TAO TE CHING, o romance (Décimo primeiro limiar – O código da vida)

POEMA ONZE – O CÓDIGO DA VIDA

Não era uma penitenciária comum. O prédio, que possuía um único pavimento, servia de quartel. Um cômodo com apenas uma cama servia como cela improvisada. Dois guardas eram mantidos como sentinelas para impedir o prisioneiro de fugir. Embora todos ali soubessem que a vigilância era mera formalidade; não haveria fuga. O calor estava forte, no céu azul havia poucas nuvens; uma agradável brisa entrava pela janela suavizando a temperatura. Um ancião franzino, baixo, com a calva acentuada e um par de óculos de aros redondos, sentado no chão se entretinha fiando o algodão em uma roca rudimentar. Ofereceu-me um sorriso doce e fez um gesto sutil com a cabeça para eu me sentar ao seu lado. Os seus olhos traziam a luz de uma enorme bondade, uma dignidade sem tamanho e uma paz infinita. Apesar da frágil aparência física, uma força incomensurável emanava daquele homem. Ele era o prisioneiro.

Acomodei-me ao seu lado e perguntei como ele podia se manter sereno dentro de uma cela, privado da sua liberdade. O homem arqueou os lábios em leve sorriso e esclareceu: “As prisões do mundo são irrelevantes se comparadas aos grilhões da alma. Há que se ter compaixão daqueles que são prisioneiros em si mesmo, pois são quem enfrentam as piores condições de existência. A liberdade germina na mente, floresce no coração e frutifica em suas atitudes. Quando vivida universo adentro, não há sentinelas, grades, muros, leis ou sentenças que possam impedir o seu exercício”. 

Parou de fiar por breves instantes e disse: “Assim é também com a paz, a dignidade, a felicidade e o amor. O medo é o chicote usado para manter a escravidão contemporânea. Homens que se acreditam livres, andam soltos pelas ruas, mas estão acuados por seus tormentos emocionais e pelos freios impostos em suas ideias. Sacrificam a liberdade e a dignidade no altar da ilusão somente para se manterem vivos. Não compreendem a incoerência nem entendem que essa escolha esgota a vida e a torna vazia. Sem luz, a escuridão e a consequente desorientação dos passos esvaziam de vida as suas existências. Andam, comem, respiram, conversam, mas não estão vivos por não entenderem o real sentido da utilidade como elemento de evolução”. 

Voltou a fiar e complementou: “Aqueles que se vendem às sombras para manterem as pessoas sob os seus domínios, ficam atônitos quando se dão conta que não existe medo em você. Eles não sabem como fazer. Tudo que desejam é que você lute com eles com as armas que matam, sangram e aprisionam o corpo. Não sabem lidar com um sujeito que os enfrenta com as virtudes da alma. Sentem-se perdidos. Apesar da pose sustentada pelo orgulho e pela vaidade, estão desorientados e desconfortáveis. Contudo, em um lugar escondido dentro deles, além das fronteiras do ódio que sentem, manterão uma inconfessável admiração por você”.

Falei que era comum que pessoas com esse nível elevado de consciência corressem o risco de ter a existência ceifada por atos abomináveis de violência. O homem explicou: “Quando acontece, não atinge os efeitos planejados. Não raro, a vida daquele indivíduo sobrevive ao fim do corpo através da obra realizada. A História está repleta de casos assim”. Pedi para ele explicar melhor. O homem disse: “Trinta raios formam a roda, o barro modela a ânfora, uma casa tem janelas e portas. O preço se estabelece pela qualidade da roda, no requinte da porcelana e na sofisticação de uma casa. Porém, o seu valor está na utilidade. Uma roda que nada transporta, uma ânfora sem conteúdo e uma casa onde ninguém habita têm as suas utilidades desperdiçadas. Existem, mas nada são. Não criam nem geram transformação. Na matéria o objeto; na utilidade, o valor. Assim é comigo, contigo e com todos. Temos o corpo e a alma, o tangível e o imaterial. No concreto, a existência; no abstrato, a vida”. 

Sorriu, deu de ombros e questionou: “Do que adianta ter muitas chaves se não há nenhuma porta para abrir? Para que serve um mapa se não sabemos para onde ir?”. Ele não queria uma resposta. Nem era preciso. Apenas lembrou sobre necessidade de mantermos em equilíbrio os supostos dilemas: “A aparência e a essênciasão a forma e o movimento. A sobrevivência e a transcendênciaatendem à necessidade e à evolução. Num, a vitalidade; noutro, a luz. Nunca se anulam quando em harmonia. Portanto, beneficie-se de ambos”.

Aquele homem franzino era capaz de mover o universo com a sua mansidão, sinceridade e pureza. Havia humildade em sua postura, simplicidade no trato e compaixão no olhar. Inexistia o menor resquício de medo, um comportamento típico de quem já não teme a escuridão por ter aprendido a manter acesa a própria luz. Uma chama que se movimentava para iluminar a própria vida e tudo mais ao redor; uma virtude conhecida como fé. Isto concedia a ele uma coragem cuja dimensão estava além do mais bravo dos guerreiros que tivesse sobrevivido a mais dura das batalhas. Mais uma vez, a constatação que a verdadeira realidade é abstrata. Por consequência filosófica, toda a riqueza também. A sua luz oferecia um bem estar imensurável. Uma roda capaz de movimentar o amor que alimenta, uma ânfora com água para saciar a sede dos incompreendidos e uma casa onde era possível abrigar quem estivesse desamparado no frio de uma noite sem estrelas. 

Concentrado no seu trabalho de fiar algodão, o ancião comentou: “O mundo não se torna melhor pelo mero fato de determinada coisa ou alguém existir. A pá nem o artista são um fim em si mesmo. Ao contrário do que muitos acreditam, a obra não é o prédio nem a escultura, porém, o movimento que oferece sentido à vida e traz luz ao mundo”. Franziu as sobrancelhas esbranquiçadas pelo tempo e lembrou: “O corpo irá desaparecer. Na utilidade está o ofício, na evolução reside a arte”.

Com a delicadeza daqueles capazes de fazer todo o bem e nenhum mal, pegou uma moringa, encheu um copo com água e me ofereceu. Apesar do calor, eu não tinha sede. O homem bebeu um gole e disse: “A vida se cria dentro para se realizar fora da gente. Ao mesmo tempo”. Bebeu mais um pouco e prosseguiu: “O mundo é tão e somente o reflexo da sua consciência; da percepção que já possui quanto a si mesmo e da sensibilidade sobre todas as coisas que o envolve”. Esvaziou o copo e explicou: “A existência é tão e somente uma ânfora. É você quem determina o conteúdo. O não entendimento dessa verdade é causa de todos as insatisfações e, como inevitável efeito, dos conflitos também. Então, se busca no mundo aquilo apenas será encontrado dentro de si mesmo”. 

“Confundem ordem pública com a paz, o andar pelas ruas como se fosse a liberdade, orgulho com dignidade, euforia com felicidade e acreditam não haver amor sem ciúme nem sofrimento. Sem perceber, constroem as prisões nas quais vivem”.

Perguntei qual o segredo para se atingir tamanha força e equilíbrio. O bom homem esclareceu: “Todos trazem no âmago do ser o código da vida. Desvendado, possibilita acesso às maravilhas da luz, sem as qual será impossível apreciar as belezas do mundo. Para tanto, se faz primordial manter a mente clara, algo impossível se o coração não estiver tranquilo. Do contrário, a realidade se manterá embaçada e os dias continuarão turvos, confusos, sofridos e conflituosos. O código da vida se revela através da utilidade evolutiva. Nela, a verdadeira diferença entre a ilusão e a realidade”.

O homem me alertou que estava na hora dos prisioneiros trazerem a sua refeição. Era melhor eu partir. Perguntei quem seriam esses prisioneiros. Ele explicou: “Os guardas”. Deu de ombros, piscou um olho e sussurrou com bom humor: “Eles nada sabem sobre as prisões”.

Pela janela do pequeno cômodo, uma mandala em formato de sol me convidava para prosseguir a viagem. 

Poema Onze

Trinta raios formam a roda,

O barro modela a ânfora,

Uma casa tem janelas e portas.

Na matéria, o objeto.

Na utilidade, o valor.

No concreto, a existência.

No abstrato, a vida.

A aparência e a essência.

A existência e a transcendência.

A ilusão e a realidade.

Discussões — 4 Respostas

  • Vidyapriya 17 de janeiro de 2022 on 11:21

    cris [email protected]

    Oi Cristiani Matsuoka, que máximo encontra-la por aqui, visito o Yoskhaz desde 2015, um ano depois da nossa viagem, um abraço gigante

  • Vidyaprya 17 de janeiro de 2022 on 11:17

    Quiça Mandela????

  • Fernando 15 de janeiro de 2022 on 13:36

    gratidão profunda e sem fim…

  • cris [email protected] 9 de janeiro de 2022 on 00:46

    Nossa, esse tem bastante mistérios