O brilho e a luz

A noite se despedia quando entrei na casa de Li Tzu, o mestre taoísta. A pequena vila chinesa estava preste a despertar. Atravessei o jardim de bonsais perfumado pelo generoso jasmineiro. Meia-noite, o gato negro que também morava na casa, dormia em cima da geladeira, me olhou com preguiça e ronronou. Li Tzu acabara de fazer os seus exercícios matinais de ioga e separava ramos de alecrim para a infusão do chá. Sorriu ao me ver, apontou com o queixo uma cadeira para eu me sentar à mesa e acrescentou mais uma xícara. Enquanto aguardávamos a ebulição da água, comentei que aquele ciclo de estudos estava muito proveitoso. Os códigos poéticos usados por Lao Tsé no Tao Te Ching, o Livro do Caminho e da Virtude, estavam cada vez mais claros, permitindo aos alunos uma melhor compreensão do arco filosófico que ele deixara como legado à humanidade. Li Tzu me lembrou: “Nada que você não encontre no Sermão da Montanha ou no Bhagavad-Gita, entre outros textos sagrados, apenas para ficar em alguns poucos exemplos. O conhecimento está disponível com diferentes roupagens, ao gosto de cada pessoa. O importante é que o saber seja transmutado para a devida aplicação em cada situação vivida. Sem a inovação do ser no viver, nenhuma valia terão os estudos”. A chaleira apitou. Ele a tirou do fogo e derramou a água no bule de ferro fundido; lá dentro, o alecrim aguardava para compartilhar conosco o seu aroma e sabor. Enquanto aguardávamos a infusão, o mestre taoísta acrescentou: “Percebo muitos na ânsia por novos conteúdos sem tanta preocupação em utilizar no dia a dia os ensinamentos que já têm acesso. Não adianta querer mais se não se usa aquilo que se possui”. Olhou para a jarra e disse: “Assim como a água quente impulsiona o alecrim a revelar os seus encantos e poderes, os imprevistos da vida nos provocam a manifestar toda a nossa magia, beleza e virtudes. No entanto, a maioria ainda arde com a alta temperatura das dificuldades ao invés de aproveitar a situação para reverberar toda a sua força e equilíbrio. Cada empecilho é um convite à escuridão ou à luz. Qual porta iremos atravessar é uma decisão pessoal”.

Comentei que havia pessoas que pareciam ter como único objetivo apagar a nossa luz. Li Tzu disse não com a cabeça e falou: “Olhar desta maneira é observar os dias pelas lentes do desastre e do sofrimento. Permita-se viver a mesma situação através de outro viés. Quando acontecer, e acontecem todos os dias, ao invés de se chatear com a escuridão que ameaça, faça de outra maneira. Primeiro, simplesmente agradeça”. Diante do meu espanto, ele explicou: “Não procure pelos problemas, não precisa, eles o encontrarão. Ainda que não entenda, são como criaturas que buscam pelo seu criador. Embora possa ter dificuldade em admitir, você os criou pela incompreensão que possuí sobre a sua própria realidade. Sendo assim, aceite que você necessita deles; jamais os rejeite. Não adianta, eles continuarão no seu encalço. A inteligência consiste em reconhecer o valor do aprendizado neles contido. Receba as dificuldades com bom grado, como quem aguarda um curso há muito esperado. Agradeça e faço bom uso. Problemas não existem para nos aporrinhar, mas para nos aperfeiçoar; eles não vieram para ficar e devem ter prazo de validade determinado. Quando deixamos que fiquem além do tempo razoável, irão nos esgotar e deteriorar tudo ao redor. De outra face, ao envolvê-los com amor, teremos acesso a mais fina sabedoria de soluções traduzidas em simplicidade e leveza”. 

Fez uma pausa por instantes, como se precisasse recorrer a exatas palavras para que não restasse incompreensão, e disse: “As melhores soluções costumam ser aquelas que ampliam o olhar e aprofundam a compreensão. Isto pode não resolver momentaneamente o problema, mas iniciará o processo de aperfeiçoamento pessoal que, depois de integrado ao nosso novo jeito de ser e viver, o dissolverá para sempre. Diante de uma situação complicada, muitas vozes internas dialogam conosco. O Tao nos ensina que cada pessoa é como uma aldeia; muitos habitantes moram em nós. Emoções e ideias, das mais sutis às mais densas, alegrias e tristezas em forma de lembranças doces ou amargas, sombras e virtudes, ego e alma, todos se manifestam; uns gritam ou outros apenas sussurram. São tantas vozes que por vezes ficamos desorientados sem saber qual delas usaremos como orientação. Lao Tsé diz que a solução é simples. Aquelas que falam em retribuir a dor e a dificuldade que sentimos, como meramente atropelar quem nos impede a passagem, merecem descarte. As vozes que nos falam ao coração, trazem aconchego, bem-estar e estimulam a utilização de alguma virtude, ao nos levar a sobrevoar àqueles que parecem nos impedir de prosseguir, fazem jus ao acolhimento. Assim se abrem os portais da transmutação, uma delicada, poderosa e genuína inovação de alguém nele mesmo, porém, diferente e melhor. Cada problema é um autêntico ciclo de libertação; não somente do problema em si, mas das amarras existenciais que impedem a expansão das potencialidades de quem o enfrenta. Cada dificuldade traz em si um encontro; uma maravilhosa oportunidade para descobrir e conquistar diferente magia, beleza e virtude. Este é o poder. Quanto mais complexo for o problema, mas intensa será a luz adquirida. Onde há luz a escuridão não campeia”. Fez uma pausa para concluir: “Para isto serve o conhecimento adquirido. Nada mais”.

Eu quis saber como aplicar aquela teoria à prática. Ele esclareceu: “As virtudes nos conduzem pelo Caminho. Nelas, o verdadeiro poder para acender a luz. Contudo, saber usá-las têm os seus mistérios. Nem tudo que reluz é luz”.

Indaguei o que ele queria dizer com aquela última frase. Li Tzu esclareceu: “O mundo está repleto de armas, nomenclatura utilizada por Lao Tsé no código poético do Tao Te Ching. Não falava daquelas feitas com aço que tanta destruição provocam, ele se referia àquelas que, embora não atinjam o corpo, dilaceram a alma; de todos os envolvidos, de diferentes maneiras. Falava da intriga, discórdia, maledicência, sarcasmo, desfaçatez, mentira, fraude, opressão, subjugação e humilhação de um indivíduo por outro. Em camada mais subterrânea, aquém e além das palavras, estão os maus pensamentos e emoções densas, como a mágoa, a intolerância e a irritação. Todos trazemos estas armas no alforje; todos as temos à disposição. Quando a usamos, mesmo sem conseguir atingir aqueles que nos incomodam, inevitavelmente seremos alcançados pelos seus efeitos, como um veneno que contamina aquele que o produz, dissemina ou conserva. Todo cuidado é pouco. Contudo, ninguém pode reclamar por corroer o próprio destino”. 

O mestre taoísta prosseguiu na explicação: “Tais armas nos arrastam à escuridão existencial. Elas surgem em razão de não sabermos a diferença entre o brilho e a luz. O avarento se desculpa sob a alegação de estar sendo precavido para o futuro; o orgulhoso alega resguardar a sua honra, o ganancioso acredita ter encontrado o segredo da felicidade. Desperdiçamos os conhecimentos adquiridos por não deixar que nossos pensamentos e escolhas fluam pelo lado esquerdo”. Interrompi. Lado esquerdo, como assim? Falei não ter entendido. Li Tzu sorriu e explicou: “O coração fica do lado esquerdo. O amor é a diferença; sempre será. O detalhe que nos faz apaixonar pelas virtudes; inexiste virtude sem amor; todas as virtudes são derivativas do amor. Sem exceção. Quando separamos a inteligência do amor, perdemos a sabedoria; optamos pelo lado sombrio da existência e nos emaranhamos em conflitos pelo mundo em dias agoniantes. A leveza se afasta; viver se torna uma tarefa inglória”.

Li Tzu se levantou para pegar o bule de ferro fundido que mantinha o alecrim em infusão. Serviu-nos o chá. Pedi para prosseguir com a explicação. Ele assim o fez: “Trazemos o céu e o inferno dentro da gente. Escolher em qual faremos morada se define na simples escolha, feita a cada instante, entre sombras e virtudes. Luz e escuridão podem se alternar de um momento para outro, modificando o direcionamento e a intensidade da força, assim como a capacidade de equilíbrio diante das mais complicadas situações”. 

Bebeu um gole e disse: “Distante do amor, o orgulho, a vaidade, a ganância, o vitimismo e o ciúme encontrarão todas as justificativas racionais para se movimentarem dentro da gente. Se deixarmos, tomam o controle da aldeia e fundam um império. Longe do coração, criaremos as motivações tortuosas para fundamentar o uso das armas a que Lao Tsé se referia. Por efeito lógico, as armas sustentam os conflitos antigos e fazem surgir os novos. A vida se torna uma guerra sem fim. Ainda que haja vitórias, serão de aparência e superfície. Restarão estrago, destruição e escuridão. Então, mais e maiores problemas, a depender do padrão escolhido para lidar com as dificuldades. Nem uma reclamação é cabível para quem perece diante das criaturas que gerou e alimentou”.

Comentei que o mundo era muito complicado. Ele ponderou: “O mundo nunca será do jeito que a gente quer. Ainda bem, pois não haveria estímulo à evolução. Evoluir é descontruir medos e desmanchar sofrimentos. Somente assim conseguiremos amar mais e melhor. A magia, o encanto e as virtudes têm as suas sementes no amor”. Bebeu mais um gole de chá e alertou: “Não menospreze a escuridão, não dê as costas para o mal. Conheça-o na intimidade, até porque ele habita em suas entranhas. Aprenda todos os truques e subterfúgios das sombras, como maneira de não se tornar algoz e vítima de si mesmo. O único e eficiente método é prestando atenção em suas ideias e emoções. Haverá material suficiente para a perfeita compreensão. Somente então poderemos murar a porta do mal que também nos habita, atinge e disseminamos no mundo”. Em seguida, me lembrou: “O amor não é fruto da ingenuidade. O desconhecimento sobre quem somos é imaturidade e ignorância, condições que nos tornam presas fáceis para as sombras; sejam as nossas, sejam as do mundo. A pureza é uma virtude valiosa, não por desconhecer o mal, mas por estar livre dele. Um atributo daqueles que já se conhecem em detalhes, sabem que poderiam fazer uso do mal para as suas conquistas, mas por entenderem que as vitórias significativas e profundas precisam estar pautadas na luz, jamais se aproveitam de tal prerrogativa e nunca negociam com esse nefasto interlocutor. Sabem não haver luz sem a presença do amor. O sábio usa o seu conhecimento sobre o mal para não permitir que em suas escolhas restem qualquer contaminação. Do contrário, se perderá em si mesmo”.  

Questionei se a diferença entre o brilho e a luz se caracterizava pela presença do amor em nossas escolhas. Li Tzu respondeu: “De maneira resumida, sim. Contudo, se quisermos ampliar e aprofundar o conhecimento, veremos que o amor se propaga em luz. As virtudes são as mil formas de amar, mas trazem consigo um poderoso elemento, a sabedoria. Perceba que a humildade, a simplicidade, a compaixão, a delicadeza, a sinceridade, a honestidade, a justiça, a pureza, a firmeza, a mansidão, a sensatez, a misericórdia e a fé não apenas tornam o indivíduo mais amoroso, mas formam os pilares da atuação do sábio como mecanismo para conter o orgulho, a vaidade, a ganância, entre muitas outras sombras. Ele as ilumina através do esforço diário na aplicação das virtudes em todas as situações vividas, até que se tornem partes indissociáveis ao seu viver. A relação entre amor e luz é simbiótica. Aquele que leva luz às próprias sombras ilumina a si mesmo e reverbera amor no mundo”.

Esvaziou a xícara e concluiu: “O brilho ocorre com a utilização das armas, ou seja, pela predominância das sombras nas conquistas pessoais. Casos nos quais as vitórias se caracterizam pela predominância da nossa vontade, desejo ou interesse sobre alguém. Significa que uma pessoa foi subjugada, coagida ou humilhada para que outra alcance o objetivo almejado. Uma vitória, muitos dirão. No entanto, o clarão repentino e transitório percebido nestes momentos não passa de uma comemoração vil e vã das sombras em festa de curtíssima duração.  Não existe poder em se dominar os outros enquanto se é dominado pelas próprias sombras. Cada vitória será celebrada como quem presencia o próprio funeral. Muito brilho, nenhuma luz. O amor foi derrotado”. 

            Franziu as sobrancelhas e finalizou: “A luz se caracteriza pela superação das próprias dificuldades, verdadeiramente possível quando se faz uso das virtudes como instrumentos de conquistas. Você não destruiu o problema, mas o descontruiu. Então, venceu a si mesmo. Sem qualquer preocupação em se sobrepor a ninguém, o problema foi solucionado por você ter se tornado uma pessoa diferente e melhor. Mudaram as lentes, os filtros, o jeito de ser e viver. Não impôs, não convenceu nem obrigou a ninguém. Apenas se permitiu agir pelo viés da luz. Fez o que cabia, semeou o amor e seguiu em frente com a leveza dos sábios. Tudo aquilo que vale a pena carregar não pesa. Ainda que muitos não o entendam nem queiram lhe acompanhar. Dominar as sombras pessoais é se consagrar na luz. Um poder infinito por aprofundar o perfeito equilíbrio e ampliar a autêntica força. O amor reverberará em sinfonia pelo mundo. A luz se propagará até depois da última curva do universo”. 

Fomos interrompidos pela chegada dos alunos para as aulas, que sempre começavam com uma sessão de meditação. Li Tzu abriu um livro do Tao Te Ching que estava sobre o armário da cozinha, selecionou uma página e sugeriu: “Ao invés de meditar, estude o poema que abordaremos na aula de hoje”, e foi ao encontro da turma.

A só, verifiquei se tratar do poema trinta e um: 

“As armas causam medo e destruição.

Quem segue o Tao não as usa.

Em tempos de paz,

O lugar de honra fica à esquerda do príncipe.

Em tempos de guerra, à direita.

As armas são instrumentos nefastos.

O sábio as utiliza apenas para defesa.

Ele prima pela pureza.

Quem se alegra com as armas,

Acredita que exista vitória na morte.

Assim, toda vitória equivale a um funeral.”

Sorri pelo encanto inusitado da vida. Sem me dar conta, a aula tinha acontecido no amanhecer daquele dia. Um valioso conhecimento oferecido em um simples bate-papo na cozinha regado a chá de alecrim. Os sábios se fazem imperceptíveis pela suavidade com que compartilham a sua riqueza.

Discussões — 5 Respostas

  • Id Correia Amorim 3 de abril de 2021 on 16:47

    Aprendizados únicos que nos fazem aprender a enxergar de ângulos diferentes, ângulos de sabedoria e nada imediatista, como habitualmente fazemos.
    Pura experiência que transcende qualquer tipo de ato visto do ângulo que estamos acostumados a observar.
    Precisamos nos trabalhar nesse sentido.
    Texto perfeito

  • Sílvia Regina Pires Vieira Cordeiro 11 de março de 2021 on 09:53

    Bom dia! Não conhecia a página. Já salvei em “Favoritos”. Maravilhoso. É o segundo texto que leio. Vou ler todos.

  • Viviane Barbosa 9 de março de 2021 on 10:32

    Bom diiaaa de luz e gratidão à TODOS nós.

    Sem palavras para agradecer por esse texto, à dias à intuição dizendo para eu ler, entendi porque e estou imensamente grata.

    Muita luz e paz em nossa travessia interior, para que possamos de fato sermos luz.

    Ahooo!

  • Terumi 8 de março de 2021 on 22:55

    Gratidão 🙏

  • Fernando 4 de março de 2021 on 12:14

    Gratidão profunda e sem fim…