Criar a realidade

Havia muito tempo que eu não visitava Li Tzu, o mestre taoísta. Na primeira oportunidade, viajei até a pequena vila chinesa na subida para o Himalaia. Quando desembarquei do ônibus, após deixar a mala na única estalagem do local, me dirigi à casa do meu amigo. Como os portões estavam sempre abertos, entrei. O doce perfume oriundo do jardim de bonsais me deixou deliciado. Entrei na cozinha. Meia-noite, o gato negro que também morava lá, dormia em cima da geladeira. Olhou-me sonolento e tornou a fechar os olhos. Não havia mais ninguém. Antes de me sentar à mesa para esperar, ouvi o barulho de um carro estacionando na rua pacata. Escutei uma porta se abrir e se fechar. O carro foi embora. Passado alguns instantes, Li Tzu entrou. Mostrou-se alegre em me ver. Em seguida, colocou algumas ervas em infusão para o nosso chá. Enquanto esperávamos, ele disse que fora visitar um terreno não muito distante dali, onde se construiria um parque inspirado nos Jardins Suspensos da Babilônia que, segundo os raros relatos da época, eram de uma beleza incomum. Entre alamedas arborizadas, os canteiros seriam erguidos sobre pilares de pedra, sob os quais haveria bancos, mesas, além de outros canteiros, com diferentes flores e plantas, pois estes, ao contrário dos demais, seriam compostos por flora sensível ao sol. Retirou de dentro de um tubo a folha enorme do projeto e o abriu sobre a mesa da cozinha. Um espetáculo. Contou que o parque seria construído com a gentil colaboração de diversas pessoas. 

Ele estava animado: “É uma ideia antiga que começa a ganhar contornos de realidade. Conseguimos a doação de um terreno de generosas dimensões. O próximo passo será limpá-lo do mato alto, antes de iniciarmos a construção das alamedas de pedra. Faremos com muito cuidado, de maneira que todas as árvores sejam preservadas, algumas são mais antigas do que a vila e merecem destaque no parque. Não faria sentido arrancar árvores para se montar um jardim”. Depois comentou: “Esse foi o motivo que me fez ir hoje ao terreno. Um empresário de uma cidade próxima prometeu ceder o maquinário necessário para esse serviço”. Falei que tudo me parecia perfeito. Li Tzu esclareceu: “Sim, mas perfeito não significa sem dificuldades. Como são muitas árvores, o empresário propôs arrancar algumas para agilizar o serviço. Faria uso de tratores de grande porte que, por causa do tamanho, são incapazes de manobrar por entre o arvoredo. Se trabalharmos com máquinas menores, conseguiremos manter todas as árvores, porém, levaremos muito mais tempo. Algo que talvez inviabilize a ajuda do empresário. Ele não pode ceder máquinas, além dos funcionários para conduzi-las, por um período de tantos dias”. Em seguida me convidou para o acompanhar em uma reunião na qual conversariam com esse empresário. O intuito seria solucionar o impasse. 

A reunião terminou tarde. Era noite alta quando deixei o mestre taoísta em casa antes de ir à estalagem. Tinha sido uma conversa desastrosa, a ponto de eu acreditar que o parque não mais sairia do papel. O empresário se mostrara irredutível. Se o povo da vila quisesse, a ajuda seria nos seus moldes; senão, teriam de encontrar outro jeito para erguer o parque. Aceitar a oferta do empresário parecia a maneira mais fácil, o que representaria arrancar a maioria das árvores para poupar tempo e viabilizar a ajuda. Instalou-se uma divisão entre o povo da vila. De um lado, havia os que entendiam que os fins justificam os meios; de outro, aqueles que queriam construir os Jardins Suspensos da Babilônia sem abdicar das centenárias árvores da região. Não houve acordo. Após o empresário retirar a oferta de ajuda, muitos se mostraram desanimados em prosseguir com o projeto. Acreditavam ser impossível preparar o terreno sem ajuda das eficientes máquinas modernas. Vi o desânimo imperar nos olhos de muitos. Li Tzu estava impassível. As suas feições permaneciam serenas. Ao me despedir dele, perguntei se estava chateado com a postura do empresário. O mestre taoísta disse: “De jeito nenhum. Cabe a ele decidir o que fazer com as suas máquinas. A mim resta a vontade para buscar, e a criatividade para encontrar, outra solução. Assim cada pessoa cria a realidade na qual vive. Ao próprio jeito e gosto”. 

Questionei sobre as muitas pessoas que se mostraram desanimadas em prosseguir. Ele explicou: “Existe uma distância entre o saber e o viver. O agir é a nave que nos conduzirá de um ponto ao outro”.

Falei que entendia o desânimo geral. Não seria fácil resolver o problema do terreno. Lembrei que a maioria das pessoas envolvidas no projeto, além de terem os seus afazeres profissionais, já tinha idade avançada para se envolverem com tanta chateação. Talvez fosse acertado transferir o sonho do parque para as futuras gerações. Eles teriam mais tempo. O mestre taoísta me corrigiu: “Independente da idade, não me parece sensato abrir mão dos projetos que falam à alma”. E me deixou uma pergunta: “De que valem os dias quando não mais existir os sonhos?”. 

No dia seguinte, logo cedo, retornei à casa de Li Tzu. Encontrei-o na prática matutina da yoga. Em seguida, o acompanhei na breve meditação, pois logo haveria aula sobre o Tao Te Ching. O mestre taoísta estava com a sua alegria serena e discreto bom humor habituais. Pensei que tivesse abandonado a ideia dos Jardins Suspensos da Babilônia no sopé do Himalaia. Sonho doido, me diverti ao pensar, sem nada dizer. Fui surpreendido, enquanto tomávamos uma xícara de chá antes de se iniciar a aula, quando ele comentou sobre a área reservada aos bonsais que haveria no parque. Ainda naquele dia, plantaria mais algumas mudas para essa finalidade. Entendi que ele não tinha desistido. Estranhei, mas não falei palavra.

Naquela manhã, a aula seria para decodificar o poema cinquenta e um do Tao Te Ching. A sala estava repleta de alunos oriundos dos mais diversos cantos do planeta, em uma demonstração do crescente interesse que a obra milenar de Lao Tsé despertava no público contemporâneo. Li Tzu iniciou a explicação dos versos: “Não somos aquilo que pensamos. Sem negar a importância das ideias, assim como dos sentimentos e emoções que, ora as impulsionam, ora as cerceiam, são as nossas atitudes que nos traduzem. Elas narram a história de cada indivíduo. Tudo mais são meras elucubrações e discursos vazios. Por estarem distantes da verdade que acreditamos, mas não conseguimos viver, representam os nossos enganos”. 

Fez uma pausa antes de prosseguir: “A ação constrói a verdade pessoal. Somente o agir modifica a realidade. Nada mais. Sem ação, a realidade me consome. Na ação, a realidade me fortalece. Sem ação, a ideia genial não passará de semente improdutiva, o amor ficará restrito à poesia e os lábios jamais se tocarão em beijos. A vida é mais; ela exige movimento”. Franziu as sobrancelhas e aumentou o tom da seriedade: “A ação é a perfeita medida da verdade madura que existe em mim. De outra face, revela também parte da verdade que ainda não tem força para transformar a realidade. A ação mostra o exato ponto onde estou. Apenas o agir me levará além de onde sempre estive”. 

Li Tzu fez uma ressalva: “Lembrem que no indispensável equilíbrio do movimento, no qual o Yang é a expansão, a ação no mundo, existe também a necessidade da quietude e do silêncio, o agir no espírito, através da meditação, oração, reflexão e estudos; o movimento Yin de contração. Elaborar mais para laborar melhor”.

O mestre taoísta continuou: “A ação precisa de aperfeiçoamento, do contrário, acabará se tornando uma ação empobrecida, incapaz gerar movimento de avanço. Agir sem se aperfeiçoar é andar em círculos. Quem vive assim não vai a lugar nenhum”. Fez um gesto com a mão e disse: “O Tao, ou seja, o Caminho, é gerado através do entendimento. Entre o entendimento intrínseco e a ação extrínseca, existe a vontade; a alma da criação e da criatividade. Trata-se da força que transforma o saber em realidade através da ação. O conhecimento mostra as portas; a vontade impulsiona; a ação nos faz atravessá-las. Esta é a equação do Caminho; a sagrada trindade do movimento. Somos os seus viajantes; há mil maneiras possíveis para viver a jornada. O jeito como andamos faz toda a diferença. Define o passo e o compasso, o ritmo e o rumo. Aperfeiçoar o caminhar é a parte que cabe na arte de viajar. Ela transforma o viajante. Isso se faz através das virtudes. Não há outro método”. 

Abriu os braços como quem soluciona a equação e esclareceu: “A humildade, a simplicidade e a compaixão oferecem a lucidez. A alegria, a delicadeza, a generosidade e a misericórdia me permitem, a todo instante, viver pelo viés do amor. A sinceridade, a honestidade, a firmeza e a justiça trazem a incomensurável força da verdade. O perdão, a mansidão e a pureza oferecem o maravilhoso equilíbrio da serenidade. Na Fé, consigo levar a minha alma ao coração do mundo e, assim, alcanço a unidade com a Luz quando a movimento através de mim. Ao fazer com que as virtudes se façam presentes em cada uma das ações, o viajante se encanta com viagem. Dentro e fora de si mesmo”.  

Foi uma aula maravilhosa. Havia uma mensagem subliminar que necessitava de maiores reflexões. Como fazia parte dos meus planos, eu ficaria ausente por três semanas. Naqueles dias aconteceriam eventos literários em Pequim e Xangai. Aproveitaria para alocar aquelas novas ideias. Ao término, eu retornaria à vila chinesa para conhecer mais um pouco sobre o Tao Te Ching. Assim foi feito. 

Na volta, soube que mudanças significativas tinham acontecido quanto ao parque. A dona da estalagem me sugeriu visitar o local onde seria construído. Avisou que Li Tzu estaria lá. Ao chegar, fui tomado pelo espanto. O terreno estava limpo, as árvores preservadas e um caminhão deixava a remessa inicial de pedras para começarem a erguer as alamedas. Perguntei ao mestre taoísta como tinham conseguido preparar o terreno do modo como planejaram, sem a perda das árvores. Ele apontou para um canto onde estavam enxadas, pás, ancinhos, entre outras ferramentas para capinar. Com instrumentos rudimentares eles tinham realizado o mesmo trabalho de máquinas modernas. Com um sorriso, Li Tzu explicou: “Poderíamos ter nos corroído em lamentos diante das dificuldades; poderíamos ter aceitado condições que nos levaria a perder a identificação com o parque dos sonhos. A vontade é a conexão entre o saber e o ser. Ela desmancha os problemas e desconstrói os empecilhos. Ela nos faz seguir em frente sem que nada nem ninguém nos impeça. Levamos três semanas para fazer com as mãos o que os tratores fariam em três dias. Fomos poucos, mas o suficiente. Não foi fácil, mas se tornou maravilhoso. Fizemos ao nosso jeito, tempo e verdade. Criamos a realidade”.

Em seguida acrescentou: “Depois de pronto, muitos virão ao Jardim Suspenso da Babilônia. Elogiarão a beleza das flores, as cores das plantas, a arquitetura das alamedas, os pilares de pedra, as árvores seculares de troncos robustos e copas largas. Embora se torne uma atração à parte para quem visitar o Himalaia, algo invisível encantará o coração dos visitantes, sem que a maioria consiga identificar o motivo”. Fez uma pausa e explicou: “A história da construção moldará a alma do parque. A olhos distraídos, erguemos um lindo parque. A olhos atentos, criamos uma fantástica realidade. Assim também é contigo e comigo”. Então, concluiu: “Entender essa diferença dá acesso à magia da vida”.

Não falei palavra. Apenas observava. Mais tarde, me aproximei do mestre taoísta para perguntar se o Tao Te Ching seria uma religião pelo alcance que permite a outras esferas existenciais. Ele disse não com a cabeça. Questionei se seria filosofia. Ele tornou a negar. Indaguei o que seria o Tao. Li Tzu ensinou: “O Caminho é uma viagem de aperfeiçoamento; por isto é sagrado. No entanto, aperfeiçoar-se é criar a realidade de encantamento da alma’. Em seguida, finalizou: “Tão e somente”. 

Discussões — 8 Respostas

  • Iara 1 de agosto de 2021 on 11:01

    Me fez levantar da cama, apesar do frio, pra tomar meu café quentinho. Seja abençoado sempre.

  • haian 14 de julho de 2021 on 20:15

    Acompanho seus textos há 5 anos, obrigado por não parar.

  • Rosires 11 de julho de 2021 on 13:41

    Gratidão 🙏 🌻

  • Bárbara Rodrigues 10 de julho de 2021 on 13:20

    Hoje, talvez eu não poderia lê algo que melhor pudesse me responder a uma decisão que preciso tomar do que o caminho que o Senhor me trouxe pelo pensamento a esse texto!

    O meu dia não terminou… Mas até aqui já sou imensamente grata a Deus.

    Obrigada a você que nos escreve🙏🏼💛 Que Deus te ilumine sempre.🧘🏼‍♀️🙇🏼‍♀️

  • Terumi 9 de julho de 2021 on 21:19

    Gratidão 🙏

  • MARCELLO MELLO SCHWEITZER 9 de julho de 2021 on 14:09

    Na ação criamos o mundo em que vivemos, na inação vivemos na tortuosa e insatisfeita idea do que poderia ter sido. Amei.

  • Fernando 9 de julho de 2021 on 08:35

    Gratidão profunda e sem fim…

  • Juliana Girardi Wagner 8 de julho de 2021 on 23:41

    Gratidão!!