Jamais.

O Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, costumava dizer que somos jardineiros da alma na tarefa do infinito burilamento do ser. “O amor precisa da sabedoria para não descambar nas sombras”, insistia em repetir. Alegava, com razão, que se não entendêssemos o amor poderíamos confundi-lo com o ciúme, por exemplo. Dizia, também, que a recíproca se aplica, “sabedoria sem amor brutaliza o ser”. Certa vez, estávamos sentados lado a lado em uma demorada viagem de trem para uma cidade onde ele ministraria uma palestra em renomada universidade. Aproveitei a oportunidade para questionar sobre as dificuldades do aperfeiçoamento pessoal. Brinquei dizendo que poderia haver um manual mais simples e objetivo para nos orientar no Caminho, vez que os textos sagrados são por demais complexos e, não raro, possuem interpretações bastante intrínsecas. O Velho me olhou com curiosidade e disse: “Não faça a ninguém o que você não quer que façam a você”, deu uma pequena pausa para que eu pensasse um pouco no que ele acabara de falar e concluiu: “Todo o burilamento consiste em viver esse ensinamento maior. Quer algo mais simples do que isto”?

Discordei de imediato. Aleguei que não era tão simples assim, pois, por vezes, temos que contrariar pessoas mimadas ou que desejam se arvorar indevidamente em direitos que não lhe cabem. Sempre há um exercício de possibilidades entre luz e sombras. O monge arqueou os lábios em leve sorriso de contentamento e comentou: “É verdade, Yoskhaz”. Era a primeira vez que ele concordava com uma observação minha, o que fez a minha alma pular de alegria. Em seguida o monge prosseguiu: “Todo filho necessita de auxílio para o devido desenvolvimento, porém uma mãe cuja ajuda ultrapassa certos limites corre o risco de criar um fraco. Até na caridade, virtude maior, temos que entender a parte que cabe ao assistido realizar para que a ajuda se torne alavanca para o seu crescimento e não entre em ciclo vicioso. Por outro lado, não podemos descuidar ao usar este argumento como desculpas para virar as costas a quem nos pede a mão.  Este é o equilíbrio aparentemente improvável, no entanto, perfeitamente possível. O Universo, na intenção de que cada um seja o seu próprio mestre, vai exigir a aplicação da sabedoria e amor como eternos parceiros, dentro da capacidade individual, através de cada uma das inúmeras escolhas feitas todos os dias, em infinitas lições, até que as fronteira entre sombras e luz reste bem delineada para que aquelas sejam transmutadas por esta em definitivo. Este é o Caminho”.

Perguntei se ele percebia as dificuldades a que eu me referia. O Velho concordou com o balanço da cabeça e explicou: “As Leis que regem a vida através do Código Não-Escrito são inexoráveis. No entanto, não existem para ser obedecidas por medo, onde se fundariam nas sombras, mas para serem entendidas e respeitadas por alicerçarem os seus pilares na fonte original da sabedoria e do amor, iluminando o ser para que possa, pouco a pouco, encontrar e abrigar a paz em sua morada definitiva, o coração”. Arqueou as sobrancelhas, como fazia quando aumentaria o tom da seriedade e disse: “Todos nós buscamos a felicidade. Perceber que ela não estará pronta a sua espera em nenhum lugar, salvo que deverá ser construída por você, dentro de você, para posterior compartilhamento, faz toda a diferença. E mais, saber que todas as ferramentas necessárias estão disponibilizadas para tamanho empreendimento, é entender o Caminho. Não raro negociamos com as sombras na ilusão de que ela nos fará feliz. Assim, damos vazão ao ciúme, ao egoísmo, a ganância. Não é assim que nascem os vícios? Até o delinquente envereda palas raias do crime na esperança que o fruto do delito lhe traga gotas de felicidade. Mas como uma árvore ruim pode gerar um bom fruto? O jardineiro, que cada qual é de si mesmo, cuida da árvore da alma para que seus frutos sejam sempre doces e alimentem a humanidade em suas ceias espirituais”.

 

Quis saber se essas lições não poderiam ser simplificadas, pois eu acreditava que, no fundo ninguém deseja errar ou errava deliberadamente. O monge ficou em silêncio por algum tempo e falou sério: “Existe o Manual do Andarilho”, deu uma pequena pausa e falou em tom gaiato, evidenciando o bom humor e a evidente brincadeira: “Ele é destinado às crianças”. Rimos. Claro que tal livro não existia. Todavia, eu o provoquei e pedi para que ele facilitasse as coisas para mim. O Velho, sempre generoso, foi em frente: “Preste atenção a Regra do Jamais. São como placas de sinalização para proteger o motorista na estrada”:

“Jamais desesperar ou lamentar. Problemas, conflitos ou tragédias devem sempre ser vistos como valiosas lições, necessárias para alavancar o avanço de todos os envolvidos. Um olhar mais apurado e sincero constatará que houve, no passado, uma recusa ao aprendizado oferecido de maneira mais doce. O Universo não quer o sofrimento, mas a evolução. No entanto, alunos mais displicentes necessitam de professores mais rigorosos para ajudá-los a subir de turma. O que a lagarta pensa ser a escuridão, a borboleta entendeu como transformação”.

“Jamais reclamar dos outros. Todos, sem exceção, somos aprendizes. Por isto ainda somos andarilhos do Caminho. Cada qual com as suas virtudes já adquiridas e as suas dificuldades a serem vencidas. Todos, sem exceção. O planeta, como uma perfeita sala de aula, nos coloca juntos para que possamos ensinar a uns e aprender com outros, em bela interdependência entre os seres. A tolerância com as dificuldades alheias demonstra a humildade em relação às suas próprias, em ato repleto de amor e sabedoria. A Lei das Infinitas Possibilidades possibilitará a todos, inclusive a você, sempre uma nova chance, dentro das condições indispensáveis para o seu amadurecimento. Lembre-se: sempre haverá quem saiba mais e quem conheça menos do que você. Isto ilumina o perdão, trazendo alegria na sua escolha e entendimento”. Deu uma breve pausa e concluiu: “Quem reclama dos outros ainda não sabe quem realmente é”.

“Jamais se permitir o mau humor e a tristeza. Todo espírito iluminado é alegre. Não há lugar para os ranzinzas nas estações estrada acima. Aceitar as dificuldades como valiosas lições, entender os problemas como desafios à evolução, é agir como um estudante repleto em gratidão à universidade por permitir que as suas habilidades se desenvolvam e o melhor de si floresça. O sujeito triste e mau humorado está fora de sintonia com as melhores vibrações que movem o Universo e acaba por perder o mel da vida, pois esta não se modificará apenas para se adequar aos absurdos desejos do ego de ninguém. A vida seguirá sempre e você terá a opção de entender para acompanhar ou se iludir como vítima das circunstâncias. A escolha é sua”.

“Jamais aceitar um privilégio. Todo privilégio nasce do conceito ancestral de que há pessoas melhores do que outras. A ideia de igualdade traz consigo o verdadeiro sentimento de justiça, poderosa escada para a paz. Enquanto existir privilégios haverá diferenças. Onde há diferença ocorrerá discórdia e conflito. Todas as mazelas sociais, de diferentes tamanhos, têm em sua raiz o germe do privilégio a contaminar a árvore e seus frutos”. Ficou um tempo em silêncio a olhar a paisagem pela janela do trem e falou: “Todo andarilho é um nagual”. Estranhei o termo, eu nunca o tinha ouvido. O monge explicou: “Na mitologia tolteca o nagual é o ‘guerreiro impecável’. É a pessoa que não mede esforços ou inventa desculpas para adiar a lapidação do ser. Ele está sempre disposto a oferecer o seu melhor. O nagual sabe que o mais sábio dos discursos será sempre o exemplo da sua atitude, aquela movimentada pelos nobres sentimentos expressados em forma de cuidado e respeito pelo outro. Nisto reside a sua força inquebrantável e o brilho que iluminará os próprios passos e o de toda a gente”.

Percebi que ele tinha chegado ao final. Como não poderia ser diferente, torci o nariz e reclamei. Aleguei que o referido ‘manual do jamais’ era muito limitador, pois trazia muitas proibições. O Velho, antes de falar, me olhou com uma mistura de curiosidade e bondade, como quem percebe uma criança que insiste em colocar o dedo na tomada apesar das orientações: “Você é livre para fazer absolutamente tudo que quiser. Luz e sombras estarão sempre à sua disposição. Esta é a infinita generosidade do Universo. No entanto, tenha a maturidade em aceitar as justas consequências de suas escolhas. Esta é a enorme sabedoria do Caminho. A Lei da Ação e Reação é implacável e não poderia ser diferente. Não pela função de punir, porém com a finalidade de ensinar. Percebe todo o amor e sabedoria contido no Código Não Escrito”? Respirou fundo e tentou explicar a função do ‘manual’: “A necessidade vital de seguir em frente nem sempre significa que tenhamos em mente, a todo instante, o exato destino de onde desejamos chegar. Entender o que não serve mais e o que nos prejudica, é um ponto de partida para orientar os passos iniciais até descobrirmos para aonde desejamos ir”.

Ficamos um longo tempo sem dizer palavra. O velho quebrou o silêncio: “Deixar de alimentar as sombras é bom, mas não basta. No entanto, é fundamental para começar o alinhamento com a Luz”.

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