A indispensável desconstrução

Nunca havia pensado em me tornar editor. Foi um gosto doce de início amargo. Tudo começou no mosteiro quando o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, me convidou para cuidar de um caderno de textos que publicávamos. Era uma coletânea dos diversos estudos realizados anualmente sobre filosofia e metafísica, resultado das nossas aulas, debates e reflexões. Novos pontos de vista são sempre bem-vindos. Antigos olhares sobre determinadas questões permanecem atuais, embora necessitem do devido entendimento e a exata adequação para serem usados como instrumentos preciosos em situações que vivemos todos os dias. Não raro, os usamos fora do contexto. Nem sempre nos damos conta daquilo que sabemos, mas não conseguimos usar. Então, deixamos de nos tornar tudo aquilo que podíamos ser.

Eu estava animadíssimo. À medida que os coordenadores de cada área me passavam os textos, eu os lia com atenção para ordená-los em sequência que me pareciam lógica, permitindo que os monges, ao lerem, escalassem raciocínio de compreensão e expansão de ideias, de maneira que cada estudo se somasse a outro, permitindo avançar nas fronteiras do entendimento. Como ensinava o Velho: “Antes se veste as meias para depois calçar os sapatos”. Como o livro tinha um limite de páginas, nem todos os textos produzidos no mosteiro a cada ciclo cabiam na publicação, sendo minha a difícil função de selecionar aqueles que fariam parte de cada edição. Apesar de causar ciúme e insatisfação, todos entendiam as regras, elaborando em si as próprias sombras, um bom exercício evolutivo. Mostravam-se educados e gentis, mesmo ao verem excluídos os seus estudos. Se era apenas aparência ou sincera expressão da essência individual, nem sempre era perceptível a olhos menos sensíveis.

Apesar da dedicação para realizar um bom trabalho, sempre acontecia de alguns monges apresentarem sugestões e críticas. Era comum comentários de que os textos ficariam melhor ordenados de maneira diversa ou que estudos excluídos deveriam estar presentes. Rara são as vezes que conseguimos agradar a todos. Diferentes olhares multiplicam as verdades. Eis a riqueza e também a dificuldade dos relacionamentos.

Os anos se passaram. Acostumei-me a caminhar sob essa linha delicada de selecionar alguns, enquanto preteria outros. Fazer escolhas significa trazer algo para as nossas vidas; representa também a eliminação daquilo que foi deixado de lado; um assunto sério, merecedor de muitas reflexões. Era comum que ótimos trabalhos restassem excluídos. Quando acontecia e alguns autores vinham conversar comigo, eu os lembrava do importante exercício evolutivo de firmar nossa alegria no valor da ação sem apegar ao resultado, que nem sempre traduz qualidade da obra ou o talento do artista, por depender de circunstâncias alheias ao nosso controle. De alguma maneira, todos se mostravam compreensivos com a seleção final. No esforço em ser justo, elaborei critérios objetivos, embora traços de subjetividade se mostrassem indispensáveis. Diversas vezes, textos de minha autoria foram por mim retirados das edições. Eu também precisava aproveitar o exercício de desapego ao poder e ao resultado. O carinho com o qual eu cuidava das publicações aumentou. Com o tempo, veio o advento de novas tecnologias. Passei a usar outra fonte de letra, mudei a diagramação para tornar a leitura mais agradável, convidei um amigo, artista plástico, para elaborar uma nova capa, mais elegante e minimalista. Substituí o tipo de papel, usando um de melhor qualidade, menos afeito ao mofo e as traças. Livros são criações que merecem durar séculos. Tudo corria bem, até que em determinado momento, um dos monges, Paul era o seu nome, responsável pelos estudos de teosofia, por conta própria, entrou em contato com a gráfica e, sem nada me informar, inseriu um texto à coletânea daquele ano. 

Depois de prontos, a gráfica enviava para cada monge um exemplar. Eu estava em casa quando recebi o meu. Como já tinha lido todos os textos antes da edição, dei-me por satisfeito em analisar apenas o aspecto físico do livro. Sorri de alegria, sem me dar conta que havia um acréscimo indevido ao conteúdo. Limitei-me a colocar o livro na estante, indo cuidar dos meus afazeres. Passados alguns dias, recebo uma ligação de um monge, muito amigo, elogiando um dos artigos. Era um estudo sobre um clássico da teosofia, A voz do silêncio, de Helena Blavatsky, que pelo seu hermetismo, tornavam valiosos os esclarecimentos oferecidos pelos estudiosos mais afeitos à linguagem cifrada da autora. Estranhei. Eu não me recordava deste texto específico. Fui ao livro. Ao começar a ler tive a certeza de que tinha sido introduzido à minha revelia. Ao entrar em contato com a gráfica, recebi as explicações. O responsável disse que agira de boa fé por acreditar que o acréscimo ocorrera com a minha autorização. Fiquei irritadíssimo com a invasão do Paul sobre um setor sob minha coordenação. Nunca ocorrera antes. Não estava correto. Disciplina e respeito são fundamentais à evolução. 

Como faltavam poucas semanas para se iniciar um novo período de estudos no mosteiro, decidi por esperar para conversar pessoalmente com o Velho sobre o grave ocorrido. Foram dias horríveis de espera. Eu me sentia ultrajado e desrespeitado. O gosto amargo que passou a me acompanhar foi acentuado por uma sequência de mensagens que recebi. Todos ressaltavam de maneira elogiosa o texto escrito pelo Paul. Embora houvesse diversos outros artigos de excelente qualidade, o texto que trazia um ensaio interpretativo sobre o livro da escritora de origem russa, era o mais encantador, segundo a opinião da maioria dos monges. Nenhum outro foi tão comentado naquela edição. Eu discordava daquele equívoco. A minha irritação me impedia de reconhecer qualquer valor naquele texto. Tive de conter o meu ímpeto para não manifestar o absurdo daquela evidência. Na intimidade da solidão, me mostrei indignado por todas as circunstâncias que envolviam o ocorrido. Foram noites mal dormidas.

Como o meu voo atrasou, cheguei somente à noite no mosteiro. Depois de cumprimentar a todos, fui conversar com o Velho. Eu tinha urgência em solucionar o fato. Profundamente incomodado, eu precisava expulsar um monstro que me devorava as entranhas. Encontrei o bom monge sentado na varanda, acompanhado de um livro, tendo como companhia um lindo céu salpicado de estrelas. Ao me ver, ofereceu um sorriso sincero e convidou para eu me sentar ao seu lado. De imediato, eu trouxe o assunto do Paul à baila. Expressei a minha insatisfação, fundamentando-a com sensatos argumentos. Eu queria que a insubordinação do Paul fosse abordada logo no início daquele período de estudos; nenhum abuso deveria ser permitido. Tal atitude não poderia ficar sem a devida correção, pois, do contrário se tornaria um hábito nefasto, do qual todos os monges se arvorariam no mesmo direito. Sobraria desordem e bagunça. O caos viria em seguida; a luz se afastaria. Limites são indispensáveis em todas as relações pelo respeito que estabelecem. Lembrei que em certa ocasião, o próprio Paul se queixou da interferência indevida de outro monge, por este abordar os mesmos temas teosóficos que ele usava em suas aulas. Ponderei que não devemos escrever as cartas que não gostaríamos de receber. 

Ao final, o Velho esclareceu que o Paul tinha levado o texto diretamente ao seu conhecimento pelo fato de somente o ter terminado após o encerramento do prazo de entrega. Depois de ler, por entender o valor daqueles escritos, excepcionalmente, autorizou que fosse incluído na última edição. Como editor-chefe e responsável maior pela Ordem, ele tinha esse direito e autoridade. Eu sabia disto. Porém, ele disse acreditar que o Paul tivesse me informado da alteração, deixando que a inclusão do texto fosse feita por mim, uma vez que era minha função e responsabilidade. Não sabia que ele entregara na gráfica sem nem ao menos me dar ciência. Admitiu que existiam dois erros. Do Paul e dele mesmo, pois ambos deveriam ter me comunicado. Pediu-me desculpas e disse que conversaria mais tarde com o Paul. Antes que eu me alongasse no assunto, como era a minha vontade, ele comentou sobre outras questões. Falou como notava que os monges vinham apresentando nítidas evidências de evolução, manifestadas através de comportamentos mais serenos e, ao mesmo tempo, com maior intensidade. A psicoesfera do mosteiro ganhava coloridos de alegria e delicadeza. Comentou que era um momento de muita luz. Todos deveriam aproveitar. Fui incapaz para ler nas entrelinhas do comentário.

Não consegui retornar ao grave assunto, conforme era o meu desejo. Fui deitar-me com a sensação de que não recebera a devida atenção e, ainda mais, com a certeza de que o ultraje pelo qual fui vítima, não restou tratado com o rigor merecido. Senti-me desprestigiado. A insatisfação cresceu; o sono não veio. Na manhã seguinte, ao chegar na cantina, me deparei com o Paul rodeado por outros monges. Ele agradecia aos muitos elogios recebidos pelo seu texto. Pediam que fizessem o mesmo com O livro perdido de Dzyan, da mesma autora, face sua linguagem ocultista. Paul adiantou que tinha tal texto quase pronto. Ao me ver, pediu licença ao demais, se dirigiu a mim para pedir desculpas pelo que considerou um mal-entendido e, até mesmo, uma indelicadeza da sua parte. Alegou acreditar que por estar fora dos critérios estabelecidos, o Velho me comunicaria da inclusão do texto. Falei que tinha estranhado o fato de ele nem ao menos tentar falar comigo; assim como entregar o texto à gráfica ao invés de enviá-lo a mim. Senti-me desprestigiado. Paul argumentou que por se tratar de uma situação excepcional, preferiu ir ao Velho. Quanto à gráfica, quis me poupar trabalho, uma vez que fora autorizado a incluir o texto àquela edição. Aceitei as desculpas, mais por formalidade do que por convencimento. 

Paul me adiantou que finalizava outro texto, prometendo me entregar, desta vez, dentro do prazo para as devidas análises, de acordo com os critérios estabelecidos. Limitei-me a dizer sim com a cabeça. Passados alguns dias, acreditei ter superado o ocorrido. Eu assistia a um curso pela manhã, enquanto ministrava outro em dias alternados. As tardes eram reservadas para leituras, reflexões e debates. Em algumas noites antes da ceia, reuníamos no salão para palestras curtas oferecidas pelo Velho. Talvez fossem os momentos mais aguardados dos ciclos de estudos. O bom monge, apesar da idade avançada, ou talvez por causa dela, sempre tinha um olhar inovador sobre todas as coisas. Ele tinha o dom da transformação. Por algum motivo desconhecido, naquele ano ainda não ocorrera nenhuma palestra.

Tudo mudou quando o Paul me enviou o novo texto para análise. Cabia a mim decidir se seria incluído na edição do próximo ano. Sem dúvida, era de inegável qualidade; muito bem escrito e com um conteúdo brilhante. Contudo, decidi exclui-lo da publicação. O comportamento do Paul no ano anterior não fora correto; ele precisava refletir mais profundamente sobre a sua atitude. Deixar o seu trabalho de fora não era uma punição, mas a exata lição, disse para mim mesmo, fundamentando a minha decisão. Nada falei a ninguém; somente saberiam quando eu anunciasse os textos selecionados. Embora sem racionalizar para não que admitir, eu adorava a agradável sensação de poder com a qual tinha me acostumado.

Não há mentira mais devastadora do que aquela que cada um conta para si mesmo. Sem entender o motivo, a minha alegria desapareceu. A leveza dos dias foi embora sem dizer adeus. Embora me controlasse no trato pessoal, mantendo a polidez de superfície, não havia mais gentileza, tampouco delicadeza, fundamentais à profundidade das relações. Algo ficara estranho dentro de mim, como se uma tênue tensão tivesse fixado residência em minhas entranhas. A impaciência e a falta de concentração se tornaram vizinhas faladeiras. Fui tomado pela ansiedade, pois sabia das explicações que me pediriam quando soubessem que eu tinha excluído o novo, excelente e aguardado texto do Paul. Elaborei vários argumentos. Havia outros textos interessantes, sobre assuntos não abordados nas edições anteriores, o que não era mentira. Nas noites insones, eu era assaltado pela verdade que genuinamente me movia. Pela manhã, eu a expulsava; nunca faltarão raciocínios tortuosos para isto. Passei a viver em função de me preparar para o inevitável conflito. “Quem teme a verdade ainda não se mostra digno à liberdade”, citei para mim mesmo a frase memorável de um sábio ancestral, utilizando-a fora do justo contexto. Eu precisava me enganar. Sem admitir, eu temia a verdade. Eu me tornara o meu próprio algoz, apesar do esforço em atribuir tal papel ao Paul. Sem entender, eu também me tornara o carcereiro da cela na qual me aprisionei.

A amargura escala tons. Decidi que, caso a insatisfação pela minha decisão em excluir o texto do Paul fosse muito grande, colocaria o cargo de editor à disposição. O próprio Velho não me dera o apoio devido em um momento que deveria primar pela disciplina. Com extremo carinho, eu tinha me dedicado por anos à função; não era justo o que faziam. Que ficassem à vontade para colocarem outro no meu lugar. Ninguém no mosteiro parecia reconhecer o meu esforço por tantos anos na elaboração das publicações; uma ingratidão com quem tinha elevado a qualidade dos livros em todos os seus aspectos editoriais. Era uma traição. Inclusive, e principalmente, do Velho. “Vou mostrar a eles que faço por amor, não por apego. Faz-se necessário saber a hora de partir”, amuado, eu passava as tardes conversando comigo, sentado em um dos bancos de pedra no jardim interno do mosteiro. De longe, por diversas vezes, notei o Velho me observando. 

Foi quando informaram que haveria uma palestra dentro de meia-hora. Sentei-me na última fileira de cadeiras do grande salão como uma criança que manda um recado: “Deixem-me quieto no meu canto”. Eu estava contrariado. Sem admitir, havia o desejo inconfessável de que aquela palestra fosse uma sessão de desagravo, na qual me pediriam publicamente desculpas pelos erros cometidos. A começar pelo Velho. Depois o Paul. Como um bom homem, eu aceitaria as desculpas, mas entregaria o cargo. O meu ciclo chegara ao fim. Sentiriam a minha falta. Sem ter condições de entender, por ter os pensamentos obstruídos e os sentimentos enevoados pelas sombras, aquela atitude não passava de tola vingança. Vinganças se movem por orgulho e ódio, que se manifestam em diversos graus e de diferentes maneiras. Um comportamento com nítidos traços de primarismo e infantilidade. Mas o que move o orgulho além do medo de nos descobrirem frágil? Por isto, a irritação; uma das modalidades iniciais de ódio. Por isso a amargura, o sabor residual do ódio.

O Velho surpreendeu a todos. Logo de início, perguntou quem admitia sentir medo. Quase todos levantaram a mão. Depois, seguiu perguntando pelo orgulho, vaidade e ganância. Aqui e ali, alguns monges admitiam a presença intensa dessas sombras. Ao contrário do que muitos acreditam, não se trata de um sinal de atraso. Estão bem à frente daqueles que as negam. Contudo, algo diferente aconteceu quando perguntou pela inveja. Ninguém levantou a mão.

Com a habitual voz serena, o Velho nos mostrou a clareza das suas ideias. Sem preâmbulos, foi logo ao assunto: “Quando negamos as sombras, autorizamos para que campeiem soltas dentro da gente. Aos poucos, ganham volume e poder. Sem avisar, assumem o comando da consciência. A luz se apaga. A ausência de alegria é um dos sinais do motim. Para nos manter no engano, as sombras nos convencem a buscar por momentos de euforia. A euforia é a amargura fantasiada de alegria; uma falsa sensação de bem-estar, impulsionada por elementos de entorpecimento, usados para mascarar as emoções que não suportamos sentir. A fuga pelas drogas que anestesiam a realidade, o sexo como ilusão de poder, as gargalhadas vazias que mentem sobre a felicidade, lugares barulhentos para abafar a voz da alma, são algumas das muitas possibilidades de mentiras oferecidas. Outra, muito comum, são os raciocínios falaciosos que construímos para justificar o descontrole, o erro e a intolerância, outra modalidade de ódio disfarçada de razão. Acreditamos encontrar razões onde elas nunca estiveram. Na necessidade de esquecer o azedume existencial, temos uma prateleira interna com fácil acesso ao orgulho, a vaidade, o ciúme, a ganância, entre outras sombras. Todas elas são espécies de entorpecimento da realidade. São as filhas do medo, oriundo da nossa imperícia em lidar com algumas verdades. A dificuldade se torna maior quando a inveja permeia as nossas emoções”. Deu de ombros e ponderou: “Inveja? Eu não a tenho. Ninguém a tem. Admitimos o ciúme e a vaidade até com alguma facilidade; o orgulho e a ganância com um pouco de dificuldade. O medo quase todos o sentem; por isto o absurdo esforço de justificá-lo como necessário. É agradável quando encontramos motivos para fugir de nós mesmos, porquanto, da verdade desconfortável. Porém, a inveja, a mais odiosa das sombras, não mora em ninguém”. Arqueou os lábios em leve sorriso e brincou: “É o dinossauro das emoções. Está extinta entre nós”.

Voltou a dar uma pausa para que todos começassem a se acostumar com a ideia e disse: “O orgulho, a vaidade, a ganância e o ciúme são construções erguidas sobre os pilares do medo. O medo de se sentir fraco, despercebido, empobrecido, despojado, esquecido, preterido ou abandonado. Sim, esses ainda somos nós. Por não sabermos como lidar com o medo, buscamos por mecanismos que o mantenha discreto em nós. Quando alguém nos mostra a ineficácia dessas engrenagens, ela também nos evidencia o quão frágil escolhemos ser. Então, a odiamos por isto. A odiamos por nos mostrar a realidade sem fantasias, nua e incômoda. Odiamos por nos fazer enfrentar a verdade indesejada. Se nos aventurarmos a ir à raiz do ódio – ou da intolerância, irritação ou qualquer outro eufemismo que gostamos de usar para abrandar a realidade, pois algumas palavras ainda nos assustam, principalmente se associadas à selvageria dos nossos pensamentos, emoções e atos – seremos surpreendidos. Encontraremos a inveja.  O ódio germina no solo da inveja, escondido no subsolo do inconsciente. O fato de alguém se atrever a chegar em um lugar onde nunca ousamos viajar, causa tamanho desconforto que gera a necessidade de uma reação antagônica. E agressiva. Alguém desafiou a mentira que levamos ao altar. Consideramos isto é um ultraje, uma ofensa. Todo herói às avessas do script da nossa história é tratado como se fosse um vilão”.

E lembrou: “Todo poder além de si mesmo só se sustenta por virtude e amor. Quando se torna instrumento orgulho, vaidade e coação, evidencia uma estrutura condenada ao desabamento”. 

Observou com compaixão o desconforto da plateia e acrescentou: “A outra possibilidade é aceitar o desafio. Não falo em partir para um duelo estúpido para ver quem é mais forte, competente ou sagaz. Este condicionamento que trazemos dos primórdios da civilização, ainda presente nas mínimas atitudes, precisa de uma urgente desconstrução para abrir espaço ao erguimento de um novo indivíduo, não com ilusões de força decorrentes do desconhecimento sobre as suas fontes e finalidades, mas do exato entendimento dela. Intransigência é força oposta à luz, manifestada na teimosia de um sujeito que se nega a admitir a sua fraqueza, tampouco possui coragem para aceitar os próprios equívocos. Os intransigentes teimam em ficar estagnado na manutenção de um poder que genuinamente nunca existiu. Por isto, desabam”.

As palavras do Velho funcionavam como um indesejável espelho: “A intransigência se alimenta de ódio e vingança. Ainda temos dificuldade para entendê-la assim. Somos rigorosos sob pretexto de sermos justos e necessitarmos estabelecer os necessários limites. Usamos os melhores argumentos em um contexto distante da verdade. Na realidade, queremos subjugados ou afastados quem nos põem em risco. Risco de mostrar alguma mentira que gostamos de acreditar. Mais difícil será quando descobrirmos que a intransigência se alimenta da inveja. A inveja em admitir que alguém foi capaz de voar quando pensávamos que correr fosse a última fronteira. Como se as asas anulassem a utilidade das pernas. Buscaremos, e encontraremos nos raciocínios deturpados, motivos e razões para desqualificar o voo; argumentaremos sobre os seus perigos, desencorajaremos a ousadia que nos remete aos nossos próprios medos e mostraremos a imperícia dos pássaros. Exigiremos punições; pediremos que as asas sejam cortadas. A inveja nos moverá a isto. Claro, falaremos que se trata de sensatez ou de justiça; bradaremos com a inflexibilidade das leis e o rigor das regras. Temos uma capacidade infinita para mascarar a verdade com argumentos falaciosos”. Tornou a dar de ombros: “Afinal, a inveja não mora em ninguém. Nem o demônio”. 

Franziu as sobrancelhas e nos lembrou: “Nem todo movimento significa um avanço; nem força tem origem na luz. A força luminosa exige leveza; tem a suavidade de um sorriso e a simplicidade de um candeeiro. Valorize a sua essência; ela o identifica e o individualiza, mas não se atenha ao personagem que você construiu para morar. Todos fomos condicionados a isto. Para tanto, se faz necessário erguer a obra sem se apegar ao prédio. Construa a si mesmo, mas se descontrua logo adiante para, em seguida, tornar a se reerguer. Aos poucos, o personagem desaparecerá dando lugar a quem verdadeiramente somos; um prédio mais alto e bonito, com menos tijolos e paredes. Do contrário, o tempo o deixará em ruínas em inevitável destruição por negar a sua lógica. Intransigência é força sem equilíbrio e amor; portanto, força de demolição. Desconstrução é a força voluntária, suave e virtuosa rumo à luz. Demolição é a força irracional, bruta e sombria de negação às transformações. A diferença entre desconstrução e demolição reside no equilíbrio intrínseco. Demonstra a distância entre a luz e as sombras que nos habitam. A fonte do perfeito equilíbrio está na proximidade com a essência de quem somos e nas virtudes adquiridas, genuínos signos de aperfeiçoamento. Não se alcança o equilíbrio sem percepção e sensibilidade; sem estar afeito às infinitas desconstruções. A magia do equilíbrio consiste em adicionar amor e sabedoria em doses iguais no caldeirão da consciência. Sem equilíbrio toda força descamba para disfarçadas formas de conter quem ou aquilo que supostamente nos ameaça. Negamos os sinais da evolução”. 

Fez uma pausa para que as ideias se encontrassem os seus lugares e continuou: “A atitude dos outros incomodam quando tem a capacidade de nos mostrar quem não somos, o quanto ainda não conseguimos avançar. Aprisionamo-nos no tolo condicionamento para vencer os outros ao invés de superar as próprias dificuldades. Deixamos que a imperceptível inveja, como eminência parda, assuma o comando da consciência. Então, a força se torna mera brutalidade, que se manifesta em rigor, severidade e vingança pela necessidade de medir forças e subjugar aquele que você enxerga como desafiante. Não existe nenhum desafio quando outra pessoa apenas quer viver seus gostos, sonhos, verdades e dons. Se a atitude de alguém trouxer à tona as minhas dificuldades e enganos, não devo me opor, resistir ou punir. É hora de agradecer. Depois, impulsionar a minha desconstrução para que o tempo não me deixe em ruínas. Não é fácil aprender a viver assim; eis um autêntico e salutar desafio. Acreditamos que basta acrescentar indefinidos andares em um velho prédio. Não há de se espantar que desabem; vemos isto acontecer a todo momento, mas nos recusamos a aprender. A reforma impede a evolução, pois mantém resquícios do atraso; não se pode construir um prédio robusto alicerçado em pilares corroídos. Se faz preciso jogar o prédio abaixo para, em mim mesmo, erguer outro. Com diferentes fundamentos e inimagináveis melhorias. Assim também é a engenharia do ser para abrigar o bem viver. Trata-se de um movimento sem fim”.

Olhou para os monges e fez uma pergunta retórica: “Quando saber ter chegado a hora da desconstrução?”. Em seguida, finalizou: “Dias amargos sinalizam o momento para o movimento primordial, anterior e necessário ao erguimento de um novo prédio. Para não restar destruído, o artista se regenera na obra de si mesmo como indispensável transição das sombras à luz”.

Silêncio absoluto. As lágrimas não eram só minhas. Aquelas palavras, por incontáveis motivos, serviram para mostrar para muitos a necessidade de aceitar o esforço inevitável das infinitas reconstruções. Era hora de cessar com os remendos que fragilizam a estrutura existencial de quem somos, ruindo diante da menor pressão. Quando fragilizado, ainda que de modo inconsciente, me mantenho desequilibrado. Qualquer avanço será impedido.

Naquele momento enxerguei com clareza aquilo que eu precisava fazer de diferente e melhor, tanto universo adentro quanto mundo afora. Em silêncio, agradeci. Ali se encerrava um estilo de ser e viver para que houvesse espaço para outra criação. Fui tomado por intensa, estranha e sincera alegria, um encantamento típico de quem inicia uma nova jornada dentro do Caminho. Um diferente jeito de ser comigo e viver no mundo. 

Vi o Velho se afastar com os seus passos lentos, porém, firmes. Sem olhar para trás.

Discussões — 3 Respostas

  • Terumi 28 de maio de 2021 on 21:19

    Gratidão 🙏

  • Fernando 20 de maio de 2021 on 17:36

    Gratidão profunda e sem fim, sem fim…

  • SCHWEITZER 20 de maio de 2021 on 14:23

    “Quem teme a verdade ainda não se mostra digno à liberdade”

    Um texto libertador e verdadeiro com o poder de mudar a vida daqueles que tem a coragem de enfrentar o entendimento de quem eles verdadeiramente sao. Ou melhor, quem eu verdadeiramente sou.

    Expetacular meu querido, mestre.

    amei.