas, um monge nascido e crescido em Salvador, logo na chegada, fez questão que o Velho ficasse hospedado na sua casa no Rio Vermelho, bairro tradicional da cidade, inclusive onde morou Jorge Amado. Disse que a casa tinha muitos quartos e estava apta a hospedar todos. O Velho adorou a ideia e perguntou se eu me incomodaria de cancelar o hotel. Embora tenha contido a contrariedade inicial, falei não haver problema nenhum. Em grupo de seis, todos partimos para a casa de Jonas.

Sem qualquer luxo, mas muito confortável, a casa do Rio Vermelho parecia emanar a Bahia por todos os seus tijolos. Fossem pelos quadros de Carybé espalhados pelas paredes, as músicas de Maria Bethânia que tocavam ao fundo ou pelo acarajé servido como entrada no almoço repleto de pratos saborosos. Jonas possuía a gentileza e a informalidade cativante do povo baiano. Para aquela noite, a pedido do Velho, eu havia programado uma visita a um cerimonial de Candomblé. Tinha conseguido o contato através de um amigo em uma gira de Umbanda da qual sempre participava em um terreiro carioca. Embora sejam religiões distintas, possuem algumas características e adeptos em comum. Jonas sugeriu nos levar a outro local, onde haveria um ritual semelhante, com a diferença de ele ser primo do babalorixá. Como eu possuía apenas uma indicação, todos os monges opinaram por acatarmos a sugestão do Jonas. Assim foi feito. Participamos uma cerimônia linda, repleta de energias renovadoras. A troca me pareceu acertada. Dia após dia, o roteiro que eu tinha traçado foi substituído pelas sugestões do monge baiano, nada restando do original. Embora o Velho sempre se mostrasse gentil com todos, o Jonas se tornou o seu principal interlocutor durante aqueles dias. Aos poucos, as horas foram se tornando desagradáveis para mim. Para culminar, descobri que o Jonas se oferecera para ocupar a vaga aberta na Ordem para ministrar um curso sobre o Echirídion, de Epicteto, no próximo período de estudos no mosteiro, o mesmo que eu esperava pela indicação e me preparava havia vários anos. Comecei a entender a verdadeira intenção do Jonas por trás de toda a sua hospitalidade e gentileza. Naquele instante, não tive dúvida de que as minhas chances estavam diminuídas. 

A partir dali, apesar de acompanhar o grupo a todos os lugares, os dias ficaram amargos e sem graça. Nada mais me encantava ou tinha sabor. Faltava-me vontade e alegria. Sobrava impaciência, a ponto de me irritar ao ver todos sorrindo satisfeitos e elogiando as ótimas sugestões oferecidas pelo Jonas. Eu me sentia menor a cada minuto. Piorava quando o via conversando com o Velho. A cada troca de palavras entre eles, o demônio me abraçava.

Na véspera de partirmos, em um momento que estávamos a sós, sem que eu traçasse qualquer comentário, a sensibilidade aguçada do Velho o levou a me perguntar: “Por qual razão que você escolheu passear pelo inferno nos últimos dias?”. A dignidade me impedia de fazer queixas ou apontar as intenções rasteiras do Jonas. Disfarcei e, sem mentir, disse apenas que estava preocupado com alguns problemas. O Velho fez sim com a cabeça e comentou: “A maior parte dos nossos problemas nada mais são do que criações mentais equivocadas, nascidas do desequilíbrio emocional, da descrença quanto as nossas próprias capacidades e na mania de interferir na vontade dos outros, como se isto fosse fundamental à felicidade. Somos envolvidos por emoções sombrias, em geral provenientes do medo, que reduzem o nosso potencial para pensar e limitam o alcance do olhar. Criamos as dependências que nos impedem, não apenas de caminhar, mas que furtam a leveza da vida. A razão de tantos problemas é o fato de termos uma fábrica deles funcionando a todo vapor dentro de nós”. Deu de ombros e murmurou: “O diabo nada faz para receber visitas. Somos nós que nos convidamos”. E se retirou. 

Ora, ainda que pese todo o respeito e carinho que eu tinha pelo Velho, como poderia ser possível estar satisfeito com a situação? A disputa pela vaga para ministrar o curso se mostrara desleal. Jonas seduzia a todos com a sua hospitalidade e demonstrações diárias de gentileza e competência. Todos estavam encantados com ele. Os anos de estudo dedicados na preparação para me habilitar ao Echirídionseriam ofuscados diante de um truque de mero ilusionismo articulado pelo meu concorrente. Ele me tornara insignificante aos olhos dos outros monges naquela viagem. Era desonesto.

Na última palestra, com o Teatro Castro Alves lotado, sem avisar a ninguém, o Velho decidiu mudar o tema. Resolveu falar sobre o céu e o inferno: “Ao contrário do que muitos acreditam, não são lugares para onde viajamos após a morte. São os modos pelos quais escolhemos viver a vida”.

Após a surpresa inicial, com algumas doses de desconforto, comum ao nos deparar com uma realidade que, embora nos seja íntima, relutamos admitir, ele explicou: “Quando as razões da minha existência têm como foco a minha vitória sobre os outros, adquiro bilhetes diários para viajar ao inferno”. Fez uma pausa antes de esclarecer: “Uma questão relevante é a dificuldade que temos para compreender as diversas modalidades de batalhas que caracterizam essa luta insensata. A corrida por admiração, aplausos e aprovação de outras pessoas por algo que fazemos é um dos vários exemplos da teimosia de convencer o mundo sobre o nosso valor. Quando nos dedicamos a impor a superioridades das nossas razões, ao fincar a bandeira da nossa verdade como a mais acertada, realçar sem maiores necessidades o conhecimento que temos, em verdade, estamos em guerra para nos mostrar maiores ou melhores do que alguém. A luta para impor a nossa vontade sobre a opinião alheia nasce da insegurança e desequilíbrio intrínsecos, como modalidades diferentes de uma mesma batalha sombria”.

Observou o incômodo do público com aquelas palavras, mas não se deteve: “Todos nós fazemos viagens frequentes ao inferno. Negar é mentir para si mesmo. O motivo é simples. Estamos condicionados a esse comportamento. Vivemos como se estivéssemos em uma corrida para chegar na frente de quem está ao lado. Quando a mentalidade ainda é tosca, chegar na frente significa ser mais importante”. 

Fez uma pausa proposital para uma pergunta retórica: “No entanto, o que de fato é importante?”. 

Silêncio. Ouvia-se apenas as pessoas se mexendo nas poltronas face o desconforto que sentiam. Ele prosseguiu no raciocínio: “O amor é o mais importante, diriam muitos com sabedoria. Contudo, o modelo existencial escolhido por mim está colaborando para que eu possa amar mais e melhor?”. Fez uma pausa para que concatenássemos a ideia e continuou: “A paz, falariam alguns repletos de razão. Entretanto, o modo como vivo tem me oferecido a necessária serenidade?”. Calou-se por instantes e provocou em seguida: “A felicidade, vários afirmariam sem chance de errar. Todavia, tenho sido feliz ou tenho me entorpecido com momentos de euforia?”. Após alguns segundos de silêncio, disse: “Ter saúde, sugeririam outros. Porém, viver em eterno conflito, tensão e ansiedade serão fatores de cura ou serão causas de novas enfermidades?”. Franziu as sobrancelhas e afirmou: “Todos sabem as respostas. Assim como sabemos o que é realmente importante. Mas nunca nos lembramos de fazer a pergunta”. Deu um sorriso resignado e lembrou: “O diabo agradece por fazermos o serviço dele”.

As pessoas desviavam o olhar umas das outras, como se aquelas palavras desnudassem as suas almas. Por um momento, achei que Velho estava disposto a tirar o sono de todos naquela noite: “A figura mitológica do demônio é o simbolismo do mal na queda do anjo que não soube lidar com as próprias sombras. O diabo não se manifesta nos outros para nos perturbar; ele nos é íntimo e o chamamos para dançar a cada insatisfação que permitimos se instalar em nós. O lado bom dessa verdade é que os anjos também nos são íntimos e estão à disposição para nos oferecer outro olhar perante a qualquer aborrecimento”.

O Velho esclareceu: “O problema não são os outros. Nunca são. O problema é a nossa dificuldade em lidar com as escolhas alheias quando elas divergem das nossas. Se a atitude de alguém despertou a alguma contrariedade, o problema para impedir que me atinja é meu. Mostrará o quanto me pertenço e a parte que ainda não domino em mim. Aqui começa o que realmente importa, tudo se resume na luta que travo comigo mesmo. O céu ou o inferno se estabelecem na minha capacidade de filtrar e elaborar as emoções que sinto. Anjos ou demônios se definem na clareza das lentes com as quais me vejo e observo o mundo. Ninguém mais tem poder para determinar por onde ando, se nos jardins do céu ou na aridez do inferno. Perco esse poder quando insisto interferir na vontade alheia; torno-me dependente dela; é neste ponto que o diabo comemora. Invoco dias barulhentos e relações tumultuadas. Sofro. Como um anjo caído, perco as minhas asas e desço ao inferno. Não posso reclamar. Somente eu posso cortar as minhas asas. Por que faço isso?”. 

Sorriu e indagou sobre a pergunta anterior: “Faço porque tenho medo de voar?”. Ele mesmo respondeu: “Creio que não. Faço por não ter aprendido a ver beleza da vida. Por não ver, penso que não exista. Sim, o inferno se agiganta na medida que eu desacredito na verdadeira beleza que há em mim. Sou levado a crer que inexiste possibilidade para o amor, a felicidade, a paz, a liberdade e a dignidade sem determinadas ações por parte de outras pessoas. Sinto-me incapaz de alcançar as plenitudes, que são as grandes belezas da vida, através do meu próprio esforço. O mundo é a escola, nós somos as oficinas”. 

Franziu as sobrancelhas e explicou: “Como o destino de todos nós são as grandes altitudes, ganha sentido a versão da história de que me sobrepor aos outros é a origem do verdadeiro poder. Ao invés de me conquistar, parto para subjugar a vontade e o desejo dos outros. Como símbolo dessa absurda vitória, na busca da sensação de ir mais alto, preciso subir sobre alguém. Depois mais alguém. Ainda que suba em cima de todo o mundo, não conseguirei sair do chão. Ao final, mesmo após me sobrepor a todos, sucumbirei a mim mesmo que, esgotado, darei conta de não ter ido a lugar nenhum. Apenas afundarei no inferno que eu mesmo criei. Não me restará nenhum amor, paz ou felicidade; desconhecerei a liberdade e a dignidade”. Deu de ombros e questionou: “Que vitória, verdade e poder são esses?”.

Então, quando o desconforto do público atingiu o ápice, o Velho lembrou que a capacidade retomar e manter a serenidade dos dias também nos pertence: “Os anjos também nos são íntimos, pois a nossa essência é de Luz. O segredo reside em aprender a ver com os olhos da alma. Eles abrem as portas do céu em nós”. Ao perceber as indagações nas faces das pessoas, explicou: “Os olhos do rosto nos mostram as aparências de todas as pessoas e as consequências físicas das suas escolhas. Isto faz com que defeitos e imperfeições sejam ressaltados, fazendo que os problemas pareçam mais fartos que as soluções. Em contrapartida, os olhos da alma revelam a essência que anima a matéria, a verdade que existe por trás do movimento de uma pessoa. Suas intenções, razões e olhares. Perceberemos as suas dificuldades, sentiremos as suas angústias, entenderemos as suas dores. Ao invés de julgar, meramente condenando as consequências desastrosas dos atos, como costumamos fazer, passamos a observar e aprender. Isto nos torna solidários, não por impulso moral, mas em degrau mais elevado, avançamos por percepção e sensibilidade apuradas. Compreenderemos que muitas vezes somos nós que não sabemos ou não conseguimos agir de maneira melhor. A empatia floresce. Temos de admitir que não podemos cobrar a perfeição que não temos para oferecer. Surge a compaixão. A frustração dá lugar a compreensão; a irritação se afasta para entrar a paciência; a mágoa se transforma em perdão. O perdão é uma linda maneira de amar e tem o poder de nos libertar do sofrimento. Sofrer é viver no inferno”. 

Bebeu um gole d`água e alertou: “Existem muitas maneiras para se dançar com o diabo”. Neste instante, olhou para mim e disse para a plateia: “Uma delas, situação muito corriqueira, é a projeção da maldade que fazemos em relação às intenções alheias. Embora cada um saiba muito pouco sobre si mesmo, acreditamos conhecer tudo sobre as vontades e os desejos das outras pessoas; as artimanhas e subterfúgios que utilizam para conseguirem os seus intentos. Acabamos como prisioneiros da nossa própria armadilha, passando os dias envoltos sofrimentos, revoltas e frustrações de situações que talvez nunca aconteçam”. Fez uma pausa antes de encerrar com um conselho: “Não se preocupe tanto com os diabos alheios. Fique mais atento em educar os seus demônios pessoais; no decorrer da vida, eles lhe causam mais mal do que os perigos do mundo”.

Ao final, fomos para o aeroporto. Cada monge voltaria para sua cidade. Ao se despedir de mim, Jonas disse que somente na noite anterior tomou conhecimento que eu era candidato a ministrar oEchirídionno próximo período de estudos no mosteiro. Adiantou que, ao saber, retirou a sua candidatura, pois me considerava mais bem preparado para a função. Disse, ainda, que iria se inscrever para assistir as minhas aulas, pois me admirava bastante. Sem graça, apenas sorri e o abracei. Não disse palavra. Eu nem ao menos sabia o que dizer para mim mesmo. 

Ao me despedir do Velho, enquanto trocávamos um forte abraço, ele sussurrou: “Nós dois estivemos em Salvador na última semana. Visitamos os mesmos lugares ao lado das mesmas pessoas. Contudo, apreciamos paisagens distintas e tivemos companhias diferentes”. Fez uma pausa para eu alocar a ideia e disse: “Entendeu o alcance da criação e o poder que cada um possui como criador da própria realidade? Daqui para frente faça bom uso da lição para que a visita ao inferno não tenha sido em vão”.

Em seguida, o bom monge se foi com seus passos lentos, porém seguros.

Discussões — 10 Respostas

  • Célia Elizandra 21 de fevereiro de 2021 on 07:43

    Fantástico, como sempre. Sem palavras para expressar minha eterna gratidão.

  • Wllisses Thel 16 de fevereiro de 2021 on 07:17

    Tenho passado longos dias no inferno sem perceber as correntes invisíveis que me aprisionam. Gratidão imensurável por me ajudar a vê-las. Luz e proteção, irmão de jornada querido!

  • Francis de Sousa Silva 14 de fevereiro de 2021 on 13:38

    Um dispertar da alma. Gratidão pelo texto.

  • SCHWEITZER 28 de janeiro de 2021 on 15:29

    Os demonios q vemos nos outros, sao o reflexo daqueles q existem dentrobde nós.

    Brilhante.

  • Silvia 23 de janeiro de 2021 on 13:30

    Cada vez mais apaixonada por tanta sabedoria contida nesses textos. Gratidão!

  • Ana Cláudia de Oliveira 23 de janeiro de 2021 on 07:29

    Ah… Estava com saudades desses momentos de leitura! Gratidão!

  • Terumi 18 de janeiro de 2021 on 21:52

    Gratidão! 🙏

  • Santana 18 de janeiro de 2021 on 18:45

    Obrigado!

  • Fernando Cesar Machado 18 de janeiro de 2021 on 11:04

    Gratidão profunda e sem fim…

  • Gleiza Jordânia 18 de janeiro de 2021 on 07:52

    Que belo texto!
    Ah se todos aprendessemos a educar nossos próprios demônios…
    Gratidão sempre por cada leitura 😊🌟