TAO TE CHING, o romance (Segundo limiar – A beleza dos opostos)

SEGUNDO LIMIAR – A BELEZA DOS OPOSTOS

Os intensos raios do sol realçavam as cores de todas as coisas. Era uma cidade com casas simples e, ao fundo, era possível avistar o azul do mar sobre o tom do azul do céu. Ainda era cedo, o sol não ia além de um palmo acima da linha do horizonte. Algumas pessoas seguiam para o trabalho. A claridade me impressionava e parecia refletir no humor de todos. Não havia ninguém com o semblante triste. Uma bonita jovem passou empurrando um rudimentar carrinho construído de madeira, repleto de pães e bolos. Eu não sentia fome, mas me pareceram apetitosos. Ela percebeu o meu olhar e me ofereceu um. Enfiei a mão no bolso, estava vazio. Eu não tinha dinheiro. Ela riu ao me ver decepcionado e, generosa, me entregou um pedaço de bolo. Disse para eu pagar em outro dia qualquer, quando me fosse possível. Perguntei o seu nome. Sofia, ela respondeu. Mordi o bolo e senti um delicioso gosto de milho e baunilha. Agradeci e prometi que honraria a minha dívida. Ela deu um lindo sorriso e disse que tinha de ir, pois precisava chegar logo ao mercado da cidade, onde venderia a mercadoria. Antes, perguntei o nome daquela pequena e bela cidade. Arles, ela respondeu.

Eu estava na França, e pelas roupas e construções, no Século XVIII, talvez XIX. Não, nada me causava estranheza naquela bizarra viagem. Eu caminhava pelo Inconsciente Coletivo, um território livre no qual toda a humanidade se conecta desde o início da História. Portanto, eu estava além do tempo, ao menos como o percebemos linearmente. Todos os acontecimentos de todas as épocas estão fragmentados como peças misturadas de um mosaico, à espera de que cada pessoa monte a imagem da própria realidade. Em meus estudos, aprendera que o inconsciente é atemporal. Para alguns psicanalistas, isso explicava as premonições que temos, assim como as recordações ancestrais que nos assaltam sem entendermos como nos chegaram à mente. No Inconsciente Coletivo reside todo o conhecimento produzido desde antes dos mais remotos registros que possuímos. As palavras legadas pelos grandes sábios bailavam ao vento desse inacreditável substrato presente nos porões da psique de todas as pessoas. Mas para conseguir percorrer esse lugar que, ao mesmo tempo pode encantar ou aterrorizar, a depender do amor ou do medo que predominar, era preciso manter desativado o consciente, ou quase isto, para que não interferisse nem limitasse essa jornada surreal. Literalmente. De uma maneira que não saberia explicar, mesmo que me esforçasse, eu tratava tudo aquilo, embora estranho, de modo corriqueiro. Como se a paisagem servisse para ilustrar a estrada e me ajudar a compreender o caminho, jamais sendo motivo para me impedir de prosseguir rumo ao destino.  

Deliciei-me com cada mordida do bolo. Mastiguei devagar para aproveitar ao máximo o seu sabor. Eu tentava me lembrar do que eu sabia sobre Arles. Algo naquela cidade me remetia a um fato que eu não conseguia acessar nas mil gavetas destinadas às minhas recordações. Foi quando passou na minha frente um homem com as feições distraídas e um inesquecível brilho no olhar. As suas roupas estavam puídas e as botas bem surradas. O cabelo aparado próximo à nuca e a barba espessa eram ruivos, de um quase vermelho incandescente ao sol. Ele carregava algo amarrado nas costas, algo parecido com uma tela de pintura. O homem não me era estranho; a sensação de conhecê-lo fez com que eu o olhasse insistentemente. Ao perceber, ele arqueou os lábios em leve sorriso, me cumprimentou com um aceno de cabeça e seguiu em frente, entrando em uma plantação de trigo. Eu o chamei, ele se virou e perguntei aonde iria. “Procuro um lugar chamado Verdade”, disse como se divertisse com as próprias palavras, mas sem nenhum tom de pilhéria. Havia sinceridade no tom e nas palavras. Ele continuou a caminhar.

Verdade, como assim? O acaso não existe. Fui atrás dele. Os seus passos eram ligeiros e decididos. Tive de me apressar para emparelhar com ele. Perguntei se poderia acompanhá-lo. O homem me olhou, como se eu me recusasse a aprender o primordial, e disse: “Pode vir comigo, mas entenda o momento de seguir sozinho. Aceite a sua própria força e beleza. A Verdade é um lugar onde todos podem estar, mas para se chegar lá cada um precisa percorrer um caminho singular”. Lembrei das palavras ensinadas pelo chinês gentil havia pouco tempo. Já era hora de aprender. Ofereci a ele o pedaço de bolo que restava. Ele aceitou e mastigou com a vontade típica da fome. 

Atravessamos o campo de trigo e paramos próximos a uns lindos ciprestes. Ele montou a tela sobre o cavalete que também carregava nas costas. Da bolsa a tiracolo retirou pincéis, tintas e uma palheta. Sentado em uma pedra próxima, eu apenas observava. O homem pincelava a tela com gordas camadas de tinta. Aos poucos, a paisagem ao fundo se reproduzia em imagem. Foram horas sem dizer palavras. O sopro do vento e o gorjeio dos pássaros foram os únicos sons que ouvimos por horas. Ao final da tarde, o pintor informou que tinha finalizado o quadro. Ele quis saber a minha opinião quanto ao seu trabalho. Observei com a atenção e sincero interesse. Tinha algo de diferente e de maravilhoso na sua pintura. Os traços curvos e opostos das pinceladas, de dentro para fora e de fora para dentro, davam uma inacreditável sensação de que os ciprestes se moviam impulsionados pelo vento. Assim como a vasta plantação de trigo. Nada parecia estático. Lembrei do Yin e Yang. Uma mesma ideia revestida de múltiplas formas. As grossas camadas de tinta, as cores vibrantes e claras, repletas de luminosidade, mostravam algo na paisagem que era imperceptível aos olhos desatentos. Como se a sua arte me revelasse a alma desnuda de um mundo sempre escondido por trás de muitas camadas de roupas. Comentei encantado. O pintor explicou: “A arte tem de possuir a fagulha da transformação. Do contrário, nada acrescenta e será mero adorno para decoração”.

Concordei com o conceito. Contudo, acrescentei que, se por um lado me maravilhava, por outro, aquela pintura me causava algum desconforto, pois deformava a realidade. Embora entendesse que estava ali, ao mesmo tempo era diferente àquela que os meus olhos mostravam.  O homem se mostrou paciente: “Eu não desfiguro a realidade, apenas a revelo. Daí a estranheza adicionada ao encantamento. Para mostrar um corpo, a fotografia se mostra mais útil e suficiente. Mas quão belo é um corpo diante das maravilhas da alma? A minha pintura tem a intenção de revelar o significado oculto de alguma coisa a olhares endurecidos e imaturos. Do contrário, terei falhado como artista”.

Usei as mãos para me auxiliar a dizer que não era sobre isso a que me referia. Havia inegável razão nas suas palavras. Embora o quadro me sensibilizasse, era preciso confessar que também me incomodava e eu não sabia explicar o motivo. O homem se sentou em uma pedra em frente e argumentou: “Todos reconhecem o belo como belo; aí está o feio”. Prosseguiu com suas razões: “O diferente assusta e causa medo por nos conduzir a um lugar desconhecido dentro de nós. Assustados, repudiamos. O diferente tem altas doses do desconhecido. No entanto, de outro lado, provoca inegável fascínio. O desconhecido tem essa força. Sentimos repulsa ou fascínio pelas diferenças. Ou ambos; isto pode nos causar alguma confusão. Contudo, os sentimentos e as ideias que predominarem dentro de você irão determinar o movimento progressivo ou regressivo da sua vida rumo às transformações. Essa é a marcha que determina o avanço ou a ré da locomotiva. O medo nos leva a evitar os opostos que existem no mundo e, por consequência, evitamos os opostos que também movimentam o ser. O padrão, seja do que for, pode nos causar sensação de conforto, mas pode também nos conduzir à estagnação. Faz-se necessário entender o padrão que impulsiona e o que aprisiona. Ao contrário do que muitos acreditam, os opostos não se anulam, mas se completam e se explicam. Ao negar as diferenças da vida, sem perceber, estaremos reprimindo a outra metade que existe dentro de nós mesmos. Logo, restaremos incompletos. Jamais será quem poderíamos nos tornar”.

Em seguida, explicou: “Quando excluímos ou reprimimos algo que há no ser, perdemos na mesma proporção algo existe na vida. Restamos incompletos. Porém, a história continua e aquilo que negamos virá nos devorar. Ninguém consegue fugir de si mesmo por todo tempo”.

Fez uma breve pausa antes de acrescentar: “Pior, enquanto insistirmos nesse comportamento, teremos a percepção e a sensibilidade prejudicadas. Afinal, estamos excluindo parte do todos que somos. Muitos significados ficarão perdidos, mistérios jamais se revelarão. A essência permanecerá desmontada. Será impossível chegar à Verdade”.

Eu quis saber qual o motivo. O pintor demonstrou a sua generosidade: “Todos reconhecem o bem como bom; aí está o mau”. Pedi para ele explicar melhor. A sua boa vontade comigo parecia infinita: “Por exemplo, a caridade é um bem indispensável. Há que se ter lugar em nossos corações para aconchegar os aflitos. Podemos não possuir dinheiro, mas não ter um abraço para oferecer é a autêntica miséria humana, certo?”. Concordei e ele me fez outra pergunta: “Um homem que pratica a caridade, ou seja, faz o bem, é necessariamente um homem bom?”. Discordei. Falei que conhecia várias pessoas que praticavam a caridade por orgulho e vaidade, para se sentirem maiores do que aqueles que recebiam ajuda ou praticavam no intuito serem admirados e aplaudidos. Outros ainda usavam a caridade para fins políticos. Afirmei que, embora fizessem o bem auxiliando os necessitados, não faziam com a pureza da alma. Sem nenhuma dúvida, não havia virtude em suas ações. O pintor sorriu, balançou a cabeça concordando com o raciocínio e abriu os braços como quem diz que eu havia entendido: “Exato. Toda a beleza da vida reside na virtude, um tesouro intrínseco pertencente à alma. O ato aparenta, mas nem sempre revela se existe virtude no gesto. Tolos são os que vivem em função da beleza de superfície e da representação do agir”.

Arqueou os lábios em leve sorriso e disse: “Quero que a minha arte revele o significado do que existe além da superfície mundana de todas coisas. A arte tem uma intensa correlação com o sagrado. Ambos, precisam despertar o poder oculto da transformação adormecido no âmago de cada indivíduo; e, assim, nos tornar diferentes e melhores. Ou não servirá como arte nem se revelará como sagrado”. 

“Existem os opostos do ser e os opostos do viver”, acrescentou. Falei que não tinha entendido. O pintor explicou: “Há muitas diferenças, tanto dentro quanto fora de quem somos. Enquanto eu não conhecer quem sou, não terei acesso à minha força e equilíbrio genuínos; o mundo será um lugar assustador. Os opostos do ser se movimentam intrinsecamente impulsionando o indivíduo para além dos condicionamentos limitantes que, não raro, se apresentam como algum tipo de padrão. No mesmo tom, os opostos do viver se aplicam em nossas relações com toda a gente. As diferenças que existem no outro me permitem um melhor entendimento de quem sou e, mais importante, de quem ainda não sou”. Fez uma pausa antes de prosseguir o raciocínio: “O problema e a superação fazem surgir um à outra.Quando imaturos, acreditamos que os problemas que surgem em nossos dias se opõem ao desfrute da vida. Ledo engano. Ao aceitar que qualquer dificuldade traz um mestre escondido em suas entranhas, deixamos de ter um problema e aceitamos a oportunidade de ir além de onde sempre estivemos. Isto é fantástico; pura magia; a semente da genuína evolução”. 

Ao perceber que eu prestava atenção às suas palavras, continuou: “Ao entender esse fundamento, você será impulsionado a modificar algo dentro de si, conhecer o desconhecido e se aperfeiçoar. Haverá uma troca de lentes pelas quais sempre observou as dificuldades; assim como serão substituídos os filtros pelos quais recebe as informações, sejam palavras, sejam emoções. Entende as maravilhas vida? Sem o problema jamais haveria a superação; porquanto, nenhum avanço. São os opostos que movimentam a nau da existência”.

O pintor foi didático: “Não apenas movimenta, mas transforma. Isto é fundamental. Você precisa ter acesso ao desconhecido para agregar algo de valor a si mesmo, nem que seja para se permitir um olhar diferente sobre um objeto que sempre observou de uma mesma maneira. Quando o observador muda, o objeto de se modifica. Em verdade, não foi o objeto que mudou, mas o observador, ao se permitir um inusitado olhar, sem o qual nenhuma evolução acontece. Isto vale para todas as nossas relações. Evoluir é amar mais e melhor, por isto a importância de encontrar o significado oculto de todas as coisas. Outro exemplo, o perto e o longe se estabelecem um pelo outro, quando se altera os paradigmas as medidas se modificam. Acho longe viajar daqui para Paris, mas se tenho de ir a Moscou, Paris será logo ali. Considero ruim morar numa casa sem jardim, mas após o incêndio me deixar sem teto para dormir, pensarei na minha antiga casa como um palacete. Contudo, a exata tradução dos opostos, permite ao sábio aproveitar o bom mesmo sem a necessidade de experimentar o ruim”.

Perguntou se eu queria ampliar aquele raciocínio. Balancei a cabeça; ele prosseguiu: “Os opostos também nos ensinam que o pequeno nos aproxima do grande, pois o humilde não se assusta diante da arrogância dos orgulhosos, pois sabe que essa demonstração de grandeza é uma ilusão e que apenas tem a intenção de disfarçar uma pessoa frágil e insegura quanto à sua própria força, embora não perceba nem admita. Se há soberba, não existe sabedoria. O humilde, apesar de considerado pequeno aos olhos míopes do mundo, é um gigante cósmico pela sua enorme disponibilidade de aprendizado e, por conseguinte, de evolução. O humilde já é capaz de não se enganar nem mentir para si mesmo. Não existe maior lucidez”.

O pintor olhou para o campo de trigo com os ciprestes ao fundo, fechou os olhos para se deliciar com a brisa da tarde, e acrescentou à tese dos opostos: “O som e o silêncio formam a harmonia; passado e futuro geram o tempo. Expansão e introspecção no ser, movimento e quietude no viver, em ritmos compassados e infinitos. Ir ao mundo para viver uma experiência; depois, retornar à oficina da alma onde forjará o saber com a matéria-prima adquirida nas relações. Tornar a ir e retornar, até o dia do dia sem fim, esta é a viagem do sábio para encontrar os significados da existência.

Isto oferece sentido ao tempo. Assim, a correlação entre a semeadura do passado e a colheita do futuro geram a felicidade dos dias de hoje. Amanhã, esta nossa conversa fará parte do passado. Se para nada servir, será tempo perdido. Um amanhã desperdiçado por nada gerar. Ingênuos são os que medem o tempo pelos dias e nada sabem sobre as transmutações indispensáveis”.

Indaguei qual a vantagem se tornar um sábio? Confessei que me questionava sobre a serventia de tanto conhecimento. Parecia-me mais sábio aproveitar a vida. O homem me olhou abismado e disse: “É para isso que serve a sabedoria, para servir ao bem viver; para aproveitar todas as manhãs. O sábio não se ocupa apenas em agregar conhecimento, ele se dedica principalmente à sua aplicação prática, sem a qual o saber será mero objeto de exibição, nunca uma ferramenta útil à vida, pois não conseguirá desmanchar seus medos nem descontruir os seus sofrimentos”.

Antes que eu me manifestasse, prosseguiu: “O sábio age pelo não-agir”. Interrompi para contestar. Aquela frase não fazia sentido. O pintor explicou: “O não-agir é o agir sem esforço, é a ação na qual o amor impulsiona a sabedoria em uma mesma direção. Assim, ainda que reste cansaço ao corpo, a alma permanecerá leve; haverá alegria em cada momento. Quando agimos por amor, a obrigação desaparece para dar lugar ao compromisso. O sábio determina os seus compromissos de acordo com a suas prioridades. A evolução é a principal delas”. Interrompi para entender melhor a diferença. Ele se esforçou na explicação: “A obrigação nasce da imposição que aceitamos. Das leis, por necessidades incontornáveis ou de alguma culpa que nos atormenta, então, fazer será sempre um fardo. O compromisso surge de uma escolha livre e luminosa, como acolher quem amamos. Ainda que o corpo canse e o tempo pareça se encurtar, em verdade, a alma se agiganta e o tempo nos sorri; nunca existirá peso nem haverá esforço nas vezes que fazemos algo por amor. Vencemos o tempo através das infinitas transformações pessoais. Pouco importa um corpo alquebrado diante dos voos da alma. Somente assim os dias adquirem incríveis leveza e alegria”.

Olhou-me atentamente e prosseguiu nas explicações: “O sábio ensina sem nada dizer. Se as palavras têm a força de uma ventania, as atitudes possuem o poder da avalanche. Não são os discursos que narram a história de uma pessoa, porém, as suas escolhas. O mais lindo amor contido em uma poesia desaparece se desacompanhado de atitudes de igual beleza. Ele também aceita tudo o que lhe acontece, pois sabe que todas as situações trazem uma oportunidade para ele revelar o desconhecido de si mesmo. Isto é poder. O sábio agradece à tempestade por ensiná-lo a navegar sob todos os ventos. A paz só se torna possível após aprendermos a desmanchar todos os medos”.

Ele franziu as sobrancelhas e acrescentou: “O sábio trabalha e nada possui”. Indaguei a vantagem de trabalhar e nada possuir. O pintor se espantou com a pergunta, mas manteve a serenidade ao responder: “Na bagagem que carregamos na viagem para a Verdade, cabe apenas aquilo que se consegue ser. Tudo que é sólido desaparece nas noites do tempo”. Perguntei se ele tinha certeza do que falava. O pintor deu de ombros como quem diz o óbvio e sugeriu: “Observe a morte, ela é uma grande mestra, pois nos fala sobre isso todos os dias”.

Em seguida, revelou: “O enigma dos opostos reside em embaralhar a superfície com a profundidade, confundir a aparência com a realidade. Enquanto acreditarmos apenas naquilo que os olhos mostram, nada saberemos. Não raro, a verdade está no avesso daquilo que gostamos de acreditar. Seja em nós mesmos, seja no mundo. Sem entender o enigma dos opostos, restarão os enganos. E pouca luz”. 

Seguiu com a explicação: “Por essa e outras razões, o sábio é um artista que não se apega a obra”. Apontou para a sua pintura e disse: “Não sei quanto esse quadro pode custar algum dia, o preço é um valor estabelecido por interesses de mercado e gosto do público. Nenhum controle tenho sobre essas questões. Tampouco quero ter. Se tentar controlar, irei sofrer. Tenho poder sobre as minhas ações, jamais pelo resultado delas. A dependência pelos resultados é que traz peso aos dias. A alegria reside na ação; da sua pureza extraio a leveza da vida. Toda dependência produz sofrimento. Ofereço o meu melhor a cada dia e sigo em frente. Assim, a obra se completa na ação e se desfaz no tempo”. Apontou para a tela que acabara de pintar e disse: “Pouco valor terá se algum tiver estiver pendurado na parede de um museu ou mesmo pelo fato de custar milhões. Valeu pela minha necessidade de me entender. Eu me compreendo à medida que me expresso”. Fez-me uma pergunta: “Brilho ou Luz, na bifurcação do destino, por qual estrada você seguiria?”. Sem esperar pela minha resposta, falou: “O real valor de uma obra é a transformação causada. Tudo mais são meras especulações, comentários desnecessários e objetos deteriorados pelo tempo. Tenho a Luz que consigo emanar através de infinitas transformações intrínsecas. Em essência, sou esta Luz. Nada mais”. 

Em seguida, concluiu: “Tudo feito, volta ao princípio. O sábio tem consciência que precisa se manter em movimento, pois a estagnação é a negação da vida. A finalização de uma obra significa uma lição aprendida; um ciclo evolutivo encerrado. Volta ao princípio porque sabe que outro ciclo se iniciará em seguida. O fim de uma história será sempre o início de outra. Não raro, na mesma existência, pois, quase nunca é a morte quem determina a conclusão de um ciclo existencial. Porém, sempre a transformação alcançada. Assim, à medida que nos tornamos diferentes e melhores, um pouco a cada dia, conquistamos o acesso às maravilhas da vida”. Perguntei quais seriam essas maravilhas. O pintor me respondeu: “A dignidade, a paz, a liberdade, o amor e a felicidade”. Olhou-me como quem está diante de um menino e alertou: “Nenhuma delas é oferecida no mercado. Para tanto, é preciso chegar a uma cidade longe e perto daqui”. Eu sabia que ele se referia a Verdade.

Entardecia. Ele guardou a tela, desmontou o cavalete e os colocou nas costas como se fossem uma mochila. Guardou pincéis e tintas na bolsa e se despediu: “Fizemos uma boa caminhada hoje. A partir de agora, você deve seguir sozinho”, acenou com a cabeça e partiu. Observei-o até que desaparecesse no horizonte. Tinha sido um dia e tanto. Uma noite estrelada se anunciava. Foi quando olhei para o horizonte; entre os ciprestes surgiu uma linda e colorida mandala circular, como se fosse uma lua cheia, me indicando por onde seguir. Fui ao seu encontro.

POEMA DOIS

Todos no mundo reconhecem o belo como belo;

Aí está o feio.

Todos reconhecem o bem como bom;

Aí está o mau.

O problema e a superação fazem surgir um à outra.

O perto e o longe estabelecem-se um pelo outro.

O pequeno nos aproxima do grande.

O som e o silêncio formam a harmonia.

O passado e o futuro geram o tempo.

O sábio age pelo não-agir.

Ensina sem nada dizer.

Aceita tudo o que lhe acontece.

Trabalha e nada possui.

Não se apega à sua obra.

Tudo feito, volta ao princípio.

E por isto a sua obra prospera.

Discussões — 3 Respostas

  • Paulo Rodrigues da Silva 23 de outubro de 2021 on 16:20

    Maravilhoso
    Podemos entender o quão simples são as pequenas coisas da vida ,mas com consciência e certeza de poder interagir com o mundo!

  • Fernando 23 de outubro de 2021 on 12:36

    Gratidão profunda e sem fim irmão Amado,
    que belo encontro com Van Gogh 😍♥️🙏🏻

  • Terumi 17 de outubro de 2021 on 16:27

    Gratidão 🙏