A maneira como Deus conversa conosco

Esta história aconteceu há muito tempo. Eu estava no meu primeiro ciclo de estudos na Ordem. Minha vida parecia desabar um pouco mais a cada dia, como um prédio em ruínas que despenca seus tijolos lentamente sob o efeito do vento frio das tardes de um inverno sem fim. O casamento tinha acabado, a profissão não mais me satisfazia. Ninguém me dizia as palavras que eu queria ouvir. A insônia me era a companheira de todas noites; ansiolíticos haviam se tornado temperos indispensáveis ao jantar. A vida não tinha mais sabor. Eu precisava falar com Deus; somente Ele poderia me resgatar do abismo escuro que me devorava. Falei isto ao Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo do mosteiro, que me olhou com doce compaixão e disse: “Ainda vai demorar para que aconteça. Há muitos muros que o impedem de conversar com Ele. Não que Ele não lhe diga todas as coisas que você precisa saber, mas porque você não consegue escutá-lo”. Falei que aquele argumento me trazia a sensação de culpa, pois a impossibilidade ocorria por incompetência minha. Não me parecia justo; eu precisava tanto quanto qualquer outra pessoa. Sem perder a serenidade, o bom monge me corrigiu: “Nesse caso, incompetência não significa incapacidade, mas falta de preparo. Assim como não se consegue cozinhar antes de saber usar o fogo. Nada que qualquer pessoa não possa aprender se tiver determinação”. Argumentei que eu não poderia esperar. Era a minha última esperança para que não desistisse de Deus. Acrescentei que havia honestidade nas minhas palavras. O Velho fez sim com a cabeça e acrescentou: “Eu sei. Contudo, ninguém pode colocá-lo em um lugar onde você não está pronto para ficar. Não que falte vontade; a questão é que inexistirá entendimento. Apenas você pode se colocar diante Dele; para isto, terá de chegar lá com a próprias pernas. Não há outro jeito”. Prometi que me dedicaria ao máximo aos estudos e exercitaria a fé. Enfim, faria toda a preparação necessária. Eu estava disposto a agilizar o processo. O Velho manteve a serenidade: “Não há atalhos no Caminho; é impossível pular etapas. A evolução não dá saltos; se faz necessário iluminar o chão para saber onde colocar os pés. Um de cada vez, sem pressa. O entendimento é lento como uma sopa que precisa arder em fogo brando para depurar as impurezas e os excessos até restar apenas a essência. O fogo alto assa por fora e deixa cru o interior, restando muito desperdício. Haverá muitos enganos e quedas graves. Algumas difíceis de se levantar”.

Questionei se as impurezas a que ele se referia eram os erros cometidos no passado. Falei que eu estava sinceramente arrependido de todos eles. O bom monge franziu as sobrancelhas e disse com firmeza: “Admitir os equívocos, apesar de se tratar de uma atitude nobre por sua humildade, somente se completará em perdão se entendermos as verdadeiras motivações que nos levaram àqueles comportamentos e escolhas. Além do sincero compromisso por constantes aperfeiçoamentos no nosso jeito de ser e viver. Isto evitará que tornem a se repetir. Enquanto não acontecer, ficamos impedidos de avançar no Caminho”.

Fez uma pausa antes de prosseguir: “Acredite, esse processo possui camadas tão profundas que costuma levar bastante tempo até que se complete. Faz-se indispensável descortinar uma a uma; sem pressa e sem medo. Somente então, ao derrubar todas as paredes que nos impedem de descobrir quem não somos, estaremos prontos para as inovações existenciais. Um lugar sagrado onde a voz de Deus se faz audível”. Comentei que o tempo era um mestre. O Velho tornou a me corrigir com doçura: “O tempo nunca será uma solução nele mesmo. O tempo é tão e somente uma estrada. Há quem o percorra com atenção e respeito, quando então o tempo não mais será medido pelos dias, mas pelas transformações realizadas no âmago de si mesmo. Isto refletirá a maneira pela qual passaremos a andar pelo mundo; apesar dos desafios, não faltarão o perfume e o colorido das flores. Contudo, enquanto nos negarmos a entender essa estrada, evitaremos os desafios e o tempo continuará a se apresentar em horas. Não restará mais do que a aridez do deserto em nossos rastros”. 

O Velho pediu licença, pois precisava se preparar para as aulas do dia seguinte, e se foi. Passei a tarde pensando naquela conversa sem conseguir chegar a nenhuma conclusão. Foi uma noite sem sono. A transformação do ser no viver é o elixir da alma, escrito em uma pequena placa em um dos corredores que dava acesso aos quartos, não passava de um amontoado de palavras vazias.  

Antes de amanhecer, decidi ir embora. O mosteiro é uma enganação. A vida não tem sentido, é só sofrimento e vazio; uns são abençoados e têm tudo, outros, como eu, estão amaldiçoados e trazem a marca do abandono, dizia para mim mesmo, enfurnado em lamentos, como quem saboreia a própria dor. Fui embora sem me despedir. 

Quando descia pela estrada estreita que serpenteava um enorme desfiladeiro rumo à pequena cidade que ficava no sopé da montanha, fui despertado por uma voz com a intensidade de um murmúrio, rogando por ajuda. Deixei os meus olhos se acostumarem à penumbra da madrugada e pude ver, ao longe, um corpo pendurado em uma árvore.  

Sem hesitar, me embrenhei pelo mato até o local onde uma mulher tinha sido salva do próprio desespero. Ao pular do penhasco em tentativa de suicídio, o capuz do casaco ficara preso ao galho de uma árvore, impedindo a progressão da queda. Ajudei-a a descer. Ela me abraçou em prantos. Um choro convulsivo a impedia de falar. Levei-a de volta à estrada. Não demorou, o caminhão que levava leite, frutas e verduras parou para nos dar uma carona. De volta ao mosteiro, fomos prontamente atendidos pelos monges. O Velho pediu que um grupo de monjas ficassem encarregadas de dar banho, trocar a roupa, alimentar e cuidar dos ferimentos da Valentina, como a mulher, ainda jovem, se chamava. No corpo havia apenas algumas pequenas escoriações, mas a alma trazia uma ferida enorme, aberta havia muito tempo e que sangrava muito. 

Aquilo me fez não mais querer ir embora. Algo, ainda inexplicável para mim naquele momento, me despertou interesse pelo desenrolar daquele drama, como se a luz que iluminaria a mulher pudesse me ajudar a sair da escuridão que eu me encontrava. O Velho a deixou descansar por dois dias, enquanto recebia os cuidados das monjas da Ordem. Quando decidiu conversar com a Valentina, não à toa, me convidou para acompanhá-lo.

Em linhas gerais, a história da Valentina era comum a muitas outras pessoas. Tivera uma infância e adolescência de forte repressão por parte dos pais, que sempre a criticaram por não realizar as tarefas de acordo com a expectativa deles. Por mais que se esforçasse, nunca conseguia agradá-los. Casou-se cedo na tentativa de encontrar no marido a compreensão e a aprovação que nunca conseguira antes. No entanto, as cenas da vida adulta repetiam a reprovação que sentira desde sempre, sem jamais conseguir satisfazer o marido, tal e qual acontecera enquanto vivera com os pais. Mergulhara em uma espiral descendente de repulsa por quem ela era. Havia ausência absoluta de autoestima. Estava convencida que não servia para nada e o mundo não era um bom lugar para se viver.

Com a enorme paciência oriunda da sua infinita compaixão, o Velho disse com a voz serena, porém, firme: “Não temos como impedir os outros de nos depreciar, mas devemos nos proteger das palavras que nos maltratam. Para tanto, basta entender que essas palavras, na maioria das vezes, costumam revelar a bagunça do coração de quem as proferiu”. Fez uma pausa e acrescentou: “Se forem justas, depois de descartar qualquer viés de agressividade que envenene o seu conteúdo para que não reste nenhuma mágoa ou sofrimento, use-as para se aprimorar”. Valentina alegou que, de fato, não conseguia executar bem algumas tarefas. Contudo, em outras, se considerava muito boa. O monge ponderou: “Ninguém consegue realizar com mestria todas as funções. Sempre haverá serviços que executaremos melhor que outros. É uma questão de gosto e de dom. Isto serve para você, para mim e para todos”. Fez uma pausa para salientar um aspecto importante: “Precisamos ter cuidado para que as críticas não sirvam de instrumento de dominação. Isto acontece quando nos permitimos viver na dependência pela aprovação daqueles que fazem pouco da gente. Quando ocorre, nos tornamos reféns de elogios que nunca chegam. Isto cria a nefasta relação senhor-escravo que deve ser evitada a todo custo”.

Prosseguiu: “Não aguarde pela quitação de quem você não é devedora. Ninguém tem a obrigação de satisfazer as expectativas de ninguém. Nenhuma relação saudável faz surgir a figura do credor. Amor não gera dívida. Casamento, relações entre pais e filhos, amizade, favores e caridade também não, pois não se constroem através de empréstimos afetivos, mas por amor. Tenha sincera gratidão por todo bem que lhe fizeram e, sempre que possível, retribua no expoente das suas possibilidades, mesmo que nunca peçam. No entanto, jamais permita que a sua gratidão seja manipulada a ponto de se tornar um tributo de difícil ou impossível quitação, desvirtuando o bem para a penumbra da subjugação. Não se permita viver na dependência da aprovação ou do elogio de quem quer que seja. Lembre que a sua alegria e felicidade não podem ficar nas mãos de qualquer outra pessoa que não sejam as suas. O amor-próprio nasce da percepção da evolução individual em movimento. Portanto, se esforce sempre na busca pelo aprimoramento pessoal e sinta a leveza dos dias proporcionada pelo crescimento das suas asas. Este é o embrião de todas as plenitudes”.

Valentina fez não com a cabeça. Disse que o bom monge não estava entendendo. A história dela não terminava na rejeição das pessoas mais próximas. O prolongamento tinha um detalhe pavoroso: “O meu marido pediu o divórcio para se casar com a minha melhor amiga”. Fez uma pausa e confessou: “Eu tenho muita raiva dentro de mim”. Em seguida, questionou: “Como os dias podem se tornar suaves para quem odeia tanto?”. Aos prantos, admitiu: “Eu não queria sentir raiva, pois, sei que me faz mal, mas ela não vai embora. Não consigo expulsá-la de mim”. 

O Velho se virou para mim, que assistia como um aprendiz atento, e perguntou qual orientação eu daria para Valentina se libertar do ódio que a aprisionava. Surpreso por ser convidado a participar, sugeri que ela pedisse a Deus a ajuda necessária para se livrar daquela nefasta emoção. Como se já tivesse ouvido aquela sugestão várias vezes, Valentina falou já ter feito até promessa para não mais sentir tanto ódio e lamentou: “Deus não me ouve”.

O bom monge a corrigiu: “Ele a escuta. Contudo, se fizer com que você se livre da raiva somente pelo fato de estar sofrendo por causa dela, Deus não a ajudaria com a amplitude e profundidade que a situação oferece”. Fez uma pausa como se escolhesse as palavras adequadas para o exato entendimento e disse: “Se Ele a atendesse de imediato, mais à frente, diante de outras contrariedades, você voltaria a sentir raiva. Então, bastaria tornar a pedir que Ele a livrasse do ódio mais uma vez. Depois de novo e de novo, em uma sequência sem fim. Uma dependência, ou mesmo um vício, que em nada ajudaria em sua evolução. Você continuaria a ser uma pessoa desconhecida para si mesmo, desperdiçando a oportunidade de aprender a acender a própria luz como maneira de afastar definitivamente a escuridão dentro de você”.

A mulher o interrompeu. Ela soluçou com o rosto molhado de lágrimas e tentou justificar o ato de desistir da vida: “Deus não gosta de quem sente raiva. Ele não gosta de mim. Eu não sou uma boa pessoa”.

O Velho começou a revelar a beleza da sua alma e a sua desconcertante maneira de pensar. O bom monge disse com doçura: “Isso é um equívoco. Embora a raiva seja uma emoção que precise de luz e transmutação, é justamente através da raiva que Deus a fará chegar até Ele”. 

Valentina disse não entender aquele raciocínio. O bom monge esclareceu: “Você precisará despertar dentro de si um amor ainda desconhecido para transformar essa raiva em compaixão. Será necessário entender que qualquer pessoa vive conforme o alcance da própria consciência e no limite do amor que já possui. Não há como ninguém ir além disto. Isto nos permitirá compreender as nossas incapacidades momentâneas, nos perdoar e iniciar uma jornada de inovações existenciais, sem peso nem culpa. É o início de uma relação digna e livre conosco mesmo. Igual percepção e sensibilidade se fará presente em relação às dificuldades comportamentais de outras pessoas do nosso convívio, na justa compreensão que não podemos exigir de ninguém uma perfeição que não temos para oferecer. Será o começo de uma relação digna e livre com o mundo. Esta é a raiz de todos os perdões”. 

Deixou que ela alocasse aquelas palavras e completou o raciocínio: “Entretanto, fique atenta para que a compaixão não a deixe esquecer do respeito. Lembre, uma virtude nunca anula outra. O respeito por outra pessoa só existe quando há respeito por si mesmo; do contrário, é apenas medo. O respeito é a fronteira demarcatória que você deve impor ao mundo, ele delimita o espaço sagrado de uma pessoa. Não cobrem de mim aquilo que não devo, afirme sem qualquer resquício de agressividade, mas com toda firmeza, coragem, clareza e serenidade que a situação exigir. Essa autoconsciência nos torna fortes e equilibrados. Para tanto, há que se ter amor-próprio. O ciclo se inicia com o florescimento do amor dentro você e se encerra com a frutificação deste amor no mundo. O amor derruba os muros que nos impedem de ouvir a voz de Deus. Então, o diálogo com Deus ficará mais intenso do que nunca. Você ouvira a Sua voz com uma clareza estonteante e ele se fará presente no mundo através de você”. Fez uma pausa e finalizou: “E tudo isso só foi possível por causa da sua raiva, a partir do momento que você decidiu curá-la de dentro para fora ao invés de esperar indefinidamente por uma intervenção que, embora lhe poupasse esforço, não deixaria qualquer resquício de desenvolvimento. Seria um método ingênuo e sem qualquer atributo evolutivo”.

Ele prosseguiu na explicação: “Sentir raiva é muito ruim e é a origem de diversas doenças psicossomáticas. Para se libertar dela se faz indispensável que você entenda as suas causas. Os tolos teimam em meramente a expulsar o ódio das suas entranhas. Apesar das boas intenções, estão fadados ao insucesso. Faz-se indispensável que se compreenda as razões pelas quais ela o dominou. Neste momento, a oração e a meditação se farão úteis, não porque expulsarão a sua raiva, mas pela calma que trarão ao seu coração e a clareza que será permitida à sua mente. Somente então será possível iniciar a reversão do processo, fazendo o ódio murchar até desparecer para sempre. Para descontruir a raiva, ou qualquer outra emoção densa, se faz imprescindível saber como ela se construiu dentro da gente; suas razões, motivos e fundamentos. É preciso desmontar os seus alicerces até que não reste nenhuma ruína. Não se deve erguer um lar sobre um piso de entulhos. Somente depois de devidamente limpo, esse terreno dará lugar para a moradia de sentimentos saudáveis e pensamentos claros, mesmo na lembrança de situações complicadas. As memórias, antes tristes, se tornam fontes de instrução. A compaixão desperta o perdão e inocula o ódio. Apenas ao educar as emoções nos tornamos donos de nós mesmos. Não existe liberdade nem dignidade enquanto os pensamentos estiverem amarrados às paixões insalubres”.

Valentina quis saber se havia outro jeito para tratar as emoções que tanto mal acarretavam. O Velho esclareceu: “Aqueles que acreditam que conseguiram se livrar das mágoas sem entenderem as suas causas e motivos, em verdade, apenas as esconderam como quem varre a sujeira para debaixo do tapete. Não a veem, mas ela continua ali. Na primeira ventania, o tapete será levantado e o pó contaminará a casa. Envenenado, o coração bagunçará a mente. Você continuará um escravo do ódio, embora acredite que a justificativa pela sua presença seja por culpa dos outros. Uma mentira que contamos para nós mesmos, pois não podemos nos deixar adoecer em razão do comportamento alheio. As doenças mais perigosas são aquelas que disfarçam os sintomas”. 

Fez uma pausa para concluir com uma sequência de perguntas: “Entende que Deus escuta a todos? Compreende que a Sua linguagem é a mais sábia por nos ensinar como resolver os problemas? A mais amorosa por nos conduzir a cura absoluta por nos libertar de qualquer dependência? A mais justa por deixar que cada indivíduo caminhe na medida da consciência alcançada, do amor que estiver disposto a conquistar e do esforço que fizer para se alinhar à luz?”.

Olhou para mim de soslaio e murmurou como quem conta um segredo: “Se quiser ouvir a Deus, comece por derrubar os seus muros emocionais que impedem a Sua voz de chegar ao seu coração. Se você não escuta as Suas palavras, significa que ainda há paredes que atrapalham a conversa”.

O Velho pediu licença, pois precisava voltar aos seus afazeres, se levantou e saiu. Ao perceber uma lágrima rebelde em meu rosto, Valentina se mostrou preocupada: “Eu vou ficar bem”, me consolou. Fui honesto: “Choro por mim”, confessei. “Ao ouvir a sua conversa com o Velho, foi como se eu visse a minha imagem refletida em um espelho. A causa de todos os meus sofrimentos foi que sempre esperei pela aprovação das pessoas que me eram importantes. Como nunca aconteceu, sinto como se faltasse um pedaço de mim. Fico na escuridão”. Ouvir a história da Valentina e as explicações do Velho enquanto desfrutava da quietude do mosteiro parecia me mostrar as portas por onde eu teria de atravessar. Elas sempre estiveram ali, mas eu não as enxergava. “Assim deve ser a voz de Deus”, murmurei. Em seguida, concluí o raciocínio que se mostrava claro naquele instante: “No entanto, este pedaço de mim não pode estar nas mãos de ninguém, pois é parte de quem eu sou. Do contrário, estarei entregando aos outros o poder sobre a minha felicidade. Nunca terei paz; a incompletude é causa de todos os conflitos, sejam internos, sejam externos. A minha aprovação me basta. As minhas contas eu prestarei ao Tempo, um guardião sagrado à serviço da Luz. A ninguém mais”.

Uma vela acende a outra sem prejuízo da própria luz, estava escrito em outra placa, dentre tantas espalhadas pelos corredores do mosteiro.

Muitos anos se passaram sem que eu tivesse encontrado com a Valentina. Sabia que ela se tornara monja da Ordem, cursara engenharia e escrevia poesias. “Sou poetisa por dom e engenheira por profissão”, ela dizia. Até que os nossos períodos de estudos coincidiram. O reencontro foi marcado por intensa alegria. A vida nos colocara frente a frente em um momento no qual, cada um ao seu jeito, ambos pensavam em desistir da luz. Havia um mútuo resgate que merecia uma comemoração. 

Fomos para a cantina do mosteiro celebrar com duas canecas de café. Eu tinha alcançado alguns avanços e quis saber como ela havia pacificado a enorme raiva que sentia naquela época. Valentina confessou: “Não foi fácil”. Depois, explicou: “Algumas pessoas tinham muito poder sobre a minha felicidade. Isto gerava desequilíbrio e fragilidade. Qualquer pessoa só tem sobre nós o poder que concedemos a ela. Quando acontece, conduz à abusos emocionais. Sem notar, era exatamente isto que me fazia sentir tanta raiva”. 

Bebeu um gole de café e prosseguiu: “No entanto, não posso reclamar se eu dei causa aos fatos ao conceder tamanha permissão indevida. A solução, embora simples, necessitava de coragem: impor limites. Assim, resgatar o poder sobre a minha própria vida. Uma atitude apenas possível quando entendi não mais necessitar da aprovação de ninguém para viver a alegria dos meus dias. Para tanto, bastava a coerência com os princípios e valores que me norteavam para trazer de volta a força e o equilíbrio perdidos. Compreendi que a felicidade e a paz estarão sempre ao alcance de uma escolha corajosa, aquela que me leva a enfrentar a mim mesmo e revelar ao mundo a verdade de quem eu sou, as minhas conquistas e dificuldades, sem fugas nem mentiras”. Piscou um olho como quem conta um segredo e disse: “Satisfações devo apenas ao Tempo, o Guardião do Caminho. Ninguém mais tem competência para me julgar. Somente então consegui me perdoar. É libertador”.

Eu quis saber como se sentia em relação ao ex-marido e a amiga com quem ele se casou. Valentina brincou ao falar com os dentes cerrados: “Não apenas se casaram, mas tiveram dois filhos lindos. Parecem formar uma família harmoniosa”. Deu um sorriso maroto e confessou: “Voltei a sentir ódio quando soube disso. No entanto, eu tinha aprendido a lidar com esta emoção. Desta vez, não o neguei nem o recalquei. Abracei ódio como quem cuida de um filho rebelde e o eduquei. Disse à raiva que algumas pessoas entram em nossas vidas apenas para nos ensinar alguma lição e se vão, pois cumpriram com a sua função. Eles tinham me ensinado a iluminar o meu ódio e a transformá-lo em compaixão; isto me libertava das prisões impostas pelas paixões avassaladoras. Sou sinceramente grata a eles por isto. Aprendi a me perdoar também, pois sempre resta a sensação espúria de que perdemos algo por termos sido incompetentes. Isto faz com que tenhamos raiva de nós mesmos. Então, nos açoitamos. Por vezes, achamos desmerecer o mel da vida por sermos incapazes. Então, nos escondemos de nós mesmos e sentimos vergonha de quem somos. Contudo, nem todas as pessoas ou situações chegam para ficar, pois são como pontos de conexão a nos direcionar para outra direção da existência, um destino que nos mostrará a magia impensada dos dias. Para tanto, precisamos estar abertos e disponíveis ao inusitado do Caminho. Perdoe, confie em si e siga em frente. Tão e somente. Dessa maneira, o perdão se torna uma fantástica ferramenta de vida, acessível para todas as ocasiões, como se fosse capaz de transformar muros intransponíveis em simples riscos de giz no chão”.

Valentina esclareceu: “A vontade sincera pela felicidade do casal, fez com que a minha felicidade regressasse e a dignidade alicerçasse de maneira ainda mais robusta os pilares da força e do equilíbrio em mim. A paz encontrou a morada definitiva em meu coração”. Bebeu mais um gole de café e contou: “Ao atravessar a porta que sempre esteve a minha espera, mas até então me era invisível, um novo caminho se apresentou”. Deu um sorriso encantador, mostrou uma aliança no dedo anular da mão direita e revelou: “Conheci uma pessoa na empresa em que trabalho. Nunca me senti tão bem na vida”. Brinquei dizendo que tudo aquilo merecia uma poesia. Ela não parava de me surpreender: “Fiz várias; tantas que virou um livro. O lançamento será no final do ano, logo após a celebração do casamento. Tudo em um único cerimonial”. Em seguida, acrescentou: “A vida se torna fantástica, em todos os sentidos desta palavra, quando entendemos o seu ritmo e a convidamos para bailar”. 

Perguntei sobre os seus pais, com os quais ela também enfrentou muitas dificuldades. Valentina disse: “Eles envelheceram; começaram a precisar de ajuda e cuidados crescentes. Como meus irmãos se recusaram a assumir qualquer compromisso, trouxe-os para morar perto de mim. Posso cuidar deles e dar o amor que durante toda a vida se recusaram a receber. Foi outro valioso resgate permitido pelo perdão. Temos uma convivência maravilhosa, existe sempre alegria e carinho em nosso convívio. A vida deu um jeito para que pudéssemos nos alinhar e a aprender mais sobre o amor. Trata-se de uma oportunidade fantástica”. Bebeu mais um gole de café e acrescentou: “Meus irmãos acreditam que cuido dos meus pais por sentir culpa ou algo parecido”. Sorriu, deu de ombros e constatou: “Eles nada sabem sobre o amor”.

Provoquei Valentina ao questioná-la se ainda pensava que Deus não a ouvia, como havia dito quando nos conhecemos. Ela sorriu e finalizou: “Não apenas me ouve, mas eu o escuto com maior clareza a cada dia. A Sua voz está muito perto; ela está em mim”.

Neste instante, o Velho entrou na cantina. Sorriu aos nos ver e se sentou à mesa conosco. Contamos sobre a conversa que estávamos tendo. O bom monge ouviu sem interromper. Ao final, comentou: “Uma transformação que somente se mostrou possível quando a raiva a fez entender todo o poder do amor. O verdadeiro sentido das sombras é nos ensinar sobre o valor da luz. Os nossos sofrimentos são como mapas que mostram onde o tesouro da vida está enterrado. Entender o significado de cada um desses mapas é compreender a maneira como Deus conversa conosco”.

Em seguida, disse ter outros compromissos. Pediu licença e se foi. Vimos ele se afastar com os seus passos lentos, porém, firmes.

Discussões — 9 Respostas

  • Bruno 17 de abril de 2021 on 17:26

    Agradeço o belo texto!

  • marcia 17 de abril de 2021 on 16:10

    Muito obrigada !

  • Joane 24 de março de 2021 on 07:05

    Passei um tempo sofrendo por achar a precisava da aprovação das pessoas, ser leitora do Yoskhaz há quase quarto anos tem sido um presente por me ensinar abraçar as sombras e poder iluminar onde existe escuridão em mim, um obrigada sem tamanho …

  • Leticia Fonseca 22 de março de 2021 on 10:15

    Texto incrível. Me vejo em cada texto. Gratidão.

  • SCHWEITZER 19 de março de 2021 on 14:28

    Genial meu querido mestre e amigo. Nunca vi um texto tao rico de citacoes brilhantes e cheias de amor. Esta e uma estoria que levo fundo para dentro do meu coracao.

    Obrigado.

  • Rosana 18 de março de 2021 on 17:28

    “Os nossos sofrimentos são como mapas que mostram onde o tesouro da vida está enterrado. “ GRATIDÃO YOSKHAZ!

  • Terumi 18 de março de 2021 on 13:21

    Gratidão 🙏

  • Antonio soares 16 de março de 2021 on 14:25

    Obrigado por tanto!

  • Fernando 16 de março de 2021 on 12:48

    Com lágrimas doces e profundas, reforço minha gratidão, irmão das estrelas, gratidão profunda e sem fim…