TAO TE CHING, o romance (A mandala – O início)

A MANDALA – O INÍCIO

Quando eu demonstrei interesse em aprofundar os meus estudos sobre a Filosofia Oriental, fui aconselhado pelo Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo do mosteiro, a procurar Li Tzu, um mestre taoísta que ele havia conhecido na época em que ambos, ainda jovens, estudaram na mesma universidade, na Inglaterra. Embora fizessem cursos diferentes, havia muitas afinidades em comum. A amizade amadureceu e prosseguiu mesmo após o término da faculdade, apesar da distância que os separava. Em determinados momentos das suas existências, ambos decidiram se dedicar integralmente à filosofia e a metafísica. Porém, por vieses distintos. “Existe um ponto onde o Ocidente e o Oriente se encontram”, explicou o monge. “Este lugar é conhecido por diversos nomes; eu o chamo de Verdade. Para se chegar nele é preciso percorrer o Caminho. Li Tzu é a pessoa certa para o orientar através do Tao Te Ching, uma via evolutiva igual e diferente ao Sermão da Montanha”, texto que servia de eixo dorsal aos estudos da Ordem. Em seguida, alertou: “Todos os livros sagrados são igualmente valiosos e importantes, no entanto, são apenas mapas. Conhecer as palavras não levará ninguém a lugar nenhum. Para se chegar ao destino se faz indispensável, a cada movimento, usar o conhecimento adquirido durante a viagem”. 

Assim, cheguei na pequena vila chinesa localizada próxima ao Himalaia. Desci do ônibus na praça em frente a única hospedaria do lugar. Após deixar a mochila no quarto, procurei pela casa de Li Tzu. Não foi difícil encontrá-la. O portão estava sempre aberto; vinham alunos de todos os cantos do mundo para estudar com o mestre taoísta. Atravessei um encantador jardim de bonsais, enquanto fui envolvido por agradável perfume de incenso e uma música suave que tocava ao longe. Levava debaixo do braço uma edição do Tao Te Ching traduzida para a língua portuguesa. Aguardei que terminasse a aula e os alunos se despedissem para me apresentar a ele. A sós, Li Tzu se mostrou alegre por ter notícias do Velho e me convidou para um chá. Acomodados na mesa da cozinha, aguardávamos a infusão das ervas enquanto conversávamos. Ele era um homem gentil e muito delicado, de aparência franzina, estatura baixa, voz suave e feições serenas. Uma aparência incompatível com uma força poderosa e improvável que exalava. Um poder manso, incapaz de fazer qualquer mal, mas possível de realizar todo o bem. 

Humilde e simples, mostrava atenção e interesse sinceros às minhas palavras. Comentei que os anos 1960, período em que o Velho e ele cursaram a universidade, tinha sido uma época de grandes mudanças comportamentais. Li Tzu deu de ombros e disse: “Poucos aproveitaram aquele movimento. Apenas quem conseguiu entender as oportunidades de transformação disponibilizadas. A maioria tem na lembrança somente os dias agitados e divertidos. Assim são todos os dias, quando vamos dormir do mesmo tamanho em que acordamos”. Aproveitei para dizer que estava lá para aprender sobre o Tao Te Ching com ele. Eu queria ser eu mesmo, mas outro, alguém diferente e melhor, quando retornasse para casa. Mostrei a minha edição do Tao Te Ching e confessei que os poemas, embora fossem encantadores, deixavam a sensação de que não tinham sido complemente entendidos. Falei que alguns versos eram muito enigmáticos, a ponto de parecerem sem sentido. Li Tzu ponderou: “Muitos livros contêm a mesma sabedoria deixada por Lao Tsé. Alguns com uma narrativa mais acessível ao jeito de pensar ocidental. Para se transformar não precisava ter viajado para tão longe. Todos os lugares são perfeitos para isso e vários outros textos têm o mesmo propósito e alcance. O Caminho está onde o andarilho mora; o sagrado está disfarçado no cotidiano, o tesouro está oculto no corriqueiro, o profundo está escondido nas coisas simples, o amplo ilude como estreito, o grande se mostra pequeno”. Fez uma pausa e me surpreendeu: “No mais, eu não poderei ensinar o Tao a você. Os alunos que você encontrou aqui em casa já estão bem adiantados em seus estudos. Não seria possível, nos próximos meses, iniciar o livro contigo. Retorne no ano que vem. Peço desculpas por não conseguir atendê-lo”.

Era impossível ficar chateado com Li Tzu tamanha era a sua delicadeza no trato pessoal. Eu estava decepcionado, pois, pelo visto, tinha vindo do outro lado do planeta para somente tomar uma xícara de chá e conversar uns poucos minutos com o mestre taoísta. Já entardecia quando saí da sua casa. Foi uma noite sem sono. No dia seguinte, antes de amanhecer, retornei à casa de Li Tzu. Ele terminava os seus exercícios de ioga e tornou a me convidar para um chá. Quando insisti para que me aceitasse como aprendiz, ainda que frequentasse o curso já em andamento, Meia-noite, o gato negro que também morava na casa, bocejou deitado em cima da geladeira. Rimos. Li Tzu explicou que seria contraproducente, pois, por me faltarem os fundamentos teóricos ensinados nos poemas iniciais, eu teria dificuldade para acompanhar a turma. Mais uma vez, me aconselhou a retornar no ano seguinte, quando ele iniciaria um novo curso. Argumentei que me deixasse tentar, ao menos para justificar a minha longa viagem até a China. Ele deu de ombros e permitiu com um movimento de cabeça, sem dizer palavra. Após três dias, foi inegável dar razão ao mestre taoísta. Nenhum aprendizado, tempo desperdiçado.

Tornei a voltar na manhã seguinte. Li Tzu sorriu ao me ver. Antes que ele falasse algo, me adiantei para dizer que eu não desistiria. O mestre taoísta parecia se divertir comigo e comentou: “Bata à porta e ela se abrirá”. Eu disse que aquele era um dos versos de um trecho do Sermão da Montanha. Ele concordou: “Esse valioso texto contém todo conhecimento que um sábio necessita para suavizar a aspereza da existência. É a quintessência da sabedoria ocidental”. Questionei a razão pela qual o Velho teria me mandado estudar o Tao, uma vez que tudo aquilo que eu precisava saber já era abordado no mosteiro. Li Tzu explicou: “O pensamento ocidental é mais ligado à percepção, pois as suas bases aristotélicas nos falam da codificação de significados para todas as coisas como método para se apossar do conhecimento. Enfim, as definições se tornam necessárias para o equacionamento das ideias. O pensamento oriental fala mais à sensibilidade, de maneira que o significado é sensorial e intuitivo, pois é elemento atuante de uma experiência integradora. Assim, é arrebatado pelo encantamento que revela e só depois explica”. 

Perguntei qual das vertentes filosóficas ele considerava superior. “Nenhuma delas”, respondeu. “Em verdade, são complementares. A razão permite a amplitude; o sentimento concede a profundidade. Somente movimentos simultâneos nesses dois sentidos permitirá o florescimento do espírito. Assim é o Caminho”. 

Ele prosseguiu: “Seria como perguntar se maior valor teria a oração ou a meditação. Enquanto uma permite a sua sintonia com as esferas mais sutis, a outra faz a conexão indispensável consigo mesmo. Portanto, também são complementares. Tudo que está no mundo pertence a vida e, quando bem aproveitado, serve de instrumento evolutivo”. 

Segui frequentando as aulas, sem qualquer avanço significativo, até que, sem me dar conta, ao chegar na casa de Li Tzu no horário habitual, notei que não havia nenhum outro aluno. Era domingo. O mestre taoísta cuidava dos bonsais e sorriu ao perceber a minha confusão. Falou que tinha uma surpresa para mim. Considerei que fosse apenas uma gentileza típica de uma pessoa boa. Para o meu espanto, ele disse que estava disposto a me ensinar o Tao Te Ching, o Livro do Caminho e da Virtude. 

Li Tzu esclareceu: “O Caminho se apresenta conforme as virtudes do andarilho”. Fez uma breve pausa e prosseguiu: “A vontade é o vento que faz o barco avançar”. Acrescentou que, por eu mostrar uma disposição inquebrantável para aprender, ele me aceitaria como aprendiz. Alertou-me que usaria um método heterodoxo. Questionou se eu estava disposto. Aceitei de imediato. Então, pediu que eu o acompanhasse à sala de meditação. Colocou uma música suave e acendeu um incenso. Depois, me orientou a fechar os olhos e, em oração, rogou para que os mestres e guardiões de todos os oitenta e um limiares do Tao me iluminassem e protegessem durante aquela jornada. Em seguida, pediu para eu me esquecer de todas as coisas e problemas que houvesse no mundo para me concentrar e me deixar conduzir pelas suas palavras. Alertou que eu não deveria duvidar das imagens que se formariam na minha mente. Por mais absurdas que pudessem parecer, eram absolutamente reais. Disse, também, que todas as vezes que o meu coração descompassasse, eu deveria me acalmar, sem afobação nem pressa, para não encerrar a viagem antes da hora. 

De início pediu para eu me concentrar somente na música. Passado algum tempo, pediu para eu visualizar uma enorme e colorida mandala que se apresentava à minha frente. Que eu não me apressasse; ela estava na minha mente; bastava procurá-la com calma. Com os olhos sempre fechados, balancei a cabeça em anuência. Disse para eu fazer um sinal quando a encontrasse. Não demorou muito, a mandala surgiu, girando como um cata-vento. Sorri. Ele avisou que iríamos atravessá-la juntos; a única coisa que poderia me impedir era o medo. Garantiu que eu estaria seguro se nada temesse e confiasse integralmente em mim mesmo, onde eu sempre encontraria toda a luz para afastar qualquer escuridão. Tornei a balançar a cabeça e pude ver Li Tzu diante da mandala violeta, azul, vermelha, rosa e dourada. Numa fração de segundo me vi ao lado do mestre taoísta. Naquele momento não achei estranho o fato de eu estar vendo a mim mesmo, como se fosse o personagem de um filme. Não, não era um filme nem nada parecido. Eu sabia que era real. Bizarro, mas real.

O mestre taoísta orientou: “Agora, atravesse pelo meio da mandala. Ali existe uma passagem multidimensional para o inconsciente coletivo, uma parte da psique de uma pessoa que é comum a todas as demais pessoas que estão e estiveram no planeta desde tempos imemoriais. Um lugar onde todo o conteúdo psíquico da humanidade está armazenado, tanto a parte que deriva das sombras, como o medo, a opressão e o sofrimento, quanto aquela que motiva todas virtudes, nos conduz a Luz e nos ensina sobre o amor. Assim como todas as pessoas, você determinará de qual lado da estrada viajará”.

Em seguida, perguntou: “Quando você aprendeu sobre o medo ou sobre o amor?”. Sacudi a cabeça para dizer que não lembrava. Li Tzu acrescentou: “Ninguém lembra. Conhecemos o medo e o amor desde sempre, pois são faces de pouca percepção e muita sensibilidade no inconsciente coletivo. Portanto, ainda de difícil entendimento”. 

Franziu as sobrancelhas e disse com seriedade: “O movimento da evolução se traduz pelo Yin e pelo Yang. Yang é a expansão da ideia no indivíduo para além das próprias fronteiras da mente. Ao ultrapassar o limite consolidado, é como se a consciência se fragmentasse, abrindo um portal para o inconsciente trazer à tona, ou seja, ao consciente, uma preciosa parte desconhecida de si mesmo. Como se a fronteira pessoal se expandisse, ao permitir que se vá onde nunca se esteve. Faz-se necessário consolidar esses novos alcances de percepção e sensibilidade na formação do novo momento consciencial. Para tanto, será preciso contrair-se para unificar essas novas partes. Este é o movimento Yin, que terá a função de elaborar e transmutar um conceito em outro, para que seja agregado ao ser e aplicado no viver. Em seguida, retornará ao Yang, usando as relações existenciais, não apenas para lapidar a transformação, mas também em busca de outros inusitados conteúdos até que o façam entrar mais uma vez em ebulição. Então, em movimento Yin, voltará ao interior de si mesmo para o amadurecimento dessa última experiência, em infinitos ciclos de semeadura e florescimento”.

Ele continuou: “Viajaremos por uma estrada de muitas bifurcações. Na dúvida, siga sempre na direção por onde o amor indicar. Acredite, nada se perde por amor. Não se preocupe em entender o funcionamento de todas as coisas, porém, esteja atento aos significados de cada acontecimento. O Caminho não está em lugar nenhum, mas está em todos os lugares, você entende o que eu digo?”. Respondi que sim e acrescentei com convicção: “Não importa onde eu esteja, valiosas são as lições extraídas em todas as situações. O Caminho não é uma estrada física, que tenha medidas métricas, mas uma jornada percorrida pela consciência”. Sem dizer palavra, agradeci ao Velho por todo ensinamento oferecido no mosteiro. Li Tzu arqueou os lábios em um belo sorriso de aprovação e disse: “Vá!” e apontou para o centro da mandala. Ele não deixou espaço para qualquer hesitação e me lembrou do essencial: “Não tenha medo!”.

Eu fui.

Discussões — 6 Respostas

  • Fernando 26 de outubro de 2021 on 19:23

    ‘Não tenha medo…’

    Gratidão profunda e sem fim irmão das estrelas, sem fim…

  • Marcos 21 de outubro de 2021 on 21:32

    Gratidao

  • Thiago Stival 21 de outubro de 2021 on 09:37

    🙏

  • Haian 20 de outubro de 2021 on 10:55

    Que sua caminhada seja iluminada cada vez, obrigado.

  • Terumi 16 de outubro de 2021 on 23:36

    Gratidão 🙏

  • Karine Oliveira 15 de outubro de 2021 on 07:52

    Que bom ler esse texto, neste momento. Tinha vindo à página nas última semanas e percebido que havia uma lacuna na publicação, sempre tão precisa. Mentalizei que não fosse nada que o impedisse de seguir e desejei que você ficasse bem. Seus escritos parecem, desde julho de 2019, escritos para mim praticamente cada vez que os leio. É como se as palavras se adequassem exatamente à situação que estou vivenciando no momento. E é assim, mais uma vez.Grata.