Somos o legado da nossa herança

Esta história é prosseguimento da anterior, Relações superficiais. Klaus, um monge muito apreciado na Ordem, pelo cuidado que aparentava no trato com os outros. O Velho tinha me alertado que ele precisava de ajuda. Havia um problema oculto, fosse na sua timidez, fosse no fato de demonstrar que as pessoas eram importantes para ele, sem permitir que as relações se aprofundassem. De início, discordei. Depois, me dei conta que havia algo fora do lugar, apesar de ter sido incapaz de identificar o motivo. Percebi que a polidez do Klaus não alcançava o degrau da gentileza. A polidez se caracteriza pelos bons modos no trato pessoal; a gentileza é a virtude daqueles que, de maneira simples e sincera, em todos os seus atos e gestos, não somente em palavras, buscam fazer com que os outros se sintam bem e acolhidos. Como ensinava o Velho: “Amor sem compromisso é amor de superfície”. Quando falta amor transborda a dor. Como prólogo de uma ópera anunciada, certa noite, todos no mosteiro foram acordados por causa de uma música ensurdecedora oriunda do quarto do Klaus, uma pessoa ordeira e tranquila. Ao entrarem no cômodo, o encontraram desfalecido por causa de uma dose abusiva de ansiolíticos e antidepressivos ingeridos voluntariamente. Uma tentativa frustrada de suicídio. Todos no mosteiro se mostraram surpresos com tamanho desatino praticado por pessoa tão equilibrada e sensata como o Klaus. Em verdade, quase todos.

Após dois dias no hospital, Klaus não quis ir para casa. Pediu para retornar ao mosteiro. O Velho autorizou. Pediu-me para dividir o quarto com o Klaus nas próximas semanas. Antes, me chamou ao seu gabinete para alertar: “Seja delicado. Delicadeza é a virtude daqueles que não admitem provocar nenhum mal através dos seus atos, gestos e palavras, mesmo quando querem praticar o bem. Nos próximos dias, ele viverá um turbilhão de emoções. A polidez era o disfarce usado para que todos acreditassem que ele era o homem sensato e equilibrado que não conseguia ser. Ao mesmo tempo que sentirá vergonha pela fraqueza que foi exposta, haverá gratidão por estar vivo. Estas misturas de emoções e sentimentos, talvez o impulsionem a sair do porão escuro onde se escondeu do mundo por muito tempo. Os olhos do Klaus precisam se adequar à claridade. A luz e a verdade devem vir em gotas; se chegarem como uma avalanche, o sufocará. Eis a delicadeza necessária nesse momento. É hora de escutar muito e pontuar um pouco; jamais repreender. Ele não precisa de discursos sobre o certo e o errado, pois tem capacidade de discernimento. Ele precisa entender o ódio que o permeia. Para tanto, o passo primordial é aceitá-lo sem preconceitos. Esta foi a emoção que o motivou a tentar o suicídio. O ódio precisa ser iluminado para que reste desmanchado. Sem que ele perceba, o ajude a lidar com aquilo que o apavora. A partir daí, ele próprio descobrirá o caminho. É muito importante que ele encontre em si mesmo toda a força e equilíbrio que necessita. Ninguém caminha com os pés de ninguém”.

Não interrompi o bom monge. Nada disse, mas não acreditava que a atitude de Klaus tivesse o ódio como impulso. Pois, se assim fosse, outra pessoa seria o alvo, não ele próprio. No mais, embora eu tivesse notado algum desajuste no comportamento do Klaus, em nenhum momento percebi nele qualquer traço de ódio. O Velho tinha se enganado. 

Achei o Klaus melhor do imaginava encontrar. Deixei-o descansar. Apenas me coloquei ao seu lado. Com o passar das horas, ele mostrou a necessidade de conversar. Para o meu espanto, disse que todos os fatos que estavam escondidos no porão escuro precisavam ser trazidos à claridade da sala de visitas. As situações que o envergonhavam, como se fossem partes deformadas de si mesmo, clamavam por exposição na busca por entendimento e cura. Entendi que não era um ato de desespero. Isto fora a tentativa de suicídio. Agora, era uma atitude de admirável coragem, típica de quem não quer mais fugir de si mesmo. Na fuga nunca haverá dignidade, paz, liberdade, felicidade nem amor. Fugimos por medo. A vergonha é uma das expressões do medo. Medo que descubram que não somos quem mostramos ser.

Falou que necessitava colocar o próprio coração nas palmas das mãos para que pudesse examiná-lo por inteiro, sem enganos nem subterfúgios. Disse que tudo aquilo que nunca se permitira expor era também o que o oprimia como um adversário que nunca ousara enfrentar por se considerar incapaz de vencê-lo. Isto o tinha feito optar pela fuga. Ponderei que todos têm condições de superar as próprias dificuldades. Embora admitisse que precisava viver esta verdade, ele tinha dúvidas se conseguiria. Depois, confessou que a coação que sofria em razão do ódio que sentia, se tornara insuportável; era necessário se libertar. Como não conseguia lidar com o opressor, decidira por um fim a si mesmo como absurda ideia de libertação. Dias atrás, não enxergou outra saída. Embora não tivesse intenção de repetir gesto de tamanha insensatez, o sofrimento continuava insuportável. Sentia-se em um labirinto, do qual deseja sair, mas não sabia como fazer. Não tinha ideia de como agir depois que trouxesse à tona todos os fatos que o envergonhavam. “A vergonha é um cruel capataz”, admitiu. Queria, porém, não conseguia falar. Chamei o Velho.

“Embora ninguém possa oferecer a ninguém os objetos das suas verdadeiras conquistas, pois, além de imateriais, precisam ser alcançadas através de uma construção intrínseca no próprio ser, não lhe faltarão apoio e orientação para sair do lugar onde se encontra dentro de você mesmo. Você não está sozinho; ninguém nunca está. Sempre haverá ajuda; contudo, a parte que lhe cabe fazer, perfaz a arte da vida. Apenas pode ser feita por você”, disse o bom monge com a sua habitual voz em tom sereno. E continuou: “Todos os anos de estudo irão lhe ajudar muito. Ao lado do entendimento, o conhecimento será importante para fincar um dos pilares da sua reconstrução. O outro alicerce é o amor, seja por si mesmo, seja pela vida. Há muitos encantos e maravilhas em ambos. O gesto de alguns dias atrás mostrou as ruínas da destruição que você se impôs. O lado bom da situação é que você tem consciência disto e traz a firme vontade de se reerguer. Onde existe vontade há um caminho. Este é o movimento inicial para se libertar do opressor que o esmaga e tanto sofrimento causa. O ódio. Eu não tenho a menor dúvida quanto ao êxito desta empreitada. Apenas uma coisa pode impedi-lo de conseguir: a sua recusa em caminhar”. Dos olhos do Klaus emanaram um brilho diferente, uma luz que eu nunca vira. Então, arqueou os lábios em leve sorriso, como se a sua alma finalmente tivesse encontrado o acolhimento necessário para se regenerar.

A doçura movida pela genuína compaixão do Velho, fez com que o Klaus abrisse as portas do seu coração. Era uma história repleta de capítulos desafiadores. Em síntese, havia alguns anos, ele fora demitido do excelente emprego que tinha. Embora procurasse, não conseguiu uma colocação parecida, se vendo obrigado a aceitar cargo de menor importância e salário reduzido em outra empresa. Em ritmo diverso, ao longo desse tempo, a esposa escalou diversas funções na mesma empresa que o dispensara. Instalou-se uma dependência financeira que, mal dimensionada, se expandiu para se tornar uma dependência emocional. Sentia-se um fracassado e acreditava que este era também o olhar da esposa em relação a ele. A insegurança fixou residência dentro dele. Começou a desconfiar que esposa mantivesse relações extraconjugais por não mais se sentir atraída por um homem fraco e fracassado; passou a duvidar se seria o pai biológico dos seus filhos. Ele não tinha certeza de nada; a insegurança o corroía a cada minuto. Todos os dias. A insegurança é uma espécie de medo de menor tamanho, e quando não a enfrentamos, nos acostumamos a viver com ela; chegamos a acreditar que é normal e não causa nenhum mal. Ledo engano. A insegurança é como a maresia para quem mora à beira-mar; quando não cuidamos dela, ao nos darmos conta, tudo restará carcomido e enferrujado dentro de casa. Cada vez mais, as decisões angulares da família se concentraram na vontade da esposa. Aos poucos, perdera a voz e a opinião. Sentia-se esmagado. Tinha se anulado; era ele, mas não era ninguém. Não sabia como fazer para reequilibrar a relação nem como se regenerar. Não se achava capaz de renascer. Começou a sentir ódio. Tinha ódio de um mundo que considerava injusto; tinha ódio da vida pelas maldades que impunha às pessoas que, como ele, embora não fizessem mal a ninguém, sofriam muito. A mera ideia de alguém pudesse ser feliz e realizado, o inundava de ódio. Sentia-se apequenado. Não queria que ninguém soubesse que sentia tanto ódio nem que se olhava como um fracassado. Acreditava que podia se sustentar no orgulho; tinha a sua vaidade para se manter de pé. Almejava conquistar a si mesmo, pacificar as emoções e iluminar a consciência. Mas não sabia como fazer diante de uma realidade com dificuldades instransponíveis. Como na ficção tudo é possível, e aparentemente mais fácil e rápido de acontecer, escolheu pelas armadilhas do engano. Estava ciente do risco de que, em algum momento, seria uma presa frágil da tentação provocada pelos atalhos e pela mentira. Porém, não se deteve. Passou adorar aquele personagem amoroso, forte, sensato e equilibrado que inventara para si mesmo. O interesse inexistente sobre a vida dos colegas era parte importante do roteiro pela admiração que provocava. Apesar de rasos e insuficientes para torná-lo aquele homem que aparentava, era bom acreditar que, mesmo que diante de olhares despreparados para ver a verdade escondida por trás dos comportamentos encenados, ele se tornara um ideal de perfeição e depositário de muitos elogios. Tentou acreditar que não precisava da realidade. A ficção bastaria. As mentiras agradáveis são sedutoras. Azeitadas tentações. 

Como acreditava não ter forças para lutar contra o monstro que lhe devorava as entranhas, entendeu ter encontrado uma saída. No entanto, apesar da satisfação que encontrara no personagem, o ódio não parava de crescer silenciosamente. Klaus enganava a todos, mas não conseguia enganar a própria alma. O desconforto aumentava. Amava o personagem que inventara, mas desprezara o homem que se tornara. Odiava a verdade, as pessoas felizes, o mundo e a realidade que tinha. Sem se dar conta, começou odiar a si mesmo. Aquele quem verdadeiramente era. Quando o ódio ficou insuportável, não conseguiu conter a vontade crescente de se vingar de tudo e todos. Não havia encanto ou beleza em nada nem em ninguém. Como não podia explodir o mundo, decidiu se implodir. Usou-se como insensato objeto de vingança. Acreditou ter encontrado a solução final para o seu sofrimento implacável. Vingava-se do homem que genuinamente tinha se tornado; ou como era mais confortável acreditar, do homem que a vida lhe obrigara a  ser. Enganos para construir um raciocínio falacioso. Um erro comum.

Sem interromper, com a sua infinita paciência, o Velho ouviu o drama narrado pelo Klaus. Depois afirmou: “Somos os nossos próprios herdeiros. O legado de cada pessoa são as consequências das suas escolhas. Nada mais. Por isto, devemos agir com amor para que o amor seja sempre a nossa herança. Pode-se enganar a todos, mas é impossível fugir de si mesmo. Se a morte não é o fim, mas apenas uma transição, tampouco servirá de saída. Estaremos na nossa própria bagagem em qualquer viagem que façamos”. Com uma lágrima a revelar o seu sentimento naquele instante, Klaus confessou não ter sobrado nada de bom da sua vida. O Velho não permitiu mais enganos: “Errado. Você tem a si mesmo. Ao menos, se a reconstrução for uma vontade firme e sincera. É uma escolha possível, cabível somente a você”. Fez uma pausa para ressaltar: “Quem tem a si próprio tem o poder da vida nas mãos. Nada lhe faltará. Suficiente para iniciar o fantástico erguimento da grande obra, aquela na qual a alma usa o corpo para se manifestar em amor, dignidade, paz, liberdade e felicidade através das situações vividas todos os dias. Sem nenhuma mentira. Deixe-se encantar com os seus movimentos a cada momento. A hora de começar é sempre agora”. 

Naquele instante compreendi o Klaus. Vazio em si mesmo, lhe sobrava a polidez para ter a sensação de reconhecimento a admiração das pessoas. A fala mansa e o olhar firme serviam ao personagem do homem forte e equilibrado que, apesar de não existir, eram adequados ao arquétipo do sábio, um modelo comportamental que habita no inconsciente coletivo. Assim, ocultando a sensação de inferioridade que equivocadamente trouxe para si, se sentia em posição elevada. Só que esse degrau era uma ficção. Por estar em lugar que ainda não conquistara, em algum momento, despencaria. Inexoravelmente.

Klaus disse não saber como fazer para se reerguer. O Velho explicou: “É preciso trocar as lentes do ódio pelas do amor. Isto o permitirá substituir o preconceito e os condicionamentos mundanos pela sabedoria sagrada. Sagrado é tudo aquilo que nos torna pessoas melhores. Este é o segredo dos sábios; é também a estrada rumo às plenitudes”.

Naquele momento, assustava a ideia de voltar para casa. Não sabia como lidar com a esposa depois de admitir para si mesmo as desconfianças que o atormentavam. Questionava como seria o seu relacionamento com a família dali por diante. O Velho explicou: “Cada um está onde se coloca. Seja na escuridão, seja na luz. As condições financeiras em nada importam; o posicionamento ético faz toda a diferença. Posso não ter nada, mas ser dono de mim; então, serei por inteiro e nada de fundamental me faltará. Posso ter tudo, mas não ser dono de mim; então, nada serei e tudo me faltará”. Fez uma pausa para esclarecer: “Ser dono de si não significa um sujeito orgulhoso, vaidoso, arrogante, egoísta e repleto de enganos por se afastar da própria essência. Ser dono de si é um indivíduo humilde, simples e amoroso, coerente com a sua verdade, princípios e valores”.

Klaus quis saber como aplicar aquela teoria à prática. O Velho foi à raiz do problema: “O ódio surge do medo. Quando nos acreditamos incapazes, inferiorizados, impotentes diante de uma injustiça sofrida ou por não sabermos lidar com uma frustração, sentimos ódio. O ódio obstrui o livre-pensar. Então, não entendemos que é o medo de enfrentar a nós mesmos o único obstáculo que nos impede de seguir em frente. Restamos aprisionados por algo ou alguém que não conseguimos identificar com exatidão. No entanto, este alguém é cada um a si mesmo. Somente eu posso me impedir de prosseguir. Quando alguém tem tamanho poder foi porque eu o concedi. Ninguém mais”.

Fez uma breve pausa para que o Klaus pudesse alocar as ideias primordiais e prosseguiu: “A sensação de incapacidade, inferioridade, decepção e injustiça quando não elaborada para que seja descontruída, faz erguer um pavilhão de ódio. Ao contrário do que muitos acreditam, pode haver ódio na tristeza e na timidez. A fúria exteriorizada, por vezes, pode demonstrar o transbordamento do sofrimento de uma alma em descontrole, não sem antes passar pelas etapas de negação e fuga, típicas da introversão excessiva. Com o passar do tempo, o ódio se sedimenta nas entranhas a ponto de acharmos natural a repulsa, o pessimismo, o isolamento, o desinteresse, o mau humor ou a irritação que sentimos. São manifestações do ódio instalado, mas não compreendido. É a maresia que aos poucos corrói o melhor que nos habita. Em algum momento, tudo em nós restará enferrujado e carcomido. Significa que o ódio venceu. Próximo passo, será extravasá-lo de alguma maneira. Todas são deploráveis formas de vingança. Você escolheu uma”.

Klaus indagou se deveria guardar ou reprimir o ódio dentro dele. O Velho esclareceu: “De jeito nenhum. Não foi isso que eu disse. Falei que quando você o extravasa, o seu ódio será lançado ao mundo. Em diferentes graus, haverá nefastos efeitos. O ódio precisa ser desmanchado para, em seguida, ser transmutado em amor ou outras virtudes. Esta é a equação básica da luz”.

Fez uma pequena, porém importante observação: “Quando guardamos ou reprimimos as nossas emoções, o ódio entre elas, em algum momento, irá transbordar. As consequências serão desastrosas. Uma delas é o motim que ocorre na consciência, fazendo com que percamos a rota da luz. Nada restará de nós mesmos. Todas as paixões densas precisam ser descontruídas com amor e sabedoria. Para isto existe uma caixa de ferramentas, as virtudes”.

Sem fugir ao questionamento inicial do Klaus, o Velho enfrentou a questão de aplicar a teoria à prática: “Volte para casa de cabeça erguida. Nada de orgulho e vaidade para não reincidir nos enganos. Regresse envolvido em humildade, simplicidade e compaixão. Você é dono de si mesmo. Para tanto, não precisa negar as suas inseguranças; aceite-as com humildade para que possam se transformar em fontes de força mais adiante. Não negue as dúvidas; admita-as com simplicidade para que elas o levem à verdade. Isto o equilibrará. Não negue os seus medos; aceite-os com compaixão para que o amor lhe mostre as passagens desconhecidas pelas quais os medos ficarão para trás. Definitivamente. Sofrimentos e medos são complexas criações mentais. Porém, nada além disto. Todos são oriundos das nossas equivocadas compreensões e posturas quanto à realidade”. 

Em seguida, foi aos detalhes: “Convide a sua esposa para conversar. Mantenha um diálogo franco com ela. Atente-se para usar palavras doces e tom sereno. Facilitam a compreensão das verdades individuais e ajudam a trazer à tona uma verdade única ao relacionamento. Se os corações se alegrarem em prosseguir juntos com as mudanças propostas, será maravilhoso. Se entenderem que está na hora de se despedirem, que haja gratidão pelos momentos compartilhados; os bons pelos sorrisos; os ruins pelos aprendizados. No entanto, jamais tenham medo de que a vontade de um não seja a mesma do outro. Quando um não quer, significa que aquela jornada já se esgotou; o outro é que ainda não entendeu ou se nega a admitir. Porém, ao se envolver com o próprio amor, compreenderá que nestes casos, quando é bom para um será bom para ambos. Ainda que o melhor entendimento demore um pouco para encontrar o seu lugar”. 

Então, concluiu: “É muito importante que diferenças sociais ou profissionais jamais sejam definidoras da importância de alguém. O que estabelece o poder de uma pessoa é o seu conteúdo intrínseco; a sua consciência e virtudes. Nada mais. Independente de onde mora, do cargo que ocupa, da conta bancária robusta ou dos diplomas adquiridos, valem a ética e o amor praticados. O mais interessante é que o sujeito genuinamente virtuoso, por sua humildade, simplicidade e compaixão reconhece o valor de todas as pessoas e sabe que não é mais importante do que ninguém. O seu olhar será firme e a fala será mansa. Agora, com a autenticidade do ser no viver, não mais como um personagem inventado”. 

Em seguida, alertou ao Klaus: “Independente do que aconteceu, lembre que não foi a sua esposa que lhe impôs uma condição de inferioridade. Você que se permitiu ou se acreditou assim. Resgate a si mesmo para que nunca mais aconteça, seja ao lado dela, seja em futuros relacionamentos, se for o caso”. 

Klaus disse ter vontade de realizar exames de DNA para verificação da paternidade biológica dos seus filhos. O Velho lhe mostrou diferente viés: “Você os ama?”, perguntou. “Muito”, respondeu o Klaus. O bom monge deu de ombros e disse: “Então está tudo resolvido; nada falta fazer. Apenas prossiga sendo o melhor pai que puder para eles. No final da estrada restará a quintessência de todos os nós. O amor. Tão e somente”.

Aquele período de estudos durou cerca de um mês. Klaus ficou até o final. Aulas, leituras, reflexões, debates, conversas, orações e meditações foram as diversas partes integradas em um mesmo processo de cura. No momento da despedida, depois de agradecer ao Velho, veio falar comigo. Ao nos abraçarmos, comentei que tinha uma curiosidade. Klaus disse para eu ficar à vontade. Se pudesse, responderia. Perguntei o motivo pelo qual ele colocou a música em alto volume quando em desatino tentou o suicídio. Arqueou os lábios em leve sorriso, como se recordasse de alguém que não mais era ele, e disse: “O som alto foi a tentativa absurda de não ouvir a voz da consciência que pedia por transformações e diferentes atitudes. O medo e o ódio clamavam por vingança e precisavam calar as palavras de coragem e amor oferecidas pela alma. Somente os covardes se vingam; o amor é para fortes”.

Observei-o ir embora; era o mesmo homem, mas era outro homem. Em nada lembrava o personagem forte de alma destruída. Vi partir um sujeito simples de alma equilibrada.

Tornei a encontrar o Klaus em diversos outros ciclos de estudos no mosteiro. Apesar da idade que nos furta a juventude, a cada ano, ele se tornava um homem mais bonito. Dizem que a beleza da alma reflete a sua força no olhar; através do sorriso revela o seu equilíbrio. Recentemente, quase vinte anos depois, recebi o convite para a celebração das Bodas de Ouro do seu casamento. Na foto, uma linda família. A mesma família. Porém, agora trazia na bagagem uma história de desencontros e quedas, mas também de reconstruções e superações. Uma história do mais puro e verdadeiro amor. Com todo o seu alcance e poder. Nada me faria perder aquela consagração. Consagrar é se tornar sagrado, seja consigo mesmo, seja ao lado de alguém. É a melhor parte de todas as histórias.

Discussões — 5 Respostas

  • LMOON 12 de maio de 2021 on 05:56

    Gratidão por transformar Minh’alma! Gratidão por me ensinar a enxergar além do que se vê! Gratidão 🙏🏾

  • Adriano Camargo 8 de maio de 2021 on 11:00

    Gratidão! Muita luz!.

  • Terumi 6 de maio de 2021 on 22:33

    Gratidão 🙏

  • Fernando 6 de maio de 2021 on 16:33

    Gratidão profunda e sem fim Amado irmão, sem fim…

  • SCHWEITZER 6 de maio de 2021 on 14:49

    “No final da estrada restará a quintessência de todos os nós. O amor. Tão e somente”.

    Oq dizer sobre uma estoria q ja diz tudo?

    Somente o amor é real, o resto é tudo ilusão.

    Amei.