TAO TE CHING, o romance (Primeiro limiar – entender o Caminho)

PRIMEIRO LIMIAR – ENTENDER O CAMINHO

A luz é mais veloz que o som. Primeiro vi o céu azul em uma linda manhã de sol. O silêncio era absoluto. De um lado a grama verde, ainda molhada pelo orvalho da noite, com muitas montanhas ao fundo. De outro, um enorme muro de pedras; tão extenso que parecia sem fim. Também bastante alto; calculei que tivesse uns dez metros de altura e, pela dimensão dos robustos blocos de pedra, deveria ter boa largura. Em seguida, ouvi um burburinho e o barulho de ferramentas quebrando, cortando e deslocando pedras. Não vi Li Tzu. Não tenha medo,do contrário, a viagem será interrompida, lembrei do seu conselho e fui ao encontro de onde se originava o som. Não longe dali, ao contornar algumas curvas do muro, me deparei com homens trabalhando na sua construção. As ferramentas eram rudimentares. Dezenas, centenas, milhares, não sei precisar, não tinha como contar. Eram muitos. Todos com traços orientais em suas feições. Aproximei-me de um operário que media um bloco de pedras com uma régua de bambu. Ele me olhou e voltou a se concentrar no seu trabalho, como se a minha presença nada tivesse de estanho para ele. Sem saber se seria entendido por causa do idioma, arrisquei em perguntar o que erguiam. Acreditei se tratar do muro de um castelo. O homem, sem tirar os olhos da anotação que fazia, explicou: “Temos que impedir o retorno dos mongóis”. Era a Grande Muralha; eu estava na China Antiga, após a expulsão dos mongóis pelos Turbantes Vermelhos, um exército de camponeses que havia derrotado a poderosa máquina de guerra do Norte, em um resultado improvável se não fosse por um importante detalhe. Era a primeira vez na História que a pólvora tinha sido manipulada como arma, um fato que mudaria nos milênios seguintes o destino da humanidade. Era o início da Dinastia Ming, nome que significava Reinado da Luz. Tinha sido escolhido para contrastar com a escuridão representada pelo longo período de domínio e barbárie mongol.

Eu quis saber qual era a cidade mais próxima. “Verdadeé como a chamam após o fim da escuridão”. Acreditei que aquele nome tinha sido atribuído em razão do fim de uma época de dificuldades e perguntei como fazer para chegar até lá. “Siga reto, em frente, aprecie as paisagens sem se ater a elas, aprenda com cada passo e não lamente pelo que ficou para trás”, respondeu. Olhei para o horizonte; apenas uma cadeia de montanhas até onde a vista alcançava. “A Verdade fica longe daqui?”, indaguei. O operário me olhou como se eu perguntasse algo absurdo e falou: “O caminho que pode ser medido não é o Caminho da Verdade”. Falei que não tinha entendido e pedi para ele explicar melhor. O homem tornou a se concentrar nos seus afazeres e disse como quem fala o óbvio: “Nenhuma palavra substitui a Verdade aprendida no Caminho”. Voltou a olhar para mim, fez um gesto com a mão indicando para eu seguir em frente e aconselhou: “Para chegar à Verdade é preciso caminhar. Não se limite às palavras; aprenda no trato com todos aqueles que encontrar. Depois, escute a orientação da sua alma; não há outro jeito de se chegar à Verdade. Você conhecerá muitos sábios, mas a sua alma será sempre o seu único mestre”.

Sem entender, apontei para uma carroça que passava e roguei para me esclarecer se estrada era aquela. Ele deu de ombros e foi enigmático: “O Caminho para a Verdade é percorrido dentro e fora da gente. Simultaneamente. É preciso dar um passo dentro para, em seguida, dar outro fora. É impossível caminhar por um lado da estrada sem considerar o outro”.

Eu tentava absorver todas aquelas ideias para, em outro momento, entendê-las melhor. Atordoado, perguntei se havia outra pessoa que também se dirigisse rumo à Verdade. O homem respondeu: “Eu sigo para lá”. Eu quis saber se poderia acompanhá-lo. Facilitaria para mim, expliquei. Ele me olhou como se eu fosse uma criança e disse: “Impossível”, em seguida, explicou: “Se você me seguir não chegará à Verdade”. Em seguida, esclareceu: “Existe uma rota para cada pessoa. A estrada que me leva à Verdade não levará mais ninguém à Verdade”.  

Agradeci e, quando me afastava, o homem me chamou e disse: “Você não conseguirá enxergar onde está estrada enquanto não entender sobre o mistério e a essência. Somente depois poderá iniciar a caminhada”. Voltei e me sentei sobre um bloco de pedra ao seu lado. Ele explicou: “O mistério deu origem ao céu e a terra”. Falei que não tinha entendido; ele demonstrou paciência: “O mistério é o Todo; é a amplitude absoluta do universo, visto sob o prisma do infinito e em constante expansão. Vai além da última das estrelas. Portanto, desconhecido em sua vastidão. Ele não descansa, é como um artista que cria incessantemente”. Eu quis saber o que o mistério criava, o homem disse: “Ele criou a essência e, agora, segue criando o vazio”. 

Falei não entender a razão de se criar um vazio. O homem me olhou como se eu fosse desmiolado e questionou com espanto: “Se não houver o vazio, onde a essência se manifestará em obra? É indispensável que haja sempre um espaço disponível capaz suportar qualquer crescimento. Tudo o que tem limite, tem fim; então, acaba. O mistério é infinito porque sempre tem um vazio além dele. A criação não pode se esgotar. Criar-se a partir da própria essência é o fundamento da vida. A essência precisa criar para se expandir; então, seguir ao encontro do mistério. Essa é a sinfonia cósmica”. Surpreendido com aquela explicação, admiti que não sabia se tinha compreendido completamente o conceito. O homem fez um gesto com as mãos como quem diz para eu não me preocupar e falou: “Por ora, isso basta. Neste momento, o importante é entender sobre o mistério e a essência. Caso contrário, você não conseguirá iniciar a sua viagem para a Verdade”. Argumentei que ele já havia falado sobre o mistério, pedi que me explicasse sobre a essência. Ele disse: “Assim como o mistério, não há muito o que falar sobre a essência. Em suma, A essência é a raiz dos dez mil seres”. Eu quis saber ao que se referia quando falava em dez mil seres. O homem explicou: “São todas as pessoas”. Em seguida, prosseguiu: “No início dos tempos, o mistério se fragmentou em um sem-número de mundos, estrelas e seres. Cada um deles traz uma partícula oculta do mistério; isto define e anima a essência; iluminar-se através desta partícula, é a razão de ser da essência”. Fez uma pausa para concluir: “O mistério é como o deserto; cada grão de areia é a exata representação da sua essência”.

Questionei pelo significado daquela explicação. O homem foi didático: “Pelo mistério entenderemos o segredo. A função do mistério é impulsionar a evolução da essência, que ocorre à medida que a luz se intensifica nela. A essência são múltiplas, pois é o resultado da fragmentação do mistério no marco zero do universo. A essência é iluminada pelo mistério que, para seguir em expansão, necessita que ela evolua até se tornar luminosa, ou seja, consiga acender a sua própria luz e, assim, se torne plena. Então, passará a iluminar o universo junto ao mistério. Somente pela essência alcançaremos o acesso. A essência evolui em luz. Do contrário, a escuridão reinará. Não existe beleza em um céu sem estrelas, não haverá encanto em flores sem cores. A luz é fundamental à vida. Após despertar, a essência bebe o mel da vida”. 

Argumentei que o mistério e a essência eram iguais. Ele negou, mas ponderou e refinou o raciocínio em uma única frase: “Mistério e essência, embora diferentes, são apenas um”. Eu quis saber se a essência, a qual ele se referia, era a representação da alma. O homem apenas sorriu. Em seguida, disse como quem entrega a chave de uma casa para um novo morador: “Eis o acesso oculto para todos os segredos. O portal para todas as maravilhas”. Depois, disse que precisava ir: “O rio da vida exige movimento. Água parada, depois de algum tempo, apodrece”. Pedi para ele me ensinar mais sobre a estrada para a Verdade. O homem finalizou a conversa: “Por ora, tudo que você precisava saber lhe foi dito. Agora é contigo. Acredite em si mesmo e encontrará o Caminho; tenha medo e será envolvido pela escuridão. Então, restará perdido”. Ele se levantou, se despediu e seguiu. Chamei por ele e arrisquei uma última pergunta. Eu queria saber o que teria de especial em uma cidade chamada Verdade. A resposta foi enigmática e encantadora: “Todos que lá chegam ganham um diamante, a liberdade”. Tornou a se virar e foi embora. 

Dei de ombros. Libertar-me de quem ou do quê? Eu não era um escravo nem me encontrava aprisionado. Eu não precisava buscar o que eu já possuía. O homem não retornou e, quando me dei conta, ele tinha desparecido na curva da estrada. Eu estava só. “Ninguém está só quando tem a si mesmo”, pensei. Aliás, naquele momento era o que eu mais precisava. Encontrar comigo. 

Afastei-me do burburinho da construção e me sentei debaixo de uma árvore frondosa. Encostado em seu tronco, fiquei de frente para o enorme muro. Eu precisava entender o que fazer naquele momento; decidir para onde seguir. Era indispensável confiar em mim. Esforcei-me para entender a conversa que tivera com aquele bom homem; ele havia me fornecido conteúdo suficiente para muitas elaborações. Falou que era preciso caminhar dentro e fora do ser para se chegar à Verdade. As suas palavras tinham me concedido elementos que precisavam de entendimento, do contrário, jamais se tornariam ferramentas. Era momento de metabolizar o conteúdo. Após, eu voltaria ao mundo em movimentos de vida, impulsionados pela transmutação de um novo conhecimento agregado à consciência. Eu estaria mais forte, equilibrado e virtuoso. 

Dei-me conta que raciocinava por intermédio dos movimentos constantes e infinitos de expansão e contração. Sim, era disso que Li Tzu se referiu quando me falou sobre o ritmo do Yin e do Yang, os opostos que se complementam. O aprofundamento alicerça a amplitude. Sem introspecção não existirá expansão; sem ir à essência nenhum mistério se revelará em luz. Do mesmo modo, se não for ao encontro da vida nunca terei qualquer novo mistério para ajudar a iluminar a minha essência. 

Lembrei do Triangulo Sagrado da Evolução, aprendido nas aulas da Ordem Esotérica dos Monges da Montanha, cujos três vértices são: expansão de consciência, florescimento das virtudes e aperfeiçoamento das escolhas. Sorri pela constatação que nenhum conhecimento se perde ou é vão. Basta prestar atenção.

Fechei os olhos, acalmei a mente e serenei o coração. Passou um tempo que não sei precisar. Aos poucos as novas ideias formavam a estrutura para a construção de uma maneira diferente de pensar. O pensamento cria. Ao criar, toda criatura se torna também criador. Evoluir é a recriação contínua realizada pela essência para se revelar ao revelar o mistério em si. Eu sou a minha essência. Tão e somente. Embora a essência seja parte do mistério fragmentado, essência e mistério não são a mesma coisa. Apesar de serem diferentes, o todo e a parte se integram em uma mesma unidade, como peças e mecanismos de uma mesma engrenagem cósmica. A ausência de uma peça impede o pleno funcionamento da máquina. Contudo, se a essência é um pedaço do mistério, não resta dúvida que o mistério está contido na essência. Desvendar o mistério é despertar a essência. O início da grande conquista.

Sim, em minha essência habita toda luz do mistério. Por estar ainda tênue e incipiente, serão necessários infinitos ciclos de transmutações, através de movimentos de introspecção e expansão, Yin e Yang, para que eu consiga me manifestar com toda a minha plenitude. O Tao, como via evolutiva, me ensinará a descobrir as ferramentas indispensáveis ao erguimento da obra fundamental, aquela em que cada um constrói a si mesmo. Este era o meu poder; era o momento de aprender a usá-lo. 

Assim como um escritor precisa de uma folha em branco para escrever uma história, eu precisava do vazio para criar e recriar a minha própria criatura inúmeras vezes até restar tão e somente luz. A grande obra. Ora, se o vazio era o espaço para criação, a lógica me levava a concluir que o vazio se traduzia no Caminho, por se tratar do local onde a reinvenção de quem eu era me tornaria outro.

Faltava entender uma coisa. Por que eu encontraria o diamante da liberdade ao chegar a uma cidade chamada Verdade? Tornei a lembrar de antigos ensinamentos para auxiliar na estrutura dos novos. Em uma palestra no mosteiro, o Velho reuniu duas das sínteses mais valiosas legadas à filosofia ocidental. Conheça-se a si mesmo e conhecerá a verdade. Conheça a verdade e vos libertará, ditas por Sócrates e Jesus, reciprocamente, que se completavam e explicavam. Recordei com clareza as palavras do Velho: “O autoconhecimento é a estrada para as plenitudes; entre elas, a autêntica liberdade. Os sofrimentos, assim como os medos, somente existem na escuridão, pois são percepções equivocadas, seja sobre si mesmo, seja quanto à realidade. A ignorância sobre quem somos geram o medo e sofrimento que formam a cela e as grades das prisões mais cruéis, pois limitam o ser e o viver, impedindo o amor de se espraiar com toda sua intensidade. A verdade tem o poder de aperfeiçoar o olhar pela claridade que traz. Quando há clareza, observamos nuances, detalhes e aspectos impossíveis de se serem enxergados no escuro. Assim, a verdade consegue desmanchar medos e descontruir sofrimentos por mostrar passagens onde apenas víamos uma muralha aparentemente intransponível. Quando não somos capazes de encontrar portas que nos permitam sair de onde estamos para ir onde nunca estivemos, significa que estamos aprisionados em nós mesmos; eis é a raiz de todos os medos e sofrimentos. Não há liberdade mais perfeita, nem paz mais duradoura, fora da Verdade. Na Verdade, a Luz. Este é o Caminho”. 

Restava entender o significado de Verdade e de Luz. Não tive dúvida que encontraria esta resposta nas curvas do Caminho.  

Abri os olhos. No instante seguinte, um raio de sol iluminou a muralha à minha frente e uma linda mandala, parecida com uma rosa colorida em dourado, verde e azul, se desenhou nas pedras do enorme muro. Sorri, me levantei e fui ao seu encontro, na bizarra e inegável certeza de estar diante de outro portal. Nada que fosse sólido poderia me impedir de prosseguir em uma estrada imaterial rumo àquela cidade fantástica chamada Verdade. 

Atravessei sem medo.

POEMA UM

O caminho que pode ser medido não é o caminho da verdade.

Nenhuma palavra substitui a verdade contida no Caminho.

O mistério deu origem ao céu e à terra.

A essência está na raiz das dez mil coisas.

Pelo mistério entenderemos o segredo.

Pela essência alcançaremos o acesso.

Mistério e essênciaembora diferentes, são apenas um.

Eis o segredo oculto em todos os mistérios.

O portal para encontrar todas as maravilhas.

Discussões — 3 Respostas

  • Sergio Abreu 22 de outubro de 2021 on 16:00

    Gratidão eterna pela partilha…

  • Terumi 17 de outubro de 2021 on 12:08

    Gratidão 🙏

  • Fernando 13 de outubro de 2021 on 17:30

    Maravilhoso, honrado em seguir esse caminho ao seu lado, Gratidão profunda e sem fim irmão Amado,
    sem fim…