Na sua fraqueza se esconde a sua força

Sinto-me muito bem nas montanhas do Arizona. Talvez por todas as oportunidades de aprendizado que tive com Canção Estrelada, o xamã que tinha o dom de ensinar a filosofia ancestral do seu povo através das palavras e da música. Sentir-se bem nem sempre significa estar confortável. Tentarei explicar. Sentado na cadeira de balanço, na varanda da sua casa, ele baforava o indefectível cachimbo com fornilho de pedra vermelha, enquanto ouvia os meus lamentos. Eu não queria mais me irritar, tampouco me magoar, com o comportamento de outras pessoas. Nenhum poder tenho, nem quero ter, sobre ninguém. Que cada um fosse do jeito que quisesse, a mim bastaria fazer as escolhas concernentes à minha vida e seguir em frente. O Caminho é personalíssimo; a jornada é intransferível. Contudo, apesar de saber, eu não conseguia. Todas as vezes que alguma contrariedade acontecia, eu me via dominado pela irritação ou pelo ressentimento; então, a minha luz arrefecia. A irritação e o ressentimento são subtipos do ódio. Enquanto nossas sombras não estiverem devidamente pacificadas, sempre haverá o risco de um transbordamento todas as vezes que forem provocadas por algum acontecimento. Sob o falso argumento de que elas servem para nos proteger, ficamos vulneráveis e suscetíveis a entrar em faixas vibratórias densas em razão do desequilíbrio que provocam. Ficamos muito mal. Quando ainda imaturo, o ego precisa de aceitação e reverência, mesmo que disfarçadas por nomenclaturas diversas e raciocínios tortuosos. Eu também sabia de tudo isso. E não mais queria, pois, enquanto estivessem presentes, significaria que eu ainda não me tornara senhor de mim. Portanto, nada possuía. 

Todos os dias, em breves cerimoniais matinais, eu assumia o compromisso de superar essas dificuldades. As oportunidades me eram oferecidas, mas eu sucumbia diante de situações que me levavam a constantes desequilíbrios emocionais, manifestados em irritação e mágoa. Embora não mais brigasse com os outros, restava um gosto amargo no meu coração. Confessei que estava preste a desistir dessa conquista. O xamã disse sim com a cabeça e aconselhou em tom de murmuro: “Faça isso”. 

Surpreendido, falei que não esperava aquela resposta. Ele retrucou: “Se veio ouvir a orientação que já conhecia, a viagem até Sedona foi somente um passeio e esta conversa se mostrará desnecessária”. Argumentei que viajara em busca de ajuda para transformar em mim algo que já entendia, mas não conseguia modificar. Se eu compreendesse o motivo, talvez conseguisse fazer diferente e me tornaria um indivíduo melhor. Canção Estrelada tentou explicar: “Você entende, porém, não aceita”. 

Não fazia sentido. Estava claro que eu entendia que a irritação e a mágoa me enfraqueciam por apagar a minha luz. Sentia-me envolvido em enorme mal-estar quando acontecia. Eu não queria mais esta sensação em meus dias. Assim, me parecia óbvio que eu não tinha qualquer problema em aceitar a minha dificuldade. Canção Estrelada estava errado.

O xamã baforou o cachimbo e disse: “Você ainda tem dificuldade em aceitar aquele a quem irá se tornar”. Como não aceito aquilo que quero? Nada mais absurdo, ponderei. Continuava sem fazer nenhum sentido o seu raciocínio. Disse isto ao meu amigo. Ele arqueou as sobrancelhas e falou com a sua voz rouca, em timbre de encantadora serenidade, típica de quem louva tanto o inverno quanto a primavera com a mesma alegria: “Por ora, é tudo que tenho”.

Contive a frustação de uma viagem desperdiçada. Canção Estrelada não poderia me ajudar daquela vez. Não, eu não estava irritado. A emoção corrosiva e incômoda pela qual fui tomado era apenas uma decepção em razão de razões que eu próprio desconhecia. Ao menos, assim justificava para mim a irritação que eu sentia, com todas as desculpas que costumamos nos permitir. São as insistentes trilhas sinuosas dos infinitos enganos. 

O breve silêncio foi interrompido por Nuslu, um simpático rapaz, vizinho do xamã. Como o nome sugeria, era grande e forte como um urso. Os cabelos negros e compridos emolduravam o rosto com os belos traços da etnia Navajo. Bastante inteligente, tinha um temperamento manso e meigo, embora nem sempre tivesse sido assim. Tornara-se uma pessoa simpática e agradável de conviver. Avisou que iria a Flagstaff, uma cidade com maiores recursos, a cerca de uma hora de Sedona. Queria saber se precisávamos de algo. Além de um lindo passeio, seria uma maneira de interromper o constrangimento que a conversa com Canção Estrelada me causara. Perguntei se poderia ir junto. Nuslu sorriu e fez um gesto com a mão para eu acompanhá-lo.   

Após as compras, o rapaz sugeriu que fôssemos tomar uma cerveja no bairro histórico da cidade, por onde passa a lendária Rota 66, emblemática para os movimentos culturais dos anos 1960. Enquanto ele manobrava para estacionar o carro, um motociclista se adiantou para ocupar a mesma vaga. Nuslu freou para evitar um acidente. A motocicleta ficou com a vaga. Um abuso, exclamei irritado. Ele se limitou a sorrir e estacionou mais adiante. No bar, sentamo-nos nos bancos em frente ao balcão. Ao lado, não por acaso, estava o motociclista acompanhado da namorada. Nuslu tinha o dobro do seu tamanho. Conversávamos enquanto aguardávamos as cervejas. Quando o barman nos serviu, o motociclista apanhou os copos, sob alegação que aqueles eram dele. Nuslu fez um gesto para que ficasse à vontade. O funcionário do bar acompanhou o ocorrido e se apressou para nos servir. Com um movimento de cabeça, agradeceu a postura do meu amigo, evitando que uma confusão se formasse. Embora eu também não desejasse qualquer briga, fiquei irritado com a situação. Somente toquei no assunto no trajeto de volta a Sedona. Lembrei do comportamento do motociclista e comentei como seria fácil para Nuslu dar-lhe uma merecida surra. Sem tirar os olhos da estrada, o rapaz arqueou os lábios em leve sorriso e disse: “Não seria nem um pouco difícil, mas não seria eu o vencedor. Seriam os meus demônios. Hoje, eu os derrotei”. 

Questionei se, mesmo sem reagir de modo agressivo, ele não se irritou com o motociclista. Nuslu explicou: “Se eu o olhasse como um adversário, seria tomado por ódio. Aprendi a aceitar essas pessoas como mestres involuntários. Embora não saibam, são. Eles são fundamentais para que eu me torne uma pessoa melhor. Ao instigarem as minhas sombras, surge a necessidade de iluminá-las para que não me dominem. Isto me leva a intensificar a minha própria luz. Assim, a cada dificuldade oferecida, me torno mais forte e equilibrado. Então, os agradeço pela maravilhosa oportunidade de superação oferecida”. 

Apesar de me encantar com o seu comportamento, expliquei que no bairro carioca no qual fora criado, aquele comportamento seria classificado como covardia. Nuslu ficaria desmoralizado e mal falado. O jovem argumentou: “Não são os outros que estabelecem o meu padrão moral, tampouco as verdades que me orientam. Se deixar que façam isto, permito que definam quem eu sou. Não posso impedir que pensem ou que falem o que quiserem, mas posso impedir que as suas incompreensões e inadequações me dominem ou alcancem. O que me torna um homem livre não é a aprovação, concessão ou permissão de ninguém, mas a convicção e a coerência em me tornar quem quero ser”. Fez uma pausa antes de concluir: “Asas emprestadas não servem para voar”.

Chegamos em Sedona com a noite alta. Fui para o quarto. Foi uma noite movimentada por inúmeros pensamentos que, ora se abraçavam, ora se esbarravam. Eram diversas vozes. Somos muitos em um. Entender qual deles irá no guiar, define a alegria ou a amargura dos dias. 

Na manhã seguinte, comentei com Canção Estrelada sobre o ocorrido no bar. Confessei estar encantado com o comportamento de Nuslu que, não apenas evitou uma confusão, como não se deixou abalar com a atitude do motociclista. Ressaltei que, apesar da provocação, não havia medo nos olhos do rapaz. Ao contrário, eram admiráveis a calma e a firmeza demonstradas. Ficara claro que recusar o confronto não era uma fuga, mas um caminho. O xamã disse: “Nuslu mostrou ser um bravo guerreiro ao se negar a entrar na vibração enfermiça e perturbadora para qual foi convidado. Assim, permaneceu dono de si e se manteve em seu eixo de luz. Outra bela vitória; uma nova consagração na mais importante de todas as conquistas”.  

Falei que conseguiria não brigar com o motociclista, mas admiti que ficaria bastante irritado com a situação. Aliás, eu tinha ficado. Essa era a minha dificuldade, não conseguia aplicar o conhecimento à prática. Isto distingue o selvagem do guerreiro, o erudito do sábio. Não aceitar o conflito externo era o passo primordial, o qual eu já galgara. Não me permitir o conflito interno, que também me arrancava da luz, por restar envolvido em irritação, frustração ou mágoa, eu ainda estava distante de conseguir. Era uma sincera confissão.

Canção Estrelada voltou ao tema: “Entender é fundamental, mas não basta. Enquanto você não aceitar, não haverá conquista”. Falei que já confessara a minha dificuldade. Ele explicou: “Não me refiro a aceitação da dificuldade. Sim, este passo foi dado. Falo da aceitação em quem você irá se tornar”.

Falei que não tinha entendido. O xamã explicou: “Aceitar a transformação significa se encantar com um estilo de vida bem diferente, fora dos padrões nos quais você está acostumado. Ainda mais, diverso daquele que causa admiração em muitas pessoas ao seu redor. De início, isso causa enorme desconforto. Você se transformará em alguém que até bem pouco tempo não teria nem mesmo a sua própria admiração e, ainda hoje, não está pronto para ser. Este é o muro que o impede de prosseguir”.

Canção Estrelada continuou: “Considerar algo interessante não significa que o queira para mim. Muitos apreciam a quietude e a solidão necessárias a um sábio; poucos a querem para si. A maioria prefere os holofotes do palco a ressaltar o talento, o aplauso das críticas para afagar a imaturidade, a reverência do público para ter a inebriante sensação de superioridade. Não me refiro especificamente aos atores de teatro e da televisão. Todos, sem exceção, de diferentes maneiras, temos os nossos palcos pessoais onde adoramos brilhar. Em casa, no trabalho, na igreja, na rua, na roda de amigos, não importa o lugar. Vale o show. As contrariedades representam o cancelamento do espetáculo. Em alguns casos, as vaias do público. Ou, ainda mais grave, em determinadas situações, significa que outros atores invadiram o palco para se apossar da cena. Como se dissessem para mim que sou ineficiente ou decadente; a partir dali o protagonismo é deles. Ao menos, esta é a leitura que fazemos quando essas situações ocorrem. A irritação, frustação ou mágoa somente se fazem presentes porque me estruturei em valores de extrema fragilidade por estarem fora da minha legítima esfera de controle. Tamanhos desequilíbrios levam a inevitáveis quedas. Em alguns casos, há pessoas que se anulam por longo tempo”.

Sim, se houver sinceridade, não há como contestar que comportamentos assim, em diferentes escalas, são comuns a todos nós. Indaguei qual seria a solução. O xamã respondeu: “Abdicar do palco”. Falei que havia algum tempo que eu não mais fazia questão de estar em evidência. Ele retrucou: “Verdadeiramente, ninguém abriu mão do espetáculo enquanto sentir falta dos aplausos e das reverências. Muitos admiram a humildade dos sábios, mas poucos querem a vida simples deles. Muitos sabem que o orgulho e a vaidade devem ser erradicados de suas personalidades, mas poucos estão dispostos a abandonar as vantagens e o brilho provenientes de tais sombras. Entendemos a causa do problema, estamos dispostos a encontrar a solução, mas não aceitamos nos desfazer de todos os fatores da equação. Enfim, queremos a força e o equilíbrio da humildade, da clareza e da leveza provenientes da simplicidade, mas não estamos dispostos a abrir mão de algumas sensações de poder e brilho provenientes do orgulho e da vaidade. As contrariedades nada mais são do que a repulsa às vaias que apareceram no lugar dos elogios que esperávamos. Abdicamos do palco, mas sentimos falta dos aplausos. Ao mesmo tempo que se deseja a cura, subsiste a paixão pelos prazeres que conduziram à enfermidade. Uma contradição escolhida, não há que se espantar por tantos conflitos, dentro e fora de si mesmo”.

Franziu as sobrancelhas e disse: “Quero a vida do mocinho sem deixar de ter as facilidades do bandido; quero a paz do monge sem deixar de me tornar dono do mundo. Enfim, isto significa entender, mas não aceitar. Ficamos no meio do caminho, nem lá nem cá; deixo de ser sem nada me tornar; não quero mais aquele, mas sinto falta dele. Minhas contradições me anulam, me enfraquecem e me desequilibram. Sofro”.  

Admiti que estava perdido. Eu não sabia qual movimento fazer para aceitar a transformação que já havia entendido necessária. Canção Estrelada me ajudou: “Na sua fraqueza se esconde a sua força”. 

Fez uma pausa para que eu concatenasse aos poucos a ideia e acrescentou: “Apesar de não gostar das velhas roupas, você ainda as guarda”. Pedi para ele explicar melhor. Ele foi direto ao ponto: “Você abomina o orgulho, mas não consegue vestir o manto da humildade. Uma virtude que será impedida de se manifestar por falta de espaço em sua consciência, ainda ocupado pelos resquícios da equivocada equivalência dessa virtude com fraqueza, incapacidade, submissão e covardia. Por mais aguardada que seja, nenhum dos benefícios da transformação será possível enquanto o ciclo da renovação não se completar. Somente ao se sentir confortável nas roupas que sempre considerou como a vestimenta dos fracos, você conquistará a sua verdadeira força. O mais bravo dos guerreiros é aquele que não foge de si mesmo”. 

Em seguida, concluiu: “Do contrário, restarão as contradições de quem fica no meio de dois caminhos. Você já descobriu o valor da humildade, mas ainda não conquistou o seu poder. Para tanto, terá de romper a casca que impede a essência dessa virtude germinar. Será necessário virar as suas fantasias pelo avesso para encontrar o pedaço que nunca aceitou. Não há como ser inteiro enquanto faltar um único fragmento. Acredite, a parte que incomoda é justamente aquela que se tornará o seu novo centro de força. A ausência da parte enfraquece o todo. Logo, o equilíbrio que falta está na parte rejeitada. Não tenha vergonha de se olhar no espelho da simplicidade. Admita as mentiras para conquistar a verdade. Tenha compaixão pelos seus enganos. Você merece o seu perdão. Todos merecemos. Ninguém precisa de personagens; sempre haverá beleza bastante em ser quem se é. Aceitar esta verdade permite a maior de todas transformações”. 

Fiquei um tempo que não sei precisar sem dizer palavra. Canção Estrelada se levantou e disse que daria uma volta. Eu precisava de silêncio e quietude. Aos poucos, as ideias encontravam um lugar para morar em mim. Era como se eu abrisse as gavetas da consciência para substituir as roupas que não mais queria usar por outras mais adequadas a um novo estilo de vida. A alma se veste com ideias e sentimentos. 

Se eu quisesse a força, o equilíbrio e a lucidez proporcionadas pela humildade, simplicidade e compaixão, não poderia mais me importar com o menosprezo com que muitas pessoas passariam a me olhar, com o desprezo por me considerarem fraco, perdido ou desequilibrado. Tampouco me deixar atingir com as reações adversas que, porventura, ainda que sem nenhuma intenção, o meu jeito de ser poderia lhes provocar. Eu sabia onde estava, aquilo que buscava e onde queria chegar. Eu sabia quem eu queria me tornar. Aceitar todas as consequências de uma escolha significa maturidade. Sem ela, todo caminho é incerto. A liberdade não se sustenta sem os pilares da própria verdade. Do contrário, mesmo que tenha algum brilho, jamais terei luz; serei alguém, nunca eu mesmo.

Quando Canção Estrelada retornou, comentei sobre as minhas reflexões e resoluções. Foi preciso esmiuçar a fraqueza para encontrar o esconderijo da força. A fonte do genuíno equilíbrio. Ao contrário do que muitos acreditam, o verdadeiro poder é de extrema leveza. Aceitar isto era a dificuldade que me impedia de prosseguir. Ele arqueou os lábios em leve sorriso e retirou de dentro da bolsa de couro, que usava a tiracolo, uma pequena caixa. Era um presente. Havia um cachimbo com fornilho de pedra vermelha para mim. Perguntei a razão de, após tantos anos de amizade, somente então ele me presentear com aquele objeto ritualístico. O xamã explicou: “De acordo com a tradição dos meus ancestrais, não se entrega o cachimbo sagrado ao homem errado”. Questionei o que me tornava o homem certo. Ele finalizou a lição: “Aquele que ainda não aceitou a suavidade da força nada sabe sobre a luz. O poder não está na capacidade destruidora dos estilingues, mas na fantástica leveza das asas”. 

Discussões — 5 Respostas

  • Terumi 8 de agosto de 2021 on 22:39

    Gratidão 🙏

  • Fernando 28 de julho de 2021 on 16:16

    Gratidão profunda e sem fim irmão amado, sem fim…

  • MARCELLO MELLO SCHWEITZER 28 de julho de 2021 on 15:05

    Quando aprendermos amar nossa ideia de fraqueza, vamos finalmente entender que não existe fraqueza e sim o orgulho dos sentimentos ruins, que teimamos em alimentar.

    Outra linda peça para o lindo quebra cabeça da vida.

    amei.

  • Natália 27 de julho de 2021 on 23:35

    Olá. Sigo esse site já há algum tempo. Gostaria de saber mais sobre o autor. Não encontrei uma conta nas redes sociais.
    As histórias escritas aqui são vividas ou fictícias?
    Por fim, agradeço por compartilha-las aqui. Elas me ajudam em momentos de incerteza da vida.

  • Pablo 27 de julho de 2021 on 22:46

    Cómo siempre, muy bueno, gracias!!!