TAO TE CHING, o romance (Sexto limiar – O mistério do ser)

POEMA SEIS – O MISTÉRIO DO SER

Eu estava em uma trilha próximo ao alto de uma pequena montanha. Havia outras montanhas em volta. Abaixo um vale verdejante onde se situava uma linda cidade banhada por um rio, que se tornava caudaloso à medida que era alimentado por outros afluentes originários das montanhas ao redor. Decidi seguir a trilha até o topo. Ao chegar, um homem bem vestido, com a idade imprecisa, entre quarenta e cinquenta anos, estava sentado sobre uma pedra. Ele escrevia a lápis em um bloco de anotações. Amável, sorriu quando me viu e tornou a se concentrar na sua escrita. O silêncio era rompido pelo suave murmulho das folhas movimentadas pelo vento suave. Em determinado momento, o homem parou de escrever e se deteve em observar o vale com a cidade ao fundo. Depois, me olhou e segredou: “O espírito do vale nunca morre. Eis o mistério da montanha”. Falei que não tinha entendido. Ele explicou: “Sou um médico. Tenho dedicado minha vida ao estudo da psique humana, algo muito complexo e, por vezes, também misterioso. Um universo ainda bastante desconhecido”. Fez uma pequena pausa, como se avaliasse se deveria prosseguir, e disse: “Aprecio muito a quietude e a solidão para refletir. Tenho o hábito de vir aqui quando quero pensar sobre determinado assunto. Não à toa, desde tempos imemoriais existe a ligação metafórica das montanhas com o céu. Claro que, a princípio, se trata de uma analogia meramente geológica; no topo das montanhas temos a sensação de estarmos mais próximos das estrelas. Contudo, a natureza nos inspira a formar imagens para explicar percepções ainda não devidamente claras”. Olhou-me com seriedade e perguntou: “Sabe quando começamos a compreender uma verdade, mas temos a sensação de que para o entendimento absoluto teremos de realizar um mergulho mais profundo?”. Falei que sabia do que ele falava. Aquela era a razão de eu estar ali. 

O médico tornou a sorrir e falou sobre as suas observações: “As chuvas quem caem do céu alimentam as nascentes dos rios. Do alto das montanhas descem os rios que irrigam os vales, deixando-os verdejantes. A vida no vale fica repleta de flores e farta em frutos. O vale se situa no espaço vazio entre as montanhas, razão de receber todo o fluxo das suas águas. Isto o torna próspero. O vazio a que me refiro tem atributos diferentes ao termo utilizado na psicanálise. Nesta, significa o ser perdido em si mesmo. O vazio de que falo é o espaço interior onde toda a criação é possível. Sem esta disponibilidade nenhuma transformação acontecerá, nada mudará”. Olhou-me com atenção para ver se eu o estava entendendo, assim como qual seria a minha reação com a frase que proferiu em seguida: “Quando bem cuidado, o vale é um bom lugar para se morar. Quando o solo é fértil a vida se multiplica em significados; do contrário, será um local árido e inóspito. O vale é a consciência da montanha”.

Balancei a cabeça afirmando que eu compreendia a suas palavras. O homem se animou: “Consciência é a percepção e a sensibilidade sobre si mesmo e do mundo ao redor. Na medida que a consciência se aprofunda, a verdade se amplia”.

A questão da verdade estava de volta. Interrompi a sua fala para explicar que eu viajava em busca da verdade. Apontei para o vale e perguntei se a encontraria lá. Ele explicou: “Ela está em todos lugares e não estará em lugar nenhum enquanto não se entender o objeto e o instrumento da busca. Eles se explicam e se completam. O objeto da busca é a prosperidade do vale; o instrumento são as águas que fertilizam o solo”. Fez uma breve pausa para eu concatenar as ideias e continuou: “A verdade apenas se revelará à medida que o vale se tornar receptivo às águas que permitem ao solo germinar as maravilhas do ser e do viver. Entende que a verdade está no vale, mas aquilo que está fora dele se faz imprescindível à sua compreensão?”. 

Achei confusa a definição. Pedi para ele explicar melhor. O médico foi didático: “Se represada, as águas dos rios serão impedidas de chegar ao vale; se dejetos forem lançados durante o percurso, o rio restará poluído, não mais sendo fonte de prosperidade.  O vale, ou seja, a consciência, precisa estar esvaziada de obstáculos, sem as impurezas produzidas pelas percepções equivocadas e os empecilhos provocados por uma sensibilidade ainda em estágio primitivo para usufruir das transformações proporcionadas pelas águas quando em comunhão com a terra. O olhar embaçado deturpa o melhor entendimento e as emoções densas criam obstáculos para a compreensão da verdade”.

Observou a paisagem por alguns instantes antes de se virar para mim e continuar: “Há outros aspectos importantes. Sob o ponto de vista científico, a água é o berço da vida. Os rios brotam do interior da terra para irrigar o vale, assim como as chuvas que vêm do céu são fundamentais ao mesmo processo. Significa que o poder da vida está dentro e fora do indivíduo; está no ser e no viver, concomitantemente. Faz-se necessário a preciosa conexão interna e a valiosa sintonia externa como ferramentas indispensáveis ao encontro com a própria essência como jornada à descoberta da verdade. Antes disto, terá dificuldade para acessar às cores e a doçura da vida”.

Olhou-me como quem pergunta se restou dúvida na sua explicação. Balancei a cabeça dizendo que sim. Muitas dúvidas, comentei. O homem riu e tentou me ajudar: “A consciência, grosso modo, é o consciente acrescido do inconsciente. No consciente existe o conhecimento já decodificado, seja em relação ao próprio indivíduo, seja quanto ao mundo em que vive. A gerência fica à cargo do ego, função que o torna responsável pelas escolhas do indivíduo. No inconsciente estão os segredos inconfessáveis, as lembranças aparentemente esquecidas, as memórias dolorosas que acreditamos ter jogado fora, as dores sufocadas, as verdades inadmissíveis e a aceitação negada; conteúdos valiosos que negamos usar; além de dois enormes mistérios: a alma e o conhecimento cósmico”. 

O homem explicou como elaborava esses dois conceitos: “A alma é uma pequeníssima fração da luz universal dentro de cada pessoa, ou se preferir, é a essência que identifica, individualiza e anima o ser; um poder ainda incipiente, incompreendido e menosprezado pela grande maioria dos povos; a alma constitui o principal elemento da consciência e, enquanto desprezada, aguarda incompreendida no inconsciente individual. O conhecimento cósmico é a memória de toda a História da Humanidade não em fatos, mas codificada através das sensações, emoções, sentimentos e sabedoria, como a quintessência dos acontecimentos. Formam o denominado inconsciente coletivo. Ninguém sabe explicar por que traz em si emoções como o ódio ou sentimentos como o amor que, em diferentes níveis, percorrem as entranhas de todos os indivíduos. Temos um substrato que ora nos aproxima, ora nos repele. Para o bem e para o mal. Temos todas as guerras e também todo o afeto do mundo dentro do coração. Depurar em si esses elementos concede o poder da vida”.

Ele manteve a seriedade no tom da fala: “Contudo, ignoramos o inconsciente. Esta é a questão. Embora seja um território obscuro e inexplorado, ele participa mais das nossas reações do que somos capazes de dar conta. Como guarda a lembrança das dores que evitamos enfrentar, ao menor sinal de que uma situação semelhante possa se repetir, o inconsciente nos impulsiona à recusa instintiva. Ele participa das escolhas sem que percebamos; o mais grave, nem sempre através de uma ideia serena, mas de gritos sufocados. Todas as escolhas participam na definição do nosso destino próximo. O instinto é uma reação oriunda de um recurso primitivo utilizado pelo indivíduo fragmentado, cujo ego está desconectado à alma. Um estágio propício ao fomento do medo que, entre outras consequências, irá encurtar mil oportunidades; algo comum quando não estamos preparados para trabalhar com ideias bem elaboradas impulsionadas por sentimentos sutis. Se o vale negar as águas que descem da montanha, o solo se tornará árido, sem condições de florescer e frutificar no expoente da sua capacidade. Quando fugimos da verdade, adiamos a cura e alongamos o sofrimento. Do mesmo modo, empobrecemos a existência quando nos afastamos da própria essência que nos fortalece e equilibra. Longe da essência, distante da verdade. Assim, ficamos aquém das nossas capacidades e realizações. Tornamo-nos menos do que poderíamos ser”.  

Tornou a observar as montanhas e acrescentou: “Quando nos mantemos afastados da essência de quem verdadeiramente somos, damos margem à chegada das angústias, tristezas e impaciências, cujas origens temos tanta dificuldade para identificar. Em verdade, são gritos do inconsciente na tentativa de nos mostrar a luz contida na essência esquecida. Mentimos para nós mesmos, negando o inevitável encontro que cada um, cedo ou tarde, terá de fazer consigo. Inexoravelmente. Enquanto isso, convivemos com alguém dentro da gente que desconhecemos por ignorância e repúdio. Haverá muita confusão, fragilidade e desequilíbrio que se manifestarão por intermédio de uma personalidade sofrida ou revoltada, como reflexo de um indivíduo fragmentado pelo fato de a essência estar abandonada. Existe alguém em mim que completa quem sou; uma parte indispensável para a formação da genuína identidade que preciso moldar”.

Voltou a me olhar e ampliou o raciocínio: “Trata-se uma viagem de descobertas, encontros, conquistas em mim mesmo. Enquanto adiada, uma enorme parte de quem sou participará da minha vida de maneira conflitante e dolorosa, uma influência capaz de determinar as escolhas angulares da existência. A vida se apequenará; o mundo se mostrará hostil e áspero. Contudo, o problema não está nas confusões do mundo, mas na desordem que há em mim. Ninguém dirige aquilo que desconhece. Se não me conheço por inteiro jamais alcançarei todo o potencial de quem eu sou. O grau de intimidade que tenho com a minha essência definirá se serei maior ou menor que os problemas que terei de enfrentar”. 

Deu de ombros e comentou: “Se me torno maior que os problemas, eu os supero. Ao me sentir incapaz diante das dificuldades, elas me engolem”.

Animado pela atenção que eu prestava em suas palavras, prosseguiu: “Esta é a razão pela qual precisamos, cada vez mais, abrir as portas do inconsciente para que, após a sua decodificação, passamos a usar esse rico conteúdo de modo sábio e amoroso para uma existência mais plena. Somente assim chegaremos à essência de nós mesmos, onde reside toda a força e equilíbrio. Inegavelmente, nos tornaremos pessoas diferentes e melhores. Por consequência, a vida e o mundo se modificarão”. 

Ficamos algum tempo sem dizer palavra, como se precisássemos alocar os pensamentos. Embora cada um percorresse um caminho próprio, assim como eu, o médico também estava em busca da verdade. Foi quando ele me permitiu saber um pouco mais sobre os seus dilemas: “Embora me veja como um cientista, sou filho de um pastor protestante e de uma mãe espírita. Tive uma educação baseada nos princípios cristãos. Recentemente, tive o interesse despertado pela filosofia e religião oriental. Tenho a clara percepção de que a religião aborda aspectos da vida que a ciência ainda tem dificuldade para explicar. Então, como o orgulho impede a admissão da própria ignorância, muitos acadêmicos a tratam como crendice e a descartam. Acho um equívoco lamentável. Se percebo um fenômeno não posso negar a sua existência pelo mero fato de não ter a devida compreensão e a exata explicação das suas causas. Seria fraude à minha consciência. O entendimento é uma questão dos séculos. O conhecimento de um estudante de medicina hoje é superior ao de um excelente médico há algumas décadas. Há de haver humildade. Este é o enigma do saber científico. Penso que a sensatez orienta a ciência a se inspirar nas fontes religiosas, como as águas que descem das montanhas para irrigar os vales, onde existe uma sabedoria perceptível, mas ainda não equacionada. Não significa que não haja um tesouro pelo simples fato de ele se encontrar no alto de uma prateleira, em lugar onde a nossa escada ainda não alcança”.  

O homem continuou: “Quando criança, todas as noites o meu pai lia o Evangelho para a família. Foram dias memoráveis. Eu me encantava com a poesia que havia na abertura do Livro de João”. E o citou de memória: “No princípio era o verbo, e o verbo estava com Deus, e Deus era o verbo. Todas as coisas existirão por ação dele e sem ele não existiu uma só coisa. Nele estava a vida e a vida era a luz dos homens. E a luz brilha na escuridão e a escuridão não dominou a luz”. Concordei com ele, falei que me remetia aos poemas da Odisseia de Homero. Ele acrescentou: “Talvez, não por acaso, João também escreveu em grego. Recentemente, soube que quando traduzida para o latim a palavra logosfoi vertida como verbo. Está correto. Entretanto, entre os vários sentidos que cabem a essa palavra, podemos escolher razão, ou mais modernamente, consciência, um conceito inexistente naquela época Se ampliarmos a tradução, a abertura ficaria do seguinte modo: “No princípio era a consciência, e a consciência estava com Deus, e Deus era a consciência. Todas as coisas existiram por ação dela e sem ela não existiu uma só coisa. Nela estava a vida e a vida era a luz dos homens. E a luz brilha na escuridão e a escuridão não dominou a luz”.  Era inegável que o entendimento se aprofundava a depender da palavra escolhida na transliteração.

Ele filosofou: “Segundo o texto sagrado, Deus está dentro de cada um de nós e se manifesta na exata medida do despertar a alma ou da capacidade de manifestação consciente da essência individual. Uma genuína fonte de luz própria. Faz-se fundamental o encontro do ego com a alma para que possamos ser inteiros; o poder da luz alinhado à capacidade de escolhas. A consciência plena é a alma desperta de que falavam os antigos monges”. Deixou o olhar vagar pelo horizonte e explicou: “Uma consciência integralizada permite uma vida luminosa”. Apontou para a paisagem à nossa frente e disse: “Na profundeza do vale está a raiz da vida”. Empolgado, prosseguiu: “A raiz é a força criadora e mantenedora de uma árvore; o poder da raiz estabelece as cores das flores e o mel dos seus frutos. A profundeza do vale é a alma; na essência de cada pessoa reside a luz da vida”. 

Fez uma pequena pausa antes de prosseguir: “Uma árvore de pouca raiz, pela fragilidade que a sustenta, vive os dias movida pelo medo às tempestades. O medo encurta as possibilidades, gera sofrimento e estreita a beleza, seja do indivíduo, seja da vida. Quanto mais profunda for a raiz, mais forte e equilibrada será a arvore á. Não temerá a fúria das chuvas, mas se deliciará com a suas águas; mais doces e fartos serão os seus frutos. Assim florescem todas as maravilhas”. Piscou um olho como quem conta um segredo e disse: “Sabemos que toda árvore vale pelos seus frutos. A essência concede a todas as criaturas o poder da criação. Uma consciência luminosa tem a capacidade de desmanchar qualquer escuridão”. 

Falou como se conversasse consigo mesmo: “Temos um poder incomensurável nas mãos. A expansão do consciente aos níveis desconhecidos do inconsciente leva a consciência a patamares inimagináveis pelo poder das transformações que oferece. Evoluir significa trazer a alma à tona da existência para desmanchar os medos e sofrimentos do ego”. Fez uma pausa para citar uma lembrança antiga: “Como repetia o meu pai ao ler o Evangelho, vós sois deuses, vós sois a luz do mundo”.

Franziu as sobrancelhas e disse: “Caminhe no vale com leveza e ele nunca se esgotará”. Indaguei o que ele queria dizer com aquela frase. O homem explicou: “Caminhar com leveza é entender a essência e o essencial, é compreender o conteúdo da bagagem. Você leva consigo tão e somente as virtudes que conseguir agregar em si mesmo. Para tanto, priorize a essência. Apenas a bagagem importa; ela se enriquece por intermédio das suas infinitas transmutações. Tudo mais é somente conforto e comentários”. 

O médico olhou as horas no relógio de pulso e se levantou. Disse que precisava retornar à cidade. Tinha pacientes agendados na parte da tarde. Perguntou o que eu procurava. Lembrei a ele já ter dito que estava à procura da verdade. Ele sorriu e revelou: “Falamos sobre ela por toda a manhã”. Apontou uma estreita vereda e aconselhou: “Siga em frente, aprecie a paisagem, entenda o que ela pode lhe proporcionar, mas não se detenha. Aqueles que não desistem, a encontram”. Fez um gesto com a cabeça em despedida, girou nos calcanhares e foi embora. Enquanto concatenava as novas ideias, segui sozinho por um caminho que alternava flores e espinhos. Com o por do sol ao fundo, quase como uma miragem, surgiu uma mandala. Não tive dúvida do que fazer.

Poema Seis

O espírito do vale nunca morre;

Eis o mistério da montanha.

Na profundeza do vale está a raiz da vida;

Assim florescem todas as maravilhas.

Caminhe no vale com leveza,

E ele nunca se esgotará.

Discussões — 4 Respostas

  • SCHWEITZER 1 de dezembro de 2021 on 16:11

    Deus é nossa consciência, e em nossa consciência somos deus.

    Divino.

  • Terumi 23 de novembro de 2021 on 22:52

    Gratidão 🙏

  • Fernando 21 de novembro de 2021 on 09:58

    Gratidão profunda e sem fim Amado irmão das estrelas, que encontro com Jung, um sonho…

  • MARCELO AUGUSTO G. DE SOUZA 19 de novembro de 2021 on 13:53

    Texto fantástico como sempre…
    Parabens!!