A hora da decisão

O bule com café fresco foi colocado sobre o pesado balcão de madeira da pequena oficina de Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos, que tinha o dom de costurar bolsas e ideias com uma mestria incomum. Eu voltava de um período de estudos no mosteiro, no qual aprendi que todo saber tem impensadas utilidades. A prática de um pedreiro na construção ensina que as frestas mal preenchidas de um alicerce, difíceis de perceber por estar abaixo do solo, pode surpreender ao causar o desabamento de um prédio de aparência sólida. Assim é comigo e contigo quando não estruturamos devidamente a argamassa da verdade e deixamos apagados os valores da luz na alma. O tempo certo para assar o pão não permite que fique cru nem que seja queimado. Em ambos os casos a massa restaria perdida. O mesmo ocorre com as suas e as minhas decisões, algumas angulares em nossas vidas, quando tomadas cedo ou tarde demais. 

Loureiro me ouvia sem dizer palavra, até que perguntei a sua opinião sobre a vontade que eu tinha de mudar o rumo dos meus negócios, uma decisão tão importante que traria grandes alterações na rotina dos meus dias. Como em qualquer escolha, havia expectativa de ganhos e riscos de perdas. Loureiro ponderou: “A minha opinião, assim como a de qualquer outra pessoa, não irá ajudar muito”. Eu quis saber a razão, ele explicou: “Se você quisesse se tornar um sapateiro, eu poderia detalhar sobre o ofício, alguns cuidados necessários para não incorrer em erros comuns a quem inicia em um negócio que desconhece. Porém, jamais poderia dizer se seria a decisão certa. O fato de eu amar o que faço não significa necessariamente um caminho a ser trilhado por você, tampouco se aquilo que considero um bom negócio seria interpretado da mesma maneira”. Deu de ombros e comentou: “Enfim, em certos momentos, por mais bem intencionada que seja a opinião dos amigos, de nenhuma valia terá. A razão é simples. Quando você precisa da certeza de outras pessoas para afastar as suas dúvidas, significa que a hora da decisão ainda não chegou”.

Em seguida, esclareceu: “Equivale dizer que você não está maduro para as inevitáveis consequências da mudança. Existem os questionamentos para se conhecer mais sobre o negócio, que são de muita valia. No entanto, há as perguntas para que alguém possa preencher os vazios da sua certeza; estas não terão nenhuma serventia. Por mais que eu queira ajudar, não conseguirei. Trata-se de algo que ninguém pode fazer por ninguém. Quando acredito que a convicção de alguém teve força para afastar a minha dúvida, significa que ainda não entendi o meu poder nem o compromisso que tenho comigo. Entregar o processo de construção das certezas é como decidir sem fazer escolhas; sem perceber deixo de viver as minhas próprias verdades para me conduzir pelas verdades alheias. Um engano que faz com que a minha vida escape do meu controle”. Bebeu um gole de café e vaticinou: “Se você estivesse pronto para a decisão, teria me comunicado; jamais perguntado a minha opinião”. 

Argumentei que a opinião de um amigo, mormente de alguém que admiramos, pode nos mostrar vieses que nunca atentamos. Ele discordou: “Aparentemente, sim. Em profundidade, nem sempre. O ponto de vista de uma pessoa pode não representar o melhor entendimento da realidade, pois, não raro, traz a influência dos medos e frustações ou dos delírios e desejos, sem que haja qualquer má-fé por parte dela. Embora as intenções sejam boas, o resultado será vazio. Se a decisão não é impulsionada pela verdade estruturada nos meus princípios, valores, experiência e olhar, ela não será minha, mas da outra pessoa. Longe da minha verdade fico distante de quem sou e impossibilitado de me tornar quem posso ser. Quando sigo a rota que escolheram para mim, percorro uma estrada que não chegará a lugar nenhum”.

Loureiro se valeu das metáforas que eu havia oferecido: “Vidas assim são como prédios mal construídos, com evidentes erros de cálculos em seus alicerces. Não servem para abrigar a alma com segurança, mas usados no intuito de esconder as responsabilidades e compromisso evolutivos. Por serem erguidos sobre pilares das verdades que, em verdade, nada tem de verdade, assistimos a tantos desabamentos. Em alguns casos, como se leves tremores tivessem a fúria de terremotos”. 

Fez uma pausa e prosseguiu: “As minhas decepções e amarguras podem impedir alguém de fazer um bom negócio; de outra face, as minhas irresponsabilidades e delírios talvez indiquem uma estrada que levará essa pessoa ao precipício. Tudo na melhor das intenções”. Franziu a sobrancelha, como fazia quando escalava o tom da seriedade, e afirmou: “Sua vida, suas verdades. Nenhuma outra cabe no lugar”.

Eu iria retrucar quando fomos interrompidos pela entrada de um dos sobrinhos do sapateiro. Miguel, como se chamava, era um homem bonito, de ombros largos, com cabelo e barba ruivos, olhos esverdeados que ofereciam uma interessante palheta de cores ao seu rosto. Com cerca de trinta anos de idade, era um profissional bem sucedido. Casara-se cedo, logo após se diplomar em Economia. Morava em uma movimentada metrópole a cerca de duas horas da pacata cidade onde residia a sua mãe e abrigava a oficina do sapateiro. Explicou que a esposa não o acompanhara daquela vez, pois ele tinha tirado uns dias de folga para reflexões. Confessou que estava infeliz no casamento. Pareciam dois estranhos em uma mesma casa. Acreditava ter chegado a hora da separação. Queria ouvir a opinião do tio. Sem nada dizer, me espantei pela sincronicidade. 

Miguel disse que já tinha conversado com a esposa várias vezes sem qualquer melhora no relacionamento. Estavam em um beco sem saída; o jeito seria cada um ir para um lado, afirmou. Loureiro o fez pensar sobre as próprias palavras: “Se é um beco sem saída, não tem como cada para um ir para lado. Terão que retornar juntos por onde entraram”.

O sobrinho ficou um breve tempo em silêncio. Havia algo no raciocínio do tio que o desconcertara. Depois de se recompor, disse que talvez tivesse se expressado mal. Na realidade, estavam como na bifurcação de uma estrada. Não havia acordo para qual lado seguir. Melhor seria cada um seguir para uma direção, falou em tom de lamento. O sapateiro ponderou: “Isso não os impede de desejar o mesmo destino. Se quiserem chegar ao mesmo lugar, não há razão para seguirem separados, mas de escolherem uma rota que possa se adequar a ambos”. O sobrinho quis saber se o tio aconselhava que mantivesse o casamento. Loureiro explicou: “Não falei isso. Tampouco disse o contrário”. 

Miguel abriu os braços como quem expressa nada ter entendido. O sapateiro esclareceu: “Uso as suas palavras para lhe mostrar o quanto está perdido. Ninguém encontra um rumo antes de encontrar consigo mesmo”. Miguel disse que este era o motivo pelo qual viera solicitar a opinião do tio. Loureiro o surpreendeu: “Não se ajuda quem está perdido mostrando uma direção para andar; sair do lugar não significa já possuir uma rota. Muitos caminham em círculos na ilusão de que o movimento os conduzirá para algum destino. Um engano muito comum”. O sobrinho quis saber se o tio iria ajudá-lo. O sapateiro explicou: “Posso mostrar um mapa para que entenda onde está. Nada mais. Encontrar-se é a preparação indispensável e anterior a qualquer decisão; escolher no mapa para que lado seguir, a fase seguinte. Em ambas as etapas será fundamental aprender a ouvir a voz da alma, o seu mais poderoso conselheiro, quem melhor conhece as suas verdades”. 

Miguel argumentou que a separação era única solução. Estava insuportável morar na mesma casa e ter uma vida em comum com uma mulher que não mais reconhecia como esposa. Não aguentava mais viver assim. Seria a melhor decisão. Loureiro balançou a cabeça e disse: “Então, faça isso”. Depois de um breve silêncio, o sobrinho ponderou que os filhos ainda eram pequenos. Sofreriam bastante. Não suportaria causar tamanha dor àqueles que tanto amava. Talvez fosse mais aconselhável esperar que iniciassem a adolescência, quando saberiam lidar melhor com a ruptura. O sapateiro passou as mãos nos seus fartos cabelos brancos, como se os penteasse, e falou: “Então, faça isso”.

Irritado e confuso, Miguel disse não entender a razão de o tio se comportar daquela maneira. Loureiro tentou explicar: “Se você não sabe o que é melhor para a sua vida, ninguém poderá ajudá-lo. Posso ajudar a consertar as velas do barco, nunca decidir o destino da viagem da qual não sou comandante nem passageiro”.

Os olhos do Miguel procuraram pelos meus em busca de ajuda. Fiz um simples menear com a cabeça, o suficiente para ele entender que em nada eu poderia auxiliar. Naquele momento compreendi a minha própria situação. Quando não estamos firmes quanto a decisão que tomaremos, significa que a verdade ainda está crua para sustentar uma escolha. De outra face, se a deixarmos no formo por demasiado tempo, ela irá queimar, sem servir de alimento. A hora da decisão é disciplina obrigatória no colégio dos sábios. 

Sem esconder a sua insatisfação, o sobrinho usou um tom visivelmente sarcástico para agradecer a conversa, girou nos calcanhares e foi embora. Sem trocarmos palavra, Loureiro e eu concordávamos que Miguel recebera a melhor ajuda. Um dia entenderia. Sugeri uma nova rodada de café fresco para iniciarmos outra prosa. Quando o sapateiro retornou com o bule, após encher as canecas, fomos surpreendidos pela chegada de Lorena, a sua filha caçula. A moça trazia uma inusitada e contagiante alegria no olhar. Após nos cumprimentar de maneira meiga, disse que precisava conversar com o pai. Falei que estava na hora de ir para estação, senão eu perderia o embarque. Com um sorriso travesso, ela disse que o trem ainda demoraria algumas horas. Apontou para o café ainda fumegante na caneca, como se dissesse para eu o saborear com calma. Passou para o outro lado do pesado balcão de madeira, se sentou ao lado do pai e contou que tinha pedido demissão do emprego. Desde que se formara como programadora de softwares, Lorena trabalhara como contratada para dar suporte a um conhecido site especializado em vender artigos femininos de diversas marcas famosas. Um emprego estável e com ótimo salário. 

A moça disse ao pai que aprendera bastante, juntara algum dinheiro e que chegara a hora de seguir por outro caminho para manter o sentido que traçara para a sua vida. Loureiro arqueou os lábios em leve sorriso. A filha indagou o motivo do sorriso. O pai explicou: “Sim, é verdade. Como em uma viagem de longa distância, na qual temos de fazer muitas conexões para chegar ao destino, durante a jornada existencial temos de mudar a rota várias vezes para não sairmos do rumo. Poucos aceitam que o destino se apresenta e se modifica durante a viagem”.

Animada, Lorena explicou que montaria uma pequena empresa que, no início, funcionaria em seu próprio apartamento. Ao lado de uma amiga médica, criariam um aplicativo de celular que monitoraria, em tempo real, pacientes com graves problemas cardíacos. Através de um minúsculo chip implantado na pele próximo ao coração, por bluetooth, as informações seriam repassadas ao celular do paciente que, por sua vez, faria a transmissão dos dados ao telefone do cardiologista, emitindo um alerta na hipótese de o programa identificar alguma anomalia. O aplicativo seria vendido por um preço irrisório. Porém, como milhões de pessoas são acometidas por enfermidades do coração, acreditava se tratar de um bom negócio, tanto para elas quanto para os usuários do sistema. 

Loureiro perguntou se a filha tinha certeza sobre a escolha que fazia. “Absoluta”, respondeu a moça com serenidade. Ele lembrou das dificuldades inerentes às mudanças de rotas, que embora levem a impensadas paisagens e conduzam a conquistas fundamentais, oferecem perigos desconhecidos. E fez um aviso: “Prepare-se para o improvável. Não há como evitá-lo. Tudo pode acontecer”. Percebi que as palavras de Loureiro não eram de desencorajamento, mas tinham o intuito de testar a força e o equilíbrio da jovem, indispensáveis para uma decisão tão angular. A filha disse não restar em si nenhuma dúvida. Havia firmeza e suavidade no tom da sua voz. Sim, ela estava pronta. Lorena perguntou se o pai tinha mais alguma coisa a acrescentar. Ele disse: “Continue no comando das suas escolhas. Isto lhe concede a magia da vida. No mais, nunca esqueça que sempre haverá alegria quando nos encantamos pelo lado bom de todos os problemas. Quem vive assim não conhece derrotas”. Eles se abraçaram com carinho. Ela sussurrou: “Muito obrigada, pai”. Vi um sorriso nos olhos do sapateiro quando respondeu à filha: “Estarei aqui sempre que precisar”. 

Com os olhos marejados, Lorena se despediu e partiu para a aventura necessária à vida. Levava na bagagem o poder da verdade. Da sua verdade.

A sós com o sapateiro, comentei que apenas não estava pronto para a decisão que precisava tomar quanto à minha vida profissional, como tinha aprendido que era a firmeza nos meus fundamentos, constituídos pelos valores que eu acreditava, que me permitiriam a firme conexão com quem eu sou; além de fornecer a força e o equilíbrio necessários para ir além de onde sempre estive. Somente assim, eu conquistaria o exato ponto de maturação para a indispensável mutação. Então, poderia decidir. Do contrário, era hora de esperar. A ansiedade, uma evidente inadequação ao tempo, à vida e à verdade, debilita a razão, embaralha sentimentos e emoções, enfraquece a coragem e abre espaço para o desequilíbrio. De outra face, que eu me mantivesse atento, para não deixar que o medo me fizesse perder a hora da decisão.

Loureiro esvaziou a caneca de café e pontuou: “Cada decisão equivale a uma das conexões da Grande Viagem. Para que possamos manter o rumo ao destino, as rotas precisam de inúmeros ajustes, à medida que o entendimento e as necessidades se modificam. Compreender a hora da decisão equivale se tornar senhor de si mesmo”.

Discussões — 5 Respostas

  • MARCELLO MELLO SCHWEITZER 20 de julho de 2021 on 15:29

    Que linda dupla estoria sobre a importância da decisão. Genial a metáfora do fogão.

    Amei.

  • Mariseh 17 de julho de 2021 on 08:28

    Gratidão sempre!!!

  • @Jotaerre.7 16 de julho de 2021 on 21:54

    Gratidão por tanto 🙌🙌

  • Terumi 16 de julho de 2021 on 20:05

    Gratidão 🙏

  • Fernando 15 de julho de 2021 on 10:11

    Gratidão profunda e sem fim…🍀