TAO TE CHING, O romance (Sétimo limiar – Os jardins do deserto)

POEMA SETE – OS JARDINS DO DESERTO

Era um mercado persa. No pátio central, os mercadores expunham uma enorme variedade de objetos para negociar, de alimentos à utensílios, de tecidos às joias. No entorno, lojas construídas em alvenaria formavam um grande quadrado que serviam como limites ao mercado. Duas entradas davam acesso à rua. Muitas vozes se misturavam. Notei que as mercadorias não tinham preços pré-estabelecidos. Negociar cada item era parte da arte que elevava a autoestima, tanto dos mercadores quanto dos compradores. Não de todos. Um homem elegantemente vestido me chamou a atenção pelo modo seguro e, ao mesmo tempo, sereno de andar. Os seus gestos transmitiam respeito. Não aquele falso respeito oriundo de títulos nobiliárquicos, da brutalidade ou do dinheiro. A denominação correta para isso é arrogância ou coação, a depender do caso. Respeito é algo diferente, nasce com a dignidade apenas encontrada naqueles que tratam os outros do jeito como gostaria que o tratassem. Há uma força e equilíbrio internos que emanam ao mundo sem que nada precise ser imposto ou demonstrado. Está presente simplesmente por existir. As suas maneiras eram firmes e gentis, sem nenhuma contradição, mas como perfeita complementação. Ele se postou diante de uma barraca com belos e finos tapetes. Observou-os, sem pressa, por longos minutos. Ao se decidir por um, perguntou o preço. A sua voz transmitia mansidão. Como estratégia de negociação o artesão demonstrou um proposital desprezo e murmurou um preço bem elevado. O homem, sempre com modos delicados, agradeceu e se retirou. Imediatamente o artesão foi ao seu encalço e ofereceu o mesmo tapete pela metade do preço pedido há instantes. O homem tornou a agradecer e afirmou não estar interessado. O preço voltou a cair, desta vez, para um quarto do valor pedido inicialmente. A recusa se manteve. Irritado, o artesão quis saber quanto o homem estava disposto a pagar pelo tapete. Sem se alterar, falou que não tinha mais interesse, pois não tinha mais ideia de qual seria o valor justo a pagar. Alegou que a aparente falta de critérios não o deixava confortável para comprar o tapete. Ofendido, o artesão vociferou alguns impropérios, enquanto o homem seguiu em busca de outras mercadorias sem se mostrar ofendido pelas palavras do mercador.

Ao perceber que eu o observava, ele balançou a cabeça em cumprimento e sorriu. Aproximei-me para perguntar se ele estava chateado. O homem respondeu: “As palavras eivadas em destempero refletem a exata bagunça de uma alma aprisionada. As ofensas falam sobre as incompreensões do mercador consigo mesmo, nada têm a ver comigo. Não existe necessidade de uma reação igualmente agressiva; proteger-me sob o sagrado manto da compaixão me basta”. Questionei o fato de ele se negar a negociar o preço do tapete, uma questão de caráter cultural naquele mercado. O homem argumentou: “Não é porque todos fazem algo há séculos que devo repetir modos dos quais não concordo. O medo em alterar modelos obsoletos de comportamento impede a evolução”. Fez uma pausa e explicou: “Deve-se pedir o preço justo de todas as coisas. Quando há clareza nas relações, os enganos desaparecem”. Mesmo concordando com o raciocínio dele, lembrei que o artesão se sentia ofendido com o ocorrido. Ele ponderou: “Eu não o ataquei nem tive essa intenção em momento nenhum, foi o orgulho dele quem causou a ferida. Eu apenas fui coerente aos meus princípios e valores. No mais, é pela ferida que a luz costuma penetrar para despertar a alma”.

Ao notar que ele não tirava os olhos de uma banca de joias, indaguei por qual mercadoria ele procurava. Como se as surpresas não tivessem fim, disse: “Procuro pela verdade”.  Ei-la de volta, pensei. Perguntei se ele acreditava encontrar a verdade nas joias e nos tapetes. Sem me olhar, o homem deu de ombros e murmurou: “A verdade está em todos os lugares. É uma busca semelhante ao amor. Para encontrá-la preciso desmontar todas as barreiras que foram criadas dentro de mim. Somente assim me será possível despertar o poder da eternidade”. Curioso, pedi para ele falar mais sobre esse poder. O homem recitou: “O céu e a terra são eternos porque vivem em si para além de si mesmos”. Eu quis saber qual o significado de viver em si para além de si mesmo. Ele explicou: “Trata-se da capacidade de um indivíduo em gerar luz no próprio âmago. Servirá para iluminar os seus passos, além de clarear a vida daqueles ao redor que, porventura, estejam perdidos nas noites escuras do tempo. A escuridão é a morte antes da morte”. 

Ao notar um ponto de interrogação em meu olhar, o homem teve o cuidado de detalhar a explicação: “A luz se acende em mim quando sinto vontade de levar um sorriso a um rosto triste, dar um abraço em quem se sente abandonado, estender a mão a alguém em queda; sinto a vida florescer em mim quando aquele sorriso também alegra o meu coração; ao me sentir acolhido pelo abraço que veio ao encontro do meu; quando a mão que segurou na minha me fez sentir mais forte. Nesses momentos, a luz se intensifica e a eternidade palpita na ponta dos dedos. Viver em si para além de si acontece quando a parte se integra ao todo sem perder o encanto por seguir sendo uma parte”. Fez uma pausa e acrescentou: “Preste atenção ao grão de areia. Apesar da imensidão do deserto, não existem dois iguais. Nisto reside a singular beleza de cada um deles”.

Balancei a cabeça em anuência. O homem prosseguiu: “Para tanto é preciso entender a ideia primordial. O corpo tem o direito da existência; a alma tem o dom da vida. Como se pressentisse as muitas indagações que eu faria, se adiantou: “Priorizar os princípios da alma quando em conflito com os valores do corpo é fundamental para se conquistar a eternidade. A sabedoria nos conduz ao entendimento de que corpo e alma devem viver sob um mesmo propósito”. Ponderei que quando ele falava de corpo, talvez quisesse se referir também a ego, um conceito ainda desconhecido na época ou naquela região, contudo, perceptíveis a indivíduos mais sensíveis como aquele homem. Eu acreditava estar na Pérsia ou em lugar próximo, por volta do século XII ou XIII.  Ao perceber o meu interesse em suas palavras, me convidou para um chá. Aceitei prontamente. Ele disse enquanto andávamos: “A função do corpo é despertar a alma; ela guarda os códigos que revelam a vida. Ao corpo é oferecida a existência como método de aperfeiçoamento através das dificuldades e situações corriqueiras ao cotidiano. Então, ao se alinhar à alma, conquistará as asas para sobrevoar o abismo das amarguras típicas da existência, com as quais alcançará os territórios da vida sem fim”.

Questionei como seria esse processo na prática. O homem pediu dois chás de gengibre com hortelã e canela em uma acanhada banca de bebidas e narguilés. Depois, me olhou e disse: “Aprenda com o universo; dele jorra toda a sabedoria para uma vida plena, mesmo na existência efêmera dos nossos dias. Todas as pessoas se alimentam do céu e da terra. O céu nos fornece a luz e o calor do sol, as chuvas que irrigam as plantações, os ventos que refrescam e polinizam as flores. A terra oferta os frutos, raízes e grãos para saciar a nossa fome. Contudo, as pessoas perecem às batalhas e ao tempo. Morrem consumidas pelos conflitos que elas próprias criam, embora não se deem conta disso. Então, terminam corroídas pelo tempo não por não o compreender. Vivem pelas batalhas e contabilizam o tempo pelos dias; um grave engano. Vivemos pelas revoluções que o corpo permite à alma; assim também fazemos a contagem do tempo; então, nunca mais seremos devorados como presas tolas e selvagens. Perceba que o céu e a terra não conhecem as batalhas nem sucumbem ao tempo. Bebeu um gole do chá e perguntou: “Entendeu?”. Balancei a cabeça. Ele sorriu satisfeito e disse: “As pessoas tentam vencer umas as outras, assim como travam uma luta para vencer o tempo. Lutam a guerra errada. Nada entendem nem aprendem com o céu e a terra, que não lutam contra ninguém e o tempo não lhes é caçador”.

Questionei como era possível se aliar ao tempo para não perecer: “É preciso sair do tempo planetário para entrar no tempo cósmico onde a vida não tem fim. Para tanto, se faz necessário entender a fé. Não como crença, mas como força individual de transformação da realidade, como centro criador e ordenador de amor e de luz. A força do universo está oculta dentro de cada um de nós; na alma. Os sábios são aqueles que já a aprenderam a usá-la por observar o próprio universo. Esse poder é seu e meu é de todos; funciona quando movimentado em si para além de si”.

Beberiquei o delicioso chá e fiz um gesto com a mão para que ele não interrompesse a explicação. O homem tornou a sorrir e disse: “O sábio não se preocupa com as glórias das grandes batalhas nem com as riquezas do mundo, como a maioria do povo. O sábio se envolve com as pequenas coisas, aquelas que as pessoas não se importam, pois percebe a verdade escondida por trás de um simples gesto de ternura, assim como está oculta no poder incomensurável de uma virtude silenciosa. Encontra beleza nos detalhes dos lugares comuns, aprende a leitura da vida nos olhos das pessoas e conhece a alegria dos dias pela sensação do caminhar. Por isto, sempre termina maior. As pessoas não percebem o valor e o poder do que está disponível para todos e, só por isto, não se tornam sábias. Buscam o mel da vida por intermédio da fortuna, da fama e do domínio sobre os outros. Acabam enfraquecidas; por fim, perecem por buscar a vida onde somente existe uma existência vazia. O sábio se envolve com a força do amor e com a luz que há em si. Então, se manterá afastado da escuridão, desmanchará os medos, desconstruirá os sofrimentos e não conhecerá a morte. A sua luz iluminará quem está ao redor, o seu amor animará os desfalecidos, as suas palavras servirá de mapa aos perdidos. Nada exigirá em troca. Ele encontrou na existência uma vida em si para além de si”. O homem arqueou os lábios em sorriso e fez uma pergunta retórica: “Qual o tributo cobra o Sol por todas as maravilhas que oferece?”. Olhou-me com doçura e acrescentou: “Ele não exclui ninguém de se beneficiar com a sua luz”. Depois, concluiu: “Aprenda toda a sabedoria e amor oferecidos pelo céu e pela terra. Nada mais lhe faltará”. 

Esvaziou a xícara e disse estar na hora de voltar aos seus estudos. Eu quis saber qual eram os assuntos a que ele se dedicava. O homem deu de ombros e falou como se aquela pergunta já tivesse sido respondida: “Esforço-me para entender os movimentos do céu e da terra. São complexos e sofisticados, mas ao mesmo tempo simples e acessíveis; tanto, que recorro à poesia para ampliar o alcance das palavras quando dissociadas da arte”. Ele já se afastava quando comentei que eu admirava o talento dos poetas para traduzir percepções e sentimentos em versos singelos. O homem rodopiou sobre o próprio eixo como gesto de agradecimento, tornou a sorrir e recitou uma poesia. O burburinho do mercado apenas me permitiu ouvir algumas estrofes: 

Sai do círculo do tempo e entra no círculo do amor… 

Se queres a visão secreta, mergulhe em si. 

Se desejas um abraço, abre teu peito. 

Se anseias por uma face com vida, rompe esse rosto de pedra… 

Mil gerações já usufruíram do que agora tens. 

Prova a doçura em tua boca que antes foi flor, abelha e mel. 

Vamos, aceita esta oferta: conceda uma única existência; 

Em troca, conhecerá a vida”.

Fiquei observando o andar daquele homem enquanto ele saía do mercado, como se a leveza do seu espírito permitisse que os seus pés levitassem a milímetros do chão. Com incrível sutileza, o poeta se desviava para não atrapalhar as pessoas aflitas, que transbordavam em pressa, enquanto, com profunda calma, se movimentava veloz. Fechei os olhos para refletir um pouco e agradecer o momento. Quando os abri, no fundo da barraca que vendia tecidos finos, uma mandala grená e azul se apresentou em peça de seda amarela. Segui a viagem.

Poema Sete

O céu e a terra são eternos

Porque vivem em si para além de si mesmos.

O corpo tem direito a existência;

O não-corpo tem o dom da vida.

Os dez mil seres se alimentam do céu e da terra.

Os dez mil seres perecem às batalhas e ao tempo; 

O céu e a terra não conhecem as batalhas nem sucumbem ao tempo.

O sábio se envolve com a pequenas coisas,

Aquelas que os dez mil seres não se importam.

Por isto, sempre termina maior.

O sábio nunca morre;

Ele encontrou na existência uma vida em si para além de si mesmo.

Discussões — 2 Respostas

  • Fernando 3 de dezembro de 2021 on 08:59

    Gratidão profunda e sem fim Amado irmão das estrelas, sem fim…

  • Terumi 30 de novembro de 2021 on 22:58

    Gratidão 🙏